Há disciplina de voto no PS

António Costa, depois da reunião com o Presidente da República, disse que “estão criadas condições para que o PS possa formar um governo que disponha de um apoio maioritário na Assembleia da República e que assegure condições de estabilidade no país”.

Dúvida: Costa fala por todos os deputados do Partido Socialista? Com a divulgação de várias críticas internas talvez fosse bom esclarecer isso primeiro. Mas o melhor local é mesmo no Parlamento.

Portugal pode mais? A Irlanda pôde.

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Crescimento acumulado desde 1994. A Irlanda, país muito semelhante a Portugal, regista um crescimento que deveria envergonhar Portugal.

Num momento em que se discute um Governo de esquerda — um dissonante grémio de marxistas, trotskistas e socialistas deslocados —, a reversão da redução faseada do IRC e das importantes reformas do mercado laboral, entre tantas outras políticas económicas suicidárias, então talvez seja oportuno recordar a política económica seguida pela Irlanda: o oposto de qualquer política económica de um hipotético Governo de esquerda.

Em meados dos anos 90, a Irlanda conduziu profundas reformas económicas, entre as quais a liberalização dos mercados de bens e serviços, e subsequente entrada no mercado único, a liberalização do mercado laboral e a redução drástica do IRC. O PIB cresceu a dois dígitos e a dívida pública (%/PIB) foi reduzida de 90% para menos de 40% em 6 anos apenas. Consequentemente, a Irlanda atraiu uma vaga significativa de investimento directo estrangeiro. Com isto catapultou-se para o 5º lugar dos mais ricos da Europa, medido em PIB per capita, quando era dos países mais pobres.

O resultado está bem patente no gráfico que acompanha o artigo. Entre 1994 e 2014, a Irlanda viu o seu PIB crescer, cumulativamente, 140%, enquanto que Portugal registou uns pálidos 25%. Os 115 p.p. de diferença, quantificado em pessoas, são centenas de milhares de famílias que poderiam viver consideravelmente melhor. Em Portugal, o PIB per capita é de 28 mil USD, enquanto que na Irlanda chega aos 47 mil USD (PPP). Se Portugal tivesse crescido os 140% que a Irlanda cresceu, o PIB per capita português seria hoje cerca de 58 mil USD.

Créditos: cálculos e gráfico autoria de Christian Odendahl

Adenda: os valores usados estavam em USD e não em EUR. Não altera a substância do artigo, excepto num ponto. Em PPP, a Irlanda ocupa o 2º lugar na Europa. Fica a correcção feita, com um agradecimento ao leitor Ivo Reis.

Tradução da entrevista de António Costa

“As negociações à esquerda estão a correr bastante melhor do que à direita”

Tradução: Se eu conseguir um acordo à esquerda, serei primeiro-ministro. Se eu conseguir um acordo à direita, Passos Coelho será primeiro-ministro e eu serei mais um defunto político devorado por aqueles que me apoiaram.

“Eu ando na política desde os 14 anos”

Tradução: Eu não ando há 40 anos a trabalhar para ser primeiro-ministro apenas para desistir agora só porque fui derrotado numas eleições.

“Não quero o poder a todo o custo”

Tradução: só quem quer o poder a todo o custo precisa de vir dizer que não quer o poder a todo o custo.

“A coligação anda a esconder a realidade do resto do país”

Tradução: Independentemente do meu programa, ou do que acordar com o BE e PCP, a austeridade é para continuar, mas a culpa é do anterior governo que não fez austeridade suficiente para agora podermos gastar à vontade.

A syrização do BE e PCP (2)

 

PS_BE_PCPNo Diário de Notícias, opinião de João Taborda da Gama: “Portugal em fanecas”

Como é que o PS conquistou o Bloco de Esquerda? Com uma cesta de peixe miúdo. Já nada desune os dois partidos. O eixo realidade-Bruxelas encarregar-se-á de fazer esquecer uma série de propostas orçamentais da esquerda do PS e do próprio PS, e António Costa parece estar a conseguir convencer Catarina Martins a deixar cair tudo o que é identitário no Bloco de Esquerda.

Legislativas: evolução dos resultados eleitorais

Agora que já estão contabilizados todos os votos convém mostrar a evolução das eleições legislativas neste século (em destaque o valor máximo obtido):

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Nota: apesar de apenas em 2015 o CDS ter ido a eleições coligado com PSD decidi juntar os dois, para melhor análise dos resultados correntes.

Do quadro acima podemos calcular a evolução das votações em relação ao acto eleitoral anterior (primeiras 4 colunas) e a diferença entre o resultado de 2015 e o máximo obtido (última coluna, a vermelho):

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Principais conclusões:

  • Em 2015 todos os grupos perderam votos em relação ao seu máximo. PS é o que mais distante ficou do seu máximo (67,48% do valor de 2005).
  • Nas recentes eleições apenas o grupo partidário PSD/CDS perdeu votos em relação às eleições anteriores (-727.564). Os restantes partidos aumentaram mas “deixaram escapar” 282 mil daqueles votos.
  • Tanto PSD/CDS como PS ficaram, este ano, uns 13% abaixo da média dos votos daquelas cinco eleições. Bloco de Esquerda ficou 44% acima da média.
  • Desde 2005 que o total de votantes tem vindo a diminuir, tendo este ano descido abaixo do pior acto eleitoral (2002).
  • O resultado de PSD+CDS em 2015 foi o segundo pior, obtendo poucos mais votos do que receberam em 2005. Mas em 2005 perderam as eleições para o PS (que teve maioria absoluta). Agora ganharam.
  • Este ano o resultado do PS foi o seu segundo pior, a seguir a 2011.
  • Ainda que PS conseguisse cativar o acréscimo total de votos no Bloco de Esquerda (+261.919) mesmo assim ficaria abaixo do número de votos obtidos pela coligação (-76.561).
  • Apesar da forte subida em relação a 2011, BE obteve praticamente os mesmos votos que tinha recebido em  2009.
  • A CDU (PCP/PEV) foi a que apresentou menor variabilidade nos resultados.
  • A soma dos votos PS, BE e PCP/PEV em 2015 (a designada “maioria de esquerda”) fica aquém 69.172 votos do PSD/CDS de 2011.
  • Entre 2002 e 2015 “bloco central” (PS+PSD+CDS) perdeu cerca de 880 mil votos. A extrema-esquerda ganhou pouco mais de metade desse valor (cerca de 470 mil).
  • Houve 2,7 vezes mais votos nulos/brancos que votos no PAN (que elegeu um deputado), 3,3x do PDR (liderado por Marinho Pinto), 3,4x do PCTP/MRPP (Garcia Pereira) e 5,1x do Livre/Tempo de Avançar (Rui Tavares).

A syrização do BE e PCP

PS_BE_PCPComo o Miguel Noronha nos lembrou, faz hoje um ano que a posição do PS estava, no que respeita à reestruturação unilateral da dívida, mais próxima dos partidos do então governo (PSD e CDS) que das do Bloco de Esquerda e Partido Comunista. O que entretanto mudou? O BE e o PCP.

Face aos resultados das eleições legislativas de 4 de Outubro, BE e PCP, para viabilizar um “governo de esquerda” liderado pelo PS, estão dispostos a colocar na gaveta a reestruturação da dívida. Tal como aconteceu ao Syriza quando, à frente do governo grego, teve de capitular dessa medida disruptora.

Ou seja, antes das eleições BE e PCP defendiam a rejeição da dívida com o intuito de redireccionar o valor destinado ao pagamento dos juros para reposição das políticas sociais (vamos esquecer, por momentos, as consequências para os nossos depósitos na banca portuguesa e para o acesso futuro do Estado ao mercado de capitais). Entretanto houve um volte-face e hoje já aceitam reembolsar a dívida (incluída no programa eleitoral do PS), o que implica a necessidade de cobrar impostos e/ou reduzir despesas públicas a fim de pagar aqueles encargos financeiros (além de todas as outras despesas).

À semelhança das políticas do actual Syriza, BE e PCP também passaram a defender as ditas medidas de austeridade. Mesmo que lhe dêem outro nome.

Quiz (2)

Informação oculta no artigo original:

Resultados eleitorais 1 (Suécia 2006):

Governo empossado: B+C+D+E com primeiro ministro de B

Resultados eleitorais 2 (Israel 2009):

Governo empossado: B+C+D+E com primeiro ministro de B

Resultados eleitorais 3 (Suécia 1979):

Governo empossado: B+C+D com primeiro ministro de C

O PSD e a Paz Cartaginesa

O ano era 1975 e o país vivia dias negros. Sá Carneiro estava sitiado. Governava Vasco Gonçalves, com a bênção dos comunistas e do MFA. No PPD mandava Emídio Guerreiro que discursava sobre nacionalizações e colectivizações. A JSD nomeava Marx como uma das suas influências e a facção de Jorge Sá Borges tinha peso no partido e ameaçava tomar a liderança e ensaiar uma aliança com a esquerda radical. Sá Carneiro, afastado pela doença, não cedeu. Bateu-se contra o PREC e contra os radicais do seu partido. Acabou por vencer e voltar para limpar a casa.

O ano era 1977 e o país vivia dias anos negros. Sá Carneiro estava sitiado. FMI havia aterrado na Portela e em pouco tempo o PS de Soares, no governo, estaria coligado com o CDS. O partido estava à mercê da ala social-democrata encabeçada por figuras como Pinto Balsemão, Sousa Franco ou Ferreira Júnior. Sá Carneiro, mais uma vez, não cedeu. Exilado, desferiu ataques contra Eanes, governo e a própria ala que lhe fazia oposição dentro do PSD. Disputou a liderança e reconquistou-a, tendo enfrentado uma maioria que se lhe opunha no grupo parlamentar – as Opções Inadiáveis – e uma consequente cisão de 37 deputados que haveriam de criar a ADSI. Ao lado do génio político de Amaro da Costa construiu as bases para a primeira coligação de direita em Portugal e, como é bem sabida, para a sua primeira maioria absoluta.

O ano era 1980 e o país vivia dias negros. Sá Carneiro estava sitiado. A sua Aliança Democrática, agora no governo, pouco podia fazer contra uma Constituição altamente socializante e contra um presidencialismo militarizado apostado em limitar a sua acção política. O PS rejeitava uma solução de Bloco Central com Soares como candidato presidencial e Eanes, tudo indicava, iria ser reeleito. Sá Carneiro não cedeu. Tomou diligências para se demitir após as presidenciais e ser sucedido por Eurico de Melo. Teimoso como era, não tivesse sido brutalmente assassinado, teria ido mais uma vez a eleições pouco tempo depois.

Por esta altura o leitor estará a pensar: “lá vêm estes gajos com mais um artigo do Sá Carneiro”! Com uma certa razão, admito. Mas o que proponho aquilo não é qualquer evocação a sebastianismos com os quais não convivo bem. Poderia ter citado Thatcher, mas tendo em conta a data corria o risco de ser repetitivo e Sá Carneiro, além de ser um exemplo deste contexto, apesar de ser substancialmente citado é absolutamente desconhecido, mesmo no seio da direita. O que proponho é que o PSD aprenda com o exemplo de um líder teimoso que sabia bem o que queria e para onde levar o país, mesmo que isso implicasse colocar por diversas vezes a sua carreira política em xeque. Esta cedência transversal que a coligação pretende apresentar ao PS é vergonhosa para os seus eleitores, para os seus militantes e para a sua história. É própria destas lideranças, herdeiras do pior que as jotas têm para oferecer, cuja coluna vertebral cresceu inclinada por força de hábito e cujo deserto intelectual obriga a citar Churchill – para parecer bem – e a aplicar Chamberlain – por défice de legumes no sítio certo.

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Um conto de dois vídeos

Andam por aí a fazer a ronda da internet dois vídeos que ilustram bem o estado actual do “debate” político em Portugal. Um deles, desenterrado por um jovem membro da JP (Juventude Portista), mostra António Costa, em 2009, a indignar-se com a possível formação de governos “pelos jogos partidários”. O outro, logo desencantado pelos industriosos internautas do Partido Socialista, mostra Paulo Portas, em debate com Passos Coelho em 2011, a falar da hipótese de PSD e CDS, mesmo ficando atrás do PS na contagem de votos nas legislativas, formarem governo se tivessem, em conjunto, uma maioria de deputados no parlamento. Como notou o André, enquanto Costa dá argumentos contra o “governo de esquerda” que hoje talvez esteja a congeminar, Portas dá argumentos a favor desse mesmo governo que pretende derrubá-lo.

Estes dois vídeos põem a nu, em primeiro lugar, o indiscutível facto de que a hipocrisia é uma característica que se encontra equitativamente distribuída pelos vários “lados” das guerrinhas políticas deste país: à “esquerda” e à “direita”, o que valia ontem não vale hoje, e o que ontem era vergonhoso é hoje essencial; as únicas constantes são o seu desprezo pela inteligência dos cidadãos, e o nulo crédito das palavras que emitem. Mas não é só a mendacidade de Costa e Portas que fica exposta à violência dos elementos pela divulgação destes dois vídeos: é também a natureza do comportamento dos respectivos fãs e adversários, que vilipendiam no opositor as mesmas malfeitorias que cegamente ignoram nos seus ídolos. Como os adeptos do Benfica ou do Sporting que chamam horrores a Bruno de Carvalho ou Luís Felipe Vieira consoante o lado da Segunda Circular em que gostam de ir assistir à bola, os “jotinhas” do CDS e os “jotinhas” do PS acusam Costa e Portas de uma ridícula falta de vergonha e coerência, como se o 1) o próprio objecto dos seus afectos não padecesse do mesmo mal, e 2) essa denúncia não desnudasse simultaneamente a sua própria hipocrisia ou incapacidade para o exercício do pensamento crítico.

Tornou-se hábito dizer-se que a política portuguesa está “radicalizada”, como se tivesse surgido do nada uma clivagem ideológica violentíssima entre dois lados absolutamente inconciliáveis nas suas ideias. Não é verdade: do CDS ao PS, passando pelo PSD, todos pensam mais ou menos o mesmo, ou seja, nada. A “radicalização” existe, sim, no comportamento tribal que norteia a acção dos chefes políticos, os seus aguadeiros e os respectivos simpatizantes. A “radicalização” não é ideológica, é “clubística”: como os adeptos dos clubes de futebol, os chefes políticos, os seus aguadeiros e os respectivos simpatizantes vêm “neles” a encarnação de todos os males e em “nós” a corporização do bem absoluto, sem que por um segundo sequer lhes ocorra que nuns e noutros se encontram exactamente os mesmos defeitos (entre eles essa incapacidade de os reconhecer em si próprios). Ao contrário da “radicalização” ideológica que as “classes conversadoras” erradamente descortinam na política portuguesa, a cegueira “clubística” que efectivamente a caracteriza não peca por impossibilitar um “consenso” entre as forças políticas, quanto mais não seja porque esse “consenso” traria mais complicações do que as que seria capaz de resolver. O problema da cegueira “clubística” no debate político português está em que impossibilita, isso sim, uma discussão racional dos problemas do país entre diferentes opiniões, divergentes mas passíveis de análise e comparação. E sem essa discussão racional, os eleitores “neutros” – os que não são chefes políticos, seus aguadeiros ou simpatizantes – olham para “eles” – todos, de um lado e de outro – e não podem senão achar que “eles” estão “sempre a dizer mal uns dos outros”, que “eles” são “todos mentirosos”, e acima de tudo, que eles “são todos iguais“. Não é assim de espantar que uma cada vez maior parte do país não confie em nenhum partido, e que nas eleições prefira ficar em casa a dar a sua confiança a qualquer um deles. A “opinião” em peso acha que isto é um problema de falta de espírito cívico dos abstencionistas; eu acho que é um problema dos partidos políticos, que recebem da parte desses abstencionistas o desprezo que cultivam na população em geral. E basta olhar para estes dois vídeos para o perceber.