Mário Soares da discórdia

Um texto meu na Folha de São Paulo, sobre as opiniões que se formaram sobre Soares pela minha geração e querubins ainda mais novos. Um amuse-bouche:

‘Algumas pessoas em Portugal estão por estes dias espantadas pela ausência – gritante e ostensiva – do povo comum português nas cerimónias fúnebres de Mário Soares. Houve funeral de estado cuidadosamente preparado e executado – e bonito. Os políticos louvaram em abundância Soares. Os jornalistas lamentaram-se como se tivesse morrido o gatinho preferido. As televisões e jornais esqueceram que existia resto do mundo. A população? Não quis saber.’-

Aqui.

Uber: partilha ou rent-seeking?

O meu artigo de hoje no Observador: Uber: economia de partilha ou rentismo?

Combater um paradigma político de economia extractiva assente em múltiplos processos de rent-seeking exige, infelizmente, bastante mais do que novas plataformas tecnológicas e slogans atractivos.

A minha mãe não faz anos todos os dias

Como nem todos os dias são festa, o meu desejo político para 2017 limita-se a que, aos com discernimento, lhes seja permitido não contrair mais dívida dos outros; consigam ser responsáveis pelos seus actos, sem que isso seja considerado egoísmo, mas mera justiça. Já seria muito. Para muitos até demais. O meu artigo no Jornal Económico.

A minha mãe não faz anos todos os dias

A Europa enfrenta três ameaças em 2017: racismo, proteccionismo e populismo. Três que têm origem numa só: dívida. Ou encarado de outra forma, falta de capital, de dinheiro para atender ao comércio que não pára de crescer num mundo globalizado. É o mercantilismo de outrora, quando se desvalorizava moeda para incentivar a produção nacional, que regressa agora entre os que querem uma Europa diferente.

Enquanto a acumulação de dívida não criou problemas de maior, o projecto europeu foi-se alargando e aprofundando sem entraves. Tirando um ou outro aviso, como os de Margaret Thatcher, que no célebre discurso de Bruges deu a conhecer a sua visão da Europa que precavia os povos europeus dos problemas que vivemos agora, ninguém se preocupou muito com o futuro. A Europa andava e isso era o que interessava.

A moeda única europeia, que tantos entenderam como fulcral para a Europa e que hoje consideram um entrave às suas políticas, é o principal alvo das três ameaças acima referidas. Com o euro, moeda que pressupõe políticas orçamentais rigorosas, o capital, o dinheiro, só surge com poupança, investimento e aquele risco em que apenas os prudentes sabem incorrer. Prudentes, porque comedidos; comedidos, porque é o seu dinheiro que está em causa.

É esta ligação entre o dinheiro e quem investe que se perde quando os Estados entram na equação. É desta forma que surge a dívida que não se paga, se acumula e nos afoga anos mais tarde. E qual é a solução que nos é apresentada? Não a difícil que é pagar, mas a fácil que é ignorar. Quem ignora segue em frente, embora com um preço: é preciso justificar o não querer saber. Como? Com a imigração, a globalização e o ataque às instituições. A livre circulação de pessoas, de bens, de capitais, e as organizações que as permitem, combatem-se com racismo, proteccionismo e populismo. As ameaças que atacam a Europa e que nasceram da dívida que, há muitos anos, a mina.

Por que motivo é que a visão europeia de Thatcher foi ignorada? Porque era demasiado pragmática. Porque antevia problemas que poucos quiseram ver quando tudo corria bem. E porque o pragmatismo na política obriga a explicar devidamente as escolhas que, quando feitas com o coração se justificam por si mesmas. O tal populismo. Foi assim em 1988, em 1998, 2008, 2016 e será em 2017. Para quê doutra forma se há um caminho mais fácil?

É assim em Portugal e na Europa. Em todo o lado. Não tenhamos, pois, ilusões: 2017 não será o ano em que deixamos o passado lá atrás. A resposta é chutar para a frente. Que não funciona é tão certo como a minha mãe não fazer anos todos os dias. Mas a maioria quer e é o que vamos ter. Assim, o meu desejo limita-se a que, aos com discernimento, lhes seja permitido não contrair mais dívida dos outros; consigam ser responsáveis pelos seus actos, sem que isso seja considerado egoísmo, mas mera justiça. Já seria muito. Para muitos até demais.

As feiras de gado e a concertação social

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O meu artigo desta semana no Observador: Em defesa de Augusto Santos Silva (e das feiras de gado).

As feiras de gado – à semelhança das feiras em geral – têm também a seu favor o facto de assentarem em transacções voluntárias. A exigência do livre consentimento das partes envolvidas constitui aliás uma muito melhor garantia dos efeitos socialmente benéficos das trocas do que a realocação de recursos por via centralizada com base na tomada de decisões colectivas na esfera política. É certo que, como em outras actividades, também no comércio há negociantes desonestos. E que, em casos nos quais haja fraude, má fé ou outras práticas não éticas os benefícios do comércio ficam em causa.

Mas, como já há alguns séculos atrás assinalava o escolástico Domingo de Soto, devemos ter presente que os vícios dos comerciantes não são próprios do comércio, mas das pessoas que o exercem. Nessas situações é importante que o sistema judicial actue de forma célere e eficaz e também que os mecanismos de sanção reputacional sejam potenciados ao máximo para penalizar os maus comerciantes. Em qualquer caso, é geralmente menos difícil penalizar e responsabilizar os comerciantes desonestos do que os políticos desonestos. Também por isso não seria necessariamente mau que a concertação social e outros processos de decisão colectiva por via política fossem mais parecidos com feiras de gado.

Estamos no grau zero, certo?

O meu texto de ontem no Observador.

‘Durante horas pensei que o lamento oficial de Marcelo Rebelo de Sousa pela morte de George Michael era uma piada das redes sociais à hiperatividade presidencial a que MRS nos vem habituando. Nem acreditei quando li as notícias. Tive de ir ao site da Presidência da República confirmar que a mais recente exuberância pesarosa de MRS existia mesmo. Pelo que, queridos concidadãos, está na hora de assumirmos mais esta cruz nacional (e peço perdão por trazer este travo quaresmal para o tempo natalício): temos um Presidente que perde tempo a emitir lamentos oficiais pela morte de estrelas pop estrangeiras.

Enquanto aguardamos a publicação no site da Presidência da nota congratulatória de Marcelo Rebelo de Sousa pelo regresso das andorinhas na primavera (que as andorinhas não são menos que George Michael), ou talvez mesmo um comentário oficial do Presidente sobre a problemática das notícias falsas, devemos, quem sabe, perder uns momentos e dirigir a uma qualquer divindade do nosso agrado uma oração pedindo uma mordaça para Marcelo Rebelo de Sousa (já que o bom senso e o sentido das proporções não são suficientes para o moderar).’

O resto do texto está aqui.

O lobby LGBT como ameaça à liberdade (2)

Foi com especial satisfação que constatei que o meu artigo desta semana no Observador (Pela liberdade, resistir ao lobby LGBT) suscitou grande interesse tendo sido um dos mais lidos de todo o site nos últimos dias e atingido cerca de 2.000 partilhas nas redes sociais.

Mais do que o (limitado) mérito pessoal do autor, creio que este sucesso evidencia que tanto o tema como a abordagem suscitam interesse por parte de muitos leitores, ainda que as patrulhas do politicamente correcto prefiram silenciar sempre que possível as vozes críticas e não se coíbam de usar todos os meios que têm à sua disposição, incluindo apelos à censura, insultos e ameaças de vária ordem.

O lobby LGBT como ameaça à liberdade

O meu artigo desta semana no Observador: Pela liberdade, resistir ao lobby LGBT.

Embora o comunismo – pelo menos na sua versão “científica” clássica – se encontre hoje quase completamente desacreditado, o testemunho da guerra contra a família passou nos nossos dias para o lobby LGBT e para os defensores da agenda radical “do género”. Tal como aconteceu múltiplas vezes no passado, importa que todos quantos valorizam a preservação e continuidade da civilização europeia e ocidental e da sua ampla matriz de liberdades se posicionem solidamente do lado certo.

Votos de um Santo Natal para todos os leitores.

As liberdades que não são de esquerda

O meu texto desta semana no Observador.

‘É oficial: pelos lados da geringonça cortaram as últimas amarras que os ligavam à realidade. É o que qualquer pessoa sensata conclui da promessa de Pedro Marques do novo aeroporto complementar no Montijo para 2019. Os tempos dessa entrada cimeira da Declaração Universal dos Direitos do Homem, o ‘direito ao TGV’, exigido pelos lunáticos da Juventude Socialista em 2009, estão de volta.

Claro que em 2019 dificilmente haverá aeroporto. A razão é simples e bruta: não há dinheiro. Mas, em boa verdade, o que interessa ao PS também não é a construção do aeroporto. É muito mais útil enganar os tolos com a retórica do investimento; encher jornais e noticiários com projetos grandiosos que o magnífico governo apadrinha (os jornalistas assim sempre se esquecem de referir os números risíveis do investimento que, de facto, temos tido e que mostram que com este desgoverno ninguém arrisca investir); oferecer uma cenoura coberta de chocolate, à laia de esperança, aos eleitores dos municípios da zona do futuro-barra-imaginário aeroporto.

O PS sempre foi um partido da pós-verdade, muito antes do conceito estar na moda. Lembramo-nos das promessas de Centeno e Costa para o crescimento económico, não lembramos? Pelo que dizer que se quer construir o aeroporto, para o PS, é muito mais útil que construir mesmo o aeroporto. Quanto menos o pretenderem construir, mais proclamações enfáticas de amor assolapado pelo novo aeroporto deveremos ouvir. Vamos ser todos endoutrinados na bala de prata (mais uma, já houve tantas) que é o novo aeroporto para o desenvolvimento português. Quem não amar o projeto do novo aeroporto acima de todas as coisas, não é patriota. António Costa, naquela sua peculiar maneira de esmigalhar a língua portuguesa, ‘incontrará’ maneira de argumentar que é ‘inconxional’ não construir o novo aeroporto.’

O resto do texto está aqui.

O ano em que ninguém quis saber

O meu artigo no ‘i’ sobre o ano português que termina.

O ano em que ninguém quis saber

O ano está a terminar e é hora dos balanços. Por todo o lado leio que o país está excelente. O Público, num especial sobre 2016, descreve-o como o ano dos êxitos improváveis e pergunta se a auto-estima voltou. Até a novela do aeroporto regressou à baila com o Expresso a noticiar que a construção de um  novo pode avançar já em 2019. Isto depois de sabermos que já há planos para a expansão do Metro de Lisboa.

Algo de muito estranho se passou este ano e que poderá explicar como é que saímos da depressão profunda da troika e chegámos à euforia contagiante da geringonça. Mas o quê?  É certo que o BCE compra dívida pública portuguesa, mantendo o país a soro. Mas e depois? Ninguém se pergunta como vai ser quando essa ajuda terminar? Ninguém se preocupa?

Lembram-se daquelas reformas que durante anos ouvimos dizer que eram indispensáveis? Agora já não não precisas para nada. Afinal o país até está melhor sem estas. Até porque essas reformas implicavam mudanças de hábitos e os portugueses estão habituados a não mudar as suas práticas. Como governante hábil que é António Costa percebeu isso e deu-nos isso.

Daqui a muito tempo os portugueses do futuro estudarão estes anos para conhecer Portugal. Para se conhecerem a eles próprios. Um país que fecha os olhos porque dessa forma não se passa nada. Não querer saber é um remédio. E quando o Carmo e a Trindade caem pergunta-se porque é que ninguém avisou. Não é verdade. Os avisos estão aí. O problema é que ninguém quer mesmo saber.

A mais recente vítima do marxismo

O meu texto desta semana no Observador.

‘O Bartertown Diner era um restaurante marxista. Nas suas paredes exibia garbosamente imagens de Che Guevara e Mao Zedong. No seu facebook, em vez de se promoverem as novas iguarias, escreviam-se tiradas doutrinárias marxistas. Apesar de existir um proprietário, não havia essa mania capitalista dos chefes no restaurante, todos mandavam o mesmo e as decisões eram tomadas coletivamente. Toda a gente ganhava igualmente e implementou-se uma política de não aceitação de gorjetas. Os empregados tinham de pertencer a um sindicato. O que poderia correr mal?

Vejamos. Os clientes não podiam gratificar por um bom serviço, pelo que as refeições eram dispendiosas para compensar a perda das gorjetas. Como não havia incentivo para o tal bom serviço que poderia merecer a gorjeta, uma sandwich demorava quarenta minutos a entregar. Os horários eram decididos pelo coletivo, de acordo com a conveniência da força proletária; em resultado desta política orientada para o prestador de serviços, o restaurante abria só quando era conveniente a quem lá trabalhava, em vez de quando os potenciais clientes necessitavam de alimentação. No Reddit alguém aventou a possibilidade de ser indigesto partilhar um repasto com os assassinos em série representados nas paredes.’

O resto do texto está aqui.

XX Congresso do PCP: entre a ortodoxia e a “geringonça”

Além do meu habitual artigo semanal, tive muito gosto em contribuir para o especial do Observador sobre o XX Congresso do PCP, que inclui também análises de Miguel Pinheiro, José Milhazes, Helena Matos, Alexandre Homem Cristo e Vítor Matos. Aqui fica o meu contributo: PCP: entre a ortodoxia e a “geringonça”.

O PCP procura persuadir o eleitorado mais à esquerda de que o apoio ao governo do PS não é bem um apoio, um pouco como Bill Clinton afirmava há uns anos atrás que “fumou, mas não inalou”. É a esta luz que devem ser entendidas as constantes referências e críticas dirigidas ao PSD e CDS – mais de um ano depois de Passos Coelho ter deixado de ser primeiro-ministro. O papão de um “governo de direita” continua a ser a única forma de o PCP justificar o seu apoio ao governo do PS em contradição com quase tudo o que defendeu durante anos. Mas esta é uma estratégia retórica que pode estar a chegar ao final do prazo de validade.

Fidel Castro e as ditaduras fofinhas

O meu texto de hoje no Observador.

‘As reações dos políticos foram igualmente repugnantes. Do PCP veio o gozo descarado costumeiro. Jorge Sampaio, essa insignificância política de que não rezaria a história se um dia Cavaco não tivesse perdido umas eleições, deu um testemunho (e porquê, Deus meu, alguém se lembra de pedir um testemunho a Jorge Sampaio?) onde aplaudiu a simpatia do hirsuto Castro, entre outras qualidades adoráveis. Do atual Presidente, que há pouco tempo se fez fotografar sorridente ao lado do tirano, também nada de tragável veio.

Mas o pior chegou na forma dos votos de pesar que o parlamento aprovou pela morte da criatura. E se do PS extremista se espera todos os enlevos com as ditaduras comunistas, já não se perdoa que o PSD tenha escolhido abster-se nesta votação. É por estas e por outras que a suposta direita parlamentar merece todas as geringonças que a atropelem: os eleitores não respeitam quem não se dá ao respeito.

Enfim. Para terminar com uma nota de humor, depois das entranhas revolvidas com as reações portuguesas à morte de um carrasco das Caraíbas, podemos pelo menos reconhecer que ninguém por cá foi tão ridículo como Trudeau – deu azo a uma das hashtags mais divertidas dos últimos tempos –, que produziu um tributo a Fidel Castro que até a canadiana CBC chamou de ‘deliberadamente obtuso’. Parece que Fidel amava de amor profundo o povo cubano (matou e prendeu uns tantos, mas o que interessa isso?) e criou um maravilhoso mundo com boa saúde e educação.

O que é verdade. Quem não aprecia um destino de turismo sexual com oferta de gente muito escolarizada a prostituir-se? Também me lembro do filme Guantanamera, dos idos dos anos 90, onde uma professora universitária e um seu antigo aluno referiam áreas do saber cubanas, utilíssimas em qualquer curso superior, da estirpe de ‘marxismo dialético’ ou ‘socialismo aplicado’. Quem não saliva pela oportunidade de estudar isto?’

O texto com princípio, meio e fim está aqui.

Trumpismo: o bom, o mau e o incerto

O meu artigo desta semana no Observador: Trump: o bom, o mau e o incerto.

Análises à vitória de Trump

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Além do meu artigo semanal, tive muito gosto em contribuir para o especial do Observador de análises rápidas sobre a vitória de Trump, que inclui também textos de Jose Manuel Fernandes, Rui Ramos, Alexandre Homem Cristo, Helena Matos, João Marques de Almeida, e Nuno Garoupa. Aqui fica o meu contributo: Os deploráveis elegeram Trump.

O primeiro passo para compreender e lidar com as consequências da eleição de Trump será não repetir os erros, enviesamento e arrogância com que a sua candidatura e campanha foram analisadas.

Eleições EUA no Observador

Hoje à noite estarei a participar na cobertura que o Observador vai fazer das eleições norte-americanas via liveblog.

Leitura complementar: Eleições americanas n’O Insurgente.

Sem dúvida

Recomendo a leitura da opinião do Alexandre Homem Cristo no Observador, Trump é tão mau quanto Tsipras.

Trump e Tsipras têm o mesmo desprezo pela democracia representativa, pela separação de poderes, pelo pluralismo. Mas não recebem o mesmo tratamento no debate público: um é temido, o outro é amado.

Trump dá mau nome à direita. Não é o único. Há também Marine Le Pen, Nigel Farage e demais hipócritas do Brexit, ou Viktor Órban e restantes nacionalistas do leste e do norte europeu. Mas, hoje, Trump é o ponta-de-lança desta equipa internacional de políticos de direita que, estando na primeira fila do acesso ao poder, se definem como inimigos da globalização e, não raras vezes, das liberdades republicanas – pondo em causa a livre circulação de pessoas e bens, a separação de poderes, a democracia representativa, a promoção do pluralismo e a tolerância social da diferença. No fundo, sacudindo os pilares das repúblicas modernas em que vivemos, aliados em ambição aos que, à esquerda, reprovam o modo de vida ocidental – da Rússia à China, passando pelos novos marxismos europeus (Syriza, Podemos) que vão condicionando a agenda política.

Os EUA não são a Hungria e o que se passa em Washington tende, mais tarde, a acontecer no resto do mundo. Isto devia preocupar-nos, independentemente de quem os americanos elegerem. Sim, a probabilidade de Trump perder é superior à de ganhar as eleições presidenciais desta terça-feira nos EUA. Ainda bem, digo eu – apesar de Hillary Clinton. Mas, mesmo que derrotado, sobreviverão os efeitos da adesão às suas propostas e da difusão das suas provocações. (…)

Narrativa über alles

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Nem só de rasgar de contratos e impostos indiretos se faz o tempo novo. O governo decidiu voltar a inovar, desta vez na apresentação do orçamento. Nesta altura do ano é suposto um governo já ter uma ideia de quanto irá gastar no presente exercício e disponibilizar esses números na proposta de orçamento para o próximo ano. A honestidade, a ética política, e uma coisa de menor importância chamada Lei de Enquadramento Orçamental, exigem que esses números sejam disponibilizados para a discussão na Assembleia da República. No entanto, Mário Centeno só acedeu a disponibilizá-los quando a Comissão Europeia assim o exigiu. As prioridades de Centeno fazem sentido: a Comissão Europeia representa um grupo de credores com dinheiro e poder, enquanto que o parlamento representa um grupo de desvalidos sem soberania a que se dá o nome de povo português. (…)

Podem continuar a ler aqui.

Querida esquerda, nada acaba até estar acabado

O meu texto de ontem no Observador.

‘E o que dá por ‘encerrado’ a geringonça? Escândalos que alguma malvada comunicação social e a sempre aleivosa oposição inventam. Santos Silva deu por encerrado o caso das viagens pagas pela Galp a Rocha Andrade, e agora o BE também já informou que o caso das licenciaturas falsas de um chefe de gabinete do secretário de Estado da Educação está encerrado. E ai de nós se discordarmos. Ainda apanhamos mais umas décimas de impostos sobre os combustíveis se não formos dóceis e obedientes.

Há quem se escandalize pela sobranceria destes encerramentos compulsivos. Neste caso das licenciaturas falsas, por exemplo, pessoas miudinhas (e sem gosto pelas distrações ornitológicas preferidas pela geringonça) podem argumentar que há muito por explicar. Se Nuno Félix foi uma escolha do ministro Tiago Brandão Rodrigues, amigo próximo, independentemente de este saber ou não da mentira da nota biográfica, o ministro não é responsabilizado por escolher (e voltar a escolher) uma pessoa capaz de mentir sobre o seu percurso académico? Já não se avaliam os governantes pela qualidade das pessoas que escolhem recrutar?

Lembrando o motorista – teimariam os tais picuinhas –, não será um ministro politicamente responsável pela rebaldaria, inclusive financeira, de viagens diárias de quatrocentos quilómetros para transportar um chefe de gabinete de casa para o trabalho? Claro que não. Vamos agora submeter a geringonça a esse tipo de escrutínio? Pensam que estão a lidar com um governo de direita?’

O texto todo está aqui.

Uma esquerda que não sente

O meu artigo no Jornal Económico.

Uma esquerda que não sente

O Governo desistiu do crescimento económico. Costa já deve ter percebido que não é possível com despesa elevada e impostos altos. O objectivo, agora, é que o défice agrade Bruxelas e cale o PSD, mesmo que para isso adie pagamentos aos fornecedores, corte nas escolas e nos hospitais. O Governo precisa de chegar às autárquicas com os números a bater certo, mesmo que tudo esteja errado.

Mas o Governo não desistiu do crescimento económico apenas para agradar Bruxelas. Fê-lo também para satisfazer o seu eleitorado. O principal propósito do Estado, nesta legislatura, é pagar salários. Sem salários, nem pensões, não há votos e o Governo cai. E se a economia não cresce, porque descer a despesa implica reduzir salários, é necessário cortar nos serviços. Veja-se o Ministério da Educação, cujo orçamento para 2017 cresce 179,4 milhões de euros, mas as despesas previstas para salários dos professores e funcionários de escolas aumentam 188 milhões. Onde é que se vai buscar a diferença?

Costa está a paralisar o país. Por ora, a maioria está satisfeita porque beneficia dessa estagnação. Mas nenhuma sociedade vive desta forma.

Pouco antes de falecer, Michel Rocard concedeu uma entrevista à Le Point, na qual qualificava a esquerda francesa como a mais retrógrada da Europa. Não se lembrou da portuguesa, mas as críticas feitas a uma aplicam-se à outra. Dizia o ex-primeiro-ministro francês que a esquerda perdeu a cultura económica e o diálogo social. Profundamente marxista, com uma análise racional da produção, a esquerda de hoje quer destruir o capitalismo e desconfia da economia de mercado. Rocard foi um socialista moderado, crítico do arcaísmo de Mitterrand, e intelectualmente próximo de António Guterres, um primeiro-ministro fraco que agora o PS aplaude mas que traiu em 2001, numa altura em que o PS já se encontrava no processo de radicalização que agora presenciamos.

A nova esquerda socialista perdeu a dimensão cultural dos tempos de Rocard. Alicerçada no ódio promove a desconfiança, seja à Europa, seja à Alemanha. É sem qualquer problema que invoca um passado com 70 anos para destruir o que a Europa tanto esforço fez, não para esquecer, mas para não repetir. Amaldiçoa a globalização, esse processo de integração económica iniciado pelos portugueses, que tem tirado da miséria tanta gente por esse mundo fora e que Vargas Llosa, que ainda este mês esteve em Lisboa, qualificou de movimento entusiasta que acabou com o nacionalismo responsável por tantas mortes.

Apostada no consumismo, a esquerda reduziu o Estado social ao pagamento de salários e de pensões, esperando que os que votam em si gastem e reduzam a sua existência a essa satisfação efémera. Esta é uma esquerda que não sente. E como o dinheiro não nasce das árvores, uma massa de gente sem fito na vida estará pronta a pôr-se na mão de meia dúzia de populistas que andam por aí confusos entre governar e mandar bocas.

O clube das mulheres nasty e o clube dos senhorios espoliados

O meu texto de ontem no Observador.

‘O clímax veio no terceiro debate, quando chamou ‘nasty woman’ (‘mulher detestável’) a Hillary. Para Trump e a sua corte de seguidores sexistas, foi uma forma genial de por a contraparte feminina no seu lugar. Como dizia um congressista republicano, ‘às vezes uma senhora precisa que lhe digam que está a ser nasty’. (Não é adorável? Ainda bem que existem estes homens beneméritos e esclarecidos para nos darem ralhetes. Só espero que nenhuma senhora que se cruze com esta pessoa nos próximos tempos não lhe entorne em cima da roupa, por azar, um copo daqueles cafés que os americanos bebem a escaldar. Seria uma grande pena.)

Para o resto do mundo com noções de decência em funcionamento, em geral, e para as mulheres, em particular, o ‘nasty woman’ funcionou como uma declaração de guerra. Além do barulho nos media com o insulto, as mulheres correram para o twitter proclamando-se nasty. Já há há t-shirts à venda e demais parafernália. Porque, de facto, já fomos todas nasty. Não por atos desagradáveis ou imorais, mas pela ousadia de questionarmos homens que não entendem como não somos só produtoras de elogios e salamaleques. Acontece-nos muito. Temos orgulho em ser assim nasty. Tanto que até a Teen Vogue – muito mais afiada do que muitos comentadores masculinos por esse mundo fora, mesmo os que desgostam de Trump, que não estão a perceber a magnitude da repugnância que a criatura gera nas mulheres – sugeriu que o comentário tinha acabado de ganhar a eleição a Hillary.’

O texto todo está aqui.

O embuste orçamental

O meu artigo desta semana no Observador: O embuste orçamental.

A discussão sobre a possível aplicação de condições de recursos é uma que vale a pena ter mas o mais saliente na actual conjuntura é que o mesmo governo que penaliza pensões mínimas aumenta com este Orçamento substancialmente os rendimentos auferidos por uma pequena (mas influente) minoria de pensionistas, em linha aliás com a decisão de eliminar os tectos salariais aplicados pelo anterior governo aos gestores da CGD.

Progressistas pela moral e contra os vícios

O meu texto desta semana no Observador.

‘Vejamos os religiosos do aquecimento global, por exemplo. E em minha defesa – antes que me excomunguem – digo já que sou bastante sovina, e poupada, no que toca a bens isentos de qualidades estéticas como gasolina e eletricidade, e que tenho uma forte paranoia com a reciclagem e reutilização de uns tantos materiais. Mas, lá está, falta-me o fervor religioso.

A incitação para que as populações se abstenham de consumir, um exemplo, costuma mergulhar-me na vontade de praticar vudu contra os detentores de tal opinião. Não (ou sim, mas de maneira diferente) que estejam preocupados ser mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no reino dos céus. Credo, os religiosos ambientalistas não se querem confundir com os religiosos católicos, que esses são ultamontanos e rústicos. Que proponham exatamente o mesmo é um mero pormenor. As motivações são muito mais nobres que essas tretas de não nos deixarmos escravizar pelos bens materiais. Os ecofanáticos defendem que se extermine o consumo (e, de caminho, o bem estar das populações) para poupar os recursos do planeta (estes religiosos nunca leram Malthus) e para não causar poluição com transportes de mercadorias.

Outro tipo de moralista, bem mais perigoso, é o purista sanitário. Pode-se praticar sexo à vontade, felizmente está estabelecido, e uma ou outra consequência para a saúde ou para a vida (uns sopapos do cônjuge enganado, por exemplo) devem ser encarados com bonomia, que as pulsões sexuais são fortes e difíceis de conter.

Mas não há cá complacência com o álcool (já os antigos diziam que era o pai de todos os vícios, e os antigos alguma vez haviam de ter razão), ousar ter a comida bem apaladada com sal (as pessoas puras de corpo e alma não têm de lhe pagar os comprimidos para a tensão arterial) ou beber refrigerantes açucarados (agora que já se verificou que afinal o colesterol e a gordura não causam o apocalipse humano que os médicos prometeram, teve de se encontrar novo inimigo para atormentar as populações e viraram-se para o açúcar, o novo supervilão; até, claro, dentro de uns anos se reconhecer que o açúcar é essencial para um bom desenvolvimento cerebral das crianças, entre outras maravilhas que então o açúcar de súbito conquistará).’

O texto todo está aqui.

Epicamente saloios

O meu texto da semana passada no Observador. Vai só agora porque encalacrei o computador, está a ser por estes dias diligentemente reparado e eu resisto a escrever posts no ipad.

‘A habilidade guterrista para as contas públicas, por exemplo, não está ao alcance de qualquer um. Só mesmo um génio como Guterres consegue espatifar as contas públicas numa conjuntura económica tremendamente favorável. Em meia dúzia de anos, com crescimento económico robusto, situação internacional favorável, receitas fiscais a jorrarem viçosamente para o orçamento de estado e juros da dívida pública a caírem com a adesão ao euro, Guterres teve o mérito de não só não cumprir nenhum dos critérios orçamentais do pacto de estabilidade e crescimento, como ainda foi virtuoso a ponto de nos conduzir a uma situação de défices excessivos. Tal capacidade destrutiva é, de facto, um talento escasso mesmo no político típico português.

Os amigos de Guterres. Temos a agradecer ao atual secretário geral da ONU ter trazido para a política estadistas gigantes da estirpe de Sócrates (tão polivalente que é agora também intelectual de gabarito prestes a lançar o segundo livro) (ok, podem tirar uns momentos para gargalhadas) e de Armando Vara (que na CGD e no BCP emulou a arte de Guterres para as contas públicas).’

O texto todo está aqui.

Bloqueados

O meu artigo no especial do Jornal Económico sobre um orçamento em que o governo se preocupa mais em angariar receitas que a prestar serviços. É tanta a necessidade de receita que onde quer que haja creatividade, lucro, riqueza, o Estado intervém. Explicando-se com  a distribuição de riqueza, justifica-se com a inveja que alimenta. Portugal é hoje um país bloqueado.

Bloqueados

Tanto o Conselho de Finanças Públicas como o FMI consideram que Portugal terá, em 2016, um défice orçamental superior ao da meta inicial de 2,2%. Algo natural quando a economia não cresceu como esperado porque o governo reverteu as principais reformas da anterior legislatura. Mesmo assim, Costa mantém uma meta ambiciosa para o défice do próximo ano: 1,6% do PIB. O objectivo é agradar a Bruxelas mesmo que ninguém acredite no feito. Na verdade, consegui-lo obriga a um esforço maior que o praticado em 2016. Improvável com políticas que punem que tem dinheiro, poupa, investe e cria riqueza.

É sabendo que o OE para 2016 falhou que devemos analisar o orçamento para 2017. Porquê? Porque a estratégia é a mesma: reduzir ligeiramente os impostos directos ao mesmo tempo que se aumentam os indirectos. No fundo, o Governo não só assume o enorme aumento de impostos de Vítor Gaspar, que não reverteu, como cria outros, como o ‘fat tax’ e novos impostos sobre o imobiliário. A necessidade urgente de receita vai levar o Estado a punir os que poupam e os que, em liberdade, decidem o que comer, se fazem ou não desporto e que cuidados têm com a sua saúde. A busca do homem perfeito pode ser a solução final do socialismo para o défice das contas públicas.

Aquando da crise 1983-85, o Bloco Central utilizou a inflação para se defender da dureza da austeridade: aumentavam-se os salários e as pessoas ficavam satisfeitas porque não se apercebiam que o aumento dos preços lhes retirava o que ganhavam a mais. Agora, como a inflação é baixa, o Governo sobe os rendimentos das pessoas enquanto aumenta os impostos indirectos, o preço dos bens, anulando o dinheiro a mais que lhes é creditado todos os meses no banco. O rendimento disponível será maior, mas serve para menos. Podemos chamar-lhe o que quisermos, mas não passa de hipocrisia.

Entretanto, o Governo volta a apostar no investimento público, um dos grandes motores da dívida. O objetivo é gerar um impulso automático em certas actividades próximas do Estado, mas que desincentiva outras mais independentes do poder, logo mais criativas e produtivas. Precisamente as que mais precisamos mas que não existirão em 2017. E sem este tipo de investimento privado o país não se desenvolve. A médio prazo a receita cai, a despesa sobe e, com esta, o défice e a dívida.

O país vive num bloqueio cada vez mais apertado, a que o Governo e a maioria que o sustenta se agarram com todas as suas forças. Mas, se economicamente as perspectivas são sombrias, politicamente são piores. O Governo tenta garantir votos com o dinheiro dos contribuintes e à custa de quem produz riqueza. Ao mesmo tempo ilude, com a devolução dos rendimentos, a maioria dos que o apoiam. Ora, se uma democracia não impede que a vontade da maioria se torne numa tirania, que futuro podemos esperar quando os cidadãos são convencidos, não através da verdade, mas de ilusões e de afectos?

Mais difícil do que ajustar parâmetros numa folha de Excel

O meu artigo desta semana no Observador: OE 2017: de mal a pior

Esta proposta de Orçamento premeia quem vive mais próximo do Estado e comunica de forma clara e inequívoca que Portugal não está interessado em produtores e acumuladores de riqueza.

Sobre o Orçamento de Estado, às 19:30 no Porto Canal

Mais logo, por volta das 19:30, estarei a comentar o OE 2017 no Porto Canal.

Mariana Mortágua e a bloquização do PS

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O meu artigo desta semana no Observador: A bloquização do PS. Por André Azevedo Alves.

O ataque de Mariana Mortágua contra a poupança esconde por isso um outro julgamento: o de que a generalidade da actividade económica no contexto dum sistema capitalista é intrinsecamente ilegítima. Só isso justifica a condenação generalizada da acumulação da riqueza. Juntem-se as declarações de Mortágua à afirmação por parte de Catarina Martins de que comprar casa não é investimento e aos planos para dar acesso ao fisco aos dados de quem tenha contas bancárias que superem os 50 mil euros e ficamos com uma ideia mais clara das intenções e objectivos da “geringonça” neste domínio.

Adenda: Só depois de publicar o post me apercebi que o Miguel Noronha muito gentilmente já o havia aqui linkado. Manterei ainda assim este post por causa da imagem que o ilustra.

Cleptomaníacos unidos, coligação de governo ao seu dispor

O meu texto de hoje no Observador.

‘Como se não fosse tudo muito claro, o tuit a seguir clarificou. Mariana Mortágua não quer que o número de milionários aumente. Percebem? O bloco e o PS não querem cá ricos neste país. Xô. Era o que faltava. Há governos que têm como objetivo não deixar que o número de pobres aumente, preferencialmente que o número de pobres diminua. O BE e o PS têm como finalidade da governação algo muito mais à frente: impedir que as pessoas enriqueçam.

Portanto, querido concidadão, gosta daquele conceito que é a ascensão social? Pois emigre, que por cá não queremos gente com desejos imorais de subir na vida. Nasceu pobre? Fique lá, e agradeça as esmolas que BE e PS querem dar para lhe comprar o voto. É remediado? Pois dê-se por satisfeito e fique quieto, nada de estudar nem de mandar os filhos para a universidade a ver se conseguem empregos mais bem pagos que os dos seus pais.

Não é uma maravilha de desígnio para um país? Sugiro que nas próximas eleições os cartazes do PS apregoem ‘não queremos gente rica’ e ‘imobilidade social sempre’.

Mas atenção: isto melhora. Entrou em cena Catarina Martins. E se no BE uma doutoranda em Economia tem este nível teórico indigente, imagine a atriz e encenadora. Catarina não desiludiu: ‘Comprar casa não é investimento. Investimento é quando se cria valor. Investimento é quando se criam postos de trabalho’.

Uau. Pela mesma ordem de ideias, uma empresa que compre um escritório mais espaçoso, mais bem situado e mais confortável – em vez de deixar os trabalhadores num pardieiro – também não está a investir, já que não construiu nada. E, gente que trabalha em imobiliárias, estão ver? O vosso trabalho não cria valor nem serve para nada. Embrulhem. É óbvio: comprar uma casa com melhores condições onde a nossa família viva bem, perto de escolas boas onde os nossos filhos possam ter sucesso académico, que não implique perder excessivo tempo no transporte para o trabalho, vê-se logo que não é um ‘investimento’. Não estamos a investir na qualidade de vida familiar. Nem na melhoria de perspetivas dos nossos filhos. Nem a adquirir um valor que os nossos descendentes um dia herdarão. Nada disso. Parabéns, Catarina.’

O texto completo está aqui.

A ASAE ataca de novo

O meu texto desta semana no Observador.

‘Um dos melhores efeitos secundários do governo da coligação PSD-CDS foi a ASAE com trela curta. Depois veio o tempo novo e à esquerda gostam do mundo arrumado, catalogado, com muitos fiscais disto e daquilo a atormentarem as empresas respeitáveis. Donde: a ASAE anda satisfeita a mostrar de novo os caninos aguçados, e até já faz operações na comunicação social queixando-se de necessitar de maior orçamento.

Pelo que sugiro dissecar as atividades da ASAE. E encontramos as seguintes práticas apocalípticas dos privados que a ASAE, num comportamento reminiscente de Tintin a desmascarar traficantes de droga, nos livrou. Há a venda especulativa (não desmaiem) de bilhetes para jogo de futebol. Apesar de não se saber de gangs apontando armas de fogo a obrigar à compra, e de aparentemente os compradores terem pago o valor que atribuíam a verem o jogo dentro do estádio, a ASAE gastou o dinheiro dos contribuintes a impedir valdevinos de venderem bens que eram sua propriedade (os bilhetes) a outros que os queriam comprar.

Numa inspeção a bombas de gasolina, situações mais destrutivas que um atentado terrorista (atos para os quais a ASAE também tem formação) foram encontradas. Houve casos de ‘incumprimento de requisitos gerais e específicos de higiene relativos aos géneros alimentícios’. Não se diz que os géneros alimentícios estavam estragados, e não deixariam de o referir para fins propagandísticos, pelo que presumimos que a falta de cumprimento de ‘requisitos gerais e específicos’ não impediu os ‘géneros alimentícios’ de se manterem em bom estado.

Mas os comportamentos verdadeiramente diabólicos estancados pela ASAE vêm a seguir: ‘desrespeito pelas regras de anúncio de venda com redução de preços e a violação dos deveres gerais da entidade exploradora do estabelecimento de restauração e bebidas’. Uau, a ASAE protegeu-nos do desrespeito pelas regras de anúncio de vendas com redução de preço – mais uma vez foram só as regras desrespeitadas, aparentemente a redução do preço ocorreu mesmo – e de violação de uns misteriosos (mas seguramente essenciais para manter vivos três quartos da população portuguesa) ‘deveres gerais’. Deus guarde a ASAE que tais préstimos nos dá.

O resto está aqui.

Especial Informação Porto Canal – Rentrée política

Para eventuais interessados que não tenham tido oportunidade de ver, aqui fica o video integral do Especial Informação do Porto Canal (dedicado à rentrée política) em que participei juntamente com João Cerejeira, da Universidade do Minho, e Manuel Carvalho, do Público, com moderação de Ana Rita Basto: Especial Informação – 12 de setembro.