Como Ser Pobre (1) – Casa grande na juventude

O meu dia-a-dia é literalmente apoiar as pessoas a pouparem para alguma situação que lhes aconteça. É um emprego interessante, com muito contacto pessoal, muitas histórias de vida, e sobretudo alguns heróis inesperados. Já tive caixas de supermercado exemplares e pessoas que ganham múltiplos do salário médio (salário médio são 833€, SMN era 64% deste) com a corda na garganta. Em 2018 cheguei aos 1.000 casos estudados, e já conheço pessoas de todos os quadrantes. Mesmo.

Esta série é assim uma reflexão sobre o que aprendi sobre como poupar, e porque não considero 250.000€/pessoa como uma quantia impossível para qualquer pessoa ter na reforma, sem ter de comer no restaurante do supermercado todos os dias. Já sei que qualquer um dos leitores do blog vai discordar de vários artigos desta série, e tem todo o direito disso, mas a ideia é dar alguns pequenos conselhos que o podem ajudar a poupar ou, alternativamente, a ter noção de que vive como um príncipe!

No caso de hoje consideremos duas mulheres: a Isabel e a Maria (nomes fictícios, óbvio). Ambas ganham mais um pouco que o salário médio. No entanto as 2 têm uma noção muito diferente da casa em que querem viver. A Isabel gosta de viver em casas pequenas: é menos limpeza, desincentiva à compra de quinquilharia, consome menos recursos. A Maria gosta de uma casa grande: gosta de ser dona de casa, permite ter junto de si as recordações de uma vida, consomem menos paciência quando quer ter alguém a dormir em casa.

Ambas devem actualmente 100.000€ ao banco. A Isabel vive numa casa de 40.000€, com 60m2,  e usou o restante dinheiro para comprar uma casa que um familiar precisou de vender, tendo-a alugado a um casal de desconhecidos que agora pagam uma renda de 400€/mês. A Maria comprou um apartamento para a vida, um T3 com boas áreas (a área metropolitana do Porto permite isso). Comprou ainda em planta e pediu alguns pequenos extras de conforto por um bom preço.

Gosto de ambas (são casos reais) e ambas são pessoas simpáticas e boas donas de casa. Mas a Isabel gastou dinheiro na sua casa “temporária” até ter filhos e investiu uma parte do dinheiro numa casa com retorno. Quando tiver filhos terá de sair dali e provavelmente terá uma casa como a Maria. Mas como esta partiu logo para a casa dos sonhos vai ter anos com quartos vazios e a conta esforçada.

Fazendo umas contas rápidas: 300€/mês (há custos inerentes à 2ª casa) são 3.600€/ano. Em 10 anos são 36.000€. 36.000€ aos 35 são muito mais aos 70: 51.000€ à taxa de 1%, 72.000€ à taxa de 2%.

Tudo porque a Isabel teve uma casa pequena dos 25 aos 35 anos, enquanto a Maria partiu logo para a “casa definitiva” aos 25 quando casou. E isto com ambas a ganhar o mesmo, esquecendo que a Maria gastou muito mais nos consumíveis da casa e nos serviços como água, luz, gás. Só no aquecimento… Agora já sabem como me sinto quando entro numa casa com quartos vazios e depois me dizem que aquele quarto está vazio desde o tempo dos Afonsinhos. (TIP: estes são ricos!)

lighthouse

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