Manuela Moura Guedes na Comissão de Ética

Manuela Moura Guedes traçou um quadro claro do tipo de poder que o actual governo de José Sócrates exerce na sociedade portuguesa. A rede é complexa, os tentáculos do polvo tocam a comunicação social, a Lusa, empresas públicas e privadas, a polícia judiciária, a procuradoria geral. O  polvo e os seus tentáculos têm vindo à luz do dia, mas sem consequências (uma vez que a justiça está ela própria sob a sua alçada). A única maneira de o debilitar é neutralizando as ventosas que sustêm os tentáculos, as pessoas que sustentam este emaranhamento de redes de poder. Trazer à luz caras, nomes, é essencial para que a tinta que o polvo naturalmente deita deixe de o proteger. E foi isso que Manuela Moura Guedes fez.

Desde a referência ao nome mais inócuo, como a referência ao jornalista da TVI Paulo Simão que categorizou publicamente o jornal de 6a como “uma vergonha” e que foi depois convidado para a Taguspark por Rui Pedro Soares, passando pela referência à directora da Polícia Judiciária de Setúbal, Alice Fernandes, como sendo pressionada e permeável às instruções dos assessores do primeiro ministro, ou ainda nomeando António Vitorino como o decisor do cancelamento do Jornal Nacional de 6ªF.

O pudor e desprezo com que se fala pejorativamente de «julgamento em praça pública» serve apenas o mecanismo asséptico de abusos de poder. O sistema não “cai de podre”, o sistema só cai pela neutralização pública dos nomes de quem possibilita que a promiscuidade política exista. Esses elementos devem ser identificados. Num sistema tentacular, é ingenuidade pensar que as instituições, naturalmente compostas por esses elementos, terão vontade ou capacidade para responsabilizar os elementos da rede. É na esfera pública que a responsabilidade se efectiva pois apenas ela possui naturalmente as ferramentas para impôr aos agentes a consciência de que as acções têm um preço, o preço do bom nome, sem o qual ninguém pode sobreviver socialmente.

Na comissão de ética houve quem quisesse que Manuela Moura Guedes se retractasse do seu estatuto de “comentadora”. A jornalista respondeu com o exemplo de outros jornalistas, a quem é aceite que façam comentários brejeiros sobre modelos e misses, sobre futebol, ou que assumam até o papel de “jornalista cronista”, tudo menos que se comente o poder. Sobre o poder ninguém comenta, ninguém aponta, ninguém nomeia. E nisto incluiu tanto a classe jornalista como a própria Assembleia. O rei vai nu. E o rei somos todos nós.

Não sou pressionável.

Infelizmente não pude ver as declarações de Felícia Cabrita ontem na Comissão de Ética.  Do resumo feito pelos jornais ficam três temas:

Evidência de uma relação de promiscuidade entre José Sócrates e o Procurador Geral da República:

“É muito estranho que o procurador-geral da República venha à liça com tanta frequência fazer uma defesa do primeiro-ministro (…) [usando] exactamente as mesmas expressões que José Sócrates, ao dizer que não há indícios criminais contra o chefe do Governo.” Ainda num tom crítico em relação a Pinto Monteiro, Felícia Cabrita deixou a pergunta: “Não há elementos suficientes para se abrir um inquérito? Se com tudo isto e com o mais que há o procurador-geral da República não deveria ter aberto um inquérito?”.

Recordar explicação de Pinto Monteiro aqui.

Esclarecimento sobre a identidade dos accionistas do SOL:

Entregou aos deputados fotografias dos acionistas do semanário Sol para esclarecer dúvidas que têm sido levantadas sobre quem são os donos do jornal e “mostrar transparência”. Felícia Cabrita esclareceu que os acionistas do Sol são o empresário Joaquim Oliveira e dois empresários africanos. “São empresários angolanos que nos libertaram da intenção do PS de liquidar financeiramente o nosso jornal”, afirmou.

Denúncia de pressões que a jornalista considera misóginas:

A jornalista afirmou não ser “pressionável” mas que, desde a investigação do caso Casa Pia, tem sido vítima de “um plano sórdido para denegrir” a sua imagem. “Usaram de forma muito vil o facto de ser mulher”, garantiu.

Sobre este tema ver aqui.

Leitura complementar sobre a primeira sessão da Comissão de Ética: O País dos Pessoalismos.

O país dos pessoalismos

Iniciaram-se hoje as audições na Comissão de Ética, subordinadas ao tema “exercício da liberdade de expressão em Portugal”. À parte o carácter positivo da iniciativa, toda a condução da mesma foi deplorável.

O enquadramento das entrevistas feitas pelos deputados tinha como pressuposto que era a opinião, a sensação, o sentimento dos entrevistados que importava investigar. A certo ponto, visivelmente incomodado com o carácter pessoalista das perguntas, José Manuel Fernandes respondeu que não estava ali para dar a sua opinião mas sim para relatar os factos. A subtil pedagogia de nada serviu e em nada alterou o pendor pessoalista das rondas de perguntas que se seguiram. A certo ponto, o ex-director do jornal Público era ele próprio um consultor ético, exigindo-se dele a sua «opinião», a sua «avaliação qualitativa», a sua «interpretação dos factos». Nesta fase fica claro que se teria poupado tempo e dinheiro pedindo-se directamente ao entrevistado que enviasse um parecer ético por escrito.

No intervalo das audições, uma jornalista da RTPN confirma a anterior evidência dizendo que a única função da Comissão de Ética é fazer um «relatório» das entrevistas, e que «a Comissão de Ética não é um julgamento. Não está ali para emitir juízos». Nesse caso pergunta-se, o que está ali a fazer? Uma Comissão de Ética tem por função apresentar um parecer sobre algo de  duvidosa correcção moral, o que implica critérios cuja aplicação conduz à possibilidade de emitir juízos morais. E emitir juízos morais é necessariamente sair da esfera da pessoalidade para entrar na do «julgamento». Sem isso estamos apenas a presenciar uma entrega de declarações ao vivo por parte dos entrevistados, à qual se poderia facilmente substituir a entrega de um documento escrito sem o elemento espectáculo.

De seguida veio Mário Crespo e começou o one man show.  O jornalista não só não se incomodou com o carácter pessoalista das questões (que incluiam perguntas sobre Bárbara Guimarães), como as amplificou de bom grado, aproveitando a plataforma para promover o seu livro e interrompendo os trabalhos para pousar de pé para os foto-jornalistas com fotocópias da sua “última crónica”. O momento alto anconteceu quando, interpelado por uma deputada do PSD que pedia a Crespo que dissesse «algo de concreto», Crespo respondeu afirmativamente ao pedido com algo que qualificou de «absolutamente concreto»: o sentimento que o envadiu quando recebeu uma t-shrirt (que fez questão de mostrar) em que se lia Eu ainda não fui processado por Sócrates.

Num país em que um sentimento é «absolutamente concreto», em que uma auto-proclamada Comissão de Ética se abstém de emitir juízos morais, e em que o pessoalismo é guia para a investigação objectiva, resta pouco a acrescentar sobre os problemas Éticos sobre os quais a Comissão se propôs investigar e que assentam, precisamente, na crença de que é possível pessoalizar a figura do Primeiro-Ministro, distinguindo nele a pessoa e o chefe de governo.