Voando sobre um ninho de cucos

No filme, “Voando sobre um Ninho de Cucos”, Milos Forman questiona a forma como uma sociedade monolítica se impõe aos cidadãos, sob os falsos pretextos de democracia e liberdade, que supostamente só são visíveis desde que não sejam questionados. O enredo, esse, desenrola-se num manicómio, onde vários pacientes, resignados, internados voluntariamente, procuram um ambiente protegido e confortável onde se possam sentir seguros, aceitando em troca submeter-se a tratamentos violentos e a comportamentos acríticos e mecânicos, que são impostos como “normais“.

No hospital psiquiátrico de Forman não há espaço para a consciência, vivendo a sociedade em cativeiro.

Em muitos aspetos, o que se assiste em Portugal não está muito afastado das metáforas do filme de Forman. Quem esteja atento ao enredo comunicacional e político, com um minimo de espírito crítico, tem de concluir que Portugal vive hoje aprisionado por uma ausência de consciência, onde (sendo simpáticos) a vontade legítima de atingir a normalidade nos leva a ignorar a realidade e a aceitar narrativas ficcionais. Nesta sociedade delirante os que a questionam são rotulados de loucos, ou de qualquer outro chavão menorizante.

Num país a arder, entregue a si próprio, onde a fronteira entre a salvação e o infortúnio depende dos caprichos da natureza e da direção do vento, políticos comprometidos com toda a nossa história recente desmultiplicam-se em encenações, entrando e saindo do palco em várias cenas, ao estilo chora-a-ministra-chora-o-secretário-beija-aqui-beija-acolá-defende-SIRESP-critica-SIRESP-condena-a-árvore-iliba-a-árvore-alega-downburst-reforma-a-floresta-venha-o-inverno. Nesta encenação, parar é morrer. Quanto mais dramática se desenha a tragédia, mais exagerada se torna a encenação: que o diga D. Dinis, de cognome, O Agricultor, insigne rei da 1.ª dinastia, o homem que mandou plantar o pinhal de Leiria, a quem o nosso ministro Capoulas se comparou, na grandiosidade que reserva para a obra florestal do seu desgoverno. Que o ridículo não tenha dado lugar à chacota, e o homem permaneça de sachola na mão, irresponsável pela plantação nacional, diz muito do estado de adormecimento psiquiátrico instalado.

64 mortos e dois meses depois, continuamos sem saber o que se passou. Continuando as populações entregues ao seu infortúnio.

É tal a desorientação que nem o roubo de Tancos, simbolo máximo do laxismo e do abandono, há muito foi esquecido pela memória coletiva, dada a imensidão de tragédias com que diariamente somos confrontados.

No dia em que os católicos celebram a Assunção de Nossa Senhora, caiu o céu sobre a Madeira, sob a forma de árvore, ceifando 13 vidas e ferindo 5 dezenas. Ouvimos nas notícias já sem estupefação, como se adivinhássemos, que há muito que o perigo vinha sendo anunciado pelos cidadãos. Azar dos azares, ainda não é desta que vamos ter culpados – que não árvores arguidas; queixaram-se afinal os residentes dos plátanos e não dos carvalhos. A brutalidade, essa, entrou nas nossas casas, nas palavras do Presidente da Câmara do Funchal, que já nos foi avisando: não esperem responsabilidades públicas. As árvores “referenciadas” – ou seja, que o cidadão incauto havia reportado – eram plátanos, e não carvalhos, pelo que não venham agora exigir-lhe o que quer que seja. Para a próxima, quando um cidadão ameaçado avisar as autoridades daquilo que é a sua missão – garantir a integridade do espaço público – antes, é bom que desenvolva conhecimentos profundos de botânica, e cumpra com rigor a sua delação arborícola. Que é para isso que os cidadãos pagam impostos os poderes públicos recebem impostos.

Prossegue o delírio, mais uma notícia, mais um devaneio. Na ânsia de anunciar boas novas, a enfermeira Ratched o deputado Galamba, com ar triunfante, deu nota ao país que estamos a crescer como nunca: 2,8% face ao período homólogo. Pouco importa que, na União Europeia, no 2º trimestre de 2017, para os países para os quais existem dados, com excepção da Finlândia Portugal foi o país que menos cresceu em cadeia. E que, mesmo em termos de crescimento homólogo, Portugal tenha apenas o 13.º crescimento na UE, num cenário em que as exportações continuam a diminuir e as importações a aumentar. O bom-senso diria que estamos a desacelerar, havendo risco de estagnação. E que o fruto dos esforços feitos nos últimos anos começam a diluir-se na acomodação intempestiva da distribuição dos rendimentos. Não! Pelas contas, a coisa aguenta mais uns meses. Mesmo que isto estagne, aguenta até ao próximo Orçamento. Pelo que importa manter o optimismo, e continuar a fingir, mesmo que os sinais e o respeito pelos esforços dos portugueses nos exigissem moderação, e até sentido de alerta.

Nesta caminhada, os que teimem em alinhar com a normalidade, devem ser aniquilados. Digam o que disserem, pouco importa a substância do que se diz. Há que criar rótulos, de dedo em riste, que impeçam o debate e não permitam que o povo, saindo da normalidade, perceba que a peça em cena é a do Rei que vai nu.

Sim, o Rei vai nu. O que falta acontecer para que quem nos governa perceba que desde há muito, quando desfilam, não vemos a sua vaidade, mas a sua nudez inestética, por mais que os seus comparsas lhe elogiem os trajes?

 

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Sua Santidade, o Governo

Leitura muito recomendada de Manuel Carvalho, hoje no jornal Público: Sua Santidade, o Governo:

[…] Pedir silêncio quando o Estado falha e o país arde é um absurdo a menos que tenha uma finalidade sub-reptícia: dar argumentos às hostes que defendem com unhas e dentes o Governo. Ou seja, de criar uma narrativa. Já sabemos como isso funciona. É munir os sapadores políticos dos partidos da coligação com uma cartilha: não se pode falar dos erros no combate aos incêndios; não se deve pedir a demissão da ministra; o Governo virou mesmo a “página da austeridade” porque é uma estrela que veio do firmamento para nos salvar da troika; a união de facto entre os partidos da esquerda é uma maravilha da política contemporânea celebrada pelo mundo fora e só rejeitada entre portas por causa da proverbial estupidez e inveja dos indígenas.

[…]Hoje Portugal começa a viver debaixo de uma impiedosa rede de vigilância montada pelos intelectuais do Bloco, pelos apparatchiks do PCP e pela intelligentsia socialista que se investiu da missão de purgar as mentalidades dos perigos desviantes. Só se pode falar do Governo e das suas políticas com perfume de incenso e mãos juntas em jeito de oração. Pouco a pouco, foram sendo criados os códigos, as palavras e as frases que podemos dizer e citadas as questões da actualidade que podemos criticar. Quem não o fizer quebra consensos ou faz fretes a obscuras forças nacionais ou estrangeiras. Ou se é a favor do Governo, ou se é “pafiano” ou “troikiano” ou, como agora, entra no “aproveitamento político de tragédias” que estrafega os “consensos nacionais”.

Como é que o comunismo ainda é popular nos dia de hoje?

Depois de:

  • todas as teorias e previsões de Marx terem sido refutadas e demonstradas como sendo erradas
  • todo o historial de fome, miséria e pobreza generalizada em todos os países que tentaram implementar o comunismo
  • toda a violência, da supressão de todas as liberdades básicas e dos muitos milhões de mortos causados directamente pelos regimes comunistas – regimes esses que tinham que construir muros para impedir que as pessoas fugissem deles (e mesmo assim, com pessoas a arriscar a vida para lhes escapar)

…algo que não consigo compreender é como é possível que o comunismo ainda seja popular nos dias de hoje e que em Portugal os partidos que defendem esta ideologia tenham consistentemente entre 15 a 20% dos votos?

Quando o DN vai a banhos

No dia 6 de Agosto deste ano, Paulo Baldaia publicou um editorial no DN dando nota que, apesar de a justiça até à data estar a dar razão a Rui Moreira no famoso “Caso Selminho”, e cito, “(…) a história ainda não chegou ao fim (…)”. Segundo Paulo Baldaia, o processo estará inquinado porque, e cita-se, “(…) Rui decide se Moreira tem razão (…)”: Rui Moreira estaria a fabricar uma decisão em causa própria, uma vez que do Acordo Arbitral constará que cabe a uma comissão “controlada” pelo Presidente da Câmara do Porto decidir o valor da indemnização a atribuir à sociedade da sua família caso na revisão do PDM não venha a ser dada capacidade construtiva ao terreno de sua propriedade.

O editorial de Paulo Baldaia surpreendeu-me pela sua desatualização, uma vez que é tido e sabido, há vários meses, que o dito Tribunal Arbitral – a ser necessário – não será formado por três pessoas, nem as Partes em litígio influenciarão a escolha dos árbitros.

Na verdade, a 29 de Maio de 2017, por iniciativa da Selminho, as Partes celebraram uma Terceira Adenda ao Compromisso Arbitral alterando a sua Cláusula Segunda, a qual passou a ter a seguinte redacção:

Cláusula Segunda

(Designação do Árbitro)

O Tribunal Arbitral será composto por árbitro singular, cabendo a sua designação a entidade terceira independente, concretamente ao Tribunal Central Administrativo do Norte, nos termos previstos no n.º 1 do artigo 10.º da Lei da Arbitragem Voluntária (Lei n.º 63/2011, de 14 de Dezembro).

As razões apresentadas, na própria Terceira Adenda, para a adopção desta solução, prendem-se precisamente com a vontade das Partes de garantir que não subsistem dúvidas quanto à transparência da nomeação dos árbitros que terão de dirimir o conflito, caso ele subsista após a revisão do PDM. No entendimento das Partes, a opção por um árbitro único nomeado por um juiz deveria permitir afastar as últimas réstias de dúvida dos mais cépticos, que não se sentissem confortáveis com a opção por uma comissão tripartida de arbitragem, ainda que vinculada à lei, a deveres reforçados de imparcialidade, e à ratificação da decisão por um juiz.

No dia 7 de Agosto dei nota, na página de FB do Paulo Baldaia, que tinha ideia que a Cláusula Segunda do Compromisso Arbitral teria sido alterada para dar lugar a uma solução de arbitragem singular, por nomeação de um juiz. Uma semana depois, nem o diretor do DN nem o próprio jornal, deram qualquer sinal no sentido de estarem a averiguar a veracidade de tal informação, o que não deixa de ser curioso, uma vez que no editorial manifesta-se, com veemência, o enorme desejo de, e cito, “(…) fazer perguntas (…)”, rematando-se: “(…) nós (leia-se: DN) temos uma ética para cumprir (…)”.

Passados vários dias sobre a publicação do editorial, sou tentado a concluir que a vontade de fazer perguntas foi a banhos e a ética está de férias: só assim se compreende que o DN e o Paulo Baldaia ainda não tenham vindo corrigir o erro em que induziram os seus leitores. O DN não mais se preocupou com o tema, nem procurou esclarecer se, afinal, não estaria a laborar em erro. Na sua página do FB, onde divulgou o editorial, Paulo Baldaia teve espaço e tempo para se vangloriar dos feitos do FêCêPê, mas não encontrou disponibilidade para dar azo às suas ânsias de luta pela reposição da verdade e defesa da ética.

Da minha parte, e porque é sempre um gosto contribuir para a clarificação do debate, aqui deixo uma cópia da Terceira Adenda ao Compromisso Arbitral que, segundo me foi dito por um deputado municipal do PSD-Porto, foi distribuída a todos os deputados municipais e vereadores, e que terá sido objeto de referência na Assembleia Municipal em que o “caso Selminho” foi agendado. Fica assim facilitado o trabalho do DN, que mais não tem do que repor a verdade, coisa que não tenho dúvidas, o fará, a bem da ética a que o seu diretor diz estar vinculado.

 

Post Scriptum: Tendo em atenção que a revisão do PDM está agendada para 2018, uma eventual decisão arbitral só terá lugar após as eleições de 1 de Outubro de 2017. Ao sistematicamente porem em causa a imparcialidade da Comissão Arbitral tripartida, assumindo que Rui decide se Moreira tem razão, os apoiantes do PSD e do PS que subscrevem tal tese e tanto se estusiasmaram com o editorial do Paulo Baldaia, estão a assumir perante o eleitorado que vão perder as eleições. Na verdade, e partindo do (errado) princípio que os árbitros não são parciais, ainda assim só haveria conflito de interesses no momento da eventual decisão arbitral tripartida se, precisamente, Rui Moreira for eleito Presidente da Câmara do Porto nas eleições que se avizinham. Como diria o diácono Remédios, será que havia mesmo necessidade? Fica aqui lançada a questão.

SIRESP dois meses depois

18 de Junho

Incêndio de Pedrogão

19 de Junho

20 de Junho

6 de Julho

13 de Julho

14 de Julho

17 de Julho

12 de Agosto

E finalmente, uma viagem ao passado, mais propriamente ao período anterior a 2011:

Siga então a aliança dos fanáticos socialistas, dos ressentidos por Passos não lhes ter reconhecido valor, dos “Eu cá sou muito imparcial, não tomo partido como a malta das claques” e os “Mais 15€ por mês já cá cantam”, que o país agradece. Depois queixem-se.

Viver num T2 no centro da cidade por menos de 400€? Sim, é possível.

O Jornal i coloca hoje na capa que os jovens estão a ser empurrados para a periferia para fugir do centro da cidade. Resolvi então ir investigar para perceber se as rendas estão mesmo caras nos centros das cidades e descobri algo surpreendente: não estão.

Por exemplo, em Santa Maria da Feira, por 360€ podem alugar este fantástico T2 mesmo no centro da cidade a menos de 5 minutos do Castelo. Em Braga na Avenida da Liberdade, pode ter também um T2 por 400€. Na Covilhã, as possibilidades são melhores ainda. Por apenas 300€ pode alugar um T3 e viver mesmo no centro da animação. Por mais 100€ consegue o mesmo em Beja.

Viver no centro da generalidade das cidades portuguesas não é caro. Viver no centro da única cidade que parece interessar é que é. E é aí mesmo que começa, e acaba, o problema.

Neste sítio, o tempo pára

A minha crónica no i.

Neste sítio, o tempo pára

Na escola ensinaram-me a não estar sem fazer nada e agora leio nas revistas que nada é imenso em cabeças cheias de coisa nenhuma. Estou de férias e nado. Ensino o meu filho a fazer o mesmo no meio de ondas pejadas de espuma e de areia. Explico-lhe depois que a melhor forma de nadar sem por isso fazer nada é simplesmente boiar. Pernas e braços abertos, peito para cima, olhos postos no céu com a cabeça bem puxada para trás. Dito assim, é imenso.

E se nesse nada sentires a água passar por baixo de ti e ouvires o ruído que o mar faz quando os ouvidos ficam à tona de água, em vez de flutuar parece que voas. Fecha os olhos e finge que não estás aí. Não estás aqui onde eu estou neste momento. Vês? Eu abro agora os olhos e vejo-me rodeado de céu e mar azul; apenas o meu fato de banho é de outra cor, encarnado, para destoar ou marcar a diferença.

Um pequeno sobressalto, um braço que se esquiva, uma perna que desce, endireita-te, abre os olhos e não engulas o pirolito que te entrou quando abriste a boca. Nada assim como quem nada faz, dá às pernas, olha em volta, sorri-me que estou aqui, mesmo ao teu lado.

Olha-me. Nunca me irei embora; mesmo quando já cá não estiver, basta-te abrir pernas e braços, pôr o peito para cima e fechar os olhos, dessa vez fecha os olhos, para me veres onde estou: aí dentro. Quando essa cabeça quiser pensar em nada, que serei eu dentro de ti, fecha os olhos. Nós os dois aqui, um ao lado do outro, a boiar no mar calmo de olhos postos no céu imenso.

Neste sítio, o tempo pára.

A conta do Estado é ao gosto do freguês

“O relatório do Tribunal de Contas é um tratado de incumprimento estatal. De inimputabilidade prolongada. De reiterada aldrabice institucional.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online. Sobre a administração pública (outra vez!), o Tribunal de Contas e a paródia nacional.

Como ser xenófobo? Lição número 1.

A xenofobia é um instinto básico como a inveja ou o medo. Há motivos evolucionários para estes instintos básicos. Mas nem só de instintos básicos se faz o ser humano. A cultura tem uma forma de causar impacto e aliviar algumas destas heranças biológicas. Nós aprendemos a não ter medo de automóveis, comboios ou aviões que assustariam um dos nossos antepassados se fossem transportados no tempo para o presente. Apesar da popularidade do socialismo em muitas sociedades, também aprendemos (com esforço) a não sentir inveja e reconhecer que uns podem obter mais bens do que nós sem que isso signifique estar-nos a privar de alguma coisa. Também aprendemos a livrar-nos da xenofobia e do racismo.

Mas alguns leitores certamente não terão tido acesso à educação certa ou não tem a capacidade para domar esse instinto. Para o leitor para quem esse instinto seja muito forte, o melhor que tem a fazer é direccioná-lo de forma politicamente correcta para que os outros não o julguem por isso. Em alguns países mais, chamemos-lhe assim, “desenvolvidos”, estão a pensar criar bonecas sexuais com a forma de crianças para que os pedófilos possam aliviar os seus “desejos” (pessoalmente, acho que uma dose de cianeto funcionaria muito melhor, mas eu não sou especialista no assunto). Em Portugal a boneca de plástico dos xenófobos de armário são os turistas.

Daí o objectivo desta lição: como ser xenófobo de forma politicamente correcta sem afectar a sua imagem pública? A primeira lição é: escolher o alvo. Alguns exemplos abaixo sobre a forma certa e errada de extravasar a sua xenofobia:

Errado

“Ninguém quer ter uma família de ciganos no andar de cima: fazem muito barulho, não cumprem as regras do condomínio, acumulam lixo à porta, e entram e saem a qualquer hora do dia com malas de produtos que vendem nas feiras. É preciso limitar o número de apartamentos que famílias ciganas podem alugar em Loures.”

Certo

“Ninguém quer ter um apartamento com turistas no andar de cima: fazem muito barulho, não cumprem as regras do condomínio, acumulam lixo, e entram e saem a qualquer hora do dia com malas que trazem para as férias. É preciso limitar o número de apartamentos que podem ser alugados a turistas em Lisboa.”

Note-se como o leitor xenófobo pode exibir o seu preconceito à vontade se o direccionar para o alvo certo. É verdade que há muitas famílias ciganas que exibem esse comportamento, mas a maioria não o faz. Assim como os turistas. Mas se a primeira generalização é preconceito, a segunda já é xenofobia socialmente aceitável porque toda a gente sabe que ingleses e alemães são uma espécie barulhenta. Vejamos outro exemplo:

Errado

“Os imigrantes estão a destruir os centros das cidades: onde antes havia lojas históricas onde o meu bisavô comprava as suas bengalas e chapéus de coco, hoje estão instaladas lojas de chineses, indianos ou africanos, onde esses imigrantes compram a sua comida barata, descaracterizando as zonas históricas”

Certo

“Os turistas estão a destruir os centros das cidades: onde antes havia lojas históricas onde o meu bisavô comprava as suas bengalas e chapéus de coco, hoje estão instaladas lojas de souvenirs e fast-food, onde turistas compram álcool barato, descaracterizando as zonas históricas”

Esta mensagem tem o benefício de o leitor xenófobo também poder exibir toda a sua dimensão intelectual ao mencionar, sem nunca detalhar, as características das zonas históricas. Se o preocupa ver coisas novas em sítios por onde passa todos os dias, então liberte-se desse sentimento criticando as lojas dedicadas aos turistas.

Se o leitor é um xenófobo daqueles mesmo incontrolável, então o próximo exemplo é para si:

Errado

“As cidades hojes estão cheias de pretos e monhés. Passeia-se pela rua e quase não se vê um branco como antigamente: eles ocupam os autocarros, os parques e os cafés. Já não se pode estar à vontade em lado nenhum. Lisboa aos lisboetas! Porto aos portuenses! Portugal aos portugueses!”

Certo

“As cidades hojes estão cheias de turistas. São alemães, ingleses, espanhóis e chineses por todo o lado. Passeia-se pela rua e quase não se vê um português como antigamente. Eles ocupam os autocarros, os parques e os cafés. Já não se pode estar à vontade em lado nenhum. Lisboa aos lisboetas! Porto aos portuenses! Portugal aos portugueses!”

Repare como com esta frase o leitor pode ir para além de preconceitos em relação ao comportamento de estranhos para demonstrar a sua irritação com a simples presença deles. Mas, como dito antes, tenha muito cuidado com o alvo que escolhe.

Finalmente, se mesmo assim o leitor for confrontado com a sua xenofobia, pode sempre usar o argumento de “que lá fora é igual”. Mas, mais uma vez, tenha cuidado na forma de o utilizar:

Errado

“São inúmeros os casos na Europa de cidades descaracterizadas pela imigração. As populações estão fartas dessa invasão. Muitos movimentos de extrema direita anti-imigração estão a ganhar popularidade por isso.”

Certo

“São inúmeros os casos na Europa de cidades descaracterizadas pelo turismo. As populações estão fartas dessa invasão. Muitos movimentos de extrema esquerda anti-turismo estão a ganhar popularidade por isso.”

Agora sim, os caros leitores xenófobos de armário podem exteriorizar esses sentimentos reprimidos sem que isso afecte o seu futuro na política, jornalismo ou comentário televisivo. Não tem nada que agradecer.

 

A carta que o Governo devia enviar a si mesmo

“Ao prometer mundos e fundos, o PT2020 movimenta entusiasmos, entusiasma as hostes, mas, no final, se não houver concretização nem pagamento, debalde, pode ser tudo em vão.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online. Sobre o PT2020 e o Estado incumpridor.

Partido Libertário

Para todos os leitores deste blogue que não se revêm no espectro político existente – em que todos os partidos competem entre si por diferentes graus de socialismo – serve este post para divulgar o Partido Libertário – que se encontra actualmente em processo de constituição como partido oficial.

O Partido Libertário tem como princípios fundamentais a defesa do direito à Vida, à Liberdade e à Propriedade de todos os seres humanos.

Naturalmente na defesa da liberdade individual, o Partido Libertário defende um estado muito mais pequeno e muito mais limitado. Em vez da coerção ditada e imposta centralmente pelo estado, o Partido Libertário defende relações e organizações de adesão livre, voluntária e para mútuo benefício de todas as partes.

Bem-vindos à Damaia: uma solução para o problema da falta de vagas nas escolas de Lisboa

Nos últimos dias tem-se sentido um forte reboliço nas redacções dos jornais. Aparentemente há 2 ou 3 escolas sem vagas em Lisboa porque um grupo de pais não residentes arranjou forma de inscrever os seus filhos nessas escolas (um esquema que, como todos sabemos, é novo e nunca tinha acontecido antes noutras zonas do país). O motivo pelo qual esses pais se dão a tanto trabalho para colocar os seus filhos numa escola longe de casa é que permanece um mistério em quase todas as notícias sobre o caso.

O nervosismo parece que está a toldar a capacidade de decisão do Ministério porque existe uma solução muito fácil para o problema. A Escola Secundária Dom João V, na Damaia, tem muitas vagas. Ali, a apenas 15 minutos de Lisboa, dificilmente seria um desafio os alunos deslocarem-se para aquela escola. Até existem autocarros que podem levar os alunos directamente de Entrecampos. Quem mora fora de Lisboa sabe que 15 ou 30 minutos é um tempo normal de deslocação em transportes públicos até à escola mais próxima. Aliás, o ministério da Educação acabou com muitos contratos de associação fora de Lisboa baseado no pressuposto de que 20 minutos de autocarro para chegar à escola não era um grande problema.

Por muito que pense, não consigo encontrar problemas com esta solução. Como nos repetem constantemente o ensino público é igualitário, ao contrário dos colégios que segregam, portanto as escolas do centro de Lisboa oferecem a mesma qualidade de ensino que a secundária da Damaia. Para além disso, a escola da Damaia tem um perfil muito mais multicultural, o que só enriquecerá os alunos das classes média-alta que para lá forem deslocados. E, finalmente, se há crianças da Amadora que (por um motivo qualquer que permanence misterioso) vêm a Lisboa roubar as vagas aos alunos lisboetas, nada como uma pequena vingança e ir para lá fazer o mesmo.

Caros pais lisboetas, não precisam de abaixo-assinados ou andar a perseguir crianças depois da escola para verificar onde moram. A solução é fácil: bem-vindos à Damaia!

Falta de experiência?!?!?


Hoje a capa do Jornal de Notícias, possivelmente aproveitando o período de férias do seu director, fala do mal-estar entre os bombeiros pela falta de experiência das estruturas de comando. Nada podia ser mais injusto. O governo mudou as estruturas de comando em Abril, uns bons dois meses antes de começar a época de incêndios. Mesmo contando com os feriados, tolerâncias de ponto, uma ou outra baixa e as 35 horas semanais, deu imenso tempo para ganhar experiência. As estruturas de comando, para além de terem para mais de 3 meses de experiência no seu posto, são veteranas do pior incêndio e pior época de incêndios de que há memória. Se isto não é experiência, não sei o que é experiência!

Esta acusação é ainda mais injusta se olharmos aos casos concretos. Em Janeiro deste ano noticiava-se que:

“Os 25 comandantes de bombeiros do distrito de Aveiro reuniram de emergência, ontem à noite, para decidir medidas a tomar tendo em vista impedir a nomeação de Augusto Vidal Leite para segundo comandante operacional distrital (CODIS).
Augusto Vidal Leite, de 32 anos, tem o posto de terceira classe – a mais baixa da classe de bombeiros – na corporação da Murtosa. É presidente da concelhia do PS da Murtosa e, segundo várias fontes contactadas pelo CM, a sua nomeação é vista como política.”

Note-se como o PS sacrificou um presidente de uma concelhia para servir o país e ajudar no combate aos incêndios. Parafraseando a melhor primeira-dama que o país já teve: foi feito tudo o que podia ser feito.

Jacques Hamel

A perna curta da manipulação centralista

Novo Banco: Os termos de um negócio reescrito

“É pegar ou largar. Foi assim que o Novo Banco (NB) se dirigiu esta semana aos seus obrigacionistas, “propondo-lhes” a troca de obrigações sénior, emitidas pelo banco, por contrapartida de dinheiro.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online. Sobre os termos do negócio Novo Banco, que já estão a ser reescritos.

O choradinho centralista

Ficamos hoje a saber que, sem qualquer concurso público, a televisão Pública decidiu atribuir a organização do Festival da Eurovisão a Lisboa, alugando para isso um recinto privado: o MEO Arena. Não foi nenhuma surpresa. Afinal, apesar de todo o fingimento posterior, duas horas após a vitória de Salvador Sobral a própria RTP já tinha anunciado que a Eurovisão seria em Lisboa. Ficamos sem saber exactamente quanto vai custar o Festival organizado num recinto privado em Lisboa e quanto teria custado organizado noutras cidades, possivelmente utilizando recintos mais baratos pertencentes ao Estado, como é caso do Europarque. Ficou também por saber quanto pagará a cidade de Lisboa pelo privilégio de receber o Festival e quanto será pago pelos restantes contribuintes. Até a ultra-corrupta Ucrânia fez um concurso público para decidir o local de Organização do Festival. Mas em Portugal não precisamos disso. Nada de novo num país habituado a engolir faltas de transparência na utilização de dinheiros públicos (afinal, são só 30 milhões de euros) e a aceitar esta macrocefalia como algo normal. Nada mais seria de esperar de um país que vê a presidência da Câmara de Lisboa como um degrau natural para liderar o país (António Costa, Santana Lopes e Jorge Sampaio foram todos presidentes da CML e Marcelo Rebelo de Sousa chegou a ser candidato).

Lisboa tem o melhor sistema de transportes públicos, as melhores escolas, os melhores hospitais, uma companhia aérea e televisão pública dedicadas a servir os seus interesses, capta quase todos os organismos públicos, redacções de jornais, televisões e, por arrasto, boa parte das empresas privadas. Lisboa tem assim os melhores empregos e recebe a maioria dos eventos de renome. Lembrem-se disso da próxima vez que ouvirem o choradinho habitual sobre o valor das rendas no centro de Lisboa, o alojamento local, o turismo, o aeroporto sobrelotado ou a falta de estacionamento. Se os Lisboetas querem rendas mais baratas, então que apoiem a descentralização de organismos, serviços e eventos. Se não o fizerem não têm qualquer autoridade para se queixarem das rendas. Se não querem suportar rendas altas, podem sempre ir viver para fora dos 10 quilómetros quadrados à volta do Marquês onde acham que cabe todo o país.

Racionamento

“Durante 5 anos ninguém morreu” . Não, não é o início de um romance desaparecido de Saramago, é uma história real de uma aldeia da Roménia onde estive há uns anos. A economia centralizada de Ceausescu falhava muitas vezes em produzir os bens necessários (enquanto produzia outros em excesso). Era comum o racionamento de bens essenciais como o leite e cereais. Cada pessoa recebia uma senha e tinha direito a um certo montante de cada um dos bens. Quando morria deixava de ter acesso aos bens em causa. Excepto, claro, se ninguém soubesse que tinha morrido. Nesse caso, a família podia receber um pouco mais de leite e cereais do que o planeador central tinha alocado a cada um. Nas aldeias mais isoladas, onde era mais fácil de esconder estas situações, passavam anos sem que morresse uma pessoa.

Em Portugal, felizmente, não temos esse problema com bens alimentares que são abundantemente produzidos e distribuídos por cadeias privadas de supermercados. Em Portugal, como no resto do mundo desenvolvido, a produção e distribuição dos bens alimentares pela economia de mercado fez com que o problema se invertesse: hoje os excessos alimentares matam muito mais do que a fome, que é virtualmente inexistente na maioria dos países desenvolvidos.

Mas nem todos os sectores foram poupados a esse destino. Os serviços de educação continuam a ser geridos centralmente. Sem surpresa, estão também sujeitos a racionamento. E tal como os aldeões da Roménia que não morriam, há habitantes no centro de Lisboa que são encarregados de educação para muitas crianças, muitos dos quais sem qualquer relação familiar. Há notícias de problemas com moradas falsas nas principais escolas de Lisboa e pancadaria à porta das escolas no período de inscrições (as filas de racionamento na Roménia também eram frequentemente palco de confrontos e violência). Numa economia de mercado, a Filipa de Lencastre já teria aumentado a lotação ou teria sido construída uma escola ao lado para absorver todos os residentes que ficam sem lugar. Mas no sector da educação não há mercado: há estado. E enquanto os funcionários públicos do Ministério da Segurança Social, do INE e da CGD continuarem a poder inscrever os filhos nas melhores escolas públicas, enquanto, para todos os efeitos, tiverem direito aos seus colégios privados dentro da rede pública, ninguém mexerá uma palha para alterar o sistema e tirar incentivos à fraude.

Como não consigo culpar os aldeões romenos que não enterravam os seus mortos, também não culparei quem inventa moradas falsas para dar a melhor educação possível aos seus filhos. Eu faria o mesmo.

Optimismo antropológico

Os nomes das pessoas que morreram nos incêndios em “segredo de justiça” é das desculpas mais esfarrapadas que me lembro de ler ou ouvir. Como é que as doações chegam às famílias, como é que as Seguradoras indemnizam quem devem se os dados destes estão em “segredo de justiça”? Mas pronto, é sempre possível descer mais baixo, é sempre possível que quem nos pastoreia atinja níveis de miséria insuspeitos de poder sequer existir. Sou um optimista antropológico mas às vezes fica difícil.

O confisco da morte

Responsabilidades

Quando os jornais tinham relevância, sabíamos das mortes pelas páginas da necrologia, ou simplesmente pela conversa da vizinha. O anúncio da morte não era algo que estivesse na disposição do burocrata, ou que tivesse de ser interpretada ao abrigo de uma qualquer novilíngua processual. Agora, as mortes são anunciadas pelo Ministério Público, e estão sujeitas – pasme-se – a “segredo de justiça”. Alguém me explica qual a razão jurídica que justifica que o anúncio da morte possa ser confiscado e silenciado?

Saber a real dimensão do desastre de Pedrógão, para lá das minudências burocráticas ou do newspeak orwelliano que pelos vistos capturou os poderes tradicionais do nosso sistema democrático, tornou-se um imperativo de liberdade. O jornalismo tem uma boa oportunidade para mostrar aos cidadãos que, perante a captura dos poderes tradicionais, enredados num duplopensar completamente oco, ainda tem capacidade de ser Quarto Poder, vital para o saudável funcionamento de uma sociedade livre.

Cenas da vida autárquica a 3 meses das eleições

No Porto, Rui Moreira decide a criação de uma empresa municipal a 3 meses das eleições. Na reunião da Assembleia Municipal, o mais fervoroso defensor da ideia é um recente dissidente do PSD, agora apoiante de Rui Moreira. Esperemos então que Moreira, depois de limpar o seu nome no caso Selminho, seja capaz de dizer quem será a administração desta nova empresa municipal ANTES das eleições para evitar qualquer suspeita de compra de favores. Seja como for, decidir a criação de uma empresa municipal a menos de 3 meses de uma eleição (que teoricamente até poderia perder) nunca é boa ideia. Certamente que a criação da empresa municipal podia esperar mais 3 meses.

Em Lisboa, a Câmara Municipal atribui um contrato de outdoors a uma empresa criada 6 dias antes do fim do concurso. Para além de ter sido criada 6 dias antes das eleições, teve a imensa pontaria de num concurso de mais de 3 milhões de euros com ofertas confidenciais, conseguir oferecer mais 10 mil euros do que o segundo colocado. Atribuir grandes contratos a 3 meses das eleições nunca é boa ideia. Atribuir contratos publicitários levanta ainda mais dúvidas. Se por azar esses contratos são atribuídos a empresas criadas 6 dias antes e com imensa pontaria na oferta que fazem, então a necessidade de esclarecimentos é ainda maior. Para esclarecer qualquer dúvida, convém saber exactamente quem tem interesses nesta empresa vencedora e garantir que não são os mesmos com interesses na gestão da campanha de Medina. Por transparência, Medina devia também divulgar quanto paga a quem faz a gestão de imagem na sua campanha e que não está a ter “preço de amigo”.

Moreira e Medina são, até prova em contrário, pessoas sérias, e certamente não terão problemas em acabar com qualquer dúvida que possa existir em relação a estes dois temas.

Sobre o André Ventura

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Não mencionei o candidato pelo PSD a Loures no último texto porque, de facto, não era dele que queria falar. Queria falar de quem, na resposta ao mesmo, construiu uma série de argumentos que são falsos. Gente que só vai ao bairro fazer campanha ou comprar droga, como muitos jotinhas e ex-jotinhas por este país fora ou gente que faz carreira a vitimizar os moradores sob pretexto de ajuda, como uma legião de psicólogos e sociólogos, não têm lugar neste debate e foram, consequentemente, os meus principais alvos. Elenquei-lhes uma série de mimos que não foram, como se disse, insultos, mas sim eufemismos. Mas hoje, tendo já escrito o essencial a respeito do problema, vamos ao caso Ventura.

O André Ventura falou muito bem nas entrevistas que foi dando e explicou de forma muito clara o problema, sem nunca culpabilizar o todo pela parte, ainda que a parte seja substancial. Foi menos brejeiro que Carlos Teixeira, quando presidia ao município. Aliás, erro, não foi brejeiro de forma alguma. Na entrevista ao I cometeu um erro que não é admissível a quem passeia por estes círculos há tanto tempo: generalizou para fazer brilharete e, consequentemente, enfiou toda uma comunidade na lama. Foi racista, independentemente de eu não acreditar, pelo que li e pelo que ouço de quem o conhece pessoalmente, que ele o seja. Pagará, ou não, o preço político, que remédio.

Agora fingir que não existem problemas nos bairros sociais – problemas que vão muito além da comunidade cigana e que metem negros e brancos ao barulho – é criminoso. E afirmar que há por cá gente de bem, ou que não faltarão negros e ciganos de bem, o que é verdade, não invalida que também habite por cá uma quota parte de gente de índole questionável. Não se deixem enganar em pensar que uma mão lava a outra. Vocês têm sujado ambas.

Para terminar, o último texto não foi dirigido exclusivamente à comunidade cigana, como o debate à volta do mesmo leva a crer, ainda que esta seja uma das visadas por motivos que são óbvios. Foi dirigido a toda uma comunidade com leis e costumes paralelos aos do restante país. Falar apenas de ciganos no debate que procurei abrir ontem revela aí um fetichismo pelo tema que empobrece o mesmo, porque o deixa a meio. Da mesma forma que falar em violência policial e racismo nos bairros de Lisboa deixa o tema pela metade, não fossem os bairros do Porto, em que os brancos são maioria, sujeitos aos mesmos casos – de violência por parte de arruaceiros, uns do bairro e outros da polícia, porque também os há.

Como sacanear o parlamento – parte 2

“É na arbitragem das taxas de juro associadas aos diferentes prazos que está a borla aos bancos. Custa-me acreditar que o Ministro das Finanças não tenha feito estas contas.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online. Sobre a falta de transparência governamental e a má liderança do parlamento.

Você já morou num Bairro Social?

Há um enorme problema na comunidade cigana, um problema, ainda que em menor escala, com a comunidade africana e um problema gravíssimo, que transcende raça e etnia, e inclui os brancos, nos bairros sociais por este país fora. Quem achar o contrário, ou tem a paisana à perna e não acha grande piada à ideia, ou tem que começar a sair do condomínio fechado, passear nos subúrbios, andar de transporte público a más horas, deixar o gabinete da universidade e passar a leccionar numa escola de bairro, algo do género. Essa bolha do politicamente correcto onde vocês se enfiaram, uma das causas da imunidade que grassa e das reações, algumas bárbaras, que lhe sucedem, mata pessoas. E quando eu digo que mata pessoas não o escrevo num sentido figurativo, mas num bem real.

Vocês, doutorzinhos da merda nas vossas conferências da treta do raio da problematização que vos pariu, vocês políticos com sabidos problemas de coluna, vocês sociólogos da vitimização, vocês betinhos do Bloco de Esquerda, têm sangue nas mãos. É claro que vocês, nos vossos condomínios, não estão sujeitos a levar um tiro por sugerirem ao jovem à vossa frente que fumar um cigarro no metro é capaz de não ser lá grande marco civilizacional, não têm um largo grupo de familiares armados que nem uma célula terrorista a tentar arrombar-vos a porta porque a vossa mulher não consentiu que uma sujeita a ultrapassasse na fila do supermercado, não vivem sob a ameaça de tiroteios, assaltos, espancamentos, entre outras cenas que hoje são parte do quotidiano. Vocês não viram armas e drogas no vosso 5o ano de escolaridade, não havia disso no colégio.

Vocês são os mesmos mentalmente desavantajados que quase armam uma guerra civil porque uma pita se atirou à professora devido a um telemóvel – coisa comum que é capaz de se repetir no mesmo dia – e depois ligam para os direitos humanos nas questões de peso. Quando morre um puto esfaqueado por um telemóvel ou um mãe numa bala perdida eu não vos vejo no funeral nem nos jornais a soluçar de indignação. Quando uma miúda é proibida de ir à escola não berraram: “racistas”! Criaram turmas segregadas, medida digna aos olhos de uns quantos boers. Quando um traficante é apanhado, com mais espingardas que o Rambo e uma garagem que mete inveja a muitos jogadores da bola não vos vejo armar a paródia que armaram ao senhor do Pingo Doce. Quando os polícias são corridos a balas ou duas comunidades decidem reencenar um western não há escandaleira?

Claro que não coitados, são vítimas do sistema capitalista e racista ou da puta que vos pariu. E ainda se indignam por os sujeitos serem discriminados quando voltam. “Olhe, eu tenho aqui uns anos por sequestro, tráfico de drogas, umas navalhadas em goela alheia e umas caçadeiras que tinha lá em casa, mas sou um homem honesto, dava um excelente relações públicas da sua empresa”. Quem sofre? As pessoas de bem, trabalhadores, das próprias comunidades, que se vêm acorrentadas a um espaço que vive – e com sorte sobrevive – com leis e costumes que transcendem as da sociedade portuguesa, ocupadas com guerras diárias enquanto outros se ocupam com em contar os novos géneros, insultar os turistas ou partir barbearias.

Ide lá jogar polo aquático com o Salvador, escrever a vossas crónicas dignas de analfabetos funcionais, beber um gin com salada com a malta da jota, mas deixem os problemas de gente grande para homens. Os canalhas não têm lugar aqui.

Os robots que paguem a segurança social

Tenho visto por aí muitas pessoas, algumas até bastante inteligentes, a alimentar a ideia de que vem aí uma onda de desemprego por causa dos robots e que estes devem começar a pagar IRS e segurança social na proporção dos empregos que “roubam”. Não vou discutir esse argumento. Prefiro desafiar os defensores desta ideia a falar em casos concretos. Primeiro exemplo:

Este robot trabalha 52 semanas por ano, 7 dias por semana e 24 horas por dia. Um polícia sinaleiro trabalharia 46 semanas por ano e 35 horas por semana. Ou seja, o robot da imagem rouba o emprego a 5.4 trabalhadores. Contas por alto, cada polícia sinaleiro pagaria cerca de 7 mil euros por ano de IRS e segurança social. Concordamos então que cada semáforo deveria pagar 37800 euros por ano de impostos ao estado?

Voltarei amanhã para falar das bombas de água e dos aguadeiros.

Centralismo, mentiras e spin – A Telenovela da Agência Europeia do Medicamento

Comecemos pelo meio da história. A 29 de Abril, Álvaro Almeida, especialista em economia da saúde e candidato à Câmara Municipal do Porto, fez notar na sua página do Facebook que o governo tinha decidido candidatar Lisboa à Agência Europeia do Medicamento sem nunca ter ponderado a possibilidade de candidatar o Porto.

Ninguém presta muita atenção ao assunto e o próprio não voltaria a pegar no tema durante algum tempo (cinco dias depois foi referido aqui no Insurgente). A 15 de Maio, a propósito da realização do festival da Eurovisão, Rui Moreira toca no tema pela primeira vez. No princípio de Junho mais alguns comentadores juntam-se ao coro de protestos e é aqui que começa a parte engraçada.

1 de Junho: a presidente do Infarmed, situado em Lisboa, afirma que apenas Lisboa pode receber a Agência Europeia do Medicamento porque é necessária “infra-estrutura hoteleira enorme, um aeroporto com capacidade, escolas, jardins-de-infância de língua estrangeira”

7 de Junho: Augusto Santos Silva diz que “Dos estudos que realizámos e da ponderação que fizemos das nossas vantagens face aos concorrentes entendemos que Lisboa era a localização que oferecia mais condições” e que “a eventual relocalização da Agência Europeia do Medicamento em Lisboa terá benefícios para todo o país”

8 de Junho: Rui Moreira exige ver os tais estudos

13 de Junho: De acordo com todos os jornais, António Costa escolhe Lisboa para captar agência do medicamento apontando como razões “a existência de Escola Europeia, que só Lisboa poderá vir a ter” e pela “conveniência da proximidade do Infarmed”.

15 de Junho: As fracas justificações redobram os protestos expõem cada vez mais a mentira de que teria havido estudos. Desesperado, o PS decide utilizar a Lusa e o Diário de Notícias para lançar o spin: Costa sempre tinha preferido o Porto, mas depois da visita à actual sede a Londres tinha mudado de opinião. De acordo com a “fonte do governo” do Público “Foi explicado ao primeiro-ministro que Lisboa oferecia melhores garantias de segurança do que o Porto e que a opção pela capital portuguesa era a única que reunia condições mínimas de êxito da candidatura”
E é aqui que vale a pena voltar atrás ao dia 10 de Fevereiro, quando a decisão ainda estava a ser tomada. Nessa altura, a Renascença noticiava a tal visita a Londres que Costa falava. Noticia a Renascença antes da visita que “O Governo anunciou que está disponível para acolher a Agência Europeia do Medicamento, actualmente localizada no Reino Unido, e vai enviar segunda-feira a Londres o ministro da Saúde para a realização de uma visita àquele organismo.(…)Convictos de que Lisboa é a cidade mais adequada para esta relocalização, o Governo português irá transmitir os méritos da capital portuguesa e assegurar o empenho nacional”

17 de Junho (sim, dois dias depois!): Depois de garantir que havia estudos que declaravam Lisboa como a melhor opção, governo reabre o processo de candidatura à Agência do Medicamento

22 de Junho: Cinco dias depois começa-se a perceber a generosidade. Sai num jornal alemão o rumor de que a nova sede da Agência do Medicamento já tinha sido escolhida: Lille. Qualquer que fosse a cidade portuguesa candidata, a candidatura estaria perdida.

13 de Julho: Depois de ter garantido que só Lisboa poderia receber a Agência do Medicamento pela proximidade ao Infarmed, que só Lisboa tinha a capacidade aeroportuária, que só Lisboa tinha escolas internacionais e capacidade hoteleira, depois de garantir que havia estudos que apontavam Lisboa como melhor opção, depois de garantir que uma visita à actual sede tinha determinado que só Lisboa poderia receber a Agência Europeia do Medicamento, depois de se tornar claro que Portugal dificilmente teria hipóteses de ganhar o concurso, o governo decidiu que, afinal, a melhor candidatura seria a do Porto. Está completo o golpe de teatro.

Entretanto, faltam menos de 10 meses para o Festival da Eurovisão e a RTP ainda nem sequer lançou o concurso para decidir a cidade que o irá receber.

Porto é a cidade portuguesa candidata a sede da Agência Europeia do Medicamento

Há apenas algumas semanas, o primeiro-ministro, e ex presidente da Câmara de Lisboa, António Costa garantia que Lisboa era a única cidade portuguesa com capacidade para receber a Agência Portuguesa do Medicamento. Segundo os centralistas, mais nenhuma cidade tinha escolas, capacidade hoteleira ou aeroportuária para receber a Agência Europeia do Medicamente. Hoje, o Conselho de Ministros concluiu que a melhor opção afinal era o Porto. uma cidade que nem merecia ser ponderada há algumas semanas acabou, depois de uma avaliação aprofundada, escolhida como a melhor opção.

Não é uma vitória para o Porto (que não terá a Agência de qualquer forma), é uma vitória para o país que aprendeu que vale a pena protestar em vez de aceitar decisões tomadas por políticos centralistas que conseguem ao mesmo tempo rebentar com a capital e desertificar o resto do país. É uma lição para o futuro, para que decisões como esta não sejam tomadas sem concurso público, sem ouvir todos os interessados.

Como sacanear o parlamento (e o cidadão)

“O ministro das Finanças vai ao Parlamento e diz-nos o que não fez, em vez de nos dizer o que tem andado a fazer. No orçamento, nas cativações. Mas há outras perguntas a que deve responder.”

Destaque do meu artigo de hoje no ECO – Economia Online. Sobre a falta de transparência da política portuguesa.

Um lamento

É pena que o Ricardo não tenha a frontalidade de me nomear quando está a responder a críticas que lhe fiz. Fico assim a saber que não vale a pena discutir com ele.

Apoiante de Bernie sobre Trump e Rússia no G20

Reparem como são cegos os grandes media em Portugal: até estes apoiantes de Bernie, progressistas até ao tutano mas cujas fontes não se esgotam na CNN e NYT, veem como histórico e muito positivo o dia de hoje. Ignorem os comentários progressistas e ouçam os comentadores… e depois comparem com o que ouvem na televisão portuguesa. Revelador.