Sobre a torção do pepino

No Observador:

Como argumentou C.S. Lewis, o poder de quem define um programa de estudo está não no plantar de teorias concretas nas mentes em formação dos jovens, mas antes na sub-reptícia instalação de pressupostos e axiomas na sua mente. Anos mais tarde, colocados perante uma determinada controvérsia, os jovens bem doutrinados assumirão automaticamente um dos lados do debate sem sequer reconhecerem que se trata de uma controvérsia.

A Deus o que é de Deus

Na nossa memória colectiva não faltam exemplos, mesmo que remetendo-nos somente aos tempos mais próximos, do papel importante que a Igreja Católica desempenhou em momentos cruciais da Humanidade, quer como guia espiritual dos seus fiéis e baluarte Ético, quer por ter arregaçado as mangas e desempenhado em momentos chave as tarefas importantes que se impunham.

Não faltam exemplos quer na pandemia da gripe espanhola, ou na participação no esforço de guerra no apoio a doentes nas duas Grandes Guerras do século XX. E é essa memória que faz com que a Igreja Católica surja como uma das principais vítimas da presente pandemia. Para confrontar com essas memórias temos muito pouco, quer ao nível interno quer ao nível internacional mais alto da organização, o que poderá ter contribuído para o alheamento dos seus fiéis e para uma imagem pública de irrelevância.

Onde está a Igreja Católica?

Destas várias semanas de pandemia sobram para exemplo as imagens do um Papa Francisco em exibição sozinho em pleno Domingo de Páscoa, com ar meio perdido e de quem não sabe muito bem o que há-de dizer. Sobram a postura dócil e complacente de uma organização que viu impor-se-lhe e aos seus fiéis a proibição dos seus principais ritos: missas, celebrações pascais, casamentos e principalmente funerais foram proscritos do seu cerimonial religioso e participação sem uma qualquer reacção ou questionamento, sem qualquer mostra de indignação ou de dúvida e confronto em relação às decisões tomadas.

Enquanto isso, depois de ver canceladas na vigência do Estado de Emergência as cerimónias públicas pascais, faz-se representar ao mais alto nível pelo Cardeal Patriarca e líder da Conferência Episcopal Portuguesa nas pitorescas cerimónias passadas do 25 de Abril. Assiste tranquilamente, e obedece submissamente à proibição da participação de peregrinos nas cerimónias do 13 de Maio, sem criticar a inconstitucionalidade e ilegitimidade de o governo impedir ajuntamentos populares fora de uma proclamação de Estado de Emergência, enquanto assiste em silêncio a outras peregrinações – tuteladas ao mais alto nível – no dia primeiro de Maio.

Enquanto isso, coloca dioceses em lay off, por “falta de receitas”, estendendo-o aos próprios elementos do clero.

O que sobra da imagem pública da Igreja Católica deste período de pandemia? Da parte que se refere ao que ela própria acha em relação ao que está a suceder e aos seus contornos, da mensagem Ética que quer transmitir aos seus fiéis em relação aos valores em confronto e colocados em cima da mesa por esta questão? Um rotundo e estrondoso vazio.

O que sobra então? Uma organização com uma imagem pública depauperada, remetida de forma auto-infligida ao papel de uma mera IPSS dócil, bem comportada e complacente.

Dois Textos Para a Quarentena

Aproveito este espaço para (compensando a minha ausência) partilhar dois textos que escrevi recentemente:

O primeiro texto (publicado no Jornal Rascunho), sobre Machado de Assis e Dostoiévski, tenta mostrar de que forma a obra destes dois autores tão díspares se une: neste caso, na sua veemente crítica às pretensões racionalizantes que reduzem a complexidade humana.

“Tanto Machado de Assis quanto Dostoiévski temiam a soberba que advém de um homem demasiado encantado com a sua própria criação. É o tema da vaidade que os fascina e que, ao mesmo tempo, os assusta. Mais do que deformar a realidade, as pretensões racionalistas envaidecem o homem e dão-lhe o estofo necessário para levar a cabo toda uma nova gama de atrocidades. Daí a necessidade de entender que “o homem não é suficiente” e que, na verdade, nem “tudo é permitido”.

O segundo texto (publicado na VoegelinView) é uma reflexão sobre o impacto cultural e civilizacional do cristianismo com base último livro de Tom Holland, “Dominion” e na obra de René Girard.

“The Christian revolution was so successful that even criticizing or opposing Christianity would have to resort to its tools. Some of the most anti-Christian, or even openly atheistic, figures from Voltaire to Marx were philosophically dependent on both the position they attacked and, on some objections, and criticisms already formulated by the Christians themselves. According to Holland, the idea that the Bible was full of contradictions, for example, is not an 18th or 19th century invention. In fact, “all had been honed, over the course of two centuries and more, by pious Christians”. Some of the ideas that we think are the fruit of modern secularism have been sprouted in Christian universities or, as in the case of the Salamanca School, fully developed in them. In fact, the very separation between the secular sphere and the religious sphere, according to Holland, goes back to the 11th century reformatio, Augustine’s distinction between the City of God and the City of Men or to the scriptures themselves (“Render to Caesar the things that are Caesar’s, and to God the things that are God’s”). Although Martin Luther denounced the legacy of Gregory VII, the author of the 11th century reformatio, one of the results of the 16th century reformation was, as Holland tells us, “not to dissolve the great division between the realms of the profane and the sacred that had characterised Christendom since the age of Gregory VII, but to entrench it.”

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Sobre o malfadado Despacho n.º 7247/2019

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Quando os 86 deputados pediram a fiscalização preventiva pelo Tribunal Constitucional da Lei n.º 38/2018, fui um dos que apoiei por ter sérias reservas quanto à possibilidade de isso ser usado como forma de doutrinação nas escolas. O problema volta a surgir com o Despacho n.º 7247/2019, que, se definido correctamente, poderia até ser uma boa iniciativa para zelar pelos interesses de crianças vulneráveis, que já estão a passar por sofrimento que chegue.

O Despacho n.º 7247/2019 tem várias ambiguidades e zonas cinzentas, mas talvez a mais crítica seja não fazer a destrinça entre sexo e género, e, como tal, não ficar claro qual é o sujeito aplicável à lei. Esta distinção ontológica é fundamental.

Sexo é, posto de uma forma extremamente simples, uma característica biológica. Homem tem um cromossoma X e um Y, mulher tem dois cromossomas X, e depois existem alguns casos mais complicados, como os transsexuais, que fogem a esta combinação simples. As explicações são complexas, oriundas geralmente da epigenética e das neurociências, e têm que ver com distúrbios nas hormonas sexuais, alterações no gene SRY ou com problemas nos receptores andróginos. Seja qual for a explicação, isto são casos reais de pessoas que nascem com um determinado sexo mas que se identificam com outro. São também casos que devem ser acompanhados com todo o cuidado e respeito. Muitas destas pessoas submetem-se a tratamentos hormonais e a cirurgias de mudança de sexo, que são intervenções extremamente dolorosas. A isto acresce o estigma social de perseguição destas pessoas.

Género é, como definiria um sociólogo construtivista, uma construção social, que resulta da complexidade das interacções entre agentes sociais. Isto é, não há nada de biológico ou imutável no género, apenas aquilo que resulta das interacções sociais e de um lastro histórico que definiu determinados papéis. É relativamente óbvio constatar que os «papéis de género» efectivamente existiram e existem. Nas sociedades mais patriarcais, o homem ia trabalhar, pois era essa a sua função, e a mulher ficava em casa a tratar da família, pois era essa a sua função. Até pode haver características biológicas que tornassem homens mais propensos a sair de casa (afinal, em tempos medievais tinha mesmo de ser a mulher a amamentar). Hoje, apenas uma réstia de pessoas acha que a mulher tem de estar confinada à lide doméstica e familiar, e não há qualquer restrição biológica a que assim seja.

A particularidade de o género ser uma construção social é que faz com que seja extremamente fluído e, no limite, atómico. Isto é, qualquer um pode definir o seu género (se é uma construção social, porque não?). O Facebook, por exemplo, permite escolher de uma lista de 58 géneros, que incluem coisas como Two-Spirit, Neutrois, Gender Variant ou Non-Binary).

Ocorre que a maior parte dos neurocientistas dirá que aquilo que nós somos enquanto homens ou mulheres é definido tanto pela natureza (biologia, sexo) como pela forma como somos criados e a cultura envolvente (sociedade, cultura, género). Determinadas escolhas que achamos que fazemos livremente são mormente condicionadas pela nossa biologia e outras serão condicionadas pelo meio envolvente. Como diria Ortega y Gasset, eu sou eu e as minhas circunstâncias. Existe, até certo ponto, uma sobreposição entre sexo e género, mas existem também questões em que aquilo que é entendido por género em nada resulta da biologia e é apenas uma mera questão social (o entendimento de que a mulher tinha de ficar em casa a tratar dos filhos é uma delas, mas há mais).

Nos últimos anos, têm-se desfeito alguns dos dogmas que eram nada mais do que uma limitação dos «papeis de género». E ainda bem. O problema surge quando alguns tentam negar por completo o peso da biologia na formação do nosso ser e nas subsequentes escolhas que fazemos, justificando-as exclusivamente com os eventuais preconceitos e estereótipos sociais impostos pela sociedade (daí o ardor em mudar a sociedade). Alguns dos «cientistas sociais» que estudam estes temas recusam mesmo que a biologia seja relevante a explicar diferenças entre homens e mulheres, excepto na parte em que ambos têm órgãos reprodutores sexuais diferentes (sobre isto, aconselho a visualização do documentário norueguês Hjernevask, elaborado por um sociológico, sobre a forma como muitos sociológicos e restantes cientistas analisam esta questão — este documentário levou a que a Suécia e a Noruega cortassem financiamento a um instituto de estudos de género).

O problema do despacho é justamente este: não fazer a devida aclaração do que se refere. O uso de termos omissos e ambíguos na redacção, como por exemplo «autodeterminação da identidade de género» ou ainda «transição social de género, conforme a sua identidade autoatribuída» levam a crer que o despacho não se refere apenas a casos de transsexuais — que, reitero, merecem todo o respeito, cuidado e solidariedade —, mas também a transgénero, domínio muito difuso e que requer uma abordagem completamente diferente. Até porque já é hoje possível alterar o género no cartão de cidadão sem que seja necessária qualquer validação médica, apenas por «autodeterminação de identidade de género». Se assim for, este despacho permite que qualquer criança, mesmo que não seja transsexual, peça a alteração do seu género (de forma análoga ao CC) e que esteja coberto, como tal, pelo que está definido.

Por fim, para quem possa achar que a ideologia de género não existe e é uma criação bolsonarista — depois de fascista, neoliberal e populista, este é o termo da moda —, recomendo a leitura deste artigo (disclaimer: é da minha autoria).

A génese teórica da democracia 21 e um hambúrguer sff

A Sofia Afonso Ferreira publicou ontem, no Facebook, um post em que arrasava – por assim dizer -, a crónica de Alberto Gonçalves no Observador e que terminava com uma piada de elevado quilate sobre o autor possuir um restaurante, onde seriam colhidas assinaturas para um tal de partido libertário. Estava subentendido que haveria um insanável conflito de interesses.
A bem de alguma verdade e sabendo que corria o risco de estragar a piada da dirigente do futuro partido político, comentei que a parte da propriedade era mentira, que o meu amigo Hélder Ferreira estava aos comandos do excelente Burguer Point. Na altura, ficou a promessa de que a minha afirmação seria verificada.
Hoje, a meio da manhã, veio a bendita verificação que consistiu no print screen do anúncio de abertura do Burguer Point pelo Alberto Gonçalves, datado de 2018 bem como uma espécie de desafio para eu manter as minhas afirmações.
Mantive-as e esclareci a Sofia Afonso Ferreira que o anúncio datava de 2018 e que entretanto, as propriedades e os negócios, por definição e se as partes assim o entenderem, mudam de mãos. A Sofia Afonso Ferreira, não terá apreciado a minha insolência e insistiu para que fosse defender a minha posição na minha página, bloqueando-me de seguida – facto que me alivia e agradeço.
Deixo dois apelos: um de cariz humanitário e cristão: amigos reais e imaginários da Sofia Afonso Ferreira, ajudem-na. A Sofia Afonso Ferreira precisa muito, a sério;
o outro apelo: pessoas de bom gosto, sempre que visitarem o Porto, passem pelo Burguer Point, onde se come muito bem e se o Hélder estiver por lá, troquem dois dedos de conversa.
BurguerPoint
Excerto da crónica de Alberto Gonçalves sobre a piada que é o Democracia 21.
Disseram-me que, formalmente, o D21 ainda não é um partido. Isso não o impediu de se aliar ao Chega nas “europeias”, embora me impeça de me alargar nos comentários. Deduzo que seja contra a ciganada, os parasitas do RSI, as galdérias que abortam à balda e, quem sabe, os portistas. Avaliação: consta que o D21 é feminista.

Racismo, segundo a cartilha do bloco de esquerda

A aldrabice é a luz que guia o bloco de esquerda

Segundo o diário digital “DN”,  a agremiação também conhecida como bloco de esquerdaavança com (um) código de conduta. No horizonte estão as próximas campanhas eleitorais, em que os bloquistas temem que as notícias falsas assumam relevância no contexto dessas eleições.”

jv

Regressado à realidade, recordei-me de um post no Facebook de um grupo intitulado Algarve Político do deputado bloquista João Vasconcelos – que subiu ao poleiro da casa da democracia por se ter destacado como dinamizador e porta-voz da Comissão de Utentes da Via do Infante (CUVI), na luta contra as portagens nesta via e aprovados todos os orçamentos desta legislatura, continua a bater-se com invulgar heroicidade contra as portagens algarvias e a aprovar todos os orçamentos que as mantêm -, em que escreve sobre os apoios às vítimas dos incêndios que afectaram boa parte do Barlavento algarvio e Odemira:

Orçamento de Estado para 2019: PS votou contra e PSD/CDS abstiveram-se, o que levou ao chumbo da proposta bloquista – uma vergonha! E PS, PSD e CDS ainda dizem que são a favor das populações do Algarve – neste caso as vítimas dos incêndios de Monchique, Silves, Portimão e Odemira! Cada um que retire as suas ilações!
A proposta do Bloco alargava às vítimas dos incêndios de Monchique, Silves, Portimão e Odemira, ocorridos em agosto passado, os mesmos critérios nos apoios concedidos às vítimas dos incêndios que tiveram lugar em junho e outubro de 2017!
Mas PS, PSD e CDS preferiram discriminar as populações do Algarve, vítimas dos incêndios. Ainda por cima, grande parte pessoas idosas e com mais dificuldades.Uma vergonha mesmo.

Ora, uma vez mais, transportado para a realidade, o que na verdade se passou foi que a Proposta 372C do BE Artigo 261-A, foi votada e aprovada às 18 horas do dia 28 de Novembro de 2018 d.C., um dia após o post aldrabão do deputado caviar.

A favor, votaram: be, PSD, PCP e CDS. Contra, votou o PS.

Parece-me muito transparente e com muita margem de progressão o código de conduta para a “campanha nas redes sociais” idealizado pelo agremiação a que pertence o deputado algarvio.  Parece-me reposta a superioridade moral, o suposto humanismo do gang da extrema esquerda.