Lisboa Vs Interior no OE2018

Governo quer tirar fundos do “interior” para cumprir promessas em Lisboa.

O debate do Orçamento do Estado tem permitido perceber os truques que o governo de António Costa tem na manga para conseguir cumprir as promessas eleitorais que andou a fazer quer aos seus autarcas quer ao PCP e ao BE. O mais recente e talvez o mais chocante de todos é a tentativa do Ministro Pedro Marques de renegociar as verbas do PT2020, retirando 1.000 milhões de euros que estavam previstas para as regiões de convergência, as mais pobres e desertificadas (Alentejo, Norte e Centro), para poder investir na construção de mais estações de metro em Lisboa e Porto, na remodelação da Linha de comboio de Cascais, entre outros.

Lamento, mas os salários são a dívida

Henrique Raposo no Expresso (negritos do autor):

Anda por aí um cartaz que chega a ser cómico na sua ignorância ou demagogia. É um cartaz do BE que diz assim: “cortem na dívida e não nos salários”. Contra esta cara de pau que é sempre protegida pela epiderme esquerdista do jornalismo pátrio, vale a pena reforçar a evidência: a dívida soberana paga os salários da função pública, ou melhor, paga parte desses salários . Os salários são a dívida; não existe um abismo entre dívida e salários, mas sim uma relação de causa-efeito, porque uma boa parte dos salários do funcionalismo dependia do crédito que o Estado obtinha junto dos mercados; em consequência, essa massa salarial depende agora da troika. Cortar na dívida (não emitir?; não pagar a que já foi emitida?) era o mesmo que cortar ainda mais nos salários. Das duas, uma: ou os líderes do BE vivem num daqueles mundos de fantasia infantil com elfs e fadinhas, ou BE está a mentir de propósito.

Para ter um mínimo de coerência, o BE tinha de assumir os efeitos das suas escolhas. E esse caminho de honestidade política até tem duas saídas. Em primeiro lugar, o BE podia assumir a luta contra a dependência do Estado em relação ao crédito/dívida. Ou seja, o “cortem na dívida” devia ter como consequência a defesa ativa de uma coisa simples: o Estado português devia emitir menos dívida nos mercados. Mas, como se sabe, o BE é contra a imposição de um tecto constitucional que limite o endividamento do Estado. A desonestidade é fantástica: de manhã, o BE xinga “a ditadura dos mercados”; à tarde, o mesmo BE reconhece, de forma indirecta, que a sua ideia de governação depende dos mercados da dívida . Em segundo lugar, o BE podia assumir que as suas escolhas conduziriam o país à saída do Euro e à reintrodução do Escudo. Porquê? A segunda saída coerente para o “cortem na dívida” seria o famoso “não pagamos”. Confesso que respeitaria esta escolha do BE. Sucede que, para começo de conversa, o BE não se dá ao respeito, pois vende a ideia de que podemos ter uma coisa e o seu contrário.