Fraudes e autoridades

“Fraudes e autoridades” de Pedro Bráz Teixeira (i)

Conheci pessoalmente Artur Baptista da Silva no passado dia 17 de Novembro, em que ambos fomos convidados para intervir numa palestra, subordinada ao tema “Há alternativas ao euro?”, promovida pelo Movimento Internacional Lusófono. Aquele orador apresentava-se como coordenador do Programa das Nações Unidas para o De- senvolvimento (PNUD). A sua intervenção estava pejada de números, metade dos quais estavam errados.

Soube-se há poucos dias que Baptista da Silva, que recebeu uma extraordinária atenção por parte da comunicação social e de outras instituições, não ocupava nenhum dos cargos de que se dizia titular, além de terem sido desenterrados esqueletos do seu passado, da mais diversa índole e gravidade.

Imediatamente foi apodado de “fraude”. Mas há aqui duas questões, completamente distintas, que convém analisar. Por um lado, há a fraude óbvia de se fazer passar por algo que não era, por outro, há a fraude do conteúdo das suas afirmações.

Em relação à primeira fraude, ela é clara e não merece grande discussão. O segundo aspecto é que merece uma reflexão maior. Imaginemos que este suposto funcionário da ONU ocupava mesmo o cargo que dizia exercer. Teria algum jornalista contestado os seus erros factuais ou os seus “raciocínios”?

Recomendo a leitura integral do artigo.

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Engrupidos

Começa assim o artigo de Nicolau Santos no Expresso do último Sábado (22.12.12)

Artur Baptista da Silva é um ilustre desconhecido para a maioria dos portugueses. Mas não devia ser um ilustre desconhecido para o Governo. Em primeiro lugar, porque coordena a equipa de sete economistas que o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, decidiu criar para estudar o risco geopolítico e social na Europa do Sul como resultado dos programas de ajustamento. E em segundo, porque é ele que ficará encarregado do Observatório Económico e Social das Nações Unidas para a Europa do Sul, a instalar em Portugal a partir de 2013.

Notícia no Sol online (23.12.12)

Apresentou-se como coordenador de um centro de estudos das Nações Unidas e foi entrevistado por jornais, rádios e televisões portugueses, propondo a renegociação da dívida portuguesa. Mas o dito observatório não existe e ninguém na ONU conhece o suposto «economista» Artur Baptista da Silva, que poderá ser um impostor.

A conclusão é da SIC, televisão ‘enganada’ por Baptista da Silva, à semelhança do Expresso e da TSF, entre outros órgãos que deram grande destaque às declarações do suposto especialista das Nações Unidas. A televisão de Carnaxide afirma que o português foi condenado nos anos 80 por uma burla milionária a uma empresa. O canal contactou ainda várias fontes na ONU, que afirmaram desconhecer tal nome e que apontaram a inexistência do suposto observatório liderado pelo ‘académico’.

Baptista da Silva tinha feito manchetes ao defender que Portugal estaria «de joelhos dentro de seis meses» se não renegociasse 41% da dívida, declarando ser essa a opinião institucional das Nações Unidas. Ainda na sexta-feira, o suposto economista tinha sido um dos convidados do Expresso da Meia-Noite, na SIC Notícias.

Não há nos sites da ONU qualquer referência ao nome de Baptista da Silva, nem o dito centro de estudos para a Europa do Sul aparece mencionado. Surgem também dúvidas sobre o currículo académico do português, que diz ser doutorado por uma universidade norte-americana e mestre por uma universidade belga.

Esta noite, a TSF publicou um esclarecimento a admitir dúvidas sobre a identidade e credenciais de Baptista da Silva. À rádio, o próprio manteve a sua versão dos factos mas não soube fazer prova de que seria funcionário da ONU. A TSF retirou do seu site todos os conteúdos relacionados com o possível impostor.