Do Comunismo, do Nazismo e das inspirações de António Costa

Enquanto que é muito claro que a frase

“De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”

foi popularizada por Karl Marx (curiosamente no Kritik des Gothaer Programms em que criticava o pragmatismo do recém-formado partido trabalhista alemão que mais tarde se transformou no Partido Social-Democrata e sempre combateu e foi combatido pelo Partido Comunista Alemão até à proibição deste nos anos 50 por ser totalitarista) a verdade é que a frase

“Quem não deve não teme”

não se consegue atribuir inequivocamente a Joseph Goebbels apesar de muita gente (na Internet) o fazer (fica para trabalho de casa pensar porque seria tão plausível).

As boas notícias para António Costa, que proferiu as duas frases num espaço de 48 horas, é que enquanto pesquisei isto acumulei uma série de frases igualmente sinistras de cada um destes dois, ideologicamente tão próximos, pensadores (Goebbels foi um dos grandes artífices da aliança Nazi-Comunista em Berlim que culminou com uma bem-sucedida greve de transportes em 1932 apoiada pelos sindicatos vermelhos e pelos castanhos num dos momentos-chave da desestabilização da República de Weimar). Se precisar de mais alguma inspiração é mandar pedir.

No maravilhoso país da dra Raquel Varela

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Os jornais desta 4ª feira foram comentados à luz da teoria marxista.

Adenda: se chegou a este artigo na convicção que isto é uma missiva anti-médicos, desengane-se. Não é. Tenha isso em consideração ao ler o resto do artigo.

A dra Raquel Varela serve um propósito curioso. Demonstra como é possível, adornando a pérolas, sombra e rímel, pegar em ideias disparatadas e refiná-las, conferindo-lhes uma patine que maravilha os incautos facilmente enlevados com pesporrência alheia. Por outras palavras: a dra Raquel Varela recicla o disparate do século XIX e serve, em coffret coquete, doses voluntariosas para consumo diário do pacóvio, que ainda agradece.

A última — até à próxima — versa sobre os honorários de António Mexia (não se prendam com o Mexia; qualquer outra pessoa que ganhe muito, como o Ronaldo, também serviria, mas não seria tão eficaz nas hordas populistas), um ultraje quando comparados com os parcos 2.200€/mês, segundo a aritmética marxista da dra Varela, que aufere um cirurgião com 30 anos de serviço em exclusividade no sector público. Ou será? Um cirurgião com 30 anos de carreira é um assistente graduado sénior (chefe de serviço), que recebe, no regime de 40h, 5.063,38€/mês de salário base, um pouco acima dos tais 2.200€. Se a isto acrescentarmos as cirurgias que faz fora do horário laboral o valor tende a duplicar, em alguns casos quadriplicar. Não é nada invulgar que um neurocirurgião especializado ganhe 20 mil Euros/mês.

Descontando os ligeiríssimos erros de arredondamento que enfermam a prosa da dra Varela, revisionista no horário laboral, especialista em segurança social marxista no prime time, há uma outra preciosidade que não pode passar incólume: a ideia de que é impossível alguém «produzir riqueza no valor de 1.9 milhões» (os rendimentos anuais de António Mexia), pelo que isto só pode ser rendimento roubado a outros. Este despropósito é a materialização da teoria do valor do trabalho de Marx, que é tão estúpida quanto simples.

Antes de ir atormentar os restantes inquilinos para o cemitério de Highgate, Marx, inspirado numa imprecisão de David Ricardo e Adam Smith, chega a uma fórmula para calcular o valor de um bem: W = k + L, em que W é o valor do bem, k é a quantidade constante de capital necessária para produzir aquele bem e L é a quantidade do factor trabalho. Ora, segundo Marx, o objectivo do capitalista é reduzir o valor que paga ao factor trabalho L, assim maximizando o seu lucro, que será a diferença entre W e o preço de venda P. Mas a teoria tem outros corolários: admitamos que o bem é vendido pelo preço P, bem acima do seu valor W. Como k é constante, Marx deduz que a mais-valia é retirada ao factor trabalho. Igualmente brilhante é a tarte de lama — requer capital e trabalho, cuja soma é superior a zero. Segundo esta teoria, pilar intelectual da dra Varela, a tarte de lama teria um valor intrínseco superior a zero.

Imaginemos agora um qualquer CEO, que não tem necessariamente de ser António Mexia, que toma um conjunto de investimentos estratégicos que rendem à empresa cerca de 200 milhões anuais. Admitamos que esse CEO existe, ou pelo menos admitamos que os accionistas daquela empresa acreditam que ele existe — afinal, pagam-lhe o salário. O CEO podia optar pela estratégia A, que conduziria a um prejuízo de 50 milhões, ou pela estratégia B, que renderia 200. Um CEO com a clarividência de optar pela estratégia B vale à empresa um benefício líquido de 250 milhões. Se receber 1.9 milhões ao ano custará à empresa 0.76% do que lhe permitiu ganhar. Uma pechincha.

No quadro mental da dra Varela isto não pode ter acontecido. Não colando a realidade à teoria, altere-se a realidade. A revolução de Abril deveria ter sido feita por populares e pelo proletariado, tal como Marx havia prescrito no seu socialismo científico? Não há problema. Escreva-se um livro onde se revê a realidade, vendendo aquilo que foi uma revolução gerada pelos interesses corporativos das forças armadas como uma revolução do povo. António Mexia? Roubou trabalhadores, por certo. Assim encaixa na teoria.

Curioso também é o crescente sucesso que a dra Varela tem vindo a ter nos últimos tempos. O valor é subjectivo — há mesmo quem encontre valor em tartes da lama.