Páginas de Austeridade Que Se Viram (II) – Investimento Público Em Mínimos Da Década, Do Século e Do Milénio

Eu ainda sou do tempo em que a esquerda em Portugal defendia as virtudes do investimento público e do seu efeito multiplicador na economia; e que proclamava a urgência em aumentar o investimento publico em Portugal.

Já sem a troika por cá e sem um programa de ajustamento para cumprir, a geringonça leva o investimento público ao mínimo da década, do século e do milénio.

A imagem acima foi retirada daqui.

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Sobre as 59 novas torres de Babel

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Em entrevista à Radio Renascença, diz o Prof. Álvaro Santos Almeida, ex-economista do FMI, a respeito dos 59 novos investimentos de “alto valor acrescentado“:

“Não vejo grandes sinais de que, desta vez, seja diferente. Pelo contrário, vejo sinais de que será mais do mesmo com resultados idênticos […]. Apesar de concordar que se privilegie os portos e não as rodovias, tenho fortes dúvidas se não se estará a criar novos ‘elefantes-brancos’ com estas apostas”

Sobre o número de projectos, coloca uma questão por demais pertinente:

“Quando há 59 projectos prioritários é sinal de que nenhum deles é prioritário. O grupo de trabalho tinha proposto apenas 30, o que era bastante mais sensato; as prioridades não podem ser muitas, porque há dispersão”

Em referência à proposta de fundir a gestora da rede ferroviária com a rede rodoviária, também é contundente:

“Não sou perito em transportes, mas para haver sinergias tem de haver algo em comum. As tecnologias não são comuns, a lógica não é comum; a única coisa que é comum é a tentativa, eventualmente, de criar um monopólio de transportes terrestres que só será prejudicial para os utilizadores”

O resto da entrevista está disponível na página da Rádio Renascença.

O problema dos novos 59 investimentos públicos é o mesmo problema crónico que sempre assolou Portugal: as suborçamentações, as desorçamentações, os atrasos, os contratos danosos e a dubiedade do impacto e do “alto valor acrescentado” desses investimentos que geralmente terminam na marginalidade da irrelevância mas com encargos ad eternum para os contribuintes. A racionalidade do investimento privado mede-se em função da rentabilidade do investimento. Ao investimento público, a decisão é geralmente pautada pela vontade, pela necessidade e pelo interesse público, conceitos difusos que a justificam, sustentados posteriormente por relatórios cozinhados que a quantificam. Serão, como geralmente são, 59 novas torres de Babel donde só provêm os custos, ficando os benefícios por apurar.