Porque É Que Corbyn Não Foi Arrasado?

Muito recomendado este vídeo de Daniel Hannan que explica porque é que Corbyn teve tão boa votação nas últimas eleições no Reino Unido.  As pessoas votam em quem lhes promete oferecer coisas grátis, mas o dinheiro não cresce nas àrvores e alguém tem que pagar por elas (espera-se sempre que sejam “os outros” a pagar). A austeridade não é uma escolha sádica de políticos, mas uma necessidade de equilibrar as contas públicas.

Trump y sus muchachos

Daniel Hannan é dos políticos e polemistas europeus mais extraordinários – provavelmente ganhou “sozinho” o referendo ao Brexit. Este texto renova essa evidência. Aliás, vou assumir aqui e desenvolver amanhã no Expresso online: muita oposição a Trump é feita não só com motivações erradas, como Hannan descreve, mas de forma contraproducente de tal forma que alimenta Trump e a sua base de apoio.

Tem de se sempre fazer o disclaimer: dou muito pouco por Trump (não sei como é que um liberal, como sou, o poderia apoiar) mas há formas de se lhe opor que são autofágicas – por exemplo quando passam pelo exibir de enormes double standards. Depois não se queixem.

Vivemos em Socialismo, ou não?

Há uma certa limitação em alguns cérebros de esquerda, ora dá para achar que José Sócrates deu “baile” no seu mais recente comentário dominical, ora dá para escrever disparates destes.

Vamos primeiro clarificar conceitos: um governo economicamente Liberal reduziria o peso do estado na Economia, a carga fiscal e a dívida pública. Por oposição, um governo economicamente Socialista faria o contrário: mais estado na Economia, mais carga fiscal, e mais dívida pública. E João José Cardoso deveria ter noção desta separação.
E que, claro, Bruno Maçães se referia a esta classificação e não a uma dominância do PS (que não, não esteve 35 anos no poder, pois é preciso que alguém vá lá de vez em quando para pagar as contas e tirar o país do controlo do FMI) e dos seus aliados de “esquerda” (i.e., extrema esquerda, pois se ouvirmos os discursos de Portas e do Conselho Nacional do PSD rapidamente concluímos que, mesmo aí, o Estado é a solução para quase tudo).

Em termos económicos portanto, todos os governos do pós-25 de Abril foram de esquerda. Bem podem Cavaco ou PPC prestar “lip service” ao Liberalismo (aliás, até Sócrates o fez por vezes), a verdade é que todos – todos – aumentaram o peso do estado no PIB, a carga fiscal e a dívida estatal.

Mas mais do que isso, o preocupante é a forma como se argumenta em Portugal. Defender que o Estado pura e simplesmente não se meta em mais um assunto – seja o horário do comércio, seja a utilização de frequências 4G, seja a utilização de sal no pão – é sinónimo de extremismo ou, no mínimo, de falta de consideração e de compaixão pelos concidadãos. Se há crise, não deverá o estado tomar medidas energéticas para a resolver? Se há pessoas apoiadas pela Caritas ou pelo Banco Alimentar, não deverá o Estado tentar substituir-se a estas, pois nunca é de confiar em organizações privadas? A sério, a mentalidade deste país é tal, que o que eu discuto com liberais europeus neste país por vezes nem consigo explicar a uma pessoa comum (para já não falar de ideológicos empedernidos).

Sobre Hitler, creio que Daniel Hannan já bateu bastante no ceguinho.

Sobre o que provocou a crise: numa economia 50/50 como a nossa – ou seja, em que metade da economia é estado (socialista), metade é privada (capitalista) – pode-se fazer confusão se uma pessoa não acompanha as notícias e não presta atenção ao que se passa. O que provocou esta crise na Europa em geral e em Portugal em particular foi:

  1. O Estado fez vida de rico, gastando o que não tinha em PPPs de luxo (estradas novinhas que nunca tiveram muito uso, por exemplo), em aeroportos no meio do nada (em termos de população para alimentar um aeroporto, em Beja não moram 10% do mínimo dos mínimos), e em obras do parque escolar que eram verdadeiramente surreais e luxuosas. Podem ver mais detalhes nesta minha recolha.
  2. Para pagar tais devaneios, Sócrates não só fez crescer a dívida, como promoveu uma desorçamentação épica – com inúmeras contas que o Estado era responsável por pagar fora do número oficial – ao ponto de perder toda e qualquer credibilidade junto de quem lhe emprestava dinheiro (os “mercados”… que não passam de financeiros internacionais que até demoraram a reagir).
    Detalhe: Sócrates agarra-se sempre nos seus comentários ao facto de ter saído ainda com uma dívida oficial relativamente baixa e só PPC a ter aumentado. Canalha. Então e ter saído sem dinheiro nas contas correntes? Então e as PPP que ele deixou cujos pagamentos eram baixas nos anos dele e altas logo a seguir? Então e o salvamento aos bancos em que ele nos meteu – ao contrário do que aconselhavam os liberais? Então e as dívidas deixadas a fornecedores?
    Sobre este tema, por favor releiam o artigo do Carlos Guimarães Pinto.
  3. Após a perda de credibilidade, algumas torneiras começaram-se a fechar, Sócrates virou-se para Kadafi e afins, até chegar ao ponto que poucos emprestavam, os juros da dívida começaram a subir, o juro tornou-se insuportável, ele teve que se ajoelhar diante da Troika para ter dinheiro a juros razoáveis, e em desespero teve que começar a austeridade ele próprio – algo que ele negara mais de 3 vezes anteriormente.

Se Portugal, França e Itália não são países socialistas – com níveis de gastos públicos semelhantes aos nórdicos e ainda com a agravante de termos menos liberdades do que naqueles (Flexissegurança na Dinamarca e liberdades no ensino um pouco pelos diversos países, por exemplo) – eu na verdade não sei o que são países socialistas. Aparentemente, só a Coreia do Norte e Cuba cabem nos critérios apertados do João José.