Vivemos em Socialismo, ou não?

Há uma certa limitação em alguns cérebros de esquerda, ora dá para achar que José Sócrates deu “baile” no seu mais recente comentário dominical, ora dá para escrever disparates destes.

Vamos primeiro clarificar conceitos: um governo economicamente Liberal reduziria o peso do estado na Economia, a carga fiscal e a dívida pública. Por oposição, um governo economicamente Socialista faria o contrário: mais estado na Economia, mais carga fiscal, e mais dívida pública. E João José Cardoso deveria ter noção desta separação.
E que, claro, Bruno Maçães se referia a esta classificação e não a uma dominância do PS (que não, não esteve 35 anos no poder, pois é preciso que alguém vá lá de vez em quando para pagar as contas e tirar o país do controlo do FMI) e dos seus aliados de “esquerda” (i.e., extrema esquerda, pois se ouvirmos os discursos de Portas e do Conselho Nacional do PSD rapidamente concluímos que, mesmo aí, o Estado é a solução para quase tudo).

Em termos económicos portanto, todos os governos do pós-25 de Abril foram de esquerda. Bem podem Cavaco ou PPC prestar “lip service” ao Liberalismo (aliás, até Sócrates o fez por vezes), a verdade é que todos – todos – aumentaram o peso do estado no PIB, a carga fiscal e a dívida estatal.

Mas mais do que isso, o preocupante é a forma como se argumenta em Portugal. Defender que o Estado pura e simplesmente não se meta em mais um assunto – seja o horário do comércio, seja a utilização de frequências 4G, seja a utilização de sal no pão – é sinónimo de extremismo ou, no mínimo, de falta de consideração e de compaixão pelos concidadãos. Se há crise, não deverá o estado tomar medidas energéticas para a resolver? Se há pessoas apoiadas pela Caritas ou pelo Banco Alimentar, não deverá o Estado tentar substituir-se a estas, pois nunca é de confiar em organizações privadas? A sério, a mentalidade deste país é tal, que o que eu discuto com liberais europeus neste país por vezes nem consigo explicar a uma pessoa comum (para já não falar de ideológicos empedernidos).

Sobre Hitler, creio que Daniel Hannan já bateu bastante no ceguinho.

Sobre o que provocou a crise: numa economia 50/50 como a nossa – ou seja, em que metade da economia é estado (socialista), metade é privada (capitalista) – pode-se fazer confusão se uma pessoa não acompanha as notícias e não presta atenção ao que se passa. O que provocou esta crise na Europa em geral e em Portugal em particular foi:

  1. O Estado fez vida de rico, gastando o que não tinha em PPPs de luxo (estradas novinhas que nunca tiveram muito uso, por exemplo), em aeroportos no meio do nada (em termos de população para alimentar um aeroporto, em Beja não moram 10% do mínimo dos mínimos), e em obras do parque escolar que eram verdadeiramente surreais e luxuosas. Podem ver mais detalhes nesta minha recolha.
  2. Para pagar tais devaneios, Sócrates não só fez crescer a dívida, como promoveu uma desorçamentação épica – com inúmeras contas que o Estado era responsável por pagar fora do número oficial – ao ponto de perder toda e qualquer credibilidade junto de quem lhe emprestava dinheiro (os “mercados”… que não passam de financeiros internacionais que até demoraram a reagir).
    Detalhe: Sócrates agarra-se sempre nos seus comentários ao facto de ter saído ainda com uma dívida oficial relativamente baixa e só PPC a ter aumentado. Canalha. Então e ter saído sem dinheiro nas contas correntes? Então e as PPP que ele deixou cujos pagamentos eram baixas nos anos dele e altas logo a seguir? Então e o salvamento aos bancos em que ele nos meteu – ao contrário do que aconselhavam os liberais? Então e as dívidas deixadas a fornecedores?
    Sobre este tema, por favor releiam o artigo do Carlos Guimarães Pinto.
  3. Após a perda de credibilidade, algumas torneiras começaram-se a fechar, Sócrates virou-se para Kadafi e afins, até chegar ao ponto que poucos emprestavam, os juros da dívida começaram a subir, o juro tornou-se insuportável, ele teve que se ajoelhar diante da Troika para ter dinheiro a juros razoáveis, e em desespero teve que começar a austeridade ele próprio – algo que ele negara mais de 3 vezes anteriormente.

Se Portugal, França e Itália não são países socialistas – com níveis de gastos públicos semelhantes aos nórdicos e ainda com a agravante de termos menos liberdades do que naqueles (Flexissegurança na Dinamarca e liberdades no ensino um pouco pelos diversos países, por exemplo) – eu na verdade não sei o que são países socialistas. Aparentemente, só a Coreia do Norte e Cuba cabem nos critérios apertados do João José.

A barba de Daniel Oliveira

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Daniel Oliveira arqueia o arco, com a autoridade que a sua pujante barba revolucionária lhe concede, a todos aqueles que, destituídos do opulento pêlo facial, ousem ser “novos”, “imberbes” ou ter uma opinião contrária à sua. Prática esta que, imbuída do espírito soviético de suprimir contra-revolucionários que atentem ao ideal por eles idealizado, aponta a tudo o que mexe.

Ou se não mexe, fala. Que as palavras são inimigas da revolução, e cale-se o mensageiro na esperança de calar a mensagem. Da guilhotina de Robespierre à execução de carabina para a descredibilização numa crónica, a diferença é a democracia que lhes foi atando as mãos. A motivação, essa, está lá, de bala ou esferográfica na lapela.

E como a história avança por força destes, ou assim reza a dialética que os rege, há que definir bem o inimigo. “Fascista” caiu em desuso, não fosse este um termo que, ironicamente, cola igualmente bem às autocracias sanguinárias da extrema-esquerda, apenas com ligeira mudança de estilo, de retórica e de eye liners, mas igual ou pior resultado em mais um ensaio — porque aquele não era a sério — na instalação da prometida sociedade socialista.

E assim, com enorme naturalidade, Daniel Oliveira, a quem barba não falta, recorde-se, ex-militante do PCP e militante do moderadíssimo Política XXI, um punhado de anos não faz que reintegrado com outros arautos da moderação como o PSR ou a UDP numa amálgama política a que chamam Bloco de Esquerda, erguido na sua fausta altivez, considera oportuno chamar a alguém de “fanático ideológico”.

Entenda-se: Daniel Oliveira está nú, excepto onde a sua pilosidade oculte, e imbuído de uma qualquer superioridade moral que tem tanto de superior como de esquizofrénica, acha-se no direito de apelidar alguém de rôto.

Que Daniel Oliveira não concorde com o Governo ou com os seus representantes, não é propriamente novo. Aliás, é um bom semáforo sinalizador da qualidade de uma determinada proposta. Se passar o crivo voraz do nosso sénior barbudo, é porque foi mal delineada. Que a crítica seja a esse mesmo entendimento ideológico e político de determinada matéria, embora também não seja novo, é compreensível e de salutar.

Pouco salutar é esta reiteração da política baixa e demagógica de espoliar uns quantos que se atravessem no seu caminho do absolutismo moral. Uma crónica estuprada por ataques pessoais, o anúncio da denúncia é óbvio: Daniel Oliveira é isto. A sua barba, e pouco mais.

Adenda: este artigo complementa este e é uma reflexão à crónica de Daniel Oliveira no Expresso onde este se aproveita do espaço para delapidar o Bruno Maçães e o Miguel Morgado, acusando-os de fanatismo ideológico, serem novos e imberbes.