Sobre a dialética idealista no pensamento da extrema-esquerda

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Numa perspectiva meramente contemplativa, é interessante acompanhar o que se está a passar no 5dias, o último reduto da veneração e admiração marxista-leninista — com rasgos trotskistas devidamente saneados — na blogosfera portuguesa. Sem querer tornar desnecessária uma visita ao blog, que não é, tudo se resume à forma como diferentes pessoas interpretam a acção e, talvez, a razão de Álvaro Cunhal nos períodos que antecedem e sucedem o 25 de Abril. Em boa verdade, esse é o pretexto. O que os divide é muito mais.

Diferentes pessoas. O diferente colide imediatamente com a ideia de homogeneização igualitária que caracteriza a extrema-esquerda. Não somos muitos, não somos vários. Somos um todo, afirmam eles. Abaixo o indivíduo, viva o colectivo, rogam. Persiga-se e anule-se a burguesia — no sentido bélico que o estalinismo tão bem preconizou — sobre a qual o proletariado caminhará.

Seria meramente irónico, não tivesse sido outrora mortífero, a forma como a história se repete no marxismo. A perseguição de Stalin aos socialistas revolucionários e a Trotsky é a aplicação prática da ideologia que os torna reféns. Em última análise, é a endogeneização da dialética idealista de Hegel: a tese, a antítese e a síntese que procura tudo abarcar num pensamento único, como assim defendia também Cunhal.

De facto, não poderia ser de outra forma. Numa religião que apregoa a ausência da individualidade, de vontades e preferências diferentes e a total anulação do indivíduo, o único caminho é a perseguição e a ruptura.

É também irónico o facto de que a revisão materialista de Marx à dialética de Hegel reflicta tão bem o mecanismo intrínseco que faz o comunismo mexer-se, alterar-se e entrar em conflito. Em boa verdade, Karl Marx tinha razão: o mecanismo é auto-destrutivo. Enganou-se foi quanto ao objecto de estudo. Não era o capitalismo. Afinal, era a sua própria ideologia que continha as sementes da auto-destruição.

E ainda bem.

Raquel Varela queria que andássemos nus?

Raquel Varela, no seu estilo inconfundível:

Anda um vídeo a circular na Internet de um jovem [adoro o uso que a Esquerda faz da personalização de colectivo ou de objectos para promover a desresponsabilização de tudo e de todos – ela já nem deve perceber o erro] que defende que é melhor o salário mínimo do que o desemprego [ver uma boa resposta aqui], ou seja, a política do Governo de baixar drasticamente todos os salários [claro, o miúdo só pode ser um infiltrado do Passos – ele nem faz sentido sem essa premissa, imagino]. É o vídeo que defende a reprodução biológica [hein?]– trabalhar exclusivamente para acordar no dia seguinte, comer, e ir trabalhar [o Materialismo desta senhora impede-a de ver que as melhores coisas da vida são gratuitas, a não ser que ela pague por amor e outras coisas simples da vida]. O vídeo está-se a tornar viral, entre outras fontes pela página do José Manuel Fernandes, ex director do Jornal Público, e pela página do micro crédito do Millenum BCP [claro, só por causa desses arrivistas – aliás todos os vídeos da página de micro crédito do Millennium BCP são virais no dia seguinte…]. Estou a ver estes empreendedores todos amarrados ao crédito, a vender t-shirts chinesas e a pagar juros à Banca [lol]. Recebi entretanto algumas mensagens direi desagradáveis [Sério? Mas mais ou menos educadas do que a senhora foi no programa ao interromper o rapaz para o tentar humilhar] e algumas, muitas mais [hein?], de pessoas indignadas com o valor do salário mínimo e esta defesa da miséria que é feita em público e aplaudida [mais uma vez, ninguém quer receber 485€… mas há situações em que essa é a melhor das alternativas. E se retirarmos essa alternativa as pessoas ficam pior, não melhor]. Confesso [confessa? pensei que tinha renegado a isso…] que podia não ter recebido nenhuma que diria ao Martim, e a todos os empreendedores exactamente o mesmo [a sua capacidade de resistência ao senso comum é lendária, disso já deu provas] – o salário mínimo é uma vergonha e quem o defende [eu não o defendo], se sabe o que está a fazer, não tem dignidade moral [quem fala em moral…].

O engraçado depois de ler isto é pensar: qual é a alternativa de Raquel Varela?
Já sabemos que a roupa não pode ser importada.
Já sabemos que os operários fabris – e os restantes – não podem receber 485 Eur.
Logo, todo o processo produtivo deve ser baseado em salários muito superiores.

Sistema dinâmico:
  1. Preços vão subir para o Dobro de imediato, para compensar os novos salários
    (1.000 Euros serão dignos? Se calhar ela pretendia mais…)
  2. Consumidores vão comprar menos, pois o poder de compra é baixo e não suporta variações como a pretendida
  3. Preços sobem mais, agora para compensar a descida da procura
  4. Consumidores consomem menos
  5. Sistema vai evoluindo com adaptações cada vez mais pequenas até o ponto de equilíbrio
  6. No processo, muitas empresas fecham (obviamente, uma subida de salários provoca desemprego)
  7. No fim do processo há muito menos roupa vendida e consumida em Portugal

Não, não vamos andar nus. Mas íamos ter muito menos roupa, andar muito pior vestidos e iam voltar “modas” como costureiras, remendos e materiais hoje menos comuns.

Excepto claro no grupo de mimados a que a Raquel Varela pertence: esses continuariam a vestir de marcas caras.
E depois a dizer que não fazem mais nada senão defender os mais humildes. A latosa…

Haters gonna hate, mas às vezes apetece-me fazer posts deste.
Cá está, é um dos divertimentos que tenho na vida e pelos quais não pago nadinha!