Precisa-se: empregada de mesa (M/F)

ng3349905

Na distinta taberna aqui ao lado assa o frango no espeto, o prego no prato e o presunto no pão. O expresso, cimbalino para os de outrora, sai ao preço da uva mijona. Tabernáculo do vinho de tostão, ainda o sol não raia e já transborda bagaceira no balcão. Magistral recato onde a ASAE não paira, a comida é boa, verdadeira, genuína e autêntica, como se adjectivos houvessem para descrever o empenho de dois irmãos originários das beiras que vieram para o Porto em busca de melhor futuro. Enquanto outros ainda dormem e metabolizam o que ficou por fermentar, já eles arregaçam as mangas e dão o litro, sempre bem servido. Seis e meia da manhã já a luz está ligada, apenas para ser desligada 16 horas depois, e ainda conseguem ter mulher e filhos que vão vendo por trás do balcão. Luz que sai a 1400 euros por mês, confessaram-se, o que acresce à renda, aos salários das cozinheiras e dos empregados de mesa, aos custos da matéria-prima, aos diversos e variados impostos, ao infindável investimento numa cozinha que cumpra toda e qualquer norma e regulação cozinhada em estrugido na cabeça de um burocrata, à contribuição para a sociedade Ponto Verde porque o cartão da embalagem de leite paga-se a triplicar, às taxas de derrama e a todos os artifícios que vagarosamente espoliam o cidadão comum a frio. Ainda assim, volvidos trinta anos de monumental esforço, juntaram o suficiente para construir uma casita no lugar que os viu nascer. Esforço que lhes permitiu perceber que até no recato de sua casa o Estado se mete — foram obrigados a cumprir dura legislação no que concerne ao isolamento, milhares de Euros que são muitos pratos para quem vende diárias a 3.90€, devidamente guarnecidas.

Não obstante este esforço homérico em manter a casa aberta, pese embora todo o peso do Estado em cima deles, estão à procura de empregada de mesa. Enquanto uns falam, estes dão mesmo emprego. Pede-se alguém trabalhador e esforçado, que tire aquele fino, o café perfeito. Alguém disposto a tolerar o cheiro a fritos e grelhados. O salário não é muito, é o que pode ser pago. Preocupado com o flagelo do desemprego, tento sempre referenciar alguém que me pareça compatível com o que está disponível. Enfim, voluntarismos que dispensam reconhecimento, tento ajudar quando posso. Soube que Maria João Rodrigues estava à procura de emprego ou pelo menos de um tacho, pelo que a parelha é perfeita: tachos ali não faltam. O currículo não precisa de ser dactilografado nem vir sob a forma de pranto em prosa servida no Público. Basta vir cá falar com o Sr. Alberto e mostrar como se fazem umas boas pataniscas enquanto bota o olho na batata que ainda frita. Arregace é as mangas que a clientela é muita e fiel. Também não precisa de encarnar Roosevelt e vir com New Deals, com macronegociações, com contributos, sempre escritos ou falados, para qualquer cena ou estratégia de crescimento europeu, governo ou governança lá de Bruxelas. Aqui serve-se feito, o que requer mais do que faladura. E aqui basta falar da bola, assunto tendencialmente menos perigoso que a conversa política de político.

Penso que tem as qualificações perfeitas para o lugar. Lutadora indelével pela igualdade, estou convicto que não se sentirá diminuída por tão real e prático emprego. Não paga muito, mas paga a tempo e horas. É salário português, não é salário europeu, mas imagino que isso não preocupe uma genuína socialista que não vê classes ou castas. Alerto-a, porém, para o seguinte: aqui não basta conhecer este ou aquele, não basta prometer isto ou aquilo. Não basta ter legitimidade democrática nem de votos secretos. Não basta ir piscando o olho aos colegas de bancada. Sabe, é que isto não é cargo político. Isto é o que vem antes: é cargo dos que trabalham para sustentar os outros que se empoleiraram no pardieiro onde todos são iguais, mas uns são mais iguais do que outros. Tirando isso, não tenho dúvidas que será uma boa escolha, agora que o outro lugar lhe escapou.

Leituras adicionais: A triste figura de Maria João Rodrigues que queria ser comissária; Maria João Rodrigues: a mulher que queria ser comissária; Comissão europeu e periferia política.