Virtude Política: Uma Análise das Qualidades e Talentos dos Governantes (2)

Livros para o Natal (I). Por João Carlos Espada.

A minha primeira sugestão de livros para o Natal é Virtude Política: Uma Análise das Qualidades e Talentos dos Governantes, de Pedro Rosa Ferro (Almedina, 2017). Trata-se de um livro importante sobre um tema muito importante: a virtude política.

O autor detecta um paradoxo curioso nas nossas contemporâneas democracias liberais. Por um lado, é voz corrente a condenação da falta de virtude política nos detentores de cargos públicos (por vezes designados como ‘elites’). Por outro lado, a praça pública, ou o debate político público, encara com sérias reservas (para dizer o mínimo) qualquer referência ao conceito de virtude — embora lance simultaneamente sobre os políticos a suspeita permanente de não praticarem a virtude.

Pedro Rosa Ferro discute este paradoxo com notável abertura e profundidade. Através de uma vigorosa conversação crítica com alguns dos grandes filósofos ocidentais — Aristóteles, Tomás de Aquino, Locke, Burke, ‘Publius’ e Tocqueville, entre outros — Pedro Rosa Ferro recorda uma nobre genealogia intelectual da tradição ocidental em que o ideal da liberdade e o sentido pessoal de dever sempre estiveram associados. Em rigor, o autor parece sugerir uma tese ainda mais forte: a liberdade e o governo limitado não estarão seguros, se não existir uma cultura pública comum que valorize a virtude e o autocontrolo.

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Virtude Política: Uma Análise das Qualidades e Talentos dos Governantes

Tyler Cowen sobre o novo livro de Bruno Maçães

Best non-fiction books of 2017

Bruno Maçães, The Dawn of Eurasia. Technically this doesn’t come out until January, but I read it smack in the middle of 2017 to blurb it. It is my pick for “best of the year,” if I am allowed to count it. It is one book that has changed how I frame 2017 and beyond.

Mad World

Na sequência das denúncias de assédio e abuso sexual por figuras públicas, uma mãe da vila inglesa de North Shields resolveu subir a parada e exigir a retirada de um perigoso livro da lista de leituras da escola do seu filho de seis anos. Trata-se da Bela Adormecida, estando Sarah Hall preocupada com o impacto no seu filho do comportamento predatório do príncipe (que beija Aurora sem o consentimento desta). Se ao menos Harvey Weinstein e Kevin Spacey não tivessem sido expostos ao livro dos irmãos Grimm ou mesmo, quem sabe, ao filme da Disney…

Com notícias destas e outras como a das Rainhas Magas vem-me à cabeça o refrão da canção: “It’s a very very mad world…” (na versão de Gary Jules para o Donnie Darko).

Pessoa, Simenon, Gomes Ferreira, Cardoso Pires e Agostinho da Silva

O Pedro Correia teve a gentileza de me convidar para escrever um texto para o Delito de Opinião, e eu escrevi sobre o meu encontro com certos escritores. E Agostinho da Silva, claro. A inesquecível conversa, era eu um miúdo, que tive com Agostinho da Silva.

O Conservadorismo do Futuro – Miguel Morgado

O Conservadorismo do Futuro e Outros Ensaios (Edições 70, 2017) é o mais recente livro do meu colega Miguel Morgado (professor no Instituto de Estudos Políticos e investigador no CIEP, da Universidade Católica Portuguesa), com prefácio de Rui Ramos.

70 por cento do actual governo, a dona Câncio e @s d@m@s de honor já terão tido conhecimento deste assunto?

José Sócrates, está acusado de dezasseis crimes de branqueamento de capitais, nove crimes de falsificação de documentos, três crimes de corrupção passiva de titular de cargo político e três crimes de fraude fiscal qualificada.

Anatomia de um crime.

Foto: António Carrapato-Lusa

Porreiro, pá!

At the Origins of Modernity: Francisco de Vitoria and the Discovery of International Law


At the Origins of Modernity: Francisco de Vitoria and the Discovery of International Law
Beneyto, José María, Corti Varela, Justo (Eds.)

Foi com muito gosto que contribuí primeiro para a conferência (em 2015) e depois para o livro (acabado de publicar) com o capítulo “Vitoria, the Common Good and the Limits of Political Power”.

Continue reading “At the Origins of Modernity: Francisco de Vitoria and the Discovery of International Law”

Viciados em proibir

O meu texto desta semana no Observador.

‘Sabem quem deu indicação à Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) que ‘recomendou’ (pois) retirada dos cadernos da Porto Editora? O ministro da tutela, Eduardo Cabrita. O deputado socialista que em 2013, para fins políticos, chamou ‘frígida’ a Maria Luís Albuquerque. Cabrita é, além de malcriado e censor, um protozoário machista que não sabe debater política envolvendo uma mulher sem ir buscar ataques sexuais. Donde, para António Costa e PS, é o ministro ideal para tutelar a promoção da igualdade de género.

Mas cheguemos ao caso em concreto. Simples: as editoras publicam os livros que entendem, respaldadas no conhecimento de mercado, e os consumidores compram ou não. Umas publicam livros para meninas e/ou para meninos, outras para ambos, ilustrações ao gosto do freguês. Quem incentiva as filhas a gostar de princesas e os filhos de piratas, compra(va) os da Porto Editora. Quem apreciava mais outras temáticas, ou é um indefetível dos produtos unissexo, compra para outros lados.

E o estado não tem que vigiar o bem-estar das criancinhas? Tem, claro. Tem que assegurar que os pais alimentam devidamente a criançada, cumprem a escolaridade obrigatória, dão cuidados médicos, não os espancam nem os torturam psicologicamente, não os violam nem deixam violar por outros. E cuidados semelhantes. O estado também deve certificar manuais escolares que promovam a igualdade de direitos e oportunidades entre os sexos. Fora desta esfera, e nos livros não obrigatórios, é desandar.

Mas desmascarada a mentira ‘os exercícios são mais fáceis para as meninas’, há razões incontornáveis para o marialva Cabrita e a CIG banirem dois livros? Há, porque para a CIG tudo o que tenha vagamente a ver com o universo feminino merece esgares de desprezo e é para proibir. De resto, qualquer pessoa com neurónios mirrados percebe que a forma das famílias estupidificarem as filhas é comprar-lhes cadernos para estimularem as capacidades cognitivas.’

O resto aqui.

The fascists of the future…

…will call themselves anti-fascists. – Winston Churchill

Segundo a Rita Ferro Rodrigues “São imensas as publicações sexistas disponíveis no mercado” e eu concordo absolutamente. Já se for para as denunciar e “recomendar” que se retirem do mercado, sugiro começar pela “Odisseia” do Homero onde a pobre da Penélope, fiel ao marido, espera pelo herói Ulisses durante vinte anos a tecer e a desfazer um sudário. Daí, sei lá, é ir por aí fora, denunciar a literatura clássica quase toda, o Shakespeare (Romeu e Julieta? Otelo?), o Camões (“Andando, as lácteas tetas lhe tremiam” – Camões, ‘Os Lusíadas’, canto II, estância 36), a Jane Austen (que raio de personagem é aquele cavalheiro Mr Darcy?), o Bocage, o Jorge de Sena (aquilo do Sinais de Fogo é hipersexismo), a Sophia (a Fada Oriana? Qué isso?), ao Kafka (qual Josef K.? Mude-se o nome para Josefina K.), Corin Tellado, aos livros da “Anita”, do “Lucky Luke”, o “50 Shades of Grey”, o Harry Potter, o Tolkien, o Nabokov e praí 98,3% da literatura desde Homero. Pronto, tudo denunciado à CIG e “recomendado” que se retire das livrarias. Ficamos, que sei eu, com as obras da Rita e do Boaventura esses vultos gigantescos da literatura Mundial. Ah! E com o “A Doutrina do Fascismo” do Benito Mussolini e do Giovanni Gentile, claro. Na mesinha de cabeceira da Rita, pelo menos.

Ideias com passado e com futuro

O PS já começou a construir o seu Index

Com a desvantagem que o Índex da Igreja Católica, além de já ter sido extinto há umas boas décadas, era seguido voluntariamente pelos católicos que o quisessem (no meu caso, e sou católica, já gozei abundantemente por a IC também não ‘recomendar’ os livros do Harry Potter às impressionáveis mentes cristãs), enquanto que o Índex do PS tem força de chantagem estatal às empresas que lá caem.

Enfim, quem se coliga com comunistas e alucinados derivados é porque tem afinidades de valores totalitários. O PS não espanta por aqui.

À criatura que se diz feminista, Rita Ferro Rodrigues, recomendo que alguém lhe faça chegar uma versão do Animal Farm. Pode ser aquela em desenhos animados, que a senhora não parece ser capaz de grandes abstrações. Talvez consiga perceber a parte dos que lutaram contra a ditadura que terminaram replicando, para pior, a ditadura que derrubaram. Se tiver um assomo de consciência, perceberá que é a história da sua família.

Mas se pensam que Rita Ferro Rodrigues é do pior que nos pode calhar, é lerem Inês Pedrosa, que quer proibir os supermercados de arrumarem a mercadoria que têm para venda como bem entendem. Estamos entregues a doidos varridos. Doidos varridos.

inês pedrosa

 

 

Incapazes indignadas

A Rita Ferro Rodrigues lançou mais uma vibrante campanha contra uns livros de actividades “para menino” e “para menina” da Porto Editora, em que só compra quem quer. Temo que existam questões um tudo nada mais fracturantes importantes que afectam as mulheres como a mutilação genital feminina, uma tragédia normalmente esquecida pelas progressistas de pacotilha a que temos direito.

Leitura recomendada às capazes:80% OF WOMEN IN MUSLIM SECT IN DETROIT CASE HAD FGMWomen in small Muslim sect say they have had FGM in CanadaMUTILATING LITTLE GIRLS IN MICHIGAN’S LITTLE PALESTINE A female genital mutilation horror in the Midwest.

O alerta de Stefan Zweig

A minha crónica no i.

O alerta de Stefan Zweig

Durante anos fiz orelhas moucas sempre que o meu pai me dizia para ler os livros de Stefan Zweig que estavam lá em casa. Em plena década de 90, numa época de paz, à porta do fim da história, sem que se vislumbrasse o que pusesse termo à prosperidade mundial que se vivia, os livros de Zweig eram de outro tempo.

Como o próprio refere no seu “O Mundo de Ontem – Recordações De Um Europeu”, a sua vida, desde 1881 até 1942, passou por altos e baixos, perdas e conquistas que consideramos inimagináveis. Nascido em Viena quando o Império Austro-Húngaro ainda dominava o centro-sul da Europa e a sua capital era um dos seus centros culturais, Zweig conheceu o Velho Continente do séc. XIX, por onde se viajava sem passaporte e sem que se justificasse para onde se ia, porque se ia e por quanto tempo.

Tudo isso Zweig viu desaparecer com a I Guerra Mundial, a inflação, que veio logo a seguir, e a guerra que irrompeu em 1939 e que ele não viu terminar, em 1945. O mundo pacífico de Zweig, que o próprio pretendia aproveitar para criar arte, tornou–se um tumulto, uma balbúrdia que o obrigou a fugir do seu país e a terminar os seus dias num local onde ele, um cidadão do mundo, não se sentia em casa.

Li nesta primavera “O Mundo de Ontem”, de Zweig. Pareceu-me propícia a altura para que não me esqueça de que nada é garantido. Nascido num mundo seguro semelhante ao nosso, Zweig tornou-se um apátrida sem lugar e sem referências. Escreveu para nos dizer como era e, fazendo-o, avisou-nos dos riscos de como pode voltar a ser.

 

Assessor do governo quer ilegalizar PCTP-MRPP

Um dia, de acordo com os desejos do Mestre Rui Cerdeira Branco, adjunto do gabinete do Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, todos os partidos serão o Partido Socialista.  Aguardo com expectativa a reacção do Camarada Arnaldo Matos face ao desejo de Rui Cerdeira Branco de acabar com o MRPP.

O Grande Irmão, O Partido Socialista e a Polícia do Pensamento fazem o seu caminho.

Leitura recomendada: 1984, de George Orwell. Rápido, antes que seja “extinto” pela nobre vontade dos burocratas em obediência absoluta ao Estado.

What this is about is bad ideas

Não sei se é por ser um gajo porreiro se é por ser um liberal que acha que todos, absolutamente todos, têm direito ao pensamento e expressão livre, sou amigo de gente from all walks of life e que professam (o termo é este mesmo) as mais variadas ideologias. Desde gajos que se acham fascistas, nazis, social-democratas, socialistas, conservadores, comunistas ao raio que os parta. E todos sem excepção são gente boa que aprecio e cuja amizade agradeço. Todos eles são capazes de discutir comigo, argumentar e debater, todos eles sabem do que falam, leram conhecem de Hegel e Fichte a Marx e Engels com os outros todos pelo meio. Só não consigo ser amigo de imbecis, isso não consigo nem tenho nenhum.

O Imbecil é uma espécie em expansão, o Imbecil não pensa, “sente”, o Imbecil, de tanto amar a Humanidade é incapaz de amar uma pessoa. O Imbecil não vê pessoas, vê conjuntos. O Imbecil é perfeitamente capaz de concordar comigo se eu disser “cada pessoa é única e insubstituível” e que não se substituiu um pai, uma mãe, um filho, um amigo. Mas, logo a seguir, o Imbecil defende o extermínio de uma categoria qualquer, seja ele cristão, judeu, muçulumano, nazi, fascista, comunista, capitalista ou “inimigo do povo”, só porque sim. O Imbecil vive num organismo borg com dificuldades sinápticas e encontra-se cada vez mais entre social-democratas, SJWs e tolerantes, dos que se dizem fartos de intolerância. Dois exemplos: um amigo meu americano, boa gente p’a caralho, com tendências leninistas, está exasperado com a intolerância com isto dos supremacistas de Charlottesville e, no Facebook, oferece ajuda a quem precisar, excepto a homens brancos heterossexuais. É incapaz de pensar em pessoas, tudo se resume a categorias que são o que define as características de cada um. Para ele, por definição, um homem branco heterossexual não merece ajuda. Ainda por definição, homem branco heterossexual (como ele próprio) é culpado seja lá do que for que lhe apeteça. Outro exemplo é o da foto acima. No tempo em que participava do twitter este gajo era um tipo razoável, socialista, um gajo porreiro. Vem agora apelar que se matem os que ele acha que são nazis. A ver: que se matem pessoas por causa de diferenças ideológicas, diz que é legítima defesa. Noutro tweet bloqueia uma das melhores pessoas que conheço, meu amigo, liberal, porque diz ele, se comparam nazis e “estalinistas”, uma maneira de ele próprio (reduzido à imbecilização) e de forma pouco subtil, branquear o comunismo que foi a menção que o meu amigo fez devidamente contextualizada.

Enfim, a imbecilização em curso é com certeza uma coisa muito humana. Não sei porquê chateia-me, não consigo aturar O Imbecil e cada vez há mais. A este ritmo morro sem amigos. Já agora, ide, ide ler este artigo do Jeffrey Tucker de onde retirei o título:

The Violence in Charlottesville

De caminho recomendaria o extraordinário (sou o rei das hipérboles)

“Freedom and Its Betrayal: Six Enemies of Human Libertydo Isaiah Berlin

talvez lendo consigam olhar-se ao espelho e ter vergonha na cara, sejam vocês social-democratas, fascistas, nazis, socialistas, comunistas ou o raio que vos parta. E perceber porque arriscam a serem vocês próprios a encarnação d’O Imbecil.

Libertação interior

A minha crónica no i.

Libertação interior

Este verão regresso a Paul Bowles. No ano passado foi na forma dos contos, agora é com as viagens. Este norte-americano, que viveu grande parte da sua vida entre Tânger e a sua casa numa ilha junto a uma praia no Ceilão, andou pelo mundo de uma forma que hoje não se associa como sendo viagem.

Nos seus textos, Bowles não nos dá referências para que o copiemos, nada nos sugere que façamos. Conta-nos como é: como é dormir num hotel na Índia; como era a vida de um artista em Paris quando Gertrude Stein ainda por lá andava; como é o silêncio do deserto e o céu que nos protege, “sólido e luminoso”, mesmo por cima de nós, cheio de estrelas “que parecem clarões”. Lendo-o, vemos e cheiramos os sítios por onde andou.

Mas as viagens de Bowles são ainda mais que os locais que visitou. São ele próprio, a sua forma de estar, de viver a vida. E nós libertamo-nos por momentos da lufa-lufa diária de casa-escola-trabalho-escola-casa para nos abrirmos para algo que nos transcende. Bowles não era um bom escritor apenas porque escrevia boas histórias: os seus livros transmitem o que não vimos, o que não sentimos, aquilo que nem sabíamos que existia ou, se sabíamos, desconhecíamos como seria.

As suas viagens não se desatualizam por terem sido escritas há mais de 50, 60 anos. São tremendamente actuais, dignas de serem revividas através das suas palavras. E nós ficamos inimaginavelmente gratos pela oportunidade de as lermos e, nessa experiência, sermos diferentes por momentos que abrem os nossos olhos a outras realidades que não a nossa.

Ecléctica Leilões – no Facebook

Ainda a propósito da Ecléctica Leilões, aqui fica a indicação da respectiva página no Facebook.

Ecléctica Leilões

Ecléctica Leilões – Recomendado a todos os interessados em livros raros.

A título de declaração de interesses, devo referir que um dos membros da equipa – o Professor Hugo Chelo – além de ser uma das pessoas que mais sabe sobre livros em Portugal, é meu colega no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa.

“Compreender para Mudar o Estado a que chegámos” – Dia 2 no Porto

No próximo dia 2 de Maio, Terça-feira, pelas 9:30 da manhã, estarei na Universidade Lusófona do Porto para, conjuntamente com Emídio Sousa, Presidente da Câmara de Santa Maria da Feira e do Conselho Metropolitano do Porto, apresentar o mais recente livro de José Manuel Moreira: Compreender para Mudar o Estado a que chegámos.

É hoje!

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The new age of Ayn Rand?

The new age of Ayn Rand: how she won over Trump and Silicon Valley

As they plough through their GCSE revision, UK students planning to take politics A-level in the autumn can comfort themselves with this thought: come September, they will be studying one thinker who does not belong in the dusty archives of ancient political theory but is achingly on trend. For the curriculum includes a new addition: the work of Ayn Rand.

It is a timely decision because Rand, who died in 1982 and was alternately ridiculed and revered throughout her lifetime, is having a moment. Long the poster girl of a particularly hardcore brand of free-market fundamentalism – the advocate of a philosophy she called “the virtue of selfishness” – Rand has always had acolytes in the conservative political classes. The Republican speaker of the US House of Representatives, Paul Ryan, is so committed a Randian, he was famous for giving every new member of his staff a copy of Rand’s gargantuan novel, Atlas Shrugged (along with Freidrich Hayek’s Road to Serfdom). The story, oft-repeated, that his colleague in the US Senate, Rand Paul, owes his first name to his father Ron’s adulation of Ayn (it rhymes with “mine”) turns out to be apocryphal, but Paul describes himself as a fan all the same.

Not to be left out, Britain’s small-staters have devised their own ways of worshipping at the shrine of Ayn. Communities secretary Sajid Javid reads the courtroom scene in Rand’s The Fountainhead twice a year and has done so throughout his adult life. As a student, he read that bit aloud to the woman who is now his wife, though the exercise proved to be a one-off. As Javid recently confessed to the Spectator, she told him that if he tried that again, he would get dumped. Meanwhile, Daniel Hannan, the Tory MEP many see as the intellectual architect of Brexit, keeps a photograph of Rand on his Brussels desk.

So the devotion of Toryboys, in both their UK and US incarnations, is not new. But Rand’s philosophy of rugged, uncompromising individualism – of contempt for both the state and the lazy, conformist world of the corporate boardroom — now has a follower in the White House. What is more, there is a new legion of devotees, one whose influence over our daily lives dwarfs that of most politicians. They are the titans of tech.

Continue reading “The new age of Ayn Rand?”

Portugal, o país onde não podemos escrever livros

O meu texto de ontem no Observador.

‘Ontem quando escrevia este texto o país estava calmo, mas aposto que hoje existem, pelo menos, três bairros barricados em Lisboa. Nem imagino o atroz sofrimento da esquerda nacional por tão hedionda traição. Caso a PSP não tenha pensado atempadamente (o que é imperdoável e justifica por si só uma chamada da ministra Urbano ao parlamento) em vedar o acesso ao Tejo ao longo de toda a zona ribeirinha lisboeta, que o faça a correr, que eu temo um colapso na vontade de viver dos militantes da esquerda nacional e tentativas de suicídio em massa. Há que evitar um auto genocídio, senhores guardas.

Falo de quê? Bem, caro leitor, olhe à sua volta. Vai sair uma biografia de Jorge Sampaio nos anos da sua presidência, com colaboração do ex Presidente. Estou certa que as muito numerosas alminhas sensíveis que gritaram pela falta de elegância de Cavaco Silva por escrever as suas memórias do seu tempo de coabitação com Sócrates, pelo inimaginável atentado à privacidade (risos abundantes) das conversas entre um PR e um pm, essas alminhas sensíveis, digo eu, que andaram a fazer figuras tristes nas televisões, rádios e jornais, estão em agonias pela traição de Jorge Sampaio. E neste momento ou correm para as zonas ribeirinhas das cidades portuguesas para se desgraçarem ou estão em casa debaixo dos cobertores e encharcados em antidepressivos.

É que, pelo que leio, Jorge Sampaio conta conversas efetivamente privadas, sobre assuntos da sua candidatura, com o líder do partido por que queria ser apoiado. Estou à espera do pior dos paladinos da defesa do direito à privacidade – é como quem diz, dos maluquinhos que argumentam que os contactos entre um ministro e um particular, versando uma empresa pública e a futura relação da empresa com o dito particular, são privados e, como tal, fora do escrutínio democrático dos media e dos representantes dos eleitores. (Não são.)’

O resto está aqui.

O retorno de Deus

Será que a Europa vai reagir ao islamismo retornando a Deus? O meu artigo no ‘i’.

O retorno de Deus

“Le retour du religieux (…) je le savais pour ma part inéluctable dès l’âge de quinze ans.” “Soumission”, Michel Houellebecq, p. 267.

Esta frase é proferida pelo director da Universidade de Sorbonne, um belga convertido ao islamismo numa França, em 2022, com um presidente muçulmano. Em “Soumission”, Michel Houellebecq retrata a escolha que uma França adormecida se vê forçada a fazer entre uma Frente Nacional radicalizada e um partido islâmico moderado.

Como todas as histórias futuristas, esta parece fantasticamente implausível para ser possível. Mas, se Houellebecq não quis descrever avanços tecnológicos que não antevê – a forma de comunicar é hoje mais evoluída que a do livro –, acerta num ponto que deixa qualquer um de sobreaviso: os partidos tradicionais estão em crise e, na vida real, já em 2017, podem não ir à segunda volta das presidenciais.

Quem nos conta o que se passa é François, um académico estudioso de Joris-Karl Huysmans, escritor francês do século XIX, expoente maior do decadentismo e que se converteu ao catolicismo. François é um francês deste século, sem ligações nem ao país nem a ninguém, que se interroga perante a submissão inevitável que os homens terão de aceitar para se elevarem acima do que são.

“Soumission” não é apenas o adivinhar da falência política de um regime, mas a indicação de um caminho: a crença em algo mais forte que nós para que sejamos mais que uma decadência adormecida. Assim, ou Houellebecq, que disse já não ser ateu, se engana, ou a reação europeia será religiosa.

O homem que não tinha ideais

Sim. Gente Independente, de Halldór Laxness. Outra vez.
Porque para se ser independente é também preciso não ter ideais. O meu artigo no ‘i’.

O homem que não tinha ideais

Volto esta semana ao livro “Gente Independente”, de Halldór Laxness (Cavalo de Ferro). Tudo nele se centra no desejo de Bjartur das Casas de Verão ser independente. A semana passada referi a importância de não ter dívidas, o que se consegue com obstinação e resiliência.

E como não é fácil ser-se independente, o processo também não é simples. Para não se ter dívidas e se ser independente, é preciso também não ter ideais. Sendo o ideal a reunião de todas as perfeições, o que é impossível, um homem independente não tem ideais. Quem procura a independência visa apenas vencer-se a si mesmo e não os demais; nem sequer pretende controlar ou mudar a natureza, que qualquer pessoa sensata ama por ser implacável como é.

Quem tem ideais não se foca em si, mas no outro. Quer mudar não ele próprio, mas o outro. O mundo, a sociedade, o que seja. É egocêntrico e arrogante. E, naturalmente, não aceita a independência.

Neste livro, todos opinam sobre a vida de Bjartur, que não propõe nada a ninguém. É com a melhor das intenções que o querem ajudar para depois o aprisionar. Para isso, a melhor arma é o ficar a dever. Dinheiro ou favores. Algo. E quando, depois da falsa prosperidade que invade a Islândia no decorrer da guerra 1914-18, a dívida destrói o que nos ombros desta foi construído, é à porta dos independentes que vão bater. A apropriação do que é dos outros torna-se lei. As massas que usufruíram das liberdades libertam-se então para destruir a independência de quem não se deslumbra com ideais.

Revista Portuguesa de Filosofia: Política e Filosofia

rpf2017

Depois de em 2009 (como o tempo passa…) ter publicado numa edição da prestigiada Revista Portuguesa de Filosofia dedicada à ligação entre Filosofia e Economia (na altura dirigida por João J. Vila-Chã, SJ), regresso em 2017 (agora sob direcção de Álvaro Balsas, SJ) no fascículo “Política e Filosofia I: A Democracia em Questão”, com um artigo conjunto com o meu colega Hugo Chelo: “Discurso Contemporâneo sobre a Paz e a Guerra à Luz da Teoria da Guerra Justa: uma Leitura dos Desenvolvimentos do Magistério Católico”.

Destaco também outros dois artigos de investigadores integrados do CIEP (centro de investigação que tenho a honra e prazer de dirigir na Universidade Católica): “Hayek e a Recuperação do Ideal Democrático”, por José Manuel Moreira e “Democracia Liberal e Repúdio Iliberal: Roger Scruton e a Tradição Conservadora Anglo-Saxónica”, por João Pereira Coutinho.

Mais informações aqui.

Continue reading “Revista Portuguesa de Filosofia: Política e Filosofia”

Ser independente

Há os que trabalham porque precisam de dinheiro para viver; há os que trabalham porque querem ganhar dinheiro ou construir algo. Por fim, há os que trabalham só porque querem ser independentes. O meu artigo hoje no ‘i’.

Ser independente

“Gente Independente” (Cavalo de Ferro), de Halldór Laxness, é um livro sobre a vida de um homem, um islandês chamado Bjartur, que quer ser independente na Islândia do início do século XX.

Para ser independente trabalha no duro durante 18 anos para uma família, poupando e juntando tudo o que pode; prescinde do que um homem precisa para existir, de forma a conseguir o que um homem precisa para viver: um pedaço de terra onde tenha as suas ovelhas, trate delas e elas depois tratem de si: “O homem que possui a sua própria terra é um homem independente” (pág. 18). Não precisa de luxos, desdenha o luxo, um encargo, que o desfoca do seu objetivo: ser independente.

Não ser livre. Ser livre passa por não assumir compromissos, que é o contrário do que a independência reclama. Um homem independente não prejudica ninguém. Não é um peso, um empecilho. Não causa impacto porque alguém assim não quer influenciar a vida dos outros.

E como é que se ganha a independência? Sem dívidas. Laxness escreveu este livro nos anos 30. Além de tremendamente bem escrito, é actual. E como é que se vive sem dívidas? Com obstinação. Viver sem dívidas exige muito de nós. É preciso teimosia, viver obsessivamente um fim. Não pactuar com o provável. Esperar sempre o pior. Com resiliência e em silêncio. “(…) agora era proprietário de terra escriturada no notário (…), era rei no seu reino, e os pássaros eram os seus convidados”(pág. 46). A independência é algo tão nosso que apenas nós a valorizamos.

O diabo está nos planos e nos lapsos informáticos

O meu texto de hoje no Observador.

‘Isto tudo para dizer que não me choca que adolescentes de treze anos leiam Valter Hugo Mãe, com as suas frases polémicas que lemos nos últimos dias. Eu nunca li nada de Valter Hugo Mãe, não adquiri grande vontade, e, sobretudo, tenho demasiados livros que quero mesmo, mesmo ler e que permanecem fielmente à espera da minha atenção na mesa de cabeceira e nas estantes lá de casa. Mas o autor escreveu um post no Facebook bastante consequente sobre este escândalo. E se, como diz, no livro estas frases provocam sofrimento à criança, então são mesmo pedagógicas: mostram que palavras fortes de conteúdo sexual são muitas vezes usadas para magoar. E que isso merece julgamento moral. Por mim, nada contra.

Mas, claro, também não tenho nada contra os pais que objetam a uma ou outra palavra crua nas leituras dos seus filhos. É conveniente começarem já uma petição para banir Gil Vicente da poluição educativa que se oferece às crianças, bem como a referência, quando se fala de Bocage, das suas Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas –, mas cada um sabe aquilo que prefere que os seus filhos leiam.

Em todo o caso – não podia deixar de ser – tenho bastante contra uma geringonça do calibre de um ‘plano nacional de leitura’. Atenção: parece-me bem que se forneçam leituras de apoio aos conteúdos das várias disciplinas; e que para as aulas de português haja certas balizas entre as quais os professores possam escolher.

Mas por que diabo o Estado tem de recomendar leituras aos pobres cidadãos menores para os seus tempos livres? A que propósito uma escola manda os alunos lerem o livro tal e tal nas férias de Natal? Não era mais divertido, e respeitador da individualidade dos alunos, deixá-los escolher (pelo menos os que quisessem escolher)? E de seguida até verificar o que cada um havia escolhido e porquê? Havendo sugestão (repito: sugestão) de leituras, não poderiam ficar a cargo de cada professor ou de cada escola? Supomos que os educadores não sabem escolher livros para cada turma, sem necessitar de grandiosos planos? Não chega já de formatação, com os conteúdos programáticos iguais nos nossos oitenta e nove mil quilómetros quadrados, e dados da mesma forma? O Estado precisa de nós tão arrumadinhos a ponto de todos lermos os mesmos livros, independentemente de gosto e interesse? E que disparate é esse de serem os burocratas do Ministério da Educação a decidirem qual é a idade adequada para ler que livro (já descontando lapsos informáticos)?’

O texto completo está aqui.

Zizek, o Islão e a decadência intelectual da esquerda

Miguel Morgado sobre O Islão é Charlie?, de Slavoj Žižek: Crítica de livros: O Islão é Charlie?

Curiosamente, Zizek inicia este pequeno manifesto com uma crítica cerrada à correcção política que caracteriza a chamada esquerda democrática. Zizek diz com todas as letras que as atenuantes com que a esquerda nos brinda sempre que ocorre uma atrocidade a cargo do fundamentalismo islâmico – os muçulmanos são oprimidos e explorados, os EUA com a sua política no Médio Oriente são os responsáveis pelos atentados, falta tolerância multiculturalista – são uma demonstração da falência intelectual dessa esquerda. Diz Zizek com notável discernimento: “quanto mais os left wing liberals ocidentais se culpabilizarem, mais serão acusados pelos muçulmanos fundamentalistas de hipócritas que apenas tentam esconder o seu ódio pelo Islão”. Para Zizek não há atenuantes para um fundamentalismo que é um fanatismo “racista, religioso e sexista”. Dá bem ideia da decadência actual da esquerda não revolucionária que seja preciso Zizek para lhe dizer isto.

Frederico Lourenço

Uma espécie de milagre. Por José Tolentino Mendonça.

Frederico Lourenço é uma espécie de milagre no contexto português. Pense-se no que ele teve de contrariar para entregar-se a empresas tão desproporcionadas, na ambição e no brilho, empresas no fundo tão humílimas e necessárias, como traduzir sem perder o fôlego o cancioneiro homérico, uma parte da lírica grega e agora adentrar-se no mare magnum que é o repositório bíblico. E realizar isso nas condições possíveis em Portugal, onde a erosão de uma área disciplinar fundamental como a dos estudos clássicos parece um desastre em vias de consumar-se. Certamente é fantástico aquilo que António Barreto sublinhou em nome do júri do Prémio Pessoa que agora lhe foi atribuído, e de que ele é inteiramente merecedor: “Frederico Lourenço é responsável por um fenómeno raro: tornou a ‘Odisseia’ e a ‘Ilíada’ best-sellers entre nós.” Mas como se faria outra justiça ao trabalho do nosso miglior fabbro se, por exemplo, as edições dessas obras pudessem ser ao mesmo tempo best-sellers e bilingues como noutras paragens? Ninguém como Frederico Lourenço lamenta que “a língua de Homero, Platão e do Novo Testamento se tenha tornado, em Portugal, aquilo que em três mil anos de história nunca chegou verdadeiramente a ser: uma língua morta”. Contudo, ele não desiste. Dá o seu melhor. Dá-nos chão. Amplia-nos. Transcende-nos.