Criptomania: 6 meses depois

No dia 13 de Novembro de 2021 publiquei no blog um post com o título “Criptomania”. Desde essa data, 6 meses depois, o preço da criptomoeda Bitcoin desceu mais de 50%. Será que, por coincidência, aquele post acertou no início da fim da criptomania?

Criptomoedas: “fez-se história no mercado imobiliário”

Na página do Facebook da imobiliária Zome ontem, dia 5 de Maio de 2022, informam, sob o título de “Fez-se história no mercado imobiliário” que:

A primeira operação de venda de um imóvel com criptomoeda da Europa foi hoje realizada com a participação da ZOME, em conjunto com a sociedade de advogados Antas da Cunha ECIJA, o Bastonário dos Notários em Portugal e outros parceiros do Crypto Valey, na Suiça.
(…)
Esta escritura representa um marco histórico, a transferência de um ativo digital para um ativo físico – uma casa – sem qualquer conversão para euros.
Acreditamos que se abre hoje um novo mundo de possíveis negócios no setor imobiliário!

Consultando a cotação da criptomoeda Bitcoin (imagem abaixo), verificamos que foi um mau dia para o vendedor da casa.

Ao meio-dia de ontem a cotação da Bitcoin estava nos 37.430,94 EUR. Hoje, pouco mais de 24 horas depois, a cotação desta criptomoeda está em 33.840,17 EUR. Uma descida de 9,59%.

Pode ser que a cotação da Bitcoin volte ao valor de venda (ou superior). Mas também pode continuar a descer…

As moedas digitais precisam de governança?

Todos terão ouvido falar da Bitcoin, uma moeda digital cuja existência é exclusivamente virtual. A Bitcoin opera em cima de uma tecnologia tão disruptiva quanto a internet, a blockchain. A blockchain é uma tecnologia conceptualmente simples, mas com um enorme potencial: imagine que quer efectuar uma transacção com alguém; essa transacção pode ser enviar uma moeda, assinar um contrato de trabalho ou vender uma casa. No mundo actual teria de solicitar a ajuda de um advogado e depois dirigir-se a um notário para validar e celebrar o contrato. Para tal, precisa de recorrer a uma entidade central, neste caso um notário. Fast-forward umas décadas, estamos no século XXI e a blockchain é ubíqua. Em vez de se deslocar ao notário, elabora o contrato com a outra parte e regista-o na blockchain. O seu contrato estará para sempre registado numa enorme rede descentralizada, sem possibilidade de fraude ou desaparecimento.

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Fonte: Relatório “Finance & Development” do FMI, Junho de 2016.

Os fundadores da Ethereum perceberam o potencial da blockchain, a tecnologia que sustenta a Bitcoin. Perceberam que, para lá das moedas digitais, outras coisas poderiam estar registadas neste livro de contabilidade descentralizado. Contratos, por exemplo. Mais ainda, contratos inteligentes. Imagine que tem uma empresa e que recebe uma determinada matéria-prima de um fornecedor. No passado, teria de ligar para o fornecedor, encomendar peças, aguardar que cheguem, registar a sua chegada, receber a factura e enviá-la para o departamento de contabilidade e pedir o seu pagamento a 30 dias. Fast-forward uns anos, e a sua empresa usa um smart contract registado na blockchain. No smart contract está registado que, assim que receber a mercadoria, o pagamento a 30 dias é automaticamente desbloqueado. A empresa de entregas também faz parte do smart contract, e consegue dar indicação a ambas as partes de quando a mercadoria foi entregue.

E com o Ethereum chegou a DAO, Decentralized Autonomous Organization. A DAO é uma startup que percebeu o potencial da blockchain, conseguindo levantar mais de 110 milhões de dólares numa primeira ronda de crowdfunding. A DAO permite que as empresas consigam facilmente usar esta tecnologia emergente para agilizar as suas operações. O caso de maior sucesso é o da Arcade City, um concorrente da Uber e da Lyft, que permite que taxistas/condutores e passageiros interajam directamente, sem necessidade de recorrer a uma entidade centralizada (neste caso, a Uber ou a Lyft).

Mas a DAO é feita por humanos, e tudo o que envolve humanos está condenado a ter falhas. E a indelével natureza humana faz com que outros humanos explorem essas mesmas falhas. E o DAO foi hackado. Sem grandes detalhes técnicos, O DAO permite que sejam efectuadas operações semelhantes a stock splits, isto é, dividir contratos de acções em dois. De uma forma genial, alguém conseguiu explorar um bug no desenvolvimento da função que executa o split, drenando os fundos do DAO (parte dos vários milhões que levantou) para um DAO-filho. Quase 75 milhões de dólares à taxa de câmbio do ETH quando o incidente ocorreu.

E chegamos à pergunta que originou este artigo. Houve ou não houve fraude? E havendo, deverá haver intervenção? A comunidade divide-se. Por um lado, há os que consideram fundamental que haja algum mecanismo de governança, algo que a blockchain efectivamente permite: basta que uma maioria de 51% decida fazer um fork (uma cópia autónoma da blockchain) e seguir essa ao invés da original. Nessa, a transação fraudulenta desapareceria. Uma espécie de rollback. Outros consideram que não deverá existir nenhuma intervenção, que abre um precedente perigoso, e que este episódio deverá servir de exemplo. A verdade – dizem – é que o hacker não usou mais do que as ferramentas que estavam disponíveis, embora de uma forma não óbvia – conseguiu chamar recursivamente a função splitDAO, algo que não era suposto poder fazer.

Este dilema que divide agora a comunidade de Ethereum e do DAO (o DAO opera em cima da rede Ethereum) é interessante, e resume-se a uma pergunta: deverá existir governança, semelhante às instâncias judiciais, que existem na vida real? Como mediar casos não óbvios, que procuram explorar a rede ou contractos mal elaborados? Qualquer sistema humano estará sujeito a falhas, e o processo de aprendizagem é interminável. O sistema é robusto sem um mecanismo de governança? É confiável?

Independentemente da resposta, o sistema já se tornou mais robusto – estamos todos mais atentos. E mesmo que a solução envolva um mecanismo de governança, também ele é revolucionário – serão os membros da comunidade a estipular essa mesma governança. Uma espécie de tribunal de jurados. Quem diria, uma tecnologia revolucionária a encontrar soluções num mecanismo legal com centenas de anos.

Conferência Call for Liberty II

Depois do sucesso de Conferências como “Conferência do Liberalismo Clássico” e “Call for Liberty“, o Instituto Mises Portugal organiza este Sábado a “Call for Liberty II“.

A conferência é no próximo Sábado (27 de Junho) na Nova School of Business and Economics, em Lisboa. Das 14 às 20h, estarão em debate os temas:

  • Croney Capitalism vs Free Market Capitalism – por Helio Beltrão (Pres. Mises-BR)
    (Austrian Scholars Conference, Google+ sobre Mises-BR, 1º Hangout Mises.BR)
  • A Cultura Intervencionista no Brasil – por Bruno Garschagen (Mises-BR) (Vídeos)
  • Portugal 2016: Como Encolher o Estado – por Miguel Botelho Moniz, Mário Amorim Lopes e Ricardo Campelo de Magalhaes (O Insurgente)
  • Bitcoin: As Criptomoedas como Foco de Liberdade – por Carlos Novais (Causa Liberal) e Pedro Cunha (1º Português a transaccionar um imóvel em Bitcoin)

A conferência na Nova é gratuita, bastando para isso inscreverem-se no evento de Fb.

Call for Liberty - Mises Portugal

Germany Officially Recognizes Bitcoin As Private Money

bitcoinDe acordo com esta notícia da CNBC, “Virtual currency bitcoin has been recognized by the German Finance Ministry as a “unit of account”, meaning it is now legal tender and can be used for tax and trading purposes in the country.”

Mais surpreendente ainda é esta declaração de Frank Schäffler, membro do comissão das finanças do parlamento alemão e que foi dos principais responsáveis pela classificação legal do Bitcoin “We should have competition in the production of money. I have long been a proponent of Friedrich August von Hayek scheme to denationalize money. Bitcoins are a first step in this direction.