Acima de tudo, manter a casta

A minha crónica hoje no i.

Acima de tudo, manter a casta

Afinal, o histórico défice de 2% do PIB foi conseguido à custa de cativações. Ou seja, o governo não permitiu certas despesas, pondo em causa a prestação de certos serviços públicos, para compensar a reversão dos cortes nos salários da função pública e das pensões.

Aquilo de que se suspeitava – porque o dinheiro não é elástico – está hoje à vista: o plano B do socialismo é pagar clientelas, mesmo que à custa do Estado. António Costa e o seu círculo político perceberam que a única forma de o PS não seguir o caminho de outros partidos socialistas europeus é através da compra de votos. E qual cacique dos tempos modernos, Costa prometeu benesses pagas com fundos públicos, mesmo que à custa do bem comum.

Para piorar a narrativa, e como o crescimento económico dos últimos meses foi conseguido à custa de mais dívida, lá chegará o dia, ou porque já não há condições para pagar mais benesses ou porque o Estado falhou outra vez como aconteceu em Pedrógão e em Tancos, em que acordamos outra vez para a realidade.

Esse momento será cómico, para não dizer triste. Aquele em que Bloco e PCP lavarão as mãos e se tentarão salvar a qualquer custo. Quais ratos, saltarão borda fora na esperança de escaparem e acusarem outros da desgraça para a qual contribuíram. Exímios que são nessa prática política, que agora se considera uma arte, não terão dificuldades em prevalecer. Não deixa de ser curioso como o socialismo se modernizou ao ponto de pôr em causa a boa execução das funções próprias do Estado.

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My ass

“If you don’t read newspapers you are uninformed, if you read them, you are misinformed” – Samuel Clemens aka Mark Twain

Desde o início desta história do “assalto” ao paiol de Tancos que a explicação mais plausível sempre me pareceu um problema de inventário. Não me lixem, não conheço pessoalmente o Cmdt do RE1 (embora tenha boas indicações dele por terceiros) mas salvo raras excepções tenho a melhor das ideias acerca do Oficiais de Engenharia e de uma coisa que nenhum dos que conheci pode ser acusado é de falta de rigor. São tão Engenheiros como qualquer um saído do IST ou da FEUP. Aliás são o mais antigo curso de engenharia em Portugal.

 

As Unidades do Exército têm vários Depósitos; de bares onde estão as bebidas e outros produtos destinados aos bares e messes, de fardamento, disto e daquilo. E têm paióis. No limite do pessoal, nenhum Cmdt de um Regimento, mas nenhum mesmo, deixa de ter a noção das prioridades da Guarda. Entre armas e explosivos ou fiambre e cerveja não têm dúvidas. Assim desde que a história aparece, convenientemente logo a seguir ao desastre de Pedrógão, que tresanda. As torres de vigia estavam vazias mas é os tomates. O problema foi isto ter escalado e na Central de Informação não terem percebido a gravidade da versão (pudera, naqueles lados a Defesa é um detalhe do papel do Estado e pouco importante) que puseram a circular. Quem se lixaria no fim seriam uns Oficiais e uma ou outra alforreca com umas estrelas nos ombros e Pedrógão e a inacreditável incompetência do Governo, do Estado e das instituições operacionais geridas por enfermeiros e professores primários passaria à História. Pois, só que lá fora, isto de material de guerra desaparecido é levado a sério.

 

A ver, os tais 44 “lança granadas” são umas merdas que pesam 2,5Kg cada um (em cada pelotão há um certo número de soldados que leva às costas três LGFs – neste caso parece ser M72 LAW que é a mesma merda – Google it, embora não me lembre de quantas munições leva um cunhete, 1495 munições é ridículo; granadas de gás lacrimogénio e ofensivas? E granadas defensivas nem uma? É que quem quiser fazer estragos a sério usa granadas defensivas (bem sei que é contra intuitivo, Google it). Mais uns cordões e umas merdices e está o filme feito.

Ora bem, para haver um problema de inventário que é a única explicação plausível há duas hipóteses, uma envolvendo corrupção outra negligência.

 

  1. Periodicamente há material que tem que ser destruído por ultrapassar o prazo de validade e há, ou havia, vários métodos de o fazer. Basta o tipo encarregue de contar o material a abater fazê-lo sem rigor nenhum (em vez de contar , digamos 364 LGFs contou 320 meio a olho, em vez de 52 cunhetes de munições contou 51, etc. ). Passado uns tempos há uma inspecção e o inventário está todo gatado. Vocês sabem qual é a percentagem que as grandese profissionalíssimas cadeias de supermercados usam para desaparecimentos antes de os produtos chegarem às prateleiras: 7%. E não é só por roubos, é também e essencialmente por erros de contagem.
  2. Outra hipótese é o material ter sido encomendado (imaginemos 1500 LGF), pago e parte nunca ter sido entregue e alguém se abotoa com a diferença que, honestamente, são trocos. Claro que vai dar asneira mais cedo ou mais tarde, mas muita gente metida nestas coisas não prima pela inteligência (ver o caso recente na FA e os mantimentos).

 

Agora, ninguém, mas mesmo ninguém me convence que houve assalto algum ao paiol de Tancos. Mas é que não mesmo. Eh pá! Qualquer paiol está cheio de granadas defensivas. Alguém que quer fazer estragos ou ganhar guita as deixa lá ficar e leva mei a dúzia de ofensivas e de gás lacrimogéneo? Olhem, quem inventou esta história bem pode ir gozar com o raio que o parta. Pedrógão não vai ser esquecido e teve o lado bom de permitir identificar as alforrecas ao serviço do poder.

Nem era preciso PJ, bastaria a PJM agarrar em todos os inventários e ir andando para trás e facilmente chegaria ao buraco. Mas pronto, quem poderia explicar está constitucionalmente impedido de falar (e ainda sabe o que é a honra), quem pode falar está a salvar a pele, a própria e a de outros porque isto escalou. Os imberbes da Central de Informações são uns meninos cheios de maquiavelismo livresco mas sem noção nenhuma do Mundo.

 

Na imagem um M72 LAW, 2,5kg, 640€ cada um. Segundo os espanhóis são 44 coisas daquelas que faltam.

Uma vitória da esquerda

Falhas no incêndio em Pedrógão, o assalto em Tancos que afinal foi uma espertice para enganar os gatunos, a forma como Costa pôs as chefias militares a piar fininho, as demissões dos secretários de Estado por viagens feitas há um ano para verem os jogos do Euro2016. Não foram os partidos de esquerda que nos disseram que na política ia mandar a economia? Olha, conseguiram.

IEP-UCP Clube ALUMNI

Recomendado a todos os ex-alunos do IEP-UCP: Instituto de Estudos Políticos – Clube ALUMNI.

Licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais – IEP-UCP

Está em curso a 1ª fase de candidaturas à melhor Licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais em Portugal – a do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

O concurso aos cursos da UCP é local, pelo que a opção “Universidade Católica Portuguesa” não está incluída no concurso nacional, devendo a candidatura ser feita directamente junto da UCP.

Ecléctica Leilões – no Facebook

Ainda a propósito da Ecléctica Leilões, aqui fica a indicação da respectiva página no Facebook.

No Porto Canal, às 19:30

Mais logo, às 19:30, estarei no Jornal Diário do Porto Canal a analisar a situação política e o cenário de uma possível remodelação do Governo.

Pedrógão Grande, Tancos e o desgaste do Governo

Artigo com comentários meus e de António Costa Pinto (ICS-UL): Estado da Nação: Pedrógão Grande e Tancos contaminam debate e podem desgastar Governo.

Um governo amoral

Este governo não existe porque não ganhou as eleições. A minha crónica hoje no i.

Um governo amoral

De repente, corre tudo mal. Foi tão rápido que muitos devem estar a coçar a cabeça, pensando o que fazer às crónicas escritas nos últimos meses. Costa, o génio político, afinal não tem mão nisto. Já agora, acrescento que Marcelo também não. É uma evidência, mas a vista da maioria tem andado entorpecida e foi preciso o fumo dos fogos para a aclarar.

Foi a EDP, os empregos para a família de César, Pedrógão Grande, Tancos e, qual cereja em cima do bolo, o focus group. É demasiada realidade em demasiado pouco tempo. E azar dos azares, no Verão, mesmo em cima das autárquicas. Como é que gente tão batida nisto, neste modo amoral de governar, foi apanhada na curva desta maneira? O facto é que, por muito profissional que seja, o governo está ferido de morte porque não ganhou as eleições.

Eu sei, voltamos ao mesmo, mas é Costa que o confirma. Porque, ao não ter vencido as eleições, Costa depende das boas notícias que fabrica e explora. Foi por ter perdido as eleições que depende dos interesses que capturaram o Estado e que PS, PCP e Bloco não querem questionar. Foi por o PS não ter ganho as eleições que o governo se socorreu da bazófia, foi displicente, distorceu factos, mentiu, provocou, deitou foguetes e se apropriou de sucessos alheios. Divertiu. Fez tudo menos governar e, não governando, não perdeu só o rumo, que nunca teve, mas a moralidade que advém duma existência democrática. Um dia cairá sem que ninguém perceba porquê. O que está podre cai assim: sem que se ouça.

Lisboa e a banda do exército saúdam a festa dos brutos

Foto Tiago Petinga/Lusa

Duzentas almas manifestaram-se hoje em Lisboa a favor do regime comunista venezuelano, liderado por Nicolás Maduro. A celebração cívica teve o natural apoio do PCP, através do líder parlamentar, de uma sua afiliada intitulada Conselho Português para a Paz e Cooperação presidida -por mero acaso- pela candidata comunista à Câmara Municipal do Porto e da embaixada do país sul-americano.

O que me indigna não é a defesa por parte de comunistas e comunistas envergonhados de ditaduras brutais e autoritárias desligadas da realidade e do elementar bom senso mas a participação na celebração de apoio às forças progressistas de representantes da Câmara Municipal de Lisboa e da Banda do Exército.

O socialismo do século XXI não muda – continua a ser uma festa brutal e ignóbil.

E Agora, Para Algo Completamente Diferente… (2)

Pegando no post do João, se instado a comentar o evento de Tancos, Pedro Silva Pereira poderia perfeitamente dizer: se o paiol não existisse, também não teria ocorrido um roubo de material militar nesse paiol.

O roubo de Tancos e o “regular funcionamento das instituições”

Cinco comandantes demitidos na sequência do roubo de armas em Tancos

O Chefe do Estado-Maior do Exército decidiu exonerar cinco comandantes para não interferirem nas averiguações, na sequência do roubo das armas, em Tancos. E não lhe passa pela cabeça demitir-se.

Tancos: oficiais em protesto vão depor espadas à porta da Presidência da República

O Expresso teve acesso ao email que convoca a manifestação. O plano é começar com uma concentração às 11h30, em frente ao Monumento aos Mortos, na zona da Torre de Belém, e depois seguir em marcha silenciosa em direção ao Palácio de Belém. Aí, os oficiais deverão depor simbolicamente as suas espadas, perante a residência oficial do Presidente da República, que é o comandante supremo das Forças Armadas.

O protesto visa diretamente Marcelo Rebelo de Sousa, cujo silêncio sobre este caso se prolonga desde que foi noticiado o roubo, na quinta-feira, mas tem como alvos principais o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, e o CEME, Rovisco Duarte, que anunciou a exoneração dos cinco comandantes em direto numa entrevista à RTP, sem antes ter contactado os visados.

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Ecléctica Leilões

Ecléctica Leilões – Recomendado a todos os interessados em livros raros.

A título de declaração de interesses, devo referir que um dos membros da equipa – o Professor Hugo Chelo – além de ser uma das pessoas que mais sabe sobre livros em Portugal, é meu colega no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa.

Ajustes directos são só para os amigos?

Uma coisa que me deixou admirado (não devia!) com esta coisa do furto ao paiol de Tancos: se já tinham detectado falhas no perímetro de segurança (inclusive videovigilância avariada) faz mais de 1 ano porque razão anunciaram tais problemas sob a forma de concurso público? Não foi para este tipo de urgências que criaram o ajuste directo? Ou isso é só mesmo para favores a amigos?

O descaramento não pede desculpa

A minha crónica hoje no ‘i’.

O descaramento não pede desculpa

Dias depois da tragédia de Pedrógão Grande, Passos Coelho cometeu uma gaffe quando disse conhecer casos de suicídio que, felizmente, não aconteceram. Foi um erro lamentável do qual pediu imediatamente desculpas. Mesmo assim, boa parte da imprensa e comentadores, uns a soldo da esquerda, outros sem vontade própria, não largaram o sucedido, fazendo esquecer a verdadeira vergonha deste mês.

Desde a noite de Sábado, dia 17 de Junho, que Marcelo e Costa desvalorizaram o desastre. O Presidente da República apressou-se a dizer, também sem saber, que se tinha feito o máximo. Mais tarde, quando deu jeito, pôs-se à margem e exigiu explicações. Já Costa, menos impulsivo que Marcelo mas actor de não menor qualidade, surgiu contristado como quem espera que aquela desgraça não ponha termo à festa a que sujeitou o país desde que, todos os dias, precisa de uma boa notícia para legitimar a forma como chegou a primeiro-ministro.

Mas “aquilo” não passou porque, infelizmente, era grave demais. Foram muitos mortos, feridos, desaparecidos, e muita gente que ficou sem nada, para que se passasse um pano por cima. Foi aí que Costa decidiu ser tempo de descer do palanque de chefe de governo e juntar-se ao povo, exigindo explicações. Porque Costa e Marcelo, amigos do povo, não explicam, exigem, deixando de ser quem são quando isso lhes interessa. Deste comportamento lamentável não virá um pedido de desculpas. Eles são demasiado espertos para isso, e o país demasiado manobrável para tal. Até ver.

O Metro de Lisboa e o ministro do ambiente a darem o máximo

No mínimo, é o máximo. A espera pelo Metro é algo de pitoresco.

“Sou um cliente assíduo do Metro de Lisboa e testemunho que está a funcionar muito melhor”, afirmou o ministro do Ambiente.

Leitura recomendada: Felizmente, o metro de Lisboa é do povo e não de uma multinacional neoliberal qualquer

Até o SIRESP fez o máximo que podia

Foto: Miguel A. Lopes/Lusa

O relatório do SIRESP é um insulto às vítimas dos incêndios e mais uma prova do processo de venezuelização em curso. Afinal a vida tem de continuar, excepto para todos aqueles  que a perderam, por responsabilidade do estado.

“É lógico que houve falhas” no SIRESP em Pedrógão Grande, diz comandante de Castanheira de Pera

Caixa negra da Proteção Civil revela pedidos de ajuda sem resposta por falha do SIRESP

O campo inclinado

Campo inclinadoMorreram 64 pessoas (talvez mais), num fogo misterioso (trovoada seca? fogo posto?), em que o SIRESP contatado pelo PM quando era MAI falhou redondamente (como já se falava na TVI em 2014), a ministra da área provou não ter capacidades para lidar com a situação  e a ilibação das culpas por Marcelo começou antes ainda de se saber coisa alguma.

Tudo normal e o Bloco apenas pede chuva.

Passos Coelho deu uma informação errada pois confiou num terceiro.

Cai o Carmo e a Trindade.

*suspiro*

O amor acontece

 

Distrital do PS pede demissão.

Só resta a tristeza

Tudo isto é triste, tudo isto é fado. Bem sei que há Fundos pra isto e praquilo, que não faltam leis a proibir a discriminação (até individual, go figure) de tudo mais um par de botas, que não faltam leis a regular o açúcar nas bebidas, leis a regular a abertura e fecho dos tupperware dos tomates e das alfaces nos restaurantes, o sal no pão, as promoções e saldos no comércio. Que não faltam direitos adquiridos, punição fiscal de uns comportamentos e incentivo de outros, que o Estado até na cozinha e na alcova já nos entrou. Sei isso tudo.
Também sei que na razão primeira que lhe legitima a existência, a protecção das pessoas e da respectiva propriedade, falha todos os dias e, às vezes, de forma trágica como se viu nestes dias. Mas isso não interessa nada pois não?
Isto já nem chateia, só entristece. É triste, demasiado triste, mas enquanto se conseguirem pagar umas migalhas aos velhos e umas mordomias aos funcionários bem pode todos os dias morrer gente por incúria, desleixo e corrupção do Estado. Porque falha exactamente onde não pode falhar e deslegitima-se, mas a maioria de nós há-de continuar a não perceber e não adianta. E não, não é só em catástrofes, é todos os dias. Quem me dera não saber nada nem de nada, já só me resta esta tristeza.

Eu, Sebastião Pereira

Dou a boa-nova que a colega Fernanda Câncio já descobriu quem pagou as contas das férias em Formentera.

SIRESP: uma PPP à portuguesa

A história do SIRESP em números. Por Joaquim Miranda Sarmento.

Do ponto de vista operacional, o contrato não tinha cláusula de fiscalização e acompanhamento da instalação dos equipamentos. Também tem um anexo (anexo nº 29) de penalizações que faz com que o valor a pagar pelo Estado apenas se reduza em casos em que o sistema falhe durante vários dias, o que significa que no caso de Pedrógão Grande, não se afigura que as cláusulas de penalização possam ser acionadas.

Além disso, o contrato tem uma cláusula standard nas PPP que aqui não faz sentido nenhum: a alocação do risco “acts of God” (ou seja, desastres naturais) ficou do lado do Estado. Isso faz sentido numa infraestrutura de transportes ou social, uma vez que o privado constrói a ponte ou a estrada ou outra infraestrutura para ser operada, e não para resistir a um terramoto. Mas no SIRESP essa clausula mostra negligência na elaboração do contrato, dado que o objetivo do sistema é que ele funcione exatamente em caso de calamidade. Esta cláusula iliba qualquer responsabilidade da empresa privada no falhanço que ocorreu no fim-de-semana do incêndio.

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A imprensa espanhola volta a fazer o seu trabalho

UN PAÍS EN LLAMAS

El cártel español del fuego amañó contratos de extinción de incendios en Portugal

El gobierno luso pagó hasta tres veces más de lo que realmente costaba el servicio contratado.

De regresso à realidade e quase uma semana após o mais grave incêndio florestal, quando é que as autoridades poderão dar informações sobre o número de desaparecidos?

Leituras complementares: Descubra as diferenças; Todos à procura do D. Sebastião.

 

Quem é Sebastião Pereira?

O único dado que foi possível apurar até agora junto de fonte segura é que, ao contrário do célebre “Miguel Abrantes”, nunca terá jantado com Fernanda Câncio.

Um Estado falhado

O que ninguém sabia quando Marcelo chegou ao local da tragédia e disse que ‘se fez o máximo que se podia ter feito’ é que muitas das vítimas não eram dali. Muitas delas tinham ido apenas passear na região, passar um dia numa praia fluvial e regressar depois a casa. Ora, este pormenor, além de dizer muito da forma como as autoridades valorizam as diferentes vidas humanas, permite-nos concluir que qualquer português podia ter morrido ali. Qualquer um de nós, fosse do Porto, Aveiro, Bragança, uma aldeia do interior ou cidade do litoral, podia ali ter estado e ali ter ficado. O que aconteceu não foi um azar. Não é seguro viver e andar em boa parte do interior de Portugal. Se o Estado não tem condições para proteger a população, uma das suas funções fundamentais, o Estado serve para quê?

Fogos que ardem sem se ver

O Estado não previu, nem preveniu, a possibilidade de um incêndio forte como o de Sábado passado, apesar de tal ser expectável com as altíssimas temperaturas que se faziam sentir. Todos perguntam, porque nada se fez. Mas há outro incêndio de deflagra e que poucos vêem: o fogo da dívida, seja pública ou privada. Também quanto a esta, e apesar da experiência que o país tem na matéria, pouco ou nada se faz. O Eco noticiou em Maio o aviso do BCE: a subidas das taxas de juros por parte do FED são um forte risco para Portugal. É verdade que o PIB está a crescer parecendo dessa forma que a dívida fica controlada, mas isso não é verdade. É uma ilusão, mais uma, que se soma a todas as demais. É por isso muito importante que se inquira, se investigue e se procurem respostas. O país não pode voltar a ser apanhado de surpresa.

Os mortos são um pormenor

O meu texto desta semana no Observador.

‘1. Em 1958, Mao Zedong lançou o Grande Salto em Frente. Alucinadas políticas agrícolas, industriais e de obras públicas, de conceção inteiramente humana, resultaram, segundo o académico Frank Dikötter, em pelo menos 45 milhões de mortos. Qual foi a desculpa oficial apresentada pelas autoridades chinesas para a fome e os mortos? Ora: houve uma sucessão de calamidades naturais que resultaram em colheitas minúsculas. Este tempo ficou conhecido como os ‘três anos de desastres naturais’.

Francisco da Silva Costa, Miguel Cardina e António Avelino Batista Vieira, em ‘As inundações de 1967 na região de Lisboa, Uma catástrofe com diferentes leituras’, sobre a tragédia das ditas cheias, verificaram que a imprensa amiga do regime focava as notícias no sentimento de fatalidade, no impacto das causas naturais e na generosidade geral que se seguiu. (Reconhecem?)

É próprio de ditaduras culpar desastres naturais por mortes evitáveis. Há que impedir contestação e protestos por incompetências e negligências dos queridos líderes. É neste quadro que devemos ler os argumentos dos jornalistas engajados que nos querem convencer que nada há a fazer porque a floresta arde, o aquecimento global está aí – e fica tudo dito.

É neste contexto também que enquadramos a história tão prontamente cozinhada por todas as autoridades, a do desastre natural incontrolável e das condições climatéricas atípicas (alguma vez se viu neste polo norte onde vivemos altas temperaturas e baixa humidade?). Uma situação imprevisível (a geringonça tinha dado ordem ao clima para só se fazer notar a partir de 1 de julho, e ninguém está a reprovar devidamente esta irreverência climática). Num país onde nada se descobre, em poucas horas encontrou-se a maldosa da árvore que recebeu o raio e matou toda a gente. A culpa é da árvore, do raio e, se há culpa humana, é da aleivosa criatura que ali a plantou há algumas décadas. Ao jornalista Sebastião Bugalho, do i, a gente da zona contou que a trovoada seca ocorreu depois do fogo deflagrar. Devem ter inalado fumo de alguma plantação ilegal de marijuana que ardeu.

2. Foi bom ver as gelatinas que nos governam. Num momento em que precisávamos de gente de cabeça fria e decisão certeira, a pessoa do Palácio de Belém e o secretário de estado deixaram-se fotografar, na noite do desastre, emocionados, abraçados, como se a desabar. A ministra Urbano de Sousa teve a falta de noção de falar dos seus estados emocionais numa entrevista televisiva. O primeiro-ministro, em vez de se mostrar ao comando, tuitou-se a abraçar uma senhora.

Indecorosa utilização das emoções. Quando necessitávamos de confiar que nos protegiam, apresentaram-se como se lhes devêssemos dar um lenço para assoar as lágrimas.’

O resto está aqui.

O dinheiro é do PS: o dador põe, o PS dispõe

Leio  o comunicado do Conselho de ministros e onde diz:

Este fundo, de âmbito social, tem o objetivo de gerir os donativos entregues no âmbito da solidariedade demonstrada dando-lhe um destino coordenado de apoio à revitalização das áreas afetadas, garantindo prioritariamente a reconstrução ou reabilitação de habitações e o seu apetrechamento, designadamente mobiliário, eletrodomésticos e utensílios domésticos. Este apoio complementa o apoio público existente nas áreas da Segurança Social, do Planeamento e Infraestruturas, da Economia, da Agricultura e da Habitação.

O Governo pretende, deste modo, garantir uma maior eficiência, não só na gestão desses recursos, mas também na sua afetação aos que dele necessitam, promovendo um reforço da celeridade em todo o processo, com a participação de representantes das autarquias de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande e do sector social local.

deve ler-se: o tal fundo do governo é criado através do confisco dos donativos particulares e com este dinheiro gerido com a eficiência que se reconhece ao estado – a começar na sua primeira obrigação: a de proteger a vida dos cidadãos, nomeadamente em incêndios florestais.

Distribuídas as verbas com a celeridade devida e de acordo com os interesses políticos do governo, tudo isto configura uma nacionalização e posterior gestão dos donativos.

O brilharete do governo socialista com o dinheiro dos outros está uma vez mais assegurado. Afinal, “o dinheiro é do Estado, é do PS.”  Nunca nos esqueçamos.

Cuidado com isso

Não peçam responsabilidades a António Costa que ele ainda nos responde que não ganhou as eleições.

Países onde o Estado falha e a chefe de governo pede desculpa.

Não é para todos.