Episódio de uma teocracia exemplar

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As leis são para cumprir na terra dos Ayatollahs. Yaser Mosibzadeh, Saheb Fadayee e Mohammed Reza Omidi estiveram presos por ofensas às leis da religião da pás. Saíram da prisão após o pagamento da fiança, detalhe que não impede a execução do resto da sentença – 80 chicotadas, em espectáculo público.

Ninguém os manda converter ao cristianismo, blasfemar nem beber o vinho da Comunhão no Irão moderado.

Episódio de uma democracia popular

A face visível do comunismo, versão chinesa.

Nacionalizado ao Romeu Monteiro.

Compreender o putinismo LXI

putinismo

O estado russo sabe o que é melhor para os seus cidadãos. A rede social LinkedIn foi banida na Rússia. 

Progressistas pela moral e contra os vícios

O meu texto desta semana no Observador.

‘Vejamos os religiosos do aquecimento global, por exemplo. E em minha defesa – antes que me excomunguem – digo já que sou bastante sovina, e poupada, no que toca a bens isentos de qualidades estéticas como gasolina e eletricidade, e que tenho uma forte paranoia com a reciclagem e reutilização de uns tantos materiais. Mas, lá está, falta-me o fervor religioso.

A incitação para que as populações se abstenham de consumir, um exemplo, costuma mergulhar-me na vontade de praticar vudu contra os detentores de tal opinião. Não (ou sim, mas de maneira diferente) que estejam preocupados ser mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no reino dos céus. Credo, os religiosos ambientalistas não se querem confundir com os religiosos católicos, que esses são ultamontanos e rústicos. Que proponham exatamente o mesmo é um mero pormenor. As motivações são muito mais nobres que essas tretas de não nos deixarmos escravizar pelos bens materiais. Os ecofanáticos defendem que se extermine o consumo (e, de caminho, o bem estar das populações) para poupar os recursos do planeta (estes religiosos nunca leram Malthus) e para não causar poluição com transportes de mercadorias.

Outro tipo de moralista, bem mais perigoso, é o purista sanitário. Pode-se praticar sexo à vontade, felizmente está estabelecido, e uma ou outra consequência para a saúde ou para a vida (uns sopapos do cônjuge enganado, por exemplo) devem ser encarados com bonomia, que as pulsões sexuais são fortes e difíceis de conter.

Mas não há cá complacência com o álcool (já os antigos diziam que era o pai de todos os vícios, e os antigos alguma vez haviam de ter razão), ousar ter a comida bem apaladada com sal (as pessoas puras de corpo e alma não têm de lhe pagar os comprimidos para a tensão arterial) ou beber refrigerantes açucarados (agora que já se verificou que afinal o colesterol e a gordura não causam o apocalipse humano que os médicos prometeram, teve de se encontrar novo inimigo para atormentar as populações e viraram-se para o açúcar, o novo supervilão; até, claro, dentro de uns anos se reconhecer que o açúcar é essencial para um bom desenvolvimento cerebral das crianças, entre outras maravilhas que então o açúcar de súbito conquistará).’

O texto todo está aqui.

Compreender o putinismo XLVI

putin

Os americanos são lixados. Força, Putin.

Parabéns Wikileaks

FREE ASSANGE

A Wikileaks decidiu revelar ao mundo informações pessoais e financeiras de centenas de bandidos. De entre os expostos contam-se algumas vítimas de abusos sexuais, relatórios médicos  de crianças e adultos e gays.

O caso já seria muito grave e revelador do encanto da organização de Julian Assange mas o detalhe da exposição ter como palco a Arábia Saudita – esse oásis – da democracila liberal e dos direitos humanos -, apimenta a coisa.

A organização informativa está, uma vez mais, de parabéns. Nem imagino o que o jornalismo-cidadão e a polícia religiosa local serão capazes de fazer com tamanha quantidade e qualidade de informação. O mundo respirará melhor quando a liberdade da verdade completar o seu caminho.

Private lives are exposed as WikiLeaks spills its secrets.

WikiLeaks’ global crusade to expose government secrets is causing collateral damage to the privacy of hundreds of innocent people, including survivors of sexual abuse, sick children and the mentally ill, The Associated Press has found.

In the past year alone, the radical transparency group has published medical files belonging to scores of ordinary citizens while many hundreds more have had sensitive family, financial or identity records posted to the web. In two particularly egregious cases, WikiLeaks named teenage rape victims. In a third case, the site published the name of a Saudi citizen arrested for being gay, an extraordinary move given that homosexuality is punishable by death in the ultraconservative Muslim kingdom.

“They published everything: my phone, address, name, details,” said a Saudi man who told AP he was bewildered that WikiLeaks had revealed the details of a paternity dispute with a former partner. “If the family of my wife saw this … Publishing personal stuff like that could destroy people.” (…)

Até onde pode ir a interferência do intervencionismo na vida pessoal?

Porque hoje é fim-de-semana, riam com um exemplo de intervencionismo que só agora me foi chamada a atenção: é ilegal ser gordo no Japão!

Um dia, para “baixar os custos de saúde”, que é afinal um “custo para todos”, ainda chegará a moda cá. Por agora, ainda podem rir😉

 

Onde já se viu?

Diabos em duas rodas e provavelmente com selim. Imagem: AFP/Getty Images
Diabos em duas rodas e provavelmente com selim. Imagem: AFP/Getty Images.

O mulherio a andar de bicicleta fora do recato caseiro.

Qualquer dia ganham vontade própria.

Inspecção de Educação convoca pais

Isto é algo surreal quando os tribunais têm dito sucessivamente que não há limites territoriais nas inscrições. E sobretudo porque não falta aí escola do estado em que as famílias inventam moradas para arranjar uma escola mais conveniente (usando os legítimos critérios que cada família encontra de acordo com o seu projecto educativo).
Eu se fosse fã destas técnicas pidescas poderia indicar casos concretos.

Compreender o putinismo XLI

RamzanKadyrov

A congénere russa da comissão de recrutamento e selecção para a administração pública não fica parada no passado. Pelo contrário, é uma agência inovadora. A tal ponto que promove no canal estatal russo Rossia 1, o reality show “Team” cujo objectivo passa por encontrar o braço direito do líder checheno  Ramzan Kadyrov. Fica à consideração da Geringonça a sua aplicação em Portugal no pós-europeu de futebol.

A guerra dos tronos dos direitos humanos progressistas

castrochavez

A ditadura dos irmãos Castro continua de boa saúde e recomenda-se.

Cuba criticized the policy of singling out countries for censure, protesting against the “endless allegations against the South by the industrial North.” The delegate asked the Council, “have any countries criticized or said a word against the warmongering of the North around the world?” before providing his own answer: “No.” He continued, asking “why aren’t we hearing about the xenophobia or glorification of fascism in the North?” Contrasting Cuba’s human rights record with that of the developed world, he told delegations that “we continue to work for the promotion and protection of human rights in our nation”

Venezuela, Egipto, Coreia do Norte, Irão, China, Bielorrússia, Eritreia e Portugal, sigam os melhores exemplos e apostem tudo no aprofundamento do modelo socialista que tão bons resultados origina.

Clap, clap, clap

Viva o progresso social e humano provado na pequena reportagem da Vice News  intitulada Grocery shopping during Venezuela’s food shortages.

Do Kremlin, com humor

Vlad

Gozar com criaturas divinas não dá bom resultado.

“Os lóbis mandam” porque o Estado mexe em tudo

Polvo estatal Na sua coluna no Expresso, Daniel Oliveira apela à participação cívica de quem “defenda a Escola Pública ou o Serviço Nacional de Saúde”. Diz o Daniel que, “numa sociedade como poucos hábitos de activismo cívico”, só “os interesses mais diretos – profissionais, corporativos ou locais – movem as pessoas”, o que faz com que “quem, com responsabilidades no Estado, queira defender o bem comum está muito fragilizado perante a pressão de interesses, corporações ou lóbis que tente enfrentar”. O Daniel continua, argumentando que “para além das decisões deste ou daquele ator político, o futuro da comunidade depende sempre do confronto entre interesses conflituantes”, e “se um desiste de se manifestar o outro acabará inevitavelmente por prevalecer. Se os cidadãos são passivos, serão sempre os interesses mais ativos a levar a melhor”.

Em parte, o Daniel tem razão. Os vários grupos de interesse que se manifestam nos mais diversos sentidos em torno das mais variadas questões têm muitas vezes uma agenda subordinada aos seus “interesses particulares”, potencialmente postos em causa pela acção política em prol de “algo mais abrangente a que chamamos de bem comum”, pelo qual “o Estado deve zelar”, e se só uma parte dos vários grupos que compõem uma sociedade se esforçam por defender os seus interesses particulares (ou, de forma mais benévola, a sua particular concepção do que é o “bem comum”), as decisões do Estado tenderão a reflectir os seus desejos, e não necessariamente aquilo que seria melhor para o país e a sociedade como um todo. Mas, ao contrário do que o Daniel pensa, “os lóbis” não “mandam” simplesmente “porque se mexem”; “mandam porque se mexem” num país em que o Estado mexe em tudo.

O que o Daniel não consegue perceber, como aliás geralmente acontece com aquilo a que por preguiça ou ignorância chamamos de “esquerda” (e especialmente em Portugal, também com aquilo a que por preguiça ou ignorância chamamos de “direita”), é que a esfera do Estado não está umbilicalmente ligada à prossecução do “bem comum”, nem o seu redondo e aconchegante seio está livre do peso da cabeça de “interesses particulares”. O Estado, como as empresas, as associações cívicas, as famílias ou qualquer conjunto de mais de uma pessoa, é formado por – pasme-se – pessoas, com as suas opiniões, interesses e preconceitos muito seus – numa palavra, privados. Sempre e onde quer que uma actividade ou série de actividades estejam entregues “ao mercado” – ou seja, à livre interacção e escolhas das pessoas que nelas participam – os resultados reflectem essas interacções e escolhas. Não reflectirão sempre a vontade de quem as faz – uns terão mais sucesso nas escolhas que fazem, quer por terem mais talento, mais sorte ou melhores condições à partida – mas serão resultado – desejado ou indesejado – dessas interacções e escolhas. Mas sempre e onde quer que o Estado intervenha (e circunstâncias em que a sua intervenção é mesmo mais que justificada, como, por exemplo, para dar meios de conduzir uma vida digna a quem por esta ou aquela razão não os obtenha por si próprio, ou garantir o acesso a cuidados de saúde a quem não os possa aceder pelos seus próprios meios, e especialmente na administração da justiça e do policiamento), está a substituir esse mercado da livre interacção e escolhas dos membros de uma sociedade pelo mercado da influência política, e a inevitável corrupção que o acompanha. Os “lóbis mandam” e têm o poder que têm porque em muitas actividades em Portugal, os tentáculos do polvo estatal tocam toda a sua extensão, quer através da legislação quer através da sua intervenção directa como prestador de serviços. Sendo assim, o sucesso ou insucesso na satisfação dos interesses particulares de cada um dos grupos que participam nessas actividades depende, não da satisfação dos que a eles possam recorrer, mas da pressão que conseguem exercer sobre quem toma as decisões políticas, e dos “favores” que conseguem oferecer ao poder político para depois serem devidamente cobrados. Onde o Estado interfere, mesmo que justificadamente, ganham, não o “bem comum”, mas os “interesses particulares” de quem consiga ter acesso privilegiado aos corredores do poder.

Veja-se por exemplo o que se passa na educação. A “esquerda” indigna-se com a pressão do “lobby” dos colégios com contratos de associação. A “direita”, por sua vez, revolta-se com a acção de Mário Nogueira e dos sindicatos de professores de escolas do Estado. O que nem uns nem outros fazem é defrontar a razão pela qual esses respectivos grupos de interesse exercem essa pressão da forma que exercem: o seu futuro e as suas condições de vida dependem das decisões do poder político – no caso dos colégios, da renovação dos contratos, no dos sindicatos, na atribuição de uma série de benefícios que exigem – e portanto dependem do quão bem sucedidos são a convencer os governos a satisfazerem a sua vontade. Mas se, por exemplo, o Estado deixasse de financiar directamente qualquer escola, fosse ela detida pelo Estado ou por privados, passando a financiar os alunos cujos pais não tivessem meios próprios para pagar o acesso da sua criança à escola da sua preferência, o bem-estar e futuro dos indivíduos dessas escolas deixariam de depender de decisões políticas, tornando obsoleta a necessidade de fazer pressão sobre os decisores governamentais; passariam a depender da capacidade de uns e outros de oferecerem a pais e alunos um serviço de educação que satisfizesse as suas necessidades e desejos, em vez de dependerem da facilidade que têem ou não em ligar para o telemóvel do Ministro da Educação ou de o assustar com o número de participantes nas suas respectivas manifestações. Como ninguém propõe uma solução deste tipo, “os lóbis” – sejam os das escolas privadas sejam os “da Escola Pública” – continuam a mandar. E a vida das pessoas a piorar.

Alguém tem notícias de Snowden?

VladFriend

State Has Put 6% of Russians Under Surveillance in Past Decade.

At least six percent of Russia’s population has been under state surveillance at some point in the last nine years, according to a report released by human rights activists Monday.

Information released by Russian human rights group Agora claims that the Russian Supreme Court received some 4,659,325 applications to monitor and record telephone communications between 2007 and 2015. The court approved almost 97 percent of these, or 4,517,515.

Assuming that each wiretap target was in conversation with at least one other person, activists calculate that six percent of the Russian population, or 8.5 million people, have been monitored by the state at some time.

“If we assume that each of the wiretaps lasted for roughly a month, that means that over the course of nine years at least six percent of the population have had their communications monitored at some point,” said report co-author Pavel Chikov.

Agora claims that a lack of accountability has left the work of the security services open to political exploitation. The report alleges that on numerous occasions Russian law enforcement agencies violated human rights without compelling criminal evidence.

Government agencies acted without evidence in 352 cases, taking DNA or other biometric information in 242 of them, according to the report. Targets included activists who demonstrated on Manezh Square in 2014 and a number of Crimean Tatars between 2014 and 2016.

In 35 cases, citizens’ movements were monitored without any evidence of a crime, while 23 targets saw electronic communications hacked by security services.

Hidden video or audio equipment was used without compelling reason on 28 occasions and in several cases covert police footage was leaked to the media. (…)

As 35 horas semanais num país cada vez mais pobre

Os meus comentários hoje sobre a reposição das 35 horas semanais na Função Pública e os défices excessivos.

Durante muito tempo os sucessivos governos foram tomando medidas que agradavam a certos sectores do eleitorado, em detrimento do país no seu todo.

Actualmente, a margem é cada vez menor, mas os custos, os sacrifícios que se impõem, são maiores e mais dolorosos. As pessoas apercebem-se da deterioração geral, mas sentem as medidas particulares que as vão favorecendo e compensando. Que compram o seu silêncio e conivência.

Um arenque verdadeiramente vermelho

Esta discussão (no que toca à dicotomia ensino laico vs. ensino religioso) não é especialmente relevante porque ignora deliberadamente a realidade. Portugal não é um país anglo-saxónico onde a liberdade de ensino é total. As escolas privadas em Portugal não podem ensinar aos alunos apenas o que querem ou acham importante. O estado define o currículo, os horários desse currículo e define apertadamente as horas que restam para o ensino de matéria não curricular. Acresce que TODAS as escolas dependentes do Ministério da Educação, pública E privadas, são OBRIGADAS a oferecer a possibilidade FACULTATIVA dos alunos frequentarem a disciplina de educação moral e religiosa, actualmente nos termos do artigos 4º e 5º do Decreto-Lei nº 70/2013, mas desde a assinatura da Concordata em 1940.

Assim sendo, por favor ultrapassemos estas tretas e passemos às próximas: Os anjos públicos versus demónios privados e a entrega de lucro obsceno a estes últimos. Obrigado.

Erdogan é paz e amor

erdogan

Se ouvir alguém a insultar o Presidente turco, só tem de reportar os factos ao consulado turco na Holanda.

We ask urgently for the names and written comments of people who have given derogatory, disparaging, hateful and defamatory statements against the Turkish president, Turkey and Turkish society in general.

Mais notícias da geringonça

O meu texto de ontem no Observador.

‘Chamo a atenção aos caros leitores que vou escrever já a seguir sobre o ilustre governo de Portugal e não, como por momentos pode parecer, sobre uma agremiação circense da Mongólia Interior. Ou sobre um grupo de hippies que se isolou da sociedade numa quinta numa zona remota da Índia e se autorregula recorrendo a rituais xamânicos.

Começo, feita a ressalva necessária, com pompa. A saber de um feito verdadeiramente irrepetível, avassalador, histórico: a inauguração de uma estação de metro, esse meio de transporte revolucionário que foi, como se sabe, introduzido no país há meia dúzia de meses pelos bons préstimos do tempo novo da geringonça. Só foi pena o governo não dar – como a espetacularidade da ocasião merecia – tolerância de ponto para o país celebrar em uníssono a abertura de uma nova estação de metro na Reboleira.

Mas o ilustre governo proporcionou-nos muito mais (e já era tanto) do que celebração. Na pessoa do primeiro-ministro, senhor que conhece o futuro das alterações climáticas, a evolução tecnológica das energias limpas e da indústria automóvel e, sobretudo, o que é bom para cada um de nós, fez-nos saber que temos de nos habituar a viver sem os carros. Se fosse alguém malvado de direita lá haveria gritaria por termos um governo a querer tirar os confortos que o capitalismo, perdão, a intervenção socialista do estado, e o enriquecimento das populações proporcionam. Mas assim foi só o pm paternalista a dar-nos bons conselhos sobre ‘moblidade [sic – eu não tenho culpa da peculiar dicção do pm]’.

Logo a seguir – e mostrando com atos a sua titânica preocupação com a poluição provocada pelos combustíveis fósseis e suas consequências no aquecimento global, bem como o seu amor pelo uso de transportes públicos que tanto aconselhou aos autóctones dos arrabaldes lisboetas – o pm sacrificou-se em prol dos seus princípios sobre a dita ‘moblidade [sic]’. Em vez de viajar confortavelmente em executiva – e gratuitamente na parte da viagem na TAP – até Atenas, António Costa acedeu ao enorme desconforto de se fazer transportar num Falcon – com custo horário de vários milhares de euros – para visitar a sua alma gémea política, o austerista-mor Tsipras.

Para mostrar o desconforto a que se sujeitou para ser coerente com os seus sermões aos automobilistas portugueses, Costa até se fez fotografar na minúscula cabine do Falcon. Na verdade tão minúscula que o que mais sobressaía era a protuberante barriga do pm aprisionada num casaco de malha justíssimo. Por momentos confesso – eu sou dada a estes maus sentimentos, não há nada a fazer – que me lembrei daqueles padres renascentistas gorduchos que a Reforma atacou, carregados de anéis nos dedos sapudos, que pregavam o ascetismo aos famélicos camponeses das suas dioceses. Mas – descansai – rapidamente se abateu sobre mim o respeito devido ao chefe de governo e se dissiparam as desconfianças de hipocrisia.’

O resto está aqui.

Compreender o putinismo XL

crimeiaescocia

Pacificação final do referendo na Crimeia.

One of Russia’s most senior law enforcement officials has said that dismissing thnder which Crimea joined Russia should be a crime equal to extremism.

Crimea was controversially annexed from the territory of Ukraine in 2014 as well-armed, but unmarked, fighters who appeared to be Russian special operations forces seized government buildings. Pro-Russian authorities then set up an internationally unrecognized referendum in Crimea on joining Russia, after which the region was incorporated into the Russian Federation.

According to Alexander Bastrykin, head of Russia’s Investigative Committee, questioning the legitimacy of the referendum should be considered “extremist activity” for “falsifying reports of historical events and facts.”

Leitura complementar: Compreender o putinismo XVI.

Governo quer criar veículo para Crédito mal parado, para “aliviar pressão sobre sistema financeiro”

O meu artigo de ontem no Diário Económico:

Moral Hazard

Ricardo_campelo_Magalhaes

Em Economia, o ‘Moral Hazard’ – Risco Moral – acontece quando uma entidade toma mais riscos porque outra entidade arca com o custo desses riscos. Numa sociedade em que ser devedor é apoiado pelo Estado (exemplo: bonificação de IRS pelos juros), pelo Banco Central  (taxas Euribor historicamente baixas), e em que quem paga é “criança”, o pior que se pode fazer é retirar o risco de a banca emprestar. Será um pequeno passo para garantir que dentro de alguns anos haverá nova crise de crédito, ainda maior que as do passado.

Mas a banca não é um sector fundamental da economia, que importa salvar a todo o custo? A acreditar nos banqueiros e no Governo socialista, sim. Mas a acreditar na história, não. Basta estudar grandes eventos especulativos para perceber o padrão: o Estado cria uma bolha creditícia, para se resolver o rebentar da bolha cria bolhas maiores, até que o sistema sucumbe e todo o crédito (de valor recorde) é liquidado.

A solução não passa por desresponsabilizar a banca – como os banqueiros e o Governo socialista pretendem –, mas sim por criar um sistema de responsabilização do sector do crédito pelos erros de sobreexposição ao malparado. Como? Deixando bancos falir, garantindo depósitos até cem mil euros, prendendo banqueiros que cometeram erros grosseiros de gestão, e permitindo à economia assente no crédito colapsar rapidamente. O que mais afecta a economia é a incerteza que torna impossível os investimentos. Nesta solução, o desemprego disparava, mas passado alguns meses regressaria ao normal, não gerando um elevado desemprego de longa duração.

Garantindo os erros e impossibilitando os bancos de fazer a actividade A, B e C via regulação, simplesmente garante que eles vão incorrer em grandes riscos nas actividades D e E. Quem não o fizer, apresentará resultados inferiores à concorrência e, ironicamente, não terá as taxas para seduzir os investidores mais conservadores para os seus “excelentes” depósitos a prazo (exemplo: BPN). Sem garantias, garanto-vos que a imaginação para desenhar esquemas de enriquecimento rápido seria menor.

Para lerem os meus artigos anteriores: Autor Ricardo Campelo de Magalhães.

Se quiserem ler o artigo concorrente, de um jovem que ainda acredita na intervenção de ex-bancários que regulam os bancos a partir do estado: Chega de “laissez-faire”.

E se Portugal não fosse um inferno?

Ainda sobre os paraísos fiscais. Imaginemos que o governo português era rigoroso na forma como gastava o nosso dinheiro. Imaginemos que havia excedentes orçamentais e, por via disso, margem para se baixarem os impostos.
 
Entretanto, imaginemos que a Espanha não tinha essa sorte. Era governada por quem acreditava que a despesa pública originava receita pública. Que se o governo gastasse mais, as pessoas viviam melhor. Em consequência disso, os impostos eram altos para pagar despesa e dívida acumulada. Resultado: os espanhóis guardavam o seu dinheiro em Portugal e, quase de certeza, o seu domicílio fiscal passaria a ser em Elvas.
 
Portugal era um paraíso fiscal. Diferente do Panamá, é verdade, mas um paraíso.
 
Que país iríamos punir?

Panama Papers

Hoje por volta das 12 vou estar no Económico TV a comentar o caso Panama Papers.

Ainda não é proibido fugir

Há uma diferença abissal entre quem ganha dinheiro em actividades criminosas, escondendo-o em offshores, e quem o recebe licitamente e usa os paraísos fiscais para não pagar tantos impostos.

É claro que para muita gente (políticos que endividaram os estados; jornalistas que querem mostrar serviço) interessa esta confusão. É preciso alimentar a raiva para explicar o inexplicável: como é que pagamos cada vez mais impostos e temos cada vez menos serviços públicos?

É que se uns têm dinheiro num paraíso qualquer, outros ficam-se pelos infernos fiscais.

Ainda não é proibido fugir.

Económico TV – Edição das 12

Vou estar hoje, pelas 12 horas, no ETV a comentar a mensagem de Marcelo Rebelo de Sousa sobre o orçamento (que foi um acontecimento apesar de já se saber que o ia promulgar), o plano quinquenal de reformas que António Costa anunciará hoje com pompa e circunstância e a comissão de inquérito ao BANIF.

Eu vou estar na televisão, mas, e citando Helena Matos, o país político é que é o verdadeiro estúdio.

Compreender o putinismo XXXVIII

AP Photo/Alexander Zemlianichenko
AP Photo/Alexander Zemlianichenko

Vladimir Putin disse basta à opressão das agências de rating que como sabemos se encontram ao serviço das potências estrangeiras que desejam o mal à Santa Mãe Rússia e decide criar a sua própria agência de rating. Não sei como ninguém da geringonça imita o pequeno czar.

Os fascistas da infância

A nossa comunicação social está sempre em cima das questões mais importantes. O Boston Globe contou a história do abuso sexual de crianças pelos padres católicos e o duradouro encobrimento da situação pela arquidiocese e pelo arcebispo de Boston. Já o DN dedica-se a algo ainda mais fulcral: a divisão de brinquedos para meninos e para meninas pelo McDonald’s nos Happy Meals. Como o bom povo diz, cada um é para o que nasce.

Mas pronto: irrita-me. Irrita-me à brava gente que nada tem a ver comigo a dar palpites sobre brinquedos para os meus filhos. Os meus filhos não têm culpa da existência dos alucinados que pretendem que as diferenças entre os géneros são exclusivamente construções culturais. (Em parte são e em parte não.) E que, à conta disso, agora dão em implicar com os brinquedos das crianças.

É que – a natureza pede desculpa por se fazer sentir – geralmente os rapazes e as raparigas gostam de brinquedos diferentes. Não há mal nenhum um rapaz gostar de bonecas e uma rapariga de carros. Mas há mal em contrariar a tendência da maioria para formatar as crianças a uma ideia estapafúrdia de igualitarização dos sexos.

Mas felizmente nem toda a gente é rústica como eu com estas opiniões. Uma jornalista de causas acha que tem de mandar palpites sobre a escolhas dos outros para os brinquedos dos seus filhos obtidos numa determinada empresa. E no nosso magnífico governo uma secretária de estado, no tempo de trabalho pago pelos nossos impostos, não vê nada mais importante do que monitorizar esta grave situação de atentados aos direitos das crianças junto do McDonald’s. Que, recorde-se, é um empresa privada e o serviço que entende prestar aos seus clientes a acompanhar a comida devia resultar apenas do sucesso obtido junto dos seus clientes. E se houvesse clientes incomodados com esta segregação de Happy Meals, há muito que a empresa teria ajustado a sua linguagem. Mas as pessoas fascistas gostam condicionar as escolhas de consumo dos outros. Não é novidade.

Eu, quando encomendar os Happy Meals para as minhas crianças, vou continuar a dizer que quero a versão de menino.

O que António Costa anda a fumar?

Como o Bruno Alves ontem muito bem caracterizou, António Costa teve o seu “momento Marie Antoinette”. Do Económico (meu destaque):

António Costa defendeu ainda que “todos aqueles que trabalham, ganham relativamente ao ano anterior” e, a propósito dos impostos indirectos que sobem, aconselhou os portugueses a usarem “mais transportes públicos”, a deixarem de fumar e a moderarem” o recurso ao crédito.

Ao contrário do que aconselha aos portugueses, podemos tomar como certo que o primeiro-ministro, seus ministros, secretários de Estado, adjuntos e assessores não vão usar transportes públicos. Também, a julgar pela maior preocupação no aumento dos rendimentos dos funcionários públicos do que no valor do défice, não haverá moderação no recurso ao crédito. Sendo assim, só nos resta questionar: o que António Costa anda a fumar?

AntonioCosta

Uma black list para os filmes com fumadores já!

Venho aqui dar os meus parabéns à OMS pela proposta de marcar como filmes para adultos e com uma infame bolinha encarnada os filmes com cenas exibindo esse comportamento indecoroso que é fumar (um clérigo muçulmano seria mesmo capaz de dizer que fumar provoca, pelo menos, avalanches). Mas não basta ficarmos por aqui. E os filmes todos, muitos deles ditos clássicos, onde há abundância de atos de fumo, ostentação de cigarros e cigarreiras, que podem contaminar as almas dos jovens deste mundo? Eu estou neste momento a deitar fora uma boa carga de dvds, que não quero que os meus filhos sejam expostos a estas indecências. A pornografia que certamente verão na internet tem um décimo do potencial destrutivo da cena do Anatomy of a Murder (um dos filmes que estava nos meus preferidos, mas que hoje foi proscrito) em que se vê o juiz – o juiz! logo uma figura de autoridade destas – a fumar. Outro filme que é para banir já é o Notorious, de Hicthcock, que eu também, no meu passado de mau discernimento, reverenciava. Deixo aqui o início do filme. Além de ter o Cary Grant a fumar, vê-se Ingrid Bergman a guiar alcoolizada. Parece-me razão mais que suficiente para extirpar o realizador da sua estrela em Hollywood Boulevard e garantir por todos os meios que esta poluição espiritual não tem contacto com as mentes impressionáveis abaixo dos 25 anos.

E o que dizer desta inacreditável transmissão de micróbios?

Aquela parte do Anatomy of a Murder em que o juiz e os advogados (todos sem fumar, thank god) falam com desconforto das ‘panties’ da mulher do acusado pode manter-se. Sempre nos lembra que os puritanos existem e são iguais em todas as décadas.

Nova oportunidade para os críticos de cartoons XV

Os desenhos de Hadi Heydary são uma ameaça ao regime iraniano
Os desenhos de Hadi Heydary são uma afronta à segurança do regime iraniano

Desenhar a Torre Eiffel e mostrar solidariedade às vítimas dos atentados de Paris dá direito a prisão. No Irão moderado.