A Cultura do Ressentimento

Nietzsche é um filósofo pop. Como diria o Dâmaso de Eça: é “chique a valer”. Todos falam sobre a morte de Deus, sobre o Super-Homem e até, no caso dos poucos que realmente o leram, sobre o eterno retorno. Contudo, é comummente deixado de lado um dos seus mais importantes pensamentos: a análise do ressentimento.

Para Nietzsche, o ressentimento é uma espécie de desespero existencial diante da indiferença do Universo perante cada um de nós. É o tomar consciência de que as estrelas não brilham para magnificar os nossos olhos, assim como o mar não existe para que nademos nele. Assim, as razões para o ressentimento são intermináveis. Qualquer um dos motivos que levaram Caim a matar Abel criam em nós esse ressentimento: o inferno que é lidar com pessoas mais capazes e afortunadas do que nós mesmos, por exemplo.

Uma das formas mais fáceis de atenuar este problema abismal é querer que o resolvam por nós ou simplesmente atirar a culpa para um terceiro, para uma estrutura ou abstracção social. A base do ódio organizado à beleza e à riqueza (mascarado de impostos progressivos em nome da “justiça social” – expressão em que, como o velho Hayek notou, é um pleonasmo) é, a rigor, o bom e velho ressentimento. Luta de classes é a fantasia que se tem contra os mais afortunados e mais competentes, ou seja, ressentimento. A obsessão moderna por tornar toda a gente igual (diferente da nobre noção de que somos iguais perante a lei) é puro ressentimento. Julgar que, enquanto artista, eu deveria receber uma “Bolsa Joana Vasconcelos”, porque o maldito capitalismo não reconhece o meu trabalho, é ressentimento.

E é esta filosofia da inveja que impera no cerne do pensamento socialista e revolucionário. Achar que fortunas alheias prejudicam a humanidade é, por exemplo, um caso preocupante de inveja. Mesmo que estas fortunas sejam obtidas de modo ilícito, o problema não reside no facto das mesmas serem maiores que «a minha», mas na forma ilegítima de como foram obtidas. Esta inveja inveterada é incrivelmente descrita por Ayn Rand em “A revolta de Atlas”, um excelente remédio para o ressentimento moderno. Na sua obra, as pessoas são atacadas pelo seu sucesso e pela concretização das suas realizações, temática resumida na frase «a coisa mais imoral na Terra é ofender alguém não por suas falhas, mas por suas virtudes». A inveja é, a rigor, o ódio do bom por ser bom.

Como Theodore Dalrymple vem demonstrando com as suas obras, o ressentimento ou “sentimentalismo”, como o autor gosta de chamar, tem impregnado tanto a esfera social como a política desde o século XVIII, graças a filósofos como Rousseau. Como descreve Dalrymple: “Nessa época, a visão cristã de que o homem nasceria imperfeito, mas poderia e deveria buscar pessoalmente a perfeição foi primeiramente questionada e depois trocada pela visão romântica de que o homem nascia naturalmente bom, mas era corrompido e transformado em mau por viver numa sociedade má”. Como consequência, “a exibição de vícios tornou-se a prova de maus tratos; o que se considerava defeito moral se tornou condição de vítima.” O criminoso que, na posse de uma faca, comete um crime, torna-se cada vez mais vítima a cada facada que dá. “A faca entrou”.

Para o “sentimentalista” não há criminoso, apenas um ambiente que não lhe deu o que devia. Numa inversão moral extremamente estranha e nociva, é o sofrimento de uma pessoa, e não as suas conquistas e virtudes, que a distingue do restante da espécie. A retórica opressor/oprimido passa a ser a dominante, e êxtases neuróticos como «micro-agressões» tornam-se conceitos estudados e encarados seriamente. Esta retórica ilibe todo o ressentido das suas responsabilidades individuais, problema que é hoje, mais atual que nunca.

Todos são vítimas, todos querem direitos e o Estado aparece como o novo Deus, a esperança de “justiça social” e o assegurador de todos estes fetiches modernos. E achava Nietzsche que Deus estava morto…

Anúncios

A Vitória do Syriza É Um Sinal de Mudança Que Dá Força Para Seguir a Mesma Linha?

Em 2015, a esquerda (em particular a Portuguesa) rejubilava com a vitória do Syriza. Prometia-se “o bater do pé à União Europeia” e o fim da austeridade. António Costa reagia assim:

Quatro anos de mais austeridade grega depois, os gregos já não acreditam em histórias da carochinha Tsipras, e depois das eleições de hoje, o governo do Syriza será substituído por um governo de Direita que pode vir a ter maioria absoluta.

Na Europa, Portugal e Espanha ficam cada vez mais isolados à esquerda.

Vá, António Costa: se a vitória do Syriza dava força para seguir a mesma linha, a derrota do Syriza dá-te força para o quê?

O erro de Bonifácio

Em artigo publicado hoje, Maria de Fátima Bonifácio afirma a não descendência (?) de africanos e ciganos da Declaração dos Direitos do Homem. Isto é usado para recusar um sistema de quotas. Mas, se admitíssemos o argumento, este serviria facilmente para negar-lhes também esses mesmos direitos fundamentais. Porque não “descendem”, teríamos que aceitar, por exemplo, que não se lhes aplica o princípio de que todos os seres humanos nascem livres e iguais. Aceitar esta tese abre a porta a um inquietante relativismo moral que parece ser, aliás, aquilo que Bonifácio queria combater. A proposta de quotas deve ser discutida a partir do entendimento sobre os princípios da liberdade e da igualdade, mas nunca da “descendência” ou não de valores fundamentais e universais.

Geringonça a Destruir o Serviço Nacional de Saúde (II)

Mais um dia, mais uma notícia que reflecte bem o estado de degradação dos serviços públicos e especificamente do Serviço Nacional de Saúde. Felizmente, a página da austeridade está virada. Cerca de 18%, ou 45.183 pessoas (as pessoas não são números!) estavam à espera para serem operadas há mais tempo do que o recomendado. Este número contrasta contra o número de 22.467 pessoas que em 2015 se encontravam nas mesmas condições, isto é, no tempo do malvado Passos Coelho.

Avante, Geringonça!

A imagem acima foi retirada daqui.