A presunção de inocência e os prazos no dia da felicidade

O meu texto de ontem no Observador.

‘Vejam por exemplo os disparates que foram ditos e escritos sobre a presunção de inocência de Sócrates. A presunção de inocência é um conceito jurídico que garante que ninguém é condenado sem que existam provas sólidas de um crime cometido. Ponto final. Ora como qualquer pessoa pensante percebe, o que existe e ocorre no mundo, seja criminoso ou não, não é apenas o que é suscetível de ser provado em tribunal – e provado segundo regras que são elas próprias mutáveis e discutíveis, não desceram dos céus como presente intergaláctico de uma qualquer deusa da justiça do mundo greco-romano.

Alguém ser absolvido em tribunal, ou nem sequer ser acusado, não é selo de garantia de que não cometeu nenhum crime: é reconhecimento de que não há indícios suficientemente fortes para levar à privação de liberdade, ao pagamento de multas e indemnizações, à censura pública em forma de condenação. Desde logo porque muitos crimes são difíceis de provar – os criminosos geralmente aproveitam-se da falta de testemunhas e de registos de imagem e som para cometerem os crimes. Só nas séries televisivas como The Closer é que Kyra Sedgwick convence os meliantes a confessarem tudo. Acresce que a justiça é administrada por humanos, limitados, com a tendência para disparatar que todos temos (mesmo quando com boas intenções), e suscetíveis a preconceitos e estados de alma.

Mas do que se lê por aí os argumentos pela presunção de inocência de Sócrates são ainda mais salazarentos que esta constatação de que a justiça humana é falível. Segundo nos dizem, enquanto não houver uma sentença judicial transitada em julgado, devemos permanecer todos intimamente convencidos que Sócrates é inocente como um rebento de jasmim a aromatizar um chá verde. Quando, e se, houver condenação pelos tribunais, passaremos então, no momento em que lermos ou ouvirmos tal ansiada notícia, a acreditar convictamente (por ordem do tribunal) que Sócrates é culpado dos crimes por que for condenado.

É isto: temos gente que tem espaço em jornais e televisões, numa democracia liberal em 2017, a afirmar que os indivíduos não podem ajuizar por si próprios da culpabilidade de um ex primeiro-ministro. As convicções de cada um não podem ser por si determinadas, nada disso, temos de ficar à espera que um tribunal nos diga como devemos considerar, na nossa consciência, Sócrates – inocente ou culpado. Vade retro conceito demoníaco de formar opinião em regime de livre iniciativa. O estado ensina-lhe generosamente em que acreditar.’

O texto completo está aqui.

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Portugal, o país onde não podemos escrever livros

O meu texto de ontem no Observador.

‘Ontem quando escrevia este texto o país estava calmo, mas aposto que hoje existem, pelo menos, três bairros barricados em Lisboa. Nem imagino o atroz sofrimento da esquerda nacional por tão hedionda traição. Caso a PSP não tenha pensado atempadamente (o que é imperdoável e justifica por si só uma chamada da ministra Urbano ao parlamento) em vedar o acesso ao Tejo ao longo de toda a zona ribeirinha lisboeta, que o faça a correr, que eu temo um colapso na vontade de viver dos militantes da esquerda nacional e tentativas de suicídio em massa. Há que evitar um auto genocídio, senhores guardas.

Falo de quê? Bem, caro leitor, olhe à sua volta. Vai sair uma biografia de Jorge Sampaio nos anos da sua presidência, com colaboração do ex Presidente. Estou certa que as muito numerosas alminhas sensíveis que gritaram pela falta de elegância de Cavaco Silva por escrever as suas memórias do seu tempo de coabitação com Sócrates, pelo inimaginável atentado à privacidade (risos abundantes) das conversas entre um PR e um pm, essas alminhas sensíveis, digo eu, que andaram a fazer figuras tristes nas televisões, rádios e jornais, estão em agonias pela traição de Jorge Sampaio. E neste momento ou correm para as zonas ribeirinhas das cidades portuguesas para se desgraçarem ou estão em casa debaixo dos cobertores e encharcados em antidepressivos.

É que, pelo que leio, Jorge Sampaio conta conversas efetivamente privadas, sobre assuntos da sua candidatura, com o líder do partido por que queria ser apoiado. Estou à espera do pior dos paladinos da defesa do direito à privacidade – é como quem diz, dos maluquinhos que argumentam que os contactos entre um ministro e um particular, versando uma empresa pública e a futura relação da empresa com o dito particular, são privados e, como tal, fora do escrutínio democrático dos media e dos representantes dos eleitores. (Não são.)’

O resto está aqui.

Um Presidente perigoso

(O meu artigo de hoje no Jornal Económico)

Recentemente, o Presidente da República achou por bem comentar publicamente o facto de muito boa gente achar que ele faz comentários públicos em excesso. Suspeito que não se apercebeu do carácter contraproducente da iniciativa, como aliás raramente se apercebe do que quer que seja que esteja para além da distância que o separa de um espelho.

Disse o Presidente que é “muito acusado de falar vezes demais”, mas que a crítica não faz sentido, porque “este é um tempo diferente” daquele em que outros presidentes tinham outro tipo de presença mediática, e agora é necessário dar resposta à “aceleração” em que vivemos e a que o nosso cérebro “se está a ajustar”. É por essa razão, e não por uma qualquer egomania, incontinência verbal ou saudades dos estúdios da TVI, que Marcelo alega estar permanentemente a pronunciar-se sobre tudo e mais alguma coisa, ou a distribuir abraços e beijinhos por toda e qualquer velhinha que tenha o azar de se cruzar com ele e uma equipa de reportagem televisiva.

Algumas almas generosas e benevolentes têm interpretado esta “estratégica mediática” do Presidente como uma tentativa de conquistar uma popularidade quase consensual e acima das habituais divisões partidárias, para que quando uma tempestade se abater sobre o país, ele a possa usar para arrumar a casa. Uns acham que ele será bem-sucedido, outros duvidam, mas todos concordam quanto à motivação de Marcelo. Sobrestimam o homem. A única motivação do Presidente é o seu desejo de adoração pública. Por isso tudo faz para que todos os seus gestos agradem ao máximo número de pessoas e desagradem o menos possível aos que se possam sentir ofendidos com o que diz ou faz. A proximidade ao Governo não se deve a um qualquer desejo de promover Costa ou afastar Passos Coelho da liderança do PSD, mas apenas ao propósito de agradar ao sentimento popular contra as “divisões partidárias”. O sermão a Centeno surgiu quando a sua gestão do “caso CGD” se tornou tóxica na opinião pública. As constantes referências a “boas notícias” que na realidade estão longe de o ser (como os juros que o país paga pelos empréstimos que contrai, ou o rating da Fitch) visam afastar da cabeça dos portugueses todo e qualquer motivo para se preocuparem com a intervenção política de Marcelo para além dos tão propalados (pelo próprio e por uma comunicação social sempre pronta a comer e a regurgitar a propaganda que lhe põe no prato) “afectos”, que não passam, no fundo, de uma afectação.

Como qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe, a coisa acabará mal para Marcelo. Ele ocupa um cargo político, e em política – uma actividade em que cada escolha tem custos e, portanto, desagrada forçosamente a alguém – é impossível manter para sempre a aura imaculada que Marcelo vai tentando ostentar. Mas se tudo se ficasse pela desgraça de Marcelo, não haveria grande problema. O mal está em que o Presidente, ao se pronunciar sobre tudo, não se distancia de nada, e assim não só garante que será pessoalmente responsabilizado quando uma nova crise nos vier bater à porta, como também que arrastará consigo a credibilidade do resto do sistema político (o “caso CGD” é um bom exemplo da promiscuidade entre Belém e São Bento cultivada pelo Presidente). Claro que ninguém verterá lágrimas por este último, mas o problema está em que ninguém sabe o que vem a seguir. É por isso que Marcelo e a sua presidência são um perigo para este pobre país.

Os ateus-carrapato

O meu texto da semana passada no Observador. Esta semana duplamente pertinente.

‘Nem todos os ateus são carrapatos, claro. A maioria são pessoas normais que vivem a sua vida sem incomodar os outros em excesso. Não fazem da descrença na divindade uma batalha de vida, não escarnecem dos crédulos obscurantistas que têm fé, não esbugalham os olhos transidos de fúria de cada vez que referem a Igreja Católica. São pessoas com quem se pode ter (e frequentemente tem) conversas bem pertinentes sobre espiritualidade e religião. No meu caso (de católica), tenho mais valores e pontos de vista em comum com a maioria dos meus amigos ateus do que com os católicos conservadores fundamentalistas.

Mas há ateus-carrapato, consideravelmente diferentes das pessoas ateias normais minding their own businesses. Caracterizam-se, grosso modo, pelo ódio de morte à religião católica e pela irracionalidade absoluta e agressiva de cada vez que um católico se expressa publicamente – onde estão as purgas nos jornais e nas televisões quando precisamos delas?! Se por acaso quem se expressa publicamente é um padre, o transtorno é tal que ficamos em cuidados se algum destes carrapatos não vai para casa auto mutilar-se. Qualquer dinheiro dos contribuintes que vá parar a uma instituição católica ou de católicos dá-lhes ímpetos de emigrarem – que, infelizmente, não concretizam.

São pessoas suscetíveis. Tal como não conseguem sobreviver com sanidade (e nota-se) sem uma bateria de sessões de psicoterapia de cada vez que ouvem um piropo obsceno na rua, também se ofendem com crimes hediondos como receber desejos de um ‘santo natal’. (Que género de psicopata deseja um ‘santo natal’ a uma pessoa de religião desconhecida?!)’

O resto do texto está aqui.

Então votos de boa administração Trump

O meu texto de hoje no Observador. Porque, caros amigos liberais, o problema de Trump não é só a defesa do protecionismo. Nem, sequer, tratar-se de um apalpador compulsivo. (Ainda que qualquer das duas chegue e sobre para repelir eventuais apoios a Trump.) O maior problema é ser um autoritário, muito poderoso, que não admite limites ou o simples escrutínio à sua ação – e que, podendo (e quem pode conter Trump não está com vontade disso), vai deteriorar a democracia americana de uma forma talvez irreparável. As boas instituições não estão imunes aos humanos viciados, como bem nos ensina a História.

‘Entretanto, no meio de tudo isto, temos Trump mandando o seu press secretary mentir garantindo que teve a MAIOR multidão de sempre a assistir a uma tomada de posse. Ponto final. Além das divertidas tendências para o culto da personalidade – Trump tem mais gente a vê-lo porque é o mais arrebatador político desde que o poder centralizado do estado surgiu na noite dos tempos, como bem nos informam os superlativos que o POTUS usa sobre si próprio e as suas habilidades – há o mote que foi dado à presidência: mentir quando os factos não confirmam a estonteante maravilha que é Trump. Os funcionários do irmão americano do INE bem podem começar a estudar métodos de inventar estatísticas, caso a realidade tenha a falta de senso de não brindar Trump com o MAIOR crescimento económico desde Adam Smith, ponto final.

Trump no seu discurso fez promessas sensatas e cumpríveis como (cito livremente) exterminar os terroristas e acabar em definitivo com o crime. Declarou o dia da sua tomada de posse um Dia de Devoção Patriótica (façamos uma genuflexão) com ecos da Primeira Guerra Mundial. Inventa que só perdeu o voto popular para Hillary Clinton (por quase 3 milhões de votos) porque imigrantes ilegais lhe roubaram a eleição. Mantém a recusa de mostrar a sua declaração de impostos (algo que até na nossa democracia de pantomina se faz) impossibilitando, assim, os americanos de escrutinarem as suas atividades económicas e o seu património. Garantiu ser uma contradição nos termos um presidente com conflitos de interesses. O prestável partido republicano (aquele com que os crédulos contam para limitar os disparates trumpistas) já tentou, de resto, emprateleirar um departamento de vigilância independente para as questões de ética no Congresso. Foi só parado pela fúria popular; até Trump teve de reprovar a pressa. […]

Um presidente megalómano propenso a mentir, fazer negócios que ninguém poderá avaliar e comprar uma guerra para distrair os seus detratores e energizar os indefetíveis. Uma primeira dama oficiosa, influente, com alma de feirante desonesta. Uns apaniguados obedientes que não recusam mentir. Um partido, com maioria nas duas câmaras do Congresso, que se vendeu e renega o que sempre promoveu (o comércio livre, por exemplo) para alimentar o projeto de poder próprio de Trump. Não, não: não é nenhum bombardeamento à democracia liberal como a conhecemos. Nem nunca houve na história instituições que soçobraram devido a homens viciosos que as usaram e desacreditaram. Só pode correr bem.

Mas não esquecer: o perigo real são os manifestantes contra Trump. Não têm poder para ordenar ataques com drones, ao contrário do seu alvo, mas o que interessa? E as maldosas fake news – que são todas as que expõem Trump. Mas especialmente tóxicas são as desavergonhadas das mais de 3 milhões de mulheres que se manifestaram pacificamente nos Estados Unidos. Deixo-vos um bom plano: fingir que estas manifestações não tiveram números impressionantes, nem são importantes, e exibir só as maluquinhas (existem sempre) que lá se passearam. Que tenham mão pesada para estas aleivosas que não descansam na perseguição (juro que li isto) a um pobre homem que acaba de ser eleito.’

O texto completo está aqui.

Donald Trump e “A Era da Desmiogarquia”

 

Um texto meu no site britânico CapX:

“Sullivan’s words might sound overly-dramatic, but there’s some validity to them. Not in the sense that America’s first orange president will become a true tyrant, but that his election does say something about the predicament of the American Republic. It is a symptom of the American democracy’s degeneration into a desmiogarchy – the government of the shackled, of those in bounds.

This degeneration has been a feature of European politics for several years now. All over the continent (Austria, Poland, Sweden, Denmark, Portugal), an increasing number of voters have transferred their support from mainstream, “centrist” parties to extremist, populist ones, or have elected not to participate in the democratic process at all. The pattern will likely be repeated in future elections in the continent, whether in Germany, Italy or most particularly in France.

At the root of this “desmiogarchization” of European democracies lies the exponential growth of the state. Since the turn of the century, across the continent, public spending has soared as a share of national income – from 51.6 per cent in 2000 to 55.9 per cent in 2012 in France; from 45.9 per cent to 49 per cent in Italy; from 41.6 per cent to 46.9 per cent in Portugal.

(…)in the end, these welfare states created a series of problems that seem difficult to overcome. They’re ineffective: they respond not to the needs of those who use them, but to the bureaucratic goals of political decision-makers. They’re unsustainable: there is an ever smaller number of workers paying for an ever-growing number of beneficiaries. And they’re unfair: because they try to provide for those who need it and those who don’t, they end up giving too much to those who don’t need it and not enough to those who do.

On the one hand, the inefficiency of these services feeds the electorate’s high – and growing – level of dissatisfaction with governments and politicians. On the other, European electorates seem pretty reluctant to give their support to any reform that might mean they would have to give up some of the things they take for granted.

The combination is lethal: most voters make their electoral choices on the basis of who they believe will be capable of keeping things as they are, but at the same time, those voters who want to keep the statist status quo intact grow unhappy with the practical results of that same statism. So voters blame the traditional governing parties for not being able to give them the statism of plenty they long for.”

O resto pode ser lido aqui.

Best of

Na sequência do fim de ciclo na minha colaboração regular com o Observador, pareceu-me oportuno registar os 10 artigos que mais partilhas tiveram. Aqui fica a lista:

Continue reading “Best of”

Mário Soares da discórdia

Um texto meu na Folha de São Paulo, sobre as opiniões que se formaram sobre Soares pela minha geração e querubins ainda mais novos. Um amuse-bouche:

‘Algumas pessoas em Portugal estão por estes dias espantadas pela ausência – gritante e ostensiva – do povo comum português nas cerimónias fúnebres de Mário Soares. Houve funeral de estado cuidadosamente preparado e executado – e bonito. Os políticos louvaram em abundância Soares. Os jornalistas lamentaram-se como se tivesse morrido o gatinho preferido. As televisões e jornais esqueceram que existia resto do mundo. A população? Não quis saber.’-

Aqui.

Uber: partilha ou rent-seeking?

O meu artigo de hoje no Observador: Uber: economia de partilha ou rentismo?

Combater um paradigma político de economia extractiva assente em múltiplos processos de rent-seeking exige, infelizmente, bastante mais do que novas plataformas tecnológicas e slogans atractivos.

A minha mãe não faz anos todos os dias

Como nem todos os dias são festa, o meu desejo político para 2017 limita-se a que, aos com discernimento, lhes seja permitido não contrair mais dívida dos outros; consigam ser responsáveis pelos seus actos, sem que isso seja considerado egoísmo, mas mera justiça. Já seria muito. Para muitos até demais. O meu artigo no Jornal Económico.

A minha mãe não faz anos todos os dias

A Europa enfrenta três ameaças em 2017: racismo, proteccionismo e populismo. Três que têm origem numa só: dívida. Ou encarado de outra forma, falta de capital, de dinheiro para atender ao comércio que não pára de crescer num mundo globalizado. É o mercantilismo de outrora, quando se desvalorizava moeda para incentivar a produção nacional, que regressa agora entre os que querem uma Europa diferente.

Enquanto a acumulação de dívida não criou problemas de maior, o projecto europeu foi-se alargando e aprofundando sem entraves. Tirando um ou outro aviso, como os de Margaret Thatcher, que no célebre discurso de Bruges deu a conhecer a sua visão da Europa que precavia os povos europeus dos problemas que vivemos agora, ninguém se preocupou muito com o futuro. A Europa andava e isso era o que interessava.

A moeda única europeia, que tantos entenderam como fulcral para a Europa e que hoje consideram um entrave às suas políticas, é o principal alvo das três ameaças acima referidas. Com o euro, moeda que pressupõe políticas orçamentais rigorosas, o capital, o dinheiro, só surge com poupança, investimento e aquele risco em que apenas os prudentes sabem incorrer. Prudentes, porque comedidos; comedidos, porque é o seu dinheiro que está em causa.

É esta ligação entre o dinheiro e quem investe que se perde quando os Estados entram na equação. É desta forma que surge a dívida que não se paga, se acumula e nos afoga anos mais tarde. E qual é a solução que nos é apresentada? Não a difícil que é pagar, mas a fácil que é ignorar. Quem ignora segue em frente, embora com um preço: é preciso justificar o não querer saber. Como? Com a imigração, a globalização e o ataque às instituições. A livre circulação de pessoas, de bens, de capitais, e as organizações que as permitem, combatem-se com racismo, proteccionismo e populismo. As ameaças que atacam a Europa e que nasceram da dívida que, há muitos anos, a mina.

Por que motivo é que a visão europeia de Thatcher foi ignorada? Porque era demasiado pragmática. Porque antevia problemas que poucos quiseram ver quando tudo corria bem. E porque o pragmatismo na política obriga a explicar devidamente as escolhas que, quando feitas com o coração se justificam por si mesmas. O tal populismo. Foi assim em 1988, em 1998, 2008, 2016 e será em 2017. Para quê doutra forma se há um caminho mais fácil?

É assim em Portugal e na Europa. Em todo o lado. Não tenhamos, pois, ilusões: 2017 não será o ano em que deixamos o passado lá atrás. A resposta é chutar para a frente. Que não funciona é tão certo como a minha mãe não fazer anos todos os dias. Mas a maioria quer e é o que vamos ter. Assim, o meu desejo limita-se a que, aos com discernimento, lhes seja permitido não contrair mais dívida dos outros; consigam ser responsáveis pelos seus actos, sem que isso seja considerado egoísmo, mas mera justiça. Já seria muito. Para muitos até demais.

As feiras de gado e a concertação social

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O meu artigo desta semana no Observador: Em defesa de Augusto Santos Silva (e das feiras de gado).

As feiras de gado – à semelhança das feiras em geral – têm também a seu favor o facto de assentarem em transacções voluntárias. A exigência do livre consentimento das partes envolvidas constitui aliás uma muito melhor garantia dos efeitos socialmente benéficos das trocas do que a realocação de recursos por via centralizada com base na tomada de decisões colectivas na esfera política. É certo que, como em outras actividades, também no comércio há negociantes desonestos. E que, em casos nos quais haja fraude, má fé ou outras práticas não éticas os benefícios do comércio ficam em causa.

Mas, como já há alguns séculos atrás assinalava o escolástico Domingo de Soto, devemos ter presente que os vícios dos comerciantes não são próprios do comércio, mas das pessoas que o exercem. Nessas situações é importante que o sistema judicial actue de forma célere e eficaz e também que os mecanismos de sanção reputacional sejam potenciados ao máximo para penalizar os maus comerciantes. Em qualquer caso, é geralmente menos difícil penalizar e responsabilizar os comerciantes desonestos do que os políticos desonestos. Também por isso não seria necessariamente mau que a concertação social e outros processos de decisão colectiva por via política fossem mais parecidos com feiras de gado.

Estamos no grau zero, certo?

O meu texto de ontem no Observador.

‘Durante horas pensei que o lamento oficial de Marcelo Rebelo de Sousa pela morte de George Michael era uma piada das redes sociais à hiperatividade presidencial a que MRS nos vem habituando. Nem acreditei quando li as notícias. Tive de ir ao site da Presidência da República confirmar que a mais recente exuberância pesarosa de MRS existia mesmo. Pelo que, queridos concidadãos, está na hora de assumirmos mais esta cruz nacional (e peço perdão por trazer este travo quaresmal para o tempo natalício): temos um Presidente que perde tempo a emitir lamentos oficiais pela morte de estrelas pop estrangeiras.

Enquanto aguardamos a publicação no site da Presidência da nota congratulatória de Marcelo Rebelo de Sousa pelo regresso das andorinhas na primavera (que as andorinhas não são menos que George Michael), ou talvez mesmo um comentário oficial do Presidente sobre a problemática das notícias falsas, devemos, quem sabe, perder uns momentos e dirigir a uma qualquer divindade do nosso agrado uma oração pedindo uma mordaça para Marcelo Rebelo de Sousa (já que o bom senso e o sentido das proporções não são suficientes para o moderar).’

O resto do texto está aqui.

O lobby LGBT como ameaça à liberdade (2)

Foi com especial satisfação que constatei que o meu artigo desta semana no Observador (Pela liberdade, resistir ao lobby LGBT) suscitou grande interesse tendo sido um dos mais lidos de todo o site nos últimos dias e atingido cerca de 2.000 partilhas nas redes sociais.

Mais do que o (limitado) mérito pessoal do autor, creio que este sucesso evidencia que tanto o tema como a abordagem suscitam interesse por parte de muitos leitores, ainda que as patrulhas do politicamente correcto prefiram silenciar sempre que possível as vozes críticas e não se coíbam de usar todos os meios que têm à sua disposição, incluindo apelos à censura, insultos e ameaças de vária ordem.

O lobby LGBT como ameaça à liberdade

O meu artigo desta semana no Observador: Pela liberdade, resistir ao lobby LGBT.

Embora o comunismo – pelo menos na sua versão “científica” clássica – se encontre hoje quase completamente desacreditado, o testemunho da guerra contra a família passou nos nossos dias para o lobby LGBT e para os defensores da agenda radical “do género”. Tal como aconteceu múltiplas vezes no passado, importa que todos quantos valorizam a preservação e continuidade da civilização europeia e ocidental e da sua ampla matriz de liberdades se posicionem solidamente do lado certo.

Votos de um Santo Natal para todos os leitores.

As liberdades que não são de esquerda

O meu texto desta semana no Observador.

‘É oficial: pelos lados da geringonça cortaram as últimas amarras que os ligavam à realidade. É o que qualquer pessoa sensata conclui da promessa de Pedro Marques do novo aeroporto complementar no Montijo para 2019. Os tempos dessa entrada cimeira da Declaração Universal dos Direitos do Homem, o ‘direito ao TGV’, exigido pelos lunáticos da Juventude Socialista em 2009, estão de volta.

Claro que em 2019 dificilmente haverá aeroporto. A razão é simples e bruta: não há dinheiro. Mas, em boa verdade, o que interessa ao PS também não é a construção do aeroporto. É muito mais útil enganar os tolos com a retórica do investimento; encher jornais e noticiários com projetos grandiosos que o magnífico governo apadrinha (os jornalistas assim sempre se esquecem de referir os números risíveis do investimento que, de facto, temos tido e que mostram que com este desgoverno ninguém arrisca investir); oferecer uma cenoura coberta de chocolate, à laia de esperança, aos eleitores dos municípios da zona do futuro-barra-imaginário aeroporto.

O PS sempre foi um partido da pós-verdade, muito antes do conceito estar na moda. Lembramo-nos das promessas de Centeno e Costa para o crescimento económico, não lembramos? Pelo que dizer que se quer construir o aeroporto, para o PS, é muito mais útil que construir mesmo o aeroporto. Quanto menos o pretenderem construir, mais proclamações enfáticas de amor assolapado pelo novo aeroporto deveremos ouvir. Vamos ser todos endoutrinados na bala de prata (mais uma, já houve tantas) que é o novo aeroporto para o desenvolvimento português. Quem não amar o projeto do novo aeroporto acima de todas as coisas, não é patriota. António Costa, naquela sua peculiar maneira de esmigalhar a língua portuguesa, ‘incontrará’ maneira de argumentar que é ‘inconxional’ não construir o novo aeroporto.’

O resto do texto está aqui.

O ano em que ninguém quis saber

O meu artigo no ‘i’ sobre o ano português que termina.

O ano em que ninguém quis saber

O ano está a terminar e é hora dos balanços. Por todo o lado leio que o país está excelente. O Público, num especial sobre 2016, descreve-o como o ano dos êxitos improváveis e pergunta se a auto-estima voltou. Até a novela do aeroporto regressou à baila com o Expresso a noticiar que a construção de um  novo pode avançar já em 2019. Isto depois de sabermos que já há planos para a expansão do Metro de Lisboa.

Algo de muito estranho se passou este ano e que poderá explicar como é que saímos da depressão profunda da troika e chegámos à euforia contagiante da geringonça. Mas o quê?  É certo que o BCE compra dívida pública portuguesa, mantendo o país a soro. Mas e depois? Ninguém se pergunta como vai ser quando essa ajuda terminar? Ninguém se preocupa?

Lembram-se daquelas reformas que durante anos ouvimos dizer que eram indispensáveis? Agora já não não precisas para nada. Afinal o país até está melhor sem estas. Até porque essas reformas implicavam mudanças de hábitos e os portugueses estão habituados a não mudar as suas práticas. Como governante hábil que é António Costa percebeu isso e deu-nos isso.

Daqui a muito tempo os portugueses do futuro estudarão estes anos para conhecer Portugal. Para se conhecerem a eles próprios. Um país que fecha os olhos porque dessa forma não se passa nada. Não querer saber é um remédio. E quando o Carmo e a Trindade caem pergunta-se porque é que ninguém avisou. Não é verdade. Os avisos estão aí. O problema é que ninguém quer mesmo saber.

A mais recente vítima do marxismo

O meu texto desta semana no Observador.

‘O Bartertown Diner era um restaurante marxista. Nas suas paredes exibia garbosamente imagens de Che Guevara e Mao Zedong. No seu facebook, em vez de se promoverem as novas iguarias, escreviam-se tiradas doutrinárias marxistas. Apesar de existir um proprietário, não havia essa mania capitalista dos chefes no restaurante, todos mandavam o mesmo e as decisões eram tomadas coletivamente. Toda a gente ganhava igualmente e implementou-se uma política de não aceitação de gorjetas. Os empregados tinham de pertencer a um sindicato. O que poderia correr mal?

Vejamos. Os clientes não podiam gratificar por um bom serviço, pelo que as refeições eram dispendiosas para compensar a perda das gorjetas. Como não havia incentivo para o tal bom serviço que poderia merecer a gorjeta, uma sandwich demorava quarenta minutos a entregar. Os horários eram decididos pelo coletivo, de acordo com a conveniência da força proletária; em resultado desta política orientada para o prestador de serviços, o restaurante abria só quando era conveniente a quem lá trabalhava, em vez de quando os potenciais clientes necessitavam de alimentação. No Reddit alguém aventou a possibilidade de ser indigesto partilhar um repasto com os assassinos em série representados nas paredes.’

O resto do texto está aqui.

XX Congresso do PCP: entre a ortodoxia e a “geringonça”

Além do meu habitual artigo semanal, tive muito gosto em contribuir para o especial do Observador sobre o XX Congresso do PCP, que inclui também análises de Miguel Pinheiro, José Milhazes, Helena Matos, Alexandre Homem Cristo e Vítor Matos. Aqui fica o meu contributo: PCP: entre a ortodoxia e a “geringonça”.

O PCP procura persuadir o eleitorado mais à esquerda de que o apoio ao governo do PS não é bem um apoio, um pouco como Bill Clinton afirmava há uns anos atrás que “fumou, mas não inalou”. É a esta luz que devem ser entendidas as constantes referências e críticas dirigidas ao PSD e CDS – mais de um ano depois de Passos Coelho ter deixado de ser primeiro-ministro. O papão de um “governo de direita” continua a ser a única forma de o PCP justificar o seu apoio ao governo do PS em contradição com quase tudo o que defendeu durante anos. Mas esta é uma estratégia retórica que pode estar a chegar ao final do prazo de validade.

Fidel Castro e as ditaduras fofinhas

O meu texto de hoje no Observador.

‘As reações dos políticos foram igualmente repugnantes. Do PCP veio o gozo descarado costumeiro. Jorge Sampaio, essa insignificância política de que não rezaria a história se um dia Cavaco não tivesse perdido umas eleições, deu um testemunho (e porquê, Deus meu, alguém se lembra de pedir um testemunho a Jorge Sampaio?) onde aplaudiu a simpatia do hirsuto Castro, entre outras qualidades adoráveis. Do atual Presidente, que há pouco tempo se fez fotografar sorridente ao lado do tirano, também nada de tragável veio.

Mas o pior chegou na forma dos votos de pesar que o parlamento aprovou pela morte da criatura. E se do PS extremista se espera todos os enlevos com as ditaduras comunistas, já não se perdoa que o PSD tenha escolhido abster-se nesta votação. É por estas e por outras que a suposta direita parlamentar merece todas as geringonças que a atropelem: os eleitores não respeitam quem não se dá ao respeito.

Enfim. Para terminar com uma nota de humor, depois das entranhas revolvidas com as reações portuguesas à morte de um carrasco das Caraíbas, podemos pelo menos reconhecer que ninguém por cá foi tão ridículo como Trudeau – deu azo a uma das hashtags mais divertidas dos últimos tempos –, que produziu um tributo a Fidel Castro que até a canadiana CBC chamou de ‘deliberadamente obtuso’. Parece que Fidel amava de amor profundo o povo cubano (matou e prendeu uns tantos, mas o que interessa isso?) e criou um maravilhoso mundo com boa saúde e educação.

O que é verdade. Quem não aprecia um destino de turismo sexual com oferta de gente muito escolarizada a prostituir-se? Também me lembro do filme Guantanamera, dos idos dos anos 90, onde uma professora universitária e um seu antigo aluno referiam áreas do saber cubanas, utilíssimas em qualquer curso superior, da estirpe de ‘marxismo dialético’ ou ‘socialismo aplicado’. Quem não saliva pela oportunidade de estudar isto?’

O texto com princípio, meio e fim está aqui.

Trumpismo: o bom, o mau e o incerto

O meu artigo desta semana no Observador: Trump: o bom, o mau e o incerto.

Análises à vitória de Trump

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Além do meu artigo semanal, tive muito gosto em contribuir para o especial do Observador de análises rápidas sobre a vitória de Trump, que inclui também textos de Jose Manuel Fernandes, Rui Ramos, Alexandre Homem Cristo, Helena Matos, João Marques de Almeida, e Nuno Garoupa. Aqui fica o meu contributo: Os deploráveis elegeram Trump.

O primeiro passo para compreender e lidar com as consequências da eleição de Trump será não repetir os erros, enviesamento e arrogância com que a sua candidatura e campanha foram analisadas.

Eleições EUA no Observador

Hoje à noite estarei a participar na cobertura que o Observador vai fazer das eleições norte-americanas via liveblog.

Leitura complementar: Eleições americanas n’O Insurgente.

Sem dúvida

Recomendo a leitura da opinião do Alexandre Homem Cristo no Observador, Trump é tão mau quanto Tsipras.

Trump e Tsipras têm o mesmo desprezo pela democracia representativa, pela separação de poderes, pelo pluralismo. Mas não recebem o mesmo tratamento no debate público: um é temido, o outro é amado.

Trump dá mau nome à direita. Não é o único. Há também Marine Le Pen, Nigel Farage e demais hipócritas do Brexit, ou Viktor Órban e restantes nacionalistas do leste e do norte europeu. Mas, hoje, Trump é o ponta-de-lança desta equipa internacional de políticos de direita que, estando na primeira fila do acesso ao poder, se definem como inimigos da globalização e, não raras vezes, das liberdades republicanas – pondo em causa a livre circulação de pessoas e bens, a separação de poderes, a democracia representativa, a promoção do pluralismo e a tolerância social da diferença. No fundo, sacudindo os pilares das repúblicas modernas em que vivemos, aliados em ambição aos que, à esquerda, reprovam o modo de vida ocidental – da Rússia à China, passando pelos novos marxismos europeus (Syriza, Podemos) que vão condicionando a agenda política.

Os EUA não são a Hungria e o que se passa em Washington tende, mais tarde, a acontecer no resto do mundo. Isto devia preocupar-nos, independentemente de quem os americanos elegerem. Sim, a probabilidade de Trump perder é superior à de ganhar as eleições presidenciais desta terça-feira nos EUA. Ainda bem, digo eu – apesar de Hillary Clinton. Mas, mesmo que derrotado, sobreviverão os efeitos da adesão às suas propostas e da difusão das suas provocações. (…)

Narrativa über alles

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Nem só de rasgar de contratos e impostos indiretos se faz o tempo novo. O governo decidiu voltar a inovar, desta vez na apresentação do orçamento. Nesta altura do ano é suposto um governo já ter uma ideia de quanto irá gastar no presente exercício e disponibilizar esses números na proposta de orçamento para o próximo ano. A honestidade, a ética política, e uma coisa de menor importância chamada Lei de Enquadramento Orçamental, exigem que esses números sejam disponibilizados para a discussão na Assembleia da República. No entanto, Mário Centeno só acedeu a disponibilizá-los quando a Comissão Europeia assim o exigiu. As prioridades de Centeno fazem sentido: a Comissão Europeia representa um grupo de credores com dinheiro e poder, enquanto que o parlamento representa um grupo de desvalidos sem soberania a que se dá o nome de povo português. (…)

Podem continuar a ler aqui.

Querida esquerda, nada acaba até estar acabado

O meu texto de ontem no Observador.

‘E o que dá por ‘encerrado’ a geringonça? Escândalos que alguma malvada comunicação social e a sempre aleivosa oposição inventam. Santos Silva deu por encerrado o caso das viagens pagas pela Galp a Rocha Andrade, e agora o BE também já informou que o caso das licenciaturas falsas de um chefe de gabinete do secretário de Estado da Educação está encerrado. E ai de nós se discordarmos. Ainda apanhamos mais umas décimas de impostos sobre os combustíveis se não formos dóceis e obedientes.

Há quem se escandalize pela sobranceria destes encerramentos compulsivos. Neste caso das licenciaturas falsas, por exemplo, pessoas miudinhas (e sem gosto pelas distrações ornitológicas preferidas pela geringonça) podem argumentar que há muito por explicar. Se Nuno Félix foi uma escolha do ministro Tiago Brandão Rodrigues, amigo próximo, independentemente de este saber ou não da mentira da nota biográfica, o ministro não é responsabilizado por escolher (e voltar a escolher) uma pessoa capaz de mentir sobre o seu percurso académico? Já não se avaliam os governantes pela qualidade das pessoas que escolhem recrutar?

Lembrando o motorista – teimariam os tais picuinhas –, não será um ministro politicamente responsável pela rebaldaria, inclusive financeira, de viagens diárias de quatrocentos quilómetros para transportar um chefe de gabinete de casa para o trabalho? Claro que não. Vamos agora submeter a geringonça a esse tipo de escrutínio? Pensam que estão a lidar com um governo de direita?’

O texto todo está aqui.

Uma esquerda que não sente

O meu artigo no Jornal Económico.

Uma esquerda que não sente

O Governo desistiu do crescimento económico. Costa já deve ter percebido que não é possível com despesa elevada e impostos altos. O objectivo, agora, é que o défice agrade Bruxelas e cale o PSD, mesmo que para isso adie pagamentos aos fornecedores, corte nas escolas e nos hospitais. O Governo precisa de chegar às autárquicas com os números a bater certo, mesmo que tudo esteja errado.

Mas o Governo não desistiu do crescimento económico apenas para agradar Bruxelas. Fê-lo também para satisfazer o seu eleitorado. O principal propósito do Estado, nesta legislatura, é pagar salários. Sem salários, nem pensões, não há votos e o Governo cai. E se a economia não cresce, porque descer a despesa implica reduzir salários, é necessário cortar nos serviços. Veja-se o Ministério da Educação, cujo orçamento para 2017 cresce 179,4 milhões de euros, mas as despesas previstas para salários dos professores e funcionários de escolas aumentam 188 milhões. Onde é que se vai buscar a diferença?

Costa está a paralisar o país. Por ora, a maioria está satisfeita porque beneficia dessa estagnação. Mas nenhuma sociedade vive desta forma.

Pouco antes de falecer, Michel Rocard concedeu uma entrevista à Le Point, na qual qualificava a esquerda francesa como a mais retrógrada da Europa. Não se lembrou da portuguesa, mas as críticas feitas a uma aplicam-se à outra. Dizia o ex-primeiro-ministro francês que a esquerda perdeu a cultura económica e o diálogo social. Profundamente marxista, com uma análise racional da produção, a esquerda de hoje quer destruir o capitalismo e desconfia da economia de mercado. Rocard foi um socialista moderado, crítico do arcaísmo de Mitterrand, e intelectualmente próximo de António Guterres, um primeiro-ministro fraco que agora o PS aplaude mas que traiu em 2001, numa altura em que o PS já se encontrava no processo de radicalização que agora presenciamos.

A nova esquerda socialista perdeu a dimensão cultural dos tempos de Rocard. Alicerçada no ódio promove a desconfiança, seja à Europa, seja à Alemanha. É sem qualquer problema que invoca um passado com 70 anos para destruir o que a Europa tanto esforço fez, não para esquecer, mas para não repetir. Amaldiçoa a globalização, esse processo de integração económica iniciado pelos portugueses, que tem tirado da miséria tanta gente por esse mundo fora e que Vargas Llosa, que ainda este mês esteve em Lisboa, qualificou de movimento entusiasta que acabou com o nacionalismo responsável por tantas mortes.

Apostada no consumismo, a esquerda reduziu o Estado social ao pagamento de salários e de pensões, esperando que os que votam em si gastem e reduzam a sua existência a essa satisfação efémera. Esta é uma esquerda que não sente. E como o dinheiro não nasce das árvores, uma massa de gente sem fito na vida estará pronta a pôr-se na mão de meia dúzia de populistas que andam por aí confusos entre governar e mandar bocas.

O clube das mulheres nasty e o clube dos senhorios espoliados

O meu texto de ontem no Observador.

‘O clímax veio no terceiro debate, quando chamou ‘nasty woman’ (‘mulher detestável’) a Hillary. Para Trump e a sua corte de seguidores sexistas, foi uma forma genial de por a contraparte feminina no seu lugar. Como dizia um congressista republicano, ‘às vezes uma senhora precisa que lhe digam que está a ser nasty’. (Não é adorável? Ainda bem que existem estes homens beneméritos e esclarecidos para nos darem ralhetes. Só espero que nenhuma senhora que se cruze com esta pessoa nos próximos tempos não lhe entorne em cima da roupa, por azar, um copo daqueles cafés que os americanos bebem a escaldar. Seria uma grande pena.)

Para o resto do mundo com noções de decência em funcionamento, em geral, e para as mulheres, em particular, o ‘nasty woman’ funcionou como uma declaração de guerra. Além do barulho nos media com o insulto, as mulheres correram para o twitter proclamando-se nasty. Já há há t-shirts à venda e demais parafernália. Porque, de facto, já fomos todas nasty. Não por atos desagradáveis ou imorais, mas pela ousadia de questionarmos homens que não entendem como não somos só produtoras de elogios e salamaleques. Acontece-nos muito. Temos orgulho em ser assim nasty. Tanto que até a Teen Vogue – muito mais afiada do que muitos comentadores masculinos por esse mundo fora, mesmo os que desgostam de Trump, que não estão a perceber a magnitude da repugnância que a criatura gera nas mulheres – sugeriu que o comentário tinha acabado de ganhar a eleição a Hillary.’

O texto todo está aqui.

O embuste orçamental

O meu artigo desta semana no Observador: O embuste orçamental.

A discussão sobre a possível aplicação de condições de recursos é uma que vale a pena ter mas o mais saliente na actual conjuntura é que o mesmo governo que penaliza pensões mínimas aumenta com este Orçamento substancialmente os rendimentos auferidos por uma pequena (mas influente) minoria de pensionistas, em linha aliás com a decisão de eliminar os tectos salariais aplicados pelo anterior governo aos gestores da CGD.

Progressistas pela moral e contra os vícios

O meu texto desta semana no Observador.

‘Vejamos os religiosos do aquecimento global, por exemplo. E em minha defesa – antes que me excomunguem – digo já que sou bastante sovina, e poupada, no que toca a bens isentos de qualidades estéticas como gasolina e eletricidade, e que tenho uma forte paranoia com a reciclagem e reutilização de uns tantos materiais. Mas, lá está, falta-me o fervor religioso.

A incitação para que as populações se abstenham de consumir, um exemplo, costuma mergulhar-me na vontade de praticar vudu contra os detentores de tal opinião. Não (ou sim, mas de maneira diferente) que estejam preocupados ser mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no reino dos céus. Credo, os religiosos ambientalistas não se querem confundir com os religiosos católicos, que esses são ultamontanos e rústicos. Que proponham exatamente o mesmo é um mero pormenor. As motivações são muito mais nobres que essas tretas de não nos deixarmos escravizar pelos bens materiais. Os ecofanáticos defendem que se extermine o consumo (e, de caminho, o bem estar das populações) para poupar os recursos do planeta (estes religiosos nunca leram Malthus) e para não causar poluição com transportes de mercadorias.

Outro tipo de moralista, bem mais perigoso, é o purista sanitário. Pode-se praticar sexo à vontade, felizmente está estabelecido, e uma ou outra consequência para a saúde ou para a vida (uns sopapos do cônjuge enganado, por exemplo) devem ser encarados com bonomia, que as pulsões sexuais são fortes e difíceis de conter.

Mas não há cá complacência com o álcool (já os antigos diziam que era o pai de todos os vícios, e os antigos alguma vez haviam de ter razão), ousar ter a comida bem apaladada com sal (as pessoas puras de corpo e alma não têm de lhe pagar os comprimidos para a tensão arterial) ou beber refrigerantes açucarados (agora que já se verificou que afinal o colesterol e a gordura não causam o apocalipse humano que os médicos prometeram, teve de se encontrar novo inimigo para atormentar as populações e viraram-se para o açúcar, o novo supervilão; até, claro, dentro de uns anos se reconhecer que o açúcar é essencial para um bom desenvolvimento cerebral das crianças, entre outras maravilhas que então o açúcar de súbito conquistará).’

O texto todo está aqui.

Epicamente saloios

O meu texto da semana passada no Observador. Vai só agora porque encalacrei o computador, está a ser por estes dias diligentemente reparado e eu resisto a escrever posts no ipad.

‘A habilidade guterrista para as contas públicas, por exemplo, não está ao alcance de qualquer um. Só mesmo um génio como Guterres consegue espatifar as contas públicas numa conjuntura económica tremendamente favorável. Em meia dúzia de anos, com crescimento económico robusto, situação internacional favorável, receitas fiscais a jorrarem viçosamente para o orçamento de estado e juros da dívida pública a caírem com a adesão ao euro, Guterres teve o mérito de não só não cumprir nenhum dos critérios orçamentais do pacto de estabilidade e crescimento, como ainda foi virtuoso a ponto de nos conduzir a uma situação de défices excessivos. Tal capacidade destrutiva é, de facto, um talento escasso mesmo no político típico português.

Os amigos de Guterres. Temos a agradecer ao atual secretário geral da ONU ter trazido para a política estadistas gigantes da estirpe de Sócrates (tão polivalente que é agora também intelectual de gabarito prestes a lançar o segundo livro) (ok, podem tirar uns momentos para gargalhadas) e de Armando Vara (que na CGD e no BCP emulou a arte de Guterres para as contas públicas).’

O texto todo está aqui.