Austeridade politicamente correcta

Na passada terça-feira, dia 12 de Abril, o convidado do programa “Olhos nos Olhos” (TVI24, video) foi João Ferreira do Amaral. A sua intervenção inicial incluiu o seguinte (meu destaque):

“Do meu ponto de vista penso que não [haverá futuro dentro do euro], ou seja, nós precisamos de um choque de crescimento económico porque com estes crescimentos económicos da ordem de 1%-1,5% não conseguimos, de facto, enfrentar os problemas estruturais graves que temos. E eu não creio que seja possível um choque de crescimento dentro da Zona Euro. A Zona Euro tem demasiadas limitações em termos de política monetária e política orçamental que não permitem que haja um choque, uma dinâmica induzida para fazer crescer a economia. É preciso dar incentivo ao investimento, em particular investimento em sectores de bens que são susceptíveis de exportação ou de substituição de importações e isso a política cambial, neste momento, é crucial.”

Não são declarações novas para o professor do ISEG. Sempre defendeu que Portugal não devia entrar no euro e, agora que lá está, é necessário organizar saída ordeira. Sobre isso escreveu dois livros. Um deles em conjunto com seu colega professor Francisco Louçã.

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Para este economista, a alternativa de desvalorização da moeda tem benefícios dificilmente alcançáveis por uma austeridade interna (que Governo Sócrates tentou aplicar com PEC1, PEC2, PEC3 e, depois de pedido de resgate, através do “Memorando de Entendimento”, tarefa que coube mais tarde ao Governo Passos Coelho). É verdade. Começa por ser não só politicamente correcta (maioria da população não percebe que a consequente subida de preços resulta daquela política estatal) mas também constitucional (corte de rendimentos via inflação não seria chumbada pelos juízes do Tribunal Constitucional).

Mas fica a dúvida: se esta política monetária agressiva é assim tão eficaz para resolver desequilíbrios orçamentais (é uma das medidas exigidas pelo FMI a países em dificuldades com moeda própria), porque razão, nos anos 80 do século passado, semelhante austeridade aplicada por Mário Soares não produziu melhores resultados no crescimento económico?

 

O valor do dinheiro

A maioria dos políticos gostaria que fosse mais fácil criar dinheiro. Porque quanto mais fácil for criar dinheiro, mais liberdade de acção os governos têm. Desde há séculos que um dos grandes objectivos na organização do Estado é a limitação do poder. Ora, o dinheiro é a grande arma dos povos nesta luta. Quanto maior o seu valor, maior as nossas defesas. É por isso que as ideologias que defendem uma maior intervenção do Estado preconizam uma redução do valor do dinheiro, na exacta proporção da liberdade de acção que os governos procuram. Veja-se o socialismo, o comunismo e a extrema-direita. Veja-se o que Mariana Mortágua, Francisco Louçã, João Galamba, Tsipras ou Marine Le Pen  nos dizem da política monetária do BCE: que não chega, porque não desvaloriza suficientemente o dinheiro para que políticos como eles possam agir. Em nosso nome, mas tantas vezes, como tantas vezes sucedeu, contra nós.

O meu artigo hoje no Diário Económico é sobre este tema.

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Que se passa com o Deutsche Bank?

As acções do Deutsche Bank estão em queda: -9.56% intraday, e a queda acumulada dos últimos 3 meses é quase de 50%.

Esta imagem foi retirada no início da escrita deste artigo. Por essa altura a desvalorização intraday era de ~7%. No final do artigo já ia em 9.56%.
Esta imagem foi retirada no início da escrita deste artigo. Por essa altura a desvalorização intraday era de ~7%. No final do artigo já ia em 9.56%.

Mais grave ainda, os CDSs das obrigações a 5 anos do Deutsche Bank estão em trajectória ascendente — à semelhança de Portugal, sinaliza que o mercado está a avaliar como cada vez mais provável o default das obrigações. As CoCos a 6% do DB (obrigações que se convertem automaticamente em capital caso vençam) também estão em valores recorde.

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Isto não é de agora. Em Abril de 2013, o zerohedge já tinha alertado para o elefante na sala: o Deutsche Bank era, já então, o banco com a maior quantidade de derivados no seu balanço. A imagem é ilustrativa: 16x o PIB alemão, 5x o PIB europeu.

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A história não se fica por aqui. Recordemos o que aconteceu nos últimos 15 meses:

  • Abril de 2014, o DB é forçado a aumentar em 1.5 mil milhões o rácio Tier 1
  • Maio de 2014, o DB vende 8 mil milhões de stocks com um desconto de 30%. O aumento de capital repentino levantou suspeitas
  • Março de 2015, DB falha nos stress tests
  • Junho de 2015, S&P baixa o rating do DB para BBB+, ligeiramente acima de lixo.
  • Janeiro de 2016, DB regista perdas de 6.7 mil milhões de Euros (sensivelmente o défice de Portugal num ano)

A tudo isto junta-se a reversão, ainda que ténue, da política monetária do Fed, que causou já um inflow de capitais para os EUA bastante significativo, e que fez o preço das acções e das obrigações baixar na Europa — acções e obrigações que o Deutsche Bank tem no seu balanço. Mais grave ainda, Mario Draghi anuncia que o BCE poderá reforçar os estímulos, aumentando ainda mais o fosso entre USD e EUR, e, com isso, a exposição da banca europeia, que sofrerá uma fuga de capitais.

Quem tem pára-quedas?

Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, ontem em entrevista à SIC Notícias (video):

Bruxelas chumbou o orçamento de França, chumbou o orçamento de Itália, chumbou o orçamento de Espanha e portanto a Comissão Europeia está numa deriva de destruição das economias e portanto cabe aos países e aos governos dos países serem claros na defesa da economia e emprego desses países.

A preocupação não deve ser a Comissão Europeia mas, sim, a agência de notação financeira DBRS. Talvez o inglês técnico dos deputados e governantes do Partido Socialista não seja o melhor para chegarem, rapidamente, ao entendimento de que aquela agência espera o cumprimento das regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento, conforme relembra João Caetano Dias:

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Em Novembro do ano passado, a DBRS manteve o rating da dívida pública portuguesa um patamar acima de lixo, o que permitiu não só aos bancos portugueses usar tais títulos como colateral junto do Banco Central Europeu como, também, esta instituição proceder à sua compra no mercado secundário. A redução do rating (já a ser ponderada) seria, consequentemente, desastrosa para o financiamento de toda a economia portuguesa (pública e privada), elevando a probabilidade de novo pedido de resgate.

"Preikestolen" - Anna Bialkowska @flickr.com (creative commons)
“Preikestolen” – Anna Bialkowska @flickr.com (creative commons)

António Costa está, deste modo, “preso” entre a avaliação da DBRS e a teimosia ideológica da geringonça que, a ser contrariada, significará o início da queda do seu governo.

Vivemos numa época… (no mínimo) interessante. Cabe a cada um de nós não enfiar a cabeça na areia e preparar o nosso pára-quedas. Até pode ser que não seja necessário. Mas é sempre bom de ter à mão.

Oportunidade perdida

Tendo a concordar com o Ricardo Reis. Portugal está a desperdiçar uma oportunidade de ouro para continuar a fazer rollover da dívida pública emitida a taxas de juro bem superiores às actuais, substituindo-a por dívida emitida a maturidades de longo-prazo e com uma taxa de juro bem inferior, resultado do total esmagamento do prémio de risco e de liquidez por acção do BCE.

«Quase todos os colunistas acabam por abraçar causas. No último ano e meio, eu tenho insistido que o Estado português devia emitir mais, muito mais, dívida de longo prazo. Eu percebo que esta causa não tem o apelo de “soltem os prisioneiros” ou “salvem os pinguins”, mas com a nossa história de finanças públicas, esta causa provavelmente faz toda a diferença sobre se vamos ter outro resgate nos próximos anos.

[…]

Há outra explicação: o governo não quer pedir mais no mercado privado porque sabe que a subida na taxa de juro daria cabeçalhos nas notícias. Pedindo ao FMI pode contar com a ignorância dos comentadores que nos últimos dias louvaram a “restruturação da dívida ao FMI” como se pagar uma taxa de juro ruinosa, muito acima da alternativa de mercado, fosse um óptimo negócio. A causa desta coluna é pelo menos eliminar esta segunda hipótese.»

Casal da Eira tinto

kafka2Um gajo ao ler/ouvir o Messias que nos pastoreia não sabe se há-de rir se chorar. Esta última sobre o Banco de Portugal não é de taxista, é de atrasado mental após dois pacotes de Casal da Eira tinto.

O Messias propõe-se encontrar “um novo desenho institucional” seja lá isso o que for; queixa-se de uma putativa “dupla função” e de óbvias “insuficiências de governação”; que lhe falta “know how” (é ir a correr nomear o deputado João Galamba para Presidente do BdP, tem o know how necessário, presumo).

Ò Nossa Senhora! Vou contar um segredo ao nosso brilhante Primeiro Ministro que das duas três, ou tem andado escondido numa caverna ou é um calhau com olhos apesar do que julga a sra dona Fernanda Tadeu (inclino-me para esta segunda hipótese): a gente vive com uma moeda única partilhada com mais 18 países; em 1998 foi uma guerra tramada para conseguir criar o Banco Central Europeu que incluiu dividir o primeiro mandato do Presidente do BCE entre os preferidos de alemães e franceses; e, por último, quem manda é o euro e o BCE, o “desenho institucional”, a “função” e a “governação” é o BCE que decide. Ao Governo resta a consolação de nomear o Presidente do Banco central indígena, a fingir que manda alguma coisa.

Para ajudar, é nestas alturas que um gajo dá graças a Deus pelo euro e pelo BCE, o que o Messias demonstra com toda a clareza é a tentação dos políticos para se meterem com a moeda e assuntos dos quais não sabem nada e de caminho entalarem-nos forte e feio. A manipulação da moeda é um clássico da acção governativa ao serviço dos seus próprios interesses com o prejuízo dos cidadãos. Não fosse por outra razão, o euro e o BCE protegem-nos dos desmandos do Costamessias e afins e é muitíssimo bem vindo.

Também aqui mas mais colorido

Depósitos a salvo, contribuintes não

Público:

“O que acho que é muito importante transmitir, relativamente àqueles que têm as suas economias e poupanças depositadas no Banif, quer no continente, quer nas ilhas, quer nas comunidades portuguesas, é que, independentemente do seu montante, estarão integralmente garantidos os montantes dos depósitos. E isso está assegurado (…) mas a garantia que eu posso dar aos contribuintes não é a mesma que posso dar aos depositantes.”, afirmou António Costa

 

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Já estava na hora de acabarmos com a reserva fraccionária. Não?