O FMI é o nosso salvador (2)

A direita que chama caloteiros aos que avisam que a reestruturação da dívida portuguesa é necessária (como se os credores não fossem profissionais da avalição de risco e não merecessem, pobrezinhos, sofrer as consequências das suas escolhas) não parece ter problema moral algum com o facto de o FMI ir buscar o dinheiro do bailout ilegitimamente aos contribuintes internacionais já de si endividados, assim obrigados a endividarem-se ainda mais para “salvar” Portugal. Essa direita estatista, geneticamente determinada a proteger o status quo, a salvar a cara do Estado, à custa dos sacrifícios individuais, não se distingue em nada da esquerda colectivista.

O Socialismo Global riscou “absurdo” do seu vocabulário e vetou a matemática à arte praticada por aqueles a quem falta a Fé.

Leitura complementar: O FMI é o nosso Salvador!

PS e PSD estão surpreendidos

porque parece que afinal o FMI é amiguinho do socialismo, existe para o promover e garantir que ele perdura mesmo contra as evidências económicas da realidade.

[Keynes, pai ideológico do FMI, na conferência inaugural dos governadores do FMI em 1946.]

Leitura complementar: Crescer sim, mas só se for todos juntos [ideologia de globalização socialista do director do FMI, Strauss-Khan]

O FMI é o nosso Salvador!

Mas os seus poderes de Super-Herói, capazes de fazer países crescer ao mesmo tempo que se aumenta os impostos, caducam em 2013. Aí, quem nos vai dar mama é o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira, explica a Standard & Poor’.

Este mecanismo europeu, que só entra em funcionamento a partir de 2013, permitirá, por exemplo, que os países recomprem dívida nos mercados com dinheiro europeu e irá, à partida, incluir um cenário de reestruturação da dívida, onde os países em risco poderiam negociar o reescalonamento da sua dívida de uma forma coordenada a nível europeu.

Ou seja, como já é óbvio para muitos (curiosamente menos para a nossa direita que, talvez com reminiscências salazaristas, não fosse a nossa direita mais moral que intelectual, parece achar que pagar as dívidas se resume a uma questão de honrar compromissos – mesmo que matematicamente impossíveis – sob pena de, vergonha!, sermos vistos pelos nossos superiores colegas europeus como caloteiros), a reestruturação da dívida é  inevitável. O FMI só cá está para nos colocar em banho maria e vigiar enquanto não estreia o novo tabuleiro monopoly 2.0 da EU. Até lá, demos graças pelo FMI e rezemos para que, como que por milagre, a factura a pagar pelo FMI+reestruturação seja menor do que a factura a pagar por uma reestruturação imposta já.

An Undemocratic Bailout

The European Union and the I.M.F. should give Portugal a bridge loan and wait to negotiate a deal until there is a new government in place. This would give Portuguese voters a chance to vote on proposals by each party to address the emergency, diz o editor do NYT, que obviamente não conhece Portugal. Nós não estamos preocupados com a legitimidade do pacote de ajuda; não queremos saber de alternativas; tratamos com escárnio os pequenos partidos que as discutem; e os nossos três maiores partidos, que nunca puseram em causa a legitimidade da ajuda, noblesse oblige, não saberiam como distinguir-se na campanha quanto às “propostas para fazer face à emergência”. Tudo isso são questões democráticas de interesse menor. O que realmente nos preocupa são as listas de candidatos, os podres, as caricaturas, os despiques, as vinganças, enfim, as lutas de galos pelos tachos entre as duas barricadas do poder centralizado. Bem vindos a Portugal.

Credores Vs Devedores: Quem manda?

O mundo está cada vez mais dos devedores. Qualquer dia são eles que fixam as condições aos credores!

Nestas alturas lembro-me das 2 páginas de Irwin Schiff sobre o assunto:

Consequências:

– Sem direito à propriedade privada, não há incentivo à poupança

– Sem poupança, não há recursos para permitir o investimento

– Sem investimento não há produção

– Sem produção mais tarde ou mais cedo não haverá consumo

E depois ainda vem  a CGTP querer fixar as condições ao FMI

It’s all so quiet

Os jornais portugueses noticiam que os pobres dos gregos estão chocados com as notícias de que já se fazem avaliações sobre um “corte de cabelo” gigante, entre 40 a 70%, da dívida soberana do país. Um processo de reestruturação da dívida que parece imparável.

Por aqui, os juros da dívida portuguesa disparam com receios de reestruturação de dívida, mas ninguém está chocado, muito menos os principais partidos em campanha que não têm sequer referido o óbvio por não ousarem pôr em causa a bondade do FMI, o nosso omnipotente salvador, como se a hipótese de Portugal vir a devolver o dinheiro aos credores nos prazos estipulados fosse matematicamente possível. Para Pedro Silva Pereira, os níveis actuais das taxas de juro de Portugal reflectem “a irracionalidade que vai nesses mercados” – como é possível que tenhamos os piores resultados desde a nossa entrada no euro precisamente quando entra a ajuda? Os mercados só podem estar loucos.

Enquanto não se conseguem ouvir vozes dissonantes do PS no PSD ou CDS quanto à bondade de nos endividarmos ad infinitum, os tiririca anti-sistema BE e Verdes lá vão apresentando projectos de reestruturação (unilateral) da dívida. E mesmo recebendo dicas insuspeitas sobre usar a reestruturação da dívida como arma negocial, a nossa intrépida direita continua a piar baixinho para não afastar o festim do FMI e assim adiar acordar a ira do povinho, pelo menos para depois das eleições.

Socialistas já admitem pedido de ajuda à UE/FMI

Afinal, estamos em “Emergência”

Francisco Assis: “Uma situação de emergência exigirá soluções de emergência. A situação é de emergência sob vários pontos de vista porque o quadro político é aquele em que vivemos, com um governo de gestão, não podemos ignorar essa situação a dois meses da realização de eleições”.

Claro que o que hoje é óbvio, ontem era inadmissível…

Sócrates e o FMI

Sócrates tem-se multiplicado em  entrevistas a dizer que “o PSD já se rendeu ao FMI” ou que só ele pode “evitar” a entrega do país a essa agência.

Por exemplo, aqui.

Engraçado, da última vez que verifiquei era o governo dele que tinha gasto todo dinheiro e emitia dívida a taxas históricas, convivendo “bem” com 8% no mercado da dívida do Estado Português.

Mas o mais engraçado ainda é a sondagem da TVI, saída hoje e realizada já depois do anúncio de demissão de Sócrates, em que o PS com Sócrates ainda merece mais de 32% dos votos!

Crescer sim, mas só se for todos juntos.

Do discurso oficial da visita do director do FMI à “North Africa” [Agadir, Marrocos] desta semana, podemos reter não só uma prosa inspirada sobre o animismo dos mercados,

[We stand on the threshold of a new era. We cannot turn our back on openness and globalization, but we need a new globalization for a new world—a globalization with a human face, where people come first, and where growth and equity always go together. We must rely on the market for growth, but the invisible hand must not become the invisible fist.]

mas também uma definição de «instabilidade» antropologicamente fundamentada. Strauss-Kahn explica que o fosso entre ricos e pobres é em si motivo de instabilidade. Não o é porque os pobres estão cada vez mais pobres (Strauss-Kahn admite que com isto da globalização os pobres até ficaram menos pobres – It has helped hundreds of millions of people break the bonds of poverty), mas sim devido à «corrupção dos sentimentos morais» que se instaura perante o fosso. A desigualdade é corrosiva não devido ao seu efeito material, mas devido ao seu efeito no «tecido social».

In our globalized world, if the benefits of growth are not widely shared, we could see a backlash against openness and cooperation and a retreat to economic nationalism. Especially in poorer countries, it can lead to instability, a breakdown in democracy, and even war.

Daí à Nova Ordem Mundial que os governos (ricos) se devem esforçar para instaurar para que reine a Paz do Millennium, é um saltinho. E a tarefa é urgente em África.

Here, in North Africa, these challenges are clear. Given the demographic time bomb, young people need economic opportunities—urgently.

A solução para a “waiting generation” árabe (geração de jovens que face ao atrofiamento da economia está em lista de espera para empregos na função pública), é simples: redistribuir o dinheiro dos ricos do país e dos ricos fora do país. Mais e melhores subsídios de desemprego, porque não há nada melhor para combater os efeitos da engenharia política do que engenharia politica em dose redobrada. Mas não se preocupem que o FMI trata disso.

Adequate social safety nets are essential, including decent unemployment benefits. And here, the IMF is working closely with the ILO on the concept of a social protection floor for people in poverty or vulnerable situations. In our lending programs, we always emphasize the protection of the poorest and most vulnerable though strong social safety nets.

When it comes to the low-income countries, we have a special responsibility. There are few goals more important today than the Millennium Development Goals. […] The richer countries must show solidarity with their poorer neighbors.

Depois de dizer ao “Norte de África” que a responsabilidade moral do seu problema estava n”os ricos”, Srauss-Kahn não resistiu a pôr mais uma acha para a fogueira da “instabilidade social resultante da globalização”, e lá lhe saiu,f ora do discurso oficial, que para além de “os ricos” não quererem dar, conspiram incessantemente para tirar:

“We have to guard against another form of colonialism taking root by other superpowers who have the wind in their sails in Africa, who are, I don’t want to use the word colonialism, but who are setting up a form of dominance.”