Obviamente

Marcelo: nova administração da CGD tem obrigação de apresentar declaração de rendimentos

O “clientelismo de massa” da “geringonça”

As três condições deste governo. Por Rui Ramos.

Os actuais governantes esperam controlar o país através do que podemos chamar um “clientelismo de massa”, que compreende o funcionalismo público, os pensionistas de maiores rendimentos e ainda os banqueiros do Estado – uma espécie de “chavismo rico”. A austeridade foi redistribuída de modo a dar aos rentistas do regime uma sensação de segurança, à custa de todos os contribuintes e da degradação dos serviços públicos. É a segunda condição deste governo: a passagem do Estado social ao Estado clientelar.

IEA report: Abolish twenty taxes and go for growth

Abolish 20 taxes and set 15% flat rate of income tax in UK, says report

National insurance, business rates, stamp duty, the TV licence fee and excise duties on alcohol and tobacco should be among 20 taxes abolished by the government, a free market thinktank has said.

A report published by the Institute for Economic Affairs has proposed a 15% flat rate of income tax and a VAT shakeup as part of a plan that would significantly reduce the size of the state.

Relatório completo: Abolish twenty taxes and go for growth, says IEA

Na página depois da austeridade não há colonoscopias

Médicos pressionados de modo “imoral” para não solicitarem colonoscopias

O presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) denunciou esta quarta-feira uma “imoral pressão de índole económica” sobre os médicos de medicina geral e familiar para que estes sejam “restritivos na solicitação dos exames necessários, nomeadamente colonoscopias”.

A propósito do Dia Europeu de Luta Contra o Cancro do Cólon, que se assinala quinta-feira, José Cotter alertou para o facto de estas “restrições” trazerem “consequências graves para os cidadãos, uma vez que não permitem o diagnóstico atempado da doença”.

(…)

Em Portugal, o cancro do cólon e do reto é o que mais mortalidade provoca em Portugal. Só em 2014, houve sete mil casos da doença, com a mortalidade a cinco anos a ser de 50%.

Alojamento local e direito de propriedade

O meu artigo hoje no ‘i’. Nova Iorque vai restringir o arrendamento de curta duração. Barcelona e Amesterdão seguem pelo mesmo caminho e Lisboa não lhes ficará atrás.

Não é segredo para ninguém que o arrendamento de curta duração cria alguns problemas de vizinhança; aos proprietários dos outros imóveis no mesmo prédio.

Lamentavelmente, a solução não vai ser encontrada entre os interessados, mas imposta pelo Estado em nome do mais forte.

Alojamento local e direito de propriedade

O Estado de Nova Iorque aprovou uma lei que impõe grandes restrições aos arrendamentos de curta duração. Esta decisão é da máxima importância porque influenciará outros Estados dos EUA, bem como outras cidades, como Amesterdão e Barcelona, que também se inclinam para restringir este tipo de arrendamento aos turistas que visitam estas cidades.

Alguns dos argumentos são as queixas dos vizinhos relativas à segurança, com as constantes entradas e saídas nos prédios de pessoas diferentes todas as semanas, e o ruído que esses turistas provocam nos apartamentos em que estão durante um curto período de tempo.

Lisboa tem beneficiado com esta actividade e a polémica estará em cima da mesa dentro de pouco tempo. É que se o alojamento local é uma excelente forma das pessoas aumentarem os seus rendimentos, e a livre utilização da sua propriedade é também um direito fundamental e inalienável, os outros proprietários também têm direito ao silêncio e à segurança.

Custa-me que um Estado diminua um direito que é a base de uma sociedade democrática e liberal. O desafio, tanto jurídico como de respeito pela propriedade privada, é conciliar esses direitos através do seu próprio exercício. Na verdade, os condomínios podem impedir o alojamento local. Os proprietários devem respeitar os direitos de propriedade dos demais. Infelizmente, em vez de uma harmonia entre direitos de propriedade que se chocam, começamos a assistir à imposição arbitrária de uma vontade única e prepotente. Nova Iorque pode dar o exemplo, mas no mau sentido.

Familiares de funcionários públicos terão de pagar para ter ADSE

Falta ainda conhecer os pormenores mas, à partida, trata-se de uma medida justa e que contribuirá para a sustentabilidade e autonomia da ADSE: Familiares de funcionários públicos vão ter de pagar para ter ADSE

Atualmente, os familiares dos funcionários públicos que quisessem beneficiar da ADSE não tinham de fazer qualquer desconto, fazendo-os apenas os próprios trabalhadores do Estado. Agora, estas regras mudam e para poderem beneficiar da ADSE, os familiares vão ter de pagar.

Compreender o putinismo LX

Soldado desconhecido ou para a famíla e amigos: Maxim Kolganov,
Soldado fantasma ou  Maxim Kolganov, para a famíla e amigos. Fotografia Reuters/Maria Tsvetkova.

Na Ucrânia ficaram conhecidos como os homens verdes, simples agricultores com óbvios problemas de orientação. Na Síria, passaram a soldados fantasma.  Só ao alcance de uma santa mãe pátria.

Ghost soldiers: the Russians secretly dying for the Kremlin in Syria

Projecção e execução, alhos e bugalhos

É digna de nota artística a capacidade da máquina de propaganda do PS para criar fumaça e arremessar umas quaisquer confusões técnicas, desviando por completo do cerne da questão: o orçamento da educação vai mesmo ser reduzido. Já um pouco mais preocupante é ver alguns jornalistas a ir atrás do engodo, como foi o caso do Paulo Baldaia.

A contenda é simples: se o OE2017 deve comparar com as projecções iniciais do OE2016 ou com a execução orçamental efectiva. É inacreditável que se discuta isto. Para ilustrar o ridículo, imagine-se que queremos atirar uma pedra. Inicialmente estimamos que ela irá cair num determinado local. À medida que a pedra percorre o caminho teremos uma ideia mais apurada de onde poderá cair. Logo, se quisermos calibrar melhor a força a empregar no lançamento, comparamos com a actual trajectória, e não com a trajectória que imaginávamos que a pedra iria seguir.

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A discussão com a projecção vs execução do Orçamento do Estado é precisamente esta. Como é óbvio, a previsão que se faz com 70% do caminho percorrido (execução) é menos sujeita a incertezas do que a projecção inicial do Orçamento do Estado. E isto nada tem a ver com contabilidade pública ou nacional, nem com óptica de caixa ou compromissos, nem com alhos ou bugalhos. Ambas são previsões, sendo que uma tem menos incerteza do que outra.

Ora, se as projecções do OE2016 estimaram mal a receita ou a despesa, o novo OE2017 aumenta ou reduz a despesa sempre em comparação com o valor executado, e não com o valor estimado. Aliás, se assim não fosse, pela imagem em supra iríamos usar mais força para projectar a pedra, quando provavelmente deveríamos usar, porque a execução assim o indica, menos força.

Se o governo orçamentou mal a despesa na educação para 2016, e se esta foi superior ao previsto, o novo orçamento tem de ser trabalhado em cima do valor executado, porque este dá uma ideia mais rigorosa da despesa efectiva.

***

O Paulo Ferreira foi ao baú dos OEs para verificar qual é a prática recorrente. Surpresa: comparam sempre com a execução, e não com a projecção inicial do orçamento.

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Novo recorde de dívida pública

Dívida pública volta a aumentar em Setembro para novo recorde

Há sete meses consecutivos que a dívida pública portuguesa aumenta, encontrando-se em níveis nunca vistos. No espaço de um ano a dívida aumentou em mais de 12 mil milhões.

Post-Brexit tariffs would primarily hurt UK consumers

Repeat after me: Post-Brexit tariffs would primarily hurt UK consumers – not European exporters. Por Ryan Bourne.

Tariffs primarily hurt the consumers of the country imposing them on imported goods. That is such an important insight that it deserves reiterating, nay, repeating ad nauseam until everyone understands it: *tariffs hurt consumers in the importing country*.

Pós-Graduação em Medicina Social – ICS-UCP

Estão abertas as inscrições para a Pós-Graduação em Medicina Social organizada pelo Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica, na qual serei responsável pelo módulo de Ciência Política e integro com muito gosto a Comissão Científica.

Mais informações aqui.

A bem da república

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No dia em que Relvas se demitiu, Nuno Félix desafiou o Ministério Público e os senhores jornalistas para investigarem todas as licenciaturas dos políticos, colocando-se à disposição dos investigadores. Tudo em prol da república tão bem representada por ele próprio.

Isto não tem preço.

Imagem nacionalizada ao Rui Rocha.

Crato, rua!

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Chefe de gabinete inventou dois cursos e o ministro da Educação segurou-o. Demitiu-se agora.

Em Abril, o ministro Crato deixou cair o anterior Secretário de Estado da Juventude que quis exonerar o amigo do ministro.

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Adenda: No consulado de Sócrates, Nuno Félix recebeu 98.277 euros por serviços na área da comunicação, por ajuste directo.

 

Uma esquerda que não sente

O meu artigo no Jornal Económico.

Uma esquerda que não sente

O Governo desistiu do crescimento económico. Costa já deve ter percebido que não é possível com despesa elevada e impostos altos. O objectivo, agora, é que o défice agrade Bruxelas e cale o PSD, mesmo que para isso adie pagamentos aos fornecedores, corte nas escolas e nos hospitais. O Governo precisa de chegar às autárquicas com os números a bater certo, mesmo que tudo esteja errado.

Mas o Governo não desistiu do crescimento económico apenas para agradar Bruxelas. Fê-lo também para satisfazer o seu eleitorado. O principal propósito do Estado, nesta legislatura, é pagar salários. Sem salários, nem pensões, não há votos e o Governo cai. E se a economia não cresce, porque descer a despesa implica reduzir salários, é necessário cortar nos serviços. Veja-se o Ministério da Educação, cujo orçamento para 2017 cresce 179,4 milhões de euros, mas as despesas previstas para salários dos professores e funcionários de escolas aumentam 188 milhões. Onde é que se vai buscar a diferença?

Costa está a paralisar o país. Por ora, a maioria está satisfeita porque beneficia dessa estagnação. Mas nenhuma sociedade vive desta forma.

Pouco antes de falecer, Michel Rocard concedeu uma entrevista à Le Point, na qual qualificava a esquerda francesa como a mais retrógrada da Europa. Não se lembrou da portuguesa, mas as críticas feitas a uma aplicam-se à outra. Dizia o ex-primeiro-ministro francês que a esquerda perdeu a cultura económica e o diálogo social. Profundamente marxista, com uma análise racional da produção, a esquerda de hoje quer destruir o capitalismo e desconfia da economia de mercado. Rocard foi um socialista moderado, crítico do arcaísmo de Mitterrand, e intelectualmente próximo de António Guterres, um primeiro-ministro fraco que agora o PS aplaude mas que traiu em 2001, numa altura em que o PS já se encontrava no processo de radicalização que agora presenciamos.

A nova esquerda socialista perdeu a dimensão cultural dos tempos de Rocard. Alicerçada no ódio promove a desconfiança, seja à Europa, seja à Alemanha. É sem qualquer problema que invoca um passado com 70 anos para destruir o que a Europa tanto esforço fez, não para esquecer, mas para não repetir. Amaldiçoa a globalização, esse processo de integração económica iniciado pelos portugueses, que tem tirado da miséria tanta gente por esse mundo fora e que Vargas Llosa, que ainda este mês esteve em Lisboa, qualificou de movimento entusiasta que acabou com o nacionalismo responsável por tantas mortes.

Apostada no consumismo, a esquerda reduziu o Estado social ao pagamento de salários e de pensões, esperando que os que votam em si gastem e reduzam a sua existência a essa satisfação efémera. Esta é uma esquerda que não sente. E como o dinheiro não nasce das árvores, uma massa de gente sem fito na vida estará pronta a pôr-se na mão de meia dúzia de populistas que andam por aí confusos entre governar e mandar bocas.

Portugal vs. Espanha

O meu artigo hoje no ‘i’.

Portugal vs. Espanha

Finalmente, a Espanha poderá ter um novo governo. Com a queda de Pedro Sánchez, é provável que o PSOE se abstenha na tomada de posse do novo governo de Rajoy. A acontecer, Portugal e Espanha seguirão trajectórias totalmente distintas com resultados que, no devido tempo, deverão ser comparados.

As diferenças não se cingem ao facto de os socialistas espanhóis terem respeitado os resultados eleitorais no país vizinho, o que a esquerda portuguesa quer esquecer mas que deve ser continuamente lembrado para memória futura. Não se limitam ao crescimento económico espanhol, que disparou no último ano, após as medidas de austeridade que o PP implementou em Espanha e que não foram revertidas por um governo de esquerda.

A partir do momento em que Rajoy forme governo, assente em conversações com um PSOE moderado e nas reformas acordadas com os Ciudadanos do centro, qualquer comparação entre as escolhas feitas em Espanha e as seguidas em Portugal é legítima. Obrigatória. A economia portuguesa estagnou.

A esquerda, que durante anos alertou para a espiral recessiva da austeridade e punha ênfase no crescimento, aposta tudo no controlo do défice. Nem que para isso pare a economia.

O Orçamento para 2017 não passa disso mesmo. Enquanto revertemos o esforço com um encolher de ombros, a Espanha, que tem um excedente da balança comercial, colhe os frutos dos sacrifícios. Cada país escolheu o seu caminho. As diferenças já são visíveis e daqui a uns anos cá estaremos para as analisar em detalhe.

As liberdades sindicais no socialismo real

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Exército vai ocupar empresas que aderirem à greve na Venezuela

O vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela, no poder, anunciou na quarta-feira que o exército tomará o controlo das empresas que se juntarem à greve geral convocada pela oposição para sexta-feira.

“As desgraças causadas a este pobre país pela sua divisão vão continuar, pois a operação não está ainda concluída”

moldova-flag-large1 O pedaço de território que hoje conhecemos como Moldávia já teve quase tantos nomes quantos os povos que o dominaram. Hunos, tártaros, godos, búlgaros, magiares, polacos, lituanos, otomanos, romenos, russos que chamavam a região de Bessarábia, alemães, russos que se chamavam a si próprios de soviéticos, todos andaram por lá até em 1991 o país ter recuperado a independência que já tivera por cerca de dois séculos na “Idade Média”. E, mesmo independente, a Moldávia continua a ser uma caldeirada de etnias diferentes, desde a maioria “romena” à minoria “russa”, passando por “búlgaros”, “turcos” e “ucranianos”, que falam línguas diferentes e não se consideram concidadãos de um mesmo país.

No próximo domingo, esta gente vária vai às urnas para escolher um novo presidente, podendo estar em jogo o futuro da estabilização democrática do país e a sua aproximação à União Europeia. Anos e anos de turbulência, crise económica e escândalos de corrupção levaram a uma enorme desilusão e frustração da população com as forças pró-europeias que assinaram o Acordo de Associação em 2014, que coloca à frente das sondagens e à beira de chegar ao poder Igor Dodon, um economista de 41 anos candidato do Partido Socialista pró-russo, que defende que “o renascimento da nação moldava” só será possível através “do restabelecimento dos seus laços e relações com a Rússia”, ou seja, mantendo-se fora da NATO e da EU, funcionando como um satélite do regime de Putin. Maia Sandu, uma antiga ministra que promete lutar contra a corrupção e os “oligarcas”, apoiada quer por novos partidos como o “Dignidade e Verdade” de Andrei Nastase, um líder dos movimentos de protesto contra a corrupção que têm abanado a política moldava nos últimos anos, quer pelo Partido Liberal Democrata, parte integrante da “Aliança pela Integração Europeia” actualmente no governo, parece não ter hipóteses de o derrotar.

Entalada entre a Roménia e a Ucrânia, a Moldávia sempre foi uma espécie de ponte terrestre entre os Cárpatos e o Mar Negro, servindo de passagem para uma qualquer invasão dos Balcãs proveniente de Leste e de um ataque à Rússia vindo do centro da Europa, e hoje, a proximidade do porto de Odessa, da Crimeia e o facto de acolher uma rede de gasodutos e oleodutos que ligam o petróleo e o gás russos à Europa e à Turquia dão à Moldávia uma importância que não deve ser menosprezada, que pode ser tudo de criminoso a facínora mas certamente não é parvo, não comete esse erro. Como é seu hábito, não se cansa de interferir na vida política moldava, criando ou alimentando o caos que a caracteriza.

Em 2009, o então presidente Vladimir Voronin, um antigo agente do KGB fundador do Partido Comunista moldavo, foi afastado do poder por uma série de manifestações populares de protesto contra a fraude eleitoral que terá patrocinado para dar ao seu partido uma nova maioria parlamentar. Como na Ucrânia, a população de etnia russa, base de apoio de Voronin, viu na “revolução” a acção de “fascistas” apoiados pela EU. Foi aí que entraram em acção “os dois Vlads”, Plahotniuc e Filat, etnicamente romenos mas com laços na Rússia e com dinheiro suficiente nos cofres para comprarem televisões, bancos, hotéis, casinos, “clubes” nocturnos e claro, partidos, votos e lealdades, controlando os destinos do país. Em 2014, Filat viu-se envolvido no “misterioso” desaparecimento de mil milhões de euros (cerca de 12,5% do PIB moldavo) dos bancos do país para contas offshore. Por “coincidência” esse envolvimento foi revelado por uma série de escutas realizadas e tornadas públicas por um tal de Renato Usatîi, antigo membro da máfia russa (na exacta medida em que alguém pode ser um ex-membro da máfia russa e permanecer vivo, ou seja, zero) que criou, sob o patrocínio e financiamento de Putin, o Patria, um partido pró-russo radical, entretanto ilegalizado.

Não admira por isso que 80% dos moldavos digam não acreditar no “Estado de direito”. E como nota Robert Kaplan, “democracias fracas podem ser mais úteis à Rússia do que ditaduras fortes”, pois “oferecem aos russos muitos políticos locais para subornar”. É uma oferta que Putin e a sua quadrilha não desdenha: patrocinaram Vorodin, patrocinaram Usatîi, e agora patrocinam Dodon, dando-lhe dinheiro para a campanha eleitoral e para o suborno de juízes, funcionários públicos, caciques locais e todo o habitual rol de funções necessários para se comprar uma eleição e governar um estado corrupto. Para piorar as coisas, a pobreza do país torna-o particularmente vulnerável à chantagem económica russa: a mesma rede de gasodutos e oleodutos que lhe dá importância geoestratégica sinaliza a sua dependência energética da Rússia, e como dizia a Kaplan um político local, a Moldávia não se pode dar ao luxo de ver a Rússia cortar o fornecimento de gás natural ao país ou deixar de comprar os seus produtos agrícolas.

Acima de tudo, Putin explora bem as divisões étnicas no seio da Moldávia. Enquanto muita gente concorda com o antigo primeiro-ministro Ion Sturza quanto à ideia de que a Moldávia só poderá sobreviver e prosperar como parte integrante da Roménia, e consequentemente da UE e da NATO (não é em vão que Dodon pretende “proibir por lei o unionismo em todas as suas formas”), não falta quem veja “nos romenos” uma ameaça e um regresso dos “fascistas” que roubaram terras e bens no século XX, principalmente nas regiões onde a minoria falante de russo é predominante, e para onde Putin envia os seus lacaios para se reunirem com os “notáveis” locais para os exortar a fazerem mais exigências de autonomia relativamente ao estado central, fomentando o conflito e a divisão interna: na Gagauzia, região onde vive uma população de etnia turca mas de língua russa que sonha com uma “Grande Gagauzia” independente, ou pelo menos tão independente como as regiões que a Rússia consegue tirar aos seus vizinhos sob a capa da “autodeterminação” têm conseguido ser na Ucrânia ou na Geórgia, conseguiram promover (em 2014) um referendo em que 98% dos eleitores votaram a favor da integração na união aduaneira russa e que deram origem a processos semelhantes noutras regiões do país; e na Transdnistria, a Rússia mantêm há décadas um protectorado na prática independente da Moldávia, onde passaportes soviéticos ainda são válidos e tropas russas estão permanentemente estacionadas, ameaçando quer a Moldávia quer a Ucrânia.

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No fundo, a Rússia faz na Moldávia aquilo que faz um pouco por toda a sua vizinhança. A quantidade de confusões em que a Rússia se tem envolvido no plano internacional pode passar uma imagem de poderio e “ressurgimento”, mas na realidade espelha apenas a fraqueza do país e do regime. À desintegração do império russo vestido de vermelho nos anos 90, com a perda dos países do Pacto de Varsóvia e a independência das repúblicas sob o seu domínio, seguiu-se a aproximação destas à UE e à NATO. Mais tarde, a transformação do Estado russo numa Máfia operando no sector energético permitiu à quadrilha putinista enriquecer mas deixou-a à mercê das descidas de preços, que diminuíram o peso das suas carteiras e colocam o regime à beira do colapso: em recessão há quase dois anos, o regime depende do sector energético para sobreviver pois depende da sua capacidade de encher o bolso dos aparelhos político e repressivo em troca da sua lealdade, especialmente quando a população tem visto a moeda russa perder força à medida que Putin manda imprimir cada vez mais dinheiro para tentar esconder o facto de que ele vale cada vez menos, e os preços dos bens disparam em resultado desse truque e o desemprego segue o mesmo caminho. Se juntarmos a esta percepção de fraqueza externa e interna do poder do Kremlin a profunda crise demográfica do país, percebe-se que a Rússia se sinta ameaçada no presente e com receio de confrontos no futuro, até porque esta fraqueza conjuntural se limita a acompanhar a fragilidade e sentimento de ameaça históricos do país: sendo um país periférico, geograficamente distante do coração do continente europeu, com um inverno frio e sem um porto de águas quentes, ficando assim isolado do circuito do comércio marítimo por vários meses todos os anos, com a maior massa continental do mundo (o que o torna difícil de defender) e com uma população com uma enorme variedade étnica (o que, juntamente com a dimensão territorial, o torna difícil de governar), a Rússia não consegue, hoje como no passado, fugir a um modelo de governo autocrático e, especialmente, externamente agressivo.

É fácil de perceber porquê. Em primeiro lugar, o conhecido carácter profundamente nacionalista da população russa torna-a presa fácil para a exploração que Putin faz da sua política externa agressiva como arma de propaganda interna, conseguido assim granjear o apoio que o desastre económico a que tem presidido não lhe permitiria obter. Em segundo lugar, porque depende consideravelmente das receitas do sector energético para se enriquecer a si própria e para subornar o maior número de gente possível (na Rússia e no estrangeiro), a elite do Kremlin vive obcecada com a obtenção e manutenção do controlo de regiões estratégicas para o sucesso desse sector, e com o controlo de empresas do sector energético noutros países, para neles exercer “influência” (vulgo “chantagem”): a Lukoil controla refinarias na Ucrânia, na Bulgária, na Roménia, e detém participações nas dos países balcânicos, e a Gazprom, como Deus, está por todo o lado, desde as competições europeias de futebol à companhia petrolífera da Sérvia, passando pela nossa Galp, a austríaca OMV ou a alemã Rurhgas. E finalmente, Putin percebe quantas mais crises internacionais criar ou ajudar a agravar, ou quanto maior for o conflito político interno no seio dos países seus rivais, mais dificuldades lhes cria, ao dividir as suas alianças ou ao fragilizar o seu apoio político e estabilidade internos. É por isso que, por exemplo, emprestou 9, 4 milhões de euros à Frente Nacional de Marine Le Pen em França; ou na Ucrânia, Eslováquia ou Polónia, divulgou escutas secretas de políticos e emails extraídos de “hacks” aos partidos; ou, na Holanda, promoveu o referendo sobre o acordo comercial da UE com a Ucrânia e participou activamente na propaganda contra a sua aprovação; ou, na Ucrânia, patrocinou e guiou (com pessoal político e paramilitar) forças políticas pró-russas e, claro, anexou a Crimeia (que lhe dá o acesso a portos de águas quentes que a geografia lhe nega); e é por isso que, nos Estados Unidos, promoveu o “hack” aos emails de Hillary Clinton e ao Partido Democrata, e em geral, promove a agenda de Trump (que tem pessoal político que trabalhou na Ucrânia com os fantoches que Putin lá colocou) através da Russia Today e da Sputnik News, num esforço (bem sucedido: veja-se a forma como Trump, repetindo a prática das forças apoiadas pelo Kremlin em inúmeros países, não pára de dizer que as eleições estão “feitas”, e muita gente parece acreditar apesar de ser algo que está longe de ser verdade) de descredibilizar o processo democrático americano, com a “quinta de trolls” russa a inundar “os twitters e os facebooks” (como diria Paulo Futre) com conteúdo falso, “semeando a dúvida e a paranoia, e destruindo a possibilidade de usar a internet como um espaço de debate”, ao criar “uma atmosfera de ódio que cheire tão mal que as pessoas normais não lhe queiram tocar”; é por isso que, na Síria, vai mantendo Assad no poder para defender interesses estratégicos como o acesso ao porto mediterrânico de Tartus, mas não tem interesse em lhe garantir uma vitória definitiva, prolongando a guerra e assim a instabilidade na região e, consequentemente, as dificuldades que os seus rivais aí enfrentam, para além de produzir cada vez mais refugiados a caminho da Europa, fomentando divisões e conflitos na ordem política interna dos países da UE e da NATO.

Em 1846, o geógrafo e escritor alemão Johann Georg Kohl escreveu sobre a então Bessarábia que “as desgraças causadas a este pobre país pela sua divisão vão continuar, pois a operação não está ainda concluída”. 170 anos depois, o nome pode já não ser o mesmo, mas o panorama parece não ter mudado muito. Talvez por ser um país cuja existência muitos portugueses só conhecem porque ouviram dizer que a empregada do café que frequentam veio de lá, ninguém ligará nada às eleições de dia 30. Os telejornais não dirão nada delas, as rádios não gastarão um segundo com o assunto, e se talvez os jornais diários dediquem umas escassas linhas a anunciar o resultado, ninguém as lerá. Mas talvez merecessem a atenção que não vão receber. Afinal, é também um pouco do nosso futuro que estará em causa.

Compreender o putinismo XLVIII

Um bom resumo dos #SurkovLeaks.

Breaking Down the Surkov Leaks

What the leaked inbox of the Kremlin’s “Grey Cardinal” tells us about the war in the Donbass

Classe e estado da geringonça

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Deputado do PS recomenda que ministro se cale e não faça “figura de miúdo”.

Quatro cadeiras, zero mesas.

 

objetivo do governo: promover a mendicidade

beggarA Nancy Mitford escreveu com graça (e já referi isto isto umas tantas vezes) que as ternuras pelo comunismo eram uma doença, com o nome catita de ‘pull to the east’. Cada vez mais me convenço que tem razão. Não pode ser de outro modo: quem propõe uma barbaridade destas só pode ser doente, clinicamente nuts.

Em resumo. Estas criaturas doentes e doentias que nos governam primeiro impedem por mais cinco anos os senhorios de ganhar dinheiro dignamente através de uma atividade legítima: arrendar a sua propriedade a outros e usufruir do rendimento das rendas. Depois aumentam-lhes o IMI (quantas casas das colinas das zonas antigas de Lisboa ou do Porto, arrendadas por meia dúzia de euros, não terão vistas fabulosas e boa exposição solar?). Quando já quebraram os proprietários – à conta de os impedir de obter rendimentos por si próprios e do assalto via impostos – dão-lhes então umas migalhinhas de dinheiros (daqueles que, nas imortais palavras de Elisa Ferreira, são do estado, pelo que são do PS) para fingirem que têm boas intenções. Deixar liberalizar o mercado do arrendamento e subsidiar quem comprovadamente não pode pagar as rendas que subiram – isso não lhes passa pela cabeça, que assim tinham menos gente controlada através da distribuição de dinheiro.

Estas pessoas doentes que nos governam, decorre da sua ideologia, não conseguem tolerar-nos um modo de vida diferente de sermos todos mendigos do estado.

Parabéns à república popular da Venezuela

Democratas populares ao serviço de Maduro tomam conta da Assembleia Nacional. Imagem: AFP Photo/Juan Barreto)
Democratas populares ao serviço de Maduro tomam conta da Assembleia Nacional. Imagem: AFP Photo/Juan Barreto)

Pelo golpe de estado. Outro caminho é possível e com resultados excelentes dirão os alucinados socialistas.

Tesourinhos

Querido & Sócrates a inventarem a internet e a blogosfera.
Querido & Sócrates a inventarem a internet e a blogosfera.

Deprimentes e hilariantes q.b.

Vale a pena recordar José Sócrates a participar na BlogConf – uma conferência de bloggers, realizada na LX Factory em Lisboa, graças ao empenho do Paulo Querido (sem gola alta) e o protagonismo esclarecido do então Secretário-Geral do PS e dos bloggers que participaram num evento de cariz inovador, num local bonito e com a garantia de qualidade que só o dinamizador Querido é capaz de garantir.

Aproveito a oportunidade para agradecer-lhes, passados que foram alguns anos, os bons momentos presentes em todos os 27 vídeos disponíveis do evento.

A lista de paricipantes é extensa mas destaco, a título meramente exemplificativo, as participações dos bloggers Carlos Santos, Hugo Mendes, João Gonçalves, João Mário Silva, Luís Novaes Tito, Maria João Pires, Tomás Vasques, Tomás Belchior e Rodrigo Moita de Deus.

Este post não teria sido possível sem a oportuna lembraça da Zazie, na caixa de comentários do meu post A confiança no mundo de Sócrates.

http://videos.sapo.pt/socrates2009/playview/7

O embuste orçamental

O meu artigo desta semana no Observador: O embuste orçamental.

A discussão sobre a possível aplicação de condições de recursos é uma que vale a pena ter mas o mais saliente na actual conjuntura é que o mesmo governo que penaliza pensões mínimas aumenta com este Orçamento substancialmente os rendimentos auferidos por uma pequena (mas influente) minoria de pensionistas, em linha aliás com a decisão de eliminar os tectos salariais aplicados pelo anterior governo aos gestores da CGD.

A confiança no mundo de Sócrates

Na edição do Correio da Manhã de hoje (link disponível para assinantes) , são divulgadas escutas de José Sócrates com Domigos Farinho, o escritor fantasma do sucesso editorial A Confiança no Mundo da autoria do antigo Primeiro-Ministro  de Portugal.

Não sendo propriamente uma surpresa inimaginável, destaco as capacidades de José Sócrates no domínio técnico das ferramentas dos programas de processamento de texto. Resta a dúvida: a versão estaria em inglês técnico?

Publica o CM:

 “6 de Novembro de 2013

José Sócrates diz que tem um texto de email para copiar para um documento e trabalhar sobre ele…

Domingos Farinho explica como fazer. José sócrates pergunta como pode ver quantos caracteres o texto tem.

Domingos Farinho explica.”

Quase um ano depois, a 20 de Setembro de 2014:

Domingos Farinho diz que está a escrever a introdução, que conta ter pronta no final do mês…para José Sócrates estar descansado, quando voltar deve ter coisas para mostrar.”

Sobre esta temática editorial, é de leitura imperdível a crónica de José Diogo Quintela, O Farinho ampara.

Farinho é um Cyrano de Bergerac, o que faz de Sócrates os Milli Vanilli da ciência política.

Ainda no reinado Socrático, uma nota para  a notícia do Sol, Sócrates pagava blogue para elogiar Governo e atacar ‘inimigos’. O blog Câmara Corporativa, tal como os seus upgrades patrulheiros Geringonça e Truques de Imprensa, não são fruto da obra individual mas do esforço colectivo bem pago. Basta passar os olhos pelos posts Anderen Mitteln e O ‘franchising’ Abrantes.

Compreender o putinismo XLVII

putin

Brincar aos alvos é um modo de ser e estar do regime de Vladimir Putin. Desta vez, a sorte coube à Finlândia.

(…)  He says Finland is facing intensifying media attacks led by Kremlin.

“We believe this aggressive influencing from Russia aims at creating distrust between leaders and citizens, and to have us make decisions harmful to ourselves,” he said. “It also aims to make citizens suspicious about the European Union, and to warn Finland over not joining NATO.”

Finland won independence during Russia’s revolution of 1917 but nearly lost it fighting the Soviet Union in World War Two. It kept close to the West economically and politically during the Cold War but avoided confrontation with Moscow.

Mantila, who is also the head of government communications, says Russian media last month reported on “cold-blooded” Finnish authorities taking custody of children from a Russian family living in Finland “due to their nationality”.

The Finnish government denied the reports, while declining to comment on an individual case due to the legal procedure. However, the story has been replicated hundreds of times in Russia over the past few weeks.

A report by Kremlin-led NTV said “even the locals call Finland a land of ruthless and irrational child terror.” (…)

Progressistas pela moral e contra os vícios

O meu texto desta semana no Observador.

‘Vejamos os religiosos do aquecimento global, por exemplo. E em minha defesa – antes que me excomunguem – digo já que sou bastante sovina, e poupada, no que toca a bens isentos de qualidades estéticas como gasolina e eletricidade, e que tenho uma forte paranoia com a reciclagem e reutilização de uns tantos materiais. Mas, lá está, falta-me o fervor religioso.

A incitação para que as populações se abstenham de consumir, um exemplo, costuma mergulhar-me na vontade de praticar vudu contra os detentores de tal opinião. Não (ou sim, mas de maneira diferente) que estejam preocupados ser mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no reino dos céus. Credo, os religiosos ambientalistas não se querem confundir com os religiosos católicos, que esses são ultamontanos e rústicos. Que proponham exatamente o mesmo é um mero pormenor. As motivações são muito mais nobres que essas tretas de não nos deixarmos escravizar pelos bens materiais. Os ecofanáticos defendem que se extermine o consumo (e, de caminho, o bem estar das populações) para poupar os recursos do planeta (estes religiosos nunca leram Malthus) e para não causar poluição com transportes de mercadorias.

Outro tipo de moralista, bem mais perigoso, é o purista sanitário. Pode-se praticar sexo à vontade, felizmente está estabelecido, e uma ou outra consequência para a saúde ou para a vida (uns sopapos do cônjuge enganado, por exemplo) devem ser encarados com bonomia, que as pulsões sexuais são fortes e difíceis de conter.

Mas não há cá complacência com o álcool (já os antigos diziam que era o pai de todos os vícios, e os antigos alguma vez haviam de ter razão), ousar ter a comida bem apaladada com sal (as pessoas puras de corpo e alma não têm de lhe pagar os comprimidos para a tensão arterial) ou beber refrigerantes açucarados (agora que já se verificou que afinal o colesterol e a gordura não causam o apocalipse humano que os médicos prometeram, teve de se encontrar novo inimigo para atormentar as populações e viraram-se para o açúcar, o novo supervilão; até, claro, dentro de uns anos se reconhecer que o açúcar é essencial para um bom desenvolvimento cerebral das crianças, entre outras maravilhas que então o açúcar de súbito conquistará).’

O texto todo está aqui.

Uma austeridade que veio para ficar

Antes de desistirmos. Por Rui Ramos.

Há mesmo assim quem se congratule com a conversão silenciosa do BE e do PCP a tudo o que é obediência às regras europeias. Não é um sinal de que o sentido da responsabilidade alastrou no parlamento? Não é. O BE e o PCP demonstram apenas que as suas “causas”, da defesa dos pobres ao zelo pelos serviços públicos, são totalmente secundárias em relação ao objectivo de infiltrar o Estado, e que por este objectivo estão disponíveis para tudo. Mas há ainda quem argumente que a nova austeridade é diferente. É, sem dúvida. Esta não é a austeridade temporária de um programa de ajustamento, mas a austeridade permanente de uma política clientelar: é o custo imposto à sociedade para manter as regalias daqueles que o governo julga serem os seus clientes e eleitores. Não é uma austeridade que corta despesas, mas que aumenta receitas para compensar o aumento das despesas. É uma austeridade que veio para ficar.

Leitura complementar: OE 2017: de mal a pior

Aumentos de rendimento para uns, incrementos de impostos para quase todos

Um orçamento possível mas pouco plausível. Por Francisco Veloso.

Foi apresentado na sexta-feira pelo Governo o Orçamento do Estado para 2017. Encontramos aumentos de rendimento para uns, incrementos de impostos para quase todos, e um quadro de crescimento sombrio e muito incerto; mas também uma surpresa.

O ministro da economia faz mal à saúde e inteligência

DV/NUNO ANDRÉ
DV/NUNO ANDRÉ

Imposto sobre refrigerantes? É por “razões de saúde”, diz ministro da Economia.