Há falta de jovens em Portugal?

Em resposta ao meu artigo O Receio de Bagão Félix…, “jo” comentou:

“Se o problema actualmente fosse a demografia teríamos empregos para jovens que não encontravam tomador. É isso que significa falta de jovens. O que temos é um desemprego muito maior entre os jovens do que entre o resto da população. Por tanto (sic) só há falta de jovens se houver falta de desempregados. Se o problema fosse falta de pessoas em idade para trabalhar bastava ir buscar uns barcos ao Mediterrâneo. Se a população está a decrescer e os vossos gurus dizem que o PIB vai crescer pelo menos 2,5% ao ano a partir de agora o problema também não é a falta de recursos. Parece que o único problema com as pensões é que há bancos e seguradoras que já não encontram mais nada que valha a pena pilhar.”

Vamos começar pelo facto: conforme disse no meu artigo, têm nascido menos jovens, desde 1970. Muito menos. Do-tipo-3-para-1,23 menos. Logo, o facto é muito real e qualquer pessoa que ande na rua, vá a escolas, passe em maternidades, e fale com pessoas com atividades infantis pode facilmente confirmar isso.

A questão não é negar o facto, a questão é compreender: se há menos jovens, porque é que estes têm cada vez mais dificuldade em arranjar emprego? Porque há uma coisa que tem diminuído ainda mais que os jovens: os empregos disponíveis para estes.

Vejamos mais uma estatística do PortData, a idade média dos novos pensionistas de velhice subiu de 62,3 para 63,4 entre 2011 [ano da entrada da Troika] e 2013, e eu suspeito que continue a subir. Em apenas 2 anos, aumentou mais de 1 (!). Os pensionistas por escalão etário têm estado a começar a diminuir nos escalões <60 e 60-64, numa altura em que a população nestes segmentos tem aumentado.

Vamos a um exemplo: a enfermagem. O problema não é ter havido uma explosão de enfermeiros em Portugal que, como são em tão em altas quantidades, não encontram emprego. O problema é que os hospitais pararam de contratar, e os enfermeiros que lá estão não se reformam (porque não os deixam). Menos de 10% dos jovens formados em enfermagem nos últimos anos anos encontram emprego na sua área. Metade, vai para fora. Cerca de metade, vai para outros empregos.

Sobre previsões de PIB: a) eu não tenho guris nem sei a quem se refere, b) duvido muito que o PIB cresça a uma média de 2,5%/ano nos próximos 20 ou 40 anos, c) os recursos nunca são ilimitados pelo que haverá sempre uma limitação mais ou menos severa de recursos. Por fim, a pilhagem foi feita por outros, não pela banca e pelas seguradoras – mais uma vez, nem sei com que base alguém afirma isso.

Por fim, haverá outras justificações para esta falta de emprego para os jovens. O crescimento do PIB é recente e tem sido lento por agora. O crescimento do emprego é uma variável desfasada do crescimento da produção (agregada no PIB). Um crescimento sem grande correspondência em termos de emprego (“jobless growth”) devido à rigidez do mercado laboral. A acumulação por parte de alguns de 2 empregos para ajudar a pagar as contas – não só as suas como as de familiares em situação difícil. O facto de algumas posições preferirem pessoas não formadas, para “controlar”custos. O facto de as qualificações mais teóricas de muitos jovens não incluírem conhecimentos técnicos. Enfim, as justificações são inúmeras. Não me digam é que não há uma crise de nascimentos, há muito e em crescendo.

Adenda: esta é uma realidade que é para continuar e acelerar. Senão vejam nas páginas 31/32 deste relatório de Roberto Carneiro:

De acordo com a Estratégia Europeia 2020, adotada em Conselho Europeu de 8 de março de 2010, entre as três prioridades que foram aprovadas, considera-se relevante a do crescimento inclusivo, nomeadamente o objetivo duma taxa global de emprego de 75% para a população dos 20-64 anos e de (50%) para a população idosa com mais de 65 anos.