Bombista suicida na Alemanha

Novo ataque na Alemanha: um morto e 15 feridos.
Atentado na Alemanha: as imagens e o que já se sabe

The looming crisis in Portugal

People are starting to get seriously worried about the looming crisis in Portugal

Mas queremos mesmo isto na Europa?

O meu texto desta semana no Observador. Se tivesse escrito depois de ontem, teria acrescentado os maluquinhos que se esforçam por fazer crer que o terrorismo atual é tão provável vir do islão como da religião/ideologia do lado.

‘É daquelas pessoas que dá palmadinhas compadecidas nas costas do muçulmano que violou a rapariga ocidental de minissaia, afinal veio de uma cultural onde é normal maltratar mulheres, e por cá está desempregado? Acha, como Ana Gomes, que a culpa dos atentados terroristas na Europa é da austeridade? Defende que os pobres diabos, sejam violadores ou terroristas, têm de ser compreendidos, assimilados, receber muito dinheiro dos estados sociais europeus e, sobretudo, desculpados? Considera que os vilões verdadeiros são os que denunciam que os costumes islâmicos são aberrantes, concretamente para a condição feminina, e não podem ser tolerados na Europa? De cada vez que há denúncia de vilanias islâmicas, prefere escrutinar o mensageiro para tentar repudiar a mensagem? Vê como de uma lógica cristalina clamar contra o patriarcado e o heteropatriarcado e, simultaneamente, recusar aceitar que as comunidades islâmicas na Europa têm propensão para violar e brutalizar mulheres, e acumular com defesa de regimes que enforcam ou afogam gays? Repete vinte vezes por dia o mantra ‘o islão é uma religião de paz’?

Pois bem, é conveniente reconhecer que as pessoas iluminadas que responderam sim a dez por cento destas questões são cúmplices do caldo culpabilizante das vítimas que propicia os crimes dos islâmicos. Duvido que o à vontade criminal fosse tão grande se não notassem a solidariedade dos iluminados. Se não desconfiassem que a sua origem os vai livrar de investigações ou acusações mal um idiota útil grite xenofobia. Se não percebessem que a sociedade europeia se deixa vitimizar.

Vamos rever a matéria. O mais importante religioso muçulmano de Portugal é acusado pela mulher (que aparece com a cara ensanguentada em fotografias – certamente foi contra uma porta, como é costume) de violência doméstica. O que sucede? Os jornais param rapidamente de falar sobre o assunto e o presidente da república dos afetos escolhe fazer na mesquita do acusado uma cerimónia no início do seu mandato.’

O resto do texto está aqui.

O segundo resgate e o mundo que mudou…

A culpa? Fica para o próximo governo de Passos. Por Rui Ramos.

Ontem, constou que Costa estava preocupado. Depois, constou que não estava. Não sei se está ou não. Também não sei se o governo vai conseguir enrolar a Europa. Talvez consiga. Mas o que não vai é tornar Portugal um melhor lugar para trabalhar e investir. E sem isso, tudo se esfumará um dia, quando o BCE acabar com o dinheiro barato. Dir-me-ão: será como em 2011. Passos Coelho terá de vir limpar a casa, e lá ficará outra vez com as culpas. O próprio Passos, no conselho nacional do PSD de quarta-feira, ter-se-ia muito cristãmente conformado com esse destino. Mas acontece que o mundo já não é o mesmo de 2011, a Europa não é a mesma, nem Portugal é o mesmo.

Sanções a pensar no futuro

A política das sanções ou a sanção das políticas. Por Francisco Veloso.

É claro para todos, incluindo para a Comissão Europeia, que as sanções não vão ajudar o país a recuperar a sua situação económica e a resolver o défice. Mas a razão das sanções é penalizar políticas que claramente se desviam dos objetivos do Tratado Orçamental, para que não voltem a acontecer no futuro. E, neste capítulo, tenho muitas dúvidas. Não encontro nos orçamentos dos últimos dois anos uma determinação em resolver o défice de forma permanente. Assim, se (pelo menos a ameaça de) a aplicação de sanções servir para corrigir este comportamento no futuro, elas estão a cumprir o seu propósito. A decisão última não é da Comissão, mas antes do Ecofin, e por isso eminentemente política, um exercício de convencimento sobre o futuro, com base em dados do presente e do passado. Um debate que mistura a política das sanções com a sanção das políticas. Veremos as conclusões!

Julho de 2016, nos Alpes

Man ‘knifes French woman and her three daughters’ in Alps resort

A French woman and her three young daughters were severely injured when they were stabbed at a holiday resort on Tuesday by a Moroccan-born man who reportedly shouted that they were too scantily dressed.

Leitura complementar: A Europa como Israel.

Medidas anunciadas pelo governo espanhol não chegam

Espanha. Multa zero mas 1.300 milhões em fundos europeus cortados

Jornal “El Español” avança que o “castigo” da Comissão Europeia será uma multa zero mas 1.300 milhões de euros em fundos comunitários congelados. Medidas anunciadas pelo governo não chegam.

Sanções e Caixa no Económico TV

Hoje às 12 horas vou estar no Económico TV com as sanções e a Caixa Geral de Depósitos em cima da mesa.

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Isto com Centeno está no papo

O cachecol pode não ser suficiente, André, mas convenhamos que Centeno tem a vida facilitada e não é (só) por causa de Éder.

É que quando os colegas ministros lhe perguntarem como pensa controlar o défice das contas públicas o nosso ministro tem uma cartada triunfal:

-Caros colegas, perguntam-me quais medidas vamos adoptar para controlar o défice. Sou um homem feliz por poder dizer que já adoptámos todas as que precisávamos: baixámos o IVA da Restauração e reduzimos uma hora de trabalho diário na função pública sem compensação salarial.

 

Nunca uma coisa esteve tanto no papo desde que a França ia ganhar fácil a Portugal.

Infelizmente, o cachecol não deve ser suficiente…

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Dijsselbloem. Mais medidas nos próximos anos em Portugal e Espanha são inevitáveis

“Depende da Comissão. Acho haver uma sanção zero é uma possibilidade, mas a questão é o que é que os países vão fazer este ano e nos próximos anos para resolver os problemas. Quanto mais puderem colocar em cima da mesa, quanto maior o compromisso mostrado à Comissão, talvez isso possa ajudar”, afirmou o responsável.

Leitura complementar: De volta à realidade.

“neoliberais, conservadores e xenófobos” ?

ana_catarina_mendesInfelizmente, o discurso de alguns dos principais responsáveis do actual PS começa a ultrapassar em radicalismo os próprios parceiros de extrema-esquerda da geringonça: PS: “Durão Barroso foi presidente da Comissão nos piores anos do projeto europeu”

A secretária-geral adjunta do PS avisou que “o medo voltou a pairar” na Europa e, antecipando a intervenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates neste congresso sobre o desencantamento europeu, defendeu que “o mal não está nas instituições, mas nos protagonistas do PPE”, que são “neoliberais, conservadores e xenófobos”.

As sanções e o desastre anunciado

O meu artigo de hoje no Observador: É o défice, estúpido!

Seria importante perceber de uma vez por todas que o que realmente constitui uma traição a Portugal é não aprender nada com os erros cometidos, empurrando alegremente o país para um desastre anunciado

No Fio da Navalha

O meu artigo ontem no ‘i’.

Uma Europa comunista

Depois do referendo no Reino Unido, António Costa disse que a União Europeia tem de ser útil. Na convenção do BE, Catarina Martins defendeu que Portugal deve referendar a continuação na União Europeia, caso lhe sejam aplicadas sanções por défice excessivo. No Reino Unido, o líder dos Trabalhistas, Jeremy Corbyn está a ser duramente criticado por não se ter esforçado na campanha contra o Brexit. Corbyn era contra o “leave”, mas foi dizendo que, a acontecer, não seria grave. Entretanto, em Espanha, Pablo Iglesias quer mudar a Europa. O que quer esta esquerda?

Como a própria diz, mudar a Europa. Na forma vaga de Costa, que esta volte a ser útil. Naturalmente, ele diz referir-se às pessoas embora, para Costa, a utilidade da Europa passe por ter margem de manobra para governar sem custos eleitorais, porque a dívida só será paga por outros e mais tarde. A subtileza de Costa é semelhante ao fingimento de Corbyn.

Já Catarina Martins é mais clara. Conforme disse depois do Brexit, estamos perante “(…) a falência da União Europeia e de termos de nos preparar e construir uma alternativa”. Conforme mencionou há dias em Torres Vedras, há que dar força ao BE “para um reforço do trabalho em prol da vida coletiva”.

Costa quer sobreviver na política e salvar o PS, que não sabe ser de esquerda sem que seja a endividar os nossos filhos. Mas Corbyn, Iglesias e Martins querem mais: querem uma nova Europa, uma Europa coletivista e comunista.

Comissão sanciona Portugal por défice excessivo (3)

Esforço de redução do défice acabou quando o resgate terminou

Na decisão da Comissão que conclui que Portugal não tomou as medidas necessárias para cumprir as recomendações do Conselho da União Europeia, o Executivo comunitário defende a sua decisão dizendo que a quantidade de medidas implementadas estava em linha até junho de 2014, altura em que o resgate terminou, mas depois disso começou a ser reduzido e Portugal começou a falhar.

Comissão sanciona Portugal por défice excessivo (2)

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Comissão abre processo inédito que pode levar a sanções a Portugal

Como era esperado, a Comissão Europeia concluiu que Portugal e Espanha não tomaram as medidas necessárias para reduzir os seus défices e faz uma única proposta, para já, aos ministros das Finanças da União Europeia: que aprove uma norma a dizer que “Portugal não tomou medidas eficazes em resposta à Recomendação do Conselho de 21 de junho de 2013”. (…) Valdis Dombrovskis, que apresenta os resultados, é citado no comunicado elogiando os esforços dos dois países, mas lembrando que “ultimamente os dois países desviaram-se do caminho da correção dos seus défices excessivos e não atingiram os seus objetivos orçamentais”.

MedidasAdicionais

Quererá António Costa sanções?

Hoje no Expresso online:

Na novela das sanções que a Comissão Europeia estará a ponderar impor a Portugal por incumprimento das regras orçamentais da Zona Euro há uma coisa que sobressai e que não se percebe: a gestão do governo Costa que ou está completamente à nora ou está a tentar com muita força que haja sanções. 

É ir, ler e voltar.

A urgência de aumentar a poupança e o investimento

15% não chegam. Por Fernando Alexandre.

Quando analisamos a correcção do desequilíbrio externo do ponto de vista do investimento e da poupança concluímos que essa foi alcançada em parte por uma recuperação da taxa de poupança (que aumentou de um mínimo de 10,7% em 2010 para cerca de 15% desde 2013) e de uma quebra da taxa de investimento (que diminuiu de cerca de 20% em 2010 para cerca de 15% desde 2012).
Estes 15% são um equilíbrio muito precário. Uma taxa de investimento de 15% não chega para repor a depreciação do stock de capital – todos os anos o stock de capital da economia é menor que no ano anterior. Para crescermos temos de ter mais investimento. Mas se a poupança interna não aumentar a única forma de o financiar é com endividamento externo. No entanto, para uma economia muito endividada e com baixo crescimento esta poderá não ser uma opção. Ou seja, uma taxa de poupança de 15% também não chega.

O crescimento económico e a sustentabilidade do nosso endividamento dependem assim do aumento da taxa de investimento e do aumento da taxa de poupança. Todas as decisões de política económica deveriam ter em conta os efeitos sobre essas duas variáveis. O governo discute a necessidade de mais investimento bem como o financiamento das empresas mas, nas suas decisões, não é fácil vislumbrar medidas que façam aumentar aqueles insuficientes 15%.

Nova Cidadania 59

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A Nova Cidadania 59 está à venda nas livrarias Alêtheia, Almedina, Bulhosa, Coimbra Editores, Europa-América, Férin, Papelaria do Alto (Estoril), Wook e também na Universidade Católica Portuguesa (Lisboa, Porto e Viseu).

Neste número destaco, por o assunto estar na ordem do dia e assim ir continuar ao longo dos próximos meses, os artigos (escritos antes do referendo) sobre o Brexit de Michael Gove, Timothy Gartin Ash, Ryan Bourne e Diego Zuluaga.

Mais informações aqui.

A syrização do Sul da Europa

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Com alguns dias de atraso por dificuldades técnicas, aqui fica o link para o meu artigo desta semana no Observador: A ameaça da extrema-esquerda no Sul da Europa.

Com a União Europeia mergulhada numa profunda crise e com problemas em várias frentes, travar os processos de syrização em curso deve ser a primeira prioridade política no Sul da Europa.

Um imenso circo mediático

Estado solidário e sociedade civil. Por José Manuel Moreira.

O crescente mal-estar que atormenta a União Europeia (UE) deu em ‘Brexit’, abrindo caminho a um mar de aflições e incertezas. Mesmo assim não faltam políticos e comentadores a insistirem em “mais” Europa. Aconselhando-nos a aproveitar os escombros da saída do Reino Unido para construir uma UE mais forte e coesa: uma Europa mais solidária. Mas há outra interpretação possível do referendo: os povos não querem “mais” (este tipo de) Europa. Menos ainda esta forma inquinada de integração e de solidariedade.

(…)

Não deixa de ser sintomático que políticos do nosso tempo, em nome da equivalência entre os direitos individuais e sociais, tenham minado uns e outros, e agora, depois de terem tornado o mundo inseguro e insustentável, se dediquem à transformação da política num imenso circo mediático. E que, mesmo assim, ainda estranhem que o povo em eleições se vire para palhaços mais genuínos.

orgulhosamente sós

O meu texto de hoje no Observador.

‘Calhou ir passar uns dias a Londres e chegar no dia do referendo. Das pessoas todas com que fui metendo conversa sobre o assunto, só encontrei um votante do Leave (e ainda no dia da votação; sem surpresas, foi o mais velho). Mas não queria de maneira nenhuma sair da União Europeia. Queria só ganhar capacidade negocial para impor limites à interferência britânica na vida dos ingleses e, se o referendo acabasse em Remain, preocupava-o que a partir daí a Grã-Bretanha fosse tomada como certa: tiveram a oportunidade de sair, não aproveitaram, agora sentem-se direitinhos e não revirem os olhos a cada novo delírio da Comissão ou do Parlamento Europeu. (As palavras ilustrativas são minhas, mas o sentimento é do meu interlocutor.)

Outro, taxista muito tatuado, estava abalado com o resultado e a demissão de Cameron e só repetia que era preciso respeitar a democracia. Dois irlandeses (da parte republicana), em duas lojas diferentes de Mayfair, estavam divertidos com o choque e pavor em que viam o Reino Unido. Outra pessoa dizia, no dia do resultado, ‘it feels weird in London today’. Uma portuguesa a trabalhar numa pizzaria contava que os amigos que votaram Leave não estavam a contar ganhar e já se tinham arrependido.

Mas o resultado foi o que foi, e não adiantam pesares ou arrependimentos. Tal como é inútil deambular à volta da evidência dos líderes do Leave, Boris Johnson e Nigel Farage, preferirem ter perdido e não magicarem o que fazer com a vitória. Farage já pediu no Parlamento Europeu um acordo de comércio – depois de tratar a EU como um Darth Vader supranacional, zona de comércio livre incluída. (A acrescer à desgraça, Farage corre o risco de abandonar o bem pago lugar no Parlamento Europeu para o desemprego, o que acontecerá se não conseguir expulsar do reino os malvados estrangeiros, quem sabe até reverter a invasão normanda.) Boris já garantiu (decidiu sozinho pelos quinhentos milhões de habitantes da EU) que os estrangeiros poderiam permanecer na Grã-Bretanha e os britânicos que trabalham e vivem no continente lá continuariam – no fim de uma campanha xenófoba que culpou os estrangeiros residentes no Reino Unido de todos os males desde as pragas do Egito. Mais uns dias e corremos o risco de assistir a um súbito amor britânico pelo trabalho empenhado dos parlamentares europeus em prol do tamanho adequado dos autoclismos e dos urinóis.’

O resto está aqui.

Algumas notas sobre o referendo britânico

O referendo da passada quinta-feira foi um erro monumental. Em primeiro lugar – e mais importante – por dar um ar de legitimidade a algo que é um grotesco abuso de poder de uma maioria conjuntural. Uma consulta popular com implicações constitucionais profundas não deve ser aprovada apenas por maioria. Não o é habitualmente em parlamentos, quanto mais num referendo. O facto de ocasionalmente uma maioria conjuntural estar do lado de algo com que concordamos, não nos deve impedir de ver o erro de aceitar votações deste género como legítimas. “Vitórias da democracia” não acontecem sem super-maiorias ou maiorias qualificadas. Mesmo com elas, podem ocorrer violações grotescas de direitos que, pura e simplesmente, não são referendáveis ou sujeitáveis a votação. Não é para mim taxativo sequer que uma maioria (qualificada ou não) possa votar no sentido de limitar determinados direitos fundamentais (como a liberdade de circulação num espaço geográfico dado por adquirido) de outros cidadãos do Reino Unido contra a sua vontade. A democracia como a entendemos tradicionalmente no ocidente não é uma ditadura da maioria, nem pode estar sujeita à instabilidade de decisões fundamentais tomadas por maiorias conjunturais que se vão contradizendo ao longo do tempo. Daí termos democracias constitucionais, em que uma lei fundamental restringe algumas opções legislativas para proteger indivíduos e minorias. No fundo para proteger a própria comunidade de ser dilacerada por exaltações momentâneas.

Em segundo lugar, a campanha foi conduzida apelando tácitamente a instintos primários do eleitorado, como aversão a estrangeiros, e prometendo coisas que pura e simplesmente não são possíveis de obter. Quando se constrói um movimento em torno do “controlo das fronteiras”, não se pode prometer ao mesmo tempo um acordo tipo norueguês ou suiço. Este acordos pressupõem livre movimento de pessoas, além de bens; aceitação das regulações comunitárias; e contribuições orçamentais. Além de violar os preceitos básicos de uma democracia constitucional, a campanha “Leave” contribuiu também para o descrédito inevitável da democracia, pois será impossível cumprir as diversas expectativas dos apoiantes. O descrédito tenderá a ser ainda maior pelo estigma que fica necessariamente colado às pessoas razoáveis que pactuaram com as tácticas incendiárias de alguns dos seus compagnons-de-route. Depois de apelar aos instintos primários de alguns votantes, os futuros dirigentes britânicos (ou se calhar apenas ingleses) não poderão evitar ser responsabilizados pelos episódios pouco edificantes que possivelmente surgirão. O eleitor menos esclarecido da Inglaterra profunda que está à espera de ver menos estrangeiros é capaz de se tornar violento se isso não acontecer.

Em terceiro lugar, a liderança da campanha “Leave” tem defendido um caminho que é impossível, por ser ilegal. A única saída possível da União resulta do artigo 50 do tratado de Lisboa. A ideia de negociações informais, ao mesmo tempo que o parlamento britânico inicia o processo legislativo de remover da legislação as partes que não gosta dos tratados em vigôr, é simplesmente ilegal por violar esses mesmos tratados. O Reino Unido ratificou todos os tratados e estes permanecem em vigôr até ao fecho de negociações de saída no âmbito do artigo 50 (ou dois anos a partir da invocação desse artigo, o que vier mais cedo).

Por fim, os parlamentos escocês e norte-irlandês podem recusar autorizar a remoção das leis europeias da legislação em vigôr nas suas regiões. Esse bloqueio só seria ultrapassável com o parlamento britânico a usar o mecanismo que possui para se sobrepor aos parlamentos regionais, tornando explícito o cisma entre Inglaterra e os restantes membros do Reino Unido. O erro monumental pode acabar no fim do próprio Reino Unido.

Brexit, referendos e Corbyn no Económico TV

Sobre o Brexit que pode não se concretizar e sobre os malefícios dos referendos. Ainda um breve comentário também sobre o apelo que Corbyn fez às massas para se manter na liderança dos trabalhistas. Os meus comentários hoje no Económico TV.

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Acho alguma piada ler como o referendo e o seu filho Brexit terão fantásticas consequências para a Grã-Bretanha. Que não precisam para nada da UE e mais isto e aquilo. Tem mesmo piada. Ora bem.

1. A UE era parte do cimento que colava uma união – o Reino Unido – que quem conhece um poucochinho de história sabe que já teve demasiados sobressaltos para ser de continuidade evidente. Como consequência do Brexit, será mais um (grande) agravo se a população inglesa impuser aos escoceses, galeses e irlandeses do Norte a saída da UE que eles com o seu voto escolheram rejeitar. A Irlanda do Norte já pensa juntar-se à parte republicana, os escoceses querem a independência e até os galeses já dão que falar. Pelo que num futuro não muito longínquo, muito provavelmente terá sido uma mera Inglaterra a sair da UE, não o Reino Unido.

2. A Inglaterra escolhe sair da UE quando já não tem império, não precisa de assustar ninguém com a sua marinha e num momento do mundo em que a Europa perde influência. Com os Estados Unidos a virarem-se cada vez mais para o Pacífico e para a Ásia, não só porque lá estão os maiores conflitos potenciais como estarão sem dúvida os maiores negócios e a prosperidade económica. Que se suponha que uma Inglaterra – ou mesmo um Reino Unido – neste state of affairs terá alguma relevância mundial sozinha, é para gargalhar. Bem podem brandir a special relationship com os Estados Unidos. É olhar para a história – costuma ser útil – e ver como em 1940, quando os ingleses precisaram de uns barcos de guerra velhos cedidos pelos americanos, estes, mesmo com special relationship, aproveitaram-se do estado de necessidade britânico para lhes sacar a utilização de bases navais por todo o lado e por muito tempo. Por alguma razão até o imperialista Churchill era favorável a uma organização supranacional europeia depois da WWII.

3. O voto no leave – e sim, as clivagens de sentido de voto por grupo demográfico permitem tirar bastantes conclusões – não é o voto dos grupos dinâmicos do eleitorado. Foi o voto dos que temem as interações internacionais, dos que consideram ganhar com o isolamento face à Europa – que pela sua incapacidade para singrar numa Grã-Bretanha integrada num espaço europeu acabaram por conseguir cortar as asas aos bem sucedidos. O voto leave não foi um voto na mudança, foi um voto no status quo – de há cinquenta anos.

Donde: é fatal como o destino que uma Inglaterra fora da UE seja uma quase-irrelevância. E é por isto que o Brexit é triste. Não pelos efeitos na UE – que merece as chibatadas todas que lhe conseguirmos dar, e o Brexit é uma mais que justa recompensa para a sobranceria dos líderes europeus das últimas décadas. É por isso que aquela capa icónica da Spectator com a borboleta – que tanta gente andou a partilhar alegremente – é um logro. A Inglaterra vai-se soltar, mas menos cintilante, e num mundo que já não gosta de borboletas e prefere ladybirds.

A nova esquerda

Tanto Catarina Martins como Marine Le Pen querem referendar a Europa. Na verdade, tanto uma como outra são contra a União Europeia. Ao sê-lo, as duas pretendem que se fechem as fronteiras, porque, apesar de não o dizer expressamente, é esse o resultado do discurso do BE contra os negócios e os lucros. É certo que Marine Le Pen é nacionalista e xenófoba e, nesse campo, Catarina Martins se mostra mais generosa. Mas isso é porque em Portugal a imigração não indigna ninguém, não é um mercado eleitoral a explorar, já que são poucos os que querem vir para cá trabalhar.

Uma boa peça jornalística seria apurar quantas vezes os pontos de vista (não me refiro às votações) do BE e da FN se encontraram no Parlamento Europeu.

Outra dúvida pertinente

Leitura complementar: Como evitar destruir a UE; Brexit: uma lição para a UE; A Rainha, a diferença britânica e o Brexit.