O regulador: sempre um passo atrás

carrothO FMI prepara mais um conferência, intitulada “Rethinking Macro Policy III: Progress or Confusion?”, que, para lá do notável feito de admitir o elevado grau exploratório da actual política monetária, tudo resumido, serve para justificar a sua própria existência. Olivier Blanchard deu o mote, lançando algumas questões no blog do FMI.

Talvez mais interessante do que as questões lançadas sejam as respostas implícitas: as actuais políticas monetárias são tão experimentais que o próprio FMI não as entende bem. Note-se que a ideia de taxas de juro negativas era nada mais que um limite inferior teórico, teoricamente inalcançável, cujo único propósito era caracterizar uma armadilha de liquidez, ou em parlance menos keynesiana, a Zero Lower Bound (ZLB). Sem grandes teorias explicativas, os Bancos Centrais, entre os quais o BCE, avançaram, ainda assim, nesse sentido.

Outro ponto igualmente interessante é a questão da regulação financeira. Desta vez é diferente, ou assim acredita o planeador central. Para seu desaire, e tal como a experiência bem comprova, a tarefa do regulador é análoga à do burro atrás da cenoura — sempre um passo atrás, mas sempre ali tão perto. Isto porque de nada serve a acção do regulador quando os incentivos não estão alinhados. Colocar um chocolate no quarto de uma criança e pedir-lhe que não o coma é naif, isto para ser brando. A regulação eficaz não é decretada, monitorizada ou supervisionada por uma qualquer entidade que se julga omnisciente — é o resultado da inexorável acção das regras de mercado, onde se inclui a falência e a tomada de risco. Assim como são os limites da tomada de risco: se os bancos desejam arriscar, que o façam com os seus próprios capitais. Não se pode criar um mecanismo que dependa da boa fé e esperar que ninguém o explore para seu próprio proveito. Que o FMI ainda não tenha percebido isto, e que, em 2015, ainda tente encontrar o Santo Graal da regulação sob a forma de melhores instituições regulatórias, revela o nível de desorientação da instituição.

Cortes de 4700 Milhões de Euros Até 2014

O relatório da sétima avaliação do FMI publicado hoje e que se encontra disponível aqui contém as seguintes previsões:

  • Défice (%PIB): 5.5% (2013); 4,0% (2014); 2,5% (2015)
  • Variação do PIB: -2,3% (2013); 0,6% (2014); 1,5% (2015)
  • Desemprego: 18,2% (2013); 18,5% (2014); 18,1% (2015)
  • Dívida Pública (%PIB): 122,9% (2013); 124,2% (2014); 123,1% (2015)

O relatório contém também na página 48 uma tabela, reproduzida abaixo, que prevê cortes de 4.700 milhões de euros entre 2013 e 2014.

Num país em que o corte de cada euro de despesa tem de enfrentar a oposição, muitas vezes o próprio governo e os seus partidos, a constituição, o tribunal constitucional, um conjunto de interesses instalados e de grupos organizados, será curioso observar como é que estes cortes serão implementados. De particular interesse, é a chamada “TSU dos pensionistas” no valor de 436 milhões de euros para a qual existe um compromisso de encontrar uma alternativa uma vez que o Paulo Portas se declarou politicamente incompatível com os futuros pensionistas.

Cortes4700

Sobre os tais cortes na Educação

Concordando com o Relatório do FMI no que toca à Educação, devo acrescentar que não admito que o Governo mexa nas propinas sem antes tratar dos professores, seja na quantidade, seja na remuneração A raison d’être do sistema de ensino é, em primeiro lugar, a formação, não o emprego dos formados.

O custo médio de um aluno nos ensinos básico e secundário, que ronda os 4415 euros, deve servir de base para uma reforma estrutural, que reduza custos, aumente a concorrência e, sobretudo, a autonomia e a competência das escolas. O mesmo vale para o ensino superior onde, a serem aumentadas as propinas, não poderão deixar de ser criados/reforçados mecanismos – envolvendo ou não a banca privada – que possibilitem a todos o acesso. Se é verdade que uma visão estritamente social condenou a geração presente, uma visão estritamente tecnocrata nesta área poderá vir a condenar a geração futura.

FMI e a Grécia

FMI quer cessar ajudas à Grécia, que poderá abrir falência em Setembro. Excertos:

A intenção do FMI de não libertar mais dinheiro do programa de ajustamento financeiro negociado com Atenas já foram comunicadas à União Europeia, garante o semanário alemão, citando fontes diplomáticas em Bruxelas.
(…)
Se a Grécia obtiver mais tempo para cumprir o programa de ajustamento financeiro, como o novo governo de Antonis Samaras exige, isso custará à UE e ao FMI mais 50 mil milhões de euros, segundo cálculos da troika.
Acontece que muitos governos da zona euro já não estão dispostos a emprestar mais dinheiro a Atenas, e a Finlândia e a Holanda condicionaram futuras ajudas à participação do FMI.
(…)
A confirmar-se a notícia do “Der Spiegel” sobre o fim da participação do FMI nas ajudas financeiras, a única solução para a Grécia será, no entanto, abrir falência em Setembro e regressar à antiga moeda, o dracma, ensaio sem precedentes na Zona Euro que deverá abalar profundamente a economia helénica, e afectar também os parceiros europeus.

É bom recordar o que o líder do FMI para a Europa em Março dizia:

Ou seja, o FMI deixou de acreditar na Grécia.

Para Portugal este episódio terá uma vantagem: vai mostrar a quem defende que não se pague a dívida as consequências reais dessa decisão. No fim das contas, a desgraça da Grécia pode ser o melhor que nos podia acontecer.

Cómico ou Trágico?

Esta imagem pode ser encontrada no blog “Democracia Participativa” e é agora muito actual pois estamos a escassos dias de conhecer a “solução” do FMI para Portugal.

Questão: Tal como em 1983, fala-se em pagar salários com dívida pública. Será que também, tal como em 1983, o Estado vai preferir um novo imposto em vez de aumentar a dívida? Fica a pergunta. Mas agora voltem a olhar para a imagem e reparem se ainda se riem…

FMI: Inimigo Público

Um excelente artigo do Inimigo Público sobre o FMI.

No meio do artigo lê-se:

“Começando a conhecer as idiossincrasias nacionais, o FMI descobriu os “arrumadores” e aconselha os portugueses a não lhes darem moedas, devendo preferir papéis sem valor, como os Título do Tesouro (porque o Estado português está falido) ou bilhetes da Carris (porque os funcionários estão sempre em greve e os autocarros parados).”

Realmente, um pouco de humor agradece-se.

Adiar o inevitável

Lew Rockwell sobre O colapso da União Europeia:

O caso de Portugal e a reação finlandesa deveriam servir de alerta. Todos esses pacotes de socorro e de estímulos não podem ocultar o fato de que os governos e os sistemas bancários dos EUA e da Europa estão fundamentalmente quebrados, e são sustentados apenas pelo poder de seus respectivos bancos centrais de criar dinheiro do nada. Cada intervenção serve apenas para comprar tempo e adiar o inevitável; elas não atacam os problemas fundamentais. E, a cada vez que os problemas reaparecem, eles são piores do que antes.

Não é necessário ser um Verdadeiro Finlandês para reconhecer a injustiça de se dar pacotes de socorro para governos estrangeiros. Nem nacionalismo nem pacotes de socorro irão corrigir os problemas reais. O mundo eventualmente terá de voltar a uma moeda sólida. Porém, o caminho até esse fim será árduo, e haverá grandes convulsões.