Por terras dos Ayatollahs

Imagem: Atta Kenare/AFP/Getty
Imagem: Atta Kenare/AFP/Getty

Depois de chafurdar no jornalismo de referência reverência português, nada como um banho de realidade em que a liberdade de expressão lhes sai do corpo.

Récit de la répression contre la liberté de l’information en Iran depuis le 1er janvier 2017

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É tirar o carro e o motorista a Fernando Medina, sff

Apanhei este vídeo no facebook da Sofia Vala Rocha e, depois de quase engasgar, venho aqui dizer que acho Fernando Medina pouco ambicioso. É muito pouco querer tornar um eixo de Lisboa, que percorre a cidade quase na totalidade de sul a norte, numa avenida de passeios largos (a Av. da Liberdade é a mais çarga da Europa, julgo já ter lido por aí), com esplanadas, lojas fabulosas, hotéis e por aí – e, claro, com tremendas restrições ao trânsito automóvel. Afinal há que tornar Lisboa numa cidade com trânsito ainda mais infernal. Como está ainda se chateia pouco os munícipes.

Que se queira impedir que a Av. da Liberdade seja só um sítio de atravessamento automóvel está muito bem. Que se queixa dividir Lisboa em duas partes inatravessáveis, com o eixo Fontes Pereira de Melo e Av. da República, tipo muro clintonista-trumpista, no meio, já me parece um tanto excessivo. Ou não. Se calhar o melhor mesmo é tornar Lisboa uma cidade pedonal (exceto para os carros dos membros do governo e da CML, claro). Acho que seria um grande sucesso. Sobretudo para reduzir população. Tornar-se-ia uma cidade muito mais fácil de governar e de ganhar eleições, especialmente se se desse umas casas que entretanto vagassem às clientelas socialistas – e a atribuição de casas pela CML, com finalidade de ganhar votantes PS, já é uma política perseguida por todos os socialistas municipais de Lisboa.

Só peço que, enquanto eu continuar a viver em Lisboa, o imaginativo Medina construa uns pequenos cais ao longo da margem do Tejo. Assim, quando eu quiser ir jantar à Bica, é só descer um bocadinho até ao rio e depois apanhar o barco para a secção oriental da cidade. Tipo como se lê de Londres nos livros de Dickens. Tudo pela modernidade.

Mas já não sobra nada entre o politicamente correto histérico e a boçalidade?

O meu texto desta semana no Observador.

‘A culpa primeira pertence à esquerda progressista histérica, que canonizou o politicamente correto como a bitola para se aferir a decência de uma pessoa. Aos que, perante cada dúvida mínima sobre os dogmas esquerdistas, rasgavam as vestes, eriçavam-se-lhes os cabelos e, sobretudo, insultavam. Aos que ficaram roucos de tanto gritar xenofobia, racismo, homofobia, islamofobia, fascismo sempre que encontravam alguém que, estando a milhas do extremismo de direita, cometia o gravíssimo pecado de não coincidir inteiramente no credo progressista.

Um atrevido quer discutir a permissibilidade de os gays darem sangue (mesmo se por desconhecimento técnico)? Bom, há cabelos arrancados, caixas inteiras de ansiolíticos tomadas de uma vez e, acima de tudo, insultos abundantes.

Um pobre infeliz (evidentemente afirmando que a maioria dos muçulmanos são gente pacífica que não sonha com explodir as entranhas dos crentes de outras religiões) constata ligação entre terrorismo e islão, convencido por minudências como muitos clérigos islâmicos usarem os seus púlpitos religiosos para radicalizarem e apoiarem o terrorismo? Ou pelo facto de os terroristas muitas vezes seguirem literalmente o corão, incluindo a parte das escravas sexuais ou a de garantirem que nem todas as cabeças de infiéis estejam ligadas aos corpos em que nasceram? Ultraje. Há choro e ranger de dentes com a indignação. Evidentemente que o islão é uma religião de paz e os terroristas uns apóstatas. Se se quer insultar uma religião, façam o favor de se dirigirem para os facínoras da Igreja católica.

Ah, ainda o islão. É carregar nos insultos aos machistas conservadores, essa escória abjeta que a evolução das espécies não solucionou devidamente (com o extermínio). E, a seguir, defender a burka e o burkini como símbolos da libertação feminina. E fingir que os abusos sexuais na passagem de ano em Colónia não ocorreram e os autores não eram islâmicos. Quem é que liga a uns apalpões valentes a umas louras alemãs? Os imigrantes podem apalpar, só Trump é que não.’

O resto do texto está aqui.

Se eu ganhasse o Euromilhões

Sobre a discrepância de valores nas estatísticas de transferências de capitais transfronteiriças, Catarina Martins – líder do Bloco de Esquerda – disse ontem no Parlamento o seguinte (meu destaque):

“O Governo anterior DEIXOU sair pela porta do cavalo 10 mil milhões de euros, é um número que não é nada pequeno (…) é bem mais do tudo o que gastamos com o Serviço Nacional de Saúde.”

1. Deixar??? Era dinheiro do Estado? Claro que não! Mas para estatistas, o conceito de propriedade privada é-lhes ideologicamente repulsivo.

2. Queremos (ou não!) viver num país livre? Se a resposta é sim, a liberdade de movimento de capitais, ou seja, da propriedade de cada indivíduo, devia ser incontestável. E, por enquanto, em Portugal ainda se pode enviar dinheiro para o estrangeiro sem a necessidade de autorização do Estado.

3. Pagar o Serviço Nacional de Saúde (SNS)? Mesmo que confiscassem a totalidade do valor em causa (estatistas nem querem deixar-lhes um tostão!), onde iriam no ano seguinte encontrar o dinheiro para financiar o SNS? Pois claro, começam com os “ricos” mas desses há poucos.

4. Com bancos em sérias dificuldades financeiras, garantia de depósitos bancários abaixo de €100.000 e crescente carga fiscal, só não tira capital do país quem não pode!

5. Estado português trata, em termos fiscais, entidades estrangeiras (empresas e indivíduos) melhor que as nacionais. Depois, quando portugueses procuram melhores investimentos além fronteiras, chamam-lhe “fuga de capitais”…

6. Também eu gostaria de fazer o mesmo com a minha propriedade e retirá-la deste país cada vez mais socialista/ditatorial. Infelizmente não é suficiente. Supondo o muito improvável cenário de ganhar o Euromilhões (1 em 139.838.160), a minha primeira acção seria enviar tudo para fora do país. É que a estatistas portugueses já não lhes é suficiente os impostos cobrados à cabeça (ex: já em 2013 Passos Coelho, insatisfeito com fiscalidade dos jogos de azar, decidiu adicionar 20% de imposto selo aos prémios acima de €5.000). Para eles, só temos direito ao que nos “deixarem”. Felizmente, para alguns afortunados, há países em que o que é vosso… é vosso! Chamam-lhe “paraísos fiscais”. 😉

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O retorno de Deus

Será que a Europa vai reagir ao islamismo retornando a Deus? O meu artigo no ‘i’.

O retorno de Deus

“Le retour du religieux (…) je le savais pour ma part inéluctable dès l’âge de quinze ans.” “Soumission”, Michel Houellebecq, p. 267.

Esta frase é proferida pelo director da Universidade de Sorbonne, um belga convertido ao islamismo numa França, em 2022, com um presidente muçulmano. Em “Soumission”, Michel Houellebecq retrata a escolha que uma França adormecida se vê forçada a fazer entre uma Frente Nacional radicalizada e um partido islâmico moderado.

Como todas as histórias futuristas, esta parece fantasticamente implausível para ser possível. Mas, se Houellebecq não quis descrever avanços tecnológicos que não antevê – a forma de comunicar é hoje mais evoluída que a do livro –, acerta num ponto que deixa qualquer um de sobreaviso: os partidos tradicionais estão em crise e, na vida real, já em 2017, podem não ir à segunda volta das presidenciais.

Quem nos conta o que se passa é François, um académico estudioso de Joris-Karl Huysmans, escritor francês do século XIX, expoente maior do decadentismo e que se converteu ao catolicismo. François é um francês deste século, sem ligações nem ao país nem a ninguém, que se interroga perante a submissão inevitável que os homens terão de aceitar para se elevarem acima do que são.

“Soumission” não é apenas o adivinhar da falência política de um regime, mas a indicação de um caminho: a crença em algo mais forte que nós para que sejamos mais que uma decadência adormecida. Assim, ou Houellebecq, que disse já não ser ateu, se engana, ou a reação europeia será religiosa.

“Anónimos” apoiantes de Sócrates

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Um bom resumo de Vítor Matos e Miguel Santos, no Observador.

O modus operandi do blogger que defendia Sócrates

Escreveu sob anonimato e atacou todos os que se opunham a Sócrates. Entrou nos radares da Operação Marquês por causa das alegadas avenças pagas pelo ex-PM. Quem era e o que escrevia “Miguel Abrantes”?

Perca peso agora, pergunte-nos como!

Maduro Chavez

É certo que a dieta é rigorosa, (ma)dura mesmo, mas permite perder mais de 8kg num ano!

Compreender o putinismo LXIV

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Coisas  que acontecem de forma inexplicável na santa mãe Rússia de Vladimir Putin.

Nada a reportar em Paris…

Paris protesters set police car on fire with 2 officers inside

Police car smashed & set on fire during Paris protest

Nada a reportar na Suécia…

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SWEDEN RIOT: Police forced to shoot at protesters as violence erupts – yet PM is in denial

SWEDEN’S capital was plunged into chaos on Monday as police were forced to fire at rioters after a violence erupted in an area described as high risk.

The Trump impeachment trap

Democrats seek to quell Trump impeachment talk: Party leaders caution against rushing into a political trap.

Democratic officials in Republican-dominated Washington view the entire subject as a trap, a premature discussion that could backfire in spectacular fashion by making the party appear too overzealous in its opposition to Trump. Worse, they fear, it could harden Republican support for the president by handing his party significant fundraising and political ammunition when the chances of success for an early impeachment push are remote, at best.

The Democrats who are helping Trump

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Are Liberals Helping Trump?

Mrs. O’Connell is a registered Democrat. She voted for Bill Clinton twice. But she has drifted away from the party over what she said was a move from its middle-class economic roots toward identity politics. She remembers Mr. Clinton giving a speech about the dangers of illegal immigration. Mr. Trump was lambasted for offering some of the same ideas, she said.

“The Democratic Party has changed so much that I don’t even recognize it anymore,” she said. “These people are destroying our democracy. They are scarier to me than these Islamic terrorists. I feel absolutely disgusted with them and their antics. It strengthens people’s resolve in wanting to support President Trump. It really does.”

Polling data suggest many center-right voters feel the same way. The first poll by the Pew Research Center on presidential job performance since Mr. Trump took office showed last week that while he has almost no support from Democrats, he has high marks among moderates who lean Republican: 70 percent approve, while 20 percent disapprove.

% of all votes in the 14 European countries with continuous democracy since 1949

Voting and non-voting in the 14 European countries with continuous democracy since 1949

100 years of European politics in one figure

Um Presidente perigoso

(O meu artigo de hoje no Jornal Económico)

Recentemente, o Presidente da República achou por bem comentar publicamente o facto de muito boa gente achar que ele faz comentários públicos em excesso. Suspeito que não se apercebeu do carácter contraproducente da iniciativa, como aliás raramente se apercebe do que quer que seja que esteja para além da distância que o separa de um espelho.

Disse o Presidente que é “muito acusado de falar vezes demais”, mas que a crítica não faz sentido, porque “este é um tempo diferente” daquele em que outros presidentes tinham outro tipo de presença mediática, e agora é necessário dar resposta à “aceleração” em que vivemos e a que o nosso cérebro “se está a ajustar”. É por essa razão, e não por uma qualquer egomania, incontinência verbal ou saudades dos estúdios da TVI, que Marcelo alega estar permanentemente a pronunciar-se sobre tudo e mais alguma coisa, ou a distribuir abraços e beijinhos por toda e qualquer velhinha que tenha o azar de se cruzar com ele e uma equipa de reportagem televisiva.

Algumas almas generosas e benevolentes têm interpretado esta “estratégica mediática” do Presidente como uma tentativa de conquistar uma popularidade quase consensual e acima das habituais divisões partidárias, para que quando uma tempestade se abater sobre o país, ele a possa usar para arrumar a casa. Uns acham que ele será bem-sucedido, outros duvidam, mas todos concordam quanto à motivação de Marcelo. Sobrestimam o homem. A única motivação do Presidente é o seu desejo de adoração pública. Por isso tudo faz para que todos os seus gestos agradem ao máximo número de pessoas e desagradem o menos possível aos que se possam sentir ofendidos com o que diz ou faz. A proximidade ao Governo não se deve a um qualquer desejo de promover Costa ou afastar Passos Coelho da liderança do PSD, mas apenas ao propósito de agradar ao sentimento popular contra as “divisões partidárias”. O sermão a Centeno surgiu quando a sua gestão do “caso CGD” se tornou tóxica na opinião pública. As constantes referências a “boas notícias” que na realidade estão longe de o ser (como os juros que o país paga pelos empréstimos que contrai, ou o rating da Fitch) visam afastar da cabeça dos portugueses todo e qualquer motivo para se preocuparem com a intervenção política de Marcelo para além dos tão propalados (pelo próprio e por uma comunicação social sempre pronta a comer e a regurgitar a propaganda que lhe põe no prato) “afectos”, que não passam, no fundo, de uma afectação.

Como qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe, a coisa acabará mal para Marcelo. Ele ocupa um cargo político, e em política – uma actividade em que cada escolha tem custos e, portanto, desagrada forçosamente a alguém – é impossível manter para sempre a aura imaculada que Marcelo vai tentando ostentar. Mas se tudo se ficasse pela desgraça de Marcelo, não haveria grande problema. O mal está em que o Presidente, ao se pronunciar sobre tudo, não se distancia de nada, e assim não só garante que será pessoalmente responsabilizado quando uma nova crise nos vier bater à porta, como também que arrastará consigo a credibilidade do resto do sistema político (o “caso CGD” é um bom exemplo da promiscuidade entre Belém e São Bento cultivada pelo Presidente). Claro que ninguém verterá lágrimas por este último, mas o problema está em que ninguém sabe o que vem a seguir. É por isso que Marcelo e a sua presidência são um perigo para este pobre país.

De resto, tudo bem

De resto, tudo bem! Por João César das Neves.

Portugal vive um clima de serenidade e optimismo graças ao desvio dos poucos meios disponíveis para certos grupos privilegiados pela esquerda, o que pelos vistos aclama a opinião pública e disfarça a situação. Esta é terrivelmente alarmante, mas, de resto, tudo bem.

Michael Novak (1933-2017)

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Hoje regresso, ocasionalmente, ao Observador para recordar a vida e legado de Michael Novak: Michael Novak (1933-2017): capitalismo, liberdade e verdade.

Michael Novak, que morreu esta sexta-feira, foi um dos mais esclarecidos e influentes estudiosos católicos do capitalismo democrático e em particular das suas dimensões moral, cultural e espiritual.

Governo acaba com imposto*

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*Poluídores-gulosos-fascizantes, é apenas o fim da reavaliação do imposto sobre os combustíveis que “servia  para garantir que os consumidores não seriam penalizados se o preço do petróleo subisse.”

Trump and DeVos on School Choice

Betsy DeVos foi sem dúvida uma das mais promissoras escolhas de Trump. Veremos o que consegue realizar numa área onde os interesses instalados são poderosíssimos e as reformas são extraordinariamente difíceis.

Trump promises education overhaul in meeting with Betsy DeVos, teachers

“apesar de conservador”

WinstonChurchill

Mais espantoso ainda: apesar de conservador, não há registo de que Churchill batesse na mulher.

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Churchill College – University of Cambridge

A geringonça e o fim da Europa

Passos conta com o risco financeiro para tramar Costa, mas Costa conta com o risco europeu para tramar Passos (e Marcelo). Quem é que vai ganhar? O meu artigo no Jornal Económico.

A geringonça e o fim da Europa

É cada vez mais evidente que o Governo não tem agenda: satisfeitos os interesses que a sustentam, pouco mais há a fazer que não seja esperar. Passos Coelho viu aqui uma oportunidade quando afirma que 2017 é o ano dos riscos financeiros. E se o líder do PSD vê confirmadas a suas projecções nos juros da dívida portuguesa que atingem valores preocupantes, tem também razão num ponto: os cidadãos que pagam os interesses protegidos pela geringonça não aguentam muito mais. O país perdeu a capacidade de se financiar lá fora conseguida no período da troika. Mas há um senão; um problema com que Passos parece não contar, mas que Costa espera seja a sua salvação.

E esse problema, que para Costa é um trunfo, é a desintegração da UE. Todos o sabemos, e Costa melhor que nós, que o calendário eleitoral europeu favorece o actual Governo: eleições na Holanda em Março, em França em Abril/Maio, ambas com a extrema-direita à frente nas sondagens, e na Alemanha, em Setembro, com o risco de a extrema-direita impor uma derrota a Merkel.

Para que a Europa sobreviva é preciso que Macron vença em França e Merkel ganhe na Alemanha. Se um deles falhar, a UE corre o sério risco de desaparecer. É isto: o projecto europeu está por um fio e depende de duas pessoas, uma das quais, apesar de pejados de méritos, é um desconhecido com pouca prática política.

O politicamente correcto, que impediu o debate político sério, amordaçou a Europa a soluções não questionadas e que agora, sem discussão séria, de forma dolorosa, são postas em causa por populistas de esquerda e de direita. Não houve seriedade nas questões religiosas, na imigração, no emprego, na protecção social concedida a quem não merecia e nada fez pela comunidade, nas políticas laborais, apesar do trabalho ter mudado radicalmente nos últimos 15 anos. Proibindo-se a discussão com medo de se afrontar, de se ofender, quem quer que fosse, criou-se uma panela de pressão que pode rebentar este ano.

E se Passos espera que os ventos soprem a seu favor, Costa, o BE e o PCP vêem no sucesso eleitoral do extremismo a sua tábua de salvação. O fim do euro, que acontecerá caso Marine Le Pen vença em França, o regresso tão desejado do escudo, que trará inflação, reduzirá salários, aumentará a pobreza, trará aflição para muitos. Mas servirá também de pretexto. As causas facilmente se apontarão ao estrangeiro. Seremos pobres, estaremos aflitos, não em virtude do Governo da geringonça mas por responsabilidade da Europa que se auto-liquidou. É desta forma que Tsipras sobreviverá na Grécia, Costa em Portugal e Rajoy pode cair em Espanha. O caos será amigo de um populismo de tal forma demagógico que o que vimos até agora é uma brincadeira de crianças.

O regresso às origens nos EUA

Com Trump, vamos dar graças à democracia que passa pela separação dos poderes. Com Trump, ainda bem que há Congresso e tribunais. O meu artigo no ‘i’.

O regresso às origens nos EUA

Com Trump na presidência, são muitos os que esperam que o congresso e os tribunais equilibrem a influência do presidente norte-americano. E esperam bem, porque Trump defende políticas desastrosas, como o proteccionismo, que boa parte da esquerda entre nós também advoga.

Infelizmente, não tem sido sempre assim. Nos últimos anos, os presidentes têm sido vistos como seres iluminados que deviam vencer a cegueira dos congressistas para que os EUA evoluíssem. Com Obama, esta tendência chegou mesmo a assumir contornos graves, com o presidente a ser encarado como um novo Messias libertador contra os poderes instalados em Washington. Um pouco como Trump, mas com mais souplesse.

A centralização do poder na pessoa do presidente foi um processo longo, com Andrew Jackson, Lincoln, Teddy Roosevelt, Wilson e FDR a darem o mote. E se antes eram poucos os que, na senda de George Washington, não repetiam o mandato, no pós-guerra só se ficaram por quatro anos os que ou morreram ou foram desastrosos.

Com Trump podemos assistir ao reconhecimento, por parte da população, de como a separação de poderes é importante; que um Congresso forte que reprime decisões não é uma falha da democracia, mas a sua força; e que os tribunais devem exercer devidamente as suas funções. Quem sabe não assistimos a um regresso às origens do sistema norte-americano. Recordar como é importante desconfiar do homem providencial, e restringir, na medida do possível, os poderes do presidente, pode vir a ser o legado de Trump.

Uma lição para o PSD

ps-psdDificilmente o país poderia ter um governo mais à esquerda do que este. O governo é liderado pelo PS mais ideologicamente extremado de sempre. É um PS que se confunde com o BE de há 10 anos na retórica, e cujos deputados apoiam abertamente partidos de esquerda radical noutros países. Nunca o PS esteve tão à esquerda desde os tempos do PREC. A somar a isto, o PS apenas governa graças ao aval de dois partidos histórica e assumidamente de extrema esquerda: o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda. Todos estes factores juntos, tornam este o governo ideologicamente mais à esquerda desde o 25 de Novembro.

Mas a realidade não se coaduna com ideologias. Assim, é este governo ideologicamente tão à esquerda, apoiado pelo PCP e BE, que não aumentou a função pública em 2017, manteve o congelamento de carreiras e continua a limitar o pagamento de horas extraordinárias. Fora um governo de direita a fazê-lo e haveria greves todos os dias. A certas alturas na nossa democracia, houve muito mais greves por muito menos do que isto.

Imaginemos um hipotético cenário em que PSD e CDS tinham tido maioria absoluta nas eleições de 2015 e eram hoje governo. Que diferenças relevantes se notariam? Vejamos:

– Não teriam sido feitas reversões nos transportes
– A deriva ideológica na educação não teria acontecido
– Não teria existido uma queda tão abrupta do investimento público de forma a devolver mais rapidamente os salários da Função Pública
– O Salário Mínimo talvez fosse 10-15 euros mais baixo
– A Caixa teria sido recapitalizada com capitais privados (muitas dúvidas aqui) e a resolução do BANIF talvez tivesse custado menos aos contribuintes

O leitor consegue pensar em mais alguma diferença de política relevante? Dificilmente. Mas convém não nos esquecermos de uma coisa: este governo não é mais à esquerda, não por falta de vontade, mas porque a realidade não o permite. E, para lá das palavras, é dentro dos limites da realidade que se pode fazer política.

Portanto, nós temos o governo mais à esquerda que a realidade permite e, mesmo assim, não se notam muitas diferenças em relação ao que teriam feito PSD e CDS. Isto é preocupante, tanto para os portugueses em geral como para o PSD em particular. Para os portugueses é preocupante porque se apercebem de que não existem grandes alternativas no espectro político. Não existe um projecto político alternativo que não esteja no mesmo cantinho da realidade em que os partidos portugueses se colocam. Mas isto é também uma enorme preocupação para o PSD. Os eleitores começam a aperceber-se que entre o PSD e uma alternativa apenas ligeiramente pior, mas que consegue paz social, talvez não valha a pena o esforço de votar no PSD. Entre a social-democracia do PS e a social-democracia do PSD, pelo menos a primeira garante alguma paz social. Aqueles que, dentro do PSD, querem encurtar ainda mais o espaço entre eles e o PS, talvez devessem pensar melhor. Se a realidade empurra PS-PCP-BE para o mesmo espaço do PSD, talvez seja altura de olhar para o meio da sala.

Mentiu, demitiu-se

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Outras realidades, outros padrões: Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Michael Flynn, demite-se

Michael Flynn, renunciou ao cargo ontem à noite, após informações de que teria enganado o vice-presidente, Mike Pence, sobre os seus contactos com a Rússia.

Human Action – Amanhã no IEP-UCP

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Amanhã, a partir das 19:00, falarei sobre a obra Human Action, de Ludwig von Mises, no IEP-UCP. Entrada livre. Mais informações aqui.

Emmanuel Macron

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Um artigo interessante sobre a mais promissora esperança de renovação da esquerda francesa: Who’s behind the mysterious rise of Emmanuel Macron?

Until recently, he had no visible record of political commitment. But he might be about to destroy the Socialist party

Ser Presidente da República, a perspectiva de Cavaco Silva

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“À defesa do interesse nacional juntei algumas regras de comportamento que sempre considerei que deviam fazer parte da essência de um Presidente da República: respeitar os procedimentos e regras da democracia, representar o país com dignidade, defender a estabilidade política como pressuposto das mudanças necessárias ao desenvolvimento, não me envolver em disputas ou controvérsias político-partidárias, não permitir a instrumentalização da figura do Presidente, ser isento em relação às diferentes forças partidárias e às naturais tensões entre Governo e oposição, falar verdade aos portugueses e não dizer às pessoas apenas aquilo que elas gostam de ouvir, adoptar uma atitude formal e de algum distanciamento em relação ao primeiro-ministro e aos líderes partidários para não ser visto pelos eleitores como favorecendo qualquer um deles, não alimentar tertúlias de intriga política ou de oposição a quem quer que seja. No fundo, estar ao serviço de Portugal e dos portugueses e não de qualquer grupo, ser Presidente da República e não Presidente da direita ou da esquerda, ser reserva de último recurso em caso de crise grave.”

(via AHC)