Narcosoe

A deliciosa vida política de Pedro Sánchez, o grande líder do PSOE.

 

Quão miserável é Corbyn

corbyn

O fim de um partido? por Paulo Tunhas, n’ Observador.

(…) Corbyn representa, como se sabe, a “esquerda dura” do trabalhismo, no seguimento do seu mentor Tony Benn, que, de resto, começou na ala direita do partido. As tradições são o que são, e a “esquerda dura” trabalhista tem uma longa tradição e sempre foi mais ou menos activa. Mas esta nova encarnação vegetariana, abstémia e pacifista oferece um radicalismo que não parece ter tido antes uma tão plena oportunidade de se manifestar na chefia partidária. E Corbyn anda bem acompanhado, como por exemplo por um seu importante e muito próximo ministro-sombra, John McDonnell, que recentemente se recusou a pedir desculpa por ter apelado ao linchamento da deputada conservadora Esther McVey. McDonnell tem de resto uma longa história no capítulo: em 2003 elogiou, lembra a Economist, “as bombas, as balas e o sacrifício” do IRA.

O velho radicalismo da “esquerda dura” trabalhista – nacionalizações extensas, desarmamento nuclear unilateral, eliminação das bases americanas, anti-europeísmo manifesto ou mais ou menos disfarçado, etc. – encontra-se devidamente complementado em Corbyn por outras posições próprias ao presente. Tal como o antigo mayor de Londres, Ken Livingstone, Corbyn elegeu Israel como o seu ódio de estimação. Defendeu, por exemplo, os autores do atentado bombista de 1994 à embaixada israelita em Londres. E, naturalmente, é dotado de uma vasta complacência para com o islamismo radical. Corbyn, de resto, e só superficialmente há incoerência nisto (é unicamente Israel que se quer atacar), não vê grande diferença entre Israel e o Estado Islâmico.

Lindos e sem make-up

avante

PCP e Rússia, no Avante.

(…) Na explosiva confrontação em curso, o capitalismo russo não pode prescindir do legado da época soviética. Mas as contradições entre a política interna e externa da Rússia, expressão da complexidade da luta de classes, continuam a pairar perigosamente sobre o futuro do país da Revolução de Outubro no século XXI.

Com estes truques, a imprensa está a desaparecer

traques

O artigo do Expresso intulado “O povo português está a desaparecer” pode ser lido aqui. Os dados têm como fonte a Portada.

Nacionalizado ao Romeu Monteiro.

 

Obrigado

Agradeço em nome do Colectivo Insurgente as muito simpáticas palavras de Luís Menezes Leitão, ainda que pessoalmente fique sempre um pouco desconfortável com paralelismos com O Independente (por razões que expus, em parte, aqui). Em qualquer caso, fica o genuínio agradecimento.

Diversão à esquerda

cartaz
O cartaz que respeita a tradição de design a que o PCTP/MRPP nos habituou foi colocado na Venda Nova (Amadora), onde habitualmente o partido coloca a propaganda.

As mentiras do Arnaldo.

A título meramente exemplificativo, destaco o post Povo Exige Internamento de Arnaldo Matos, datado de 23 de Setembro e que reza assim:

Durante esta noite, numa grande acção de repudio pelo assalto do ditador Arnaldo ao PCTP/MRPP, foram afixados por todo o País incluindo regiões autónomas, uma série de cartazes.

Recordamos que pela primeira vez na sua história, o PCTP/MRPP não celebrou a sua data de fundação. O povo não deixou passar em claro o golpe do Arnaldo e sua seita.

José António Saraiva e São José Almeida: descubra as diferenças

Os homosexuais fassistas não têm direito à privacidade do túmulo…

Nova oportunidade para os críticos de cartoons XVI

hattar

Nahed Hattar já não blasfema. Foi assassinado por um imã à porta do tribunal onde iria ser julgado por insultar o Islão, a religião da paz.

A prominent Jordanian writer was shot dead by a suspected Islamist gunman on Sunday outside the courtroom where he was due to stand trial for offending Islam by sharing a cartoon on Facebook.

Nahed Hattar, a 56-year-old intellectual from Jordan’s Christian minority, was gunned down on the steps of a courthouse in Amman in what appeared to be a religiously motivated attack.

The gunman was arrested at the scene and a Jordanian security source identified him as Riyad Ismail Abdullah, a 49-year-old imam who was wearing traditional Islamic robes at the time of the shooting.

The alleged shooter recently returned from making the Hajj pilgrimage to Saudi Arabia, the source said. The gunman is believed to have acted alone rather than as part of an organised group.

The high-profile murder is a fresh blow to Jordan’s image as a bastion of stability amid the sectarian violence that is wracking much of the Middle East and the latest in a long string of killings across the world linked to cartoons about Islam.

Mr Hattar was arrested in August for sharing a cartoon on his Facebook page which showed a jihadist smoking in bed with two women while Allah waits attentively at the window for him.

The jihadist orders Allah to fetch him some wine and take away the dirty plates while demanding the archangel Gabriel get him some cashew nuts.

Mr Hattar said the cartoon was intended to mock jihadists and their twisted interpretation of Islam but Jordan’s government charged him with insulting the faith and “provoking sectarian rifts”.

The writer rejected the charges and planned to fight the case. If convicted, he could have faced up to three years in prison. (…)

Leitura dominical

Mais depressa se apanha o dr. Louçã do que um coxo, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Há oito dias, escrevi aqui sobre o livro Homossexuais no Estado Novo, onde a “jornalista” São José Almeida inventariou, sem o consentimento dos próprios e com alegada legitimidade académica, a orientação sexual de diversas figuras mais ou menos ligadas ao regime anterior. A coisa veio a propósito de um livro recente de José António Saraiva, Eu e os Políticos, nova colectânea de mexericos (a acreditar na imprensa) que deu brado principalmente por causa da anunciada, e entretanto cancelada, apresentação a cargo de Pedro Passos Coelho. No fundo, limitei-me a notar que, excepto pelas inclinações ideológicas dos autores, não compreendia o escândalo provocado pela segunda “obra” face à indiferença ou à exaltação suscitadas pela primeira.

Pois bem. Num blogue que mantém no Expresso (Tudo Menos Economia), Francisco Louçã resolve proclamar que o opúsculo do arq. Saraiva foi “defendido naturalmente por um cavalheiro do mesmo calibre que dá pelo nome de Alberto Gonçalves, no DN, e porventura por ninguém mais”. Na mesma página, em resposta a um leitor que discordava da afirmação, o dr. Louçã acrescenta: “Que bem que lhe fica defender o Gonçalves, que defende o Saraiva como pode e mais não consegue.” Abaixo, em resposta a outro leitor, o Louçã, perdão, o dr. Louçã (não quero intimidades com gente dessa) aconselha: “Leia todo o artigo do Gonçalves para ver como ele banaliza o feito do Saraiva.” Questionado por um terceiro leitor acerca do Homossexuais no Estado Novo, afinal a referência que permitiria determinar a “banalização”, o dr. Louçã esclarece: “Não li.”

Regresso à crónica da semana passada para lembrar a minha “defesa” arrebatada do Eu e os Políticos, da qual sinceramente não fazia ideia. Talvez por não ter existido. Fundamentado nas citações e alusões que saíram nos jornais, chamei-lhe “baldinho de lixo”, e garanti não duvidar de que se tratava de “uma porcaria”. É certo que não cheguei a exigir a lapidação ou o enforcamento do arq. Saraiva, mas isso deve-se apenas à brandura do meu carácter. Em qualquer dos casos, suponho, “lixo” e “porcaria” não são epítetos habitualmente utilizados na defesa seja do que for. Em qualquer dos casos, ou o dr. Louçã é demasiado burgesso até para os padrões do Bloco de Esquerda ou, para recorrer à deprimente retórica parlamentar, o dr. Louçã faltou à verdade. Em português, palpita-me que o dr. Louçã mentiu. E mentiu de maneira tão tosca, no sentido em que a verdade é tão fácil de repor, que o facto só tem uma explicação.

Ao longo da sua curiosa carreira, o dr. Louçã contou sempre com uma plateia de bonequinhos amestrados que levam a sério os incontáveis disparates que regularmente profere. Se a criatura se alivia de uma mentira pequenina, os bonequinhos acreditam. Se a mentira é grande, os bonequinhos acreditam também. Há muito que a criatura percebeu não valer a pena enfeitar as absurdas intrujices que diz, um produto com procura suficiente para, no estado bruto, permitir-lhe ganhar a vida sem preocupações. À semelhança dos correligionários dele, o dr. Louçã é, literalmente, um mentiroso profissional, ofício para cúmulo favorecido pela reverência dos media, a indigência da universidade que o emprega e o enviesado primarismo do nosso “debate” público. E como mentiroso profissional é incansável: se o dr. Louçã dá os bons-dias, é garantido que está a chover.

Admito que nada disto possui particular importância. Simplesmente não gosto que me acusem de proezas que não pratiquei. Por uma vez, convém que as desastradas mentiras do dr. Louçã não fiquem impunes. Por uma vez, uma singela vez, é higiénico avisar que tudo o que sai da cabecinha daquela criatura não passa – vamos lá rever a matéria – de um lixo e de uma porcaria. E agora espero encarecidamente que o dr. Louçã não me acuse de defendê-lo a ele, uma inominável vergonha e uma calúnia ainda maior do que a da defesa do arq. Saraiva.

Mariana Mortágua e a bloquização do PS

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O meu artigo desta semana no Observador: A bloquização do PS. Por André Azevedo Alves.

O ataque de Mariana Mortágua contra a poupança esconde por isso um outro julgamento: o de que a generalidade da actividade económica no contexto dum sistema capitalista é intrinsecamente ilegítima. Só isso justifica a condenação generalizada da acumulação da riqueza. Juntem-se as declarações de Mortágua à afirmação por parte de Catarina Martins de que comprar casa não é investimento e aos planos para dar acesso ao fisco aos dados de quem tenha contas bancárias que superem os 50 mil euros e ficamos com uma ideia mais clara das intenções e objectivos da “geringonça” neste domínio.

Adenda: Só depois de publicar o post me apercebi que o Miguel Noronha muito gentilmente já o havia aqui linkado. Manterei ainda assim este post por causa da imagem que o ilustra.

Cleptomaníacos unidos, coligação de governo ao seu dispor

O meu texto de hoje no Observador.

‘Como se não fosse tudo muito claro, o tuit a seguir clarificou. Mariana Mortágua não quer que o número de milionários aumente. Percebem? O bloco e o PS não querem cá ricos neste país. Xô. Era o que faltava. Há governos que têm como objetivo não deixar que o número de pobres aumente, preferencialmente que o número de pobres diminua. O BE e o PS têm como finalidade da governação algo muito mais à frente: impedir que as pessoas enriqueçam.

Portanto, querido concidadão, gosta daquele conceito que é a ascensão social? Pois emigre, que por cá não queremos gente com desejos imorais de subir na vida. Nasceu pobre? Fique lá, e agradeça as esmolas que BE e PS querem dar para lhe comprar o voto. É remediado? Pois dê-se por satisfeito e fique quieto, nada de estudar nem de mandar os filhos para a universidade a ver se conseguem empregos mais bem pagos que os dos seus pais.

Não é uma maravilha de desígnio para um país? Sugiro que nas próximas eleições os cartazes do PS apregoem ‘não queremos gente rica’ e ‘imobilidade social sempre’.

Mas atenção: isto melhora. Entrou em cena Catarina Martins. E se no BE uma doutoranda em Economia tem este nível teórico indigente, imagine a atriz e encenadora. Catarina não desiludiu: ‘Comprar casa não é investimento. Investimento é quando se cria valor. Investimento é quando se criam postos de trabalho’.

Uau. Pela mesma ordem de ideias, uma empresa que compre um escritório mais espaçoso, mais bem situado e mais confortável – em vez de deixar os trabalhadores num pardieiro – também não está a investir, já que não construiu nada. E, gente que trabalha em imobiliárias, estão ver? O vosso trabalho não cria valor nem serve para nada. Embrulhem. É óbvio: comprar uma casa com melhores condições onde a nossa família viva bem, perto de escolas boas onde os nossos filhos possam ter sucesso académico, que não implique perder excessivo tempo no transporte para o trabalho, vê-se logo que não é um ‘investimento’. Não estamos a investir na qualidade de vida familiar. Nem na melhoria de perspetivas dos nossos filhos. Nem a adquirir um valor que os nossos descendentes um dia herdarão. Nada disso. Parabéns, Catarina.’

O texto completo está aqui.

Mentiras, mentiras malditas e estatísticas

Foi feito um estudo pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, com o apoio do Expresso e da SIC, entitulado “Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal”. Aceitando o uso algo banalizado que se dá à palavra “estudo” e ignorando o oxímoro de alguma vez um estudo poder ser apoiado pelo Expresso e pela SIC, o resultado em si tem bastante a apontar. Quanto mais não seja pela forma como o dito estudo é usado por Pedro Santos Guerreiro para pintar um quadro onde o empobrecimento do país em consequência da crise passa a ser da responsabilidade da política de austeridade. Afinal, diz PSG, os pobres perderam mais rendimento que os ricos e a classe média. A desigualdade aumentou, como consequência da austeridade que falsamente se disse poupar os mais pobres.

De imediato surgem dois pontos a apontar: A escolha de 2009 como ano base inicial e a escolha do rendimento no final como base para medição da quebra de rendimento no período. A primeira escolha é importante porque 2009 foi o ano em que se registou a menor desigualdade de rendimento de sempre desde que há dados. O menor índice de gini. O menor rácio S80/S20. Etc. Se fosse um ano antes ou depois, o quadro seria bastante diferente. A desigualdade é bastante menor hoje do que há dez ou vinte ou trinta anos, mas o que interessa é comparar com 2009, o ano em que Sócrates aumentou salários e transferências e baixou impostos para ganhar as eleições. A segunda é importante porque se por um lado espelha uma realidade que é triste, fá-lo escondendo a verdadeira tristeza. Para alguém que perdeu o emprego entre 2009 e 2014, não conseguindo outro e perdendo entretanto o direito ao subsídio de desemprego, a quebra de rendimento é perto de 100%. Face ao aumento de desemprego enorme que ocorreu no período (apesar do pico ter sido em 2013), houve um conjunto de pessoas cujo rendimento teve essa terrível queda. É preciso ainda considerar que algumas dessas pessoas poderão estar nesse escalão mais pobre pela realidade do seu rendimento no instante temporal em que acaba o estudo, mas na realidade não são aquilo a que alguém chamaria “mais pobre”. Uma pessoa da classe média alta que perca o emprego cai nesse escalão por estar desempregada, mas muitas vezes até poderá manter um nível de vida bastante acima de alguém que seja realmente pobre (a não ser que a sua situação de desemprego subsista crónicamente por mais anos).

Sem acesso aos dados crús do dito estudo, arrisco-me a dizer ao PSG que se comparássemos o rendimento dos 2,5% mais ricos versus os 2,5% mais pobres, de acordo com as definições usadas, os primeiros teriam uma queda relativamente pequena e os últimos uma queda de quase 100%. Acrescentaria que dos 2,5% mais pobres, nenhum teria sido funcionário público ou quadro de uma empresa pública. Seriam trabalhadores por conta de outrém de empresas privadas que ou fecharam ou tiveram despedimentos colectivos por não conseguir financiamento. Isto apesar das garantias dadas há uns anos pelo deputado João Galamba que o “crowding out” do sector privado pela dívida do sector público aos bancos eram uma “narrativa” da direita. Tudo indica que Carlos Costa tinha razão. Mas enfim, à falta do Bush a culpa é da austeridade.

19.000

A Comunidade Insurgente no Facebook agrega já mais de 19.000 pessoas.

Estão também de parabéns o Carlos Guimarães Pinto e o Helder Ferreira pelo extraordinário sucesso dos seus posts Contos infantis para bloquistas – A cigarra e a formiga e Carta à Ministra das Finanças, cada um dos quais com várias dezenas de milhares de leituras no site e mais de 10.000 partilhas nas redes sociais.

Obrigado a todos pela preferência.

Honra e carácter

Vale a pena ler o Sebastião Bugalho, no jornal Sol:

(…)Se José António Saraiva fosse diretor deste jornal, eu, como membro desta redação, poderia acreditar que revelar conversas privadas com políticos – que são fontes do nosso trabalho – não seria a melhor estratégia ou opção. Se José António Saraiva fosse diretor deste jornal, eu teria ido direitinho ao seu gabinete com o dito livro nas mãos e informado que, para mim, a vida pessoal dos políticos é isso mesmo: pessoal. Que nós, sociedade, só temos alguma coisa a ver com isso se o político como nosso representante surgir publicamente acompanhado pelo cônjuge. Que não se usa o filho morto de alguém para expor a vida privada do filho vivo. Que não se utiliza jornalismo para atacar a família de figuras públicas.

Como colunista, tenho apenas a dizer que é grave se Passos Coelho – protocolar e institucionalista – vá mesmo apresentar uma obra sobre alegados segredos de alguém que liderou um governo com ele. Não há honra nenhuma em manter a presença se, ainda por cima, nem sabia do seu conteúdo ao aceitar o convite. Honra seria assumir que errou e voltar atrás.

(Texto completo na página online do Jornal Sol)

Leitura dominical

Na cama com os pulhas, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

(…) Uma das gémeas Mortágua, família cuja notoriedade define o país, mostrou quem realmente governa isto e anunciou um novo imposto sobre o património imobiliário (“para apanhar quem escapa ao IRS”). O PCP, que em matéria de assaltos não gosta de ficar à porta e invade furioso a horta, quer alargar o imposto ao património mobiliário, ou seja colocar a mão literalmente na massa. A CGTP, que lutou pela “escola pública” (?), luta agora pelos trabalhadores despedidos dos colégios privados que se empenhou em fechar. O secretário de Estado que viajou à conta da GALP não se demite do cargo mas demite-se de tutelar a GALP. O Presidente dos “afectos” ouviu um par de “homólogos” estrangeiros jurarem-lhe pela pujança da economia indígena e não percebeu o sarcasmo. O – passe a expressão – primeiro-ministro exibiu o imaginário que lhe habita a cabecinha e, em momento de típica erudição, sugeriu a Pedro Passos Coelho que vá caçar Pokémons. O – desculpem o termo – ministro das Finanças, que cá dentro compete em boa disposição com o dr. Costa, andou lá fora a jurar que trabalha imenso para evitar um segundo “resgate”, que na verdade seria o quarto. Os portugueses que ainda não enlouqueceram já nem duvidam da necessidade do resgate, mas duvidam que o tenhamos quando precisarmos dele.

O problema é que os portugueses que ainda não enlouqueceram são uma minoria de resistentes. E um problema maior é que, aos poucos, a resistência perde razão de ser: a cada semana, o ambiente em curso convida à resignação e ao abandono. De acordo com as sondagens, cinquenta e tal por cento dos cidadãos registam os sinais e acham que a coisa vai no bom caminho. No meio da desagregação geral, a opinião publicada aflige-se com a entrevista de um juiz (pretexto para exaltar o eng. Sócrates), as memórias de um antigo assessor (pretexto para criticar Cavaco) e os mexericos do arq. Saraiva (pretexto para demolir Passos Coelho). Portugal é uma casa em chamas onde os moradores só se preocupam com a fechadura que range. Não tarda, estamos a olear a porta reduzida a cinzas. E a culpar a “direita”, a “Europa” e a Via Láctea pelos estragos. A Via Láctea não é nossa amiga.

Perceber a Srª Doutora Ministra das Finanças Mariana Mortágua

Mariana Mortágua afirma, “do ponto de vista prático, a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro“. Percebamos a génese da ideia: afinal a senhora doutora ministra das finanças da geringonça é filha de um assaltante e terrorista.

para contextualizar indignações de gente hipócrita

De facto indigna que uma pessoa escreva um livro a contar a intimidade sexual de outras pessoas, fazendo uso de alegadas confidências de terceiros que já morreram. Mas convém lembrar (e eu lembrei no facebook e este post nasce dessa recordação) que São José de Almeida já fez o mesmo: escreveu um livro onde exibe a homossexualidade de pessoas que já morreram, outras ainda não (tal como JAS), que nunca assumiram essa orientação sexual e que não mandataram (certo pelo menos no caso dos mortos) jornalistas de esquerda para lhes vasculhar assuntos de cama. As informações que revela obteve-as muito por confidências de terceiros que se mantêm anónimos. (Até José António Saraiva é mais corajoso aqui.)

O mais engraçado: é que este livro foi muito apreciado pela gente que agora se indigna apopleticamente com José António Saraiva. As revelações de sexualidade alheia escritas por gente amiga, está muito bem; revelações de sexualidade alheia escritas pelos ódios de estimação, ai o mundo que acabou. É verem por exemplo esta publicidade ao livro de São José de Almeida no jugular. E este texto embevecido de Fernanda Câncio no DN (obrigada pelo envio, João Pereira da Silva). Sobre o livro promovido por Vidal e por Câncio, ler o Malomil. Deixo aqui um pedaço, para se ver o livro que foi promovido.

‘Convém dizer, antes de mais, que a gravidade moral desta empresa jornalístico-historiográfica é adensada por um facto singelo, mas decisivo: na sua esmagadora maioria, as fontes orais a que recorreu São José Almeida reservaram para si o absoluto anonimato. «O que está nestas páginas é […] fruto da recolha de depoimentos de pessoas que são homossexuais e que me deram o privilégio de me confiar as suas experiências, conhecimentos e reflexões, a grande maioria das vezes sob reserva de absoluto anonimato» (pág. 23, itálico acrescentado). Por outras palavras, os homossexuais que falaram com São José Almeida salvaguardaram a sua intimidade. Mas não tiveram pudor em revelar a intimidade de terceiros, já falecidos, sem que a estes, como é evidente, haja sido dada a possibilidade de contraditarem (ou confirmarem) o que sobre eles é dito. Fizeram sair do armário gente morta e indefesa, mas mantiveram-se lá dentro, acobertados, no calorzinho confortável da sua vidinha «normal». […]

Sendo lésbicas ou não, há um denominador comum às várias mulheres referenciadas neste cadastro narrativo: é tudo gente morta. […] Várias, como se vê, morreram já depois do 25 de Abril, muito depois, podendo ter assumido mais livre, enfática e publicamente a sua orientação sexual. Não o quiseram fazer. Mas São José tratou bem delas, fê-las a todas saltar da toca. Cá p’ra fora do armário, vá, suas malucas, que isto de se andar a esconder no roupeiro é coisa bem feia e muito hipócrita.

Ao Capítulo 6 entramos no closet masculino. De acordo com o depoimento do dirigente comunista Ruben de Carvalho, cuja autoridade nestas matérias desconhecemos qual seja, o Subsecretário de Estado da Presidência, Paulo Rodrigues, «era conhecido publicamente pelas suas relações homossexuais» (pág. 126). Também Pedro Feytor Pinto, responsável pelo Secretariado Nacional de Informação, «o António Ferro dos anos setenta», era «assumidamente homossexual» (pág. 126). Porém, nas suas memórias, recentemente publicadas (Na Sombra do Poder, Lisboa, 2011), Feytor Pinto não se revela, em lugar algum, «assumidamente homossexual». Aliás, em duzentas páginas de texto não dedica sequer uma linha à sua intimidade. E o «António Ferro dos anos setenta» está aí, vivo e lúcido, escrevendo memórias, dando entrevistas, aparecendo na televisão, proferindo conferências. Por que motivo não o contactou São José Almeida? Era o mínimo que se impunha, não apenas a uma historiadora como a uma jornalista digna desse nome: cruzar as fontes, confrontar testemunhos, ouvir os visados. Por que não falou a autora com Pedro Feytor Pinto?’

A ASAE ataca de novo

O meu texto desta semana no Observador.

‘Um dos melhores efeitos secundários do governo da coligação PSD-CDS foi a ASAE com trela curta. Depois veio o tempo novo e à esquerda gostam do mundo arrumado, catalogado, com muitos fiscais disto e daquilo a atormentarem as empresas respeitáveis. Donde: a ASAE anda satisfeita a mostrar de novo os caninos aguçados, e até já faz operações na comunicação social queixando-se de necessitar de maior orçamento.

Pelo que sugiro dissecar as atividades da ASAE. E encontramos as seguintes práticas apocalípticas dos privados que a ASAE, num comportamento reminiscente de Tintin a desmascarar traficantes de droga, nos livrou. Há a venda especulativa (não desmaiem) de bilhetes para jogo de futebol. Apesar de não se saber de gangs apontando armas de fogo a obrigar à compra, e de aparentemente os compradores terem pago o valor que atribuíam a verem o jogo dentro do estádio, a ASAE gastou o dinheiro dos contribuintes a impedir valdevinos de venderem bens que eram sua propriedade (os bilhetes) a outros que os queriam comprar.

Numa inspeção a bombas de gasolina, situações mais destrutivas que um atentado terrorista (atos para os quais a ASAE também tem formação) foram encontradas. Houve casos de ‘incumprimento de requisitos gerais e específicos de higiene relativos aos géneros alimentícios’. Não se diz que os géneros alimentícios estavam estragados, e não deixariam de o referir para fins propagandísticos, pelo que presumimos que a falta de cumprimento de ‘requisitos gerais e específicos’ não impediu os ‘géneros alimentícios’ de se manterem em bom estado.

Mas os comportamentos verdadeiramente diabólicos estancados pela ASAE vêm a seguir: ‘desrespeito pelas regras de anúncio de venda com redução de preços e a violação dos deveres gerais da entidade exploradora do estabelecimento de restauração e bebidas’. Uau, a ASAE protegeu-nos do desrespeito pelas regras de anúncio de vendas com redução de preço – mais uma vez foram só as regras desrespeitadas, aparentemente a redução do preço ocorreu mesmo – e de violação de uns misteriosos (mas seguramente essenciais para manter vivos três quartos da população portuguesa) ‘deveres gerais’. Deus guarde a ASAE que tais préstimos nos dá.

O resto está aqui.

Especial Informação Porto Canal – Rentrée política

Para eventuais interessados que não tenham tido oportunidade de ver, aqui fica o video integral do Especial Informação do Porto Canal (dedicado à rentrée política) em que participei juntamente com João Cerejeira, da Universidade do Minho, e Manuel Carvalho, do Público, com moderação de Ana Rita Basto: Especial Informação – 12 de setembro.

A geringonça já esqueceu a reestruturação da dívida?

Talvez seja só eu, mas tenho notado que, dos partidos que apoiam o Governo de António Costa (a dita “geringonça”), apenas o Partido Comunista tem continuado a falar da necessidade de uma reestruturação da dívida, a fim de canalizar financiamento para outras rubricas de despesa no Orçamento de Estado. Nos media nada se ouve do PEV e PAN, provavelmente devido à reduzida representatividade parlamentar. Porém, o Bloco de Esquerda tem sido bastante tímido nas afirmações sobre o assunto.

Já sabemos que, agora no Governo, o Partido Socialista descartou a opção de uso da “bomba atómica” que faria “tremer as pernas dos banqueiros alemães”. Ora, ao dizerem, de antemão, que tal estratégia é um “bluff”, a eficácia da mesma torna-se imediatamente nula. Pois… e ainda dizem que percebem de poker!

Voltemos ao tema da reestruturação da dívida. Porque não, para começo do debate, recusar o pagamento de juros? É basilar no argumento dos comunistas o uso de exemplo do valor pago em juros da dívida ser suficiente para financiar as despesas no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Infelizmente, perante tal exemplificação, os jornalistas nunca lhes pedem para desenvolver a proposta.

É certo que, para convencer os mais incautos, basta comparar os valores do “défice” com os de “juros pagos”. Recorrendo à PORDATA verificamos que o défice em 2015 foi de 5,6 mil milhões de euros e a despesa em juros e outros encargos de 7,1 mil milhões de euros. Portanto, se o Estado português não pagar aqueles juros, obteria logo um superavit de 1,5 mil milhões de euros nas suas contas… Parece simples, não?

No entanto, o não pagamento dos juros coloca o Estado numa difícil posição: sem expectativa de remuneração quem continuará a emprestar-nos dinheiro? Alguns podem pensar que, havendo superavit, a necessidade de financiamento público é reduzida ou até mesmo nula. Estariam errados, pois falta contabilizar o refinanciamento da dívida actual. Por exemplo, segundo o boletim mensal do mês de Agosto do IGCP (pdf), o Estado português tem dívidas a atingirem maturidade, só em 2017, superiores a 16,5 mil milhões de euros (pág. 2 – Saldo nominal vivo de BT e OT / Calendário de Amortizações). Empréstimos para custear este refinanciamento implicará que os novos credores exijam, naturalmente, o pagamento de juros.

Primeiro, podemos considerar um cenário em que a União Europeia assumia o papel de financiador a custo zero. Estariam os contribuintes dos vários Estados-membros dispostos a emprestar tão avultados montantes sem quaisquer condições (i.e. mais austeridade)? Tendo como barómetro apenas a opinião da maioria dos portugueses em relação à dívida da Região Autónoma da Madeira, julgo que a resposta é óbvia: claramente não!

Sendo assim, dado que comunistas (e outros socialistas) recusam a aplicação de quaisquer medidas de austeridade, uma proposta de reestruturação da dívida terá, também, de incluir o não pagamento da própria dívida nominal (e não unicamente os juros). Temos, então, de verificar quem são os nossos actuais credores.

Vamos considerar, a priori, o improvável cenário da rejeição de pagamento de toda a dívida detida por não residentes (BCE incluído) evitar sanções/corte de fundos europeus. Restava o pagamento a entidades residentes em Portugal. Ora, no já referido boletim mensal do IGCP constatamos que – fazendo notar a existência de erro nos arredondamentos (soma dos valores equivale a 101%) – 53% da dívida pública está em posse de entidades portuguesas (pág. 3 – Detentores de Dívida Direta do Estado; residentes + Banco de Portugal). Se, de forma simplista, aplicarmos essa percentagem aos 16.526 milhões euros a pagar em 2017 (pág. 2) obtemos a quantia de 8.759 milhões de euros. Como iria o Estado pagar este valor (tendo em conta que não pagar teria graves consequências para a economia portuguesa)? Não podendo recorrer aos mercados (que exigem remuneração mais alta quanto maior o risco de incumprimento!) o Governo “geringonça” só teria uma fonte de financiamento disponível: os contribuintes. Ou seja, austeridade. Eventualmente até podem chamar-lhe outra coisa, mas, no nosso bolso, o resultado será sempre o mesmo.

Sharon Drummond @flickr.com (creative commons)
Sharon Drummond @flickr.com (creative commons)

Às 22h no Porto Canal

Mais logo, às 22:00, serei um dos participantes no Especial Informação do Porto Canal dedicado à rentrée política.

Socialismo, versão africana

Foto: : NEWSSCAN
Foto: : NEWSSCAN

Quase quatro metros de Robert Mugabe.

(…) “I wanted to make it as big as possible,” he said. “This is our number one so I wanted to give it a strong impression.”

But his work was ridiculed by Zimbabweans on social media, who characterised it as: “Superman in the style of The Simpsons”.

Others suggested that Mr Benhura had committed “career suicide”. “The poor chap is probably at Chikurubi prison by now,” another wrote, referring to Zimbabwe’s best-known jail.

The unveiling came after Patrick Chinamasa, the Zimbabwean finance minister, completed a tour of Europe in a bid to secure agreement for an International Monetary Fund bail-out. The government has also announced a plan to axe 25,000 public sector jobs.  (…)

9/11 2016

How the 9/11 attacks would have been reported based on how Islamic attacks are reported now ….

911

Leitura dominical

A geração mais informada está infestada de patetas, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

(…) Há dias, o DN antecipou online o lançamento. Um leitor criticou de imediato a “publicidade” do “imperialismo” e do “heroísmo parolo” (se fossem sofisticados, os burgessos dos americanos permitiram que os matassem sem levantar problemas). Outros leitores desenvolveram a tese e esclareceram as massas acerca do avião “sem asas” que embateu no Pentágono, da “circunstância” de a maioria dos judeus que trabalhavam no World Trade Center terem faltado nesse dia, dos telemóveis que “não funcionam” nos aviões e, em suma, da “grande mentira que foi o 11 de Setembro”.

É escusado notar que este tipo de delírios não é exclusivo de alguns leitores do DN, ou sequer do público português. Pelo mundo fora, uma extraordinária quantidade de gente acreditou, acredita e continuará a acreditar que o 11 de Setembro constituiu um horrendo embuste da administração Bush para justificar a invasão do Afeganistão e do Iraque. “Fundamentadas” em milhares de sites mantidos por malucos ou vigaristas, há por aí milhões de pessoas aparentemente normais que rejeitam toda a evidência e qualquer réstia de bom senso para acolher “argumentos” estapafúrdios e indignos da cabecinha de uma criança. Na essência, essas criaturas não diferem das que, no século 12, suponham a Terra plana, ou das que, no século XVII, a achavam imóvel. Mas as diferenças no acesso à informação, e a incapacidade em seleccioná-la, assemelham-nas mais aos pândegos, muitos deles jovens urbanos, que negam o evolucionismo das espécies – e não cabe aqui discutir se tão primitiva resistência aos factos é, em sim mesma, um desmentido de Darwin.

Salvo pelos seus partidários, é sabido que as teorias da conspiração são o último refúgio dos nossos ignorantes. O pior é serem também a primeira arma dos nossos inimigos. Existe relativa graça no indivíduo sinceramente convencido de que a equipa da Apollo 11 não chegou à Lua, e imensa graça em imaginar que o indivíduo vive realmente na Terra. A brincadeira adquire maior gravidade sempre que, na sua estupidez, as teorias da conspiração servem projectos criminosos. O comunismo e o nazismo, para citar duas calamidades maiores, não teriam sido o que foram sem a “legitimação” manipuladora providenciada por gigantescas patranhas. E o terrorismo não seria o que é.

As lendas alusivas ao 11 de Setembro constituem o logro voluntário em que caem os ocidentais que não aceitam, ou fingem não aceitar, a culpa do islão. Atentados posteriores atraíram lendas semelhantes, excepto na dimensão. Certas chacinas em França, por exemplo, espevitaram os “conspiracionistas” assumidos: não é estranho que os assassinos do Bataclan tivessem deixado para trás as identificações? Já os “conspiracionistas” dissimulados adoptam a via das dificuldades de “integração” e os “distúrbios psiquiátricos”. A este respeito, duas verdades são inegáveis: o mundo está cheio de doidos, e, à conta de masoquismo e crendices, o futuro do Ocidente promete ainda menos em 2016 do que prometia há 15 anos. (…)

Azeredo Lopes e a possível extinção dos Comandos

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Um caso estranho que se espera possa ser rapidamente esclarecido pelos canais próprios: Azeredo Lopes pertence a outro governo. Nota da direção do Expresso

O ministro da Defesa Nacional disse este sábado de manhã que a notícia do Expresso de que o governo admite a extinção dos Comandos não é verdadeira. E que o Expresso só pode ter falado com “outro governo”. Uma vez que foi o próprio Ministério da Defesa que, pelos canais oficiais, confirmou ontem (duas vezes!) a notícia ao nosso jornal, contamos aqui o sucedido para esclarecimento dos leitores de como o Ministério da Defesa recuou na sua própria informação, enganando-se ontem ou enganando hoje. E concluímos por silogismo que o ministro Azeredo Lopes pertence ao “outro governo”.

Mao Zedong: ‘A revolução não é uma festa’

cultural_revolutionMao Zedong morreu fez ontem quarenta anos, e escrevi um texto para o Observador sobre Mao e a sua liderança do Partido Comunista Chinês e da China. Enjoy.

‘Quando na manhã de 9 de setembro de 1976, há quarenta anos, os altifalantes espalhados pelas ruas das cidades chinesas informaram, “com a mais profunda tristeza, que o Camarada Mao Zedong, o nosso estimado e amado grande líder”[i] morrera durante a madrugada, dias depois do seu terceiro ataque cardíaco em quatro meses, os chineses não ficaram surpreendidos. Durante os milénios da história chinesa os fenómenos naturais haviam sido sempre obedientes a informar as populações sobre a manutenção, ou não, do mandato do Céu pelos governantes. Inundações, terramotos e colheitas destruídas? Eram sinal inequívoco de que a dinastia perdera o favor do Céu e que as populações, seguindo os ensinamentos de Mêncio, poderiam substituir os governantes que tinham perdido a virtude.

Ora a 26 de julho daquele ano, um terramoto violento destruíra a cidade de Tangshan, perto (segundo a perceção das distâncias na China) de Pequim, onde também se sentira o abalo. Evidentemente a informação dada à população foi escassa – sobretudo sobre o número de mortos (estimados entre quinhentos e setecentos mil), sobre a incompetência do Exército de Libertação Popular a procurar sobreviventes entre os escombros e sobre as valas comuns onde se enterraram os cadáveres cobertos de lixívia – mas a notícia foi passando, bem como a claríssima mensagem da natureza: a morte de algum poderoso aproximava-se.

Pelo que aquando do anúncio da morte de Mao, o pesar oficial foi registado e o luto público foi estritamente observado. No entanto, para a população chinesa, bem como para a hierarquia do Partido Comunista Chinês, a reação foi mais de alívio do que de dor. A notícia chegava ao fim dos dez terríveis anos da Revolução Cultural – que proporcionou os animadores números de uns estimados (números de Andrew Walder e Yang Su) um milhão e meio de mortos e cem milhões de chineses perseguidos e punidos. A China estava exausta.

A ausência de tristeza e de choros com a morte de Mao foi mais sintomática por ter ocorrido meses depois da morte do primeiro-ministro Zhou Enlai, a 8 de janeiro de 1976. Zhou era tido pela generalidade dos chineses como a imagem da moderação – por oposição a Mao e aos radicais a quem este, a espaços, dava rédea solta para atormentar as populações – se não mesmo do humanismo no meio da loucura da Revolução Cultural. Quando morreu, maciças manifestações foram espontaneamente organizadas pelos chineses (e meticulosamente reprimidas pelas autoridades) em cidades do norte e do sul da China, do litoral e do interior. Coroas de flores acumulavam-se nas praças das cidades, pessoas choravam, e houve até o desafio ostensivo às autoridades com a ocupação da praça Tian’anmen a 4 e 5 de abril, por altura do Festival Qingming (em que tradicionalmente se prestava honras aos mortos), com direito a carga militar sobre os manifestantes.’

O resto está aqui.

(Um dia destes conto a história da fotografia.)

Síria: back to basics XXVII

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Algumas das razões pelas quais o regime de Assad não ganha a guerra, por Mikhail Khodarenok.

Marcelologia aplicada

Além do meu artigo semanal, tive muito gosto em contribuir para o especial do Observador sobre os primeiros seis meses de Marcelo Presidente, que inclui também análises de Miguel Pinheiro, Paulo Ferreira, Helena Matos, Alexandre Homem Cristo e Vítor Matos. Aqui fica o meu contributo: O Presidente omnipresente.

Numa crise política, perante a impossibilidade de agradar a todos, a popularidade que tem cultivado poderá ser-lhe muito útil, mas será sem dúvida esse o verdadeiro teste de fogo de Marcelo.

Autoajuda para decidir sentido de voto

O meu texto de ontem do Observador. Com incursão lá no fim ao caos em que Fernando Medina colocou Lisboa.

‘Qualquer editora e livraria que se preze tem no catálogo livros destinados a resolverem todos os problemas conhecidos pela humanidade. É um bibliotecário tímido? Dale Carnegie ensina como fazer amigos e influenciar pessoas. Tem dificuldade em encontrar o amor (verdadeiro ou temporário) nesta sociedade voraz e cínica? Livros explicam que proferir dois mantras a cada manhã resulta num príncipe encantado cinco meses depois. Pescado o dito príncipe, ou princesa, descobre que felizes para sempre é treta da Disney? Compre o famoso Os Homens São de Marte, As Mulheres São de Vénus para entender os comportamentos da sua cara-metade interplanetária. Quer ficar rico especulando na Bolsa? Banqueiros de renome (alguns entretanto falidos e perseguidos pelo pouco impressionável sistema judicial) contam-lhe a receita secreta (mas que, por alguma razão misteriosa, não tem produzido milionários de geração espontânea pelo menos ao ritmo da proliferação de vulgaridades no Twitter do deputado João Galamba).

Ora há que dizer que as editoras e livrarias nacionais deviam alargar, com urgência, os assuntos dos livros de autoajuda ao discernimento do sentido de voto dos eleitores nacionais. Era pegar numa qualquer lista de uma revista feminina que elenque os traços do valdevinos que nunca aceitará compromissos e transpô-la para políticos tóxicos. Eu dou uma ajuda.

Exemplo: se um partido político está falido e vive da caridade e da disponibilidade de tesouraria dos seus militantes, então há alguma probabilidade de esse partido político estroina com a sua contabilidade ter também maus resultados nas contas públicas. É natural que um partido político que não tem dinheiro para pagar a eletricidade das suas instalações se dedique, quando governo, a atrasar (ainda mais) os pagamentos aos fornecedores do Estado. Quem não gere bem a sua casa não sabe gerir a casa dos outros ou a casa de todos. Sem surpresas, o partido político falido (PS) foi quem governou treze dos dezasseis anos antes de nos oferecer a bancarrota de 2011. É sempre uma alegria observar comportamentos consistentes nos nossos colegas da espécie humana.

Outro exemplo: há melhor metáfora para o Portugal guterrista e socrático do que a vida de Sócrates em Paris? Sócrates – se acreditarmos na sua narrativa oficial, que já é mais que suficiente para lhe indicarmos o caminho do ostracismo político – vivia em casas caras, com roupas vistosas e custosas, educação xpto para o filho, viagens frequentes. O dinheiro vinha de empréstimos descontrolados, sem atentar ao valor, menos ainda pensando na capacidade de os reembolsar. Se por momentos fingirmos todos acreditar que alguém se endivida com um amigo em meia dúzia de anos a ponto de ter de vender a casa para pagar essas dívidas, o que nos diz isso politicamente de uma pessoa? Devemos votar em quem está disponível para espatifar património duradouro (um bem imóvel que poderia até transmitir aos filhos) para poder comprar ténis Prada?’

O resto está aqui.