Momento Monty Python Do Dia

Ana Gomes é uma séria candidata a humorista do ano (imagem via Fernando Melro dos Santos no Estado Sentido).

AnaGomes

Retratar o irretratável

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Existem bons e maus profissionais em todas as profissões, e a política não será excepção. O que torna a política peculiar é o microfone que lhes é posto à frente, assim amplificando alguns dos disparates que ficariam retidos, entre tremoços, numa qualquer mesa de café. E, no caso dos políticos mesmo incapazes, o microfone é acompanhado de um bilhete para o Parlamento Europeu — via TAP —, uma promoção a alto pontífice da irrelevância, em que a personagem incómoda é afastada, não obstante o alto rendimento que irá auferir. Também aqui a política é peculiar, premiando financeiramente os incómodos.

Este tratamento, que encontra aliás as suas origens na diáspora dos pilgrim fathers para os EUA, ou nos navios que zarparam rumo à Austrália para estabelecer uma colónia penal, tem apenas um senão, resultado da inexorável evolução tecnológica: a tecnologia. No passado, mensagens e cartas ficariam retidas, e as que chegavam, chegavam com meses de atraso. Hoje, redes sociais como o Twitter dissolvem estas barreiras, que tão úteis nos eram, como a eurodeputada Ana Gomes faz questão de nos recordar.

Na sequência do infeliz incidente ocorrido no jornal satírico Charlie Hebdo, Ana Gomes apressou-se a encontrar uma correlação com a austeridade. Tudo isto era, diz-nos a eurodeputada tornada socióloga Tang, bastando mexer, um produto da austeridade, através do intrincado raciocínio em que austeridade gera desemprego, desemprego gera pessoas desocupadas, e pessoas desocupadas pegam em AK-47s e vão assassinar editores de jornais.

Não é o aproveitamento político que me desperta particular interesse, ou o argumento rebuscado, que tal como a personagem, é até bastante simples. É a forma inimputável como pessoas que desempenham importantes cargos debitam profundos e ofensivos disparates.

A inevitável austeridade que adveio da consolidação de contas há muito por consolidar teve, com efeito, um impacto amplo e negativo. Pena que não tenha chegado a Bruxelas e, em particular, a Ana Gomes, em significativo défice de austeridade no histerismo, parcimónia no disparate, e seriedade nas palavras.

A lógica da batata

batata

A eurodeputada Ana Gomes consegue associar a fome no seu concelho (“Sintra, vê-se forçad[a] agora a abrir as cantinas das escolas não apenas aos alunos com fome, mas também aos seus pais desempregados.”) ao Luxleaks atribuindo aos baixos impostos no Luxemburgo a falta de “dinheiro” – público e privado – para investir em emprego e crescimento“.

Começo por constatar que olhando para o histórico do investimento público (especialmente com co-financiamento da UE) existem fundadas dúvidas sobre a sua eficácia. E ainda que pudesse ter um efeito positivo no curto prazo, ainda agora vivemos a ressaca de uma década de “investimento público” com consequências desastrosas. Mas o que mais espanta é a associação que a Dra Ana Gomes faz entre os impostos e o investimento. Segundo a sua inabalável fé, mais impostos trariam mais investimento, mais emprego e (logo) menos fome. Não há paciência. É ignorãncia pura.