A barba de Daniel Oliveira

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Daniel Oliveira arqueia o arco, com a autoridade que a sua pujante barba revolucionária lhe concede, a todos aqueles que, destituídos do opulento pêlo facial, ousem ser “novos”, “imberbes” ou ter uma opinião contrária à sua. Prática esta que, imbuída do espírito soviético de suprimir contra-revolucionários que atentem ao ideal por eles idealizado, aponta a tudo o que mexe.

Ou se não mexe, fala. Que as palavras são inimigas da revolução, e cale-se o mensageiro na esperança de calar a mensagem. Da guilhotina de Robespierre à execução de carabina para a descredibilização numa crónica, a diferença é a democracia que lhes foi atando as mãos. A motivação, essa, está lá, de bala ou esferográfica na lapela.

E como a história avança por força destes, ou assim reza a dialética que os rege, há que definir bem o inimigo. “Fascista” caiu em desuso, não fosse este um termo que, ironicamente, cola igualmente bem às autocracias sanguinárias da extrema-esquerda, apenas com ligeira mudança de estilo, de retórica e de eye liners, mas igual ou pior resultado em mais um ensaio — porque aquele não era a sério — na instalação da prometida sociedade socialista.

E assim, com enorme naturalidade, Daniel Oliveira, a quem barba não falta, recorde-se, ex-militante do PCP e militante do moderadíssimo Política XXI, um punhado de anos não faz que reintegrado com outros arautos da moderação como o PSR ou a UDP numa amálgama política a que chamam Bloco de Esquerda, erguido na sua fausta altivez, considera oportuno chamar a alguém de “fanático ideológico”.

Entenda-se: Daniel Oliveira está nú, excepto onde a sua pilosidade oculte, e imbuído de uma qualquer superioridade moral que tem tanto de superior como de esquizofrénica, acha-se no direito de apelidar alguém de rôto.

Que Daniel Oliveira não concorde com o Governo ou com os seus representantes, não é propriamente novo. Aliás, é um bom semáforo sinalizador da qualidade de uma determinada proposta. Se passar o crivo voraz do nosso sénior barbudo, é porque foi mal delineada. Que a crítica seja a esse mesmo entendimento ideológico e político de determinada matéria, embora também não seja novo, é compreensível e de salutar.

Pouco salutar é esta reiteração da política baixa e demagógica de espoliar uns quantos que se atravessem no seu caminho do absolutismo moral. Uma crónica estuprada por ataques pessoais, o anúncio da denúncia é óbvio: Daniel Oliveira é isto. A sua barba, e pouco mais.

Adenda: este artigo complementa este e é uma reflexão à crónica de Daniel Oliveira no Expresso onde este se aproveita do espaço para delapidar o Bruno Maçães e o Miguel Morgado, acusando-os de fanatismo ideológico, serem novos e imberbes.