A grande mentira

Hoje no i. O brasileiro Rubem Fonseca escreveu, e muito bem, sobre a grande arte. Eu, sem a mesma mestria, sobre a grande mentira.

A grande mentira

O governo aprovou o Plano de Estabilidade 2018-2022. Nele prevê a redução do défice já este ano para 0.7% do PIB e um excedente em 2020. Isto, claro, relativamente ao PIB, que cresce devido ao turismo, que beneficia de uma lei das rendas que a esquerda critica, mas não altera.

A grande pergunta que se devia colocar à esquerda é a seguinte: onde está a espiral recessiva que a austeridade ia provocar? Nunca ouviremos a resposta porque não interessa. Há assuntos demasiado delicados para que se possa falar deles. A dívida pública é outro; não a dívida face ao défice, mas em números. Já o referi neste jornal, mas volto a repeti-lo: o que se passa com a dívida pública que em 2015 era de 231 mil milhões de euros e em fevereiro de 2018 atingiu os 246 mil milhões, mais 2,4 mil milhões que em janeiro deste ano?

Mas isto não interessa. O que temos de ouvir, a narrativa aprovada pela extrema-esquerda, é que a dívida pública vai descer (face ao PIB, que cresce sem o governo perceber como) e que como nós, verdadeiros campeões europeus, povo único à semelhança do tempo da outra senhora, só a Bélgica.

A Bélgica. O PS já nos quis transformar na Suécia, depois na Finlândia, agora na Bélgica. Ora, o que se passou na Bélgica? Em 1993, o país do Tintim tinha uma dívida pública de 303.816 mil milhões de euros, 138,14% do PIB. Em 2005, uma dívida de 366.891 mil milhões de euros, 94,7% do PIB. A dívida desceu? Não. O problema estrutural da dívida foi resolvido? Não. E tal não foi que , em 2015, a dívida totalizou os 482.519 mil milhões de euros, 106% do PIB. A Bélgica reduziu a dívida face ao PIB quando os ventos corriam de feição, mas tudo ficou na mesma quando estes mudaram de sentido.

Já vimos este filme tantas vezes que até enjoa. Compara o que os belgas fizeram com o que nós queremos fazer; o feito com a intenção, a realidade com o sonho e, nesse devaneio, discutem-se aumentos dos salários na função pública, mais dinheiro para a cultura (porquê apenas 1% e não 1,1% do PIB – o que interessa é parecer culto, não honesto) e descida nos impostos, como se os erros do passado não aguardem que o crescimento abrande para que os seus custos se sintam outra vez.

O país vive tão anestesiado com a política monetária do BCE e com o turismo que parece que está tudo bem. A grande mentira é esta. É a mentira que explica por que motivo o Bloco e o PCP criticam o Plano de Estabilidade, mas não o submetem a votação no parlamento sob pena de terem de votar a favor. O silêncio da esquerda perante o que se passa nos hospitais está aqui.

Há um livro de Rubem Fonseca chamado “A Grande Arte”. Neste, a arte era o manejamento da faca, a forma de melhor a utilizar para matar. Vivemos em Portugal, a grande mentira, a forma como melhor se saca do Estado sem se assacarem responsabilidades. A primeira é uma obra de ficção; a segunda, a nossa realidade.

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“Challenges for the European Union”, 26 de Abril

TAP no fundo da tabela da pontualidade…

TAP caiu 66 posições no “ranking” da pontualidade

Em três meses, a companhia aérea cancelou quase 600 voos.

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Síria: a verdade luminosa e a verdade embriagada

Fonte fidedigna (como nenhuma outra, sublinhe-se) assegura-me e aos povos que ontem, na Síria “as luzes da noite foram os 93% de mísseis derrubados”. Os crentes dariam graças, com a ajuda da força das orações. O pragmático detentor da verdade, ao som de um hino pimba nacionalista em louvor a Assad, Putin e aos teólogos iranianos, revela que quem ” espalhou o caos entre os enxames de mísseis violadores do Direito Internacional e do sono dos povos” foi um tal de “anjo da guarda das nações pobres” o  Pantsir-S1, a arma de defesa anti-aérea russa.
Graças a Eles, o “ataque americano (foi) reduzido ao ridículo pela defesa anti-aérea russa e síria. Acabou o tempo dos bombardeamentos impunes. O povo sírio de parabéns.”
Falta mesmo pouco para o regresso eminente da paz que teima em fazer-nos esperar por dias gloriosos e ordeiros, já lá vão sete anos.

Compreender o putinismo LXXXV

Estão finalmente explicados os fenómenos da santidade e do excepcionalismo  russo.

No que toca à santidade – algo que pode ser alterado a qualquer momento, assim queira o chefe Putin -, para além da verborreia propagandística, a Santa Mãe Rússia opta por nada fazer acerca do segundo ataque militar aliado (EUA, Reino Unido e França) durante a administração Trump à Síria, país que se encontra em guerra há sete anos.

A grande novidade no que toca ao ponto central do excepcionalismo russo é que os russos sob a sábia direcção de Vladimir Putin  possuem, em regime de exclusividade para o planeta Terra, a capacidade sobre-humana de ir e regressar do futuro.

A prova, imune a fake news, para os cépticos:

(…) Russian Foreign Minister Sergei Lavrov said citing data from the Swiss laboratory that the BZ toxin was used in the poisoning of the Skripals, adding that the chemical has been in the possession of the US and the UK, but has never been produced in Russia. Specialists from the laboratory finished examining the samples on April 27.(…)

Trumpices

Conheço um presidente que se deu muito mal com o uso indevido do Facebook. Este, como é do conhecimento geral, é o presidente mais libertário e pacifista de sempre que exerce o mandato e “envia” bombas através do Twitter. Um senhor!

Pedófilos na creche, Síria na ONU

Não virá grande mal ao mundo nem à ONU (vénia ao engenheiro Guterres), a Síria, um país com uma história, um presente e um futuro tão ricos quanto pacíficos contribuir para o desarmamento químico e nuclear do Planeta.

Syria to chair UN disarmament forum on chemical & nuclear weapons

Portugal, 2018, pós-austeridade: a quimioterapia pediátrica no Hospital de S. João

Crianças fazem quimioterapia num corredor do S. João

Pais queixam-se das condições em que os filhos recebem tratamentos no Hospital S. João e no Joãozinho. Unidade garante que tem feito melhorias.

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Não há sobrecarga turística em Chelas

Seminário “Blockchain e a Digitalização da Sociedade” – 4 de Abril na Universidade Católica, no Porto

Seminário “Blockchain e a Digitalização da Sociedade”

As Crises Económica e Política à Luz da Escola Austríaca de Economia – 4 de Abril no Porto

Para quem esteja pelo Porto no próximo dia 4 de Abril, uma oportunidade a não perder para ouvir o Professor Ubiratan Iorio, Professor da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e Diretor Académico do Instituto Mises Brasil.

Mais informações aqui.

A atracção por ditadores

Portugal e Rússia: a “geringonça” tem as costas largas, por João Miguel Tavares. A atracção do PS por ditadores e cleptomaníacos – uma tradição que vem de Sócrates.

O Governo virou as costas aos aliados. É uma vergonha que nos sairá cara, por José Manuel Fernandes.   A diplomacia portuguesa de mãos dadas com o regime de oligarcas.

Fake news. Putin, O porteiro do Kremlin adorado por liberais variados, socialistas e integralistas lusitanos perdidos de amor por super-líderes, oferece estátuas de ditadores socialistas? A culpa é dos ingleses.

SATA: lições sobre “serviço público”

Hoje, no “Primeiro Jornal” da SIC, vi reportagem sobre acumulação de dívida na companhia aérea SATA/Azores Airlines. Passou de €5 milhões em 2007 para €250 milhões em 2017.

Francisco César, deputado PS Açores, filho do líder parlamentar do PS Carlos César, admite ter sido uma opção política para “prestar serviço público” em época de crise a fim de “garantir fluxos turísticos à região”.

Só que easyJet e Ryanair conseguiram aumentar tais fluxos com muito menores custos… Ou seja, os contribuintes açoreanos (e do Continente) agora têm de pagar pelos “voos políticos” do Governo de Carlos César.

Face à situação financeira da SATA, Governo dos Açores procura um “parceiro estratégico” para adquirir 49% do capital. Estratégico? O termo mais adequado é masoquista.

Socialistas (de todos os quadrantes políticos) justificam sempre prejuízos como a necessidade de oferta de “serviço público”. Numa economia de mercado (capitalismo) as trocas são voluntárias. Só ocorrem quando todas as partes acreditam poder beneficiar da transacção. Quando políticos decidem manipular esse harmonioso equilíbrio, alguém terá de ser involuntariamente prejudicado para que outros possam beneficiar. Não é só em política que tal acontece. Só que a essas outras situações chamamos de roubo!

Public Policy and Public Finance Summer Course – London

Depois da experiência bem sucedida do ano passado, na segunda metade de Julho e primeiros dias de Agosto terá lugar na St Mary’s University, em Londres, o Public Policy and Public Finance Summer Course que desenhei e dirijo conjuntamente com Philip Booth.

O curso faz parte de uma parceria de St. Mary’s com a Universidade de Warwick e terá lugar no campus da SMU em Strawberry Hill, no Sul de Londres.

Entre os oradores convidados incluem-se o Chief Economist do Bank of England, Andy Haldane, a ex-Ministra britânica Ruth Kelly e Chris Snowdon e Stephen Davies do Institute of Economic Affairs. O programa académico inclui ainda visitas ao Bank of England e às Houses of Parliament.

Mais informação disponível aqui: Public Policy and Public Finance Summer Course.

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Como Ser Pobre (1) – Casa grande na juventude

O meu dia-a-dia é literalmente apoiar as pessoas a pouparem para alguma situação que lhes aconteça. É um emprego interessante, com muito contacto pessoal, muitas histórias de vida, e sobretudo alguns heróis inesperados. Já tive caixas de supermercado exemplares e pessoas que ganham múltiplos do salário médio (salário médio são 833€, SMN era 64% deste) com a corda na garganta. Em 2018 cheguei aos 1.000 casos estudados, e já conheço pessoas de todos os quadrantes. Mesmo.

Esta série é assim uma reflexão sobre o que aprendi sobre como poupar, e porque não considero 250.000€/pessoa como uma quantia impossível para qualquer pessoa ter na reforma, sem ter de comer no restaurante do supermercado todos os dias. Já sei que qualquer um dos leitores do blog vai discordar de vários artigos desta série, e tem todo o direito disso, mas a ideia é dar alguns pequenos conselhos que o podem ajudar a poupar ou, alternativamente, a ter noção de que vive como um príncipe!

No caso de hoje consideremos duas mulheres: a Isabel e a Maria (nomes fictícios, óbvio). Ambas ganham mais um pouco que o salário médio. No entanto as 2 têm uma noção muito diferente da casa em que querem viver. A Isabel gosta de viver em casas pequenas: é menos limpeza, desincentiva à compra de quinquilharia, consome menos recursos. A Maria gosta de uma casa grande: gosta de ser dona de casa, permite ter junto de si as recordações de uma vida, consomem menos paciência quando quer ter alguém a dormir em casa.

Ambas devem actualmente 100.000€ ao banco. A Isabel vive numa casa de 40.000€, com 60m2,  e usou o restante dinheiro para comprar uma casa que um familiar precisou de vender, tendo-a alugado a um casal de desconhecidos que agora pagam uma renda de 400€/mês. A Maria comprou um apartamento para a vida, um T3 com boas áreas (a área metropolitana do Porto permite isso). Comprou ainda em planta e pediu alguns pequenos extras de conforto por um bom preço.

Gosto de ambas (são casos reais) e ambas são pessoas simpáticas e boas donas de casa. Mas a Isabel gastou dinheiro na sua casa “temporária” até ter filhos e investiu uma parte do dinheiro numa casa com retorno. Quando tiver filhos terá de sair dali e provavelmente terá uma casa como a Maria. Mas como esta partiu logo para a casa dos sonhos vai ter anos com quartos vazios e a conta esforçada.

Fazendo umas contas rápidas: 300€/mês (há custos inerentes à 2ª casa) são 3.600€/ano. Em 10 anos são 36.000€. 36.000€ aos 35 são muito mais aos 70: 51.000€ à taxa de 1%, 72.000€ à taxa de 2%.

Tudo porque a Isabel teve uma casa pequena dos 25 aos 35 anos, enquanto a Maria partiu logo para a “casa definitiva” aos 25 quando casou. E isto com ambas a ganhar o mesmo, esquecendo que a Maria gastou muito mais nos consumíveis da casa e nos serviços como água, luz, gás. Só no aquecimento… Agora já sabem como me sinto quando entro numa casa com quartos vazios e depois me dizem que aquele quarto está vazio desde o tempo dos Afonsinhos. (TIP: estes são ricos!)

lighthouse

Compreender o putinismo LXXXIII

Razões de ser da superioridade Ocidental face à Santa Mãe Rússia de Vladimir Putin.

We must stand up to Russia – even over the fate of just one man. That’s what makes us better than Putin, por Daniel Hannan.

 

“O Estado Providência em Portugal”, 14 de Março, IEP-UCP

Uma excelente oportunidade para ouvir Miguel Gouveia, um dos melhores especialistas nacionais neste tema.

Progressividade Progressiva

Quando mais de metade dos agregados familiares não paga IRS, é evidente que qualquer redução desse imposto aumentará a desigualdade no curto prazo. A ideia de que a bitola de análise da bondade de uma alteração fiscal passa necessariamente pelo seu impacto na progressividade é estapafúrdia. Assim sendo, nenhum aumento de impostos é temporário (algo que já desconfiávamos). Excepto quando há eleições no horizonte (o que nos faz desconfiar que só as reduções de impostos é que são temporárias).

Quando a sobretaxa foi introduzida, foi prometido que era uma medida temporária. Agora que finalmente o actual governo põe termo a esse imposto extraordinário é no mínimo censurável que se questione tal como uma política “regressiva”. Que a UE ache que a medida orçamental pode ter um impacto maior que o previsto no saldo é uma coisa. Que use uma argumentação chico-esperta que legitima a voracidade fiscal de alguns políticos, criando um mind-set propício à “progressividade progressiva” é outra completamente diferente. Esta última resulta em parágrafos como o abaixo, extraído do Observador:

«Por outro lado, uma grande parte da população portuguesa já não paga IRS porque não atinge o limiar mínimo do imposto, são cerca de 50%, logo não é favorecida neste (sic) reforma

Já não falamos de uma derivada positiva. Agora é uma segunda derivada positiva.

Da falsificação

Li que foi «Desmantelada rede de falsificação de dinheiro». Ainda me passou pela cabeça que alguém tivesse levado um bulldozer para Constitution Avenue ou Kaiserstrasse, mas afinal eram meros falsificadores privados.

Delito de Opinião (artigo sobre a SS)

8568937_ymmblAinda sobre o tema da Segurança Social, escrevi por estes dias um artigo para o blog Delito de Opinião que seria interessante lerem.

O artigo encontra-se aqui.

Excerptos:

Imaginemos que todos os meses, no dia 1, colocamos 100€ num mealheiro.
Imaginemos também que todos os meses, no dia 25, retiramos 100€ do mealheiro e deixamos no seu lugar um papel com a mensagem: “Título de Dívida. Valor: 100€.”
Pergunta: Quanto teríamos no mealheiro ao fim de 30 anos?

(…)

Deixe-me sublinhar isto porque é importante: se o leitor neste momento não tem dívidas – ou tem uma dívida muito pequena à banca por conta da casa e, portanto, acredita estar quase no equilíbrio financeiro – tem na verdade uma grande dívida implícita ao seu alter ego futuro e é importante começar logo que possível a poupar para essa dívida.
Falhar em poupar é cair num tipo especial de invalidez, em que a impossibilidade de sair de casa não é por motivos físicos (como na invalidez física), mas por motivos financeiros: a invalidez financeira. E ao contrário da primeira, esta é evitável.

Varoufakis e Centeno

Varoufakis acusa Centeno de insultar a Grécia​

Seria interessante confrontar comunistas, bloquistas e também a ala varoufakista do PS com estas declarações. Pela minha parte, relativamente a Mário Centeno, mantenho o que escrevi em 2015.

A Generosidade do Estado Social

A geração de Abril, que se reformou no início do século, é a mais beneficiada da história. Vou dar apenas alguns exemplos de grupos que representam no seu total dezenas de biliões de prejuízo em termos actuariais.

  1. Idade da Reforma: Quando a Seg. Social foi criada em 1970, a idade de reforma era de 65, a EMV (Esperança Média de Vida) era de 67,1 anos – um período de reforma de 2,1 anos. Hoje a idade de reforma é de 66,5 anos enquanto a EMV é de 80,6 – um período de reforma de 14,5 anos. Portanto um aumento para quase 7x (!)
  2. Na geração dos meus pais, muitos reformaram-se com 30 anos de serviço, tendo pago 34,75% em cada ano. Por esta contribuição esperam receber 100% ou 90% de reforma durante quase 30 anos (a acreditar na EMV). Quase o triplo!
  3. O triplo não: o sêxtuplo. Sim, pois do valor descontado para a Seg. Social apenas cerca de metade vai para a reforma, indo o restante para todo o tipo de pensões (invalidez e sobrevivência por exemplo), subsídios (doença e desemprego por exemplo), abonos (de família) e rendimentos de coesão.
  4. Esta desproporção é ainda maior em sub-grupos privilegiados, como é o caso de políticos e outros grupos influentes (Banco de Portugal, por exemplo)
  5. No caso de muitos agricultores (e pescadores e domésticas), o desconto foi 0 e portanto todas as reformas pagas saem directamente da dívida. Independentemente da justiça desse apoio, e do baixo valor destas reformas, é mais um grupo a receber, sem qualquer provisão constituída para o efeito.

20911983_kcjr7Estes e outros direitos atribuídos por políticos com horizontes a 4 anos e pouca orientação de longo prazo escavaram desde o 25/Abril um buraco que se calcula actualmente de 70.000 milhões (ou 70 Biliões em numeração americana) no Fundo da Segurança Social.

O que é um enorme roubo às gerações futuras, mostra a tendência para o colapso do sistema, e finalmente que alterações vão ter se ser implementadas para tornar o sistema… “menos generoso”.

E quanto mais cedo, menor será a correção necessária.
É que o sistema não vai terminar…
… mas que vai ter de ser redimensionado, não restem dúvidas.
Por mais laudas se cantem às suas virtudes.

Inferno Demográfico

Relacionado com o post anterior, sobre o peso do Estado Social e a incapacidade de sair de uma situação difícil por parte da juventude que o suporta, vem a questão demográfica.

Disse-me hoje um defensor do Estado Social (“a maior criação do Século XX”…), que não há solução para a Natalidade. Os jovens portugueses têm vontade de ter filhos, mas o número de filhos por casal é de 1,3 – logo bem abaixo dos 2,1 necessários para a substituição geracional. Isto para o defensor do estado social era uma questão irresolúvel para qual não há solução e há qual portanto temos de nos adaptar.

Para mim não é um mistério porque a natalidade é tão baixa. Tendo nascido em 1980, estou na idade perfeita para olhar para as minhas colegas de primária e de faculdade e perceber quais são os problemas. Fruto da minha experiência no terreno, passo a elencar algumas questões que julgo relevantes.

  1. Distribuição inter-geracional – O generosíssimo Estado Social (próximo post) beneficia de sobremaneira a geração dos meus pais, recentemente reformada. Quantos colegas meus (trintões portanto) não têm dificuldade em pagar as contas e recorrem a apoios dos pais – que invariavelmente têm folga financeira para esse apoio. Neste país, nestes tempos, idosos têm orçamento supérfluo e jovens não. Ora como mulheres de 60 não têm filhos porque não têm físico para tal e mulheres de 30 estão em situação financeira instável, não admira que haja poucas crianças. Os impostos altos sobre a juventude e as pensões generosas (em termos relativos) têm destas consequências.
  2. Instabilidade na carreira – Nesta nova economia, a única coisa certa são os impostos. E o pior patrão de todos é o estado. Quantas professoras têm contrato nos primeiros 10 anos de carreira? Quantas enfermeiras têm de fazer n contratos de substituição e uma especialidade antes de serem admitidas? Quantas médicas andam a saltar de terra em terra enquanto fazem os seus estudos superiores? Mesmo que uma mulher tenha estudos superiores e um emprego num dado mês, quantas podem garantir nos anos seguintes i) continuarem a ter trabalho remunerado e ii) no local que escolheram para viver.
  3. Instabilidade familiar – A entrada da mulher na força de trabalho teve um efeito demográfico óbvio. A mesma filosofia que levou ao crescimento do estado social instalou também as mulheres na força de trabalho, aumentando o PIB mas diminuindo a natalidade, pois o tempo não estica e uma mulher com uma carreira afirmada e financeiramente independente certamente que não vai ter o mesmo número de filhos da minha avó (no caso, 10). Se o nexo de causalidade não é claro, pois os dois fenómenos reforçam-se mutuamente, creio que pelo menos a correlação é visível – mas aguardo os vossos comentários sobre este ponto em concreto.
  4. Pensamento Milenial – Num mundo em que tudo é cor-de-rosa e não nos temos de preocupar com nada, a tendência é a desresponsabilização e o aumento dos prazeres (a este propósito, recomendo este vídeo). Assim, o Estado Social é também um sintoma do declínio do ocidente e a queda dos Estoicismo e dos seus valores. Não é difícil assim ver que os jovens privilegiam os prazeres da vida às responsabilidades, e ter filhos é um fardo que muitos não querem suportar.
    O Estado Social é um inimigo do Estoicismo e portanto acentua esta tendência.

Se viram o vídeo, este fala nas 6 épocas de uma civilização: Pioneiros, Conquista, Comércio, Afluência, Intelectuais, Decadência. Concentrando-nos nesta última fase, esta tem sempre os mesmos sinais: exército disperso e indisciplinado, demonstração exacerbada de riqueza, disparidades entre ricos e influentes e os outros, um desejo de viver de um estado gordo, desvalorização da moeda, e uma obsessão com comida e sexo.

6 phases

Uma juventude que cresça nesta época, sem padrões anteriores, tende a exacerbar tudo isto. O Estado Social actual (como no Império Romano, no Império Português do Século XV/XVI e noutros, pois isto é obviamente cíclico) ou é controlado ou levará à ruína.
Eu defendo o estoicismo, a meritocracia e o controle do estado social.
Outros defendem o seu crescimento ad infinitum.
Inferno demográfico, venda de património a estrangeiros, economia de bandeja (cf Marcelo Caetano) e crescimento apenas com base em aumento de dívida será o resultado… evitável, mas expectável.

Instabilidades

Ainda relacionado com o post anterior, hoje ouvi também que “o Estado Social” proporciona estabilidade aos membros mais fracos da sociedade.
A isto eu gostava de responder apenas com 2 questões:

  1. Se o Estado passa o tempo a “Roubar a Pedro para Dar a Paulo”, para resolver os problemas de Paulo… isso não cria instabilidade ao Pedro? Os criadores de riqueza, muitos deles empresários, muitos destes infelizmente recibos verdes… merecem que por idealismos de pessoas de rendimento certinho sentados em gabinetes passem o tempo a sofrer mudanças de CIRS, gerando encargos superiores a 50% dos rendimentos mesmo com rendimentos <1000€/ano, muitas vezes gerando multas pois é preciso passar dezenas ou centenas de hora por ano a acompanhar as alterações das obrigações para com o Fisco e os seus múltiplos confiscos variáveis?
  2. Quando o estado social tiver de encolher, e terá certamente de encolher pois nada cresce infinitamente e o peso do estado na economia já vai em cerca de 50%, como ficarão aqueles cujas expectativas de apoio ficarão goradas? Como ficarão os reformados que tenham assumido obrigações e que nada poderão já fazer para aumentar os seus rendimentos? Como ficarão as pessoas verdadeiramente necessitadas quando o estado tiver de cortar cegamente e abruptamente as transferências sociais devido a uma crise cujo choque a economia privada não consiga absorver? O que dirão os defensores do estado social nessa altura?
    Com o peso que o Estado Social já tem na economia, não há capacidade de absorção do próximo choque no tecido empresarial português: quando este chegar, e vai certamente chegar, terão de ser assumidas responsabilidades.

FinançasA capacidade de empatia é uma grande qualidade – e é algo que faz de nós humanos.
Mas o excesso de empatia é perigoso e se decidimos com base em emoções (na premissa subjacente de que não há escassez) a matemática será implacável.

Eu já fui um recibo verde. São temos que lembro com revolta. Discursos bonitos em salas de mármore levam a ataques constantes a jovens que nem sequer têm condições para se levantar levam logo com IRS, SS, por vezes IVA, e multas, muitas multas.

Há neste país um grupo que precisa de estabilidade, sim.
Os dos escravos que mantêm o edifício do estado social.

Ligação Riqueza – Estado Social

Existe uma diferença enorme entre co-existência, correlação e causalidade.

O facto de o Estado Social ser maior nas economias mais desenvolvidas, por si só, não prova uma correlação entre os 2 factos e, caso esta exija, fica por identificar a direção da causalidade.

Alguns defensores do estado social podem argumentar que o estado social causou a riqueza das sociedades ocidentais. Contudo essa ideia pode ser contrariada facilmente olhando para a evolução dinâmica destas variáveis.

Inicialmente (pré-revolução industrial) todos os países eram pobres e as diferenças de produtividade eram pouco significativas. Depois algumas economias industrializaram-se. Essas mesmas economias entraram então num processo de desenvolvimento acelerado, gerando excedentes. Esses excedentes permitiram então a criação de um estado social nesses mesmos países – criando assim o estado social Europeu. Como as empresas quando fazem asneira desaparecem e o estado social quando faz asneira cresce (a solução para os erros do estado social é sempre mais fundos para o estado social…), o peso deste na economia aumentou. Até que ponto? Até o crescimento estagnar e a economia paralisar com o peso da regulação e dos impostos impostos pelo estado social.

Entretanto outras economias desenvolvem-se. Como usufruem da tecnologia da Europa e do menor peso do estado social, crescem mais depressa – o que é normal dado o atraso económico. A Europa está assim a ser ultrapassada e os tigres asiáticos não só têm uma economia mais avançada (quantas empresas de electrónica há na Europa? quantas televisões são hoje feitas na Europa? quantos smartphones são hoje feitos na Europa?) como os cidadãos têm hoje acesso a saúde com tecnologia mais avançada (mas pronto, Portugal lidera nos cuidados de saúde a nível mundial – lol).
Portugal cresce a 0,5%/ano há 20 anos, tigres asiáticos de PIBpc (per capita) bem superior crescem a mais de 3%.
Há muitos factores, mas a burocracia que o estado impõe, a rigidez do mercado laboral, a excessiva carga tributária e o enorme estado social são obviamente factores limitadores ao nosso país e à Europa em geral.

Europa teve excedentes > montou estado social até ao máximo da sua capacidade e a economia só cresce com aumento de dívida. Muito sustentável, portanto.
Ásia teve excedentes > investiu na economia e conseguiu um nível de vida muito superior.
Solução na Europa: mais estado social.
(para já nem falar da importação de muçulmanos, que vão sobrecarregar os sistemas sem para ele contribuirem)
Vamos acabar com muitos a precisar e poucos a contribuir.

Diminuimos o Estado Social ordeiramente ou… desordenadamente?

Parece que o Politicamente Correcto e as boas intenções que ainda hão-de encher o Inferno preferem a segunda hipótese. So be it.The-Welfare-State

Direito positivo Vs Direito negativo – um desejo

US ConstitutionDesejava que as pessoas que deixassem de confundir direito positivo com direito negativo.

Hoje ouvi que nos EUA “há pessoas que defendem o direito às armas e não o direito à saúde”. Bem, vejamos uma coisa: para comparar estas coisas a palavra direito teria de significar a mesma coisa.

Se os Americanos têm direito ao porte de armas, não deverão ter direito à saúde? Mas ºe claro: qualquer pessoa que se desloque a uma loja para comprar uma arma, também se pode deslocar a uma seguradora, a uma farmácia, a um hospital, a uma clínica ou a qualquer outro local e adquirir serviços de saúde. É um direito de igualdade garantido por qualquer constituição ocidental contemporânea. Quem quiser pode comprar qualquer bem legal – e isso não está em questão.

Agora, os americanos devem ter direito a serviços de saúde ou a armas oferecidos, aí entram em questão princípios como o do direito do estado a me extrair sob pena de prisão a minha propriedade para oferecer bens e serviços a outrem. Aí um libertário deverá opor-se: a minha propriedade é minha e oferecer armas ou saúde a outrem com os meus recursos é uma violação do princípio de não agressão.

Eu sou contra o estado oferecer armas aos cidadãos, sublinhe-se.

Ora, confundir tudo e afirmar algo como “há pessoas que defendem o direito às armas e não o direito à saúde” é ou não perceber nada do assunto ou perceber e ser malicioso.
Independentemente da posição que se tenha sobre o direito à possibilidade de porte de armas por parte dos americanos.

 

A China e o Ocidente

How the West got China wrong

It bet that China would head towards democracy and the market economy. The gamble has failed

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Mário Centeno, Eurogroup style (3)

Mário Centeno, Eurogroup style (2)

Mário Centeno, Eurogroup style