Weiler e o julgamento de Jesus

“O julgamento de Jesus”. Por P. Gonçalo Portocarrero de Almada.

Muito haveria a dizer sobre os resultados da investigação histórico-jurídica do Prof. Weiler, bem como sobre as suas interessantes, mas mais discutíveis, interpretações teológicas do julgamento de Cristo. Na sua abalizada opinião, esse processo, cujas repercussões culturais vão muito além do âmbito confessional ou meramente religioso, estabeleceu três principais consequências, que o jurisconsulto norte-americano considerou estruturantes da cultura jurídica moderna, bem como da civilização ocidental. A saber: todas as pessoas, desde as socialmente mais importantes até às aparentemente de mais baixa condição, têm direito a serem julgadas; todos os julgamentos devem ser justos, ou seja, realizados de acordo com as exigências da justiça e as normas processuais vigentes; e todas as pessoas, também as condenadas pelos piores crimes, têm direito a um tratamento de acordo com a dignidade humana.

O mensalão segundo Snowden

Mais de 100 mil dólares são mensalmente depositados numa conta bancária em Nassau.
Mais de 100 mil dólares são mensalmente depositados numa conta bancária em Nassau.

Bin Laden vive nas Bahamas com pensão completa, paga pela CIA, afirma Edward Snowden. O material proveniente do Afeganistão continua a provocar os efeitos procurados.

Imperativos

kafka2I call ‘moralism’ a system of normative moral principles sufficient for the positive regulation of life. In other words, moralism excludes the possibility of morally indifferent actions. According to it, every action must be characterized as either fulfillment or violation of duty. [Leonard Nelson, System of Ethics, Yale University Press, 1956, p. 89.]

É muito por isto acima que tenho muitas vezes dificuldade em definir-me como sendo de direita sendo certo que de esquerda, nos tempos que vivemos, não sou de certeza (provavelmente sê-lo-ia há 150 anos, hoje não me revejo em nenhum dos dois lados da coisa).

O que é absolutamente insuportável na esquerda deste século é o moralismo arrogante e a pretensa superioridade moral, características que, quer-me parecer, acabam por ser comuns a uma direita mainstream que existiu durante muito tempo até há poucos anos. Basta ver as audições do Frank Zappa no Congresso americano nos anos 70-80. O que me encanita, é que se fosse hoje vivo, o papel dos moralistas seria desempenhado pelo lado oposto da barricada. Letras como a de Bobby Brown Goes Down, ou Dinah Moe Hum são, hoje, extremamente ofensivas mas para a esquerda beata e moralista. Hoje, seria varrido na imprensa, nas rádios e nas universidades e estaria atulhado de processos da moral majority desta vez de esquerda. Continue reading “Imperativos”

Compreender o putinismo XXXVI

VPutin

Vladimir Putin declara que os objectivos da Rússia na Síria foram atingidos. A acreditar no maior defensor dos cristãos do Médio Oriente e arredores, o Estado Islâmico foi destruído pelos Mig’s e mísseis russos. Agora os soldados russos podem reclamar o merecido descanso na Ucrânia Crimeia. Parece que o dinheiro continua a fazer falta e o gigante russo não aguenta duas guerras.

João César das Neves sobre o pensamento económico do Papa Francisco

O Papa Francisco é socialista?

No livro “A Economia de Francisco – Diagnóstico de um Equívoco”, que o Observador pré-publica, João César das Neves analisa o pensamento económico do Papa.

Os 100 dias de Costa

Antonio Costa reflecte Em declarações ao Diário Económico da passada sexta-feira a propósito dos 100 dias do Governo liderado por António Costa, José Adelino Maltez afirmou que “todos os governos vivem este período numa espécie de estado de graça”, e que isso se verifica “sobretudo” com “este que nasceu de uma experiência nova e inédita”. Não é de espantar. O dr. Maltez nunca na vida foi capaz de dizer algo com o mínimo de sentido, e não seria agora que iria começar. É costume associar-se os primeiros 100 dias de um Governo a um mítico “estado de graça”, e recorrendo ao lugar-comum, que em Portugal em geral e na cabeça do dr. Maltez em particular costuma substituir o raciocínio, o homem julga que a coisa tem validade para o “Governo da iniciativa do PS”, como lhe chama o PCP. Mas como qualquer pessoa que se debruce perante a realidade portuguesa com um mínimo de atenção percebe, se há coisa que este governo não teve foi “estado de graça”. Antes pelo contrário, deparou-se e depara-se (e muito provavelmente assim continuará) com a desconfiança generalizada de grande parte dos portugueses.

Vejam-se as sondagens feitas em Dezembro e Janeiro pela Aximage e pela Eurosondagem: nelas, o PS tem (tendo em conta as margens de erro respectivas) sensivelmente os mesmos trinta e pouco por cento dos votos que as eleições de Outubro sofridamente lhe deram. Ou seja, ao contrário do que o dr. Maltez presume, a devolução de “rendimentos e direitos” não fez o PS cair nas graças de ninguém, excepto daqueles que à partida já tinham acolhido os socialistas nos seus braços, e que por isso votaram na agremiação. Mais: contra a convicção do dr. Maltez, nem a “experiência nova e inédita” de onde “nasceu” a ascensão de António Costa ao poder acrescenta o que quer que seja à base de apoio social do Governo. O Governo tem, é verdade, o apoio mais ou menos frágil de partidos (PS, BE, e PCP/Verdes) que correspondem a 50,9% do eleitorado. O que manifestamente não tem, é a confiança de todo esse eleitorado: os eleitores que votaram no BE ou no PCP (para não falar dos que se abstiveram) votaram no BE ou no PCP (ou ficaram em casa) precisamente porque não confiavam no PS como alternativa ao governo PSD/CDS, que claramente não apreciavam (caso contrário, teriam votado na coligação).

A tal falta de “estado de graça” do Governo era previsível logo aquando da sua formação: indo para o poder sem a confiança de uma parte significativa dos portugueses, António Costa garantiu para si o buraco em que se encontra: toda e qualquer medida difícil que tiver de tomar encontrará a raiva e o protesto do eleitorado; e toda e qualquer medida “agradável” que aplicar será encarada por uma parte significativa do dito como um truque eleitoralista; toda e qualquer medida mais “austeritária” será mal acolhida não só pelo eleitorado abstencionista e pelo do próprio PS, como encontrará o ressentimento dos eleitorados do BE e do PCP; e toda e qualquer medida que “devolva rendimentos” será encarada, por esses mesmos eleitorados do PCP e do BE, como conquistas desses dois partidos, mas insuficientes – por culpa do PS, claro – enquanto que o eleitorado abstencionista, e parte do socialista, hesitará quanto à sua benevolência, temendo que seja “boa demais para ser verdade” e que o que se dá hoje tenha de vir a ser pago mais caro no futuro, quando tudo soçobrar.

A oposição talvez se entusiasme com estas atribulações da pandilha que nos vai governando, esperando, quem sabe, que estas lhe garantam um regresso relativamente rápido à posição em que se encontravam até Novembro último. Não devia. Pela simples razão que PSD e CDS também não estão isentos do problema que o PS enfrenta junto da opinião pública. A “vitória” nas eleições de Outubro talvez os tenha feito esquecer que mesmo juntos, os dois partidos não conseguiram mais que 36,8% dos votos, ou seja, que não conseguiram da parte do eleitorado uma confiança significativamente maior que aquela que o PS chamou para si. Ao contrário do que a retórica de Outubro e Novembro queria fazer passar (e que, não se duvide, era crença convicta daquelas cabeças), a “crise política” não foi criada pelo resultado eleitoral nem pela opção socialista de ir para o Governo com o apoio parlamentar de BE e PCP: o resultado eleitorado e a fragilidade da “solução” encontrada pelo PS foram um produto de uma crise política que já existia muito antes das eleições, e que se manifestou na incapacidade de “laranjas” e “rosas” merecerem a confiança de um número suficiente de portugueses para que fosse possível a qualquer um deles governar sem que o outro pusesse em causa a sua legitimidade.

É por isso que o dr. Maltez mais uma vez se engana ao julgar que Costa “alterou por completo o rumo da política”. Costa não alterou nada. As peripécias de quem se alça a São Bento com o apoio deste ou daquele talvez entusiasmem os “politólogos” que “estudam” apenas a superficialidade (mesmo, ou sobretudo, aqueles que mascaram a sua com uma retórica pretensamente culta mas desprovida de real conteúdo), mas não têm impacto nenhum no “rumo da política”, que segue tristemente em direcção ao fundo do poço. Não só nem Costa nem Passos fizeram, fariam ou pretendem fazer algo de diferente do estatismo que degrada as condições de vida dos portugueses, como estar um ou outro no poder não altera em nada a situação de ingovernabilidade em que o país se encontra: quer esteja o PS ou PSD no Governo, só lá se manterão se e enquanto tiverem a capacidade de satisfazer minimamente as suas clientelas, tudo menos interessadas em mudar o estado de coisas; ao mesmo tempo, o dito estado de coisas garante que uma parte cada vez maior dos portugueses vê (através dos impostos que sobem, dos empregos que se perdem, dos salários que descem) a sua vida a piorar, sem que lhes pareça que no futuro venha a ser melhor; por isso confiam cada vez menos nos dois principais partidos de Governo, o que por sua vez os torna cada vez mais dependentes das suas clientelas; o “rumo da política” entra assim num ciclo vicioso de degradação das condições para se fazerem as reformas de que o país necessita, do qual não se vislumbra saída.

O “austeritarismo despesista”

austeritarismo despesista Enquanto o resto do país os votava à mesma indiferença que habitualmente lhes dedica, os senhores deputados à Assembleia da República e os membros do “Governo da iniciativa do PS” entretiveram-se ontem e hoje a discutir a proposta de Orçamento de Estado que os segundos congeminaram. Procurando defender-se das críticas do PSD (algumas delas ajuizadas), o Ministro das Finanças Mário Centeno, repetindo aquilo que o Ministro da Propaganda João Galamba lhe terá dito para dizer, declarou que o Orçamento “não pode ser ao mesmo tempo austeritário e despesista”, acusando assim os seus opositores de serem incoerentes (ou pouco perspicazes) nas críticas que lhe fazem.

A tirada é bem pensada (o Ministro da Propaganda não pode ser acusado de não ser esperto), mas não escapa à evidência: o Orçamento pode ser “ao mesmo tempo austeritário e despesista”, e é efectivamente “ao mesmo tempo austeritário e despesista”. Não é, aliás, uma grande inovação. Nisto, os drs. Costa e Centeno limitam-se a repetir as proezas do governo anterior (e, para ser honesto, dos seus antecessores imediatos). Tal como se passava com os Orçamentos do governo de Passos Coelho, o projecto hoje aprovado no Parlamento estabelece uma carga fiscal que é “ao mesmo tempo” demasiado alta para que os portugueses possam prosperar e insuficiente para cobrir o volume de despesa com que se compromete. Tal como acontecia com o governo anterior, Costa e Centeno sabem que para serem despesistas para uns têm de ser, “ao mesmo tempo”, austeritários para outros. Os grupos de interesse e as clientelas a que se pretende agradar e “estimular” podem mudar consoante a cor partidária que se alça a São Bento, mas o princípio orientador é o mesmo: dar o mais possível a quem se julga que poderá retribuir em votos, indo buscar tanto quanto possível aos restantes, e atirando a diferença entre as duas parcelas (vulgo “défice”) para o futuro (com juros).

Infelizmente, e apesar do que diz Centeno, o “austeritarismo despesista” não só é possível como, em Portugal, parece ser a única alternativa possível. Enquanto o PS, como se tem visto, parece querer apenas mais do mesmo (o estatismo centralizador que, a partir de um qualquer Ministério lisboeta, define tudo pelo país fora, desde os programas escolares aos tempos de espera máximos nas urgências hospitalares, passando por quem vai para cada escola e a cada hospital; o “estado social” pretensamente igualitário, que ao querer dar tudo a todos, quer precisem quer não precisem, acaba por dar demais a quem não precisa, e pior, de menos a quem precisa), o PSD limita-se a propor menos do mesmo (o mesmo estatismo, apenas ligeiramente mais parcimonioso e consciente dos constrangimentos a que estamos sujeitos). Ninguém propõe algo que seja diferente e melhor. Enquanto assim for, este país não sairá do seu lento mas continuado apodrecimento.

Estatismo e cultura da morte

Transviados e desvairados. Por José Manuel Moreira.

Contradições de uma contracultura que agora se manifesta em defesa de cultura da morte (ou do descarte). Tudo em nome da liberdade de escolha, ainda que os que se louvam nessa liberdade para garantir a morte assistida possam ser os mesmos que a negam para a segurança social, a educação ou os cuidados de saúde.

Um espectáculo promovido por gente muito interessada em ajudar as pessoas a morrer com dignidade, mas pouco em as deixar viver com dignidade. Apoiando políticas que as tornam prisioneiras de um calvário de dívidas crescentes e défices permanentes.

Como se morrer com dignidade não fosse uma herança secular enraizada em valores éticos e civilizacionais. Uma tradição que se foi perdendo à medida que o Estado liquidou a sociedade civil – e os laços familiares – para entregar as pessoas a um Estado de desvairados que, odiando-se a si mesmos, procuram transformar milagrosamente a sociedade e a natureza humana que desprezam.

A falácia da fiscalidade verde em Portugal

Um artigo exemplarmente pedagógico de Rita Carreira: Poluição, rendimento e fiscalidade verde.

Os impostos verdes em Portugal são uma das formas com que os sucessivos governos justificam aumentos de tributação. Não têm nada a ver com o nível de poluição causada, nem o nível de qualidade ambiental; têm a ver com a necessidade de justificar receitas fiscais, que são depois usadas para financiar despesas de valor duvidoso para a economia. Para mascarar o esquema, os governos invocam políticas seguidas noutros países, dando a impressão que Portugal é moderno. Seguimos políticas ambientais que os países mais ricos seguem, numa clara prova de que somos tão bons quanto eles. Isto é independente dessas políticas fazerem sentido ou não para Portugal, já que os outros países modernos poluem muito mais do que nós.

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Virus-fakis: A pandemia do sec. XXI

A verdade é que o tempo dos astrólogos nas revistas femininas já lá vai. Hoje uma nova forma de astrólogo passou a enxamear as universidades do mundo ocidental, o pseudocientista encartado com doutoramentos e posições de investigadores. Académicos de pleno direito que atingiram um estatuto equivalente aos cientistas sérios. Boaventura Santos, o académico português que lidera o Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra e que tem a duvidosa honra de ter a obra citada na conhecida obra de Alan Sokal “Imposturas intelectuais” e de ser o objeto da obra do saudoso António Manuel Batista “Discurso Pós-Moderno – Obscurantismo e Irresponsabilidade Intelectuais”, reclama-se da construção de uma nova forma de aquisição de conhecimento onde, para ser simpático, enquadra todo o tipo de disparate intelectualoide.

O resto da denúncia à forja intelectual que são algumas das auto-proclamadas «ciências» sociais está neste excelente artigo.

“Cartas Persas”

Persas entre nós

Foi com as “Cartas Persas”, agora publicadas em Portugal, que Montesquieu começou a sua carreira literária. Miguel Morgado olha para a obra de um dos pensadores mais influentes da Ciência Política.

“Tino”, o “povo” e a democracia portuguesa

Tino Para mal dos meus pecados, tenho estado, desde que Marcelo Rebelo de Sousa anunciou a sua candidatura à Presidência da República, a preparar um “ensaio” mais ou menos longo sobre a sua campanha e o que ela revela acerca da natureza da política moderna e do estado do país. Foi um grande erro que cometi. Devia ter escolhido, para tema da coisa, a campanha de Vitorino “Tino de Rans” Silva, pois a sua candidatura é de longe o fenómeno mais interessante e significativo desta eleição presidencial.

O debate de ontem na RTP, moderado por Carlos Daniel e Vitor Gonçalves, foi um bom exemplo. Como nenhum outro participante, “Tino” captou a atenção da audiência. Carlos Daniel perguntou-lhe sobre a sua ida a Bruxelas numa acção de campanha, e “Tino” começou a falar dos irmãos que tiveram de emigrar, e que por causa deles quis ir conhecer a realidade dos portugueses que vão trabalhar para outros países; pensava, disse ele, que iria encontrar “meia dúzia”, mas deparou-se com “ruas inteiras cheias de portugueses”, e queixou-se da impossibilidade de muitos dos portugueses habitantes na cidade belga mas recenseados em Portugal votarem nas eleições: “ligam para o Consulado”, presumivelmente para se informarem, “e o Consulado tem telefone e não tem ninguém a atender o telefone”; Carlos Daniel pergunta-lhe “e quem é que responsabiliza por isso?”, ao que “Tino” responde “oh pá, ponham um telefone mas ponham também uma pessoa a atender o telefone”, e a plateia se desmancha a rir e começa a bater palmas. O espectáculo continuou, com “o calceteiro mais famoso de Portugal” a dizer que havia “candidatos que jogam no pelado” (ele próprio, Jorge Sequeira, Cândido Ferreira, Henrique Neto, Paulo Morais) e “candidatos que jogam no relvado” (os outros), e que se “Messi é um grande jogador”, é porque “não dá chutos para longe, está sempre perto da bola”, e “quem está perto da bola está perto do golo” (não sei é uma citação do filósofo Jorge Perestrelo, mas se não é, parece), terminando depois dizendo que “eu também quero estar perto do golo, mas aí, passem-me a bola”, para novo grande gáudio de quem estava a assistir no estúdio.

O melhor, no entanto, estava ainda para vir. Vitor Gonçalves pedia a “Tino” para terminar. Este respondeu-lhe que ainda tinha tempo, e nem sequer ia precisar do “mesmo tempo de alguns aqui”, porque “não venho aqui para intrigalhadas”, e “há uma parte do debate que a mim não me interessa para nada, eu estou aqui e até estou a fazer bonequinhos”. Foi o delírio. Numa simples frase, “Tino” falou por – não duvido – uma parte significativa de quem se deu ao trabalho de assistir ao debate, e por todos aqueles que preferiram ocupar o seu tempo com outras distracções. Quando disse que, no dia anterior ao debate, tinha estado a dormir com um sem-abrigo, e que “os políticos seriam melhores políticos” se “fizessem o mesmo”, Tino apenas reforçou, na cabeça de quem estivesse a ver, a ideia de que só uma “pessoa simples” – alguém que não “um político” – faria e diria algo assim.

Numa campanha que tem sido pobre, e num debate que não destoou dessa pobreza, reacções simpáticas como as que “Tino” mereceu da plateia de ontem não são de espantar. E não foi a primeira vez que algo assim teve lugar. Há alguns dias, “Tino” foi ao Fórum TSF, e não faltaram telefonemas de gente a encorajá-lo, a louvá-lo pela sua iniciativa em candidatar-se, e até a prometer votar nele, por ser uma “pessoa comum” e “uma voz do povo” geralmente ausente das discussões políticas. Dias depois, esteve na TVI24, e o teor dos telefonemas foi semelhante. E por onde quer que faça uma “presença” (afinal, estamos a falar de um ex-concorrente do Big Brother) nesta campanha, “Tino” recebe uma quantidade de abraços e palavras de reconhecimento só superada pela que “o Professor Marcelo” consegue atrair, dando a entender que, à sua escala, “Tino” se prepara para ter um excelente resultado no próximo domingo.

Idealmente, a disputa política eleitoral deve ser uma competição entre diferentes forças partidárias ou candidatos para convencerem o maior número de eleitores da justeza das suas propostas: o que um político deve fazer é explicitar as suas convicções, e procurar mostrar a quem irá votar que elas são melhores para o país do que aquilo os seus adversários propõem. Infelizmente, não é isso que geralmente se passa. Infelizmente, a política transformou-se numa competição entre diferentes forças partidárias ou candidatos que tentam agradar mais ao maior número possível de eleitores, dizendo-lhes, não aquilo em que acreditam, mas o que julgam que esses eleitores querem ouvir. O resultado é aquele a que temos tido o azar de assistir: sentido a necessidade de nunca confrontar o eleitorado com propostas que o possam desagradar, os candidatos a cargos públicos escondem aos eleitores medidas impopulares que as circunstâncias (e a falta de vontade de realizar verdadeiras reformas) acabarão por tornar necessárias; quando a execução dessas medidas não pode mais ser adiada, os eleitores sentem-se enganados, e portanto menos dispostos a confiar nos políticos e nos “sacrifícios” que estes lhes exigem, o que por sua vez faz com que os políticos sintam uma ainda maior necessidade de esconder esses “sacrifícios” aos eleitores, num ciclo vicioso do qual parece ser impossível sair.

Esta transformação da política de uma competição de propostas numa competição de mentiras, e a percepção generalizada, por parte da população, de que “eles são todos iguais” e “não querem saber do povo para nada”, criou um terreno fértil para que esse “povo” tenha uma enorme simpatia por quem quer que apareça a “ser diferente”, e a dizer algo que que as pessoas sintam dizer respeito às suas vidas, e não apenas às “intrigalhadas” que enchem os telejornais e “o saco” do português comum. Já “Tino”, com as suas tiradas e até na demonstração da sua completa e visível inadequação ao palco político, representa mesmo a opinião de uma parte mais ou menos significativa dos portugueses; exprime efectivamente a mais ou menos mítica “voz” do “povo”, no seu melhor (quando, questionado por Vitor Gonçalves acerca de “qual é a qualidade que mais aprecia e a característica que mais deplora no ser humano?”, Tino diz que o que mais gosta é “ter saudades de casa” e que o ser humano devia “poder dar às asas para voar mas ter sempre alguém à espera”, e o que mais deplora é “fechar as portas a quem quer que seja”; ou quando, referindo-se ao facto de Cândido Ferreira ter dito que tratava “António Costa por tu”, se virou para Marisa Matias e disse “a partir de hoje trato a Marisa por tu”, é impossível não achar o homem adorável), e no seu pior (quando disse que os políticos deviam, “em vez de falarem de milhões”, falar “do zero”, “porque o zero é o ponto de partida e se soubermos onde estamos sabemos para onde podemos ir, e com isso a economia ia ganhar”, uma inanidade inqualificável que talvez passe por profundidade nos cafés de Rans mas que demonstra como o senhor tem pouca noção das coisas).

A simpatia que “Tino” tem conquistado é a maior condenação do estado a que o sistema político português chegou: é o reflexo de um número cada vez maior de portugueses confiar cada vez menos nas palavras de quem lhes pede um voto, ao ponto de se sentirem mais próximos de alguém que, mesmo não fazendo grande sentido, ao menos é “genuíno”. Que ninguém duvide: cada voto que “Tino” tiver no próximo domingo, quer daqueles que votaram nele meio a gozar e por exasperação com as alternativas disponíveis, quer os que genuinamente se revêem na sua simplicidade e “sabedoria popular”, será um voto de desconfiança na democracia portuguesa e em quem a tem conduzido. Por “Tino” ser uma figura essencialmente benévola e por não ter grande capacidade para explorar demagogicamente o sentimento de repulsa para com os políticos, desta vez o estrago não será grande. Mas talvez um dia apareça alguém com maior talento demagógico para cavalgar na onda populista que torna possível o fenómeno “do Tino”, e aí a cantiga será outra.

Colónia e o mulherio perfumado e descascado

Sami Abu-Yusuf, o imã da mesquita Al Tawheed, situada nos arredores da cidade alemã de Colónia.
Sami Abu-Yusuf, o imã da mesquita Al Tawheed, situada nos arredores da cidade alemã de Colónia.

Estão avisadas, mulheres. Para não serem violadas. só têm de cumprir os preceitos do senhor Sami Abu-Yusuf.

Warning women against “adding fuel to the fire”, the Imam of a Salafist Cologne mosque has said the victims of the New Year’s Eve attacks in that city were themselves responsible for their sex assault, by dressing inappropriately and wearing perfume.

Speaking to major Russian channel REN TV, Imam Sami Abu-Yusuf’s remarks came during a 12 minute segment bringing Russians up to date with the latest developments in the migrant invasion of Europe. Sandwiched between eyewitness-footage of migrantrampages in Cologne, women being sexually assaulted by apparently Arab gangs, and a segment on a surge of interest in self defence courses in Germany the Imam told the interviewer: “we need to react properly, and not to add fuel to the fire”.

Explaining in the view of Salafist Islam why hundreds of women found themselves groped, sexually assaulted and in some cases raped by gangs of migrant men in cities across Germany the Imam said: “the events of New Year’s Eve were the girls own fault, because they were half naked and wearing perfume. It is not surprising the men wanted to attack them. [Dressing like that] is like adding fuel to the fire”.

Candidaturas IEP-UCP – até 15 de Janeiro

Recordo que estão abertas até 15 de Janeiro as candidaturas aos programas de MA in Governance, Leadership and Democracy Studies e de Mestrado e Doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa.

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Suicídio civilizacional

Do temor que nos assola. Por José Manuel Moreira.

Ora, um tal desprezo pela herança cultural – assumido pelos seus beneficiários directos – pede causas. Uma delas é a perda de fé no cristianismo: religião a que a maioria dos ocidentais diz aderir. Mal que afecta dirigentes políticos e até religiosos, unidos na equivalência moral entre culturas e nas dúvidas sobre se a sua fé é verdadeira. O que ajuda a perceber como um mundo tão próspero deu azo a sociedades tão à deriva: repletas de pessoas inseguras do seu valor e envergonhadas do seu património cultural. Talvez o historiador Arnold Toynbee tenha razão ao dizer que as mais sérias ameaças vêm de dentro: “As civilizações morrem por suicídio, não por assassinato”.

Lista actualizada dos lugares onde o socialismo funcionou

O diabo e José Mourinho

The devil and José Mourinho

A week after the win over United last season, Chelsea drew 0-0 at Arsenal, to which the home fans chanted: “Boring, boring Chelsea”. Mourinho responded sarcastically. “People talk about style and flair but what is that? Sometimes I ask myself about the future, and maybe the future of football is a beautiful green grass carpet without goals, where the team with more ball possession wins the game. The way people analyse style and flair is to take the goals off the pitch.”

It’s a fine, memorable image – but then the devil always has the best lines. Part of Mourinho’s appeal is his cynical charm. Even Milton seemed to relish Satan’s role rather more than those of the denizens of heaven: he was, as William Blake observed, “of the devil’s party without knowing it”.

The irony of Mourinho’s position is that if, as it often seems, he has allowed his philosophy to be defined in opposition to Barcelona – he is that which they are not – then he is still allowing Barcelona to dictate terms. As the obsession with Guardiola suggests, Mourinho may have rejected Barcelona as they rejected him, but as the anti-Barcelona he is still defined by them. It may be that the negativity that induces places limitations on how long he can prosper.

Divergir é preciso

A última crónica de João Carlos Espada no Público, que assim perde um dos seus cada vez mais escassos pontos de interesse e pluralismo na opinião: A sociedade aberta e os seus inimigos.

E divergir é preciso. Antes de mais, é preciso divergir da patética aliança dos socialistas com a extrema-esquerda e os comunistas. É uma aliança contra-natura que foi recusada pelos socialistas nos quarenta anos da nossa democracia.

É bom deixar claro que não se trata de um governo ilegítimo, nem de qualquer tipo de fraude. A “geringonça” é legítima, uma vez que tem maioria parlamentar — ainda que intermitente, como observou Francisco Assis. O grande problema da “geringonça” é outro: trata-se de um arranjo terceiro-mundista que nos aproxima de experiências não recomendáveis.

Pare de acreditar no Governo

O meu artigo de hoje no Observador: Pare de acreditar no Governo (e outras recomendações de final de ano).

“Garantir vida digna” através do salário mínimo nacional?

“Vida digna para os trabalhadores com rendimentos mais baixos”. Esta frase (ou uma variação dela) é a principal argumentação para justificar o aumento do salário mínimo nacional (SMN). Cada vez que a ouvirem há que também terem atenção ao que não é dito: “aumentar salário mínimo nacional eleva a probabilidade de uma vida indigna para os desempregados”.

"Euro notes" - Christopher Elison @flickr.com (creative commons)
“Euro notes” – Christopher Elison @flickr.com (creative commons)

O aumento do SMN é, inicialmente, suportado pelo sector privado. Ao longo do tempo quem acaba por pagar é o contribuinte. Quanto maior o SMN, maior a barreira para aceder ao mercado de trabalho e mais o Estado terá de, eventualmente, gastar em políticas de apoio aos menos produtivos: Rendimento Social de Inserção, subsídios de desemprego, estágios remunerados (grande aposta do Governo anterior), formação profissional, apoios ao empreendedorismo individual, etc.

A questão económica passa por entender que o mercado de trabalho (e a economia no geral) é um fenómeno dinâmico que resulta de milhares de milhões de acções individuais. Ter a pretensão que o conseguem controlar e manipular é tarefa apenas para os mais iludidos. Mas ainda há a questão moral: devem uns limitar a liberdade de outros na procura de trabalho?

Liberdade não é apenas uma palavra a usar quando se vota ou se expressa opinião. No mercado de trabalho, haverá certamente quem queira ter a liberdade de aceitar um emprego com remuneração inferior ao SMN, como forma de aprender e/ou mostrar a sua capacidade de produzir. Também existirão empresas que aproveitam salários baixos para reduzir custos laborais (por exemplo, órgãos de comunicação social já o fazem com processos contínuos de estágios profissionais para jovens jornalistas). Cabe a cada um decidir o ponto abaixo do qual não aceita trabalhar. Para voluntários esse valor é zero. Porém, entre zero e €795,38/mês (11 meses de trabalho correspondentes a 14 meses de SMN mais encargos sociais) há muitos desempregados que gostariam de exercer a liberdade de definir e negociar, por si próprios, o salário que corresponde, no momento, à sua produtividade. No próximo ano, essa liberdade será ainda mais restringida, com a intenção do actual Governo subir aquela fasquia para €834,75/mês (SMN de €530).

Leitura complementar: “FAQ sobre o salário mínimo nacional”

A pobreza do profeta Thomas Piketty

profeta

De uma vez por todas, os terroristas não são activistas. Os terroristas não se enganaram quando planearam e decidiram assassinar. Os terroristas não foram enganados por quem matam. Os terroristas não são profetas que pela internet, com umas roupas e gestos relativamente cool procuram acabar com as desigualdades que atormentam Thomas Piketty . Os terroristas islâmicos matam inocentes e quando alcançam o poder, provocam pobreza e espalham a crueldade. A este propósito Vale a pena ler o artigo de Benjamin Weingarten, intitulado  Did Inequality Cause ISIS? Thomas Piketty thinks so.

More fundamentally, Piketty succumbs to the widely held belief that the global jihad can be understood through a Western prism rather than on the jihadists’ own terms. This Western prism is obscured by a materialist screen, which assumes that all peoples are ultimately driven by the same motives, desires, and ambitions—namely economic ones. We in the West believe that a love of freedom is sown into the hearts of all men, and that we all seek a good job, a nice house, and a fine education. But liberty is not a universal ideal; upper-middle-class values aren’t shared by everyone. For the pious Muslim, according to the jihadists, the great overarching goal is to bring the whole world into Dar al-Islam, the House of Islam, ruled by Sharia under Allah. Subscribers to theopolitical Islamic-supremacist ideology are expansionistic because it is their religious duty to be so.

To understand the jihadis’ goals better, Piketty and his ilk might put down their economics texts and consult a core Islamic-supremacist text such as Sayyid Qutb’s Milestones or an essential work on Sharia law like Reliance of the Traveller. They could pick up a briefing or book on jihadis’ beliefs from Stephen Coughlin, a military intelligence officer with expertise in Sharia and the global jihad. They could watch any ISIS propaganda video. Or they could simply note that in practically every jihadist attack, the perpetrators are reported to yell Allahu Akbar, not “workers of the world unite!”

Jihadists are willing to subordinate earthly concerns in the name of Allah. Turning back the jihadist tide will require the West to remove its blinders and examine the jihadists’ worldview honestly. The United Nations Climate Change Conference, held in Paris just days after ISIS murdered 129 people, surely did nothing to shake the jihadis’ belief that they are on the winning side of a battle with an unserious enemy. Nor are they likely concerned with the force of history, despite progressive proclamations that jihadis are “on the wrong side” of it.

That Piketty would come to such an ill-conceived conclusion that jihadism is attributable to “inequality” may be a mere reflection of his myopia—indeed anyone heavily invested in a particular area of study may imagine linkages in other areas. Maybe we shouldn’t be surprised that a socialist interprets the jihad according to first materialist principles. But it should disturb us that many in the Western elite—including President Obama—either share such sentiments or are willing to mislead us for political purposes.

Como escreveu Alberto Gonçalves no Correio da Manhã, a propósito dos atentados de Londres, “A angústia dos terroristas não provém da fome ou da injustiça, mas da insuportável inadequação do mundo deles ao nosso mundo. Com variantes, o Ocidente conquistou nos últimos séculos a laicização do Estado e da vida corrente. Semelhante processo valeu-nos perplexidades, “erosão moral” e, sem dúvida, um imenso avanço tecnológico. Em certo sentido, a modernidade entregou-nos a nós próprios, o que é, à falta de melhor, uma definição possível de liberdade. Inúmeros muçulmanos não a percebem. Alguns não a toleram. O Corão não prega o respeito pelos infiéis. Pior: o Corão exige estrita observância, e a ausência de uma hierarquia religiosa deixa os critérios dessa observância ao cuidado de pregadores avulsos, o que convida ao zelo e ao fanatismo.”

Candidaturas IEP-UCP – Semestre de Primavera

Estão abertas candidaturas aos programas de MA in Governance, Leadership and Democracy Studies e de Mestrado e Doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa.

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Miguel Morgado interpela Mário Centeno

Miguel Morgado questiona o Ministro das Finanças

Adenda: Respostas do Ministro das Finanças Mário Centeno a Deputados

Rei Saudita nunca ouviu falar de wahhabismo

Os trabalhadores e o Povo podem contar com o PCP e amigos

RDA

A derrubar muros de forma patriótica, desde sempre.

1. Mais do que a «queda do muro de Berlim» o que as forças da reacção e da social-democracia celebram é o fim da República Democrática Alemã (RDA), é a anexação (a que chamam de «unificação») da RDA pela República Federal Alemã (RFA) com a formação de uma «grande Alemanha» imperialista, é a derrota do socialismo no primeiro Estado alemão antifascista e demais países do Leste da Europa e, posteriormente, a derrota do socialismo na URSS.

 

2. A criação da RDA socialista, herdeira das heróicas tradições revolucionárias do movimento operário e comunista alemão (de que, na sequência de Marx e Engels, são símbolos Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e Ernest Thalmann) é inseparável da vitória sobre o nazi-fascismo na 2.ª Guerra Mundial e produto das aspirações do martirizado povo alemão à liberdade, à paz e ao progresso social. (…)

3. Hostilizada e caluniada pela reacção internacional, a RDA, pelas suas notáveis realizações nos planos económico, social e cultural e pela sua política antifascista e de paz, impôs-se e fez-se respeitar no concerto das nações como Estado independente e soberano e tornando-se depois de anos de duro combate membro de pleno direito da ONU (1973) em simultâneo com a RFA. Mas o imperialismo nunca desistiu das suas tentativas de liquidar a RDA socialista acabando em 1989 por alcançar a vitória, conseguindo que manifestações, nomeadamente em Leipzig, que na sua essência reclamavam o aperfeiçoamento do socialismo e não a sua destruição, ganhassem a dinâmica contra-revolucionária que conduziu à precipitação dos acontecimentos e à anexação forçada da RDA pelo governo de Helmut Kohl.

 

4. É necessário desmascarar a hipocrisia daqueles que, clamando contra o muro erguido em Berlim pelas autoridades da RDA, têm construido e continuam a construir barreiras do mais variado tipo (sociais, raciais, religiosas e outras) por esse mundo fora, incluindo muros físicos, intransponíveis de que o exemplo mais brutal é o muro erguido por Israel para cercar e aprisionar o povo palestiniano na sua própria pátria, a que se juntam os muros erguidos pela Coreia do Sul na Península da Coreia dividida, por Marrocos contra a luta libertadora do povo sahauri, pelos EUA na fronteira com o México e outros.

 

5. A construção do muro de Berlim em 1961, com carácter defensivo, é um episódio histórico que se situa num tempo de agudíssima confrontação anticomunista, visando, de acordo aliás com a estratégia de «contenção do comunismo» proclamada pelo presidente dos EUA HarryTruman, a subversão dos países socialistas. (…)

6. É importante não esquecer que a competição entre os dois sistemas sociais opostos, o capitalismo e o socialismo, teve em solo alemão uma das suas mais importantes e perigosas expressões. O esforço do imperialismo para apresentar a RFA e Berlim Ocidental como «montra do capitalismo» foi colossal. Um tal contexto confere ainda mais significado às realizações e ao prestígio mundial da RDA socialista, e à sua activa política de paz e de solidariedade internacionalista.

O PCP não esquece que o povo português encontrou sempre na RDA e no Partido Socialista Unificado da Alemanha (PSUA) solidariedade para com a sua luta contra o fascismo e para com a Revolução de Abril.

7. (…) Aquilo a que assistimos no território da ex-RDA foi à destruição forçada das realizações económicas, sociais e culturais de mais de quarenta anos de poder dos trabalhadores e, no plano internacional, à tentativa de impor, tal como proclamado por Bush durante a Guerra do Golfo, «uma nova ordem mundial» contra os trabalhadores e contra os povos. A aliança agressiva da NATO, em lugar de dissolver-se como aconteceu com o Tratado de Varsóvia, reforça-se e estende a sua esfera de intervenção a todo o planeta e a CEE, transformada em União Europeia com o Tratado de Maastricht, afirma sem lugar para dúvidas a sua natureza de bloco imperialista dando um novo salto nas suas políticas neoliberais, federalistas e militaristas e na sua articulação com os EUA e a NATO. A Alemanha, manifestando as suas ambições de grande potência económica e militar, estende a sua esfera de influência para o Leste do continente europeu e lança-se na destruição da Jugoslávia tornando-se responsável pela primeira guerra na Europa depois da 2.ª Guerra Mundial. A situação que hoje se vive na Ucrânia, nomeadamente com a ascensão ao poder de forças fascistas, a perseguição anticomunista e a escalada de confrontação com a Rússia é o desenvolvimento lógico da «cavalgada» do imperialismo para Leste que se seguiu às derrotas do socialismo na RDA e noutros países socialistas.

8. O sistema capitalista que na viragem dos anos oitenta/noventa do século passado se apresentava a si mesmo como o melhor dos mundos possível em matéria de democracia, direitos humanos, desenvolvimento económico e progresso social, não só se revela incapaz de resolver os problemas dos trabalhadores e dos povos como tende a agravá-los cada vez mais, ao ponto de pôr em causa a própria existência da Humanidade (…)

9. (…) Num processo acidentado, feito de avanços e recuos, de vitórias e derrotas, o futuro da Humanidade não é o capitalismo mas o socialismo e o comunismo.