Em defesa do consumismo

O meu texto de hoje no Observador.

‘Desde a bendita black friday que tenho apanhado alguns vídeos assaz perspicazes sobre o consumismo do mundo desenvolvido. O meu preferido alterna imagens de multidões a entrar em lojas, passagens de modelos e gente com roupa e sapatos (provavelmente uma ofensa em si mesma; quem não se veste como Gandhi é um globalista explorador) com imagens de bairros de lata, campos a levarem pesticidas, camiões de caixa aberta apinhados de gente, uma mulher com a pele do rosto descolorada.

A mensagem implícita? É o consumismo do mundo rico que provoca todas estas atrocidades.

Como se sabe, se não fosse o consumismo desenfreado dos ricos explorando os países pobres, estes teriam sistemas de transportes públicos irrepreensíveis, limpos, com lugar sentado para todos os utentes, muito mais pontuais do que o metro de Lisboa. Os ataques com ácido às mulheres não ocorreriam. Todas as famílias viveriam, pelo menos, num T3 com ar condicionado. Os malvados desenvolvidos, que desataram a consumir sem parar, é que estragaram este paraíso que eram os países mais pobres antes da última vaga de globalização.

Agora um bocadinho de realidade. A China, desde as reformas económicas de Deng Xiaoping em 1978, que tornaram a China na tal ‘fábrica do mundo’, já tirou entre setecentos e oitocentos milhões de chineses da pobreza. A taxa de pobreza extrema (atualmente menos de 1,90USD/dia) caiu de 84% em 1981 para 15,9% em 2005; anda agora na casa dos 10%. Entre 1994 e 2012, cento e trinta e três milhões de indianos saíram da extrema pobreza. Nas duas décadas entre 1990 e 2010, mil milhões de pessoas saíram da pobreza. Repito: mil milhões de pessoas pelo mundo. Nove zeros: 1.000.000.000 de pessoas.’

O texto completo aqui.

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Mário Centeno é o novo presidente do Eurogrupo (4)

Os meus comentários de ontem sobre a eleição de Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo, no jornal das 20h do Porto Canal, podem ser vistos (ou revistos) aqui.

Mário Centeno é o novo presidente do Eurogrupo

Estarei a comentar a eleição de Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo mais logo a partir das 20:00 no Jornal Diário do Porto Canal (emissão deve poder ser seguida online aqui).

Centeno conquista presidência do Eurogrupo em segunda votação

Para já, além de dar os parabéns a Mário Centeno (independentemente das leituras políticas que se possa fazer, a eleição é uma inequívoca vitória pessoal sua), gostaria de recordar dois artigos que escrevi há algum tempo no Observador, sendo que ambos me parecem relevantes para interpretar e ajudar a compreender a eleição de Centeno e suas implicações:

Os sectários

Não há dinheiro para pagar mais socialismo

Continue reading “Mário Centeno é o novo presidente do Eurogrupo”

Lições de propaganda

O meu texto desta semana no Observador.

‘Perante isto, o que dizer do comportamento dos ministros durante a ação de propaganda? Percebo que o ministro Cabrita deu o melhor uso possível àquele pedaço de tempo: dormiu. Quem nunca reprimiu um bocejo quando de repente, quase à traição, ouviu a voz de Costa na televisão ou na rádio? Também me solidarizo com Maria Manuel Leitão Marques, que resolveu ler jornais ou por as mensagens e o mail em dia. Bom uso do tempo, ou não fosse uma mulher. De resto era a única que sobressaía pela cor da roupa, num mar de ministros visualmente entediantes. E, de facto, não se deseja ao pior inimigo, nem sequer a um ministro da geringonça, uma tarde a ouvir António Costa.

Mas e a mensagem que passaram, de ignominioso desinteresse pelas respostas que o querido líder dava à amestrada assistência? Sopapos e anos de cadeia talvez sejam excessivos para Cabrita e Leitão Marques, mas que tal enviá-los em licença prolongada para a Mongólia Interior? Ou para as zonas ardidas este ano (há uma ampla escolha neste critério) para um campo de reeducação pelo trabalho?

Depois dos desaires do cenário composto pela universidade e dos ministros que não revelaram adequada veneração pelo seu bom pastor, felizmente a assistência portou-se à altura quanto à devoção e ao respeito pelo aniversariante governo. Não houve perguntas difíceis, foram exibidas publicamente simpatias por tão excelso grupo, só faltou alguma das senhoras questionadoras assumir uma paixão secreta por Mário Centeno e enviar-lhe o número de telefone tossicando em código Morse.’

O texto com princípio meio e fim está aqui.

21:30 no Porto Canal

Mais logo, a partir das 21:30, estarei no Porto Canal a debater o estado do país com o Prof. Daniel Bessa e o Presidente da AEP, Paulo Nunes de Almeida, sob moderação de Júlio Magalhães.

Leitura recomendada

O sarilho catalão, opinião de Bruno Alves no Jornal Económico.

Como mais ou menos toda a gente, tenho acompanhado com interesse e estupefacção os acontecimentos na Catalunha, onde um grupo de gente de penteados esquisitos e higiene pessoal duvidosa parece estar empenhado em dar início a uma nova guerra civil espanhola. Mas maior interesse e estupefacção tenho tido com o entusiasmo com que aqui em Portugal e um pouco por essa Europa fora muita gente parece ter simpatia e apreço pelas acções e opções dos “independentistas” catalães. Mais tolos que tolos só mesmo os tolinhos que os seguem.

Os argumentos da autodeterminação do “povo” e da ilegalidade do processo de secessão com que os dois lados se digladiam não me comovem particularmente. Os “povos” não têm vontade: uma parte dos ditos tem uma vontade, outra tem outra, e as duas não formam uma terceira, “Geral”. Um país torna-se independente quando uma dessas partes consegue ter força (nas suas várias formas) para a impôr ao país de que fazia parte e à parte do seu “povo” que não quer tornar-se independente. Os EUA, por exemplo, tornaram-se independentes não por ter sido a vontade do “nós, o Povo” supostamente autor da Declaração de Independência, mas porque a parte do povo que queria ser independente ganhou uma guerra civil à parte que não queria, e décadas mais tarde, a Confederação não se tornou independente porque quem queria ser independente não conseguiu ganhar uma guerra civil aos que não queriam que eles fossem independentes, não por a secessão ser ilegítima. (…)

Guerra às crianças

O meu texto de ontem no Observador.

‘Eu sei, eu sei: os milhões doados para alívio das vítimas de Pedrógão, de que o PS apressadamente se apoderou para distribuir como se fosse a generosa origem do dinheiro, estão em parte incerta; o relatório sobre Pedrógão foi atrasado para depois das eleições autárquicas, que o PS não brinca em serviço nem deixa que 66 mortos lhe atrapalhem pretensões eleitorais; a ministra da Administração Interna pede relatórios atrás de relatórios sobre o que corre mal – no caso, as refeições próprias de alturas de más colheitas na África subsaariana dadas aos bombeiros – como se não lhe coubesse antecipadamente garantir que uma ou outra coisa, pelo menos, corresse bem. E um quilométrico etc.

Mas deixem-me voltar ao caso dos cadernos de atividades que foram retirados por coação do ministro Eduardo-‘frígida’-Cabrita e a sua Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Porque, com a recomendação da CIG, iniciou-se a tentativa de institucionalização daquilo que as crianças do sexo feminino não podem fazer.

Em 1917 as meninas tinham de ser prendadas, não podiam correr como os rapazes nem subir às árvores, tinham de saber bordar e tocar piano, usavam roupas que lhes tolhiam os movimentos, desporto só, com sorte, ténis. Em 2017, as meninas não podem vestir cor de rosa (atenção, um menino transgénero pode vestir cor de rosa para se afirmar menina, mas as miúdas têm de escolher azul ou uma cor neutra), as princesas foram guilhotinadas e joguem futebol feminino faz favor.

Os espartilhos colocados às meninas mudam mas permanecem afiados. Jamais deixar a meninada escolher cores e atividades e brinquedos, com toda a liberdade conforme os gostos, desde o karaté à ginástica rítmica. Melhor negar o direito às miúdas de usufruírem de qualquer divertimento associado ao universo feminino. (Horror! Repitam mantras satânicos para vos proteger desse pavor que são TODOS os comportamentos femininos.)’

O resto está aqui.

No Porto Canal, às 19:30

Mais logo, às 19:30, estarei no Jornal Diário do Porto Canal a analisar a situação política e o cenário de uma possível remodelação do Governo.

Os mortos são um pormenor

O meu texto desta semana no Observador.

‘1. Em 1958, Mao Zedong lançou o Grande Salto em Frente. Alucinadas políticas agrícolas, industriais e de obras públicas, de conceção inteiramente humana, resultaram, segundo o académico Frank Dikötter, em pelo menos 45 milhões de mortos. Qual foi a desculpa oficial apresentada pelas autoridades chinesas para a fome e os mortos? Ora: houve uma sucessão de calamidades naturais que resultaram em colheitas minúsculas. Este tempo ficou conhecido como os ‘três anos de desastres naturais’.

Francisco da Silva Costa, Miguel Cardina e António Avelino Batista Vieira, em ‘As inundações de 1967 na região de Lisboa, Uma catástrofe com diferentes leituras’, sobre a tragédia das ditas cheias, verificaram que a imprensa amiga do regime focava as notícias no sentimento de fatalidade, no impacto das causas naturais e na generosidade geral que se seguiu. (Reconhecem?)

É próprio de ditaduras culpar desastres naturais por mortes evitáveis. Há que impedir contestação e protestos por incompetências e negligências dos queridos líderes. É neste quadro que devemos ler os argumentos dos jornalistas engajados que nos querem convencer que nada há a fazer porque a floresta arde, o aquecimento global está aí – e fica tudo dito.

É neste contexto também que enquadramos a história tão prontamente cozinhada por todas as autoridades, a do desastre natural incontrolável e das condições climatéricas atípicas (alguma vez se viu neste polo norte onde vivemos altas temperaturas e baixa humidade?). Uma situação imprevisível (a geringonça tinha dado ordem ao clima para só se fazer notar a partir de 1 de julho, e ninguém está a reprovar devidamente esta irreverência climática). Num país onde nada se descobre, em poucas horas encontrou-se a maldosa da árvore que recebeu o raio e matou toda a gente. A culpa é da árvore, do raio e, se há culpa humana, é da aleivosa criatura que ali a plantou há algumas décadas. Ao jornalista Sebastião Bugalho, do i, a gente da zona contou que a trovoada seca ocorreu depois do fogo deflagrar. Devem ter inalado fumo de alguma plantação ilegal de marijuana que ardeu.

2. Foi bom ver as gelatinas que nos governam. Num momento em que precisávamos de gente de cabeça fria e decisão certeira, a pessoa do Palácio de Belém e o secretário de estado deixaram-se fotografar, na noite do desastre, emocionados, abraçados, como se a desabar. A ministra Urbano de Sousa teve a falta de noção de falar dos seus estados emocionais numa entrevista televisiva. O primeiro-ministro, em vez de se mostrar ao comando, tuitou-se a abraçar uma senhora.

Indecorosa utilização das emoções. Quando necessitávamos de confiar que nos protegiam, apresentaram-se como se lhes devêssemos dar um lenço para assoar as lágrimas.’

O resto está aqui.

Mandar na propriedade dos outros

O meu texto de hoje no Observador.

‘Percebo: somos um país de invejosos do sucesso e do dinheiro alheios; e o PS achou por bem capitalizar eleitoralmente esta infeliz característica. Também percebo: somos um país com pouco apreço por esse direito fundamental, o direito à propriedade privada. Que inclui, claro, o mais amplo uso dessa propriedade para os fins legais que o proprietário entende.

A terraplanagem socialista quer ganhar votos com as pessoas que ficam com ataques de nervos por não conseguirem arrendar casas nas zonas históricas das cidades, mormente Lisboa. Porque, meus amigos, toda a gente sabe que é um direito inalienável arrendar casas nos centros históricos. Mais ou menos como aquele por que a JS clamava em 2009: o direito ao TGV. Coitadas das pessoas. Há três anos nunca quereriam ir morar para os centros históricos, no tempo daquele passado glorioso: o dos inquilinos que pagavam escassas dezenas de euros a cada mês por uma casa onde cabia uma família média. Com estas boas rendas, os prédios apresentavam-se de tinta descascada e janelas apodrecidas. E não incomodava gente cool que também não existissem casas para arrendar, porque estavam ocupadas pelos contratos de há cinquenta anos a setenta euros por mês.

Mas por estes dias entendem que alguém tem a obrigação de lhes arrendar casa – com renda acessível se faz favor, que não queremos cá usuras. Estas pessoas estão generosamente dispostas a ocupar as casas que outros recuperaram (com expetativa de outro negócio), em troca de renda parca, tudo para livrar os proprietários do pecado da ganância. São uns beneméritos, no fundo.

É o persistente problema do PS e seus satélites: percebem muito de lirismo e pouco de racionalidade económica. Julgam sempre que, se exterminarem um negócio, por artes mágicas a oferta antes da destruição se manterá depois. Não vislumbram, nem com desenho, que se impedirem (via obstrução dos condomínios) o arrendamento local, as casas atualmente disponíveis para esta atividade não vão assim continuar para arrendamento permanente; nem surgir novas. Estes proprietários irão aplicar o dinheiro noutro lado.’

O resto está aqui.

O homem que estava lá

(O meu artigo de hoje no Jornal Económico)

Na passada segunda-feira, para comentar a boa-nova de que a Comissão Europeia libertara Portugal do “procedimento por défice excessivo”, a RTP achou por bem emparelhar o conhecido economista Vitor Bento com o habitual comentador da estação Fernando Teixeira dos Santos, que passou os 28 minutos do segmento a aplaudir o “reconhecimento” do “esforço” que a sociedade portuguesa fez e a dizer que “há que manter esta linha de rumo” de “rigor” orçamental para “manter a confiança que já se faz sentir” e “não se perder esta oportunidade para consolidar estes ganhos”, depois de se “aprender com os erros cometidos no passado”: “os telhados”, concluiu, “consertam-se quando faz sol, não quando está a chover”.

Teixeira dos Santos falou como se nunca tivesse tido responsabilidades governativas, nem no caminho que obrigou os portugueses ao tal “esforço” de que falou. Mas teve, e grandes, por muito que a RTP (que imagino não lhe pague pouco) e quem o ouve como uma voz credível, esqueça ou finja esquecer que ele foi durante anos e até para além do dia em que foi preciso chamar “a troika” o Ministro das Finanças do ex-primeiro Ministro sob suspeita de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais José Sócrates.
Teixeira dos Santos chegou ao Ministério das Finanças bem no início do consulado “socrático”, depois – sublinhe-se – do pobre Luís Campos e Cunha se ter inicialmente deixado enganar pela propaganda do “engenheiro” e posteriormente apercebido daquilo em que se tinha metido, tendo vindo então a público afirmar que o caminho que se estava a iniciar acabaria por ter resultados desastrosos. Teixeira dos Santos, que obviamente não desconhecia o aviso, não entendeu que este merecesse cuidado, e aceitou substituir Campos e Cunha no Ministério das Finanças. A partir desse momento e até ao fim, tornou-se e permaneceu um cúmplice e co-responsável pela fraudulenta política financeira de Sócrates.

Teixeira dos Santos era o Ministro das Finanças quando o governo de Sócrates fingia, através dos mais variados truques, cumprir um défice que estava longe de estar efectivamente controlado. Era o Ministro das Finanças quando o governo de Sócrates se entreteve a aumentar a despesa pública para dar “confiança” à economia. Era o Ministro das Finanças quando o governo de Sócrates, à beira de eleições, decidiu comprar votos com um aumento de salários dos funcionários públicos e uma descida de impostos que abriram um buraco no Orçamento do qual Portugal nunca mais conseguiu sair. E era o Ministro das Finanças quando o governo de Sócrates andou alegremente de PEC em PEC até à bancarrota final. Depois da derrocada, relatos mais ou menos detalhados do caos no “bunker” socrático naqueles atribulados dias do seu crepúsculo começaram a sair na imprensa, e fizeram Teixeira dos Santos parecer, por comparação com o Primeiro-Ministro e alguns dos seus acólitos, um tipo sensato que, à beira do descalabro, não ignorava a realidade como o alucinado líder governativo que achava que tudo estava bem. Mas o facto de ter sido a pessoa que confrontou o lunático que o chefiava com a fatal constatação de que a loucura pela qual partilhavam responsabilidade tinha chegado ao fim não o iliba de ter sido co-autor dessa loucura.

É claro que Teixeira dos Santos, como qualquer outra pessoa, até maus governantes como foi o seu caso, tem o direito de se vir aliviar publicamente dos seus estados de alma sobre a actualidade. Mas num país normal, com uma comunicação social que merecesse ser respeitada pela população e que se desse ao respeito, ninguém lhe daria o palanque que televisões e jornais lhe continuam a dar. Que a RTP, paga com o dinheiro dos portugueses, seja um agente cimeiro da imerecida reabilitação de Teixeira dos Santos só piora as coisas. E que fora do PS e das redacções que lhe são simpáticas haja quem esteja mesmo convencido de que Teixeira dos Santos é mesmo uma voz credível que merece ser ouvida sobre a situação e o futuro de Portugal ajuda bastante a explicar como o país é o que é.

Um Macron português?

Artigo de Sebastião Bugalho com análises minhas e de Lívia Franco, Nuno Garoupa, Pedro Magalhães e Alexandre Homem Cristo: Quem seria o Macron português?

O SOL falou com académicos e analistas. A equação não é fácil. Num Portugal em que nenhum partido consegue uma maioria absoluta há mais de dez anos, o centro vai-se reinventando, mas a combinação ‘macroniana’ anda longe. Será para sempre?

O Governo placebo

(artigo publicado hoje no Jornal Económico)

Jorge Bergoglio, o responsável máximo da Igreja Católica mais conhecido pelo seu nome artístico de “Francisco” e expoente máximo da moderna falsa “autenticidade” dos afectados “afectos” e dos afortunados que vêem virtudes na pobreza que não têm de suportar (da qual o nosso Presidente é o maior representante local) veio a Portugal participar num mega-evento televisivo na Cova da Iria, e um pouco por todo o país, os funcionários públicos aproveitaram a ocasião para gozarem um dia de férias extra o mais longe possível das festividades. Tudo porque o Primeiro-Ministro António Costa resolveu aproveitar o pretexto da “excepcionalidade” da visita papal para contentar a referida (e vasta) clientela com um dia de “tolerância de ponto”, revelando o carácter e natureza do seu Governo.

Num artigo recente, intitulado America’s Placebo President? – “O Presidente Placebo da América?” – Tyler Cowen argumentava que o apelo de Donald Trump junto dos seus eleitores se deve não tanto à substância das suas políticas ou aos resultados que delas esperam, mas da forma como o primeiro Presidente laranja dos EUA, com a sua “retórica” e postura mediática, lhes “sinaliza” que está do seu lado nas “guerras culturais” americanas. Por outras palavras, Cowen acha que Trump apela aos seus fãs não porque eles esperem que ele melhore as suas vidas, mas porque os faz sentir melhor, oferecendo-lhes com a sua pessoa “uma voz pública” e “a ilusão de maior controlo sem o controlo propriamente dito”.

O governo de Costa, no fundo, serve um propósito semelhante, ajustado à medida do nosso provincianismo e pobreza relativa. Ninguém, no seu perfeito juízo (o que já limita de forma mais ou menos significativa o universo de portugueses a que isto se aplica), acredita mesmo que as políticas que Costa e os seus subalternos têm aplicado vão trazer uma grande prosperidade ao país, conseguir um “crescimento” que se veja ou “modernizar” o que quer que seja. No entanto, a crer nas sondagens, há uma satisfação geral com a governação socialista, ou, no mínimo, uma indiferença generalizada em relação à sua inconsequência. Não seria de espantar que tal se devesse ao facto do Governo, com as suas “devoluções”, “reversões” e proclamações de “virar da página da austeridade”, estar, embora sem nada fazer para realmente resolver qualquer um dos problemas estruturais que nos atormentam e mantendo o “livro” da dita “austeridade” bem aberto (com algumas clientelas poupadas ao esforço), a sinalizar que “os tempos difíceis” já passaram: Costa, os seus validos, e “idiotas úteis” (para usar o termo técnico) como os faladores do BE (o PCP presta-se menos a tais figuras) oferecem aos portugueses uma “voz pública” para o seu cansaço com os vários “apertos de cinto” que têm sofrido nas últimas décadas e com as exigências da “Europa”, e uma “ilusão de maior controlo” sobre o seu futuro económico e financeiro, mesmo que “sem o controlo propriamente dito”. A “tolerância de ponto” não serve apenas para dar um rebuçado aos funcionários públicos: serve para que os portugueses sintam que as coisas já não estão tão complicadas como estavam há uns anos atrás, mesmo que nada tenha realmente mudado.

Diga-se que o Governo anterior não era muito diferente: a sua retórica reformista escondia uma política profundamente imobilista, com a qual aos “cortes” (de salários ou pensões) ou “aumentos” (de impostos) não correspondiam medidas estruturais com efeitos duradouros. Se o governo actual oferece “tolerâncias de ponto”, o anterior “acabava com feriados”, uma medida irrelevante mas que sinalizava, sem afectar qualquer interesse realmente poderoso, que as coisas não podiam continuar como nos tempos da fraude “socrática”, dando uma “voz pública” à necessidade de maior rigor e uma “ilusão de controlo” perante a bancarrota sem que nada fosse feito que prevenisse a sua repetição no futuro.

É esse, aliás, o grande problema dos governos que sucessivamente nos têm pastoreado: todos eles se comportam como um médico que acha que a melhor forma de lidar com uma doença de um paciente é mascarar-lhe os sintomas, em vez de efectivamente a tratar. Durante uns tempos, há mesmo quem acredite que está tudo bem. Mas mais tarde ou mais cedo, acabamos sempre por descobrir que esse está longe de ser o caso, e que pagaremos cara a falta de juízo e honestidade de quem os deveria ter.

Não tenho culpa da escravatura. E não pago.

O meu texto de hoje no Observador.

‘Bom, por Portugal pastoreia-se agora um tema tão pertinente quanto os anteriores. Tome conhecimento o leitor que precisa de dedicar amplo tempo do seu dia à problemática da escravatura. Escravatura? – pergunta o leitor espantado. E cogita com os seus botões que nunca viu um escravo, nunca possuiu um escravo, indigna-se quando lê reportagens denunciando escravatura no século XXI em zonas de África ou da Ásia ou ligada ao tráfico sexual aqui na Europa. Que diabo esperam mais do leitor desprevenido?!

Aparentemente é nossa urgente obrigação – mais de dois séculos depois da abolição da escravatura em território português e de um século depois da abolição em todo o império português – debater as culpas de Portugal na história da escravatura e do comércio de escravos. Na verdade, lendo certos textos, desconfio que se espera de nós que qualquer boa mãe e bom pai de família se entreguem à penitência, batendo com contrição no peito enquanto envergamos uma canga, por, há vários séculos, um ou outro dos nossos antepassados possuírem ou comercializaram escravos. Mais: há até quem questione se nós – contribuintes que nunca escravizámos ninguém – deveríamos pagar indemnizações aos descendentes dos escravos. (Este debate é tanto mais importante quanto não há uma vítima viva do comércio de escravos português.)’

O texto completo está aqui.

As coincidências do circunspecto Porfírio

Por um tuit do Miguel Noronha descobri que Porfírio Silva me dedicou na quinta feira passada alguma atenção por causa do meu texto dessa semana no Observador. Quer dizer, Porfírio garante não me prestar atenção nenhuma (é uma pessoa muito importante e com o tempo inteiramente preenchido de afazeres daqueles life changing para 73,8% da população mundial, como se verá), mas é obrigado a isso involuntariamente quando pessoas más das suas redes sociais lhe ferem os sombrios olhos (porque carregados com a missão de salvas o mundo através do socialismo da geringonça, e isso é tarefa que ensombra tudo, como se sabe) com a exibição dos meus malévolos escritos. E assim Porfírio lá tem, contra a sua vontade, de me acusar – num texto em que basicamente elenco posições de apoiantes da geringonça sobre Hollande e Venezuela – de ser intelectualmente desonesta, se não mesmo desonesta e ponto final. Porque sou eu desonesta? Inventei alguma posição ou citação? Porfírio, esse espírito arguto que acusa de desonestidade quem descreve corretamente posições alheias, não explica.

Mas sabem o que tem mais piada? Nem é o facto de Porfírio – esse grande ideólogo da geringonça, e uma das pessoas reles que acusou claramente Passos Coelho de usar o cancro da sua mulher para benefício eleitoral – me dar afinal tanta atenção que um dia, não faço ideia quando, porventura depois de eu ter mostrado as suas ideias no Observador, ou lá referido o soez ataque a Passos Coelho, me ter procurado no twitter (porque eu não interagi com ele e nem o seguia) e me ter bloqueado. Afinal Porfírio bloqueia muita gente, todos aqueles que não lhe reconhecem a superioridade ideológica e a genialidade, não devemos valorizar.

Não, o que tem mais piada foi o ataque de Porfírio à minha querida pessoa (porque a desonesta era eu, não o meu texto) ter vindo na quinta-feira, depois da yours truly, na quarta-feira à noite anterior, na assembleia de freguesia a que pertenço, ter dado Porfírio Silva (que não me liga nenhuma) como exemplo de eleito pelo PS que, apesar de deputado à AR, bloqueia quem o escrutina. Mas estou certa que se tratou apenas de uma coincidência, que no PS não se entregam à coscuvilhice do que se passa na assembleia da minha freguesia e que Porfírio não é assim tão thin skinned, uma espécie de Trump em versão filósofo, que não percebe que a sua posição o obriga a estar acima de certas coisas e das respostas pavlovianas. De resto, se não fosse coincidência e fosse mesmo uma resposta, no seu facebook Porfírio provavelmente teria incluído também uma ameaça de bofetadas, qual Ascenso Simões e João Soares, que parece ser a reação por defeito dos socialistas a tudo.

Quanto às acusações que me faz, já se percebeu, aquando do caso de Laura, mulher de Passos Coelho, que Porfírio acusa os outros daquilo que ele próprio é e do que é capaz.

Salazar e Le Pen: a luta continua

Daqui se conclui com relativa evidência: tivesse Salazar tido a “lucidez” de chamar União Nacional Trabalhista ao seu partido único e de chamar às colónias “territórios de resistência ao imperalismo” teria podido contar com Cunhal como seu fiel ministro – tudo o resto seria o Estado Novo como o conhecemos: prisão de opositores (banal desde Lenine), censura prévia na imprensa (nada mais comum no Pacto de Varsóvia) e colonialismo (URSS, alguém?).

 

Isto e mais no Expresso online.

A geringonça vista de Espanha

Aqui fica um artigo espanhol para o qual contribuí com alguns breves comentários sobre a situação política portuguesa e o funcionamento da geringonça até ao momento: Portugal y Alemania, la gran esperanza de los socialistas europeos.

Viagem pela memória: Chavez e Hollande esperanças do socialismo

O meu texto de hoje no Observador.

‘Recordemos ainda o affair venezuelano. Neste caso, em boa verdade, a tentativa de assobiar para o lado vem só de PS e BE. O PCP, mais genuíno, continua a defender o regime chavista da Venezuela. Mesmo depois das manifestações massivas, das mortes dos manifestantes, das cargas policiais sobre quem protesta, dos inúmeros atropelos à liberdade e à democracia, da supressão de opositores, da fome e da pobreza a alastrar apesar das reservas petrolíferas, das filas para os supermercados onde escasseiam os bens básicos, da nacionalização das padarias. João Ferreira – o candidato à Câmara de Lisboa pelo PCP – fez a 6 de abril uma intervenção no Parlamento Europeu defendendo os ‘factos reais’ da maravilhosa situação na Venezuela. Que, de resto, só vive sobressaltos graças à ‘ingerência’ dos vilões imperialistas. (E verbalizam tudo isto sem a ajuda de estupefacientes.)

Mas se PS e BE fingem que nunca se cruzaram com o regime chavista, avive-se a memória. O reincidente Soares, criticando Maduro, elogiou Chavez. Depois, note-se, de Chavez abrir caminho para o estrondoso Maduro, que Soares criticava, e patrocinar referendos manhosos para manutenção do crescente poder presidencial, ou encerrar compulsivamente, em várias levas, rádios e televisões privadas pouco obedientes. Bom, calar órgãos de comunicação social hostis é o sonho de qualquer socialista português. Talvez também por isto Sócrates decretou Chavez um ‘amigo de Portugal’. Em 2016 – repito, em 2016, quando o regime chavista já tinha descambado na catástrofe ditatorial e produtora de miséria – a câmara socialista da Amadora teve a falta de vergonha de inaugurar uma Praça Hugo Chavez. Diz-me quem celebras, dir-te-ei quem és.

E o Bloco? É amigo de coração do regime chavista desde sempre. Lembro-me de ver Louçã (aqui em mais um elogio) na televisão declarando que a vitória de Chavez, em referendo, significava a vitória do socialismo e da população mais pobre. A queda dos preços do petróleo é que minou o sucesso venezuelano – há sempre uma desculpa, não é? Também defendem, quase sem tirar nem por, as políticas económicas que cozinharam a calamidade venezuelana.’

O texto completo está aqui.

Presidenciais francesas na TVI24

Hoje, às 23.30, vou estar na TVI24 a comentar os resultados da primeira volta das presidenciais francesas. Até lá.

Catarina patroa, Catarina costureira

O meu texto de ontem no Observador.

‘Por estes dias, qualquer pessoa que esteja familiarizado com o conceito de ‘coluna vertebral’ tem sentido dores nas costas (causadas por curvaturas na coluna demasiado acentuadas e sinuosas) de cada vez que ouve ou lê uma notícia sobre o Bloco de Esquerda. Mais ou menos como quando às vezes no sentimos corar de vergonha pelas más figuras de terceiros, tão más que é impossível não nos carregarmos de embaraço por empatia. A boa notícia é: se está com medo de ter desenvolvido uma hérnia discal, ou uma contratura na cervical, é bem possível que afinal sejam só dores pelos flic-flacs da coluna dos dirigentes do BE.

Não que nos próprios se note mazelas. Aparentemente vivem bem com as colunas com vários nós de marinheiro. E os votantes do BE, segundo nos informam as sondagens, também não são apreciadores em demasia de uma coluna vertical. Aplaudem hipocrisia e contradição. Vamos conferir.

É ver Catarina Martins, que votou favoravelmente em 2016 o orçamento de 2017, queixar-se agora que o orçamento para a cultura é ‘vergonhosamente baixo’. Desengane-se o leitor se por segundos ponderou tratar-se de um ato penitencial à conta da Páscoa que se aproxima. Não, o bom bloquista é estranho aos exames de consciência dos católicos. Catarina Martins estava mesmo a insultar o documento que considerou bom para o país, dando-lhe o seu voto de deputada, como se nada tivesse a ver com tão vergonhoso documento.

Também é divertido (ou doloroso, para as pessoas mais sensíveis aos engulhos na coluna alheia) observar Catarina Martins pedindo limitação dos ordenados dos gestores das empresas privadas. Salvo rapto por extraterrestre e substituição por um clone, é a mesma Catarina Martins que votou contra as tentativas de PSD e CDS para limitação dos ordenados na CGD. Claro que encenaram umas objeções pró-forma, a salvar a sua alegada reputação virginal, mas quando foi necessário ajudaram o PS a impor salários indecorosos para uma empresa pública. (Se a CGD devia ser pública ou não – e não devia – é outra questão. Enquanto for, há que limitar as responsabilidades assumidas em nome dos contribuintes.)’

O resto está aqui.

Incursão da Ordem dos Médicos pela misoginia

O meu texto de ontem no Observador.

‘Tinha pensado esta semana escrever sobre a reação pacóvia de António Costa (perdoem a redundância de ‘pacóvia’ e ‘António Costa’) às declarações do senhor dos caracóis holandês. Mesmo sabendo que Costa não tem um vocabulário numeroso, ainda assim revirei os olhos pelas suas queixas de ‘sexismo’ e ‘racismo’ de Dijsselbloem. Foi o que se lembrou o pobre PM, não soube melhor que inventar para os portugueses uma raça diferenciada e supostamente menor que a raça holandesa. Ou ir para o politicamente correto infantil de afirmar que é um insulto as mulheres serem destinatárias de despesas masculinas – como se alguém, homem ou mulher, gostasse de um significant other sovina, gastando tudo consigo em vez de com as pessoas importantes da sua vida (mulheres lá no meio).

Mas adiante, que vi esta reportagem no fim de semana, sobre a alteração legislativa que permitiu aos pais assistirem às cesarianas nos hospitais públicos, bem como a recente oposição da Ordem dos Médicos. Resolvi, então, concentrar-me num efetivo ataque da Ordem dos Médicos às mulheres, em vez de nos sexismos inventados por Costa e tola esquerda nacional.

Tenho dois filhos e ambos nasceram de cesariana. O primeiro porque não fiz dilatação e o segundo porque passei os últimos dias de gravidez em repouso absoluto, às tantas rompeu-se o saco amniótico e a cesariana, que já havia sido recomendada, foi adiantada. Não tive desgostos pelas cesarianas, confesso. Foram partos cómodos, estive medicada para as dores, tive pós-partos fantásticos e, de resto, escapei de fazer uma episiotomia – que era o que mais me horrorizava em todo o processo. Ainda tentei convencei o médico de que não era precisa, umas semanas antes do parto, mas sem sucesso. Lá está: os médicos não ligam às necessidades e preferências das mães. Somos, evidentemente, umas histéricas (mesmo quando muito lidas e informadas sobre o assunto, como foi o meu caso) e os senhores doutores sabem sempre o que é melhor.

Chegando ao parto por cesariana. Leio que os anestesistas torcem o nariz à presença dos pais no bloco operatório aquando das cesarianas. Ora nas minhas duas cesarianas o pai da criançada claro que esteve presente. No primeiro, na Cruz Vermelha em Lisboa, o anestesista estava tão agoniado e assustado com os perigos desta intrusão que até filmou partes do parto e, no fim, nos ofereceu um cd com os melhores momentos do evento. Não faço ideia já do nome do médico, mas tem em mim uma fã adoradora até ao fim dos tempos. No segundo, noutro privado, não houve filme mas houve a presença do pai. Num país que, no fundo, da direita à esquerda, aprecia muitos os marcadores de diferenciação social, parece que minorar os desconfortos de um parto só deve estar reservado para quem tem dinheiro para pagar hospitais privados ou seguros de saúde – diz a Ordem dos Médicos.’

O resto está aqui.

A presunção de inocência e os prazos no dia da felicidade

O meu texto de ontem no Observador.

‘Vejam por exemplo os disparates que foram ditos e escritos sobre a presunção de inocência de Sócrates. A presunção de inocência é um conceito jurídico que garante que ninguém é condenado sem que existam provas sólidas de um crime cometido. Ponto final. Ora como qualquer pessoa pensante percebe, o que existe e ocorre no mundo, seja criminoso ou não, não é apenas o que é suscetível de ser provado em tribunal – e provado segundo regras que são elas próprias mutáveis e discutíveis, não desceram dos céus como presente intergaláctico de uma qualquer deusa da justiça do mundo greco-romano.

Alguém ser absolvido em tribunal, ou nem sequer ser acusado, não é selo de garantia de que não cometeu nenhum crime: é reconhecimento de que não há indícios suficientemente fortes para levar à privação de liberdade, ao pagamento de multas e indemnizações, à censura pública em forma de condenação. Desde logo porque muitos crimes são difíceis de provar – os criminosos geralmente aproveitam-se da falta de testemunhas e de registos de imagem e som para cometerem os crimes. Só nas séries televisivas como The Closer é que Kyra Sedgwick convence os meliantes a confessarem tudo. Acresce que a justiça é administrada por humanos, limitados, com a tendência para disparatar que todos temos (mesmo quando com boas intenções), e suscetíveis a preconceitos e estados de alma.

Mas do que se lê por aí os argumentos pela presunção de inocência de Sócrates são ainda mais salazarentos que esta constatação de que a justiça humana é falível. Segundo nos dizem, enquanto não houver uma sentença judicial transitada em julgado, devemos permanecer todos intimamente convencidos que Sócrates é inocente como um rebento de jasmim a aromatizar um chá verde. Quando, e se, houver condenação pelos tribunais, passaremos então, no momento em que lermos ou ouvirmos tal ansiada notícia, a acreditar convictamente (por ordem do tribunal) que Sócrates é culpado dos crimes por que for condenado.

É isto: temos gente que tem espaço em jornais e televisões, numa democracia liberal em 2017, a afirmar que os indivíduos não podem ajuizar por si próprios da culpabilidade de um ex primeiro-ministro. As convicções de cada um não podem ser por si determinadas, nada disso, temos de ficar à espera que um tribunal nos diga como devemos considerar, na nossa consciência, Sócrates – inocente ou culpado. Vade retro conceito demoníaco de formar opinião em regime de livre iniciativa. O estado ensina-lhe generosamente em que acreditar.’

O texto completo está aqui.

Portugal, o país onde não podemos escrever livros

O meu texto de ontem no Observador.

‘Ontem quando escrevia este texto o país estava calmo, mas aposto que hoje existem, pelo menos, três bairros barricados em Lisboa. Nem imagino o atroz sofrimento da esquerda nacional por tão hedionda traição. Caso a PSP não tenha pensado atempadamente (o que é imperdoável e justifica por si só uma chamada da ministra Urbano ao parlamento) em vedar o acesso ao Tejo ao longo de toda a zona ribeirinha lisboeta, que o faça a correr, que eu temo um colapso na vontade de viver dos militantes da esquerda nacional e tentativas de suicídio em massa. Há que evitar um auto genocídio, senhores guardas.

Falo de quê? Bem, caro leitor, olhe à sua volta. Vai sair uma biografia de Jorge Sampaio nos anos da sua presidência, com colaboração do ex Presidente. Estou certa que as muito numerosas alminhas sensíveis que gritaram pela falta de elegância de Cavaco Silva por escrever as suas memórias do seu tempo de coabitação com Sócrates, pelo inimaginável atentado à privacidade (risos abundantes) das conversas entre um PR e um pm, essas alminhas sensíveis, digo eu, que andaram a fazer figuras tristes nas televisões, rádios e jornais, estão em agonias pela traição de Jorge Sampaio. E neste momento ou correm para as zonas ribeirinhas das cidades portuguesas para se desgraçarem ou estão em casa debaixo dos cobertores e encharcados em antidepressivos.

É que, pelo que leio, Jorge Sampaio conta conversas efetivamente privadas, sobre assuntos da sua candidatura, com o líder do partido por que queria ser apoiado. Estou à espera do pior dos paladinos da defesa do direito à privacidade – é como quem diz, dos maluquinhos que argumentam que os contactos entre um ministro e um particular, versando uma empresa pública e a futura relação da empresa com o dito particular, são privados e, como tal, fora do escrutínio democrático dos media e dos representantes dos eleitores. (Não são.)’

O resto está aqui.

Um Presidente perigoso

(O meu artigo de hoje no Jornal Económico)

Recentemente, o Presidente da República achou por bem comentar publicamente o facto de muito boa gente achar que ele faz comentários públicos em excesso. Suspeito que não se apercebeu do carácter contraproducente da iniciativa, como aliás raramente se apercebe do que quer que seja que esteja para além da distância que o separa de um espelho.

Disse o Presidente que é “muito acusado de falar vezes demais”, mas que a crítica não faz sentido, porque “este é um tempo diferente” daquele em que outros presidentes tinham outro tipo de presença mediática, e agora é necessário dar resposta à “aceleração” em que vivemos e a que o nosso cérebro “se está a ajustar”. É por essa razão, e não por uma qualquer egomania, incontinência verbal ou saudades dos estúdios da TVI, que Marcelo alega estar permanentemente a pronunciar-se sobre tudo e mais alguma coisa, ou a distribuir abraços e beijinhos por toda e qualquer velhinha que tenha o azar de se cruzar com ele e uma equipa de reportagem televisiva.

Algumas almas generosas e benevolentes têm interpretado esta “estratégica mediática” do Presidente como uma tentativa de conquistar uma popularidade quase consensual e acima das habituais divisões partidárias, para que quando uma tempestade se abater sobre o país, ele a possa usar para arrumar a casa. Uns acham que ele será bem-sucedido, outros duvidam, mas todos concordam quanto à motivação de Marcelo. Sobrestimam o homem. A única motivação do Presidente é o seu desejo de adoração pública. Por isso tudo faz para que todos os seus gestos agradem ao máximo número de pessoas e desagradem o menos possível aos que se possam sentir ofendidos com o que diz ou faz. A proximidade ao Governo não se deve a um qualquer desejo de promover Costa ou afastar Passos Coelho da liderança do PSD, mas apenas ao propósito de agradar ao sentimento popular contra as “divisões partidárias”. O sermão a Centeno surgiu quando a sua gestão do “caso CGD” se tornou tóxica na opinião pública. As constantes referências a “boas notícias” que na realidade estão longe de o ser (como os juros que o país paga pelos empréstimos que contrai, ou o rating da Fitch) visam afastar da cabeça dos portugueses todo e qualquer motivo para se preocuparem com a intervenção política de Marcelo para além dos tão propalados (pelo próprio e por uma comunicação social sempre pronta a comer e a regurgitar a propaganda que lhe põe no prato) “afectos”, que não passam, no fundo, de uma afectação.

Como qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe, a coisa acabará mal para Marcelo. Ele ocupa um cargo político, e em política – uma actividade em que cada escolha tem custos e, portanto, desagrada forçosamente a alguém – é impossível manter para sempre a aura imaculada que Marcelo vai tentando ostentar. Mas se tudo se ficasse pela desgraça de Marcelo, não haveria grande problema. O mal está em que o Presidente, ao se pronunciar sobre tudo, não se distancia de nada, e assim não só garante que será pessoalmente responsabilizado quando uma nova crise nos vier bater à porta, como também que arrastará consigo a credibilidade do resto do sistema político (o “caso CGD” é um bom exemplo da promiscuidade entre Belém e São Bento cultivada pelo Presidente). Claro que ninguém verterá lágrimas por este último, mas o problema está em que ninguém sabe o que vem a seguir. É por isso que Marcelo e a sua presidência são um perigo para este pobre país.

Os ateus-carrapato

O meu texto da semana passada no Observador. Esta semana duplamente pertinente.

‘Nem todos os ateus são carrapatos, claro. A maioria são pessoas normais que vivem a sua vida sem incomodar os outros em excesso. Não fazem da descrença na divindade uma batalha de vida, não escarnecem dos crédulos obscurantistas que têm fé, não esbugalham os olhos transidos de fúria de cada vez que referem a Igreja Católica. São pessoas com quem se pode ter (e frequentemente tem) conversas bem pertinentes sobre espiritualidade e religião. No meu caso (de católica), tenho mais valores e pontos de vista em comum com a maioria dos meus amigos ateus do que com os católicos conservadores fundamentalistas.

Mas há ateus-carrapato, consideravelmente diferentes das pessoas ateias normais minding their own businesses. Caracterizam-se, grosso modo, pelo ódio de morte à religião católica e pela irracionalidade absoluta e agressiva de cada vez que um católico se expressa publicamente – onde estão as purgas nos jornais e nas televisões quando precisamos delas?! Se por acaso quem se expressa publicamente é um padre, o transtorno é tal que ficamos em cuidados se algum destes carrapatos não vai para casa auto mutilar-se. Qualquer dinheiro dos contribuintes que vá parar a uma instituição católica ou de católicos dá-lhes ímpetos de emigrarem – que, infelizmente, não concretizam.

São pessoas suscetíveis. Tal como não conseguem sobreviver com sanidade (e nota-se) sem uma bateria de sessões de psicoterapia de cada vez que ouvem um piropo obsceno na rua, também se ofendem com crimes hediondos como receber desejos de um ‘santo natal’. (Que género de psicopata deseja um ‘santo natal’ a uma pessoa de religião desconhecida?!)’

O resto do texto está aqui.

Então votos de boa administração Trump

O meu texto de hoje no Observador. Porque, caros amigos liberais, o problema de Trump não é só a defesa do protecionismo. Nem, sequer, tratar-se de um apalpador compulsivo. (Ainda que qualquer das duas chegue e sobre para repelir eventuais apoios a Trump.) O maior problema é ser um autoritário, muito poderoso, que não admite limites ou o simples escrutínio à sua ação – e que, podendo (e quem pode conter Trump não está com vontade disso), vai deteriorar a democracia americana de uma forma talvez irreparável. As boas instituições não estão imunes aos humanos viciados, como bem nos ensina a História.

‘Entretanto, no meio de tudo isto, temos Trump mandando o seu press secretary mentir garantindo que teve a MAIOR multidão de sempre a assistir a uma tomada de posse. Ponto final. Além das divertidas tendências para o culto da personalidade – Trump tem mais gente a vê-lo porque é o mais arrebatador político desde que o poder centralizado do estado surgiu na noite dos tempos, como bem nos informam os superlativos que o POTUS usa sobre si próprio e as suas habilidades – há o mote que foi dado à presidência: mentir quando os factos não confirmam a estonteante maravilha que é Trump. Os funcionários do irmão americano do INE bem podem começar a estudar métodos de inventar estatísticas, caso a realidade tenha a falta de senso de não brindar Trump com o MAIOR crescimento económico desde Adam Smith, ponto final.

Trump no seu discurso fez promessas sensatas e cumpríveis como (cito livremente) exterminar os terroristas e acabar em definitivo com o crime. Declarou o dia da sua tomada de posse um Dia de Devoção Patriótica (façamos uma genuflexão) com ecos da Primeira Guerra Mundial. Inventa que só perdeu o voto popular para Hillary Clinton (por quase 3 milhões de votos) porque imigrantes ilegais lhe roubaram a eleição. Mantém a recusa de mostrar a sua declaração de impostos (algo que até na nossa democracia de pantomina se faz) impossibilitando, assim, os americanos de escrutinarem as suas atividades económicas e o seu património. Garantiu ser uma contradição nos termos um presidente com conflitos de interesses. O prestável partido republicano (aquele com que os crédulos contam para limitar os disparates trumpistas) já tentou, de resto, emprateleirar um departamento de vigilância independente para as questões de ética no Congresso. Foi só parado pela fúria popular; até Trump teve de reprovar a pressa. […]

Um presidente megalómano propenso a mentir, fazer negócios que ninguém poderá avaliar e comprar uma guerra para distrair os seus detratores e energizar os indefetíveis. Uma primeira dama oficiosa, influente, com alma de feirante desonesta. Uns apaniguados obedientes que não recusam mentir. Um partido, com maioria nas duas câmaras do Congresso, que se vendeu e renega o que sempre promoveu (o comércio livre, por exemplo) para alimentar o projeto de poder próprio de Trump. Não, não: não é nenhum bombardeamento à democracia liberal como a conhecemos. Nem nunca houve na história instituições que soçobraram devido a homens viciosos que as usaram e desacreditaram. Só pode correr bem.

Mas não esquecer: o perigo real são os manifestantes contra Trump. Não têm poder para ordenar ataques com drones, ao contrário do seu alvo, mas o que interessa? E as maldosas fake news – que são todas as que expõem Trump. Mas especialmente tóxicas são as desavergonhadas das mais de 3 milhões de mulheres que se manifestaram pacificamente nos Estados Unidos. Deixo-vos um bom plano: fingir que estas manifestações não tiveram números impressionantes, nem são importantes, e exibir só as maluquinhas (existem sempre) que lá se passearam. Que tenham mão pesada para estas aleivosas que não descansam na perseguição (juro que li isto) a um pobre homem que acaba de ser eleito.’

O texto completo está aqui.

Donald Trump e “A Era da Desmiogarquia”

 

Um texto meu no site britânico CapX:

“Sullivan’s words might sound overly-dramatic, but there’s some validity to them. Not in the sense that America’s first orange president will become a true tyrant, but that his election does say something about the predicament of the American Republic. It is a symptom of the American democracy’s degeneration into a desmiogarchy – the government of the shackled, of those in bounds.

This degeneration has been a feature of European politics for several years now. All over the continent (Austria, Poland, Sweden, Denmark, Portugal), an increasing number of voters have transferred their support from mainstream, “centrist” parties to extremist, populist ones, or have elected not to participate in the democratic process at all. The pattern will likely be repeated in future elections in the continent, whether in Germany, Italy or most particularly in France.

At the root of this “desmiogarchization” of European democracies lies the exponential growth of the state. Since the turn of the century, across the continent, public spending has soared as a share of national income – from 51.6 per cent in 2000 to 55.9 per cent in 2012 in France; from 45.9 per cent to 49 per cent in Italy; from 41.6 per cent to 46.9 per cent in Portugal.

(…)in the end, these welfare states created a series of problems that seem difficult to overcome. They’re ineffective: they respond not to the needs of those who use them, but to the bureaucratic goals of political decision-makers. They’re unsustainable: there is an ever smaller number of workers paying for an ever-growing number of beneficiaries. And they’re unfair: because they try to provide for those who need it and those who don’t, they end up giving too much to those who don’t need it and not enough to those who do.

On the one hand, the inefficiency of these services feeds the electorate’s high – and growing – level of dissatisfaction with governments and politicians. On the other, European electorates seem pretty reluctant to give their support to any reform that might mean they would have to give up some of the things they take for granted.

The combination is lethal: most voters make their electoral choices on the basis of who they believe will be capable of keeping things as they are, but at the same time, those voters who want to keep the statist status quo intact grow unhappy with the practical results of that same statism. So voters blame the traditional governing parties for not being able to give them the statism of plenty they long for.”

O resto pode ser lido aqui.

Best of

Na sequência do fim de ciclo na minha colaboração regular com o Observador, pareceu-me oportuno registar os 10 artigos que mais partilhas tiveram. Aqui fica a lista:

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Mário Soares da discórdia

Um texto meu na Folha de São Paulo, sobre as opiniões que se formaram sobre Soares pela minha geração e querubins ainda mais novos. Um amuse-bouche:

‘Algumas pessoas em Portugal estão por estes dias espantadas pela ausência – gritante e ostensiva – do povo comum português nas cerimónias fúnebres de Mário Soares. Houve funeral de estado cuidadosamente preparado e executado – e bonito. Os políticos louvaram em abundância Soares. Os jornalistas lamentaram-se como se tivesse morrido o gatinho preferido. As televisões e jornais esqueceram que existia resto do mundo. A população? Não quis saber.’-

Aqui.

Uber: partilha ou rent-seeking?

O meu artigo de hoje no Observador: Uber: economia de partilha ou rentismo?

Combater um paradigma político de economia extractiva assente em múltiplos processos de rent-seeking exige, infelizmente, bastante mais do que novas plataformas tecnológicas e slogans atractivos.