Vejo muita gente indignada por Mário Nogueira ainda não ter saltado à jugular de António costa quando o fez perante iguais declarações de Passos Coelho sobre as – aliás, evidentes – oportunidades no estrangeiro para os professores que cá não obtêm colocação.
Queria defender aqui um pouco o nosso ministro da educação: Mário Nogueira sabe comportar-se com lisura política. Discordará em privado e di-lo-á ao seu líder, mas não fará em público a desfeita de atacar o seu primeiro-ministro. É o que se espera dum soldado disciplinado.
O gráfico acima, aparentemente complexo mas de simples interpretação, ilustra bem a importância do professor na performance dos discentes, uma observação muitas vezes contestada pelos romeiros do eduquês, que insistentemente se resguardam no contexto sócio-económico, Santo Graal para os fatídicos resultados da escola pública — os republicanos-laicos-excepto-para-construir-mesquitas-em-Lisboa que me perdoem a referência pia.
Vejamos. O gráfico no canto superior esquerdo ilustra o efeito da entrada de um bom professor. Existe claramente um aumento significativo da apreciação escolar dos alunos, medida no eixo vertical, criando um gap com a média. Em contraste, a entrada de um mau professor, cujo efeito está ilustrado no gráfico do canto inferior esquerdo, gera uma clara degradação dos resultados dos alunos.
Se este efeito causal é consistente, então o efeito nos resultados dos alunos deverá verificar-se também quando um bom ou um mau professor abandona a turma. Efectivamente, este efeito verifica-se. No canto superior direito temos o efeito da saída de um bom professor, que diminui o gap positivo existente, e no canto inferior direito temos o efeito análogo no caso de um mau professor, que revela que os resultados recuperam face à média.
Posto isto, deveria parecer claro que o sistema educativo deverá estar montado de forma a que os pais e as próprias escolas consigam identificar os bons e os maus professores, separando o trigo do joio, e criando também incentivos a que os maus se esforcem e melhorem a sua prestação. Certo? Errado.
Existe um motivo claro pelo qual a FENPROF não quer a avaliação dos professores: porque não quer a heterogeneidade, não quer a diferenciação, não quer a distinção dos bons profissionais dos maus profissionais, porque isso quebra a uniformização da classe operária, da unidade sindical. E a FENPROF permite-se a isso porque o objectivo do sindicato não é obter o melhor sistema de ensino possível, público ou privado, mas salvaguardar única e exclusivamente os interesses dos seus professores — em particular os maus, que os bons não precisam dos sindicatos para rigorosamente nada. E os interesses desses estão melhor garantidos dentro de um sistema público e estatal, centralizado e controlado pela FENPROF.
O desfecho dos contratos de associação, mecanismo que, não obstante alguns deméritos (uma solução ancorada no cheque-ensino seria claramente preferível), permite às escolas escolherem os seus professores, os melhores — único garante que lhes garante os alunos. Uma coisa boa para os alunos, boa para os pais, e por efeito das externalidades positivas que gera, bom para todos. Excepto, claro, para a FENPROF. Assim, continuaremos com os concursos de professores via 5 de Outubro, manietados, claro está, pelo verdadeiro Ministro da Educação, Mário Nogueira.
Sintomático do estado do país. Mário Nogueira é inimputável, inatacável, apoiado por inúmeras figuras do regime, do poder político (nacional e local) ao escrito. Diz os disparates que quer e nada. Defende a Revolução Bolivariana e nada. Insulta todos e nada. Manipula influências e nada. Enquanto não se desfizerem estes centros de poder, a Educação continuará no actual caminho de perda contínua de qualidade e o futuro do país é que está em causa. O verdadeiro Ministro da Educação é o líder da FenProf, e ele terá que ser substituído por alguém de ideologia muito diferente, ou o caminho está traçado.
Aparentemente sim. Reparem o que ele diz sobre o deputado e presidente da JSD Hugo Soares, que é genericamente o seguinte: Eu sei que ele tem dificuldade em perceber isso, pois ele nunca fez nada em que enfrentasse as dificuldades da vida e ganha cerca de 3.000 Euros. Agora está ali instalado e quer saber quanto os outros ganham, o que quer dizer que tem défice de democracia. Se um dia obtivesse um emprego e soubesse o que era a vida, era capaz de não ser mau…
Creio que ele falava do Presidente da JSD porque falou em juventude, o que ele próprio claramente não é. Mas quanto a viver numa redoma livre de qualquer risco, ganhar 3.000 Euros, não ter sentido democrático e ter dificuldade em perceber o mundo que o rodeia, creio que estamos falados…
PS: estive sem ver televisão uns dias e esta escapou-me na altura. Peço desculpa por a notícia já ter uns dias.
A Frente Sindical da Administração Pública (Fesap) vai exigir ao Governo abertura para alterar as propostas relativas à mobilidade especial e ao horário de trabalho para os trabalhadores das carreiras gerais e especiais, tal como aconteceu com os professores.
“Congratulamo-nos com as cedências do Governo na negociação com os sindicatos dos professores, mas esperamos igual abertura para tratar os trabalhadores do regime geral e das restantes carreiras especiais da mesma forma”, disse ao Económico José Abraão, da Fesap.
(…)
“Não queremos acreditar que o Governo se assume forte com os fracos e fraco com os fortes”, disse ainda o dirigente da Fesap.
José Abraão lembrou ainda que também na negociação com os sindicatos dos médicos, o Governo cedeu, ao aumentar o horário para as 40 horas, mas com o devido pagamento salarial.
Naturalmente, a Fesap tem razão: ou é para todos, ou não é para ninguém.
Depois leio também este comentário na notícia:
Os Privados exigem o mesmo tratamento dos funcionários públicos!
O comentador no Diário Económico também tem razão: ou é para todos, ou não é para ninguém.
Depois deste episódio, ficam as seguintes questões:
Quando a questão era a Igualdade, aquando do acórdão do Tribunal Constitucional, o sr. Mário Nogueira era dos seus maiores defensores.
Ele sempre foi hipócrita ou é algo mais recente?
Em relação à Igualdade, agora que é evidente que é contra esta na prática, ainda a defende na teoria?
O que é que faz com que os professores mereçam tratamento especial quer entre os cidadãos em geral, quer entre os funcionários públicos em particular? Há algum racional pensado e estruturado para justificar tal tratamento preferencial?
De todas as profissões em Portugal, é a de professor aquela em que se têm piores condições? Nenhuma outra profissão mereceria mais atenção por parte do governo?
Quanto custa e quem paga este direito excepcional dos professores? Ou essas são questões demasiado terrenas para quem se dedica a questões “de princípio”?
Se a profissão tem especificidades, porque é que as mesmas especificidades não se aplicam aos professores do privado?
A questão 3 (justificação para a excepcionalidade), 4 (exemplos de outras), 5 (contas) e 6 (professores de 1ª e de 2ª) eu gostava de ver respondidas.
As outras são opcionais e exigem uma frontalidade e uma fortaleza (no sentido cristão) de espírito que não estou à espera por parte da personagem. Mas pode ser que alguém saiba as respostas…
Tendo dado o testemunho de um professor do ensino público, resta ouvir os alunos. Transcrevo aqui, para quem não apanhou, o testemunho de uma aluna da Escola Secundária Gabriel Pereira em Évora. A peça foi transmitida pela SIC Notícias.
“Só esta confusão toda, as notícias, os próprios professores antes das aulas acabarem [que] estavam sempre com esta conversa… acho que isto perturba-nos um bocadinho. Eu, pelo menos, dou por mim […] estou a estudar para Português e penso.. será que vale a pena? Às vezes até fico com um bocadinho menos de motivação para estudar. Compreendemos o lado deles […], que se sentem injustiçados e com medo do que poderá acontecer no futuro […], mas pedíamos que compreendessem também o nosso.“
Transcrevo aqui uma conversa verídica tida ontem com uma professora de ensino especial (crianças com deficiência) a leccionar no ensino público que, tanto quanto sei, é uma excelente profissional. Teve recentemente de leccionar em Sintra (reside no Norte) na sequência do regime de mobilidade especial.
— “Eu acho muito bem que os professores se estejam a manifestar! É inaceitável o que está a acontecer. Acho muito bem esta greve!”
— MAL: “Então? O que é que reivindicas?“
— “As 35 horas e o regime de mobilidade especial. Mandar os professores de um lado para o outro!”
— MAL: “As 35 horas é uma questão de equidade entre funcionários públicos. À luz da lei deveremos ser, efetivamente, iguais. Mas vocês só trabalham 35 horas?”
— “35? Trabalhamos bem mais do que isso. Temos aulas para preparar e exames para corrigir.”
— MAL: “Então, na verdade, isso não vos faz qualquer diferença. Se já trabalham mais de 35 horas, certamente que a alteração para 40 é meramente estética. É uma questão de princípio. De equidade.”
— “É… mas o regime de mobilidade especial é inaceitável!”
— MAL: “Eu concordo contigo. Até vou mais longe. O atual sistema público de educação é inadequado, antiquado e injusto. O sistema deveria ser descentralizado, experimentalista, e as escolas deveriam ter total autonomia, podendo decidir que professores contratar e despedir, como leccionar as aulas e ainda que conteúdos leccionar, com algumas bases em comum, naturalmente. Mais, o financiamento seria entregue aos encarregados de educação e não às escolas, permitindo assim que alunos pobres possam ter as mesmas oportunidades de acesso às melhores escolas. Hoje em dia, eles são obrigados a frequentar uma determinada escola, por muito má que ela seja. Não me parece justo. E assim diminuíam também os mismatches na mobilidade. Um professor que vai de Lisboa para o Porto ao mesmo tempo que um do Porto vai para Lisboa, quando ambos poderiam provavelmente permanecer na sua cidade.”
— “Oh, mas isso demora muito tempo a implementar. Não seria para agora.”
— MAL: “Ok. No curto prazo. Coloca-te no papel do Nuno Crato. Que farias? Existem três hipóteses. 1) Despedir mais uns milhares de professores; 2) Continuar a atribuir horários zero; 3) Transferir professores para onde eles são necessários.”
— “Horários zero, nem pensar. Deprime ficar sem fazer nada.”
— MAL: “Então, que farias?”
— “Pois, não sei.”
A conversa terminou subitamente, tendo-se desvanecido o tom exasperado com que se iniciara. Não sei se a convenci, mas tentei transmitir a perspectiva de quem está de fora. É compreensível que os professores — e qualquer outra pessoa, especialmente pais e alunos — estejam descontentes com as recentes reformas da educação. Mais burocracia e mais trabalho improdutivo que acrescenta zero à formação dos alunos. O objectivo do brilhantismo estatístico, para que Portugal figure num percentil bacano nas estatísticas europeias. Uma enorme entropia introduzida no sistema, que mina o trabalho dos professores, a aprendizagem dos alunos e a paciência dos pais. Pais que não podem escolher o futuro dos seus alunos. Em boa verdade, todos deveriam estar a fazer greve, mas por outros motivos.