No Fio da Navalha

Quando votamos para o Parlamento, votamos para 4 anos; quanto tempo vale uma decisão tomada em referendo? O meu artigo hoje no ‘i’.

Os referendos e a força das massas

Quem acompanhe os canais de televisão britânicos notou como até os comentadores favoráveis ao Brexit estão apreensivos. Parece que queriam votar naquele sentido, mas não com aquele resultado. E os efeitos são muitos: baixa dos ratings das agências de notação financeira, queda da libra, saída das empresas da City, possibilidade de desintegração do Reino Unido. Fala-se em milhões que se arrependeram de como votaram. Como é que os fleumáticos britânicos se puseram nesta situação?

São os mais jovens a criticar o resultado que os mais velhos lhes impuseram e com que terão de viver o resto das suas vidas. São os trabalhadores dos setores mais integrados na União Europeia que criticam o sentido de voto dos que sentem viver à margem da Europa. Este referendo foi a possibilidade de pessoas decidirem o destino, não de um país, mas da vida de pessoas que não conhecem e cujas necessidades ignoram.

O fenómeno repetiu-se até no Partido Trabalhista, quando Jeremy Corbyn, atacado pelos seus deputados, se virou para as massas que, conduzidas por ele, o apoiam. A massificação do voto, que ignora as particularidades das minorias, é o caminho para o poder absoluto dos populistas e radicais.

Foi Karl Popper quem elogiou a democracia representativa como um dos instrumentos que limitam o poder. Ela previne o poder absoluto da decisão tomada num momento em que o poder passa de uns para outros num mero instante. Para Popper, a democracia representativa prevenia o que aconteceu no Reino Unido. Seria bom que esta fosse uma das lições a tirar do que aconteceu.

Compreender o putinismo XLI

RamzanKadyrov

A congénere russa da comissão de recrutamento e selecção para a administração pública não fica parada no passado. Pelo contrário, é uma agência inovadora. A tal ponto que promove no canal estatal russo Rossia 1, o reality show “Team” cujo objectivo passa por encontrar o braço direito do líder checheno  Ramzan Kadyrov. Fica à consideração da Geringonça a sua aplicação em Portugal no pós-europeu de futebol.

orgulhosamente sós

O meu texto de hoje no Observador.

‘Calhou ir passar uns dias a Londres e chegar no dia do referendo. Das pessoas todas com que fui metendo conversa sobre o assunto, só encontrei um votante do Leave (e ainda no dia da votação; sem surpresas, foi o mais velho). Mas não queria de maneira nenhuma sair da União Europeia. Queria só ganhar capacidade negocial para impor limites à interferência britânica na vida dos ingleses e, se o referendo acabasse em Remain, preocupava-o que a partir daí a Grã-Bretanha fosse tomada como certa: tiveram a oportunidade de sair, não aproveitaram, agora sentem-se direitinhos e não revirem os olhos a cada novo delírio da Comissão ou do Parlamento Europeu. (As palavras ilustrativas são minhas, mas o sentimento é do meu interlocutor.)

Outro, taxista muito tatuado, estava abalado com o resultado e a demissão de Cameron e só repetia que era preciso respeitar a democracia. Dois irlandeses (da parte republicana), em duas lojas diferentes de Mayfair, estavam divertidos com o choque e pavor em que viam o Reino Unido. Outra pessoa dizia, no dia do resultado, ‘it feels weird in London today’. Uma portuguesa a trabalhar numa pizzaria contava que os amigos que votaram Leave não estavam a contar ganhar e já se tinham arrependido.

Mas o resultado foi o que foi, e não adiantam pesares ou arrependimentos. Tal como é inútil deambular à volta da evidência dos líderes do Leave, Boris Johnson e Nigel Farage, preferirem ter perdido e não magicarem o que fazer com a vitória. Farage já pediu no Parlamento Europeu um acordo de comércio – depois de tratar a EU como um Darth Vader supranacional, zona de comércio livre incluída. (A acrescer à desgraça, Farage corre o risco de abandonar o bem pago lugar no Parlamento Europeu para o desemprego, o que acontecerá se não conseguir expulsar do reino os malvados estrangeiros, quem sabe até reverter a invasão normanda.) Boris já garantiu (decidiu sozinho pelos quinhentos milhões de habitantes da EU) que os estrangeiros poderiam permanecer na Grã-Bretanha e os britânicos que trabalham e vivem no continente lá continuariam – no fim de uma campanha xenófoba que culpou os estrangeiros residentes no Reino Unido de todos os males desde as pragas do Egito. Mais uns dias e corremos o risco de assistir a um súbito amor britânico pelo trabalho empenhado dos parlamentares europeus em prol do tamanho adequado dos autoclismos e dos urinóis.’

O resto está aqui.

Brexit, referendos e Corbyn no Económico TV

Sobre o Brexit que pode não se concretizar e sobre os malefícios dos referendos. Ainda um breve comentário também sobre o apelo que Corbyn fez às massas para se manter na liderança dos trabalhistas. Os meus comentários hoje no Económico TV.

Anacleto, sempre

anacleto

Francisco Anacleto Louçã crê que Partido Popular irá perder força em Espanha.

Leitura dominical

Quarta-feira de cinzas, a crónica de Alberto Gonçalves, no DN,

(…) Noite. A propósito, alguém suspeitava que pudéssemos descer tanto? Alguém antecipou uma corte que se assemelha a um circo? Alguém adivinhou que os pacientes tomariam conta do manicómio? Alguém podia prever os últimos seis meses, em que perante uma Europa segura por pinças e rendida ao terrorismo, uma nação pequenina e débil entregou o seu destino material a partidos comunistas e a sua representação a artistas de variedades que tiram selfies, acorrem a flash interviews, comunicam pelo Twitter, espalham “afectos” e riem imenso? Alguém concebeu uma população que, a um passo certo do abismo, alterna a apatia com o patriotismo em chuteiras?

Não sei se nos fazem de estúpidos. Não sei se somos realmente estúpidos. Não sei se os “estadistas” que nos tocaram em sorte são um enorme azar ou a consequência lógica de uma sociedade irremediavelmente embrutecida. Não sei o que fizemos para merecer isto. Não sei o que não fazemos para merecer melhor. Sei que, se imaginássemos o pior dos cenários, não seria tão terrível como o presente. O presente é mau demais. E do futuro, possivelmente sem os malévolos burocratas de Bruxelas a limitarem os nossos delírios, perdão, a nossa “soberania”, nem é bom falar

Se acreditasse em teorias da conspiração, acreditaria sermos cobaias numa experiência de engenharia social, com cientistas de bata branca a avaliar quais os níveis de primitivismo, incompetência, irresponsabilidade, alucinação, arrogância e zombaria que um país suporta? O pior é que, por esse Terceiro Mundo fora, a experiência já se realizou repetidamente. E, para infortúnio das cobaias, a conclusão foi sempre a mesma. Mas insisto: não acredito numa teoria assim. A prática é inacreditável quanto baste.

 

Brexit

Mais logo, às 19:30, estarei no Jornal Diário do Porto Canal a comentar os resultados do referendo no Reino Unido e os seus possíveis efeitos.

Leitura complementar: Brexit: uma lição para a UE.

Brexit: o princípio do fim da UE?

A minha primeira análise sobre os resultados do referendo e o Brexit, no Observador: Brexit: uma lição para a UE.

A retórica do medo e da intimidação tão do agrado de muitos eurocratas falhou dramaticamente. Fracassou também o dogma de que o processo de integração europeia é unívoco e não pode conhecer recuos.

Proteger o estado e os contribuintes de Sócrates e discípulos

O meu texto de ontem no Observador.

‘Nos tempos de Sócrates passei algum do meu tempo a clamar – não propriamente no deserto, mas nos blogues – que a pior herança do socratismo não seria o descalabro financeiro. Mesmo depois da bancarrota de 2011, mantenho que pior que a crise com que o desvario socialista nos presenteou foi a degradação moral da nossa democracia (que já era moralmente periclitante) trazida pelo PS de Sócrates.

O ataque cerrado, agressivo e concertado às pessoas ruins e aleivosas que tinham a ousadia de quebrar a imagem idílica que o PS queria transmitir do país. A falta de educação ostensiva do primeiro-ministro na Assembleia da República para os representantes dos eleitores dos outros partidos. O à vontade público com que organismos públicos cortavam publicidade em órgãos de comunicação social desafetos ou boicotavam a estação televisiva mais vista pela maioria dos cidadãos. A forma como a CGD emprestava dinheiro a empresários amigos para adquirem ações de empresas para, de seguida, receberem de volta o favor de estes votarem para o BCP uma administração com os escolhidos do governo. Os comentários execráveis de Augusto Santos Silva, em flagrante competição com o inquisitorial Louçã, que se tornaram na normalidade de ser ministro sob Sócrates. Isto, claro, sem atender aos caminhos socráticos, ainda mais sinuosos, que se conheceram no fim ou depois da era Sócrates.

Posto isto, quando a improvável Canavilhas aventou o despedimento da jornalista do Público que teve a ousadia de refutar o agora aliado do governo, o alegado professor Mário Nogueira, só me apeteceu sugerir: ponha a mão no ar quem se espanta com tamanha intimidação de jornalistas. E – ainda mais – quem estranha que a intimidação fosse assim, às escâncaras e sem qualquer vergonha. Esta é a característica mais perturbante do comportamento de Canavilhas: a evidência de como no PS consideram que é seu direito natural mandar calar quem bem entendem. Tanto, que nem sentem necessidade de o fazer num canto escuro e escondido.’

O resto está aqui.

A guerra dos tronos dos direitos humanos progressistas

castrochavez

A ditadura dos irmãos Castro continua de boa saúde e recomenda-se.

Cuba criticized the policy of singling out countries for censure, protesting against the “endless allegations against the South by the industrial North.” The delegate asked the Council, “have any countries criticized or said a word against the warmongering of the North around the world?” before providing his own answer: “No.” He continued, asking “why aren’t we hearing about the xenophobia or glorification of fascism in the North?” Contrasting Cuba’s human rights record with that of the developed world, he told delegations that “we continue to work for the promotion and protection of human rights in our nation”

Venezuela, Egipto, Coreia do Norte, Irão, China, Bielorrússia, Eritreia e Portugal, sigam os melhores exemplos e apostem tudo no aprofundamento do modelo socialista que tão bons resultados origina.

Clap, clap, clap

Viva o progresso social e humano provado na pequena reportagem da Vice News  intitulada Grocery shopping during Venezuela’s food shortages.

Old habits…

Deputada do PS sugere demissão de jornalista do Público no Twitter

A deputada do PS e ex-ministra da Cultura Gabriela Canavilhas reagiu com indignação, no Twitter, à cobertura feita pelo jornal Público às manifestações dos últimos dias contra e a favor do fim dos contratos de associação nas escolas privadas. Numa série de tweets sobre o tema, onde partilha a reportagem publicada naquele jornal este sábado a respeito da manifestação de defesa da escola pública, a ex-ministra acaba por questionar porque é que a jornalista autora do artigo “ainda não foi despedida por escrever factos falsos”.

Leitura dominical

Os islamófilos, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Na sua página do Twitter, a dona Catarina Martins recomendou um artigo do Público intitulado “Não sou Orlando, sou LGBT”. O artigo, assinado por um “estudante” e “activista” (leia-se um rapaz do BE), fala em “ataque homo-bi-transfóbico” (caramba!) e termina a convocar as massas para uma marcha em Lisboa. Ao citá-lo, a dona Catarina Martins repete o cliché de outros grandes vultos da humanidade, incluindo a excelência que ocupa o cargo de primeiro-ministro: a matança naquela cidade da Florida reduz-se a um acto de homofobia, que segundo o dr. Costa “feriu de morte a Liberdade [sic]”.

Apesar de a escrever com maiúscula, o dr. Costa tipicamente desconhece o significado da palavra. Liberdade é justamente permitir a existência de opiniões ou sentimentos distintos dos nossos, por patetas ou grotescos que os consideremos. A homofobia, enquanto pavor da homossexualidade ou ódio a homossexuais, é uma opinião ou um sentimento, matérias que só um espírito muito pouco livre pode achar criminosas. Numa sociedade decente, um indivíduo deve gozar do pleno direito de abominar gays, ciganos, brancos, banqueiros, esquimós, loiras, drogados, anões, políticos ou benfiquistas. Não pode é pôr as suas “convicções” (digamos) em prática a ponto de prejudicar alguém. Isso é que constitui um crime. O resto é, se assim o entendermos, mera estupidez.

E estúpido também é acreditar nas aflições de tantas almas perante os “ataques homo-bi-transfóbicos”. Sobretudo quando essas almas defendem em simultâneo o exacto tipo de cultura que, em vez de ridicularizar a homofobia, incentiva-a. E que, em vez de punir as atrocidades cometidas a pretexto, legitima-as. Toda a versão “mediática” da discoteca Pulse ignora o elefante no meio da sala – e que partiu a louça por culpa de Newton e da gravidade.

A fim de evitar a demência terminal, convém reparar no elefante: Omar Mateen, o assassino, era muçulmano e afirmou agir em nome do islão. Os países subjugados ao islão condenam e perseguem legalmente os homossexuais. Os Estados Unidos, por exemplo, condenam e perseguem legalmente as criaturas que agridem homossexuais. Não me lembro de nenhuma ocasião em que, no “confronto de civilizações” ou no que lhe quiserem chamar, a maioria dos nossos alegados inimigos da discriminação estivesse do lado que costuma proteger as respectivas vítimas.

Será cisma minha, mas desconfio um bocadinho do “activista” que, mal termina a marcha contra a homofobia, corre a marchar pela Palestina (embora, concedo, sejam raríssimos os tiroteios nos clubes gay de Gaza). Para não fugir demasiado do imaginário, é uma figura tão credível quanto um entusiasta da Noite de Cristal que se afirmasse amigo dos judeus. Usar quem morre para alimentar uma “causa” sem nunca valorizar a causa confessa de quem mata é, no mínimo, um acto de oportunismo velhaco. No máximo, é patrocinar a chacina. Evidentemente, essa gente não é Orlando nem LGBT: é, como sempre foi, pela força que representar a maior ameaça ao Ocidente.

E, conforme se constata pelos alvos quotidianos dos terroristas islâmicos, organizados ou “espontâneos”, o Ocidente não se esgota nos perversos sodomitas. Temos igualmente galdérias que exibem a pele na via pública, hereges que assistem a concertos de rock, tarados que aguardam aviões em aeroportos, infiéis que frequentam restaurantes, blasfemos que caminham pela rua, todos a pedir para que um mártir os rebente. As fobias, ao que se vê, são inúmeras, e se ousamos atribuir-lhes um padrão comum ganhamos mais uma: islamofóbicos.

As acusações de “islamofobia” são a tentativa de simular escândalo face aos triviais, e compreensíveis, receios do cidadão comum: lá por conter umas dúzias (ou uns milhões, não importa) de extremistas, o islão – homessa – é essencialmente moderado. Por mim, tenderia a crer piamente no islão moderado se este entregasse com regularidade os seus radicais filhos à polícia ou, na falta de esquadra próxima, os pendurasse no alto de um poste. A quantidade de desculpas prontas ou pesares tardios com que trata psicopatas faz-me duvidar ligeiramente do empenho do islão moderado em justificar a designação. É claro que muitos muçulmanos não sonham com a explosão de transeuntes. Porém, já que se pretende banir ou castigar opiniões, seria interessante questioná-los sobre o respeito que dedicam às mulheres, a certos grupos étnicos, a determinadas religiões e, se não for maçada, aos homossexuais. Aliás, eles respondem ainda que ninguém lhes pergunte. Os “activistas” é que fingem não ouvir.

A diferença britânica

O meu artigo desta semana no Observador: A Rainha, a diferença britânica e o Brexit.

Queen Elizabeth II

No Fio da Navalha

O meu artigo ontem no ‘i’.

A importância de estar quieto

Os feriados foram um pretexto para parar. Eu fi-lo e, quando o faço, desligo total e completamente. Não há telemóvel nem computador. Descansar não é não fazer nada, mas será, com certeza, viver devagar. Num destes dias de descanso, acabei por ver a segunda parte dum jogo de futebol do campeonato da Europa. A enorme sala do hotel onde estive, mantida com a decoração dos anos 20 e 30 do século passado, estava vazia. Ao meu lado apenas um outro hóspede sentado defronte do televisor e de olhos postos no telemóvel.

Não sei o que fazia, mas o aparelho não parava e apenas permitia ao seu dono olhar para o jogo quando, pelo relato, percebia que algo tinha acontecido. Com sorte, via a repetição. Já todos presenciámos comportamentos semelhantes. A incapacidade de algumas pessoas se concentrarem mais de cinco minutos no quer que seja é atroz. Já nem mesmo um jogo de futebol na televisão as domina.

Não é novidade nenhuma que se vive demasiado depressa. O que quero saber é como vão sair desta armadilha as pessoas que nela caíram. As livrarias estão pejadas de livros de autoajuda para aumentar a atenção e melhorar a qualidade de vida. Quando o hotel onde estive foi feito, a vida era vivida mais lentamente porque não existiam as tecnologias de hoje. Estas são indispensáveis e, antes, as dificuldades eram muitas. Mas com a necessidade que temos de priorizar o que é importante, pergunto-me se um dia destes a maioria não olhará para trás para aprender a viver doutra forma as facilidades do presente.

Mitómanos e progressistas

kafka2Qual é a dificuldade em perceber que sem capital não há emprego? Eu, hoje no Diário Económico

As reacções às palavras do actual primeiro-ministro sobre a possibilidade de emigração dos professores por comparação com as reacções às mesmas palavras do anterior, dizem o suficiente sobre a distorção do debate político à esquerda.

Mas enfim, a eterna e juvenil luta do Bem contra o Mal faz parte da visão socialista do mundo e, quanto a isso, não há grande coisa que possa ser feita. O importante nesta proposta de António Costa não é a hipocrisia ou a ausência de indignação, é o facto de revelar algum bom senso e realismo.

 

O resto aqui

 

Histerismo na geringonça

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Emigração de professores: “Há semelhanças entre Costa e Passos”, diz BE

Porta-voz Catarina Martins sublinha que o partido “dispensaria a similitude” entre as palavras do atual e do ex-primeiro-ministro

Passos e Costa sobre a emigração de professores

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Há diferenças entre o que disse agora Costa e o que disse Passos em 2011?

Um em 2011, outro há dois dias, ambos juntaram na mesma frase demografia, professores, ensino da língua portuguesa e emigração. E a polémica instalou-se. Mário Nogueira defende Costa, mas preocupado.

Alexandra Leitão e os contratos de associação

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Por acaso, um acaso sem acaso algum. Por Helena Matos.

Este sistema escolar que a senhora secretária de Estado defende – com os filhos dos outros nas escolas públicas e os nossos numa escola privada por causa de uma circunstância que não suscita polémica como os horários ou a segunda língua – tornou-se em Portugal um mecanismo que não só reproduz como acentua as fragilidades e as vantagens comparativas do meio de origem dos alunos. E foi nesta engrenagem que, qual grão de areia, entraram os contratos de associação.

O que está em causa, o que irrita nos contratos de associação é que milhares de famílias viram naqueles contratos algo em que muitos já desistiram de acreditar na rede pública: a escola enquanto factor de inclusão e ascensão social. Por outras palavras, eles não podem colocar os filhos na Escola Alemã mas também não os querem nas madrassas do senhor Nogueira.

CGD, Brexit e sanções a Portugal no Económico TV

A Caixa Geral de Depósitos precisa de 4 mil milhões de euros, para se manter; Portugal pode ser punido por défice excessivo e o Brexit terá consequências gravissímas para o nosso país. Enquanto isso, Marcelo e Costa riem e tiram selfies em Paris. É verdade que o povo gosta de ser entretido (Salazar percebeu isso muito bem), mas há limites. Os meus comentários hoje às 12 horas no Económico TV.

As 35 horas e a Constituição

Deixar violar a Constituição. Por Alexandre Homem Cristo.

Ainda sobre comunismo e fascismo

Ainda sobre a convergência entre comunismo e fascismo. Por João Carlos Espada.

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Leitura dominical

Pré-match, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

(…) Graças a uma entrevista na Visão, conheci a secretária de Estado da Educação, Alexandra Leitão. Que ser humano encantador! Ela é frontal. Ela é fã de Bruce Springsteen. Ela é do Sporting. Ela é de esquerda. Ela é “mesmo lisboeta”. Ela é “superavessa” (sic) a maquilhagem. Ela foi aluna (e colaboradora) de Marcelo, que lhe deu um 18. Ela tem Mandela, Soares e Salgueiro Maia como “referências políticas”. Ela não tem medo. Ela tem duas filhas. Ela sonha com “igualdade e democratização” no ensino. Ela lembrou-se de acabar com os “contratos de associação” com os colégios privados. Ela mantém as filhas inscritas num colégio privado. Ela viu a aparente contradição apontada nas redes sociais. Ela explica: “As minhas filhas fizeram o jardim-de-infância e a primária numa escola pública. E agora estão na Escola Alemã. (…) tem a ver com a opção por um currículo internacional. Para mim era importante que elas tivessem uma educação com duas línguas que funcionem quase como maternas, digamos assim. Se assim não fosse, andariam obviamente numa escola pública.”

Ficou claríssimo. A dra. Leitão quer providenciar aos rebentos um “currículo internacional”, distinção que, no seu entender, o ensino público, “obviamente” fantástico, não assegura. Mas isso é ela, que além de dotada intelectual e financeiramente possui consciência social. Sem dinheiro nem cabeça, a ralé não pode alimentar “opções” assim. Não se espera que, em vez de patrocinar escolas e sindicatos, o Estado patrocine uma educação melhorzinha para a descendência dos simples, a qual deve saber o seu lugar e perceber que daí não sairá. De resto, ao povo basta meia língua e um currículo nacional, ou o nível de instrução suficiente para aplaudir o fervor igualitário e democrático de sua excelência, a senhora secretária de Estado.

As 35 horas para os funcionários públicos e a nova administração da CGD

O meu artigo desta semana no Observador: O fim da austeridade: das 35 horas à administração da CGD

A “geringonça” prometeu. A “geringonça” cumpre. O fim da austeridade está mesmo a concretizar-se, ainda que só para alguns e durante algum tempo. Dois casos em análise: as 35 horas semanais de trabalho para funcionários públicos e a nova administração – com mais administradores e remunerações mais elevadas – da Caixa Geral de Depósitos. Nenhuma das duas medidas faz sentido no contexto de um país que continua numa grave situação económica e financeira, mas ambas fazem todo o sentido à luz dos objectivos políticos de curto prazo da “geringonça”.

Sim, podemos aguardar

podemos

Irão financiou Podemos com esquema, pelo menos, manhoso e que envolve as sinistras contas offshore. Aguardo o tratamento noticioso por parte do Esquerda.Net.

Mouraria ou chinatown?

O meu texto de ontem no Observador.

‘Fernando Medina – presidente da Câmara de Lisboa em punição por todos os pecados da capital – é o político socialista exemplar. ‘Inimigo dos automobilistas e voraz com os recursos dos lisboetas’ seria um bom mote para a sua campanha de 2017.

Já muita gente escreveu sobre a mesquita que a CML entendeu por bem tomar as dores de construir e a hipocrisia flagrante de pretender defender o Estado laico radical, rasgando contratos de associação livremente estabelecidos pelo Estado para poupar as suscetíveis criancinhas à exposição ao ópio do povo por um lado, e, por outro, correr a substituir-se à comunidade islâmica na construção de uma mesquita. E se calhar atrás da mesquita vem a madrassa e a querida câmara socialista de Lisboa é bem capaz de decidir – para mostrar como somos tolerantes, multiculturais e essas virtudes teologais do credo esquerdista – contribuir financeiramente para a catequese muçulmana dos alunos da mesquita da Mouraria. Depois, claro, de ter protegido as crianças portuguesas – mesmo as das famílias ignaras que até queriam e gostavam – da exposição a essa praga maior da vida portuguesa que é o cristianismo.

Para os argumentos sobre laicidade dirijam-se se faz favor aos textos de João Miguel Tavares e Sebastião Bugalho. Eu gostava de acrescentar outro argumento: o Estado devia (como quase sempre) estar quieto. Ao contrário do que dizem os fãs do projeto – e até João Miguel Tavares – não faz qualquer sentido construir naquela zona uma mesquita. Porque há vários séculos aquela zona era habitada por islâmicos devemos agora lá construir uma mesquita? Porque se abriram lá lojas de proprietários paquistaneses e bangladechianos temos de lhes oferecer um local de culto? E a população chinesa da zona, que é pelo menos tão numerosa e visível? Está já em estudo pelos assessores diletos de Medina a construção de um templo a Confúcio? Outro a Mêncio? Foi encomendada alguma estátua da bodhisattva Guanyin?’

O resto está aqui.

As relações entre gerações

Hoje no Expresso online:

Mas esse não é o único campo em que a propalada solidariedade intergeracional está desequilibrada e a precisar dum debate aberto. Os encargos com dívida do estado que crianças que ainda nem nasceram vão ter de suportar ao longo da sua vida são verdadeiramente obscenos e deveriam envergonhar qualquer político que hoje namore aumentos de despesa ou reduções de receita para fins imediatos de satisfação de certos lóbis e necessidades eleitorais. E é pena que aparentemente não tenhamos aprendido nada com os anos da troika.

É ir, ler e voltar. Oh, e olá outra vez!

Interlúdio de clarificação pedante

Escreve o Record na sua edição de hoje:

«Qualquer austríaco que se preze tem sempre à mesa o famoso ‘schnitzel’, empada especial de carne de vaca ou porco com uma camada crocante de farinha e ovo. A tão tradicional e hiper calórica iguaria está, todavia, excluida do plano dietético do segundo adversário de Portugal no Europeu de França.»

Na verdade, um ‘schnitzel’ não é uma empada. Nem especial. Trata-se simplesmente de um vulgar escalope panado. Para ser rigoroso, um ‘schnitzel’ é apenas um escalope, bife ou costeleta. A versão panada é chamada ‘wienerschnitzel’ (escalope à moda de Viena), tradicionalmente de vitela. Quando é de porco, chama-se ‘wienerschnitzel vom schwein’. Se é de peru, é ‘wienerschnitzel von pute’, ou, com alguma piada, ‘putenschnitzel’.

Quem precisa de uma camada crocante de alcatrão e penas é o autor do disparate, se não se dedicar a verificar melhor o que lhe dizem. Tem bom remédio e nem precisa de ir à Áustria. Pode ir ao muito recomendável Kaffeehaus, na Rua Anchieta, no Chiado, onde pode experimentar (e aprender sobre) a excelente cozinha austríaca.

Hoje às 12 horas no ETV

Bruxelas admite a recapitalização da CGD se o investimento do Estado for considerado como privado. Estranho? Nem por isso, agora que as vacas voam. O governo é contra as sanções de Bruxelas a Portugal porque o anterior governo deve ter feito um bom trabalho. Isabel dos Santos na Sonangol, para controlar o BCP e comprar o Novo Banco? E por fim, as 35 horas no sector público. Porque as vacas voam e tudo se suporta e se paga. Sem dramas.

Estes são os temas para os meus comentários na Edição das 12 de hoje do Económico TV.

 

Leitura dominical

Os filhos da boa gente, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

(…) Não se trata de uma especificidade territorial: caso os alvos fossem minhotos ou algarvios, ribatejanos ou beirões, tenho a certeza de que a reacção seria semelhante. É o velho chavão do “Quem não se sente não é filho de boa gente”, que por cá atravessa geografias. Em Portugal, quase todos os progenitores devem ser gente maravilhosa e impecável, já que quase todos os filhos passam a vida a sentir-se, além de que sentem com impressionante intensidade. Desde que, falta acrescentar, se sintam contra um alvo isolado ou fácil.

Não é por nada, mas os valentes portugueses que despejam indignações em cima do Henrique ou do sr. Cid parecem-me, assim por alto, os mesmos que toleram, quando não aplaudem, tudo o que de facto importa. São os mesmos portugueses que acham normal, ou desejável, o PS costurar uma tramóia “constitucional” para tomar o poder e subordiná-lo a estalinistas ou aparentados. São os mesmos portugueses que acham razoável, ou, a acreditar nas sondagens, espectacular, que o governo recupere o prodigioso legado económico de José Sócrates, agora sob orientação sindical e com adornos “fracturantes”. São os mesmos portugueses que acham adequado, ou louvável, que um balão sorridente disfarçado de primeiro-ministro brinque com as organizações internacionais que, em última e penúltima instâncias, nos têm aguentado uns furos acima da Roménia. São os mesmos portugueses que acham correcto, ou excelente, o uso das escolas públicas para perpetuar as desigualdades e alimentar a obediência do bom povo. São os mesmos portugueses que acham normal, ou oportuno, que um rapazito que vê na iniciativa privada um sintoma do Terceiro Mundo esteja no Parlamento e não no hospício. São os mesmos portugueses que acham razoáveis, ou “giras”, propostas legislativas que deixam as crianças mudar de sexo e os idosos serem abandonados. São os mesmos portugueses que acham compreensível, ou fabuloso, que uma deputada denuncie os inimigos da “laicidade” e a discriminação dos gays enquanto exalta a mesquita que os contribuintes pagarão em Lisboa. São os mesmos portugueses que acham pertinente, ou radiosa, a nova mesquita de Lisboa.

Os insubmissos portugueses submetem-se, mudos ou felizes, a um presidente que confunde a função com um circo de irresponsabilidades. A polícias que lhes explicam o sistema de multas criado para os pilhar. A “estadistas” que os “aconselham” a andar de autocarro, ou a pé, ou de jumento. A sindicalistas que escarnecem diariamente do seu trabalho. A tiranetes colocados em cada esquina ou ministério. E, nas próximas semanas, ao fervor patriótico da selecção da bola, para gritar “Portugal! Portugal” e ignorar que o país verdadeiro se afunda sem remédio.

Filhos de boa gente e de quem calha, os portugueses sentem-se. O problema é que, com as prioridades do avesso, sentem-se mal. E não tarda vão sentir-se pior. (…)