V for Vendetta

A lista dos (ex-) políticos que recebem a subvenção vitalícia não é propriamente grande notícia. Estão lá as figuras principais do regime que passaram no Parlamento e nos governos onde ganharam o direito que a lei até há uns anos atrás lhes consagrou.
Pode olhar se para os valores. Pode estranhar-se que com Macau tão longe das nossas memórias ainda haja quem receba muitos milhares de euro de pensão. Pode ser notícia que Duarte Lima na prisão, ou Sócrates que as aboliu (para a frente),recebam pensão. Pode ser caso de investigação o facto de Basílio Horta, que é presidente de câmara, ter direito a receber. Ou ser digno de nota que Guterres, depois de dez anos ao serviço da ONU, ainda vá buscar dinheiro à Ciaxa Geral de Aposentações.

Aparentemente, para o Público, nada disto é muito relevante. Jornalisticamente, a chamada de capa importante é esta.

ALA, ALA! Arriba!

BrasaoRE3Tenho andado aqui calado com a cagada dos incêndios porque não percebo nada do assunto nem tenho opinião que valha a pena. Mas há merdas que, chegados a este ponto de imbecilidade, já me tiram do sério.
Anda por aí muito ignorante indignado por causa da (não) participação dos militares no combate aos incêndios. Meus queridos, vocês ou são ignorantes, ou não sabem do que falam, ou são umas bestas.
No meu tempo no Regimento de Engenharia 3 enquanto Oficial de Dia, recebi várias vezes de madrugada equipas de militares desfeitos, negros de cinza, esfomeados, sedentos e com fardas queimadas por andarem 36, 48, 72 horas a abrir corta fogos no meio de incêndios com máquinas de engenharia sem pregar olho. Os Regimentos de Engenharia devem ser das poucas instituições que fazem prevenção de incêndios o ano todo, limpam estradas florestais e abrem corta-fogos, por exemplo. Quando são solicitados pelas Câmaras Municipais respondem sempre com os meios que têm e no âmbito da missão que lhes foi destinada de apoio ao bem-estar das populações, não porque lhes tenha sido atribuída uma missão específica para incêndios, mas porque se preocupam e colaboram a tempo e horas. Quando ainda ninguém pensa em incêndios já eles andam a preveni-los como podem. E para os políticos, tanto nacionais como autárquicos, é muito conveniente, mostram obra quase de borla (só pagam combustíveis, manutenção das viaturas e máquinas, alimentação e dormida aos militares, mais nada) e ganham votos à custa dos militares. O RE3 de Espinho trabalha, sem alarido nem mediatismo, 365 dias por ano em frentes de trabalho por todo o Norte. Perguntem às pessoas de Castanheira de Pêra, Arouca, Vagos, Cabeceiras de Basto, etc. só que como não fazem publicidade, os betos bem pensantes urbanos e os ardinas dos merdia acusam-nos de não fazerem nada e aos Governos de não os utilizarem. E se esses merdia se lembrassem de dar um salto a Espinho e falar com o CMDT do Regimento? Como nos podem informar se eles próprios não se informam? Já tentaram integrar uma equipa da Engenharia Militar neste combate? Continue reading “ALA, ALA! Arriba!”

Emprego: uma história de segundos trimestres (2)

O Pedro Romano respondeu aqui ao meu artigo sobre a evolução do emprego nos segundos trimestres de cada ano. Ele evidenciou que, corrigindo pelo número de desempregados em programas ocupacionais (que baixou mais este ano que no ano passado), a criação de emprego foi semelhante em 2015 e 2016, apesar da diferença de crescimento económico. Vou excluir a hipótese, não de todo improvável, de que há uma nova categoria de ocupados mais difícil de identificar estatisticamente e assumir que de facto a criação de emprego é a mesma.

Seria de facto um puzzle interessante a economia estar a crescer menos que no ano passado, mas a criar o mesmo número de empregos (excluindo ocupados). A questão é que a ligação a ser feita não é entre a economia e o número de empregos, mas entre a economia e o número de horas trabalhadas. Criar 2 empregos de 30 horas semanais não é o mesmo para a economia que dois empregos de 40 horas. Para percebermos isto, convém olhar para as horas de trabalho efectivo dos emrpegados em Portugal. No próximo gráfico poderesmo ver a evolução homóloga do número de empregados com duração efectiva da semana de trabalho superior a 30 horas:

horasdetrabalho1

Antecipando o comentário do Pedro Romano, podem também ver em baixo a mesma evolução corrigida de programas ocupacionais (utilizando o pressuposto conservador de que todas as pessoas em programas ocupacionais trabalhavam mais de 30 horas semanais).

horasdetrabalho2

Os valores para a variação em cadeia podem ser vistos abaixo e contam exactamente a mesma história:

horasdetrabalho3

Tanto num caso como noutro é claro que há menos empregos a ser criados com duração efectiva de trabalho acima das 30 horas. Ou seja, mesmo que o número de empregos esteja a ter uma subida semelhante à do ano anterior, o número de horas trabalhadas terá tido um aumento bastante inferior, provavelmente em linha com o crescimento da economia.

Emprego: uma história de segundos trimestres

O segundo trimestre de cada ano tende a ser o melhor para os números de empregos (algo que o INE corrige, em parte, nos valores ajustados pela sazonalidade). É um trimestre onde costuma haver mais criação de emprego, especialmente temporário. Nos 3 últimos anos tem existido uma recuperação contínua no emprego, com os números de pessoas empregadas a crescer constantemente. Portanto, ter o emprego a subir não é novidade. Ter o emprego a subir no 2º trimestre ainda menos. Para entendermos se as notícias sobre o emprego são efectivamente boas, convém comparar este segundo trimestre com os segundos trimestres de anos anteriores.

Olhemos então para o primeiro gráfico. Aqui está representado o aumento de empregos do 2º trimestre em relação ao mesmo trimestre do ano anterior:

homologa

Não é muito difícil de perceber que a criação de emprego este ano esteve bastante abaixo dos dois anos anteriores. O ano passado, em termos homólogos, criaram-se 3 vezes mais empregos do que em 2016. Em 2014, 4 vezes mais. Claro que esta variação tem também em conta o que aconteceu nos 3 trimestres anteriores. Para eliminar este efeito, podemos olhar apenas para a variação do 1º para o 2º trimestre em cada um dos anos:

cadeia1

A variação do número de empregos do 1º para o 2º trimestre foi, este ano, bastante inferior à do ano passado e em linha com 2014. O mesmo padrão encontra-se quando se analisa a variação nos dois primeiros trimestres do ano:

cadeia2

Entre o último trimestre do ano passado e o 2º trimestre deste ano foram criados cerca de metade do número de empregos que no ano passado no mesmo período. O crescimento do emprego este ano está em linha com o que aconteceu em 2014. Nesse ano a economia cresceu 0,9%. O Orçamento de estado para este ano apontava para 1,8% e o plano macroeconómico de Centeno para 2,4%. Se os números do emprego do 2º trimestre são indicadores de alguma coisa é de que a economia está a desacelerar e de que está a ser perdida capacidade de criar emprego. Veremos o que acontecerá nos dois próximos trimestres.

A imoralidade do imposto sucessório

Imposto sucessório: o imposto mais imoral de todos. Por Mário Amorim Lopes.

Descontadas as questões morais, o que na prática acontecerá é que quem tem grandes fortunas assegurará que ficarão devidamente blindadas numa qualquer fundação ou offshore, tal como acontece no Reino Unido (um exercício interessante para o leitor: vá até à Quinta do Lago e conte o número de casas que não estão registadas numa qualquer offshore de direito britânico). Já aqueles que só conseguiram deixar uma casa ou uns terrenos aos seus filhos ou netos assistirão à triste sina, já numa outra vida, de os ver vender os imóveis só para poderem pagar a maquia do imposto sucessório.

Incêndios em Portugal: um quadro de fatalidade fácil de explicar e entender

Estou cansado das inanidades que se dizem sobre incêndios. Por José Manuel Fernandes.

Estamos assim perante um quadro de fatalidade fácil de explicar e entender. Por um lado, a mudança radical por que passou o mundo rural nas últimas décadas fez com que as nossas florestas deixassem de ter o uso múltiplo que tinham no tempo dos nossos avós. Ninguém vai lá buscar lenha para os fornos das aldeias, nem fenos para as camas dos animais, tal como já não há nelas rebanhos que se alimentem da vegetação luxuriante. Quando ouvimos dizer que as matas não estão limpas é a esta realidade que nos estamos a referir, pois contratar equipas ou máquinas para proceder à sua limpeza não é hoje economicamente sustentável na maior parte das matas (e nem o Estado a realiza nas florestas que lhe pertencem).

Continue reading “Incêndios em Portugal: um quadro de fatalidade fácil de explicar e entender”

Catarina Martins, será o trabalho dos bombeiros voluntários “uma treta”? (2)

Leitura complementar: Catarina Martins, será o trabalho dos bombeiros voluntários “uma treta”?

Assim vão as coisas em Agosto de 2016…

Exportações agravam queda em junho

Conselho aceita não impor sanções. Portugal tem de apresentar mais medidas até 15 de outubro

Ministério das Finanças reitera que não são necessárias medidas adicionais

Imposto sucessório: o imposto mais imoral de todos

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Desculpa, o Estado não me permite deixar-te mais.

Se sobre a legitimidade da autoridade do governo tomarmos a posição de Locke, registada no Second Treatise of Government, que aponta o consentimento do governado como condição sine qua non para a legitimição, os impostos lato sensu constituem roubo, pois dificilmente existe aceitação, ainda que tácita, da criação de novos impostos. Tanto assim é que estes são cobrados coercivamente. Assim não fosse e o acto seria voluntário. E o roubo é, à luz da mais consentânea das teorias, imoral. Mas não precisamos de uma teoria tão forte para sustentar este texto. Consideremos que um determinado grau de taxação é aceitável, ignorando a incongruência lógica de que se os impostos são roubo, uma baixa taxa de imposto não deixa de ser roubo. Assumamos que é socialmente aceitável taxar até determinado nível.

O resto do artigo está no Observador.

 

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Roma locuta est, causa finita est

Teoria e prática de jornalismo. Por FJV.

Leitura complementar: “Ética republicana”, versão geringonça.

A “ética republicana” e a perseguição aos juízes

O Governo que persegue juízes. Por Alexandre Homem Cristo.

O governo plantou no JN uma notícia falsa, que atingiu o bom nome de um juiz (que o Ministério da Educação tentou afastar). Num país e num regime que se dessem ao respeito, isto seria um escândalo.

Leitura complementar: “Ética republicana”, versão geringonça.

Como noticiaria O Independente esta contratação?

Petrolífera estatal do México contrata Paulo Portas

Paulo Portas visitou o México duas vezes enquanto governante e “deu grande relevância aos projetos da Mota-Engil” nesse país latino americano.

A propósito desta notícia, lembrei-me do que escrevi neste artigo no Observador no início do ano, e em particular desta passagem:

Ora, creio que é em larga medida por esse trajecto anterior que a conduta política de Portas ao longo dos anos se torna mais criticável. Ao defender ideias que muito justamente criticou e condenou no passado e ao praticar ele próprio grande parte dos vícios que denunciou, Paulo Portas carrega na sua encarnação como político um odioso maior do que a generalidade dos membros da classe política portuguesa. Era-lhe exigível mais e Portas não conseguiu estar à altura do padrão que lhe era exigível.

Ética “republicana, laica e socialista”: casos práticos

O meu artigo desta semana no Observador: “Ética republicana”, versão geringonça.

A ideia de que os “usos e costumes” e a “adequação social” justificariam o “Galpgate” tem aderência histórica com as pouco edificantes práticas que caracterizam a “ética republicana” em Portugal.

BE e PCP: descubra a incongruência…

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Leitura complementar: BE: o partido que nunca pede demissões em público.

Para que serve um código de conduta?

O ministro Augusto Santos Silva, em nome do Governo, disse que o caso do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Rocha Andrade, “fica encerrado” com o reembolso dos bilhetes. Afirmou ainda que será criado um código de conduta para membros do Governo e altos dirigentes da Administração Pública. Mas esse documento já existia no Ministério das Finanças e não preveniu a conduta daquele secretário de Estado.

Mais do que a existência ou não de documento que impõe limites à conduta de funcionários públicos, é a ética que nos deve guiar as acções. Este caso originou polémica porque muitos de nós acredita que, acontecendo connosco, não teríamos semelhante comportamento. Rocha Andrade provou ter limites éticos inferiores aos nossos. Para o primeiro-ministro António Costa isso não é problema. Tal como não foi meter o amigo em negociações de Estado, sem qualquer vínculo contratual.

Um documento não muda o carácter das pessoas. Apenas obriga-as a encontrar formas mais difusas de o contornar. A permanência de Rocha Andrade no Ministério das Finanças não significa automaticamente que é um governante corruptível. Mas aos olhos da opinião pública já é visto como potencialmente influenciável. E na política as aparências muitas vezes contam mais que os factos…

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53.467

Apesar de estarmos em Agosto – habitualmente o mês com menores audiências do ano – foi ontem obliterado o anterior recorde de visitas diárias n’O Insurgente, com o blogue a registar pela primeira vez mais de 50.000 visitas num só dia.

Parabéns a todos quantos contribuíram para o extraordinário sucesso do dia de ontem, sendo devido um agradecimento especial ao Carlos Guimarães Pinto (só este seu post já conta, além as muitas visualizações no próprio blogue, com mais de 10.000 partilhas nas redes sociais) e, claro, ao Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais Fernando Rocha Andrade.

No que diz respeito a outros canais de divulgação, para além das muitas pessoas que seguem O Insurgente através dos mais variados readers e por email, a página d’O Insurgente no Facebook agrega já mais de 16.700 pessoas e o blogue conta também com mais de 2.700 seguidores via Twitter.

Obrigado a todos os leitores pela preferência.

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“caso encerrado”!

Governo declara “caso encerrado” com reembolso, mas vai fazer código de conduta

Ministro da Educação acredita que viagens pagas pela Galp é assunto terminado

Afinal já existe um Código de Conduta e Rocha Andrade estava a ele vinculado

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Uma questão de dignidade

img_890x500$2016_04_02_00_36_53_281751Quando surgem casos como os das viagens ao Europeu existe a tendência de comparar o incomparável. Não é a mesma coisa um secretário de Estado cuja tutela está em litígio com uma empresa aceitar um presente de grande valor dessa empresa, e um outro secretário de estado sem relação directa com a empresa fazer o mesmo. Por isso, a situação de Rocha Andrade é diferente da dos outros dois secretários de estado e a situação dos três é diferente da dos deputados do PSD. Mas a realidade é que os três deputados do PSD, mesmo pagando, não foram convidados pelo empresário Joaquim Oliveira pela cor dos seus olhos, mas pela posição que têm e, acima de tudo, pela que podem vir a ter. A desculpa da práctica habitual não se coloca porque estamos numa fase da vida política em que muitas das prácticas habituais estão, e bem, a ser eliminadas. O líder do seu partido, a quem não terão certamente faltado convites, resolveu viajar por conta própria e afastar-se das zonas VIP, reconhecendo exactamente a necessidade de acabar com as “prácticas habituais”.

A forma como justificaram as faltas ao parlamento, e a forma como o líder parlamentar as aceitou, só agrava o problema. Presidente e vice-presidente da bancada deveriam ter a dignidade de aproveitar o novo ano parlamentar para darem o seu lugar de liderança a outros e seguirem o seu percurso como deputados. Não tendo cometido um pecado capital, nem tendo cometido uma falta sequer próxima da dimensão da de Rocha Andrade, os dois deveriam assumir o erro. É no assumir de pequenas faltas que se vê a dignidade de um político e, acima de tudo, é assim que um partido pode marcar a diferença ética em relação aos outros. O PSD e os dois deputados têm aqui uma oportunidade de ouro de marcar a diferença. Que Luis Montenegro e Hugo Soares tenham essa dignidade.

Código de conduta da administração fiscal

Podem ler na íntegra o código de conduta da administração fiscal, disponível aqui.

Ficam aqui algumas alíneas do ponto 4:

Os trabalhadores devem desempenhar as suas atividades públicas e privadas de modo a reforçar a confiança na integridade, objetividade e imparcialidade do serviço público que representam. (…)

Os trabalhadores devem conjugar o exercício dos seus deveres profissionais e das suas atividades ou interesses privados de forma a prevenir o surgimento de conflitos de interesses reais ou potenciais. (…)

Os trabalhadores não devem pedir ou aceitar presentes, hospitalidade ou quaisquer benefícios que, de forma real, potencial ou meramente aparente, possam influenciar o exercício das suas funções ou colocá-los em obrigação perante o doador. A aceitação de ofertas ou hospitalidade de reduzido valor (objetos promocionais, lembranças, …) não é censurável se não for frequente, estiver dentro dos padrões normais de cortesia, hospitalidade ou protocolo e não for suscetível de comprometer, de alguma forma, ainda que aparente, a integridade do trabalhador ou do serviço

E, não menos importante, o ponto 3:

Os dirigentes e chefias têm a especial responsabilidade de, através das suas ações e comportamentos, constituir exemplo dos valores de serviço público, de os incutir em todos os aspetos do trabalho e da organização dos serviços e de encorajar e manter o diálogo sobre os valores de ética profissional e de serviço público.

Código de conduta para governantes do PS (2)

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Código de conduta para governantes do PS

Código de conduta para membros do governo do PS. Por Carlos Loureiro.

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“Entre a Arcada e São Bento”

card_rocha_andrade_060116 A polémica em torno da oferta, por parte da GALP, de viagens e bilhetes para jogos da selecção portuguesa de futebol no último “Euro” a três secretários de Estado do Governo da iniciativa do PS e três deputados do PSD é um iluminador espelho da realidade política portuguesa. A coisa começa com a forma como se foi tornando pública. Primeiro, houve a notícia de que o Secretário de Estado do Autoritarismo Fiscal (oficialmente conhecido por “Assuntos Fiscais”) tinha sido agraciado com esta amabilidade da empresa patrocinadora da “nossa selecção”, curiosamente numa altura em que essa mesma empresa tem um litígio com o Estado em torno de um problema fiscal. Como a publicitação do facto é incómoda para o Governo, a sua máquina de propaganda logo tratou de pôr as suas “fontes” a trabalhar e a telefonarem para os jornalistas amigos, para que noticiassem que também três figuras do PSD – Luís Montenegro (segundo o boateiro profissional que trabalha no palácio de Belém, candidato a líder do PSD), Luís Campos Ferreira (ex-secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros) e Hugo Soares (uma nulidade que ocupa o cargo de vice-presidente da bancada parlamentar laranja) – tinham beneficiado de um “convite” similar de Joaquim Oliveira. E uma vez noticiado esse facto, logo alguém tratou de garantir que se soubesse que mais dois Secretários de Estado tinham sido abençoados com semelhante generosidade. Ou seja, os vários deputados, Ministros e Secretários de Estado dos vários partidos convivem bem com as acções de ética duvidosa uns dos outros, desde que elas não apareçam nas capas dos jornais; caso contrário, logo se ocupam de se acusarem mutuamente por falhas cometidas por ambas as partes. Não é um espectáculo digno de se ver, como não o é aquele a que os jornalistas se prestam, remetendo-se ao papel de meros moços de recados das máquinas partidárias.

E se a coisa começa mal, acaba muito pior. Porque mais graves do que a forma como os políticos das várias cores partidárias lidam com a polémica em torno de práticas como esta, são precisamente as práticas que uma vez ganhando destaque noticioso dão origem a polémicas como esta. O que as viagens do Secretário de Estado do Autoritarismo Fiscal Rocha Andrade, do Secretário de Estado da Internacionalização Jorge Costa Oliveira, do Secretário de Estado da Internacionalização João Vasconcelos ou dos três deputados do PSD deixam a nu é o insalubre ambiente promíscuo em que a “elite” portuguesa vive e convive. O Governo, pela voz imponente do Ministro dos Negócios Estrangeiros Santos Silva, já veio dizer que “o caso” fica “encerrado” com o reembolso da oferta por parte dos três membros do Executivo. Não fica, porque o problema não é o dinheiro que a empresa gastou e que os senhores membros do Governo pouparam. O problema está no facto de, neste caso como em muitos outros que nunca aparecem nos jornais ou nas televisões, políticos como os senhores Secretários de Estado e os senhores deputados (e Ministros e Primeiros-Ministros) almoçam e jantam com altas figuras de importantes empresas, falam ao telefone com eles, frequentam os mesmos sítios, têm amigos e família em comum, vão a “eventos” organizados uns pelos outros, fazem viagens pagas pelos clubes e Federação de Futebol (que são empresas por muito que o seu estatuto legal seja outro, e empresas que geram e movimentam muito dinheiro) para se promoverem em troca de se dar ao futebol o “mundo à parte” legal em que o desporto vive, os partidos a que esses políticos pertencem são financiados pelas empresas geridas por essas figuaras, recebem favores de uns e fazem favores aos outros, conversam amigavelmente uns com os outros de forma informal sobre decisões a serem tomadas formalmente mais tarde, sem escrutínio e sem transparência. As boas consciências logo se perguntaram como era possível não ocorrer a um Secretário de Estado que não pode aceitar uma oferta de uma empresa privada; não percebem que não lhe ocorreu porque para ele – como para qualquer outro político português – este hábito de recíproco coçar de costas entre o “poder político” e o “poder económico” (incluindo o “poder futebolístico”) é perfeitamente normal: a sua vida consiste de facilitar a vida a quem lhes pode facilitar a sua. A própria Secretaria de Estado da Internacionalização, cujo responsável está a merecer menor censura que Rocha Andrade, mais não é do que uma agência facilitadora estatal, que só difere dos restantes Ministérios e Secretarias de Estado porque faz menos esforços para o esconder.

Santos Silva anunciou que o Governo irá elaborar um código de conduta para evitar situações destas. A “solução” talvez resolva o problema “comunicacional” – ou seja, propagandístico – nascido desta polémica, mas em nada resolve o problema do qual ela nasceu: o “sistema” português vive desta promiscuidade entre quem ocupa o Estado e quem dele precisa para prosperar, porque o país é pequeno, a elite é reduzida, o Estado é grande, e a dependência dos “interesses” em relação a ele (e dele em relação aos “interesses”) é ainda maior. Só reduzindo o Estado e o número de actividades e decisões que dependem do seu arbítrio é que se pode reduzir – sublinho, reduzir – o poder de quem tem acesso privilegiado aos corredores e números de telefone dos gabinetes ministeriais, e só assim se poderá atenuar – sublinho, atenuar – o problema da relação promíscua entre os políticos e quem lhes faz (e deles recebe) convites e favores. Rocha Andrade, Vasconcelos, Costa Oliveira, Montenegro, Soares e Campos Ferreira são um epifenómeno. Um epifenómeno grave (especialmente no caso de Rocha Andrade), mas um epifenómeno. O problema, bem maior, está muito para além deles e desta polémica de Agosto.

Da ética republicana, laica, socialista (4)

Jorge Miranda defende demissão do secretário de Estado Rocha Andrade

“É inadmissível. É uma falta de ética espantosa. [Fernando Rocha Andrade] devia demitir-se”, disse Jorge Miranda à agência Lusa. Para o constitucionalista, “é espantoso que ao fim de 40 anos de democracia ainda exista um caso destes”.

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“dentro da adequação social [republicana, laica e socialista]”

Ministério Público recolhe elementos sobre caso Rocha Andrade

Aceitar presentes pode ser crime desde 2010

Mário Centeno diz ao Observador que “não é relevante nesta circunstância” responder à pergunta se teve conhecimento da viagem paga ao secretário de Estado. (…) Desde 2010 que o Código Penal passou a prever o “recebimento indevido de vantagem”, que pune com “pena de prisão até cinco anos ou com pena de multa até 600 dias” os funcionários que aceitarem “vantagem patrimonial ou não patrimonial, que não lhe seja devida”. O novo crime visa exatamente os presentes recebidos por altos funcionários da administração pública ou políticos. A alínea 3 deste artigo, no entanto, institui o seguinte: “Excluem-se dos números anteriores as condutas socialmente adequadas e conformes aos usos e costumes”. Não é por acaso que, nas respostas aos meios de comunicação social, o secretário de Estado Fernando Rocha Andrade diz que “encara com naturalidade, e dentro da adequação social”, a aceitação de dois convites da Galp para assistir a dois jogos da seleção no euro 2016. Ou seja, nas suas respostas, Rocha Andrade usa uma formulação política, mas com sustentação jurídica, para afastar a possibilidade de ter cometido um crime.

bolas

Lição de ética política

Classe política está tão habituada à promiscuidade entre Estado e empresas [algumas!] que nem percebem os perigos das ofertas em espécie. Ou talvez seja lobbying à portuguesa.

Batman_RochaAndrade

Da ética republicana, laica, socialista (3)

CDS quer demissão do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais

PSD quer esclarecimentos do Governo sobre viagem paga pela Galp a secretário de Estado

bolas

Rumo a nova bancarrota…

Fitch. Portugal vai violar meta do défice este ano e no próximo

A agência de rating calcula que o défice atinja os 3,4% este ano e só desça uma décima no ano seguinte e deixa alertas sobre a fragilidade do acordo parlamentar entre os partidos à esquerda.

Leitura complementar: Da ausência de sanções à quarta bancarrota.

Galpgate: PS recorre à artilharia pesada

Santos Silva faz declaração sobre o caso Rocha Andrade