(2 anos depois) Uma das mais lúcidas análises à vitória de Trump

Feita pelo britânico Jonathan Pie, jornalista fictício (tinha de ser)

Donald Trump e “A Era da Desmiogarquia”

 

Um texto meu no site britânico CapX:

“Sullivan’s words might sound overly-dramatic, but there’s some validity to them. Not in the sense that America’s first orange president will become a true tyrant, but that his election does say something about the predicament of the American Republic. It is a symptom of the American democracy’s degeneration into a desmiogarchy – the government of the shackled, of those in bounds.

This degeneration has been a feature of European politics for several years now. All over the continent (Austria, Poland, Sweden, Denmark, Portugal), an increasing number of voters have transferred their support from mainstream, “centrist” parties to extremist, populist ones, or have elected not to participate in the democratic process at all. The pattern will likely be repeated in future elections in the continent, whether in Germany, Italy or most particularly in France.

At the root of this “desmiogarchization” of European democracies lies the exponential growth of the state. Since the turn of the century, across the continent, public spending has soared as a share of national income – from 51.6 per cent in 2000 to 55.9 per cent in 2012 in France; from 45.9 per cent to 49 per cent in Italy; from 41.6 per cent to 46.9 per cent in Portugal.

(…)in the end, these welfare states created a series of problems that seem difficult to overcome. They’re ineffective: they respond not to the needs of those who use them, but to the bureaucratic goals of political decision-makers. They’re unsustainable: there is an ever smaller number of workers paying for an ever-growing number of beneficiaries. And they’re unfair: because they try to provide for those who need it and those who don’t, they end up giving too much to those who don’t need it and not enough to those who do.

On the one hand, the inefficiency of these services feeds the electorate’s high – and growing – level of dissatisfaction with governments and politicians. On the other, European electorates seem pretty reluctant to give their support to any reform that might mean they would have to give up some of the things they take for granted.

The combination is lethal: most voters make their electoral choices on the basis of who they believe will be capable of keeping things as they are, but at the same time, those voters who want to keep the statist status quo intact grow unhappy with the practical results of that same statism. So voters blame the traditional governing parties for not being able to give them the statism of plenty they long for.”

O resto pode ser lido aqui.

Boycott Trump

Anda a ser divulgada uma lista — que, consta, terá tido origem em Harvard — com as empresas que possam ter alguma relação a Trump, desta forma facilitando a vida a quem queira boicotar Trump.

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Votar com a carteira é um direito, e ninguém é obrigado a comprar nada a nenhuma empresa. É a beleza do mercado livre. Já a democracia impinge-nos a vontade da maioria. Acresce ainda que, muito provavelmente, esta lista terá o efeito oposto ao pretendido — apanágio, aliás, das próprias eleições e do resultado.

Pedro, Trump e o lobo

trump-triumphant O André e consequentemente o por ele citado Daniel Hannan têm razão ao notarem como a “esquerda” europeia tem o triste hábito de apelidar de “fascista” para baixo todo e qualquer presidente (ou candidato a presidente) Republicano (e por vezes Democrata) dos EUA. De facto, ao tratarem gente fundamentalmente decente (por muito que se possa, evidentemente, discordar deles) como Reagan, Romney ou Bush como uma espécie de “novo Hitler” é, para além de simplesmente absurdo, retirar a palavras como “fascista”, “nazi” ou “autoritário” qualquer validade, incluindo – e especialmente – para quando estas devam mesmo ser aplicadas. No fundo, é o princípio “Pedro e o lobo”: de tantas vezes se grita “fascista”, que quando um aparecer, o aviso será olimpicamente ignorado.

Obviamente, Trump não é Hitler, por muito que alguns dos seus apoiantes sejam também admiradores do fundador da outra “escola austríaca”. Mas não é preciso ser Hitler para ser um racista corrupto sem qualquer apreço pelas normas de uma sociedade democrática decente, e cuja visão do mundo e do papel da América nele coincide com os interesses do chefe de um estado corrupto e autoritário que representa uma ameaça à segurança dos seus vizinhos. E o que seria realmente importante perceber é que estar a discutir se o homem é Hitler ou não é pura e simplesmente contribuir para que não se discuta como e quão realmente mau ele efectivamente é; e o problema daquilo para que Hannan alerta é precisamente o de contribuir para que, quando alguém realmente mau e perigoso aparece mesmo, se perca a capacidade de o criticar e de alertar para o quão mau e perigoso ele é. Que outros tenham cometido o erro de gastar o significado e a validade de certas palavras em todo e qualquer um com quem não concordavam, é um erro deles, cujas consequências todos nós pagaremos de uma forma ou de outra. Que agora nós deixemos de usar algumas dessas palavras quando elas devem ser usadas, só porque outros as usaram indevidamente no passado, é outro erro, que não devemos cometer e pelo qual pagaremos um preço bem mais caro se de facto o cometermos.

#EleiçõesEUA2016: dividir uma América dividida

Com a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA, reanimaram os esforços de secessão na Califórnia e Oregon. O mesmo tinha acontecido no Texas durante o governo de Barack Obama.

Em qualquer democracia haverá sempre descontentamento nos governantes. Até mesmo de quem neles votou. Nestas eleições americanas mais de metade dos eleitores (cerca de 53%) não votou em Trump (apesar de contagem dos votos não estar ainda finalizada, Hillary Clinton, a candidata democrata, obteve uma ligeira vantagem sobre o adversário republicano e os representantes dos restantes partidos obtiveram quase 5%). É caso para dizer que a América (EUA) está dividida. Mas isso não é novidade. Mesmo durante a presidência de Obama (que ganhou com maiores diferenças de votos) o sentimento era semelhante.

Se por vezes numa reunião de condomínio há dificuldades de entendimento imaginem então um “condomínio” de milhões!

Como refere o artigo linkado acima, conseguir a secessão da Califórnia é extremamente difícil. Mas seria o melhor para todos. É que, a acontecer, nenhum candidato democrata conseguiria, num futuro próximo, vencer as eleições presidenciais sem os 55 votos do colégio eleitoral atribuídos àquele Estado (passava a ser necessária uma maioria de 242 votos do colégio eleitoral, em vez dos actuais 270). E isso significaria a saída de ainda mais Estados “democratas”, o que só ajudaria a reduzir o número de descontentes em cada eleição presidencial.

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Se processo constitucional de secessão nos EUA é complicado/improvável/impossível, a redução dos poderes presidenciais já não tanto. Os californianos deviam é começar por defender a eliminação de muitos dos departamentos (“ministérios”) federais como, por exemplo, a Educação, Transportes, Habitação, Segurança Social, Saúde, etc. Em contrapartida, cada Estado implementava soluções governativas diversas, contribuindo para a melhoria da democracia americana ao limitar poder do presidente e, consequentemente, atenuando o descontentamento actual. Mas tal nunca será bem visto por estatistas.

PS: Reduzindo-se o tamanho do “condomínio” americano, diminuíam os conflitos. Sim, mas porquê ficar no nível estadual? Até mesmo dentro da Califórnia há “divisões”. Veja-se a distribuição dos votos vencedores por condado.

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O que diz a voz do povo sobre as eleições dos EUA

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Dita o educador do Povo, camarada Arnaldo Matos.

(…) E para aqueles que, como nós, proletários e combatentes marxistas e comunistas, temos como missão política e ideológica derrubar o imperialismo, inclusive no nosso país, nada temos que ver com as eleições presidenciais americanas e não alimentamos nenhuma espécie de ilusões sobre as marionetas presidentais do imperialismo, chamem-se elas o que se chamarem: desde Donald Trump a Hilary Clinton.

Dentro de alguns meses verão como Hilary e Trump realmente se amam…

Há por aí um chibarro da estirpe de Garcia Pereira para quem uma mulher na presidência dos Estados Unidos da América do Norte sempre seria, e apesar de tudo, um progresso revolucionário. Coisas desses cretinos papagaios! E quantos milhares de mulheres matou o imperialismo americano na Líbia, na Síria, no Iraque, em Alepo e em Mossul durante a campanha eleitoral para levar uma marioneta feminina do imperialismo, como Hilary Cinton, à Sala Oval da Casa Branca?! Garcia e seus capitulacionistas preferem a promoção de uma mulher a presidente do imperialismo ao de milhões de mulheres vivas no Médio Oriente…

Venha Trump ou quem vier; o nosso grito de guerra é sempre o mesmo: Morte ao Imperialismo Ianque! Viva o Comunismo! Não embarcamos em mascaradas presidenciais imperialistas.

Do Trumpismo

Vejo muita gente preocupada com o populismo que produziu luminárias no poder como Donald Trump e promete produzir mais, talvez já nas próximas eleições presidenciais francesas – na Alemanha aposto hoje que Merkel continua na frente do governo. 

Tem alguma graça que muitos desses preocupados sejam eles próprios campeões do populismo-os-bons-somos-nós-quem-é-contra-nós-é-fascista, mas adiante. 

Eu propunha que, em vez de olhar para as consequências depois do caldo entornado, olhassem para as causas. Pensem bo preço a pagar pelo politicamente correcto do “boa noite a todas e todos” que pinta de racista para baixo quem ouse fazer uma piada que comece por “um cristão, um judeu e um muçulmano entram num talho”. Pensem no que dá quando toda a gente que pensa que o salário mínimo pode ser mau para o emprego ou para os menos qualificados é carimbada de esclavagista. Ou pensem no que possivelmente pode correr mal quando parte da estratégia política é simplesmente interromper sessões, reuniões, debates onde falam aqueles que assinalámos como indesejáveis para “grandolar” e não permitir que terceiros tenham a seu liberdade de expressão por serem dos maus. 

Quando o “debate” político passa maioritariamente por chamar fascistas, racistas, misóginos, esclavagistas, homofóbicos,colonialistas, opressores, neo-feudalistas ou eu sei lá o quê ao adversário em vez de de facto assumir que há opiniões diferentes das nossa que podem ser honestas e válidas, então podem crer que o Trumpismo se vai espalhar e com muito sucesso. Tomem a palavra deste fascista. 
P.S.: E já agora podemos assumir que as migrações deste século trazem legítimos medos de perda de emprego (de que discordo) ou assimilação cultural (de que não discordo totalmente) à maioria das pessoas e que responder “és um racista se discordas da nossa solução la-la-land” só dá gás a quem reconhece e trabalhar esses medos e aparenta ter uma solução?