Le Pen: a candidata dos jovens, em especial dos portugueses

Dados que dão que pensar: Marine Le Pen tem mais apoio entre os jovens do que entre o eleitorado em geral e, entre os jovens, são os de origem portuguesa quem mais apoia a candidata da Front National.


(via Alexandre Afonso)

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Liberdade na Torre de Babel

MEPIsto é grave. E triste. Em vários planos e por várias razões.

Ver um homem, já com alguma idade, a dizer aquele chorrilho de disparates, é triste. Tratando-se de um deputado europeu, é grave.

Mas, enfim, o ridículo fica com ele e, diga-se de passagem, o fórum em que ele falou, não é muito relevante para a maioria dos europeus. E essa irrelevância, não sendo muito grave agrava a tristeza que vai caindo aos poucos sobre o projecto europeu.

Os eleitores europeus e os eurodeputados que (alegadamente) os representam agitaram-se incomodados perante as declarações e terão (assim espero…) respondido à letra ao seu colega. Óptimo, é para isso que serve um Parlamento. Mesmo que seja triste que só ouçamos falar deste Parlamento neste tipo de ocasiões…

Mas, para além destas reacções, o presidente do Parlamento Europeu também achou por bem lançar a sua acha para a fogueira. E não foi de modas: condenou o dito eurodeputado impondo-lhe “sanções inéditas”.

E é aqui que isto fica grave. E sério.

Qual foi, afinal, o objecto das sanções? Corrupção? Abuso de poder? Tráfico de influências? Aproveitamento indevido das imensas mordomias que assistem aos deputados europeus? Não, nenhuma das anteriores. O objecto da sanção foi, afinal de contas, puro delito de opinião.

Limitar a liberdade de expressão a alguém que foi legítima e democraticamente eleito para um parlamento é absolutamente injustificável. Fazê-lo em nome da liberdade é… perigoso.

Uma visão eslovaca sobre os desafios que se colocam à UE

Dia 13 de Março no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, que continua a ser um espaço ímpar de liberdade, reflexão e debate pluralista em Portugal.

No meio desta harmonia universal…

Tudo há-de correr bem, até acabar mal. Por Rui Ramos.

No meio desta harmonia universal, é preciso má vontade para lembrar que o défice foi obtido com medidas extraordinárias e temporárias, e com base na maior despesa pública e na maior carga fiscal de todos os tempos. Que a economia cresceu menos do que em 2015, e cerca de metade da economia de Espanha, aqui ao lado. Que a dívida continua a aumentar e que sem o BCE ninguém a compraria, a não ser a juros impossíveis.

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Dois entendimentos de “democracia”

Dois conceitos de “democracia”. Por João Carlos Espada.

Uma vigorosa manifestação de pluralismo veio da “mãe de todos os Parlamentos”, em Londres. A Câmara dos Lordes, curiosamente não eleita, aprovou por larga maioria (358 contra 256) uma emenda à resolução dos Comuns sobre a saída da UE. Os Lordes solicitam que o Reino Unido declare unilateralmente que os 3 milhões de europeus residentes poderão continuar nas Ilhas Britânicas, independentemente do que a UE decida fazer aos 900 mil britânicos residentes no continente. Isto contraria a posição do Governo de Theresa May, que tem feito depender o futuro estatuto dos europeus residentes da posição que a UE vier a adoptar relativamente aos britânicos residentes no continente.

A decisão da Câmara dos Lordes foi naturalmente criticada por vários defensores do Governo da sra. May. Mas, que eu tenha visto, nenhum se lembrou de atacar os Lordes por “traírem o povo ou a democracia”. Essa bizarra acusação coube, como seria de esperar, ao sr. Farage, ex-líder do UKIP que aliás nunca conseguiu ser eleito para o Parlamento britânico. Ele disse que os Lordes tinham votado contra o resultado do referendo de Junho. Obviamente, ele está equivocado: o referendo de Junho votou pela restauração da soberania do Parlamento britânico. No âmbito dessa soberania constitucional, os Lordes votaram uma emenda à decisão dos Comuns. Por outras palavras, o pluralismo constitucional do Parlamento britânico está a funcionar.

Um país dependente do BCE

Tudo em Portugal depende do BCE, até a verdade. Por Rui Ramos.

(…) quando o véu de fantasia monetária do BCE deixar de cobrir a nudez forte da verdade portuguesa, descobriremos talvez, não o que se passou com as transferências ou com a CGD, mas o que se vai passar com todos nós, para além de todas as mistificações facciosas. Tudo em Portugal depende do BCE, até a verdade.

Portugal: riscos financeiros e económicos em 2017

Mais uma excelente análise de Joaquim Miranda Sarmento: Os riscos financeiros e económicos de Portugal em 2017.

Os desequilíbrios excessivos em Portugal

Os alertas da Comissão a Portugal. Por Joaquim Miranda Sarmento.

A Comissão Europeia deixou alertas em relação aos desequilíbrios excessivos em Portugal. Quer às reformas estruturais, que estão paradas, quer à redução do défice, sem consolidação estrutural.

A geringonça e o fim da Europa

Passos conta com o risco financeiro para tramar Costa, mas Costa conta com o risco europeu para tramar Passos (e Marcelo). Quem é que vai ganhar? O meu artigo no Jornal Económico.

A geringonça e o fim da Europa

É cada vez mais evidente que o Governo não tem agenda: satisfeitos os interesses que a sustentam, pouco mais há a fazer que não seja esperar. Passos Coelho viu aqui uma oportunidade quando afirma que 2017 é o ano dos riscos financeiros. E se o líder do PSD vê confirmadas a suas projecções nos juros da dívida portuguesa que atingem valores preocupantes, tem também razão num ponto: os cidadãos que pagam os interesses protegidos pela geringonça não aguentam muito mais. O país perdeu a capacidade de se financiar lá fora conseguida no período da troika. Mas há um senão; um problema com que Passos parece não contar, mas que Costa espera seja a sua salvação.

E esse problema, que para Costa é um trunfo, é a desintegração da UE. Todos o sabemos, e Costa melhor que nós, que o calendário eleitoral europeu favorece o actual Governo: eleições na Holanda em Março, em França em Abril/Maio, ambas com a extrema-direita à frente nas sondagens, e na Alemanha, em Setembro, com o risco de a extrema-direita impor uma derrota a Merkel.

Para que a Europa sobreviva é preciso que Macron vença em França e Merkel ganhe na Alemanha. Se um deles falhar, a UE corre o sério risco de desaparecer. É isto: o projecto europeu está por um fio e depende de duas pessoas, uma das quais, apesar de pejados de méritos, é um desconhecido com pouca prática política.

O politicamente correcto, que impediu o debate político sério, amordaçou a Europa a soluções não questionadas e que agora, sem discussão séria, de forma dolorosa, são postas em causa por populistas de esquerda e de direita. Não houve seriedade nas questões religiosas, na imigração, no emprego, na protecção social concedida a quem não merecia e nada fez pela comunidade, nas políticas laborais, apesar do trabalho ter mudado radicalmente nos últimos 15 anos. Proibindo-se a discussão com medo de se afrontar, de se ofender, quem quer que fosse, criou-se uma panela de pressão que pode rebentar este ano.

E se Passos espera que os ventos soprem a seu favor, Costa, o BE e o PCP vêem no sucesso eleitoral do extremismo a sua tábua de salvação. O fim do euro, que acontecerá caso Marine Le Pen vença em França, o regresso tão desejado do escudo, que trará inflação, reduzirá salários, aumentará a pobreza, trará aflição para muitos. Mas servirá também de pretexto. As causas facilmente se apontarão ao estrangeiro. Seremos pobres, estaremos aflitos, não em virtude do Governo da geringonça mas por responsabilidade da Europa que se auto-liquidou. É desta forma que Tsipras sobreviverá na Grécia, Costa em Portugal e Rajoy pode cair em Espanha. O caos será amigo de um populismo de tal forma demagógico que o que vimos até agora é uma brincadeira de crianças.

Emmanuel Macron

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Um artigo interessante sobre a mais promissora esperança de renovação da esquerda francesa: Who’s behind the mysterious rise of Emmanuel Macron?

Until recently, he had no visible record of political commitment. But he might be about to destroy the Socialist party

Particularidades da política francesa

Sex and the French Elections

Mr. Macron and his wife met when he was a 15-year-old 10th grader at a Jesuit high school in Amiens, and Ms. Trogneux was a 40-year-old married mother of three children, one of whom was in Mr. Macron’s class. Then known by her married name, Auzière, she taught French literature and ran the theater club.

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Está a Europa a caminho do fim?

O meu artigo hoje no ‘i’.

Está a Europa a caminho do fim?

A 25 de Maio de 2016 tive oportunidade de alertar, no então “Diário Económico”, para o calendário eleitoral dos meses seguintes. Era o Brexit em Junho, Trump em Novembro e as presidenciais francesas, em Abril/Maio deste ano. E na altura referi que tanto a vitória do Brexit como a de Trump poderiam extremar a política francesa, favorecendo a Frente Nacional.

Marine Le Pen sabe disso há muito tempo e desde cedo se colou politicamente a Trump. Foram os elogios ao candidato republicano durante as primárias e até uma breve passagem pela Trump Tower neste mês de Janeiro.

Se não devemos cair no exagero de Nicolau Santos que, no “Expresso”, declarou caminharmos para a terceira guerra mundial, também não podemos estar desprevenidos. Muitos dizem que Trump é uma incógnita e que, com o tempo, vai mudar. Que ia mudar durante as primárias, para as vencer, depois das primárias se quisesse bater Hillary, e na tomada de posse porque assumiria pose de Estado. Até hoje.

É difícil alguém ser tão claro quanto Trump. Nada é uma incógnita, apesar de muitos não quererem aceitar que seja verdade. O proteccionismo económico, o nacionalismo (que não é patriotismo), a demagogia, o que boa parte da esquerda, sem se aperceber, tanto exigiu e confundiu com decência, estão de volta. A vitória de Trump pode ter repercussões na Europa, a começar pela Holanda em Março. Uma Europa que só não se desintegrará se Fillon ou Macron ganharem em França e Merkel vencer na Alemanha, nas eleições a terem lugar no fim do Verão.

Rebenta a bolha

rebenta-a-bolha Ao que parece, Portugal emitiu títulos de dívida pública – ou seja, pediu dinheiro emprestado – por um prazo de seis e doze meses a juros negativos. Tendo em conta que isto sucede poucas semanas depois de ter sido obrigado a aceitar juros de 4% por empréstimos com o prazo de dez anos, só se pode chegar a uma conclusão: a política do BCE está a criar uma bolha no mercado dos títulos de dívida, mas toda a gente espera que, a médio ou longo prazo, ela acabe por rebentar, e ninguém confia na capacidade do Estado português saldar as suas dívidas quando tal acontecer.

Enquanto seguimos cantando e rindo…

Juros da dívida superam os 4%, o limite do “conforto” da agência DBRS

Os juros da dívida portuguesa superaram esta quinta-feira os 4% no prazo a 10 anos, o nível mais elevado desde fevereiro do ano passado e que supera o nível que a agência de rating DBRS, a que segura Portugal nas compras de dívida do BCE, considerou em entrevista ao Observador que seria o limite a partir do qual deixaria de estar confortável com a notação atribuída à dívida portuguesa (a única acima de lixo).

(…)

Depois de um pequeno alívio na sessão de quarta-feira, os juros da dívida a 10 anos voltaram hoje a subir e estão a aumentar 12 pontos-base para 4,02%. Em contraste, a dívida espanhola a 10 anos está com juros de 1,5% e a italiana com taxas inferiores a 2%.

O colapso do sistema estatal de saúde na Grécia

Felizmente, o Syriza está no poder e austeridade acabou pelo que nada disto interessa: ‘Patients who should live are dying’: Greece’s public health meltdown

Seven years of austerity have seen hospitals become ‘danger zones’, doctors say, with many fearing worse is to come

Since 2009, per capita spending on public health has been cut by nearly a third – more than €5bn (£4.3bn) – according to the Organisation for Economic Co-operation and Development. By 2014, public expenditure had fallen to 4.7% of GDP, from a pre-crisis high of 9.9%. More than 25,000 staff have been laid off, with supplies so scarce that hospitals often run out of medicines, gloves, gauze and sheets.

In early December Giannakos, a nurse by training, led a protest march, which started at the grimy building housing the health ministry and ended outside the neoclassical office of the prime minister, Alexis Tsipras. At the ministry, hospital technicians erected a breeze-block wall and from it hung a placard with the words: “The ministry has moved to Brussels.”

Few advanced western economies have enacted fiscal adjustment on the scale of Greece. In the six years since it received the first of three bailouts to keep bankruptcy at bay, the country has enforced draconian belt-tightening in return for more than €300bn in emergency loans. The loss of more than 25% of national output – and a recession that has seen ever more people resorting to primary health care – has compounded the corrosive effects of cuts that in the case of public hospitals have often been as indiscriminate as they are deep.

Pressure to meet creditor-mandated budget targets means that in 2016 alone, expenditure on the sector has declined by €350m under the stewardship of Syriza, the leftist party that had once railed against austerity, said Giannakos, citing government figures.

More than 2.5 million Greeks have been left without any healthcare coverage. Shortages of spare parts are such that scanning machines and other sophisticated diagnostic equipment have become increasingly faulty. Basic blood tests are no longer conducted at most hospitals because laboratory expenditure has been pared back. Wage cuts have worsened the low morale.

O BCE está a gerar subprime político

Um artigo que chama a atenção para o essencial: O BCE é uma ameaça maior do que o populismo. Por Rui Ramos.

Há anos que o BCE usa dinheiro barato para poupar Estados, bancos e empresas à realidade da falência e à necessidade de reformas. O resultado tem sido perverso. Em 2008, explicaram-nos que o capital financeiro erguera um castelo de cartas. Mas como descrever o actual castelo europeu de dívidas e de défices alimentados pelo BCE? Sabemos como o abuso do crédito acabou da última vez. Irá agora acabar de maneira diferente? O BCE está a gerar na Europa uma espécie de subprime político, cuja ruptura, um dia, poderá precipitar a primeira grande viragem do século.

Muita gente nos avisa, com alguma razão, contra os riscos do populismo e do proteccionismo. Mas neste momento, os mecanismos inventados para impedir que alguma coisa aconteça são talvez uma ameaça maior: são eles, ao acumular problemas, que podem verdadeiramente abrir a porta ao proteccionismo e ao populismo. Porque quando alguma coisa tiver de cair, cairá de mais alto.

O caso de Luis Peral

Luis Peral, diputado provida y muy crítico con la ley LGTB de Cifuentes, deja su escaño en Madrid

Leitura complementar: Pela liberdade, resistir ao lobby LGBT.

O Médio Oriente está agora entre nós

O regresso da política da fé e do sangue. Por Rui Ramos.

A propósito da imigração descontrolada que permitiram, os governos europeus insistem em imaginar indivíduos e famílias que, uma vez nos novos países, adoptariam a sua língua e costumes: em poucas décadas, os jovens sírios seriam alemães de meia idade. Esta perspectiva é um resquício do etnocentrismo colonial. Os imigrantes não são uma simples matéria-prima humana para compensar o declínio demográfico europeu. Trazem a sua história e os seus valores. A internet e as viagens baratas mantê-los-ão ligados aos meios de origem. Depois de Bush, os ocidentais acreditaram que bastaria retirar do Iraque para fazerem do Médio Oriente um problema longínquo. Mas através dos seus migrantes, o Médio Oriente está agora entre nós.

Falta de travões em mercado islamofóbico de Berlim

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Estado Islâmico Ordem dos Padres Carmelitas Descalços reclama a responsabilidade pela falha mecânica.

Amor aos sanguinários: direita trumpista a papel químico da esquerda

Agora há esta nova moda à direita. Direita é como quem diz: das pessoas que apoiam Trump. Sempre presumi que para se questionarem as opções ocidentais não era necessário endeusar os sanguinários das outras zonas do mundo. E que para reconhecer que nos países islâmicos as ditaduras laicas são um mal menor se comparados com os possíveis substitutos não era preciso perder a vergonha e desatar a elogiar ditadores da estirpe de Assad – que, recorde-se, nem hesitou em usar armas químicas sobre a população síria (que de início o apoiava), e que tem um longo historial de abusos e torturas. De trumpistas até já li elogios a essa pessoa impecável que era Kadaffi. Certamente que questionar a intervenção na Líbia não pode apagar todos os crimes hediondos da criatura, certo? Ou há pessoas com tão pouca subtileza intelectual?

Esta direita trumpista é como a esquerda, muito crítica dos líderes democráticos mas tem como coqueluches gente miserável como Chávez, Fidel Castro, Evo Morales, Che Guevara, Mao Zedong. Na versão da direita: Obama e Hollande (e eu não aprecio nenhum dos dois uma pevide)? Escória da terra. Assad e Putin? Dois líderes grandiosos.

Não é só no amor a gente odiosa que a direita trumpista copia a esquerda. Na verdade, mostram o mesmo ódio ao ocidente e à vida ocidental. As sociedades ocidentais estão caducas, precisam de um estrondo que as revolucione, minadíssimas por essa gente perigossíssima que são as feministas e os gays e os imigrantes, há que não deixar pedra sobre pedra das atuais instituições, a NATO (essa organização sensaborona) é afinal a causa de todos os males do mundo. Isto no Ocidente – que tem a civilização mais rica, mais justa, mais admirável de toda a história da humanidade.

Vêm-me estas reflexões porque leio coisas por estes dias, vindas da direita (ataque de tosse, e desta vez não resulta da fenomenal gripe que me assalta), que me deixam de queixo caído. Tanto que chego à conclusão que, como bem dizem os trumpistas, o problema das eleições americanas não foram as fake news – desde logo porque a vitória de Trump se deveu a margens escassíssimas em poucos estados, tendo Hillary ganho o voto popular por cerca de mais 2,7 milhões de votos. O problema é mesmo haver tanta gente do lado que apoia Trump que mente descaradamente. Mentiram descaradamente durante a campanha e continuam a mentir descaradamente agora.

Veja-se por exemplo este texto de António Ribeiro Ferreira. Perde-se a capacidade de emitir palavras durante vários minutos, tal o amontoado de tretas. A primavera árabe – que apanhou EUA e Europa totalmente desprevenidos, afinal foi financiada por estes que não sabiam que ia ocorrer e que por muito tempo não fizeram ideia de como reagir. (E nem todos os países da primavera árabe – que nunca me entusiasmou – se engalfinharam numa guerra.) O apoio ocidental aos rebeldes na Síria pode ser caracterizado de néscio, desde logo por supor que haveria rebeldes que seriam leais a quem os ajudasse com munições e treino e equipamento, ou por manter o mito da existência dos ‘islâmicos moderados’. Mas não foi de todo a causa da guerra civil na Síria nem, sequer, o catalisador para os mortíferos combates desta guerra. Pelo que caracterizar estas ajudas pontuais como ‘criminosa aventura ocidental na Síria’ dá ideia ou de alucinações involuntárias sobre a realidade ou aldrabice deliberada.

Assad – que até teve uma grande vitória (uau – e, tendo em conta Aleppo, aposto que ARF também achou a destruição de Dresden uma grande vitória dos aliados; há quem não tenha argúcia para perceber que às vezes só há derrotas, mesmo quando há ganhos militares) e Putin são uns tipos impecáveis. Os curdos – que acabaram de explodir coisas e matar gente – são outros seres humanos, todos, acima de qualquer crítica. Supor que Assad – que anos a fio sustentou o Hezbollah, que lá por não ser a Al Qaeda ou o ISIS não deixa de ser um grupo de terroristas – é um trunfo no combate ao terrorismo, bem, é tão obtuso como inventar os tais ‘islâmicos moderados’ que poderiam ser aliados do ocidente.

Enfim, quando esta gente que agora apoia os amigos de Trump se interessar por saber as figuras que faz, tem uma solução fácil: é igual aos desavergonhados que há pouco tempo andaram a recordar flores e estrelas cintilantes sobre esse outro tipo impecável que foi Fidel Castro.

 

 

 

A Itália, os referendos e a UE

O meu artigo desta semana no Observador: O referendo anti-Renzi e a União Europeia.

Que os eleitores votam com base em motivações e impulsos não necessariamente relacionados com os temas colocados a votação é uma realidade tão amplamente conhecida e estudada na ciência política como explorada no marketing político. O que é porventura distintivo no actual contexto da UE é que as suas contradições internas e pouca robustez institucional levam as elites dirigentes a tremerem perante toda e qualquer consulta popular.

Fidel e a Comissão Europeia a que temos direito…

A culpa já será do Trump?

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Juros da dívida entram na “zona de perigo” da DBRS

Juros voltaram a superar a fasquia dos 3,5%, reentrando no intervalo em que o nível de preocupação da agência DBRS aumenta. A partir dos 4%, agência já disse que ficará desconfortável com o “rating”.

A Fortaleza Europa

Augusto Santos Silva afirmou hoje que os valores da Europa são contrários a deportações em massa. Percebe-se. Na Europa privilegia-se o impedimento da entrada. Daí as vedações na Grécia e na Bulgária, os campos de prisioneiros na ilha de Lampedusa, e os inúmeros cadáveres no fundo do Mediterrâneo.

Eurodeputado socialista antecipa possível bail-in na CGD

CGD. Eurodeputado do PS não exclui que depositantes sejam chamados a ajudar

Post-Brexit tariffs would primarily hurt UK consumers

Repeat after me: Post-Brexit tariffs would primarily hurt UK consumers – not European exporters. Por Ryan Bourne.

Tariffs primarily hurt the consumers of the country imposing them on imported goods. That is such an important insight that it deserves reiterating, nay, repeating ad nauseam until everyone understands it: *tariffs hurt consumers in the importing country*.

“As desgraças causadas a este pobre país pela sua divisão vão continuar, pois a operação não está ainda concluída”

moldova-flag-large1 O pedaço de território que hoje conhecemos como Moldávia já teve quase tantos nomes quantos os povos que o dominaram. Hunos, tártaros, godos, búlgaros, magiares, polacos, lituanos, otomanos, romenos, russos que chamavam a região de Bessarábia, alemães, russos que se chamavam a si próprios de soviéticos, todos andaram por lá até em 1991 o país ter recuperado a independência que já tivera por cerca de dois séculos na “Idade Média”. E, mesmo independente, a Moldávia continua a ser uma caldeirada de etnias diferentes, desde a maioria “romena” à minoria “russa”, passando por “búlgaros”, “turcos” e “ucranianos”, que falam línguas diferentes e não se consideram concidadãos de um mesmo país.

No próximo domingo, esta gente vária vai às urnas para escolher um novo presidente, podendo estar em jogo o futuro da estabilização democrática do país e a sua aproximação à União Europeia. Anos e anos de turbulência, crise económica e escândalos de corrupção levaram a uma enorme desilusão e frustração da população com as forças pró-europeias que assinaram o Acordo de Associação em 2014, que coloca à frente das sondagens e à beira de chegar ao poder Igor Dodon, um economista de 41 anos candidato do Partido Socialista pró-russo, que defende que “o renascimento da nação moldava” só será possível através “do restabelecimento dos seus laços e relações com a Rússia”, ou seja, mantendo-se fora da NATO e da EU, funcionando como um satélite do regime de Putin. Maia Sandu, uma antiga ministra que promete lutar contra a corrupção e os “oligarcas”, apoiada quer por novos partidos como o “Dignidade e Verdade” de Andrei Nastase, um líder dos movimentos de protesto contra a corrupção que têm abanado a política moldava nos últimos anos, quer pelo Partido Liberal Democrata, parte integrante da “Aliança pela Integração Europeia” actualmente no governo, parece não ter hipóteses de o derrotar.

Entalada entre a Roménia e a Ucrânia, a Moldávia sempre foi uma espécie de ponte terrestre entre os Cárpatos e o Mar Negro, servindo de passagem para uma qualquer invasão dos Balcãs proveniente de Leste e de um ataque à Rússia vindo do centro da Europa, e hoje, a proximidade do porto de Odessa, da Crimeia e o facto de acolher uma rede de gasodutos e oleodutos que ligam o petróleo e o gás russos à Europa e à Turquia dão à Moldávia uma importância que não deve ser menosprezada, que pode ser tudo de criminoso a facínora mas certamente não é parvo, não comete esse erro. Como é seu hábito, não se cansa de interferir na vida política moldava, criando ou alimentando o caos que a caracteriza.

Em 2009, o então presidente Vladimir Voronin, um antigo agente do KGB fundador do Partido Comunista moldavo, foi afastado do poder por uma série de manifestações populares de protesto contra a fraude eleitoral que terá patrocinado para dar ao seu partido uma nova maioria parlamentar. Como na Ucrânia, a população de etnia russa, base de apoio de Voronin, viu na “revolução” a acção de “fascistas” apoiados pela EU. Foi aí que entraram em acção “os dois Vlads”, Plahotniuc e Filat, etnicamente romenos mas com laços na Rússia e com dinheiro suficiente nos cofres para comprarem televisões, bancos, hotéis, casinos, “clubes” nocturnos e claro, partidos, votos e lealdades, controlando os destinos do país. Em 2014, Filat viu-se envolvido no “misterioso” desaparecimento de mil milhões de euros (cerca de 12,5% do PIB moldavo) dos bancos do país para contas offshore. Por “coincidência” esse envolvimento foi revelado por uma série de escutas realizadas e tornadas públicas por um tal de Renato Usatîi, antigo membro da máfia russa (na exacta medida em que alguém pode ser um ex-membro da máfia russa e permanecer vivo, ou seja, zero) que criou, sob o patrocínio e financiamento de Putin, o Patria, um partido pró-russo radical, entretanto ilegalizado.

Não admira por isso que 80% dos moldavos digam não acreditar no “Estado de direito”. E como nota Robert Kaplan, “democracias fracas podem ser mais úteis à Rússia do que ditaduras fortes”, pois “oferecem aos russos muitos políticos locais para subornar”. É uma oferta que Putin e a sua quadrilha não desdenha: patrocinaram Vorodin, patrocinaram Usatîi, e agora patrocinam Dodon, dando-lhe dinheiro para a campanha eleitoral e para o suborno de juízes, funcionários públicos, caciques locais e todo o habitual rol de funções necessários para se comprar uma eleição e governar um estado corrupto. Para piorar as coisas, a pobreza do país torna-o particularmente vulnerável à chantagem económica russa: a mesma rede de gasodutos e oleodutos que lhe dá importância geoestratégica sinaliza a sua dependência energética da Rússia, e como dizia a Kaplan um político local, a Moldávia não se pode dar ao luxo de ver a Rússia cortar o fornecimento de gás natural ao país ou deixar de comprar os seus produtos agrícolas.

Acima de tudo, Putin explora bem as divisões étnicas no seio da Moldávia. Enquanto muita gente concorda com o antigo primeiro-ministro Ion Sturza quanto à ideia de que a Moldávia só poderá sobreviver e prosperar como parte integrante da Roménia, e consequentemente da UE e da NATO (não é em vão que Dodon pretende “proibir por lei o unionismo em todas as suas formas”), não falta quem veja “nos romenos” uma ameaça e um regresso dos “fascistas” que roubaram terras e bens no século XX, principalmente nas regiões onde a minoria falante de russo é predominante, e para onde Putin envia os seus lacaios para se reunirem com os “notáveis” locais para os exortar a fazerem mais exigências de autonomia relativamente ao estado central, fomentando o conflito e a divisão interna: na Gagauzia, região onde vive uma população de etnia turca mas de língua russa que sonha com uma “Grande Gagauzia” independente, ou pelo menos tão independente como as regiões que a Rússia consegue tirar aos seus vizinhos sob a capa da “autodeterminação” têm conseguido ser na Ucrânia ou na Geórgia, conseguiram promover (em 2014) um referendo em que 98% dos eleitores votaram a favor da integração na união aduaneira russa e que deram origem a processos semelhantes noutras regiões do país; e na Transdnistria, a Rússia mantêm há décadas um protectorado na prática independente da Moldávia, onde passaportes soviéticos ainda são válidos e tropas russas estão permanentemente estacionadas, ameaçando quer a Moldávia quer a Ucrânia.

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No fundo, a Rússia faz na Moldávia aquilo que faz um pouco por toda a sua vizinhança. A quantidade de confusões em que a Rússia se tem envolvido no plano internacional pode passar uma imagem de poderio e “ressurgimento”, mas na realidade espelha apenas a fraqueza do país e do regime. À desintegração do império russo vestido de vermelho nos anos 90, com a perda dos países do Pacto de Varsóvia e a independência das repúblicas sob o seu domínio, seguiu-se a aproximação destas à UE e à NATO. Mais tarde, a transformação do Estado russo numa Máfia operando no sector energético permitiu à quadrilha putinista enriquecer mas deixou-a à mercê das descidas de preços, que diminuíram o peso das suas carteiras e colocam o regime à beira do colapso: em recessão há quase dois anos, o regime depende do sector energético para sobreviver pois depende da sua capacidade de encher o bolso dos aparelhos político e repressivo em troca da sua lealdade, especialmente quando a população tem visto a moeda russa perder força à medida que Putin manda imprimir cada vez mais dinheiro para tentar esconder o facto de que ele vale cada vez menos, e os preços dos bens disparam em resultado desse truque e o desemprego segue o mesmo caminho. Se juntarmos a esta percepção de fraqueza externa e interna do poder do Kremlin a profunda crise demográfica do país, percebe-se que a Rússia se sinta ameaçada no presente e com receio de confrontos no futuro, até porque esta fraqueza conjuntural se limita a acompanhar a fragilidade e sentimento de ameaça históricos do país: sendo um país periférico, geograficamente distante do coração do continente europeu, com um inverno frio e sem um porto de águas quentes, ficando assim isolado do circuito do comércio marítimo por vários meses todos os anos, com a maior massa continental do mundo (o que o torna difícil de defender) e com uma população com uma enorme variedade étnica (o que, juntamente com a dimensão territorial, o torna difícil de governar), a Rússia não consegue, hoje como no passado, fugir a um modelo de governo autocrático e, especialmente, externamente agressivo.

É fácil de perceber porquê. Em primeiro lugar, o conhecido carácter profundamente nacionalista da população russa torna-a presa fácil para a exploração que Putin faz da sua política externa agressiva como arma de propaganda interna, conseguido assim granjear o apoio que o desastre económico a que tem presidido não lhe permitiria obter. Em segundo lugar, porque depende consideravelmente das receitas do sector energético para se enriquecer a si própria e para subornar o maior número de gente possível (na Rússia e no estrangeiro), a elite do Kremlin vive obcecada com a obtenção e manutenção do controlo de regiões estratégicas para o sucesso desse sector, e com o controlo de empresas do sector energético noutros países, para neles exercer “influência” (vulgo “chantagem”): a Lukoil controla refinarias na Ucrânia, na Bulgária, na Roménia, e detém participações nas dos países balcânicos, e a Gazprom, como Deus, está por todo o lado, desde as competições europeias de futebol à companhia petrolífera da Sérvia, passando pela nossa Galp, a austríaca OMV ou a alemã Rurhgas. E finalmente, Putin percebe quantas mais crises internacionais criar ou ajudar a agravar, ou quanto maior for o conflito político interno no seio dos países seus rivais, mais dificuldades lhes cria, ao dividir as suas alianças ou ao fragilizar o seu apoio político e estabilidade internos. É por isso que, por exemplo, emprestou 9, 4 milhões de euros à Frente Nacional de Marine Le Pen em França; ou na Ucrânia, Eslováquia ou Polónia, divulgou escutas secretas de políticos e emails extraídos de “hacks” aos partidos; ou, na Holanda, promoveu o referendo sobre o acordo comercial da UE com a Ucrânia e participou activamente na propaganda contra a sua aprovação; ou, na Ucrânia, patrocinou e guiou (com pessoal político e paramilitar) forças políticas pró-russas e, claro, anexou a Crimeia (que lhe dá o acesso a portos de águas quentes que a geografia lhe nega); e é por isso que, nos Estados Unidos, promoveu o “hack” aos emails de Hillary Clinton e ao Partido Democrata, e em geral, promove a agenda de Trump (que tem pessoal político que trabalhou na Ucrânia com os fantoches que Putin lá colocou) através da Russia Today e da Sputnik News, num esforço (bem sucedido: veja-se a forma como Trump, repetindo a prática das forças apoiadas pelo Kremlin em inúmeros países, não pára de dizer que as eleições estão “feitas”, e muita gente parece acreditar apesar de ser algo que está longe de ser verdade) de descredibilizar o processo democrático americano, com a “quinta de trolls” russa a inundar “os twitters e os facebooks” (como diria Paulo Futre) com conteúdo falso, “semeando a dúvida e a paranoia, e destruindo a possibilidade de usar a internet como um espaço de debate”, ao criar “uma atmosfera de ódio que cheire tão mal que as pessoas normais não lhe queiram tocar”; é por isso que, na Síria, vai mantendo Assad no poder para defender interesses estratégicos como o acesso ao porto mediterrânico de Tartus, mas não tem interesse em lhe garantir uma vitória definitiva, prolongando a guerra e assim a instabilidade na região e, consequentemente, as dificuldades que os seus rivais aí enfrentam, para além de produzir cada vez mais refugiados a caminho da Europa, fomentando divisões e conflitos na ordem política interna dos países da UE e da NATO.

Em 1846, o geógrafo e escritor alemão Johann Georg Kohl escreveu sobre a então Bessarábia que “as desgraças causadas a este pobre país pela sua divisão vão continuar, pois a operação não está ainda concluída”. 170 anos depois, o nome pode já não ser o mesmo, mas o panorama parece não ter mudado muito. Talvez por ser um país cuja existência muitos portugueses só conhecem porque ouviram dizer que a empregada do café que frequentam veio de lá, ninguém ligará nada às eleições de dia 30. Os telejornais não dirão nada delas, as rádios não gastarão um segundo com o assunto, e se talvez os jornais diários dediquem umas escassas linhas a anunciar o resultado, ninguém as lerá. Mas talvez merecessem a atenção que não vão receber. Afinal, é também um pouco do nosso futuro que estará em causa.

Uma austeridade que veio para ficar

Antes de desistirmos. Por Rui Ramos.

Há mesmo assim quem se congratule com a conversão silenciosa do BE e do PCP a tudo o que é obediência às regras europeias. Não é um sinal de que o sentido da responsabilidade alastrou no parlamento? Não é. O BE e o PCP demonstram apenas que as suas “causas”, da defesa dos pobres ao zelo pelos serviços públicos, são totalmente secundárias em relação ao objectivo de infiltrar o Estado, e que por este objectivo estão disponíveis para tudo. Mas há ainda quem argumente que a nova austeridade é diferente. É, sem dúvida. Esta não é a austeridade temporária de um programa de ajustamento, mas a austeridade permanente de uma política clientelar: é o custo imposto à sociedade para manter as regalias daqueles que o governo julga serem os seus clientes e eleitores. Não é uma austeridade que corta despesas, mas que aumenta receitas para compensar o aumento das despesas. É uma austeridade que veio para ficar.

Leitura complementar: OE 2017: de mal a pior

Aumentos de rendimento para uns, incrementos de impostos para quase todos

Um orçamento possível mas pouco plausível. Por Francisco Veloso.

Foi apresentado na sexta-feira pelo Governo o Orçamento do Estado para 2017. Encontramos aumentos de rendimento para uns, incrementos de impostos para quase todos, e um quadro de crescimento sombrio e muito incerto; mas também uma surpresa.