O que falta às escolas

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Talvez não fosse descabido que a Frente Comum, em alternativa à patética manifestação que retrospectivamente fazem contra o anterior Governo [1], se preocupasse um pouco mais com o funcionamento da máquina administrativa, que não começa e acaba nos salários de suas excelências — vai dos salários dos funcionários públicos aos tinteiros e ao papel higiénico. É que para acalentar os pensionistas que recebiam mais de 6000€ e todos os visados pela sobretaxa de IRS, a Geringonça puxou o farrapo, deixando a descoberto todos os outros.

Há escolas onde os fornecedores de tinteiros e papel têm dívidas a haver com mais de 1 ano. Há outras onde a EDP recebe às prestações, quando recebe. Há outras onde os livreiros recebem com meses de atraso, tendo de ser eles a assumir os encargos com o financiamento. E há outras — limite do patético — onde as cartas são rejeitadas pelos CTT por falta de pagamento. E há ainda outras onde tudo isto se passa.

Assim, e para que estas manifestações sindicais de fantochada para cumprir agenda sirvam efectivamente algum propósito, talvez não fosse de somenos importância exigir que o Governo cumpra com as suas obrigações.

[1] – Do panfleto da convocatória geral pode ler-se: «Nos últimos anos, particularmente sob as políticas de exploração e empobrecimento do PSD/CDS, as populações…».

Piedosos samaritanos

Comentário do leitor Baptista da Silva ao post do Miguel “Uma boa razão para privatizar urgentemente o Metro e a Carris“:

Os trabalhadores dos transportes públicos fazem greve para defender a qualidade do serviço que prestam à comunidade, os professores fazem greve para defender o ensino público, os médicos fazem greve para defender os pacientes, até os pilotos fazem greve para defender a segurança dos passageiros. Portugal é uma borrasca de piedosos samaritanos, cheios de vontade de oferecer as suas vidas e o seu trabalho pelo bem da pátria.

Um liberal a favor de uma greve

Para que fique bem claro, eu acho que todos deveríamos estar a fazer greve, mas por outros motivos. Por uma escola descentralizada, experimentalista e autónoma, com livre escolha dos pais e concorrência livre do privado, com independência pedagógica e com financiamento discricionário ao aluno e não à escola. Com liberdade para contratar e despedir. Isso sim, merecia uma greve. Isto não serve a ninguém. Palacetes e piscinas olímpicas que albergam a mediocridade que os parasita.

Conversas com alunos

Tendo dado o testemunho de um professor do ensino público, resta ouvir os alunos. Transcrevo aqui, para quem não apanhou, o testemunho de uma aluna da Escola Secundária Gabriel Pereira em Évora. A peça foi transmitida pela SIC Notícias.

“Só esta confusão toda, as notícias, os próprios professores antes das aulas acabarem [que] estavam sempre com esta conversa… acho que isto perturba-nos um bocadinho. Eu, pelo menos, dou por mim […] estou a estudar para Português e penso.. será que vale a pena? Às vezes até fico com um bocadinho menos de motivação para estudar. Compreendemos o lado deles […], que se sentem injustiçados e com medo do que poderá acontecer no futuro […], mas pedíamos que compreendessem também o nosso.

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Acerca da greve dos médicos e da “terceirização” nos serviços do estado

Olga Ferreira não vê motivos para negar o protesto. “Antes não tivéssemos de a fazer”, desabafa. Os concursos que abrem a porta dos hospitais às empresas de prestação de serviços são o principal alvo das críticas. Uma medida que, acredita, vai colocar em causa a qualidade da prestação de cuidados de saúde e que “é uma ofensa ao Serviço Nacional de Saúde [SNS]”. A bandeira que Olga levanta é essa: “A defesa do SNS de qualidade”.

Talvez não seja claro para toda a gente. A “terceirização” no SNS assim como noutros serviços do estado é uma forma engenhosa que os pol´ticos arranjaram para contornar os encargos da legislaçãoaque eles próprios criaram e os “direitos adquiridos” que não tem coragem de retirar. Evitam ter de assumir publicamente que criaram um monstro financeiramente insustentável e continuar com a fantasia que o estado pode dar tudo a todos apenas porque assim está consagrado na lei.

Para terminar queria referir que, contrariamente ao Ricardo, não acho que a greve dos médicos seja comparável à dos controladores aeros pelo que neste caso o estado não se deve imiscuir no direito a greve. Eu é que não devia obrigado a pagar por algo com este tipo de quebras no serviço.

A propósito das greves na NAV e na TAP

O ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, está a pensar em recorrer à requisição civil para combater os previsíveis prejuízos das novas paralisações anunciadas pela NAV e o Sindicato de Pilotos de Aviação Civil

À semelhança do que fez Reagan nos início dos anos 80, faz algum sentido decretar a requisição civil dos controladores areos. Justificar-se-ia até que fosse aprovada legislação que impedisse ou condicionasse as greves dos controladores à manutenção da navegação em segurança no espaço aereo nacional.

Já quanto à greve dos pilotos da TAP não faz qualquer sentido nem estou a ver que motivos poderia alegar o governo para impedir a greve. Aliás, a questão só toma uma dimensão nacional e de estado porque teimosamente e contra qualquer tipo de racionalidade económica e bom senso os sucessivos governos têm adiado a privatização companhia aérea. À custa dos contribuintes, é necessário recordar. Em suma, a solução para a TAP não é a requisição civil mas a sua rápida privatização. Quem deseja manter “companhias de bandeira” que o pague do seu bolso e não com o dinheiro dos contribuintes.

Há bufos na extrema-esquerda portuguesa

A tradicional guerra de números após cada greve entre sindicatos e governo faz parte do passado. Esqueçam lá isso! Agora, com o advento dos grupelhos de indignados e afins, e perante a crescente e manifesta falta de adesão popular às suas manifestações, o que está na moda é desviar atenções e atacar a polícia: primeiro através de confrontos físicos, depois através de uma difamação pública persecutória e falaciosa.

Perante a confrangedora falta de mobilização que as várias manifestações tiveram no último dia de greve geral, ao contrário da CGTP (que se recolheu num silêncio envergonhado), os auto-proclamados indignados começaram uma campanha de acusação à PSP. E o processo é sempre o mesmo: começam por acusar os agentes, esses fascistas, de terem começado os confrontos contra os coitadinhos que, inocentes, apenas queriam manifestar-se e, após cabalmente desmentidos pelos factos, refugiam-se na acusação de que haveria agentes infiltrados na multidão com o fim específico de provocar e começar os confrontos.

Mas, por vezes, as coisas correm mal. É que se essa teoria tem, só por si, pés de barro, ela acaba por desfazer-se em pedaços perante certos exemplos que deviam encher de ridículo quem os usa.

Um desses exemplos aconteceu na passada sexta-feira. Como refere esta notícia, a Anonymous Portugal identificou três indivíduos que teriam iniciado os desacatos, sendo depois vistos a conversar animadamente com os agentes da PSP. Conclusão da Anonymous Portugal: os três indivíduos eram agentes da PSP infiltrados na manifestação com ordem para provocar os confrontos. As peças estavam a encaixar-se na perfeição e o puzzle da teoria da conspiração, tão conveniente à Anonymous Portugal, estava quase completo.

Faltou, no entanto, uma: a verdade. E a verdade é que esses três homens, prontamente denunciados pelas fotos da Anonymous Portugal no facebook, eram estivadores de Aveiro e estavam em Lisboa para cumprir o mesmo papel que os restantes: manifestar a sua indignação. Esta situação já foi denunciada no site dos estivadores de Aveiro e no facebook da Anonymous Portugal pela própria advogada dos estivadores.

Sendo certo que esta foi uma tentativa meritória da Anonymous Portugal de contribuir para a construção da realidade maniqueísta, em que o pobre do manifestante é esmagado pela opressão policial, em que os grupelhos seus semelhantes andam empenhados, acabou por ser um enorme tiro – ou petardo, talvez – no pé da organização que, de uma só vez, denuncia comprovadamente companheiros de luta como  instigadores da violência e acrescenta mais um argumento à defesa de uma actuação “limpa” da PSP.

Com bufos deste calibre, um indignado já não se pode indignar em paz. Uma maçada.

 

P.S.: Entretanto, a Anonymous Portugal alterou o nome do álbum em que apareciam as fotos em causa, identificando os protagonistas como estivadores. No entanto, aqui podemos ver a “versão original”.

P.P.S.: Parece que mudar o nome do álbum não era suficiente. Por isso, os administradores da página de facebook da Anonymous Portugal decidiram apaga-lo. Nada de surpreendente para quem está habituado a não dar a cara.