A Globalização nunca esteve melhor

Existe uma teoria, defendida por quem nunca percebeu o fenómeno Trump, que diz:

Trump ganhou essencialmente com os votos a uma classe trabalhadora branca e analfabeta que perdeu emprego ou rendimento com a globalização

1. Quem votou em Clinton e Trump

Hillary ganhou o voto dos pobres (a tradicional compra de votos democrata com programas sociais) e das elites (em que local Hillary teve mais votos? Washington DC).

Trump ganhou o voto da classe média e dos que deixaram de ser classe média – a este propósito recomendo o vídeo do Michael Moore abaixo. Além de 90% dos Republicanos que no dia 8 pensaram no Supremo e foram votar no mal menor.

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Nem foi Trump que ganhou, nem a globalização que perdeu

obama-supporters-turn-against-himDe tantas vezes repetida, a teoria já ganhou laivos de verdade absoluta: Trump ganhou graças a uma classe trabalhadora branca e analfabeta que ficou a perder com a globalização. Esta teoria tem vários problemas:

Clinton ganhou entre as classes mais baixas e Trump entre as mais altas
Os grupos de trabalhadores mais afectados pela globalização foram os negros e latinos, que têm qualificações mais baixas e taxas de desemprego mais altas. Estes não votaram em Trump.
– Trump teve mais ou menos o mesmo número de votos que Romney em 2012 e McCain em 2008, dois candidatos que perderam de forma expressiva as suas eleições

Trump ficou à frente porque, apesar de todos os seus problemas, conseguiu manter o eleitorado McCain/Romney (eventualmente com alguns ganhos e perdas cruzadas), enquanto Clinton perdeu 10 milhões de votos em relação à primeira eleição de Obama. Portanto arrisco-me a dar uma razão para este resultado menos politicamente correcta e que, por isso, não verão repetida em mais lado nenhum: a base sociológica que elegeu Obama não se deu ao trabalho de ir votar para eleger uma mulher branca.

Carta Aberta de Hannah Bleau, uma fervorosa apoiante de Trump

Uma fervorosa apoiante de Trump explica a mentalidade que levou à sua eleição:

The first half of last night was stressful. I could barely eat. Stupid Florida, always keeping us on the edge of our seats. I switched my networks around last night. I mostly relied on Fox News and Twitter. CNN wasn’t calling states as fast, and MSNBC is a last resort kind of thing. I vowed to stay away from that channel, UNLESS things started shaping up for Donald Trump.

Then the results started coming in. Flyover nation. North Carolina. Ohio. Florida? Wisconsin?!!! That’s when the wheels started falling off their wagon. That’s when I started thinking about Hillary Clinton’s defeat. I never really allowed myself to go there before. I didn’t want to get my hopes up, but my country came through. We the People are not stupid.

We the People defeated MSM. We the People defeated the establishment. We the People saved the Supreme Court. We the People rejected the power-hungry, seahag criminal in a pantsuit.

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Frente isolacionista revolucionária

O meu texto de hoje no Observador. Porque não são só os eleitores de Trump que são ignorantes. E, por estes dias, nem só a esquerda é revolucionária.

‘Não é só nos Estados Unidos que as ideias protecionistas e isolacionistas têm fôlego. O Brexit não é nada além disso, e vamos ver para onde irá a União Europeia. São também umas ideias filhas diletas da ignorância. Historicamente o mundo tem aumentos de prosperidade quando há maiores trocas comerciais entre os países. Sucedeu no século segundo antes de Cristo, quando explodiu o comércio entre os impérios chinês, persa e indo-grego e o mundo helénico e romano através das rotas da seda terrestre e marítima. Outra vez depois dos descobrimentos europeus. Mais uma vez a partir do século XX. Este dinamismo comercial espevita os avanços tecnológicos, filosóficos, artísticos. Já o mundo de Trump e dos seus apoiantes é paroquial, imobilista – e mais pobre.

Em boa verdade é uma ignorância parecida com a que Jerónimo de Sousa conta para louvar, aparentemente sem estar entorpecido por substâncias psicotrópicas, as maravilhas da União Soviética e da ‘democracia avançada’ (aquilo que as pessoas não infetadas pelo vírus marxista chamam de ditadura). Na realidade paralela de Jerónimo de Sousa, ‘a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), num curto período de tempo histórico, alcançou um significativo desenvolvimento industrial e agrícola, erradicou o analfabetismo e generalizou a escolarização e o desporto, eliminou o desemprego, garantiu e promoveu os direitos das mulheres, das crianças, dos jovens e dos idosos, o desenvolvimento de múltiplas formas de expressão artística, conquistou um elevado nível científico e técnico’. Leram bem. Vão lá tomar um chá de tília para acalmarem com a falta de vergonha alheia.’

O texto todo está aqui.

Deixem lá as sondagens em paz

A eleição de Trump foi sinal de muitas coisas más, e nem todas só do lado do republicano, é certo, mas não exatamente de falhanço de sondagens. Claro que muitas sondagens erraram a determinar os likely voters (desde logo porque tomavam em conta a tradição de votar dos inquiridos, e muitos votantes de Trump costumavam não votar), mas os últimos resultados estavam perigosamente próximos. Além disso, o LA Times deu consistentemente nos últimos dias vitórias a Trump no seu tracking e o IBD e a Rasmussen tanto davam empates como vitórias marginais de cada um dos candidatos. Quem acompanhava as sondagens dificilmente via motivos para estar descansado.

Já agora acrescento, para se ver como a incerteza estava plasmada nas sondagens e que as sondagens não têm culpa de se terem valorizado apenas aquelas que davam o resultado preferido: no caso do IBD, as sondagens a dois (Hillary e Trump), davam a vitória a Hillary; já as sondagens do IBD a quatro (com Gary Johnson e Jill Stein), exatamente nos mesmos dias, davam a vitória a Trump. Como disse num comentário, por mim, que ia vendo todas as sondagens, e que achava, como toda a gente, uma probabilidade grande a vitória de Hillary (sobretudo por causa das notícias do early vote latino) na verdade achei também sempre que a eleição não estava segura nem que a probabilidade de Hillary ganhar estivesse nos 60%, menos ainda nos 80% – e precisamente por ver as sondagens. Acho que estava à vista de toda a gente a possibilidade de vitória de Trump.

“Os americanos” e “os portugueses”

Não deve haver muita gente mais anti-Trump do que eu. Mas não embarco naquilo em que muito “intelectual” português ao estilo Rui Tavares vai embarcar a partir das próximas horas, insultando “os americanos” pela sua suposta “estupidez”. Os americanos que votaram em Trump fizeram, acho eu, uma escolha erradíssima. Mas enquanto “nós” portugueses continuarmos a eleger gente do calibre de Sócrates (um mentiroso patológico bem parecido nesse aspecto com Trump) e a dar credibilidade a burlões como Louçã, os “jovens turcos” do PS, Paulo Portas ou os “notáveis” do PSD, não vejo razão para a típica sobranceria preconceituosa que essa gente gosta de alardear sempre que “os americanos” escolhem um presidente que não lhes agrada. Mesmo quando (como é o caso agora e não foi com Reagan ou Bush, por exemplo) essa escolha ultrapassa os limites do razoável: pura e simplesmente, “nós” não temos legitimidade para termos essa atitude em relação “aos americanos”.