António Costa: Uma Análise Comparativa

antonioSão inúmeras as comparações que se vêm fazendo acerca da ascensão de António Costa, porque o povo é criativo e a ternura da arte e das letras tem-se feito bom desafogo para os males da vida. E certamente dói na existência assistir a tal figura ocupando o ofício chave da nação, na bonita ironia de ver o bobo da corte fantasiar o ministério numa corte de bobos.

Haverá quem o compare a um pirómano que, qual Nero, lançará o país nas chamas, dispenso provavelmente a harpa, pois não se lhe conhecem talentos nem dotes culturais e convenhamos que música ao povo já ele deu em demasiada. Mais ainda que esta comparação é injusta, pois o mundo é um lugar taciturno para os sonhadores e rapidamente – como com Tsipras – se faria à força do pirómano bombeiro. Bruxelas, qual pai severo e rigoroso, a bem do filho prontamente o colocaria na ordem, que o estudo é muito bonito e forma os homens para vida, que aquelas saídas ao Sábado são para acabar e que aquela moça que teima em frequentar a casa que nem uma arrendatária por caridade olha muito de esguelha e, já diziam os antigos, quem olha de esguelha não é de fiar.

Há também quem compare o ofício do ministério, com Costa, ao de uma mulher de má vida, pelo que terei, mais uma vez, que rebater o argumento, não por salvaguarda do próprio, mas por respeito a uma profissão que – salvo a condenação eterna por encomenda de algumas almas mais beatas – guarda mais respeito que o mesmo. E mais inadequada se põe esta analogia do ministério como bordel, quando temos em conta que é a raison d’etre deste deixar satisfação nos seus fregueses, que entram de calças na mão, satisfeitos à saída. Já o bordel do ministério de esquerda, como o quereis pintar, seria o imediato oposto, com o povo – ou parte dele – podendo até entrar satisfeito, mas saindo por certo com as calças na mão – sobrando em comum apenas os bolsos vazios.

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O Cavaquistão

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Eu concordo com os meus amigos de Esquerda: a vontade da maioria do povo português, expressa democraticamente, deve ser cumprida e portanto, dando seguimento a esta máxima, é bom que ouçam com a devida atenção as exigências de um Presidente da República que obteve quase 53% dos votos. Até porque, já que aparentemente os meus camaradas aprenderam recentemente a fazer contas, pelo que tenho visto, saberão observar que segundo a narrativa em voga, Cavaco Silva teve uma percentagem maior de votos que os partidos de esquerda somados e logo, não vendo cumprir o seu diktat, poderá muito bem deixar a governação de Portugal num limbo – bem mais sóbrio que divagações circenses – até novas eleições.

Os meus amigos de Esquerda, que já suspiravam em acenos de foices e martelos com a instituíção de uma república das bananas – quiçá da Madeira – terão que compreender que não residimos na Venezuela, nem na Argentina. Os meus caros têm a infeliz sina de ter nascido no Cavaquistão, onde Cavaco Silva, por mais que os anos passem por ele, por mais que contra ele atentem a cada intervenção sua e por mais que alguns – como eu próprio – concordem em dele discordar, continua a ser visto pela maioria – silenciosa – da população portuguesa como o seu garante de estabilidade, um papel que Soares, beijando a senilidade bolchevique a que a idade o conduziu, deixou escapar pela mesma gaveta onde antes havia guardado o socialismo.

Os quase 53% que votaram no Presidente da República não fazem grandes manifestações, não gostam de chinfrim, são gente de bem e de trabalho que mais quer é que o país ande para a frente. E estes, meus caros, são a maioria do povo português que vós teimais em achar que representais.  Temos pena, mas o choro é livre.

O dilema de Cavaco

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Excluindo um cenário de governo de iniciativa presidencial, único ponto no qual os quatro partidos de esquerda parecem ter sido consentâneos, restam duas opções a Cavaco Silva: 1) manter o actual Governo em gestão; 2) indigitar um governo minoritário de António Costa.

Admitindo que o objectivo de Cavaco é maximizar a «estabilidade», e sabendo que manter o actual Governo em gestão implica eleições em Julho de 2016, esta é uma solução admissível que define o limite inferior. Nada menos do que isto é, portanto, admissível.

Ora, se António Costa for indigitado, o seu primeiro acto governativo consistirá na apresentação do Orçamento de Estado. Se não houver maioria para o aprovar o Governo cai, ficando em auto-gestão até Julho de 2016. Contudo, a turbulência é consideravelmente maior do que manter o actual governo em auto-gestão.

Assim sendo, Cavaco Silva deve exigir, condição sine qua non, que os quatro partidos que sustentam este governo minoritário do PS concordem em viabilizar, no mínimo, o Orçamento de Estado de 2016. Nada menos do que isto é admissível.

Bananas

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Perdoar-me-ão todos aqueles que se imbuíam na esperança de que a solução a ser proposta por Cavaco fosse uma first-best, uma second-best, ou sequer algo remotamente parecido com uma solução óptima. Não foi, nem nunca poderia ser, mas admiro a inocência. Com estes agentes políticos, o conjunto de possíveis soluções estará sempre majorado pelo melhor dos piores. Que é como quem diz, pelo menos mau.

Não compreendendo o pensamento político e económico de Cavaco, especialmente o pensamento, parece-me tácito que ele tentou minimizar os danos. Para tal, teria de atentar às seguintes restrições: 1) eleições antecipadas seriam o pior cenário possível; 2) é importante preservar a coligação PSD/CDS; 3) não seria aceitável que Portas beneficiasse com a birra, naquilo que seria uma clara declaração de jurisprudência de que a zaragata política compensa; 4) é fundamental incluir o PS na execução do plano que o próprio PS ajudou a partejar e do qual foi o principal mandatário; e, o mais bizarro, 5) uma revanche pessoal de Cavaco contra Portas.

Pesado tudo isto, a única solução que atendia a todas estas restrições era tão somente o cenário de um Governo de salvação nacional, embora sem os esteróides de um elenco tecnocrata. Cavaco optou por um Governo não de iniciativa mas de apoio presidencial, prescindindo do ónus de orientar as escolhas. Logo, não virá Monti, virão outros tantos de pedalada igual ou semelhante à atual.

Quem esperava melhor do que isto ou é inocente ou enganou-se no país.

“Politics is the art of looking for trouble, finding it everywhere, diagnosing it incorrectly and applying the wrong remedies.”

― Groucho Marx

Deixem-me rir… (Versão: Vitor Gaspar é ultraliberal e culpado pelo estado de Portugal)

“Cavaquistas” querem Vitor Gaspar fora por seu um ultraliberal.

Antes de mais, quem são esses Cavaquistas? Por onde andam? O artigo não refere um único nome. Se têm opiniões tão fortes, que venham a público assumi-las!

Depois, querem-no fora por ser um “ultraliberal”. O que é um “ultraliberal”. Na concepção deste liberal, há liberais soft (como Vitor Gaspar), clássicos (como eu) e ultraliberais (como alguns anarquistas que eu conheço pessoalmente). É risível que Gaspar seja um “ULTRA”.

“Eles” (quem, onde , quando, não se sabe portanto…) querem o “ultraliberal” fora, portanto. Porquê? Porque “está a “dar cabo” do modelo social e económico construído após o 25 de Abril“. Este curioso comentário merece-me os seguintes reparos:
1. Quem destruiu o modelo social foi quem deixou as contas públicas profundamente no vermelho, como creio ser do conhecimento dos “Cavaquistas” sondados pelo jornalista;
2. Portugal vive claramente acima das possibilidades dadas pela sua produtividade. O elevado desemprego num contexto de salário mínimo muito abaixo dos restantes parceiros Europeus;
3. O Modelo Social a que se referem é insustentável e nem os ricos países nórdicos o aguentaram e dele já se estão a afastar há algum tempo;
4. O povo tem dificuldade em perceber quem são os responsáveis e como ultrapassar a actual crise e estes senhores, que deveriam ajudar, só prejudicam com a sua busca de protagonismo para o seu “líder” numa altura em que este ainda se está a tentar recompor da sua gafe;
5. O que me lembra de dizer que se ele e “eles” aceitarem reduzir o seu peso para os cofres públicos, sobrará mais dinheiro para ajudar o próximo.