The end of laissez-faire

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«Fascism entirely agrees with Mr. Maynard Keynes, despite the latter’s prominent position as a Liberal. In fact, Mr. Keynes’ excellent little book, The End of Laissez-Faire(l926) might, so far as it goes, serve as a useful introduction to fascist economics. There is scarcely anything to object to in it and there is much to applaud.»

— Benito Mussolini (1)

Não que isto seja relevante. Como bem advertiu o dr Mário Centeno, «transpor artigos científicos para a legislação seria um desastre». Bom é renegar todo o historial de investigação e debate, e legislar de dedo no ar.

Solução keynesiana para a crise chinesa

Dentro da lógica keynesiana, uma solução para a crise chinesa seria estimular a procura agregada (armadilha para os keynesianos: não são todas as crises fruto de uma contração da procura agregada?) através do investimento público. Em quê? Bom, em mais umas quantas cidades edificadas inorganicamente. Já têm Paris, falta-lhes Londres ou São Francisco. Seria o equivalente moderno ao atirar garrafas com notas num buraco e convidar as pessoas a destapá-los. Made in China.

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Estratégia do PS

forca-ps-pan-web— Querida, os salários são muito baixos em Portugal. Vamos pagar à empregada de limpeza €50/hora!
— Bom, a empregada vai ficar contente. Mas como raio é que isso vai ajudar toda a gente?
— Não leste Keynes, querida. Quando a empregada de limpeza recebe €50/hora, outros irão exigir mais, assim como todos os que trabalham no Continente e no Pingo Doce. Os trabalhadores vão pressionar as empresas e os salários irão subir. Daqui a uns tempos toda a gente vai receber mais 50€ por hora!
— Hmm.. essa ideia não me parece lá muito brilhante. Mas, já agora, onde é que nós vamos arranjar os €50/hora para pagar à empregada?
— Essa é a parte incrível! Quando todos os salários subirem €50/hora, nós também iremos ganhar mais €50/hora, e basta passá-los à empregada.

***

Embora a lógica aqui reflita o efeito de um aumento da procura agregada através do círculo virtuoso keynesiano da despesa que gera rendimento que gera despesa, o príncipio é transponível para o cenário macroeconómico do PS, onde existe, julgam, um efeito multiplicador da despesa pública que acelera o investimento que faz crescer o PIB e disparar a receita fiscal, o défice baixar e a dívida colapsar. Agora percebe-se porquê que um dos outdoors do PS são jovens a rezar. É preciso ser muito crente.

Então e o multiplicador?

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Este edifício custou mil milhões de Euros, mas isso pouco interessa. Com o multiplicador keynesiano este investimento gerará coisas incríveis para gerações actuais e vindouras.

Alguns keynesianos, entre os quais João Galamba, estão indignadíssimos com o custo do novo edifício do BCE, que se estima em mil milhões de Euros. O que custa a compreender, tendo em conta que estes seguem e acreditam numa escola económica que advoga abrir e fechar buracos, e que refere que, sempre que não haja pleno emprego, o multiplicador da despesa pública é superior a 1, isto é, por cada 1€ gasto, existe um incremento do PIB superior a 1€. Aliás, o cúmulo da apoteose keynesiana seria se essa despesa tivesse sido paga com dinheiro acabado de imprimir, fluindo das impressoras do BCE para o bolso do construtor, assim monetizando-a.

Logo, o que estes keynesianos deveriam estar a reclaramar era por um edifício umas 100 a 200 vezes mais caro, e cuja construção aliás nunca terminasse, mantendo assim a despesa a fluir eternamente — que é o rendimento dos outros, recordam-se? —, num círculo económico virtuoso. Uma espécie de Sagrada Família, mas em Frankfurt. Ou, numa visão 2.0 do abrir e fechar buracos, estando permanente a construir e logo a seguir a destruir sedes do BCE, actividade ainda mais potenciadora do PIB, pois requer diferentes ofícios. Enfim, tarefa árdua esta de compreender os Harry Potters da economia.

Sociologia da dívida pública

"A dívida gerada pelo nosso governo foi pequenina, mais ou menos assim", ilustra Augusto Santos Silva.
“A dívida gerada pelo nosso governo foi pequenina, mais ou menos assim”, ilustra Augusto Santos Silva.

Maria Luís Albuquerque lançou o repto: uma discussão ampla e generalizada do problema da dívida pública, que abranja toda a sociedade civil. Abrangerá certamente os seus principais obreiros, gente que de uma só assentada a duplicou. Fosse o tema como aumentá-la e dificilmente encontraríamos pessoas mais bem preparadas.

Nestes contornos, Augusto Santos Silva respondeu ao desafio. Ao pronto desejo de ser útil, utilidade que o país de todo dispensa, junta-se o pleno agradável: oportunidade de ouro para um revisionismo expiatório, que atira as culpas para os bodes do costume: a crise financeira de 2007, a crise de dívida soberana de 2010, e, claro, a anestesiada Europa, incapaz de engendrar mais do mesmo. Isto é, mais dívida e investimento público, na convicção ébria que beber mais cura a ressaca.

A narrativa extravasa em muito a mera partilha de números: a estes, o ex-ministro anexou, com repente sociológico, toda uma ficção. Em primeiro lugar, a comparação à grande depressão de 1929 é displicente: esta, ao contrário da outra, foi uma crise de solvência e não de liquidez. Nenhum banco central, como o Fed, BoE ou BCE, responderam com uma contracção da massa monetária, como se sucedeu em 29. A resposta foi, aliás, a oposta, como bem demonstram as balance sheets dos bancos centrais: uma expansão monetária sem precedentes.

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Mais a mais, Portugal não foi apenas uma vítima incauta, apanhada desprevenida nas travessuras dos especuladores. As políticas contra-cíclicas de expansionismo fiscal foram deliberadas, resultado de uma péssima interpretação da crise: confundido causa com consequência e impelidos a mostrar trabalho, receitam o receituário keynesiano aquando de uma contracção da procura agregada. Contudo, a contracção da procura não foi a causa desta crise, mas a consequência: perante uma enorme incerteza, agentes económicos altamente alavancados e um Estado em falência técnica, não restava senão a inevitável consolidação das contas. Embora tais políticas tenham sido uma sugestão da União Europeia, temporariamente suspendendo a aplicação do Pacto de Estabilidade e Crescimento, não é menos verdade que o grau e intensidade de aplicação dessas políticas era discricionário, ficando a cargo de cada país. Ora, Portugal, a par com a Grécia e a Irlanda (este último com uma verdadeira desculpa, a recapitalização da banca em resultado de imparidades causadas pela bolha imobiliária), foi o campeão dos défices. Compreende-se o fenómeno, especialmente quando temos a teoria da escolha pública bem presente: o dispêndio público tende a gerar votos, especialmente daqueles que beneficiam directamente com o regabofe, ao mesmo tempo que satisfaz a sede insaciável dos arregimentados que viviam das grandes obras. Alguns deles, agora falidos.

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Mas o que causa mais espanto é que Augusto Santos Silva ressalve, exactamente na mesma crónica, que os critérios de contabilização da dívida aumentaram, abarcando agora todo o perímetro do Sector Empresarial do Estado, e que foi a austeridade que gerou o verdadeiro aumento de dívida pública, esquecendo-se de somar 1 + 1. Mais grave ainda, refere apenas os últimos anos de governação socialista, criteriosamente escolhidos, ocultando toda a governação. Ora, de 2005 a 2011, recorrendo exactamente à mesma base de dados (Pordata), a dívida pública aumentou de 66% para 102.2%, contrariando, portanto, a sugestão que o grande responsável pelo aumento da dívida tenha sido a austeridade. Não apenas isto, e como Santos Silva bem refere, a taxa de juro tem um efeito explosivo na dívida. E teve-o. Os contratos público-privados para a construção de auto-estradas, a par com o restante desvario, foram então contabilizadas. E, claro, talvez o mais importante: os 78 mil milhões de Euros assinados por V.

Posto isto, sobra pouco, excepto a constatação feita por Augusto Santos Silva de que a dívida foi o resultado do acumular histórico de défices orçamentais. Dito de outra forma: em 40 anos, a única coisa que os governantes souberam fazer foi acumular défices, atirando a factura para o futuro. O outro ponto relevante é que, de facto, será muito difícil ajustar a dívida para os 60% do PIB em apenas duas décadas. Daqui retiramos a conclusão lógica que, infelizmente, Augusto Santos Silva não almejou: é preciso resolver os défices crónicos, reformando o Estado e cortando na despesa estrutural, e um dos pontos de negociação com a União Europeia poderá e deverá ser rever o prazo para atingir os 60%, prolongando-o, em alternativa a mais do mesmo: gritar e choramingar para que os outros nos paguem as contas.

O Keynesianismo numa breve historieta

Vamos imaginar o Mainardo. Keynesiano convicto, o Mainardo acabou de comprar um carro com computador de bordo com os seus parcos recursos. Logo na 1ª viagem com o novo carro, ao passar pelas funções do “computador de bordo”, reparou que quanto mais devagar conduzir, para mais quilómetros tem combustível. Excitado pela descoberta, o Mainardo deixa de puxar pelo motor e consegue aumentar o alcance do combustível qua actualmente tem no carro. Vai reduzindo a velocidade, vai aumentando o alcance (do combustível cada vez em menor quantidade).
Como não é uma pessoa de pensar muito para além do curtíssimo prazo, qual é a conclusão do Mainardo?

Se for em 1ª, talvez não tenha de reabastecer até enviar o carro para a sucata!!!
Mainardo, 2014

Bordo