Uma lista burkeana para o Natal

Mais uma bela lista de livros para o Natal: Livros para o Natal. Por João Carlos Espada.

Leitura complementar: Pare de acreditar no Governo (e outras recomendações de final de ano).

Educar o Povo

Não o incluí na minha lista de recomendações de final de ano mas, tendo em conta os desenvolvimentos dos últimos meses no PCTP-MRPP, na candidatura presidencial de Sampaio da Nóvoa e no país em geral, esta sugestão do Rui A. tem também plena razão de ser.

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Pare de acreditar no Governo

O meu artigo de hoje no Observador: Pare de acreditar no Governo (e outras recomendações de final de ano).

Porque ganham tanto os trabalhadores das empresas públicas? (II)

O Economista InsurgenteHouve um outro grupo de economistas que, apesar de não ter o currículo de um Mário Centeno, também explicou de forma simples porque é que as empresas públicas pagam tão bem e têm tão grandes prejuízos. Foi num livro lançado no ano passado, mas que ainda dará uma grande prenda de Natal este ano:
(…)Um outro foco de poder nas empresas de transportes públicos são os próprios trabalhadores. Ao contrário dos clientes, os trabalhadores podem causar efetivo dano aos membros da gestão da empresa, através de greves e manifestações. Os prejuízos de uma empresa de transportes têm pouco impacto na imagem dos governantes, mas uma grande greve que paralise cidades faz com que percam eleitores. Sem pressão do lado dos custos (suportados pelos contribuintes), a gestão de uma empresa de transportes públicos tenderá sempre a tentar agradar aos trabalhadores, para dessa forma evitar problemas para os políticos que os colocam à frente dessas empresas. Custe o que custar. E tem custado bastante: No final de 2013 a dívida acumulada das empresas públicas de transportes ultrapassava já os 17 mil milhões de Euros (Fonte: Jornal de Notícias), ou seja cerca de 1700 euros por português, ou cerca de 3400 euros por português a trabalhar.

Em resumo, temos um enorme problema de incentivos. A gestão de uma empresa de transportes públicos tem apenas incentivos a agradar ao poder político e, consequentemente, aos trabalhadores. Os trabalhadores, com tamanho poder negocial, têm fortes incentivos a exigir as melhores condições possíveis para si, independentemente do serviço prestado. O resultado desta situação é o esperado: As empresas de transportes públicos oferecem boas condições salariais e bons horários de trabalho aos seus funcionários, oferecem ainda um conjunto de cargos de gestão apetecíveis para quem consiga agradar aos partidos de poder. No final, as empresas de transportes públicos tornam-se num centro de custos que serve a todos os envolvidos (trabalhadores, gestores e políticos), excepto aqueles que deveria servir em primeiro lugar: Os clientes, e aqueles que suportam os custos, os contribuintes.(…)

Bruno Vieira Amaral ganha prémio José Saramago

primeiras coisasO melhor autor português das primeiras décadas do século XXI – parece pomposo mas é mesmo verdade, e como prova basta apresentar o livro As Primeiras Coisas, onde se passeia, carregadinho de ironia (mas também de bondade) e de forma que nos traz reminiscências de Alice Munro, o drama da vida quotidiana e dessa categoria que é a ‘pessoa comum’ -, o Bruno Vieira Amaral, ganhou o prémio José Saramago 2015.

(Finalmente alguma coisa para dar respeitabilidade à Fundação José Saramago, que está também ligada ao prémio.)

O meu texto desta semana do Observador.

‘É certo que em tempos normais nos esquecemos da estirpe de político mais mortífero e que torna os tempos incomuns: aquele que não aceita as derrotas eleitorais, subverte os resultados eleitorais (o socialista João Proença dixit) e expõe o país à traiçoeira extrema-esquerda (que nunca ficou conhecida no mundo pelos pergaminhos democráticos), a políticos que defendem a nacionalização da banca e a socialização dos meios de promoção, e às novas inclemências dos mercados. E tudo com o nobre objetivo de esbracejar pela sobrevivência do político trapalhão que conseguiu perder umas eleições fáceis de ganhar.

Mas nos tempos normais a estirpe de político que dá mais cuidados é outra e, para grande calamidade nacional, muito elogiada tanto pelo cidadão anónimo como pelos jornalistas e politólogos: o político que deixa obra. Para catástrofe de igual dimensão, é uma estirpe de político que abunda nos ministérios e nas câmaras municipais. Claro que toda a gente escarnece das rotundas, mas é para logo a seguir aplaudir a construção da pista de neve e do parque ‘natural’ para os ursos polares, do teatro de marionetes, do zoo de periquitos, do recinto de sumo, do museu de fatiotas que os costureiros famosos desenharam para a Barbie e do centro de congressos (onde se usaram só materiais adaptados a vegans). Os ideólogos destas infraestruturas são geralmente apelidados de visionários, competentes, fazedores, empreendedores.

É certo que nos últimos anos – depois daquela falência patriótica de esquerda de 2011 – houve quem moderasse elogios a tal vírus político. Que entendesse que algumas obras são desnecessárias e, sobretudo, consumidoras de recursos financeiros que o país não tem. Que em alguns casos são realizadas não para suprir necessidades das populações mas para propiciar esquemas de corrupção e de pagamento a clientelas partidárias. Que um país necessita de infraestruturas para se desenvolver, pois precisa, mas que o país de 2015 (ou de 2005) já não é o que Cavaco Silva encontrou em 1985 sequioso de obras públicas.

Perante o atual cenário funesto, presumo ter encontrado a solução: ensinarmos Taoismo a governantes e autarcas. E se forem renitentes na aprendizagem, é recorrer a algum estratagema de manipulação cerebral, ao estilo do filme Candidato da Manchúria (na versão com Frank Sinatra e Angela Lansbury). Em último caso, se não produzirem conversão em tempo útil, podemos ameaçar com a leitura obrigatória de todos os livros de Saramago e de Valter Hugo Mãe.’

O resto está aqui.

Obrigada, Andrew Davies

mr darcy 1995 2Foi com esta série da BBC que eu conheci e me apaixonei por Jane Austen (e, of course, também pelo Mr Darcy e, separadamente, pelo Colin Firth – o meu coração é muito grande). (Antes do Mr Darcy, as minhas paixões iniciadas desta forma tinham sido o Athos, de Os Três Mosqueteiros, e o Edmond Dantes, de O Conde de Monte-Cristo, ambos de Dumas.) Tenho, portanto, muito a agradecer ao Andrew Davies. Por ter tirado a Jane Austen das representações vitorianas que lhe eram habituais e a ter colocado (corretamente) nos ambientes mais sanguíneos e soltos dos tempos da Regência. E, segundo afirma o texto, por ter iniciado a moda de os protagonistas masculinos das séries históricas usarem pouca roupa. (Eu não vi, mas já me contaram que até Os Maias seguiu essa tendência.) Foi um grande serviço à igualdade de género.

‘“We wanted lots of energy in the show, and the book justifies it, because Elizabeth is always running about and going on long country walks and getting all flushed and sweaty and getting the bottom of her petticoat muddy, which seems to be quite a turn-on for Darcy. So we thought, let’s make it as physical as we can without being ridiculous about it. Let’s remind the audience that this isn’t just a social comedy – it’s about desire and young people and their hormones – and let’s try to find ways of showing that as much as possible. So for the girls I wrote a lot of scenes where they’re backstage, so to speak: they’re getting dressed, they’re in their nighties, talking about love. And we wanted the guys to be doing lots of physical things: riding horses, fencing, having baths, jumping in the lake. Any legitimate excuse to get some of that kit off.”’

‘Then I thought, ‘Let’s have Elizabeth on a hillside seeing these two tasty blokes galloping along, and something about them makes her skip down the hill’. I can remember writing those first pages and thinking, ‘This is a bit different from the usual Jane Austen adaptation’.’

(Na fotografia o banho de Mr Darcy em Netherfield Hall.)

but somehow

spider eaters 2

Tenho tido muito pouco tempo para escrever coisas (apesar de haver tanto assunto comentável agora, e tenho feito uns posts maravilhosos na minha cabeça, mas que falham depois no tempo disponível para serem concretizados no teclado), mas a propósito de Jeremy Corbyn – e das fantasias líricas que já provocou no PS português (ou não tivesse este sido assaltado por gente que nunca recuperou da fase marxista da adolescência) – deixo aqui um pedacinho de um dos livros que me têm ocupado o tempo. É o prefácio de um livro que conta a história da autora durante a Revolução Cultural chinesa. Descreve bem o socialismo, sobretudo na forma mais pura que Corbyn e os alucinados socialistas nacionais apreciam. Começa por querer mudar a natureza humana. But somehow – e este but somehow ocorre sempre – falha. E de caminho espalha miséria e infelicidade. E – como à autora deste prefácio – põe os jovens idealistas a assassinarem e torturarem supostos inimigos da revolução. É sempre um regime muito recomendável. E tem sempre muitos fregueses moralmente self-righteous a adorá-lo.

Jihadismo Global – Felipe Pathé Duarte

Um lançamento de um livro sobre um tema que continua infelizmente a estar na ordem do dia por parte do meu ex-colega – no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa – Felipe Pathé Duarte.

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O lobby rentista dos manuais escolares

Um excelente texto de António Araújo sobre o escandaloso lobby rentista – patrocinado pelo Estado, como geralmente acontece nestes casos – dos manuais escolares “oficiais”: 42,70 €.

Os «cadernos de exercícios» ou «cadernos de actividades» são uma, entre muitas, das habilidades deste negócio milionário. O Ministério, no seu site, indica apenas o preço do manual. Mas depois todos os professores exigem o «caderno de actividades», sem o qual a aprendizagem da matéria é impossível. Sei bem que, nos termos da lei, é proibido obrigar a compra em conjunto do manual e do caderno de actividades. Também sei que quem já tenha o manual pode comprar só o caderno de actividades, ou vice-versa. Mas porque é que o MNE não publicita também o preço dos cadernos de exercícios e de actividades? No caso da Biologia, o livro custa 32,74€. Mas, depois, o «manual de auto-avaliação» carrega a factura com mais 9,96€.

Aliás, a pouca-vergonha é tanta que, regra geral, manuais e cadernos de actividades vêm ambos embrulhados no mesmo celofane. Se vou ao balcão de uma papelaria e peço «o livro de Biologia do 11º ano», entregam-me o manual mais o caderno de actividades, tudo por atacado. Chamam-lhe «bloco pedagógico». E depois apresentam a conta: 42 euros.

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John Locke nasceu há 383 anos

lockeMiguel Morgado (via Facebook) sobre os 383 anos do nascimento de Locke:

Há 383 anos nasceu John Locke. Quando preparei a primeira edição portuguesa – por incrível que pareça era mesmo a primeira… – dos “Dois Tratados do Governo Civil” para as Edições 70, escrevi isto na contracapa:
“John Locke foi uma das figuras maiores da civilização ocidental moderna. Locke foi o pensador da subjectividade, dos direitos naturais, da crítica das ideias inatas, da tolerância religiosa, da separação radical entre o Estado e a(s) igreja(s), da liberdade racional, do governo representativo baseado no consentimento popular, da separação de poderes, da revolução contra a tirania, do direito de propriedade e do direito à acumulação de propriedade, do desenvolvimento económico e tecnológico assente na capacidade humana de transformação do mundo. Ele foi o filósofo da epistemologia, da política, da religião, da educação; o economista, o constitucionalista, o exegeta, o assessor político, o professor universitário e o médico. Com “Dois Tratados do Governo Civil”, Locke define um dos momentos mais importantes da história intelectual da Europa.”

O colapso chinês

collapse

Como tive oportunidade de referir há 5 anos, este livro de Gordon Chang é indispensável para perceber o que se está, e se vai passar na China. A bolha especulativa, os bancos estatais cheios de capital inventado na secretaria e por aí fora. Há anos que se fala do que agora se prepara para acontecer. No fundo, até os chineses sabiam. Ou achávamos nós que a procura do golden visa se devia apenas às casas, ao clima e ao acesso à Europa? A fuga dos mais sabidos começou há muito.

Distopia na Amazon

O meu texto de hoje no Observador.

‘Espero que os meus caros leitores estejam atentos ao presente abalo no mundo ocidental. Primeiro surgiu a notícia no New York Times, que falou com cem ex-funcionários da Amazon e contou pormenores próprios das zonas mais negras da imaginação de George Orwell: pessoas com problemas sérios de saúde com más avaliações por não aguentarem o ritmo de quando estavam saudáveis, críticas das chefias que põem o mais robusto a chorar publicamente, quotas assumidamente darwinistas de pessoas a despedir em cada ano, denúncias anónimas sobre colegas, incentivo a um ambiente de conflito entre colegas, horários de trabalho que impedem vidas familiares ou namoricos e pelos vistos até se corre o risco de receber um e-mail do chefe a meio dos one night stand possíveis.

As ondas de choque, obedientes, sucederam-se, que afinal a Amazon é um dos pilares da vida moderna. Um executivo da Amazon fez na sua página de Linkedin uma refutação sentida daquilo que vê como calúnia à sua empresa e até o dono e fundador, Jeff Bezos, escreveu um e-mail (que nem tinha nada o objetivo de escapar para os media) afirmando que a Amazon do artigo do NY Times não era a sua Amazon e se faz favor que lhe contassem por mail eventos semelhantes aos espalmados no jornal.

A muito esquerdista Salon não tem largado o osso da malvada Amazon. A um bocadinho menos esquerdista Slate tem sido mais ponderada, questionando se cem trabalhadores podem ser representativos de uma empresa com mais de 150.000 ou se o ambiente de trabalho por lá será pior do que noutras empresas tecnológicas. The Guardian saliva de contentamento.

Eu, fazendo uso de toda a ponderação disponível na minha personalidade, tenho de reconhecer: o artigo do NY Times pôs em causa o meu modo de vida.’

O resto está aqui.

verão chinês 2.0: sem a Revolução Cultural não se entende a China destes dias

shanghai redemption

É um cliché chinês dizer que sem Revolução Cultural não teria havido as reformas capitalistas de Deng Xiaoping da década de 80 (porque por um lado a RC escaqueirou a burocracia chinesa, que precisou de ser reconstruida e, por outro, horrorizou tanto a quase totalidade da população que ficaram todos mais que predispostos a aceitarem as soluções opostas às de Mao; da política até à literatura, os anos 80 chineses foram uma rejeição do coletivo e uma ode ao indivíduo). Mas não é só o capitalismo chinês que precisa da RC para ser entendido. Xi Jinping é também ele um rebento da RC, e o caído em desgraça Bo Xilai likewise (e a ‘nova esquerda’ que Bo liderava, então, era maoismo até à medula). Pormenor que eu adoro, porque ando por estes dias a escrever furiosamente sobre esta geração de jovens adolescentes que tiveram a sua vida revirada pela RC (os chineses de 3ª geração). É uma geração complexa, que, por ter levado com as maluquices maoistas, foi privada de educação formal. Primeiro as aulas das escolas foram suspensas para que os adolescentes se pudessem dedicar a espancar, torturar e até matar professores, secretários partidários e colegas das classes contrarrevolucionárias. E depois – porque o sucesso do socialismo é sempre inevitável e não havia empregos para tanta gente nas cidades, nem lugares nas escolas ou, sequer, livros escolares – foram enviados para ‘subir à montanha e descer à aldeia’ para se tornarem camponeses para o resto da vida nas zonas rurais chinesas. A consequência desta falta de educação formal foi o desemprego massivo desta geração nos anos 90 (porque não tinham qualificações para concorrer no mercado de trabalho da China capitalista). Depois de sacrificados pela RC, foram sacrificados pelas reformas capitalistas. Tough luck. Tirando uns poucos que escaparam a esta sorte e que tiveram destino oposto, tornando-se empresários multimilionários, artistas internacionalmente reconhecidos, autores de sucesso. Muitos expatriaram-se e vingaram nos países de acolhimento. Agora, são os senhores da política chinesa. E nota-se. Se Bo foi extirpado do PCC, na verdade Xi Jinping também tem muitos tiques maoistas.

Isto tudo a propósito do mais recente livro de Qiu Xiaolong, Shanghai Redemption, sobre a queda do neo-maoista Bo Xilai. Qiu escreve romances policiais. Eu sou fã do género, mas não é a qualidade do enredo que me faz ler Qiu Xiaolong desde aquele momento que comprei o Death of a Red Heroine na Waterstones de Guildford (sim, eu preservo estas memórias relacionadas com os meus livros). O que me vicia em Qiu é a forma como conta os meandros da vida de Shanghai, os pântanos políticos em que o Inspetor Chen se move para resolver os mistérios que lhe são muitas vezes impostos pelas autoridades partidárias, a descrição dos petty city dwellers das cidades chinesas, todos aqueles pormenores muito chineses que dificilmente um ocidental conseguiria descrever com a mesma autenticidade.

Um tema que perpassa por todos os livros de Qiu (sobretudo em Death of a Red Heroine) é o da classe social e da aristocracia partidária que o comunismo (oh, surpresa) criou. Que não é nada de novo da era da reforma, porque a classe social e os benefícios que advinham de se fazer parte de uma família da elite partidária comunista são assunto que também atravessou esse movimento de suposta igualitarização radical da sociedade que foi a Revolução Cultural. Em suma, os romances policiais de Qiu Xiaolong são uma muito boa introdução à estrutura social que o Partido Comunista Chinês criou.

Um bocadinho de uma entrevista de Qiu Xiaolong sobre Shanghai Redemption: ‘What really alarmed me was his grab for more power through the “Chongqing model,” which was informed with Maoist discourse and practice, including governmental directives for people to sing “red songs” in praise of Mao and the party in the pre-reform years. I shuddered at the memory of me standing helpless beside my father, who was ruthlessly beaten by Red Guards as those songs were originally sung. But my feelings had to do with much more than personal remembrance.’

Quem é Charlie? – Emmanuel Todd

Crítica: Quem é Charlie? Por Miguel Morgado (que, à semelhança de Eduardo Pitta, escreve recensões na Sábado).

Hergé e Jane Austen, dois autores a banir

Tintin Castafiore EmeraldAs alminhas(inhas) Tiago Ivo Cruz e Ana Bravo – que argumentam o racismo e a misoginia de Hergé – foram grandes perdas para o analfabetismo. E agora – pegando nesta infalível tese sobre a ausência de mulheres nos livros de Hergé, que não é mais do que um apagão ao mulherio – decidi-me a deixar de ler a Jane Austen. Como se sabe, ou TODAS as realidades do mundo estão contidas dentro de uma obra literária ou essa obra é negacionista disto e daquilo. Quer escrever um romance passado em 2015? Pois não pense descrever só êxtases sexuais, traições, lágrimas e por aí. Ou bem que inclui a descrição detalhada do período de ajustamento acordado com a toika, os números do desemprego (preferencialmente com gráficos mostrando os dados da Pordata) e uma ou outra notícia contestatária da austeridade ou nenhuma editora o publica, porque está a apagar a crise que se vive agora. E faz favor de incluir uma ou duas violações e uma mulher morta pelo ex-marido, que ainda é acusado de negacionismo da violência sexual e doméstica sobre as mulheres.

Mas regressando a Jane Austen, afinal aquilo tudo se passa ao mesmo tempo que as guerras napoleónicas e nem vislumbre delas nos livros (há uns militares a distraírem as irmãs Bennet em Pride and Prejudice e as meninas casadoiras – outro conceito que agora devia ser proibido de aparecer na literatura de todos os tempos, que como se sabe hoje uma mulher não tem de ter a ambição de casar – em Persuasion, mas nem uma batalha, nem a descrição da estratégia de Waterloo, népias). E com tanto romance, não há vestígio de sexo nos livros – eventualmente apenas a sugestão de que Charlotte preferia manter o marido, Mr Collins, clérigo e o maior lambe-botas da literatura, à distância. É certo que os desejos andam à solta (e as adaptações para televisão facilmente os evidenciam), mas de the real thing, nada. Proscreva-se Jane Austen das bibliotecas e das livrarias. JÁ.

Francis Fukuyama no Observador

Francis Fukuyama esteve em Portugal e foi o convidado especial do “Conversas à Quinta”. Discutimos, com Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto, o seu último livro: “Ordem Política e Decadência Política”.

Leitura complementar: Observador: um ano de serviço público.

O Economista Insurgente: “Porque é que é impossível ao Estado pagar a dívida pública?”

O Economista Insurgente

«A dívida acumulada tem uma dimensão, relativamente ao que é produzido anualmente em Portugal, que torna muito difícil que o Estado consiga honrar os seus compromissos. Se todos os gastos do Estado fossem cortados, incluindo prestações sociais, salários, etc., ainda assim demoraria cerca de 4 ou 5 anos a pagar. Se o PIB crescesse a 2% ao ano e o Estado tivesse um excedente orçamental de 1% do PIB, demoraria mais de 25 anos a reduzir a dívida para o limite previsto nos tratados europeus (60% do PIB). Num contexto de crescentes despesas, onde o orçamento do Estado é cronicamente deficitário, a tarefa torna-se impossível.

A única forma de poder ultrapassar a situação seria por via de um considerável crescimento económico, em que maior produção se traduziria em maior colecta fiscal, permitindo, por sua vez, amortizar a dívida; ou pelo menos reduzi-la em percentagem do PIB. Se, por exemplo, o Estado tivesse orçamentos equilibrados, seria preciso um crescimento médio de 3,5% ao ano durante quase 25 anos para a dívida baixar para os limites dos tratados europeus. Contudo, esse crescimento não poderá ocorrer enquanto a carga fiscal for tão pesada e os juros tão elevados, ambas as situações resultantes da crise orçamental.

Temos assim um problema de “pescadinha de rabo na boca”: É preciso juros e impostos baixos para que haja mais investimento – que resulta em crescimento económico; mas baixar impostos resultaria em défices ainda maiores no curto prazo, tornando os juros mais altos.

Chegamos assim a um cenário em que a única conclusão possível é que, perante o Estado que temos, a dívida é impossível de pagar. A qualificação de “Estado que temos” é importante, pois havendo vontade política de alterar significativamente o Estado, reduzindo assim os seus gastos, podem ser libertados os meios para equilibrar as contas públicas, ou mesmo gerar excedentes, e de reduzir a carga fiscal por forma a incentivar o investimento produtivo.

Tendo em conta o que já foi referido anteriormente neste capítulo, no que toca às áreas onde a despesa do Estado é maior, é inevitável concluir que apenas mexendo nas despesas sociais do Estado (segurança social, educação e saúde) é possível equilibrar as contas públicas.»

in “O Economista Insurgente”, Esfera dos Livros, 2014

Apresentação de «O Economista Insurgente» em Viana do Castelo

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Esta sexta-feira, 18h00, na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo.

Ler+ é possível e promove a saúde e a economia

Momento de enorme felicidade do Autor e amigos.
Momento de enorme felicidade do Autor e amigos.

Devemos agradecer ao autor de Tortura em Democracia, actualmente a residir em Évora.

Várias Câmaras Municipais financiaram o livro de José Sócrates que esteve, pelo menos, um mês em primeiro lugar em todas as livrarias. O Sexta às 9 descobriu que, em Lisboa, foram emitidas faturas em nome de autarquias do norte do país que compraram este livro às dezenas, várias vezes.

Livros recomendados

Alguns leitores pediram recomendações de leitura sobre liberalismo e o pensamento libertário. Fica aqui então uma lista bastante incompleta e sem grande ordem com algumas leituras recomendadas a quem só há pouco tempo começou a ler o Insurgente:

HAZLITT, Economics in One Lesson
FRIEDMAN, Free to choose
ORWELL, Animal Farm
HAYEK, The Road to Serfdom
HAYEK, The Constitution of Liberty
WOODS, Meltdown
SOWELL, Basic Economics
LINDSEY, The age of abundance
MISES, Socialism
SCHIFF, How an Economy grows and why it crashes
SOTO, A Escola Austríaca
MOREIRA e ALVES, O que é a Escolha Pública
MONIZ, PINTO, FRANCISCO, O Economista Insurgente

Boas leituras.

O Economista Insurgente: “De onde é que vem a dívida do Estado?”

O Economista Insurgente

«De um modo geral, a dívida pública aumenta porque o Estado tem mais despesas do que receitas. Ou seja, o orçamento do Estado apresenta défice. Para um Estado reduzir a sua dívida pública tem de ter um superavit; mais receitas que despesas. Em toda a história da democracia em Portugal, nunca houve um único orçamento que não tenha sido deficitário. Por isso, a dívida tem vindo a aumentar todos os anos, de forma consistente e sem alívio.

Para agravar a situação causada pelo défice crónico, o Estado tem sido obrigado a assumir uma série de dívidas que anteriormente não eram contabilizadas na dívida pública. Exemplo disso são dívidas contraídas por empresas públicas nas suas operações correntes e que implícita ou explicitamente são garantidas pelo Estado. Ou ainda contratos celebrados pelo Estado, por exemplo nas parcerias público-privadas, que implicam despesas futuras a que não é possível escapar e que constituem a chamada dívida escondida.

A juntar a esta dívida oficial, existem várias obrigações do Estado para com os cidadãos que são uma espécie de dívida. São responsabilidades do Estado (do inglês, liabilities) assumidas no decorrer de direitos sociais criados pelos sucessivos governos, como pensões, subsídios e outras transferências, cujo valor exato é difícil de estimar por depender de imponderáveis como a esperança de vida dos reformados, invalidez resultante de acidentes ou doenças, desemprego e outras situações de emergência que possam surgir.»

in “O Economista Insurgente”, Esfera dos Livros, 2014

Porque é que os médicos não gostam de genéricos e os farmacêuticos gostam?

O Economista Insurgente

A relação próxima entre médicos e a indústria farmacêutica tem décadas. Durante anos, através dos chamados “delegados de propaganda médica”, a indústria incentivou das mais variadas formas os médicos no sentido de maximizar as suas vendas. Tempos houve em que as farmacêuticas davam prémios materiais (até automóveis!) aos médicos em função da quantidade de receitas que prescreviam os seus produtos. Era o chamado “fartar vilanagem”. Hoje em dia já não é fácil. Há mecanismos de controlo mais apertados tanto sobre os médicos como sobre os delegados. Até a designação mudou, para um mais politicamente correto título de “delegado de informação médica”.

Apesar disto, a relação é ainda muito forte e não pode ser quebrada. A indústria só consegue vender existindo prescrição, pelo que a simbiose é inevitável. Não existirão os prémios descarados de outrora, mas congressos com tudo pago nas caraíbas e outros locais aprazíveis continuam a fazer parte do cardápio. Independentemente de muitos médicos argumentarem de forma veemente que não existe o mesmo nível de controlo de qualidade na produção de genéricos face aos medicamentos originais cujo princípio ativo foi replicado, a realidade da diferença nos incentivos económicos subjacentes a medicamentos “de marca” e genéricos explica no quase totalidade as diferentes preferências de médicos e farmacêuticos. Incentivos económicos que são aplicados a quem tem o poder de decisão, leia-se. No caso dos médicos, a recomendação de um medicamento de marca específica; no dos farmacêuticos a possibilidade de escolher qual o genérico a vender, uma vez que a prescrição não indica marca.

A introdução dos genéricos alterou o balanço de poder entre médicos e farmacêuticos. A indústria passa a depender de farmacêuticos para a decisão que lhe permite vender, não de médicos. Logo aí fica explicada a diferença de preferências entre as duas classes profissionais. No entanto, uma análise económica aos incentivos mostra a magnitude do efeito dos genéricos na rentabilidade das farmácias; e explica a força que farmacêuticos fizeram e continuam a fazer, em termos de lobby, para conseguir e manter este novo poder de decisão.

No caso de medicamentos de marca, a concorrência é limitada por patentes. Existem monopólios legais, por força do estado, que permitem esta proteção aos laboratórios. Nos genéricos, a concorrência é real. Vários laboratórios podem fabricar medicamentos baseados no princípio ativo. Todos eles interagem com os farmacêuticos para vender o que é essencialmente o mesmo produto. Não há argumentos clínicos, provas científicas, congressos em Aruba. O preço é a chave. Mas como existem limites impostos pelo estado tanto aos preços como às margens das farmácias, este novo mercado exige criatividade. São as chamadas “dúzias de dezoito”, que em alguns casos chegam a ser “dúzias de vinte e quatro”.

Os laboratórios vendem uma dúzia de caixas de um determinado genérico à farmácia. Mas entregam dezoito (ou vinte e quatro). Daí a designação. Como as margens são fixadas, para as caixas faturadas nominalmente, a entrega de unidades não faturadas multiplica a margem efetiva da farmácia várias vezes. Imaginemos um medicamento X. O produto de marca, CaroX, tem um preço de 50 euros por caixa, sendo a margem da farmácia de 20%, ou seja 10 euros. Em alternativa, existe o genérico BaratoX, que custa 20 euros e deixa 4 euros de margem para a farmácia. Só que por cada caixa de BaratoX que a farmácia compra para stock, o laboratório entrega outra. Esta segunda caixa tem uma margem de 100%, ou seja 20 euros. A margem média é de 12 euros por caixa. Apesar do medicamento ser mais barato, o farmacêutico ganha mais vendendo o genérico. No limite, para casos sem comparticipação, pode mesmo tentar vender as caixas não faturadas pela “porta do cavalo”, poupando também em impostos. Embora no que toca a medicamentos a procura não seja propriamente elástica (as pessoas não vão comprar mais remédios só porque são mais baratos), a verdade é que o preço mais reduzido dos genéricos, quando não há comparticipação, pode permitir acesso ao medicamento a pessoas que de outro modo não o teriam. Nesse sentido, as farmácias só têm a ganhar com a mudança.

(in O Economista Insurgente, Esfera dos Livros, 2014)

Prazeres de fim de semana

Hogwarts

Aqui vai uma breve história do antissemitismo em Hogwarts. (Algo que, tendo sido eu dos maluquinhos que pré-encomendava com meses de antecedência os livros do Harry Potter na Amazon, não podia deixar de trazer para aqui. E aproveito para dizer aos adultos que se queixam da limpeza de sofrimento emocional das atuais histórias de crianças – filmes and so on – que se nota que nunca leram a série Harry Potter.)

‘Jews were admitted as early as 1878, when Headmaster Eupraxia Mole, after receiving a justly famous letter from the Chief Dybbuk of Poland, recommended it. Assimilated wizards of Jewish ancestry began making their mark at the school long before that—probably the best known being Disraeli’s wizard brother, Nigel (Ravenclaw, 1829)—and the Jewish influence at Hogwarts extends back even further. Maimonides was warmly received in 1191, and though Spinoza’s invitation to deliver a series of lectures, in 1652, was met with protests, organizers were careful to note that it was the philosopher’s virulent anti-wizarding stance that they objected to, not his Jewish extraction.’

O que está em curso não são meros lapsos ou incidentes…

Os “progressistas” eternos: Syriza, Podemos, Bloco de Esquerda e derivados. Por Gabriel Mithá Ribeiro.

Talvez seja tempo de os europeus ocidentais provarem do veneno que os seus intelectuais ajudaram a espalhar pelo mundo. Esperemos pela Grécia das próximas décadas para ver até que ponto desabrocharão na vida quotidiana as sementes de um ideário progressista exponenciado pelo exercício do poder, sobretudo se alimentadas pela imagem do novo herói revolucionário, mesmo que vá dando sinais de domesticação. (…) O que está em curso não são meros lapsos ou incidentes. É produto de uma loucura civilizacional pensada, programada, estudada, publicada. No seu âmago está o sistema universitário, o Cavalo de Troia do Ocidente. Em tempos de sociedades do conhecimento, é a partir dele que o resto é condicionado com muitas vantagens e sérias desvantagens.

Cerco ao Palácio de Cristal – 40 anos depois

Cerco ao Palácio de Cristal: as 12 horas mais longas da vida do CDS

“O Congresso não passará” e “morte aos fascistas” foram as palavras de ordem na noite de 25 para 26 de janeiro de 1975, junto ao Palácio de Cristal, no Porto. Lá dentro, onde já decorrera a sessão inaugural do I Congresso do CDS, estavam agora reféns mais de 700 militantes e convidados, enquanto cá fora estava montada uma batalha campal entre centenas de manifestantes e a polícia. Das 12 horas de impasse resultaram 16 feridos (sem mortes), alguns carros incendiados, a atenção dos meios de comunicação internacionais que temeram que Portugal estivesse a resvalar novamente para um regime autoritário e um susto para a vida. Aconteceu há 40 anos.