O Keynesianismo numa breve historieta

Vamos imaginar o Mainardo. Keynesiano convicto, o Mainardo acabou de comprar um carro com computador de bordo com os seus parcos recursos. Logo na 1ª viagem com o novo carro, ao passar pelas funções do “computador de bordo”, reparou que quanto mais devagar conduzir, para mais quilómetros tem combustível. Excitado pela descoberta, o Mainardo deixa de puxar pelo motor e consegue aumentar o alcance do combustível qua actualmente tem no carro. Vai reduzindo a velocidade, vai aumentando o alcance (do combustível cada vez em menor quantidade).
Como não é uma pessoa de pensar muito para além do curtíssimo prazo, qual é a conclusão do Mainardo?

Se for em 1ª, talvez não tenha de reabastecer até enviar o carro para a sucata!!!
Mainardo, 2014

Bordo

O martelo de João Galamba

wrong-tool-by-jerome-aw

No pós-traumático do Manifesto dos 70 + 74, as tropas alinham-se, os esquadrões reorganizam-se e as armas recarregam-se. Triunfou a inconsequência, claro está, mas as baixas foram perenes. Por entre a ebriedade recolhem-se ofendidos aqueles que viram a sua imagem ser atacada, quando o que se pretendia era debater o conteúdo. Ofendidos. Porque estar do outro lado da trincheira, de onde sai a calúnia, a injúria e os ataques pessoais, é sempre mais cómodo. Invertidos os quadrantes, as regras do jogo parecem denunciar displicência, acusam eles. Ou, em alternativa, o queixume pelo lamaçal da barricada onde se encontram. Barricada que, ano após ano de política portuguesa, ajudaram a sedimentar.

Seja como for, o debate tem substância suficiente para ser afrontosamente — e sobejamente — discutido. João Miguel Tavares manifesta na sua coluna do Público as incongruências de João Galamba quanto à sua mudança de posição, enquanto que este último manifesta o seu incómodo por ter sido incomodado. JMT denuncia algo que é evidente: alguns dos economistas que agora apelam à reestruturação da dívida pública são os mesmos que, em 2009, se manifestavam por mais investimento público. Engana-se, porém, no diagnóstico. João Galamba não foi incongruente. Pelo contrário. A coerência numa incorrecta interpretação dos acontecimentos económicos mantém-se. Em 2009 e em 2014.

Talvez seja oportuno recuperar a lei do instrumento, tornada popular na área da psicologia por Kaplan e Maslow. Diz a lei do instrumento, dito popularizado como o martelo de Maslow, que quando temos um martelo tudo nos parece um prego. Ora, João Galamba encontrou o seu martelo, Keynes. E de nada serve um martelo se não for usado.

Em 2009, diagnosticando uma contracção da procura agregada como a causa da maleita, aplica o seu método: uma martelada de investimento público. Confundiu, ou preferiu confundir, a causa com o efeito. A contração da procura agregada não foi a causa desta crise. Foi a consequência. Consequência da insolvência técnica do Estado, de uma crise financeira que expôs as debilidades do Estado português e criou fortes constrangimentos financeiros. Destes, resultou a necessidade de um consolidação e, por conseguinte, uma redução do rendimento e contracção da procura. Recapitulando: a contração da procura agregada não foi a causa, foi a consequência. Ao querer usar o martelo, João Galamba quer curar a embriaguez com mais álcool, com o “hair of the dog”.

E dado que o keynesianismo norteia o seu racional, impõe-se perguntar a João Galamba onde guardou o martelo entre 2005 e 2008, período de crescimento económico positivo. Dado que Keynes recomendava a persecução de políticas fiscais contra-cíclicas como forma de atenuar os ciclos, onde esteve o martelo dos superávites orçamentais? Onde estavam os manifestos pela redução da despesa, aumento da receita fiscal e saldos orçamentais? Uma tímida consolidação fiscal como a que foi feita — reconhecimento seja feito a Teixeira dos Santos pela iniciativa — não basta.

Mais a mais, onde é que se encontra na teoria geral de Keynes ou, com especial relevância, nos “Treasury Memoranda”, o postulado de que numa crise de dívida soberana se devem aumentar os gastos públicos? Até porque, recordemos, embora Keynes diagnosticasse ineficiências no mercado que geravam um output gap e, consequentemente, impediam a economia de atingir o pleno emprego, Keynes era bastante reticente em matéria de sustentabilidade de dívida pública.  Ele rejeitava, aliás, que défices orçamentais deliberados fossem o mecanismo para atingir uma política de pleno emprego (cf. Kregel (1985)) ou que a dívida fosse usada para pagar gastos correntes (“dead-weight debt”).

De martelo em riste, os messias do keynesianismo procuram pregos não para resolver a crise mas para implantarem o seu desígnio: a expansão do Estado. O mesmo Estado que nos trouxe até aqui. Ignoram, contudo, que os pregos que eles julgam dever pregar estejam no caixão do país.

Nota: numa enorme coincidência, João Galamba vê publicado há momentos o seu artigo do Diário Económico, “Sucesso a martelo”. O título deste artigo torna-se ainda mais certeiro.

2ª Nota: a este respeito, acrescenta o Miguel Noronha que vale a pena reler “O FMI e a austeridade” do Ricardo Reis e a “Poupança no contexto keynesiano” do Tiago Tavares do Mercado de Limões.

Mises on Keynes

Leitura recomendada: Stones into Bread: The Keynesian Miracle

Inclui passagens como:

Although Keynes looked upon “the strange, unduly neglected prophet Silvio Gesell” as a forerunner, his own teachings differ considerably from those of Gesell. What Keynes borrowed from Gesell as well as from the host of other pro-inflation propagandists was not the content of their doctrine, but their practical conclusions and the tactics they applied to undermine their opponents’ prestige. These stratagems are:

  1. All adversaries, that is, all those who do not consider credit expansion as the panacea, are lumped together and called orthodox. It is implied that there are no differences between them.
  2. It is assumed that the evolution of economic science culminated in Alfred Marshall and ended with him. The findings of modern subjective economics are disregarded.
  3. All that economists from David Hume on down to our time have done to clarify the results of changes in the quantity of money and money-substitutes is simply ignored. Keynes never embarked upon the hopeless task of refuting these teachings by ratiocination.

In all these respects the contributors to the symposium adopt their master’s technique. Their critique aims at a body of doctrine created by their own illusions, which has no resemblance to the theories expounded by serious economists. They pass over in silence all that economists have said about the inevitable outcome of credit expansion. It seems as if they have never heard anything about the monetary theory of the trade cycle.

For a correct appraisal of the success which Keynes’ General Theory found in academic circles, one must consider the conditions prevailing in university economics during the period between the two world wars.

Among the men who occupied chairs of economics in the last few decades, there have been only a few genuine economists, i.e., men fully conversant with the theories developed by modern subjective economics. The ideas of the old classical economists, as well as those of the modern economists, were caricatured in the textbooks and in the classrooms; they were called such names as old-fashioned, orthodox, reactionary, bourgeois or Wall Street economics. The teachers prided themselves on having refuted for all time the abstract doctrines of Manchesterism and laissez-faire.

The antagonism between the two schools of thought had its practical focus in the treatment of the labor union problem. Those economists disparaged as orthodox taught that a permanent rise in wage rates for all people eager to earn wages is possible only to the extent that the per capita quota of capital invested and the productivity of labor increases. If—whether by government decree or by labor union pressure—minimum wage rates are fixed at a higher level than that at which the unhampered market would have fixed them, unemployment results as a permanent mass phenomenon.

Almost all professors of the fashionable universities sharply attacked this theory. As these self-styled “unorthodox” doctrinaires interpreted the economic history of the last two hundred years, the unprecedented rise in real wage rates and standards of living was caused by labor unionism and government pro-labor legislation. Labor unionism was, in their opinion, highly beneficial to the true interests of all wage-earners and of the whole nation. Only dishonest apologists of the manifestly unfair interests of callous exploiters could find fault with the violent acts of the unions, they maintained. The foremost concern of popular government, they said, should be to encourage the unions as much as possible and to give them all the assistance they needed to combat the intrigues of the employers and to fix wage rates higher and higher.

But as soon as the governments and legislatures had vested the unions with all the powers they needed to enforce their minimum wage rates, the consequences appeared which the “orthodox” economists had predicted; unemployment of a considerable part of the potential labor force was prolonged year after year.

The “unorthodox” doctrinaires were perplexed. The only argument they had advanced against the “orthodox” theory was the appeal to their own fallacious interpretation of experience. But now events developed precisely as the “abstract school” had predicted. There was confusion among the “unorthodox.”

It was at this moment that Keynes published his General Theory. What a comfort for the embarrassed “progressives”! Here, at last, they had something to oppose to the “orthodox” view. The cause of unemployment was not the inappropriate labor policies, but the shortcomings of the monetary and credit system. No need to worry any longer about the insufficiency of savings and capital accumulation and about deficits in the public household. On the contrary. The only method to do away with unemployment was to increase “effective demand” through public spending financed by credit expansion and inflation.

The policies which the General Theory recommended were precisely those which the “monetary cranks” had advanced long before and which most governments had espoused in the depression of 1929 and the following years. Some people believe that Keynes’ earlier writings played an important part in the process which converted the world’s most powerful governments to the doctrines of reckless spending, credit expansion and inflation. We may leave this minor issue undecided. At any rate it cannot be denied that the governments and peoples did not wait for the General Theory to embark upon these “Keynesian”—or more correctly, Gesellian, policies.

Em “Planning for Freedom“, p. 50

Leituras Recomendadas (Economia)

O Instituto Mises continua a publicar clássicos liberais e trouxe agora a público mais um título Indispensável para refutar o disparate Keynesiano: Theory of Idle Resources, escrito em 1939 por William H. Hutt.

W.H. Hutt’s Theory of Idle Resources was first published in 1939, surely one of the earliest responses to Keynes’s General Theory.

Hutt goes for the heart of Keynes’s prescription for recovery, which was to get idle resources moving, whether that is money, capital, or labor. If something isn’t being employed right now, it is being wasted.

Hutt responded at length that there is nothing uneconomic or necessarily inefficient about an idle resource. It is the decision of the owner to hold back when faced with a long-term plan, a judgment call concerning risk, a high reservation wage, or a demand for larger cash balances.

In addition, there might be legal restrictions that are causing workers to withhold labor and capitalists to curb production. It makes for fascinating reading. Both the Keynesian proposition and the response are still very much in play today.

Hunter Lewis writes the new introduction.

The economic environment is plagued with enormous unemployment – the ultimate idle resource. What is the problem? Is it a macroeconomic problem of aggregate demand? Or is it is a simple labor pricing problem alongside legal restrictions? Hutt takes the latter position, and utterly crushes the Keynesian view.

Keynes was refuted in 1939! The re-discovery of this fact is bracing indeed.

Keynes diz: os recursos são infinitos, estimulem-se as necessidades. Hutt contrapõe: os recursos são finitos, controlem-se as necessidades e usem-se bem os recursos existentes.

Leiam e fortaleçam os vossos argumentários com um mestre intemporal.