“Compreender para Mudar o Estado a que chegámos” – Dia 2 no Porto

No próximo dia 2 de Maio, Terça-feira, pelas 9:30 da manhã, estarei na Universidade Lusófona do Porto para, conjuntamente com Emídio Sousa, Presidente da Câmara de Santa Maria da Feira e do Conselho Metropolitano do Porto, apresentar o mais recente livro de José Manuel Moreira: Compreender para Mudar o Estado a que chegámos.

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The new age of Ayn Rand?

The new age of Ayn Rand: how she won over Trump and Silicon Valley

As they plough through their GCSE revision, UK students planning to take politics A-level in the autumn can comfort themselves with this thought: come September, they will be studying one thinker who does not belong in the dusty archives of ancient political theory but is achingly on trend. For the curriculum includes a new addition: the work of Ayn Rand.

It is a timely decision because Rand, who died in 1982 and was alternately ridiculed and revered throughout her lifetime, is having a moment. Long the poster girl of a particularly hardcore brand of free-market fundamentalism – the advocate of a philosophy she called “the virtue of selfishness” – Rand has always had acolytes in the conservative political classes. The Republican speaker of the US House of Representatives, Paul Ryan, is so committed a Randian, he was famous for giving every new member of his staff a copy of Rand’s gargantuan novel, Atlas Shrugged (along with Freidrich Hayek’s Road to Serfdom). The story, oft-repeated, that his colleague in the US Senate, Rand Paul, owes his first name to his father Ron’s adulation of Ayn (it rhymes with “mine”) turns out to be apocryphal, but Paul describes himself as a fan all the same.

Not to be left out, Britain’s small-staters have devised their own ways of worshipping at the shrine of Ayn. Communities secretary Sajid Javid reads the courtroom scene in Rand’s The Fountainhead twice a year and has done so throughout his adult life. As a student, he read that bit aloud to the woman who is now his wife, though the exercise proved to be a one-off. As Javid recently confessed to the Spectator, she told him that if he tried that again, he would get dumped. Meanwhile, Daniel Hannan, the Tory MEP many see as the intellectual architect of Brexit, keeps a photograph of Rand on his Brussels desk.

So the devotion of Toryboys, in both their UK and US incarnations, is not new. But Rand’s philosophy of rugged, uncompromising individualism – of contempt for both the state and the lazy, conformist world of the corporate boardroom — now has a follower in the White House. What is more, there is a new legion of devotees, one whose influence over our daily lives dwarfs that of most politicians. They are the titans of tech.

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Portugal, o país onde não podemos escrever livros

O meu texto de ontem no Observador.

‘Ontem quando escrevia este texto o país estava calmo, mas aposto que hoje existem, pelo menos, três bairros barricados em Lisboa. Nem imagino o atroz sofrimento da esquerda nacional por tão hedionda traição. Caso a PSP não tenha pensado atempadamente (o que é imperdoável e justifica por si só uma chamada da ministra Urbano ao parlamento) em vedar o acesso ao Tejo ao longo de toda a zona ribeirinha lisboeta, que o faça a correr, que eu temo um colapso na vontade de viver dos militantes da esquerda nacional e tentativas de suicídio em massa. Há que evitar um auto genocídio, senhores guardas.

Falo de quê? Bem, caro leitor, olhe à sua volta. Vai sair uma biografia de Jorge Sampaio nos anos da sua presidência, com colaboração do ex Presidente. Estou certa que as muito numerosas alminhas sensíveis que gritaram pela falta de elegância de Cavaco Silva por escrever as suas memórias do seu tempo de coabitação com Sócrates, pelo inimaginável atentado à privacidade (risos abundantes) das conversas entre um PR e um pm, essas alminhas sensíveis, digo eu, que andaram a fazer figuras tristes nas televisões, rádios e jornais, estão em agonias pela traição de Jorge Sampaio. E neste momento ou correm para as zonas ribeirinhas das cidades portuguesas para se desgraçarem ou estão em casa debaixo dos cobertores e encharcados em antidepressivos.

É que, pelo que leio, Jorge Sampaio conta conversas efetivamente privadas, sobre assuntos da sua candidatura, com o líder do partido por que queria ser apoiado. Estou à espera do pior dos paladinos da defesa do direito à privacidade – é como quem diz, dos maluquinhos que argumentam que os contactos entre um ministro e um particular, versando uma empresa pública e a futura relação da empresa com o dito particular, são privados e, como tal, fora do escrutínio democrático dos media e dos representantes dos eleitores. (Não são.)’

O resto está aqui.

O retorno de Deus

Será que a Europa vai reagir ao islamismo retornando a Deus? O meu artigo no ‘i’.

O retorno de Deus

“Le retour du religieux (…) je le savais pour ma part inéluctable dès l’âge de quinze ans.” “Soumission”, Michel Houellebecq, p. 267.

Esta frase é proferida pelo director da Universidade de Sorbonne, um belga convertido ao islamismo numa França, em 2022, com um presidente muçulmano. Em “Soumission”, Michel Houellebecq retrata a escolha que uma França adormecida se vê forçada a fazer entre uma Frente Nacional radicalizada e um partido islâmico moderado.

Como todas as histórias futuristas, esta parece fantasticamente implausível para ser possível. Mas, se Houellebecq não quis descrever avanços tecnológicos que não antevê – a forma de comunicar é hoje mais evoluída que a do livro –, acerta num ponto que deixa qualquer um de sobreaviso: os partidos tradicionais estão em crise e, na vida real, já em 2017, podem não ir à segunda volta das presidenciais.

Quem nos conta o que se passa é François, um académico estudioso de Joris-Karl Huysmans, escritor francês do século XIX, expoente maior do decadentismo e que se converteu ao catolicismo. François é um francês deste século, sem ligações nem ao país nem a ninguém, que se interroga perante a submissão inevitável que os homens terão de aceitar para se elevarem acima do que são.

“Soumission” não é apenas o adivinhar da falência política de um regime, mas a indicação de um caminho: a crença em algo mais forte que nós para que sejamos mais que uma decadência adormecida. Assim, ou Houellebecq, que disse já não ser ateu, se engana, ou a reação europeia será religiosa.

O homem que não tinha ideais

Sim. Gente Independente, de Halldór Laxness. Outra vez.
Porque para se ser independente é também preciso não ter ideais. O meu artigo no ‘i’.

O homem que não tinha ideais

Volto esta semana ao livro “Gente Independente”, de Halldór Laxness (Cavalo de Ferro). Tudo nele se centra no desejo de Bjartur das Casas de Verão ser independente. A semana passada referi a importância de não ter dívidas, o que se consegue com obstinação e resiliência.

E como não é fácil ser-se independente, o processo também não é simples. Para não se ter dívidas e se ser independente, é preciso também não ter ideais. Sendo o ideal a reunião de todas as perfeições, o que é impossível, um homem independente não tem ideais. Quem procura a independência visa apenas vencer-se a si mesmo e não os demais; nem sequer pretende controlar ou mudar a natureza, que qualquer pessoa sensata ama por ser implacável como é.

Quem tem ideais não se foca em si, mas no outro. Quer mudar não ele próprio, mas o outro. O mundo, a sociedade, o que seja. É egocêntrico e arrogante. E, naturalmente, não aceita a independência.

Neste livro, todos opinam sobre a vida de Bjartur, que não propõe nada a ninguém. É com a melhor das intenções que o querem ajudar para depois o aprisionar. Para isso, a melhor arma é o ficar a dever. Dinheiro ou favores. Algo. E quando, depois da falsa prosperidade que invade a Islândia no decorrer da guerra 1914-18, a dívida destrói o que nos ombros desta foi construído, é à porta dos independentes que vão bater. A apropriação do que é dos outros torna-se lei. As massas que usufruíram das liberdades libertam-se então para destruir a independência de quem não se deslumbra com ideais.

Revista Portuguesa de Filosofia: Política e Filosofia

rpf2017

Depois de em 2009 (como o tempo passa…) ter publicado numa edição da prestigiada Revista Portuguesa de Filosofia dedicada à ligação entre Filosofia e Economia (na altura dirigida por João J. Vila-Chã, SJ), regresso em 2017 (agora sob direcção de Álvaro Balsas, SJ) no fascículo “Política e Filosofia I: A Democracia em Questão”, com um artigo conjunto com o meu colega Hugo Chelo: “Discurso Contemporâneo sobre a Paz e a Guerra à Luz da Teoria da Guerra Justa: uma Leitura dos Desenvolvimentos do Magistério Católico”.

Destaco também outros dois artigos de investigadores integrados do CIEP (centro de investigação que tenho a honra e prazer de dirigir na Universidade Católica): “Hayek e a Recuperação do Ideal Democrático”, por José Manuel Moreira e “Democracia Liberal e Repúdio Iliberal: Roger Scruton e a Tradição Conservadora Anglo-Saxónica”, por João Pereira Coutinho.

Mais informações aqui.

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Ser independente

Há os que trabalham porque precisam de dinheiro para viver; há os que trabalham porque querem ganhar dinheiro ou construir algo. Por fim, há os que trabalham só porque querem ser independentes. O meu artigo hoje no ‘i’.

Ser independente

“Gente Independente” (Cavalo de Ferro), de Halldór Laxness, é um livro sobre a vida de um homem, um islandês chamado Bjartur, que quer ser independente na Islândia do início do século XX.

Para ser independente trabalha no duro durante 18 anos para uma família, poupando e juntando tudo o que pode; prescinde do que um homem precisa para existir, de forma a conseguir o que um homem precisa para viver: um pedaço de terra onde tenha as suas ovelhas, trate delas e elas depois tratem de si: “O homem que possui a sua própria terra é um homem independente” (pág. 18). Não precisa de luxos, desdenha o luxo, um encargo, que o desfoca do seu objetivo: ser independente.

Não ser livre. Ser livre passa por não assumir compromissos, que é o contrário do que a independência reclama. Um homem independente não prejudica ninguém. Não é um peso, um empecilho. Não causa impacto porque alguém assim não quer influenciar a vida dos outros.

E como é que se ganha a independência? Sem dívidas. Laxness escreveu este livro nos anos 30. Além de tremendamente bem escrito, é actual. E como é que se vive sem dívidas? Com obstinação. Viver sem dívidas exige muito de nós. É preciso teimosia, viver obsessivamente um fim. Não pactuar com o provável. Esperar sempre o pior. Com resiliência e em silêncio. “(…) agora era proprietário de terra escriturada no notário (…), era rei no seu reino, e os pássaros eram os seus convidados”(pág. 46). A independência é algo tão nosso que apenas nós a valorizamos.

O diabo está nos planos e nos lapsos informáticos

O meu texto de hoje no Observador.

‘Isto tudo para dizer que não me choca que adolescentes de treze anos leiam Valter Hugo Mãe, com as suas frases polémicas que lemos nos últimos dias. Eu nunca li nada de Valter Hugo Mãe, não adquiri grande vontade, e, sobretudo, tenho demasiados livros que quero mesmo, mesmo ler e que permanecem fielmente à espera da minha atenção na mesa de cabeceira e nas estantes lá de casa. Mas o autor escreveu um post no Facebook bastante consequente sobre este escândalo. E se, como diz, no livro estas frases provocam sofrimento à criança, então são mesmo pedagógicas: mostram que palavras fortes de conteúdo sexual são muitas vezes usadas para magoar. E que isso merece julgamento moral. Por mim, nada contra.

Mas, claro, também não tenho nada contra os pais que objetam a uma ou outra palavra crua nas leituras dos seus filhos. É conveniente começarem já uma petição para banir Gil Vicente da poluição educativa que se oferece às crianças, bem como a referência, quando se fala de Bocage, das suas Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas –, mas cada um sabe aquilo que prefere que os seus filhos leiam.

Em todo o caso – não podia deixar de ser – tenho bastante contra uma geringonça do calibre de um ‘plano nacional de leitura’. Atenção: parece-me bem que se forneçam leituras de apoio aos conteúdos das várias disciplinas; e que para as aulas de português haja certas balizas entre as quais os professores possam escolher.

Mas por que diabo o Estado tem de recomendar leituras aos pobres cidadãos menores para os seus tempos livres? A que propósito uma escola manda os alunos lerem o livro tal e tal nas férias de Natal? Não era mais divertido, e respeitador da individualidade dos alunos, deixá-los escolher (pelo menos os que quisessem escolher)? E de seguida até verificar o que cada um havia escolhido e porquê? Havendo sugestão (repito: sugestão) de leituras, não poderiam ficar a cargo de cada professor ou de cada escola? Supomos que os educadores não sabem escolher livros para cada turma, sem necessitar de grandiosos planos? Não chega já de formatação, com os conteúdos programáticos iguais nos nossos oitenta e nove mil quilómetros quadrados, e dados da mesma forma? O Estado precisa de nós tão arrumadinhos a ponto de todos lermos os mesmos livros, independentemente de gosto e interesse? E que disparate é esse de serem os burocratas do Ministério da Educação a decidirem qual é a idade adequada para ler que livro (já descontando lapsos informáticos)?’

O texto completo está aqui.

Zizek, o Islão e a decadência intelectual da esquerda

Miguel Morgado sobre O Islão é Charlie?, de Slavoj Žižek: Crítica de livros: O Islão é Charlie?

Curiosamente, Zizek inicia este pequeno manifesto com uma crítica cerrada à correcção política que caracteriza a chamada esquerda democrática. Zizek diz com todas as letras que as atenuantes com que a esquerda nos brinda sempre que ocorre uma atrocidade a cargo do fundamentalismo islâmico – os muçulmanos são oprimidos e explorados, os EUA com a sua política no Médio Oriente são os responsáveis pelos atentados, falta tolerância multiculturalista – são uma demonstração da falência intelectual dessa esquerda. Diz Zizek com notável discernimento: “quanto mais os left wing liberals ocidentais se culpabilizarem, mais serão acusados pelos muçulmanos fundamentalistas de hipócritas que apenas tentam esconder o seu ódio pelo Islão”. Para Zizek não há atenuantes para um fundamentalismo que é um fanatismo “racista, religioso e sexista”. Dá bem ideia da decadência actual da esquerda não revolucionária que seja preciso Zizek para lhe dizer isto.

Frederico Lourenço

Uma espécie de milagre. Por José Tolentino Mendonça.

Frederico Lourenço é uma espécie de milagre no contexto português. Pense-se no que ele teve de contrariar para entregar-se a empresas tão desproporcionadas, na ambição e no brilho, empresas no fundo tão humílimas e necessárias, como traduzir sem perder o fôlego o cancioneiro homérico, uma parte da lírica grega e agora adentrar-se no mare magnum que é o repositório bíblico. E realizar isso nas condições possíveis em Portugal, onde a erosão de uma área disciplinar fundamental como a dos estudos clássicos parece um desastre em vias de consumar-se. Certamente é fantástico aquilo que António Barreto sublinhou em nome do júri do Prémio Pessoa que agora lhe foi atribuído, e de que ele é inteiramente merecedor: “Frederico Lourenço é responsável por um fenómeno raro: tornou a ‘Odisseia’ e a ‘Ilíada’ best-sellers entre nós.” Mas como se faria outra justiça ao trabalho do nosso miglior fabbro se, por exemplo, as edições dessas obras pudessem ser ao mesmo tempo best-sellers e bilingues como noutras paragens? Ninguém como Frederico Lourenço lamenta que “a língua de Homero, Platão e do Novo Testamento se tenha tornado, em Portugal, aquilo que em três mil anos de história nunca chegou verdadeiramente a ser: uma língua morta”. Contudo, ele não desiste. Dá o seu melhor. Dá-nos chão. Amplia-nos. Transcende-nos.

Twilight zone

Meu, isto é a sério. A sério, não, foda-se, aconteceu mesmo. Não é montagem, um gajo destes (destes p’amordedeus!) é convidado por um canal de televisão para falar de um livro de que é o suposto plumitivo autor sabendo nós (p’amordedeus!) que não o escreveu, pá. Está tudo doido? Aquela merda na TVI funciona a LSD? Isto não é possível, não é. Ponto.

coiso

Eminem ou Philip Roth. Qual é a dúvida?

el-burro-y-al-familiaHá tipos que escrevem maravilhosamente (Lobo Antunes). Outros que são grandes contadores de histórias (Eça), outros ainda (tantos) que juntam as duas coisas (Tolkien, Roth, Borges, Vargas Llosa, Auster, Waugh, Allende, Amado, Sena, Garcia Marquez, Twain). Depois há os que não sabem escrever (tantos) mas que se desenrascam e vendem. Há poetas que cantam (Dylan, Morrison, Van Morrison, Borland, Morrissey, Curtis, Cohen, Waters, The White Buffalo) e letristas que poetisam (Tê). Há ainda outros que nem sabem escrever nem contar histórias (Saramago, Pinter, Júlio Magalhães, eu) Mas a Grande Literatura (assim, com maiúscula) é uma constante da humanidade há milhares de anos. Há hoje, em 2016, escritores que serão os clássicos do futuro e não deixa de ter a sua piada que exactamente 100 anos (nem mais um ano nem menos um) após o nascimento do dadaísmo em 1916 no Cabaret Voltaire em Zurique, a Academia Sueca o tenha adoptado.
Quando leio, há uma de duas coisas que me fascinam, ou a escrita ou a história (quando se juntam ambas entro num Mundo que não se explica, vive-se). Há livros que me “colam” só pela escrita, em alguns casos tão bem escritos que me dá vontade de chorar só pela beleza da composição das frases (um grande, grande escritor em português, para mim, é o Francisco José Viegas). Quanto à língua só leio duas e ler Roth, Twain ou Auster no original é um fascínio dificilmente ultrapassável, só comparável a Sena ou Pessoa no domínio da coisa. Como contadores de histórias, Tolkien e os russos, que considero imbatíveis e tenho pena de só conseguir ler as traduções, e há-de nascer quem os bata a contar uma história (um dia destes aprendo russo só para poder ler Tolstoi ou Dostoievski no original). Dito isto, se 100 anos depois o dadaísmo é tendência na Academia Sueca, sugiro Eminem, um letrista fantástico (10-0 ao Dylan), Ice Cube ou Kendrick Lamar. No limite, sugiro darem-me o Nobel pelos meus “tuítes” ou posts no Facebook, mais dadaísta é difícil. De resto os grandes letristas do rock já morreram todos, se não eu abdicava.

Porque dentro de vinte anos as pessoas perguntarão umas às outras: onde estavas quando foi apresentado o Manual Modernista para a Modernidade?

manual-modernistaÉ amanhã o aguardado lançamento do livro Manual Modernista para a Modernidade, de Vítor Cunha. Bel’miró fará também uma aparição surpresa. Não temam: os serviços secretos de quinze países protegem este evento das ameaças terroristas repetidas nos últimos dias pelo Grupo de Amigos de Sócrates das Zonas Tribais do Paquistão. A apresentação contará com a minha intervenção – estava para ser Angelina Jolie (declarada admiradora do Vítor Cunha), mas ocorrências pessoais determinaram que não pudesse deslocar-se a Portugal, e evidentemente eu fui a substituição óbvia – mas não devem levar a mal ao livro e à sua apresentação por isso.

Apareçam.

O bloquismo e a geringonça (9)

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Mariana “Mouch” Mortágua. Por João Campos.

O que não deixa de ser um tanto ou quanto perturbador: qualquer pessoa que tenha lido Rand com um mínimo de atenção repara na inverosimilhança dos seus heróis, mas pelos vistos os vilões do Objectivismo não só não são implausíveis como ocupam posições de poder entre nós. Estamos bem arranjados.

para contextualizar indignações de gente hipócrita

De facto indigna que uma pessoa escreva um livro a contar a intimidade sexual de outras pessoas, fazendo uso de alegadas confidências de terceiros que já morreram. Mas convém lembrar (e eu lembrei no facebook e este post nasce dessa recordação) que São José de Almeida já fez o mesmo: escreveu um livro onde exibe a homossexualidade de pessoas que já morreram, outras ainda não (tal como JAS), que nunca assumiram essa orientação sexual e que não mandataram (certo pelo menos no caso dos mortos) jornalistas de esquerda para lhes vasculhar assuntos de cama. As informações que revela obteve-as muito por confidências de terceiros que se mantêm anónimos. (Até José António Saraiva é mais corajoso aqui.)

O mais engraçado: é que este livro foi muito apreciado pela gente que agora se indigna apopleticamente com José António Saraiva. As revelações de sexualidade alheia escritas por gente amiga, está muito bem; revelações de sexualidade alheia escritas pelos ódios de estimação, ai o mundo que acabou. É verem por exemplo esta publicidade ao livro de São José de Almeida no jugular. E este texto embevecido de Fernanda Câncio no DN (obrigada pelo envio, João Pereira da Silva). Sobre o livro promovido por Vidal e por Câncio, ler o Malomil. Deixo aqui um pedaço, para se ver o livro que foi promovido.

‘Convém dizer, antes de mais, que a gravidade moral desta empresa jornalístico-historiográfica é adensada por um facto singelo, mas decisivo: na sua esmagadora maioria, as fontes orais a que recorreu São José Almeida reservaram para si o absoluto anonimato. «O que está nestas páginas é […] fruto da recolha de depoimentos de pessoas que são homossexuais e que me deram o privilégio de me confiar as suas experiências, conhecimentos e reflexões, a grande maioria das vezes sob reserva de absoluto anonimato» (pág. 23, itálico acrescentado). Por outras palavras, os homossexuais que falaram com São José Almeida salvaguardaram a sua intimidade. Mas não tiveram pudor em revelar a intimidade de terceiros, já falecidos, sem que a estes, como é evidente, haja sido dada a possibilidade de contraditarem (ou confirmarem) o que sobre eles é dito. Fizeram sair do armário gente morta e indefesa, mas mantiveram-se lá dentro, acobertados, no calorzinho confortável da sua vidinha «normal». […]

Sendo lésbicas ou não, há um denominador comum às várias mulheres referenciadas neste cadastro narrativo: é tudo gente morta. […] Várias, como se vê, morreram já depois do 25 de Abril, muito depois, podendo ter assumido mais livre, enfática e publicamente a sua orientação sexual. Não o quiseram fazer. Mas São José tratou bem delas, fê-las a todas saltar da toca. Cá p’ra fora do armário, vá, suas malucas, que isto de se andar a esconder no roupeiro é coisa bem feia e muito hipócrita.

Ao Capítulo 6 entramos no closet masculino. De acordo com o depoimento do dirigente comunista Ruben de Carvalho, cuja autoridade nestas matérias desconhecemos qual seja, o Subsecretário de Estado da Presidência, Paulo Rodrigues, «era conhecido publicamente pelas suas relações homossexuais» (pág. 126). Também Pedro Feytor Pinto, responsável pelo Secretariado Nacional de Informação, «o António Ferro dos anos setenta», era «assumidamente homossexual» (pág. 126). Porém, nas suas memórias, recentemente publicadas (Na Sombra do Poder, Lisboa, 2011), Feytor Pinto não se revela, em lugar algum, «assumidamente homossexual». Aliás, em duzentas páginas de texto não dedica sequer uma linha à sua intimidade. E o «António Ferro dos anos setenta» está aí, vivo e lúcido, escrevendo memórias, dando entrevistas, aparecendo na televisão, proferindo conferências. Por que motivo não o contactou São José Almeida? Era o mínimo que se impunha, não apenas a uma historiadora como a uma jornalista digna desse nome: cruzar as fontes, confrontar testemunhos, ouvir os visados. Por que não falou a autora com Pedro Feytor Pinto?’

“Manual Modernista para a Modernidade”

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Recordo que o lançamento do livro Manual Modernista para a Modernidade, de Vítor Cunha terá lugar amanhã às 18h00 na Feira do Livro do Porto, com apresentação do insurgente Carlos Guimarães Pinto. Recordo também que a obra conta com a colaboração do inigualável Bel’Miró. Mais informações aqui.

O lançamento do ano: “Manual Modernista para a Modernidade”

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O lançamento do livro Manual Modernista para a Modernidade, de Vítor Cunha terá lugar na Feira do Livro do Porto no dia 6 de Setembro às 18h00, com apresentação do insurgente Carlos Guimarães Pinto, sendo de destacar também que a obra conta com a colaboração do inigualável Bel’Miró. Mais informações aqui.

Como quem não se importa

É a banca, com a Caixa qual cereja em cima do bolo; o IMI e a vista mais o sol que bate nas janelas; a dívida pública que bate recordes; os incêndios e a indignação sem sentido nem consequência; a imunidade diplomática para distracção de fim de Agosto O país volta de férias como quem não se importa a usufruir do momento com conversas e risos. O meu artigo hoje no ‘i’.

Como quem não se importa

“Deviam estar mais de cem pessoas no salão. Muitas eram portuguesas e duvido que alguma pensasse no mesmo que eu. Aquele mundo estava a acabar para eles, em África; penso que ninguém ali poria isso em causa não obstante todos os discursos e todo aquele cerimonial; mas estavam todos à vontade, a usufruir do momento, enchendo o velho salão com conversas e risos como quem não se importa, como quem sabe viver com a história. Nunca admirei tanto os portugueses como naquela altura.”
V. S. Naipaul, “Uma Vida Pela Metade” (Dom Quixote)

Foi assim em África e agora em Portugal. Perante um mundo que acaba, desaba, rimos, festejamos, estamos contentes. Mais de 40 anos depois, apoderou-se novamente do país uma inconsciência colectiva que nos bloqueia. Quando Portugal venceu o Euro 2016, muitos disseram que aquela atitude era a de um novo país. Mas não há nada de novo.

A vitória no Europeu foi um episódio pontual e igual ao dos muitos portugueses bem sucedidos, em Portugal ou no estrangeiro. Com esforço, sacrifício e muito realismo. Precisamente o contrário do que colectivamente vemos agora e do que se viu em África no início dos anos 70.

Willy, a personagem que Naipaul criou naquele maravilhoso livro, admira os portugueses por não se importarem e saberem viver com a História. Mas Willy tinha problemas e não conseguia aceitá-los. Já Portugal aceita-os, mas não os resolve. Vamos queimando os últimos cartuchos; estamos todos como quem não se importa a usufruir do momento com conversas e risos.

Desconstruindo a Agenda Revolucionária Global

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É o título da recensão que escrevi conjuntamente com o meu colega Hugo Chelo, relativa ao livro A Globalização da Revolução Cultural Ocidental: Conceitos-Chave e Mecanismos Operacionais (Principia, 2015) de Marguerite A. Peeters, em boa hora publicado em Portugal pela Principia em parceria com a Fundação A Junção do Bem.

A recensão foi publicada no mais recente número da Gaudium Sciendi, a revista da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa. Aqui ficam os links para os conteúdos do Nº10 da Revista Gaudium Sciendi e para a recensão.

The Closing of the Liberal Mind – Kim Holmes

The Closing of the Liberal Mind How Groupthink and Intolerance Define the Left

Livros para Férias: O “fechamento” de certa esquerda… e de certa direita. Por João Carlos Espada.

O tema central do livro é a emergência de um novo tipo de esquerda na América, a que o autor chama — quanto a mim, muito apropriadamente — “esquerda pós-moderna”. Esta “nova esquerda” está patente nas entusiásticas hostes de jovens com educação universitária (sempre sem gravata e preferencialmente de T-shirt, jeans, ténis ou chinelos) que aclamaram (e continuam a aclamar) o ex-candidato Bernie Sanders. São eles que dominam hoje os campus universitários norte-americanos (e britânicos, para não vir mais perto).

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No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’. Veremos se não será desta que Philip Roth recebe o Nobel.

Conspiração contra a América

Contrariamente aos outros livros de Philip Roth, “The Plot Against America” nunca me convenceu sequer a que o comprasse. A mera ideia de o aviador Charles Lindbergh ser eleito presidente dos EUA, derrotando Franklin Delano Roosevelt, nas eleições de 1940, com um discurso isolacionista contra a entrada dos EUA na ii Guerra Mundial e contra os judeus, de suspeição, medo, propaganda e cobardia, parecia-me demasiado irreal para ser verdade.

Roth descreveu aquela conspiração em 2004. Estamos em 2016 e a nomeação de Donald Trump como candidato do Partido Republicano para as presidenciais no próximo mês de novembro fez-me mudar de ideias.

“The Plot Against America” chegou-me esta semana pela Amazon. Se há livro que tem de ser lido este ano, é este. Quando um livro ficciona como real uma irrealidade que se tornou verdadeira, esse livro torna-se indispensável; na essência do que deve ser a literatura em que alguém, através da observação do que vê, sente, pressente, não se limita a ser magistral na escrita, mas alerta.

Alerta o homem para o pior que há no homem. Viaja ao absurdo, vive-o antecipadamente e volta para nos contar como vai ser; como muitos irão aceitar, pactuar, ajustar-se, contextualizar. O livro de Roth passa-se em 1940, quando a Europa está em guerra. Lindbergh era isolacionista, como Trump afirma em 2016 que os EUA só defenderão os aliados da NATO se estes cumprirem as suas obrigações para com os EUA. Alguém conspirou contra a América e, quando se conspira contra a América, conspira-se contra todos nós.

A conspiração contra a América

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De todos os livros de Roth este nunca me convenceu sequer a que o comprasse. A mera ideia do aviador Charles Lindbergh ser eleito presidente dos EUA, derrotando Franklin Delano Roosevelt, nas eleições de 1940, com um discurso isolacionista, contra a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial e contra os judeus, de suspeição, medo, propaganda e cobardia, parecia-me demasiado irreal para ser verdade. Fiz mal, eu sei. Mas a nomeação de Trump pelos republicanos mudou isso e o livro chegou-me esta semana. O que Roth ficcionou, outros tornaram possível. E quando a ficção se torna realidade, a ideia que temos de um livro muda para que o livro nos mude de acordo com a nova realidade. O meu artigo hoje no ‘i’ é sobre este livro e sobre Trump.

Lindbergh was the first famous living American whom I learned to hate – just as President Roosevelt was the first famous living American whom I was taught to love – and so his nomination by the Republicans to run against Roosevelt in 1940 assaulted, as nothing as before, that huge endowment of personal security that I had taken for granted as an American child of American parents in an American school in an American city in an America at peace with the world.
The Plot Against America, p. 7

O meu texto de ontem no Observador.

‘Queria escrever sobre a mais recente polémica com o Facebook: empresa tão moderna, tão hipster, tão tecnológica, tão universo-aos-nossos-pés que não deixa as senhoras que lá trabalham vestirem-se de forma sexy. A propósito disso fui reler as notícias de Tim Hunt, o Nobel que acha uma maçada as mulheres cientistas: que os cientistas e as cientistas apaixonam-se e as mulheres choram quando são criticadas. Aqui, apanhei a verborreia de V.S. Naipaul sobre mulheres escritoras, vi tudo encarnado e decidi alargar o arco deste texto.

A saber: a mania que alguns egos masculinos têm de que a forma de agir, de trabalhar, de pensar, de escrever, de o que quer que seja masculina é a forma correta, o padrão, a ordem natural do mundo funcionar. E que a maneira feminina – e sim, eu voto sempre na existência de diferenças entre os sexos e nunca na igualdade intrínseca entre os xy e as xx (o que é muito diferente de assumir que há papeis, profissões, talentos predeterminados para cada sexo) – é um desvio à norma, fruto de emoções desordenadas e irracionalidades várias, sobretudo algo que as mulheres têm de corrigir se querem ser levadas a sério pelos guardiães da seriedade (também conhecidos como elementos do sexo masculino).

Este padrão masculino vai ao ponto das alucinações de Naipaul: a maneira de escrever certa e com qualidade é a masculina. O curioso é que este tipo de opiniões é levado a sério ou, pelo menos, reproduzido sem ser em tom de escárnio em jornais decentes. Quando merecia a zombaria que oferecemos a sugestões estrambólicas como a de retirar dos cursos de literatura as obras dos escritores masculinos, brancos e das potências colonizadoras. Os maluquinhos esquerdistas americanos querem extirpar os cursos de Shakespeare e Chaucer. Naipaul, porventura com o ego insuflado de que padecem os temperamentos artísticos e políticos, como aqui bem ilustrou Paulo Tunhas, opina que a escrita de Jane Austen ou das Brontë ou de George Eliot é ‘unequal to him’ (vá, vamos todos desmaiar ao mesmo tempo de comoção pelo tamanho do talento másculo de Naipaul).’

O resto está aqui.

texto que contém spoilers

Ninguém me perguntou – o que é uma grave falha – mas eu também tenho um livro que emprestei e não me foi devolvido e sofro horrores por isso ao fim de para aí vinte anos. Geralmente odeio emprestar livros (mais vale comprar e oferecer) por causa desta mania coletivista de não se devolverem livros que foram emprestados. O último que emprestei foi uma preciosidade da Teolinda Gersão ao Henrique Raposo, mas só porque a pessoa com quem o Henrique é casado me tinha devolvido, ou para devolver, o Life After Life da gigante Kate Atkinson. São pessoas de boas contas em livros, portanto. Os outros que emprestei e não me foram devolvidos são livros de substituição fácil (ainda que, enfim, não tenham sido os livros que eu li, e não têm as minhas marcas, o que parecendo que não faz toda a diferença), exceto em dois casos, mas um era sobre assunto de que entretanto perdi o interesse e outro não tinha qualidade literária que me provocasse luto. De qualquer modo, lembro-me dos empréstimos todos e só devido aos bons ensinamentos cristãos da minha vida não aponto inquisitorialmente os nomes.
Mas vamos à ovelha bibliográfica transviada. Emprestei o Escalas do Levante, de Amin Maalouf e népias de devolução. Não é fácil encontrar o livro por aí, pelo que tenho sobrevivido sem ele. Com frequência dou por mim a rogar pragas ao autor pela falta de informação da cena final, em que o narrador se recusa a coscuvilhar (para melhor nos informar) como termina o reencontro descrito. Se tivesse permanecido com o livro, certamente iria reler aquela cena muitas vezes, com a esperança irracional de lá encontrar afinal uma clarificação. Lembro-me que na adolescência mais tenra tive de ler muitas vezes o final de Os Três Mosqueteiros para acreditar que a Constance Bonacieux morria mesmo. Algo semelhante se preparava para ocorrer com Escalas de Levante. Mas este curso natural das coisas foi interrompido pelo malfadado empréstimo. Também dou por mim com frequência a rogar pragas à pessoa a quem emprestei o livro por me ter privado da vivência deste pequeno comportamento compulsivo.

Uma enorme vergonha para a Universidade de Coimbra

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Honoris Causa. Por Norberto Pires.

A atribuição de doutoramentos Honoris Causa não se pode vulgarizar, nem ser uma meio de promoção pessoal ou institucional, pois aquilo que se ganha na espuma dos dias depressa pode constituir um enorme problema de credibilidade e reconhecimento no longo prazo.

No caso da Universidade de Coimbra, o doutoramento Honoris Causa é concedido por proposta de uma Faculdade, depois de aprovada em Conselho Científico e ouvido o Senado da Universidade de Coimbra. Segue-se um cerimonial longo bem descrito nos “Estatutos Velhos” da Universidade de Coimbra, datados de 1653. É uma cerimónia com elevado impacto político e social, o que resulta muito da credibilidade que a Universidade de Coimbra granjeou nos seus 725 anos de existência. Com estas distinções a Universidade de Coimbra associa-se e promove aos valores suscitados pela personalidade distinguida, procurando com o ato difundir uma mensagem clara sobre aquilo que investiga, ensina e defende. Não pode, por isso, ser um ato precipitado e influenciado pela espuma dos dias, para fazer uma declaração política de curto-prazo ou para influenciar, mais ou menos decisivamente, movimentos políticos cujos objetivos e motivação não se conhecem em toda a sua extensão. O risco de “engano” é particularmente gravoso.

Lula da Silva é Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra. Espero que o que se está a passar no Brasil, e a enorme vergonha associada, faça com que os responsáveis da universidade de Coimbra ponderem bem antes de atribuir distinções deste tipo a políticos no ativo.

Leitura complementar: “Quando um rico rouba, vira ministro”.

João César das Neves sobre o pensamento económico do Papa Francisco

O Papa Francisco é socialista?

No livro “A Economia de Francisco – Diagnóstico de um Equívoco”, que o Observador pré-publica, João César das Neves analisa o pensamento económico do Papa.

Entrou Lula, saiu polvo III

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Brasil. Pedida prisão preventiva de Lula da Silva.

Ministério Público brasileiro pede prisão preventiva de Lula devido às investigações no tríplex de Guarajá. Este caso soma-se às alegadas ligações ao esquema de corrupção da Petrobras.

Leituras complementares: Entrou Lula, saiu polvoEntrou Lula, saiu polvo II.

No Fio da Navalha

Esta semana na minha crónica no ‘i’ pego no último livro do historiador Robert Service sobre o fim da Guerra Fria. Durante os anos 1985-1991 ninguém sabia que a URSS ia cair. Nem Reagan, nem Thatcher, nem João Paulo II. Na altura, como agora, continuamos às cegas, O que pode mudar é a confiança que temos nas nossas convicções.

Confiança na incerteza

No seu último livro, “The End of the Cold War: 1985-1991”, sobre o fim da Guerra Fria, Robert Service, o historiador britânico especialista em história da Rússia, chama a atenção para algo que costumamos esquecer: naquela época ninguém sabia, ou esperava sequer, que os acontecimentos pudessem desenrolar-se como se desenrolaram. Basicamente, que o Muro iria cair daquela forma e que a URSS se iria volatilizar daquela maneira.

Ronald Reagan não sabia o que sabemos hoje. A segurança de Reagan não advinha da certeza de que o fim da URSS estava próximo, mas de saber que estava certo. Tal como Margaret Thatcher não estava segura quando viu em Mikhail Gorbachev um soviético com quem podia conversar. Hoje sabemos como é que a história acabou mas, na altura, as dúvidas subsistiam.

O serviço que Service nos presta com este livro à venda desde outubro último é que nos recorda das dificuldades de outrora. Que o sucesso de Reagan, Thatcher e João Paulo II não foi trigo limpo, farinha amparo. Exigiu esforço e empenho.

Estou cansado de ouvir que os líderes de hoje não têm a clarividência dos de outrora. Que não dominam os acontecimentos. Ora, não só isso não é desejável como, no passado, os políticos também não controlavam o que acontecia. Iam com a maré. Se algo diferencia os anos 80 de agora não é tanto a qualidade dos governos, mas a confiança que as pessoas têm nas suas convicções. Com Reagan, Thatcher e João Paulo II, a maioria estava mais bem elucidada que agora sobre as batalhas a serem travadas.