A direita não devia apoiar a recandidatura de Marcelo

Para não fugir à regra, mais um claro e sólido artigo do André Abrantes Amaral no Observador.

 Marcelo não só representa o atavismo da sociedade portuguesa, com a leviandade e a futilidade que caracteriza a forma como exerce o cargo (e que tanto jeito dá à esquerda), como entra em contradição com a necessidade de abertura do país a uma alteração comportamental e a um corte profundo com a protecção injusta atribuída a certos sectores.

[…] PSD e CDS ainda não perceberam que o eleitorado que representam em 2019 não é o mesmo de 2009. Não perceberam estes partidos, nem parece que o tenha percebido Marcelo.

Em defesa do consumismo

O meu texto de hoje no Observador.

‘Desde a bendita black friday que tenho apanhado alguns vídeos assaz perspicazes sobre o consumismo do mundo desenvolvido. O meu preferido alterna imagens de multidões a entrar em lojas, passagens de modelos e gente com roupa e sapatos (provavelmente uma ofensa em si mesma; quem não se veste como Gandhi é um globalista explorador) com imagens de bairros de lata, campos a levarem pesticidas, camiões de caixa aberta apinhados de gente, uma mulher com a pele do rosto descolorada.

A mensagem implícita? É o consumismo do mundo rico que provoca todas estas atrocidades.

Como se sabe, se não fosse o consumismo desenfreado dos ricos explorando os países pobres, estes teriam sistemas de transportes públicos irrepreensíveis, limpos, com lugar sentado para todos os utentes, muito mais pontuais do que o metro de Lisboa. Os ataques com ácido às mulheres não ocorreriam. Todas as famílias viveriam, pelo menos, num T3 com ar condicionado. Os malvados desenvolvidos, que desataram a consumir sem parar, é que estragaram este paraíso que eram os países mais pobres antes da última vaga de globalização.

Agora um bocadinho de realidade. A China, desde as reformas económicas de Deng Xiaoping em 1978, que tornaram a China na tal ‘fábrica do mundo’, já tirou entre setecentos e oitocentos milhões de chineses da pobreza. A taxa de pobreza extrema (atualmente menos de 1,90USD/dia) caiu de 84% em 1981 para 15,9% em 2005; anda agora na casa dos 10%. Entre 1994 e 2012, cento e trinta e três milhões de indianos saíram da extrema pobreza. Nas duas décadas entre 1990 e 2010, mil milhões de pessoas saíram da pobreza. Repito: mil milhões de pessoas pelo mundo. Nove zeros: 1.000.000.000 de pessoas.’

O texto completo aqui.

Lições de propaganda

O meu texto desta semana no Observador.

‘Perante isto, o que dizer do comportamento dos ministros durante a ação de propaganda? Percebo que o ministro Cabrita deu o melhor uso possível àquele pedaço de tempo: dormiu. Quem nunca reprimiu um bocejo quando de repente, quase à traição, ouviu a voz de Costa na televisão ou na rádio? Também me solidarizo com Maria Manuel Leitão Marques, que resolveu ler jornais ou por as mensagens e o mail em dia. Bom uso do tempo, ou não fosse uma mulher. De resto era a única que sobressaía pela cor da roupa, num mar de ministros visualmente entediantes. E, de facto, não se deseja ao pior inimigo, nem sequer a um ministro da geringonça, uma tarde a ouvir António Costa.

Mas e a mensagem que passaram, de ignominioso desinteresse pelas respostas que o querido líder dava à amestrada assistência? Sopapos e anos de cadeia talvez sejam excessivos para Cabrita e Leitão Marques, mas que tal enviá-los em licença prolongada para a Mongólia Interior? Ou para as zonas ardidas este ano (há uma ampla escolha neste critério) para um campo de reeducação pelo trabalho?

Depois dos desaires do cenário composto pela universidade e dos ministros que não revelaram adequada veneração pelo seu bom pastor, felizmente a assistência portou-se à altura quanto à devoção e ao respeito pelo aniversariante governo. Não houve perguntas difíceis, foram exibidas publicamente simpatias por tão excelso grupo, só faltou alguma das senhoras questionadoras assumir uma paixão secreta por Mário Centeno e enviar-lhe o número de telefone tossicando em código Morse.’

O texto com princípio meio e fim está aqui.

Leitura recomendada

O sarilho catalão, opinião de Bruno Alves no Jornal Económico.

Como mais ou menos toda a gente, tenho acompanhado com interesse e estupefacção os acontecimentos na Catalunha, onde um grupo de gente de penteados esquisitos e higiene pessoal duvidosa parece estar empenhado em dar início a uma nova guerra civil espanhola. Mas maior interesse e estupefacção tenho tido com o entusiasmo com que aqui em Portugal e um pouco por essa Europa fora muita gente parece ter simpatia e apreço pelas acções e opções dos “independentistas” catalães. Mais tolos que tolos só mesmo os tolinhos que os seguem.

Os argumentos da autodeterminação do “povo” e da ilegalidade do processo de secessão com que os dois lados se digladiam não me comovem particularmente. Os “povos” não têm vontade: uma parte dos ditos tem uma vontade, outra tem outra, e as duas não formam uma terceira, “Geral”. Um país torna-se independente quando uma dessas partes consegue ter força (nas suas várias formas) para a impôr ao país de que fazia parte e à parte do seu “povo” que não quer tornar-se independente. Os EUA, por exemplo, tornaram-se independentes não por ter sido a vontade do “nós, o Povo” supostamente autor da Declaração de Independência, mas porque a parte do povo que queria ser independente ganhou uma guerra civil à parte que não queria, e décadas mais tarde, a Confederação não se tornou independente porque quem queria ser independente não conseguiu ganhar uma guerra civil aos que não queriam que eles fossem independentes, não por a secessão ser ilegítima. (…)

Guerra às crianças

O meu texto de ontem no Observador.

‘Eu sei, eu sei: os milhões doados para alívio das vítimas de Pedrógão, de que o PS apressadamente se apoderou para distribuir como se fosse a generosa origem do dinheiro, estão em parte incerta; o relatório sobre Pedrógão foi atrasado para depois das eleições autárquicas, que o PS não brinca em serviço nem deixa que 66 mortos lhe atrapalhem pretensões eleitorais; a ministra da Administração Interna pede relatórios atrás de relatórios sobre o que corre mal – no caso, as refeições próprias de alturas de más colheitas na África subsaariana dadas aos bombeiros – como se não lhe coubesse antecipadamente garantir que uma ou outra coisa, pelo menos, corresse bem. E um quilométrico etc.

Mas deixem-me voltar ao caso dos cadernos de atividades que foram retirados por coação do ministro Eduardo-‘frígida’-Cabrita e a sua Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Porque, com a recomendação da CIG, iniciou-se a tentativa de institucionalização daquilo que as crianças do sexo feminino não podem fazer.

Em 1917 as meninas tinham de ser prendadas, não podiam correr como os rapazes nem subir às árvores, tinham de saber bordar e tocar piano, usavam roupas que lhes tolhiam os movimentos, desporto só, com sorte, ténis. Em 2017, as meninas não podem vestir cor de rosa (atenção, um menino transgénero pode vestir cor de rosa para se afirmar menina, mas as miúdas têm de escolher azul ou uma cor neutra), as princesas foram guilhotinadas e joguem futebol feminino faz favor.

Os espartilhos colocados às meninas mudam mas permanecem afiados. Jamais deixar a meninada escolher cores e atividades e brinquedos, com toda a liberdade conforme os gostos, desde o karaté à ginástica rítmica. Melhor negar o direito às miúdas de usufruírem de qualquer divertimento associado ao universo feminino. (Horror! Repitam mantras satânicos para vos proteger desse pavor que são TODOS os comportamentos femininos.)’

O resto está aqui.

Os mortos são um pormenor

O meu texto desta semana no Observador.

‘1. Em 1958, Mao Zedong lançou o Grande Salto em Frente. Alucinadas políticas agrícolas, industriais e de obras públicas, de conceção inteiramente humana, resultaram, segundo o académico Frank Dikötter, em pelo menos 45 milhões de mortos. Qual foi a desculpa oficial apresentada pelas autoridades chinesas para a fome e os mortos? Ora: houve uma sucessão de calamidades naturais que resultaram em colheitas minúsculas. Este tempo ficou conhecido como os ‘três anos de desastres naturais’.

Francisco da Silva Costa, Miguel Cardina e António Avelino Batista Vieira, em ‘As inundações de 1967 na região de Lisboa, Uma catástrofe com diferentes leituras’, sobre a tragédia das ditas cheias, verificaram que a imprensa amiga do regime focava as notícias no sentimento de fatalidade, no impacto das causas naturais e na generosidade geral que se seguiu. (Reconhecem?)

É próprio de ditaduras culpar desastres naturais por mortes evitáveis. Há que impedir contestação e protestos por incompetências e negligências dos queridos líderes. É neste quadro que devemos ler os argumentos dos jornalistas engajados que nos querem convencer que nada há a fazer porque a floresta arde, o aquecimento global está aí – e fica tudo dito.

É neste contexto também que enquadramos a história tão prontamente cozinhada por todas as autoridades, a do desastre natural incontrolável e das condições climatéricas atípicas (alguma vez se viu neste polo norte onde vivemos altas temperaturas e baixa humidade?). Uma situação imprevisível (a geringonça tinha dado ordem ao clima para só se fazer notar a partir de 1 de julho, e ninguém está a reprovar devidamente esta irreverência climática). Num país onde nada se descobre, em poucas horas encontrou-se a maldosa da árvore que recebeu o raio e matou toda a gente. A culpa é da árvore, do raio e, se há culpa humana, é da aleivosa criatura que ali a plantou há algumas décadas. Ao jornalista Sebastião Bugalho, do i, a gente da zona contou que a trovoada seca ocorreu depois do fogo deflagrar. Devem ter inalado fumo de alguma plantação ilegal de marijuana que ardeu.

2. Foi bom ver as gelatinas que nos governam. Num momento em que precisávamos de gente de cabeça fria e decisão certeira, a pessoa do Palácio de Belém e o secretário de estado deixaram-se fotografar, na noite do desastre, emocionados, abraçados, como se a desabar. A ministra Urbano de Sousa teve a falta de noção de falar dos seus estados emocionais numa entrevista televisiva. O primeiro-ministro, em vez de se mostrar ao comando, tuitou-se a abraçar uma senhora.

Indecorosa utilização das emoções. Quando necessitávamos de confiar que nos protegiam, apresentaram-se como se lhes devêssemos dar um lenço para assoar as lágrimas.’

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Mandar na propriedade dos outros

O meu texto de hoje no Observador.

‘Percebo: somos um país de invejosos do sucesso e do dinheiro alheios; e o PS achou por bem capitalizar eleitoralmente esta infeliz característica. Também percebo: somos um país com pouco apreço por esse direito fundamental, o direito à propriedade privada. Que inclui, claro, o mais amplo uso dessa propriedade para os fins legais que o proprietário entende.

A terraplanagem socialista quer ganhar votos com as pessoas que ficam com ataques de nervos por não conseguirem arrendar casas nas zonas históricas das cidades, mormente Lisboa. Porque, meus amigos, toda a gente sabe que é um direito inalienável arrendar casas nos centros históricos. Mais ou menos como aquele por que a JS clamava em 2009: o direito ao TGV. Coitadas das pessoas. Há três anos nunca quereriam ir morar para os centros históricos, no tempo daquele passado glorioso: o dos inquilinos que pagavam escassas dezenas de euros a cada mês por uma casa onde cabia uma família média. Com estas boas rendas, os prédios apresentavam-se de tinta descascada e janelas apodrecidas. E não incomodava gente cool que também não existissem casas para arrendar, porque estavam ocupadas pelos contratos de há cinquenta anos a setenta euros por mês.

Mas por estes dias entendem que alguém tem a obrigação de lhes arrendar casa – com renda acessível se faz favor, que não queremos cá usuras. Estas pessoas estão generosamente dispostas a ocupar as casas que outros recuperaram (com expetativa de outro negócio), em troca de renda parca, tudo para livrar os proprietários do pecado da ganância. São uns beneméritos, no fundo.

É o persistente problema do PS e seus satélites: percebem muito de lirismo e pouco de racionalidade económica. Julgam sempre que, se exterminarem um negócio, por artes mágicas a oferta antes da destruição se manterá depois. Não vislumbram, nem com desenho, que se impedirem (via obstrução dos condomínios) o arrendamento local, as casas atualmente disponíveis para esta atividade não vão assim continuar para arrendamento permanente; nem surgir novas. Estes proprietários irão aplicar o dinheiro noutro lado.’

O resto está aqui.

O homem que estava lá

(O meu artigo de hoje no Jornal Económico)

Na passada segunda-feira, para comentar a boa-nova de que a Comissão Europeia libertara Portugal do “procedimento por défice excessivo”, a RTP achou por bem emparelhar o conhecido economista Vitor Bento com o habitual comentador da estação Fernando Teixeira dos Santos, que passou os 28 minutos do segmento a aplaudir o “reconhecimento” do “esforço” que a sociedade portuguesa fez e a dizer que “há que manter esta linha de rumo” de “rigor” orçamental para “manter a confiança que já se faz sentir” e “não se perder esta oportunidade para consolidar estes ganhos”, depois de se “aprender com os erros cometidos no passado”: “os telhados”, concluiu, “consertam-se quando faz sol, não quando está a chover”.

Teixeira dos Santos falou como se nunca tivesse tido responsabilidades governativas, nem no caminho que obrigou os portugueses ao tal “esforço” de que falou. Mas teve, e grandes, por muito que a RTP (que imagino não lhe pague pouco) e quem o ouve como uma voz credível, esqueça ou finja esquecer que ele foi durante anos e até para além do dia em que foi preciso chamar “a troika” o Ministro das Finanças do ex-primeiro Ministro sob suspeita de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais José Sócrates.
Teixeira dos Santos chegou ao Ministério das Finanças bem no início do consulado “socrático”, depois – sublinhe-se – do pobre Luís Campos e Cunha se ter inicialmente deixado enganar pela propaganda do “engenheiro” e posteriormente apercebido daquilo em que se tinha metido, tendo vindo então a público afirmar que o caminho que se estava a iniciar acabaria por ter resultados desastrosos. Teixeira dos Santos, que obviamente não desconhecia o aviso, não entendeu que este merecesse cuidado, e aceitou substituir Campos e Cunha no Ministério das Finanças. A partir desse momento e até ao fim, tornou-se e permaneceu um cúmplice e co-responsável pela fraudulenta política financeira de Sócrates.

Teixeira dos Santos era o Ministro das Finanças quando o governo de Sócrates fingia, através dos mais variados truques, cumprir um défice que estava longe de estar efectivamente controlado. Era o Ministro das Finanças quando o governo de Sócrates se entreteve a aumentar a despesa pública para dar “confiança” à economia. Era o Ministro das Finanças quando o governo de Sócrates, à beira de eleições, decidiu comprar votos com um aumento de salários dos funcionários públicos e uma descida de impostos que abriram um buraco no Orçamento do qual Portugal nunca mais conseguiu sair. E era o Ministro das Finanças quando o governo de Sócrates andou alegremente de PEC em PEC até à bancarrota final. Depois da derrocada, relatos mais ou menos detalhados do caos no “bunker” socrático naqueles atribulados dias do seu crepúsculo começaram a sair na imprensa, e fizeram Teixeira dos Santos parecer, por comparação com o Primeiro-Ministro e alguns dos seus acólitos, um tipo sensato que, à beira do descalabro, não ignorava a realidade como o alucinado líder governativo que achava que tudo estava bem. Mas o facto de ter sido a pessoa que confrontou o lunático que o chefiava com a fatal constatação de que a loucura pela qual partilhavam responsabilidade tinha chegado ao fim não o iliba de ter sido co-autor dessa loucura.

É claro que Teixeira dos Santos, como qualquer outra pessoa, até maus governantes como foi o seu caso, tem o direito de se vir aliviar publicamente dos seus estados de alma sobre a actualidade. Mas num país normal, com uma comunicação social que merecesse ser respeitada pela população e que se desse ao respeito, ninguém lhe daria o palanque que televisões e jornais lhe continuam a dar. Que a RTP, paga com o dinheiro dos portugueses, seja um agente cimeiro da imerecida reabilitação de Teixeira dos Santos só piora as coisas. E que fora do PS e das redacções que lhe são simpáticas haja quem esteja mesmo convencido de que Teixeira dos Santos é mesmo uma voz credível que merece ser ouvida sobre a situação e o futuro de Portugal ajuda bastante a explicar como o país é o que é.

O Governo placebo

(artigo publicado hoje no Jornal Económico)

Jorge Bergoglio, o responsável máximo da Igreja Católica mais conhecido pelo seu nome artístico de “Francisco” e expoente máximo da moderna falsa “autenticidade” dos afectados “afectos” e dos afortunados que vêem virtudes na pobreza que não têm de suportar (da qual o nosso Presidente é o maior representante local) veio a Portugal participar num mega-evento televisivo na Cova da Iria, e um pouco por todo o país, os funcionários públicos aproveitaram a ocasião para gozarem um dia de férias extra o mais longe possível das festividades. Tudo porque o Primeiro-Ministro António Costa resolveu aproveitar o pretexto da “excepcionalidade” da visita papal para contentar a referida (e vasta) clientela com um dia de “tolerância de ponto”, revelando o carácter e natureza do seu Governo.

Num artigo recente, intitulado America’s Placebo President? – “O Presidente Placebo da América?” – Tyler Cowen argumentava que o apelo de Donald Trump junto dos seus eleitores se deve não tanto à substância das suas políticas ou aos resultados que delas esperam, mas da forma como o primeiro Presidente laranja dos EUA, com a sua “retórica” e postura mediática, lhes “sinaliza” que está do seu lado nas “guerras culturais” americanas. Por outras palavras, Cowen acha que Trump apela aos seus fãs não porque eles esperem que ele melhore as suas vidas, mas porque os faz sentir melhor, oferecendo-lhes com a sua pessoa “uma voz pública” e “a ilusão de maior controlo sem o controlo propriamente dito”.

O governo de Costa, no fundo, serve um propósito semelhante, ajustado à medida do nosso provincianismo e pobreza relativa. Ninguém, no seu perfeito juízo (o que já limita de forma mais ou menos significativa o universo de portugueses a que isto se aplica), acredita mesmo que as políticas que Costa e os seus subalternos têm aplicado vão trazer uma grande prosperidade ao país, conseguir um “crescimento” que se veja ou “modernizar” o que quer que seja. No entanto, a crer nas sondagens, há uma satisfação geral com a governação socialista, ou, no mínimo, uma indiferença generalizada em relação à sua inconsequência. Não seria de espantar que tal se devesse ao facto do Governo, com as suas “devoluções”, “reversões” e proclamações de “virar da página da austeridade”, estar, embora sem nada fazer para realmente resolver qualquer um dos problemas estruturais que nos atormentam e mantendo o “livro” da dita “austeridade” bem aberto (com algumas clientelas poupadas ao esforço), a sinalizar que “os tempos difíceis” já passaram: Costa, os seus validos, e “idiotas úteis” (para usar o termo técnico) como os faladores do BE (o PCP presta-se menos a tais figuras) oferecem aos portugueses uma “voz pública” para o seu cansaço com os vários “apertos de cinto” que têm sofrido nas últimas décadas e com as exigências da “Europa”, e uma “ilusão de maior controlo” sobre o seu futuro económico e financeiro, mesmo que “sem o controlo propriamente dito”. A “tolerância de ponto” não serve apenas para dar um rebuçado aos funcionários públicos: serve para que os portugueses sintam que as coisas já não estão tão complicadas como estavam há uns anos atrás, mesmo que nada tenha realmente mudado.

Diga-se que o Governo anterior não era muito diferente: a sua retórica reformista escondia uma política profundamente imobilista, com a qual aos “cortes” (de salários ou pensões) ou “aumentos” (de impostos) não correspondiam medidas estruturais com efeitos duradouros. Se o governo actual oferece “tolerâncias de ponto”, o anterior “acabava com feriados”, uma medida irrelevante mas que sinalizava, sem afectar qualquer interesse realmente poderoso, que as coisas não podiam continuar como nos tempos da fraude “socrática”, dando uma “voz pública” à necessidade de maior rigor e uma “ilusão de controlo” perante a bancarrota sem que nada fosse feito que prevenisse a sua repetição no futuro.

É esse, aliás, o grande problema dos governos que sucessivamente nos têm pastoreado: todos eles se comportam como um médico que acha que a melhor forma de lidar com uma doença de um paciente é mascarar-lhe os sintomas, em vez de efectivamente a tratar. Durante uns tempos, há mesmo quem acredite que está tudo bem. Mas mais tarde ou mais cedo, acabamos sempre por descobrir que esse está longe de ser o caso, e que pagaremos cara a falta de juízo e honestidade de quem os deveria ter.

Não tenho culpa da escravatura. E não pago.

O meu texto de hoje no Observador.

‘Bom, por Portugal pastoreia-se agora um tema tão pertinente quanto os anteriores. Tome conhecimento o leitor que precisa de dedicar amplo tempo do seu dia à problemática da escravatura. Escravatura? – pergunta o leitor espantado. E cogita com os seus botões que nunca viu um escravo, nunca possuiu um escravo, indigna-se quando lê reportagens denunciando escravatura no século XXI em zonas de África ou da Ásia ou ligada ao tráfico sexual aqui na Europa. Que diabo esperam mais do leitor desprevenido?!

Aparentemente é nossa urgente obrigação – mais de dois séculos depois da abolição da escravatura em território português e de um século depois da abolição em todo o império português – debater as culpas de Portugal na história da escravatura e do comércio de escravos. Na verdade, lendo certos textos, desconfio que se espera de nós que qualquer boa mãe e bom pai de família se entreguem à penitência, batendo com contrição no peito enquanto envergamos uma canga, por, há vários séculos, um ou outro dos nossos antepassados possuírem ou comercializaram escravos. Mais: há até quem questione se nós – contribuintes que nunca escravizámos ninguém – deveríamos pagar indemnizações aos descendentes dos escravos. (Este debate é tanto mais importante quanto não há uma vítima viva do comércio de escravos português.)’

O texto completo está aqui.