Orbán: Podia ser Pior

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Esta questão do Orbán preocupa-me imenso, pois sou um pessimista e considero que pode sempre ficar pior. Ora imaginem lá que o homem não se dedicava apenas a fechar a Universidade do Soros e apertar uns adversários, mas decidia implementar uma ampla estratégia de censura de modo a condicionar globalmente o debate político?

Imaginem que o Orbán, à semelhança de um certo VP do Parlamento Europeu vinha afirmar que a intenção da UE era afastar determinados partidos do boletim de voto. Equacionem um cenário em que Orbán, ainda que admitindo a falta de provas, empreendia um vigoroso ataque contra um gigante tecnológico estrangeiro alegando interferência externa.

E se ele não se limitasse a correr com os refugiados? E se fosse a casa deles bombardear a malta até à idade da pedra, removendo no processo os líderes de países soberanos e deixando um rastro de morte e miséria? Era capaz de ser bem pior.

E se apostasse em montar um super-estado federal à revelia da população e ignorasse constantemente as decisões desta? Aí teria, claramente, uma grande parte das características de um fascista.

Felizmente a coisa ainda não está tão preta e Orbán ainda não se transformou nisso.

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O naufrágio pós-eleitoral

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Resumidamente, os que ganharam afinal perderam, os que perderam mais parece que ganharam, os virtuosos da crítica aos políticos viraram políticos e os secessionistas untados de unionistas ficaram a ver navios. Os restantes acabaram como começaram, pelintras. E a CDU, na brincadeira das Europeias, até parece ter brilhado em perspectiva, tarefa facilitada pelo lamaçal que os restantes deixaram.

O pré foi tão mau quanto o pós. Discute-se tudo menos o que verdadeiramente importa: a União Europeia. Da discussão sobre o aprofundamento ou reforma da união, um rotundo nada. Da discussão sobre o acordo transatlântico, um oceano de vazio. Ficamos sem saber que Europa queremos. Aliás, eu sei que Europa quero, ficamos foi sem saber que Europa os políticos que vão passear a Bruxelas querem. A retórica, a do costume: tudo vai mal, os alemães são maus, o Governo péssimo e Portugal seria a Babilónia não fossem os malditos ultraliberais e a Troika.

No fundo, não perceberam nada do que passou. Os 66% de abstenção não são irresponsabilidade, falta de consciência cívica ou ausência de sentido democrático dos portugueses, chavões tão bonitos quanto inúteis e que só servem para encher colunas de opinião. São, isso sim, um atestado de incompetência que, para destoar da geral falibilidade do senso comum, até parece ter acertado. Grassa a incompetência, geralmente aliada com a irresponsabilidade.

Nigel Farage disse, e bem, que o problema não é a Europa, é a União Europeia. Esta União Europeia que acha relevante perder tempo a criar leis que impedem crianças com menos de 8 anos de encherem balões ou que define o grau de curvatura das bananas. Questões pertinentes para quem faz da vida uma vida de fazeres, avassaladoramente irrelevantes para todos os restantes. Perante isto, criminoso seria votar.

Por fim, do porão para o convés, os ratos surgem no Rato. Qual deles emergirá, é irrelevante. A discussão, por iniciar, será a medir instrumentos, qual deles o menor: a minha austeridade é menor do que a tua. Mas quando o rato chegar a São Bento, Hollande já mostrou como se faz. Transformar-se-à num bonito hamster que corre na roda ao ritmo do timbal dos que nos pagam as coisas. E bem vistas as coisas, há coisas mais interessantes para fazer.

Sobre esta União Europeia

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Nigel Farage sintetiza bem qual o sentimento de grande parte dos votantes e não-votantes europeus. O problema não é a Europa, a sua pluralidade, as suas diferenças, a sua riqueza, o seu património, o Norte e o Sul, o Ocidente ou o Leste, os nórdicos ou os latinos. O problema é a União Europeia. Não o conceito de União Europeia — que se quer aberta, num mercado único de livre circulação de pessoas, bens e serviços — mas esta União Europeia, que dedica uma fatia de leão a subsidiar a agricultura na França, que calibra o tamanho da fruta e que regula a quantidade de canela nos bolos. Farage extravasa, contudo, no que à questão da imigração diz respeito. Mas, tirando isso, é a  bottom line do descontentamento europeu.