Como quem não se importa

É a banca, com a Caixa qual cereja em cima do bolo; o IMI e a vista mais o sol que bate nas janelas; a dívida pública que bate recordes; os incêndios e a indignação sem sentido nem consequência; a imunidade diplomática para distracção de fim de Agosto O país volta de férias como quem não se importa a usufruir do momento com conversas e risos. O meu artigo hoje no ‘i’.

Como quem não se importa

“Deviam estar mais de cem pessoas no salão. Muitas eram portuguesas e duvido que alguma pensasse no mesmo que eu. Aquele mundo estava a acabar para eles, em África; penso que ninguém ali poria isso em causa não obstante todos os discursos e todo aquele cerimonial; mas estavam todos à vontade, a usufruir do momento, enchendo o velho salão com conversas e risos como quem não se importa, como quem sabe viver com a história. Nunca admirei tanto os portugueses como naquela altura.”
V. S. Naipaul, “Uma Vida Pela Metade” (Dom Quixote)

Foi assim em África e agora em Portugal. Perante um mundo que acaba, desaba, rimos, festejamos, estamos contentes. Mais de 40 anos depois, apoderou-se novamente do país uma inconsciência colectiva que nos bloqueia. Quando Portugal venceu o Euro 2016, muitos disseram que aquela atitude era a de um novo país. Mas não há nada de novo.

A vitória no Europeu foi um episódio pontual e igual ao dos muitos portugueses bem sucedidos, em Portugal ou no estrangeiro. Com esforço, sacrifício e muito realismo. Precisamente o contrário do que colectivamente vemos agora e do que se viu em África no início dos anos 70.

Willy, a personagem que Naipaul criou naquele maravilhoso livro, admira os portugueses por não se importarem e saberem viver com a História. Mas Willy tinha problemas e não conseguia aceitá-los. Já Portugal aceita-os, mas não os resolve. Vamos queimando os últimos cartuchos; estamos todos como quem não se importa a usufruir do momento com conversas e risos.

Desconstruindo a Agenda Revolucionária Global

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É o título da recensão que escrevi conjuntamente com o meu colega Hugo Chelo, relativa ao livro A Globalização da Revolução Cultural Ocidental: Conceitos-Chave e Mecanismos Operacionais (Principia, 2015) de Marguerite A. Peeters, em boa hora publicado em Portugal pela Principia em parceria com a Fundação A Junção do Bem.

A recensão foi publicada no mais recente número da Gaudium Sciendi, a revista da Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa. Aqui ficam os links para os conteúdos do Nº10 da Revista Gaudium Sciendi e para a recensão.

The Closing of the Liberal Mind – Kim Holmes

The Closing of the Liberal Mind How Groupthink and Intolerance Define the Left

Livros para Férias: O “fechamento” de certa esquerda… e de certa direita. Por João Carlos Espada.

O tema central do livro é a emergência de um novo tipo de esquerda na América, a que o autor chama — quanto a mim, muito apropriadamente — “esquerda pós-moderna”. Esta “nova esquerda” está patente nas entusiásticas hostes de jovens com educação universitária (sempre sem gravata e preferencialmente de T-shirt, jeans, ténis ou chinelos) que aclamaram (e continuam a aclamar) o ex-candidato Bernie Sanders. São eles que dominam hoje os campus universitários norte-americanos (e britânicos, para não vir mais perto).

Continue reading “The Closing of the Liberal Mind – Kim Holmes”

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’. Veremos se não será desta que Philip Roth recebe o Nobel.

Conspiração contra a América

Contrariamente aos outros livros de Philip Roth, “The Plot Against America” nunca me convenceu sequer a que o comprasse. A mera ideia de o aviador Charles Lindbergh ser eleito presidente dos EUA, derrotando Franklin Delano Roosevelt, nas eleições de 1940, com um discurso isolacionista contra a entrada dos EUA na ii Guerra Mundial e contra os judeus, de suspeição, medo, propaganda e cobardia, parecia-me demasiado irreal para ser verdade.

Roth descreveu aquela conspiração em 2004. Estamos em 2016 e a nomeação de Donald Trump como candidato do Partido Republicano para as presidenciais no próximo mês de novembro fez-me mudar de ideias.

“The Plot Against America” chegou-me esta semana pela Amazon. Se há livro que tem de ser lido este ano, é este. Quando um livro ficciona como real uma irrealidade que se tornou verdadeira, esse livro torna-se indispensável; na essência do que deve ser a literatura em que alguém, através da observação do que vê, sente, pressente, não se limita a ser magistral na escrita, mas alerta.

Alerta o homem para o pior que há no homem. Viaja ao absurdo, vive-o antecipadamente e volta para nos contar como vai ser; como muitos irão aceitar, pactuar, ajustar-se, contextualizar. O livro de Roth passa-se em 1940, quando a Europa está em guerra. Lindbergh era isolacionista, como Trump afirma em 2016 que os EUA só defenderão os aliados da NATO se estes cumprirem as suas obrigações para com os EUA. Alguém conspirou contra a América e, quando se conspira contra a América, conspira-se contra todos nós.

A conspiração contra a América

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De todos os livros de Roth este nunca me convenceu sequer a que o comprasse. A mera ideia do aviador Charles Lindbergh ser eleito presidente dos EUA, derrotando Franklin Delano Roosevelt, nas eleições de 1940, com um discurso isolacionista, contra a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial e contra os judeus, de suspeição, medo, propaganda e cobardia, parecia-me demasiado irreal para ser verdade. Fiz mal, eu sei. Mas a nomeação de Trump pelos republicanos mudou isso e o livro chegou-me esta semana. O que Roth ficcionou, outros tornaram possível. E quando a ficção se torna realidade, a ideia que temos de um livro muda para que o livro nos mude de acordo com a nova realidade. O meu artigo hoje no ‘i’ é sobre este livro e sobre Trump.

Lindbergh was the first famous living American whom I learned to hate – just as President Roosevelt was the first famous living American whom I was taught to love – and so his nomination by the Republicans to run against Roosevelt in 1940 assaulted, as nothing as before, that huge endowment of personal security that I had taken for granted as an American child of American parents in an American school in an American city in an America at peace with the world.
The Plot Against America, p. 7

O meu texto de ontem no Observador.

‘Queria escrever sobre a mais recente polémica com o Facebook: empresa tão moderna, tão hipster, tão tecnológica, tão universo-aos-nossos-pés que não deixa as senhoras que lá trabalham vestirem-se de forma sexy. A propósito disso fui reler as notícias de Tim Hunt, o Nobel que acha uma maçada as mulheres cientistas: que os cientistas e as cientistas apaixonam-se e as mulheres choram quando são criticadas. Aqui, apanhei a verborreia de V.S. Naipaul sobre mulheres escritoras, vi tudo encarnado e decidi alargar o arco deste texto.

A saber: a mania que alguns egos masculinos têm de que a forma de agir, de trabalhar, de pensar, de escrever, de o que quer que seja masculina é a forma correta, o padrão, a ordem natural do mundo funcionar. E que a maneira feminina – e sim, eu voto sempre na existência de diferenças entre os sexos e nunca na igualdade intrínseca entre os xy e as xx (o que é muito diferente de assumir que há papeis, profissões, talentos predeterminados para cada sexo) – é um desvio à norma, fruto de emoções desordenadas e irracionalidades várias, sobretudo algo que as mulheres têm de corrigir se querem ser levadas a sério pelos guardiães da seriedade (também conhecidos como elementos do sexo masculino).

Este padrão masculino vai ao ponto das alucinações de Naipaul: a maneira de escrever certa e com qualidade é a masculina. O curioso é que este tipo de opiniões é levado a sério ou, pelo menos, reproduzido sem ser em tom de escárnio em jornais decentes. Quando merecia a zombaria que oferecemos a sugestões estrambólicas como a de retirar dos cursos de literatura as obras dos escritores masculinos, brancos e das potências colonizadoras. Os maluquinhos esquerdistas americanos querem extirpar os cursos de Shakespeare e Chaucer. Naipaul, porventura com o ego insuflado de que padecem os temperamentos artísticos e políticos, como aqui bem ilustrou Paulo Tunhas, opina que a escrita de Jane Austen ou das Brontë ou de George Eliot é ‘unequal to him’ (vá, vamos todos desmaiar ao mesmo tempo de comoção pelo tamanho do talento másculo de Naipaul).’

O resto está aqui.

texto que contém spoilers

Ninguém me perguntou – o que é uma grave falha – mas eu também tenho um livro que emprestei e não me foi devolvido e sofro horrores por isso ao fim de para aí vinte anos. Geralmente odeio emprestar livros (mais vale comprar e oferecer) por causa desta mania coletivista de não se devolverem livros que foram emprestados. O último que emprestei foi uma preciosidade da Teolinda Gersão ao Henrique Raposo, mas só porque a pessoa com quem o Henrique é casado me tinha devolvido, ou para devolver, o Life After Life da gigante Kate Atkinson. São pessoas de boas contas em livros, portanto. Os outros que emprestei e não me foram devolvidos são livros de substituição fácil (ainda que, enfim, não tenham sido os livros que eu li, e não têm as minhas marcas, o que parecendo que não faz toda a diferença), exceto em dois casos, mas um era sobre assunto de que entretanto perdi o interesse e outro não tinha qualidade literária que me provocasse luto. De qualquer modo, lembro-me dos empréstimos todos e só devido aos bons ensinamentos cristãos da minha vida não aponto inquisitorialmente os nomes.
Mas vamos à ovelha bibliográfica transviada. Emprestei o Escalas do Levante, de Amin Maalouf e népias de devolução. Não é fácil encontrar o livro por aí, pelo que tenho sobrevivido sem ele. Com frequência dou por mim a rogar pragas ao autor pela falta de informação da cena final, em que o narrador se recusa a coscuvilhar (para melhor nos informar) como termina o reencontro descrito. Se tivesse permanecido com o livro, certamente iria reler aquela cena muitas vezes, com a esperança irracional de lá encontrar afinal uma clarificação. Lembro-me que na adolescência mais tenra tive de ler muitas vezes o final de Os Três Mosqueteiros para acreditar que a Constance Bonacieux morria mesmo. Algo semelhante se preparava para ocorrer com Escalas de Levante. Mas este curso natural das coisas foi interrompido pelo malfadado empréstimo. Também dou por mim com frequência a rogar pragas à pessoa a quem emprestei o livro por me ter privado da vivência deste pequeno comportamento compulsivo.

Uma enorme vergonha para a Universidade de Coimbra

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Honoris Causa. Por Norberto Pires.

A atribuição de doutoramentos Honoris Causa não se pode vulgarizar, nem ser uma meio de promoção pessoal ou institucional, pois aquilo que se ganha na espuma dos dias depressa pode constituir um enorme problema de credibilidade e reconhecimento no longo prazo.

No caso da Universidade de Coimbra, o doutoramento Honoris Causa é concedido por proposta de uma Faculdade, depois de aprovada em Conselho Científico e ouvido o Senado da Universidade de Coimbra. Segue-se um cerimonial longo bem descrito nos “Estatutos Velhos” da Universidade de Coimbra, datados de 1653. É uma cerimónia com elevado impacto político e social, o que resulta muito da credibilidade que a Universidade de Coimbra granjeou nos seus 725 anos de existência. Com estas distinções a Universidade de Coimbra associa-se e promove aos valores suscitados pela personalidade distinguida, procurando com o ato difundir uma mensagem clara sobre aquilo que investiga, ensina e defende. Não pode, por isso, ser um ato precipitado e influenciado pela espuma dos dias, para fazer uma declaração política de curto-prazo ou para influenciar, mais ou menos decisivamente, movimentos políticos cujos objetivos e motivação não se conhecem em toda a sua extensão. O risco de “engano” é particularmente gravoso.

Lula da Silva é Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra. Espero que o que se está a passar no Brasil, e a enorme vergonha associada, faça com que os responsáveis da universidade de Coimbra ponderem bem antes de atribuir distinções deste tipo a políticos no ativo.

Leitura complementar: “Quando um rico rouba, vira ministro”.

João César das Neves sobre o pensamento económico do Papa Francisco

O Papa Francisco é socialista?

No livro “A Economia de Francisco – Diagnóstico de um Equívoco”, que o Observador pré-publica, João César das Neves analisa o pensamento económico do Papa.

Entrou Lula, saiu polvo III

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Brasil. Pedida prisão preventiva de Lula da Silva.

Ministério Público brasileiro pede prisão preventiva de Lula devido às investigações no tríplex de Guarajá. Este caso soma-se às alegadas ligações ao esquema de corrupção da Petrobras.

Leituras complementares: Entrou Lula, saiu polvoEntrou Lula, saiu polvo II.

No Fio da Navalha

Esta semana na minha crónica no ‘i’ pego no último livro do historiador Robert Service sobre o fim da Guerra Fria. Durante os anos 1985-1991 ninguém sabia que a URSS ia cair. Nem Reagan, nem Thatcher, nem João Paulo II. Na altura, como agora, continuamos às cegas, O que pode mudar é a confiança que temos nas nossas convicções.

Confiança na incerteza

No seu último livro, “The End of the Cold War: 1985-1991”, sobre o fim da Guerra Fria, Robert Service, o historiador britânico especialista em história da Rússia, chama a atenção para algo que costumamos esquecer: naquela época ninguém sabia, ou esperava sequer, que os acontecimentos pudessem desenrolar-se como se desenrolaram. Basicamente, que o Muro iria cair daquela forma e que a URSS se iria volatilizar daquela maneira.

Ronald Reagan não sabia o que sabemos hoje. A segurança de Reagan não advinha da certeza de que o fim da URSS estava próximo, mas de saber que estava certo. Tal como Margaret Thatcher não estava segura quando viu em Mikhail Gorbachev um soviético com quem podia conversar. Hoje sabemos como é que a história acabou mas, na altura, as dúvidas subsistiam.

O serviço que Service nos presta com este livro à venda desde outubro último é que nos recorda das dificuldades de outrora. Que o sucesso de Reagan, Thatcher e João Paulo II não foi trigo limpo, farinha amparo. Exigiu esforço e empenho.

Estou cansado de ouvir que os líderes de hoje não têm a clarividência dos de outrora. Que não dominam os acontecimentos. Ora, não só isso não é desejável como, no passado, os políticos também não controlavam o que acontecia. Iam com a maré. Se algo diferencia os anos 80 de agora não é tanto a qualidade dos governos, mas a confiança que as pessoas têm nas suas convicções. Com Reagan, Thatcher e João Paulo II, a maioria estava mais bem elucidada que agora sobre as batalhas a serem travadas.

Sobre a perseguição ao Henrique Raposo

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Já outros aqui escreveram mais e melhor sobre este bizarro e preocupante caso, pelo que não tenho muito a acrescentar.

Não tive ainda oportunidade de ler o livro (apesar de ter ficado com mais vontade de o fazer depois dos acontecimentos dos últimos dias), mas considero obviamente inaceitável que se ameace matar alguém por discordar das suas opiniões expressas num livro, num programa de tv ou seja onde for.

É mais um sinal de terceiro-mundismo que se acumula nos dias que correm em Portugal.

Um abraço ao Henrique.

Antes que comecem a queimar livros

Eu conheço a história do Vale Santiago (quem esteve na FACECO de há um par d’anos viu lá exposta a porta deitada abaixo no assalto à casa do lavrador). Quando era gaiato ser chamado maltes era seguido dumas palmadas por me ter portado particularmente mal. Sei que ainda há malteses que assaltam e roubam reformas dos velhos, roubam vacas, porcos ou pilhas de cortiça. Conheço em primeira mão as histórias de suicídio lá da serra de Sabóia ou de Sta Clara. Conheço em primeira mão o alcoolismo da solidão de novos e velhos. Das drogas dos tempos mais recentes. Dos baraços amarrados à trave do tecto, do 605 forte, da caçadeira usada ao contrário. A solidão e a quietude de esperar pela sossega. Do fatalismo que aceita e é natural como respirar. Do calhando, seja o que Deus quiser.

Que o Alentejo também é isso estamos conversados – não é só isso felizmente, claro. Mas nao é por vergonha ou total desconhecimento de quem põe uma samarra aos ombros, bebe um copo com uma linguiça e um panito e acha que o cante é uma cantoria alegre e folclórica dum povo bonacheirão (como o é este vosso criado), que a história muda ou é reescrita.

O cante, aliás, canta bem as histórias mais tristes. Uma espécie de blues (a ver se os suburbanos e neoalentejanófilos percebem) que ainda hoje me aperta o coração porque ainda recordo como era cantado lá na venda e por quem era cantado e como era regado.

Parece que no Portugal do Séc. XXI publicar um livro, qualquer um, não é actividade livre de risco e de perseguição. Era bom que a Liberdade fosse um valor acarinhado em Portugal e a ignorância não fosse desculpa para a estupidez.

Henrique Raposo:
Os jovens da zona que retrato não conheciam, por exemplo, a revolta do Vale de Santiago (de onde saiu o homem que matou Sidónio). É um pouco estranho, mas parece que é a primeira vez que um geração de alentejanos está a ouvir falar do problema do suicídio (que existe), da cultura dos malteses fora-da-lei (que existiu), do abuso sexual da criada e da ceifeira às mãos dos marialvas e do consequente número generoso de bastados (que existiu), etc., etc. Como nunca ouviram falar disto, como nunca leram nada sobre isto, reagem contra o mensageiro. É normal. A negação é o primeiro passo do conhecimento.

Já agora: maltes não é o mesmo que maltês.

Um homem menor

Pacheco Pereira - Manuela Ferreira Leite

zagalo. Por Rui A.

O que repele na figura pública de Pacheco Pereira não é, então, o que ele diz ou possa dizer sobre a política nacional e os seus protagonistas. Muito menos sobre o PSD e Passos Coelho. Pacheco sempre foi um tipo de esquerda muito radical, que apenas temporariamente reprimiu as suas tendências naturais à autoridade do chefe Cavaco, por razões de pura conveniência pessoal que nada tinham de ideológico. Não é pois de estranhar que se encoste agora ao PS e ao Bloco e se arvore em estratega da esquerda contra a «direita da austeridade» (o seu artigo de ontem, no Público, «Brincar com o fogo», é, a esse respeito, uma peça interessante). O que incomoda neste homem é não ter categoria para retirar consequências daquilo que diz e que pensa. O que anda ele a fazer por um partido que, de um modo ou de outro, estará sempre à sua direita e com o qual ele nunca teve outra afinidade que não fosse de interesse pessoal? Por que não assume, definitivamente, a sua condição natural de homem de esquerda, do PS ou do Bloco, como outros outrora bem mais à direita do que ele, Freitas e Basílio, por exemplo, fizeram? Porque, presume-se, Pacheco não ganharia nada com isso (um simples lugar na administração de Serralves não lhe preenche o ego) e, por outro lado, o seu excessivo fanatismo anti-PSD e anti-Passos tornou-o desinteressante para o PS.

A grande ambição política de Pacheco, com a qual ele ainda ambiciona relançar a sua vida política, resume-se assim, a ser expulso do PSD. Aí, sim, Pacheco poderia servir para ser agitado como uma bandeira do PS e da esquerda. Mas esse favor não lho fazem, e isso azeda-lhe a vida, turva-lhe o espírito e aguça-lhe o ódio à humanidade. É isso que faz deste homem inteligente um homem menor.

“Cartas Persas”

Persas entre nós

Foi com as “Cartas Persas”, agora publicadas em Portugal, que Montesquieu começou a sua carreira literária. Miguel Morgado olha para a obra de um dos pensadores mais influentes da Ciência Política.

Sobre a parcialidade dos manuais escolares

A semente fértil do subdesenvolvimento. Por Gabriel Mithá Ribeiro.

Ler os manuais de História aprovados pelo nosso sistema de ensino comprova a sua parcialidade. Andamos a alimentar uma tosca e caríssima engenharia social destinada ao subdesenvolvimento das mentes.

Sobre o estalinismo na Península Ibérica

Vale a pena ler antes das eleições presidenciais: Quem foi afinal o último estalinista? Cunhal ou Carrillo? Por José Manuel Fernandes.

Margaret Thatcher, ícone do feminismo

And now for something completely different. Uma recensão minha – of sorts – dos dois primeiros livros da biografia autorizada de Margaret Thatcher por Charles Moore. Publicada ontem no Observador.

‘Enquanto lia os dois primeiros volumes da biografia de Margaret Thatcher por Charles Moore – Margaret Thatcher, The Authorized Biography, Volume One: Not for Turning e o recentemente publicado Volume Two: Everything She Wants – pensei amiúde como devia estar grata à biografada. Por várias razões – já lá vamos –, mas, acima de tudo por me ter feito crescer achando normal que uma mulher fosse uma política marcante, a líder de um dos grandes países europeus, e em igualdade, e às vezes até superioridade (e não só pela costumeira sobranceria britânica com os bárbaros ex-colonizados ou com os temperamentais europeus continentais), face aos pares masculinos. Thatcher tornou-se primeira-ministra britânica em maio de 1979, antes de eu ter idade para me lembrar destas felizes ocorrências. Pelo que durante a minha infância e adolescência Margaret Thatcher foi um dos ornamentos da minha vida como primeira-ministra britânica.

thatcher2Como Moore escreve no segundo tomo da biografia – que vai desde o tempo imediatamente anterior à vitória arrasadora de Thatcher em 1983 até à vitória em 1987 – durante o seu segundo mandato, no auge do thatcherismo, Margaret era vista como uma “brava campeã do Ocidente”: “todos a reconheciam; todos tinham opinião sobre ela.[…] Ela tinha-se tornado uma figura mitológica, o arquétipo da ‘mulher forte’ em todos os continentes”. Depois de uma viagem a Moscovo, Moore descreve-a como alguém que tem encontros excitantes com o presidente Gorbatchev, com “roupas glamourosas”, uma “superestrela global”, uma figura de “esperança, e também de força, uma mulher atraente, bem como a Dama de Ferro”.

 Donde: as crianças e adolescentes da minha geração, sem deixarem de notar que a maioria da política era (é) masculina e cinzenta (na melhor das alternativas com risca de giz ou azul escura), lá foram crescendo em idade e sabedoria sabendo que era inteiramente natural uma mulher gostar de política, ganhar eleições, governar o seu país de forma forte e determinada, tornar-se uma referência na política internacional (fazendo finca pé ao comunismo soviético e contribuir para a sua implosão), comandar uma guerra (nas Falklands). E, ao mesmo tempo, ter uma família e usar saias e roupa de cores vibrantes (com especial propensão para toda a panóplia de tons de azul).

Margaret Thatcher é boa candidata a ícone do feminismo e a símbolo da afirmação feminina. Nem se lhe pode apontar pecados em duas causas geralmente caras ao feminismo: apoiou a legalização do aborto e o fim das leis contra os atos homossexuais, que considerava uma “humilhante intrusão na privacidade” dos gays. Mas afinal não é. Parece, ainda hoje, que privatizar empresas públicas é mais determinante para (não) se ser feminista do que ter sido a única primeira-ministra britânica e, até hoje, a vencer três eleições seguidas para o Parlamento.’

O resto está aqui. Boa leitura. Do meu texto e dos livros. (No fim da recensão perceberão a escolha da fotografia.)

Lista actualizada dos lugares onde o socialismo funcionou

Dois documentos

Os que gostam de rock’n roll não podem perder estes dois documentos. A vida de uma das últimas estrelas do rock (já não restam muitos, assim de repente só me ocorre o Keith Richards). Godspeed Lemmy.

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Uma lista burkeana para o Natal

Mais uma bela lista de livros para o Natal: Livros para o Natal. Por João Carlos Espada.

Leitura complementar: Pare de acreditar no Governo (e outras recomendações de final de ano).

Educar o Povo

Não o incluí na minha lista de recomendações de final de ano mas, tendo em conta os desenvolvimentos dos últimos meses no PCTP-MRPP, na candidatura presidencial de Sampaio da Nóvoa e no país em geral, esta sugestão do Rui A. tem também plena razão de ser.

Continue reading “Educar o Povo”

Pare de acreditar no Governo

O meu artigo de hoje no Observador: Pare de acreditar no Governo (e outras recomendações de final de ano).

Porque ganham tanto os trabalhadores das empresas públicas? (II)

O Economista InsurgenteHouve um outro grupo de economistas que, apesar de não ter o currículo de um Mário Centeno, também explicou de forma simples porque é que as empresas públicas pagam tão bem e têm tão grandes prejuízos. Foi num livro lançado no ano passado, mas que ainda dará uma grande prenda de Natal este ano:
(…)Um outro foco de poder nas empresas de transportes públicos são os próprios trabalhadores. Ao contrário dos clientes, os trabalhadores podem causar efetivo dano aos membros da gestão da empresa, através de greves e manifestações. Os prejuízos de uma empresa de transportes têm pouco impacto na imagem dos governantes, mas uma grande greve que paralise cidades faz com que percam eleitores. Sem pressão do lado dos custos (suportados pelos contribuintes), a gestão de uma empresa de transportes públicos tenderá sempre a tentar agradar aos trabalhadores, para dessa forma evitar problemas para os políticos que os colocam à frente dessas empresas. Custe o que custar. E tem custado bastante: No final de 2013 a dívida acumulada das empresas públicas de transportes ultrapassava já os 17 mil milhões de Euros (Fonte: Jornal de Notícias), ou seja cerca de 1700 euros por português, ou cerca de 3400 euros por português a trabalhar.

Em resumo, temos um enorme problema de incentivos. A gestão de uma empresa de transportes públicos tem apenas incentivos a agradar ao poder político e, consequentemente, aos trabalhadores. Os trabalhadores, com tamanho poder negocial, têm fortes incentivos a exigir as melhores condições possíveis para si, independentemente do serviço prestado. O resultado desta situação é o esperado: As empresas de transportes públicos oferecem boas condições salariais e bons horários de trabalho aos seus funcionários, oferecem ainda um conjunto de cargos de gestão apetecíveis para quem consiga agradar aos partidos de poder. No final, as empresas de transportes públicos tornam-se num centro de custos que serve a todos os envolvidos (trabalhadores, gestores e políticos), excepto aqueles que deveria servir em primeiro lugar: Os clientes, e aqueles que suportam os custos, os contribuintes.(…)

Bruno Vieira Amaral ganha prémio José Saramago

primeiras coisasO melhor autor português das primeiras décadas do século XXI – parece pomposo mas é mesmo verdade, e como prova basta apresentar o livro As Primeiras Coisas, onde se passeia, carregadinho de ironia (mas também de bondade) e de forma que nos traz reminiscências de Alice Munro, o drama da vida quotidiana e dessa categoria que é a ‘pessoa comum’ -, o Bruno Vieira Amaral, ganhou o prémio José Saramago 2015.

(Finalmente alguma coisa para dar respeitabilidade à Fundação José Saramago, que está também ligada ao prémio.)

O meu texto desta semana do Observador.

‘É certo que em tempos normais nos esquecemos da estirpe de político mais mortífero e que torna os tempos incomuns: aquele que não aceita as derrotas eleitorais, subverte os resultados eleitorais (o socialista João Proença dixit) e expõe o país à traiçoeira extrema-esquerda (que nunca ficou conhecida no mundo pelos pergaminhos democráticos), a políticos que defendem a nacionalização da banca e a socialização dos meios de promoção, e às novas inclemências dos mercados. E tudo com o nobre objetivo de esbracejar pela sobrevivência do político trapalhão que conseguiu perder umas eleições fáceis de ganhar.

Mas nos tempos normais a estirpe de político que dá mais cuidados é outra e, para grande calamidade nacional, muito elogiada tanto pelo cidadão anónimo como pelos jornalistas e politólogos: o político que deixa obra. Para catástrofe de igual dimensão, é uma estirpe de político que abunda nos ministérios e nas câmaras municipais. Claro que toda a gente escarnece das rotundas, mas é para logo a seguir aplaudir a construção da pista de neve e do parque ‘natural’ para os ursos polares, do teatro de marionetes, do zoo de periquitos, do recinto de sumo, do museu de fatiotas que os costureiros famosos desenharam para a Barbie e do centro de congressos (onde se usaram só materiais adaptados a vegans). Os ideólogos destas infraestruturas são geralmente apelidados de visionários, competentes, fazedores, empreendedores.

É certo que nos últimos anos – depois daquela falência patriótica de esquerda de 2011 – houve quem moderasse elogios a tal vírus político. Que entendesse que algumas obras são desnecessárias e, sobretudo, consumidoras de recursos financeiros que o país não tem. Que em alguns casos são realizadas não para suprir necessidades das populações mas para propiciar esquemas de corrupção e de pagamento a clientelas partidárias. Que um país necessita de infraestruturas para se desenvolver, pois precisa, mas que o país de 2015 (ou de 2005) já não é o que Cavaco Silva encontrou em 1985 sequioso de obras públicas.

Perante o atual cenário funesto, presumo ter encontrado a solução: ensinarmos Taoismo a governantes e autarcas. E se forem renitentes na aprendizagem, é recorrer a algum estratagema de manipulação cerebral, ao estilo do filme Candidato da Manchúria (na versão com Frank Sinatra e Angela Lansbury). Em último caso, se não produzirem conversão em tempo útil, podemos ameaçar com a leitura obrigatória de todos os livros de Saramago e de Valter Hugo Mãe.’

O resto está aqui.

Obrigada, Andrew Davies

mr darcy 1995 2Foi com esta série da BBC que eu conheci e me apaixonei por Jane Austen (e, of course, também pelo Mr Darcy e, separadamente, pelo Colin Firth – o meu coração é muito grande). (Antes do Mr Darcy, as minhas paixões iniciadas desta forma tinham sido o Athos, de Os Três Mosqueteiros, e o Edmond Dantes, de O Conde de Monte-Cristo, ambos de Dumas.) Tenho, portanto, muito a agradecer ao Andrew Davies. Por ter tirado a Jane Austen das representações vitorianas que lhe eram habituais e a ter colocado (corretamente) nos ambientes mais sanguíneos e soltos dos tempos da Regência. E, segundo afirma o texto, por ter iniciado a moda de os protagonistas masculinos das séries históricas usarem pouca roupa. (Eu não vi, mas já me contaram que até Os Maias seguiu essa tendência.) Foi um grande serviço à igualdade de género.

‘“We wanted lots of energy in the show, and the book justifies it, because Elizabeth is always running about and going on long country walks and getting all flushed and sweaty and getting the bottom of her petticoat muddy, which seems to be quite a turn-on for Darcy. So we thought, let’s make it as physical as we can without being ridiculous about it. Let’s remind the audience that this isn’t just a social comedy – it’s about desire and young people and their hormones – and let’s try to find ways of showing that as much as possible. So for the girls I wrote a lot of scenes where they’re backstage, so to speak: they’re getting dressed, they’re in their nighties, talking about love. And we wanted the guys to be doing lots of physical things: riding horses, fencing, having baths, jumping in the lake. Any legitimate excuse to get some of that kit off.”’

‘Then I thought, ‘Let’s have Elizabeth on a hillside seeing these two tasty blokes galloping along, and something about them makes her skip down the hill’. I can remember writing those first pages and thinking, ‘This is a bit different from the usual Jane Austen adaptation’.’

(Na fotografia o banho de Mr Darcy em Netherfield Hall.)

but somehow

spider eaters 2

Tenho tido muito pouco tempo para escrever coisas (apesar de haver tanto assunto comentável agora, e tenho feito uns posts maravilhosos na minha cabeça, mas que falham depois no tempo disponível para serem concretizados no teclado), mas a propósito de Jeremy Corbyn – e das fantasias líricas que já provocou no PS português (ou não tivesse este sido assaltado por gente que nunca recuperou da fase marxista da adolescência) – deixo aqui um pedacinho de um dos livros que me têm ocupado o tempo. É o prefácio de um livro que conta a história da autora durante a Revolução Cultural chinesa. Descreve bem o socialismo, sobretudo na forma mais pura que Corbyn e os alucinados socialistas nacionais apreciam. Começa por querer mudar a natureza humana. But somehow – e este but somehow ocorre sempre – falha. E de caminho espalha miséria e infelicidade. E – como à autora deste prefácio – põe os jovens idealistas a assassinarem e torturarem supostos inimigos da revolução. É sempre um regime muito recomendável. E tem sempre muitos fregueses moralmente self-righteous a adorá-lo.