A culpa não é sempre dos alemães

Rui Ramos no Observador

Não foi, porém, a Alemanha que forçou a adesão dos países do sul à moeda única. Os alemães desconfiavam do euro, e os seus governantes receavam a companhia da Grécia. Foram os países do sul que se impuseram, e se os nórdicos têm culpa, é talvez a de não terem resistido mais. Entretanto, a paixão grega pelo euro não acabou. Os gregos, hoje, parecem não querer pagar a dívida ou ajustar a despesa ao produto nacional. Mas continuam a querer o Euro, ou mais exactamente, o dinheiro estável e barato que o Euro significa, e que nunca a Grécia conheceu noutro regime. Mas querendo os benefícios, dispensam as regras. Porque é que julgam que isso será possível?

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O Efeito Multiplicador Da Austeridade Alemã

As contas públicas da Alemanha registaram em 2013 um excedente de 300 milhões de euros, indicam os dados definitivos publicados hoje pelo instituto federal de estatística alemão Destatis” (fonte).

Uma cautela imperativa

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O Bundesbank anunciou esta Segunda Feira uma posição que já vinha sendo aconselhada pela BCG (Boston Consulting Group), mas que agora se torna premente dada a adopção institucional da proposta. O banco central alemão afirma que não fará sentido socorrer países em dificuldades financeiras sem que, primeiramente, estes taxem os seus cidadãos. Medida similar à efectuada no Chipre, o bail in tem dois objectivos imediatos: garantir internamente o capital necessário para onerar as dívidas externas do Estado e, não menos importante, reduzir o risco moral associado à garantia implícita de um programa de assistência financeira. Esta segunda nota é especialmente relevante para Portugal, o único país da União Europeia que teve três programas de assistência em 37 anos.

Uma de três e meio

Findo o programa de assistência financeira, existem três possíveis desfechos: a) um segundo programa de resgate;  b) um programa cautelar; c) uma saída limpa. No primeiro caso, o programa de assistência financeira garantiria a liquidez necessária por mais uns anos mas ao mesmo tempo sinalizaria aos mercados a já por demais evidente debilidade da economia e das finanças públicas portuguesas. A segunda hipótese pressupõe uma linha caucionada pelos mecanismos de estabilidade europeia, já sem FMI, mas com a presença de entidades externas que pressionarão a tomada de importantes reformas estruturais. A última, e talvez mais arriscada, seria uma saída a nú. É esta última que acarreta os riscos de um bail in.

Uma saída limpa, mera ilusão de quem a aclama, não seria menos débil. Portugal ainda recupera de uma recessão; as famílias, as empresas e o Estado ainda estão em processo de consolidação e, talvez mais relevante, a trajectória da dívida soberana ainda não foi travada, longe de ser sustentável. A despesa corrente foi freada iminentemente com recurso a medidas espúrias que serão revertidas assim que o congelamento dos salários e as taxas e sobretaxas caduquem. Como também vem sendo hábito, parte da consolidação foi feita recorrendo a receitas extraordinárias.

Bail in, o pior desfecho para Portugal

É precisamente esta terceira hipótese e meia que poderia conduzir a um bail in, o pior dos cenários para Portugal e para os portugueses. A economia portuguesa está descapitalizada. Taxar mais os portugueses, ainda que de uma só vez, iria condicionar drasticamente a poupança, o investimento e o consumo e, por conseguinte, o crescimento da economia e a criação de emprego. Iria submeter Portugal a uma profundíssima recessão, recessão essa que iria fazer com que o mais arauto dos anti-austeritários ansiasse pelo retorno a 2013.

A imposição do bail in é compreensível quando nos colocamos na posição do credor. Basta recordar a reacção do português continental perante o anúncio dos desvarios cometidos pelo outro português, o insular. Seria, contudo, o pior que poderia acontecer a Portugal. Como tal, e para bem de todos nós, urge pedir às instâncias europeias um programa cautelar que garanta, ainda que não seja utilizado, os recursos financeiros necessários e mantenha uma delegação europeia que supervisione a implementação das reformas estruturais. Esta posição não deverá ser interpretada como submissão mas como um racional e imperativo sentido de responsabilidade. À cautela.

Nota: este artigo deverá ser complementado com as oportunas reflexões do Ricardo Arroja e do Camilo Lourenço, aqui e ali.

Adenda: em comentário, o JT refere que o estudo da BCG recomenda um one-off capital levy a todos os países da União Europeia e não apenas ao país visado. Isso muda radicalmente as implicações políticas do estudo da BCG. No entanto, a posição do Bundesbank mantém-se. O imposto seria ao país.

FDP

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O Free Democratic Party (FDP) é um partido liberal clássico alemão que apoia fortemente os direitos humanos, as liberdades civis e o internacionalismo. Mais ainda, defende a liberdade económica e a prossecução de políticas de mercado livre e de privatização.

O FDP geralmente coliga-se com o CDU, o partido democrata cristão, mas a votação é independente. Das últimas votações resultou a seguinte distribuição de deputados:

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Os liberais têm, portanto, uma relevante representação parlamentar. Quase 1/6 do Bundestag, o Parlamento Alemão.

Em Portugal, FDP não seria mais do que um dos frequentes e pouco criativos insultos que se atiram a tudo e todos que se oponham ao progresso socialista. Vulgo, os neoliberais. Acresce a outras acusações menos diretas mas igualmente inusitadas: que queremos empobrecer o mundo em geral e os pobres em particular, e que, previsivelmente, estamos ao serviço do grande capital e da grande ordem financeira global.

De facto, contrapondo com o espectro político alemão, existe uma enorme pobreza intelectual e política em Portugal. A Assembleia da República é, em menor ou maior grau, socialista. E assim é a maioria da população.

Quanto a nós, liberais e mesmo socialistas portugueses, resta-nos agradecer a existência de um Partido Liberal Alemão que tem, direta ou indiretamente, placitado um apoio financeiro a Portugal. Sempre atual, hoje e sempre, o socialismo é isso mesmo. Gastar o dinheiro dos outros. Portugal fá-lo com uma enorme mestria.

Reality check

Two thirds of Germans think they would be better off with the Deutschmark instead of the euro, according to a survey published on Monday (17 September) by Bertelsmann Stiftung, a German foundation

As sondagens mostram que a chanceler é, de longe, o político mais popular do país. Se as eleições fosse hoje, Merkel ganharia com 50% dos votos

ADENDA:
Jens Weidmann said that efforts by central banks to pump money into the economy reminded him of the scene in Faust, when the devil Mephistopheles, “disguised as a fool”, convinces an emperor to issue large amounts of paper money. In Goethe’s classic, the money printing solves the kingdom’s financial problems but the tale ends badly with rampant inflation.

Comenta a propósito o Luciano Amaral: Só um alemão para introduzir dimensão literária no prosaísmo da economia. Não é bem coisa que se veja Carlos Moedas a fazer.Mas Weidmann esteve mesmo muito bem, já que afinal Goethe também foi ministro das Finanças. É como diria Maria Teresa Horta: a literatura está por todo o lado.