O alerta de Stefan Zweig

A minha crónica no i.

O alerta de Stefan Zweig

Durante anos fiz orelhas moucas sempre que o meu pai me dizia para ler os livros de Stefan Zweig que estavam lá em casa. Em plena década de 90, numa época de paz, à porta do fim da história, sem que se vislumbrasse o que pusesse termo à prosperidade mundial que se vivia, os livros de Zweig eram de outro tempo.

Como o próprio refere no seu “O Mundo de Ontem – Recordações De Um Europeu”, a sua vida, desde 1881 até 1942, passou por altos e baixos, perdas e conquistas que consideramos inimagináveis. Nascido em Viena quando o Império Austro-Húngaro ainda dominava o centro-sul da Europa e a sua capital era um dos seus centros culturais, Zweig conheceu o Velho Continente do séc. XIX, por onde se viajava sem passaporte e sem que se justificasse para onde se ia, porque se ia e por quanto tempo.

Tudo isso Zweig viu desaparecer com a I Guerra Mundial, a inflação, que veio logo a seguir, e a guerra que irrompeu em 1939 e que ele não viu terminar, em 1945. O mundo pacífico de Zweig, que o próprio pretendia aproveitar para criar arte, tornou–se um tumulto, uma balbúrdia que o obrigou a fugir do seu país e a terminar os seus dias num local onde ele, um cidadão do mundo, não se sentia em casa.

Li nesta primavera “O Mundo de Ontem”, de Zweig. Pareceu-me propícia a altura para que não me esqueça de que nada é garantido. Nascido num mundo seguro semelhante ao nosso, Zweig tornou-se um apátrida sem lugar e sem referências. Escreveu para nos dizer como era e, fazendo-o, avisou-nos dos riscos de como pode voltar a ser.

 

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Genocídios politicamente correctos

72 anos atrás, 6 de Agosto de 1945. Hiroshima, Japão. Governo dos EUA decidiu exterminar milhares de cidadãos japoneses. Três dias depois, a 9 de Agosto, fez o mesmo na cidade de Nagasaki. No total mais de 129.000 mortos.

Cerca de 6 meses antes, entre 13 e 15 de Fevereiro, bombardeiros britânicos e norte-americanos dizimaram a cidade alemã de Dresden matando uns 25.000 habitantes.

As atrocidades dos regimes nazi e japonês não podem ser esquecidas. No entanto, relembrar as acções imorais de quem escreveu a história, os governos vencedores, é também nosso dever.

Aos verdadeiros empresários

A minha crónica no Jornal Económico.

Aos verdadeiros empresários

Há uns anos fui jantar numa nova pizzaria no bairro onde vivo em Lisboa. Era uma pizzaria peculiar porque gerida por Nepaleses. Mas as pizzas eram boas, o ambiente simpático, com luzes ténues e agradáveis no interior, e uma esplanada que dava para a avenida, onde se jantava excelentemente no Verão. Os preços eram acessíveis e os donos prestáveis. Falavam mal o português e reparei que nos serviam com uma certa timidez e embaraço. Deram-me a sensação de que não queriam dar nas vistas, como se receassem que alguém reparasse no que estavam a fazer e perdessem o que tinham: aquele estabelecimento. Escrevo na forma verbal do passado, mas o restaurante continua a existir e recomenda-se.

Tornei-me cliente e vou lá de vez em quando. Outro dia, vi um dos donos à porta de outro restaurante que ia abrir no bairro. Ainda estava em obras e ele olhava para aquilo tudo com o mesmo ar inquieto de sempre. Parei e cumprimentei-o; foi a custo que me confirmou que aquele também era dele. E puxando a conversa lá arranquei a informação de que já tinham, em Lisboa, ele e os outros sócios, dez restaurantes. Disse-o a medo, olhando-me de lado devido talvez à minha cara de espanto, mas devo ter-me mostrado orgulhoso pelo seu feito, pois sorriu logo de seguida.

Como advogado tenho dado assistência jurídica a vários empresários assim: que trabalham com gosto, arriscam, têm medo. A maior parte das pessoas não percebe, mas o medo, aquele frio na barriga, é inevitável quando criamos um negócio nosso. A maioria não o percebe porque julga que ter uma empresa, criar um negócio, ser chefe, é mandar e andar por aí a dar-se ares de importante. Esta crónica reúne experiências de vários dias diferentes e foi num outro que tive uma conversa com um amigo que trabalha numa grande multinacional e que se quer despedir para montar um negócio. Rapidamente me apercebi que ele não tinha a mínima noção do risco inerente, não tinha a mínima ideia do que era dar a própria casa como garantia aos bancos para que conseguisse o empréstimo que precisava. Ele trabalha horas infindas, mas não sabe o que é arriscar.

Esta falta de noção da realidade, até entre quem trabalha no sector privado, deve-se a uma ideia preconcebida de que ser empresário é ganhar dinheiro fácil e ter pessoas a trabalhar por nós. Esta percepção advém de um preconceito socialista, cuja simplificação justifica o intervencionismo estatal e a redução das liberdades individuais, e de um sistema partidário que prefere empresários com fortes ligações ao poder político, como foi o caso de Ricardo Salgado, da PT e da EDP, a empresas fortes e independentes, mesmo que pequenas. Mas quem sabe, sabe que um bom empresário, acima de tudo, quer ser livre.

Libertação interior

A minha crónica no i.

Libertação interior

Este verão regresso a Paul Bowles. No ano passado foi na forma dos contos, agora é com as viagens. Este norte-americano, que viveu grande parte da sua vida entre Tânger e a sua casa numa ilha junto a uma praia no Ceilão, andou pelo mundo de uma forma que hoje não se associa como sendo viagem.

Nos seus textos, Bowles não nos dá referências para que o copiemos, nada nos sugere que façamos. Conta-nos como é: como é dormir num hotel na Índia; como era a vida de um artista em Paris quando Gertrude Stein ainda por lá andava; como é o silêncio do deserto e o céu que nos protege, “sólido e luminoso”, mesmo por cima de nós, cheio de estrelas “que parecem clarões”. Lendo-o, vemos e cheiramos os sítios por onde andou.

Mas as viagens de Bowles são ainda mais que os locais que visitou. São ele próprio, a sua forma de estar, de viver a vida. E nós libertamo-nos por momentos da lufa-lufa diária de casa-escola-trabalho-escola-casa para nos abrirmos para algo que nos transcende. Bowles não era um bom escritor apenas porque escrevia boas histórias: os seus livros transmitem o que não vimos, o que não sentimos, aquilo que nem sabíamos que existia ou, se sabíamos, desconhecíamos como seria.

As suas viagens não se desatualizam por terem sido escritas há mais de 50, 60 anos. São tremendamente actuais, dignas de serem revividas através das suas palavras. E nós ficamos inimaginavelmente gratos pela oportunidade de as lermos e, nessa experiência, sermos diferentes por momentos que abrem os nossos olhos a outras realidades que não a nossa.

Todos têm direito ao disparate

Se calarem Gentil Martins por ser médico, terão de calar Francisco Louçã por ser economista. A minha crónica no i.

Todos têm direito ao disparate

Uma das críticas feitas a Gentil Martins, quando declarou que a homossexualidade é uma anomalia, reside no facto de este não ser um médico qualquer. Na verdade, Gentil Martins é um médico pediatra conceituado. A sua opinião é tida em conta, muitas vezes como verdadeira apenas porque proferida por ele.

Compreendo este ponto de vista, apesar de Gentil Martins ser quem é por ter mantido as suas posições ao longo da vida. Mas o argumento falha também porque, se o seguirmos, muitos outros intervenientes do espaço público, pessoas cujas opiniões são tidas em conta, teriam de pensar duas vezes antes de falar; seriam talvez proibidos de o fazer, o que seria inadmissível num Estado de direito como é Portugal.

A título de exemplo, o economista Francisco Louçã teria de ter muito cuidado com os seus comentários em matéria económica, na medida em que estes estão inquinados pelo seu projeto político. Louçã utiliza as suas credenciais de economista quando, na verdade, está a fazer política. As suas afirmações têm pouca base científica, servindo apenas para sustentar o seu projeto político.

Partindo daqui poderíamos dar outro salto em frente, desta vez em direção a Jerónimo de Sousa. O líder do PCP sabe melhor que ninguém no que deu o comunismo. Apesar disso, defende-o com unhas e dentes. Pior: fá-lo em nome dos pobres, que foram os que mais sofreram com os regimes totalitários que o seu partido apoiou. Ora, da mesma forma que não passa pela cabeça de ninguém calar Louçã e Jerónimo, não me parece que se deva calar Gentil Martins.

Trumpices

Trumpismo no seu melhor. As autoridades podem apreender a propriedade de pessoas que nem sequer estão acusadas de crime, incluíndo em estados onde esta forma de roubo se encontra banida. Só pode ser fake news pois a fonte é jornalista da CBS.

Aceitar ‘os nossos’ é fácil

Podemos não concordar com ela, mas todos têm direito à sua opinião. É quando não concordarmos que o respeito se torna, não importante, mas indispensável. Aceitar quem pensa como nós é fácil. Tentar compreender, debater, contradizer as ideias daqueles de quem discordamos, isso sim é o que nos torna em verdadeiros amantes da liberdade.

Como é que a história nos vai julgar?

Hoje no Jornal Económico.

Como é que a história nos vai julgar?

Em Maio, o BCE alertou Portugal que a economia nacional não vai crescer o suficiente para baixar a dívida. Há uns anos, o país precisava ter taxas de crescimento económico de 3% para compensar os défices de 3% do PIB, o máximo que a UE permitia aos nossos governantes, de forma a que estes não pusessem em causa o emprego e a estabilidade que o euro garantia. Agora, já nem isso chega. Na verdade, as taxas de juro da dívida são de tal forma elevadas que só com níveis de crescimento económico muito superiores aos alcançados nas últimas décadas é possível baixar essa mesma dívida. A situação é, pois, calamitosa.

A grande maioria olha para o parágrafo em cima e questiona-se: mas o país não está melhor? Não vemos todos os dias novos negócios a surgir e o Estado até não saiu do Procedimento por Défice Excessivo? Infelizmente, isso é tudo verdade ao mesmo tempo que é tudo mentira. Fruto da realidade incerta que o Governo fomenta, o país revive a conhecida experiência de crescer à custa de dívida. Quando a dívida pública subiu, entre Março e Abril de 2017, 3,9 mil milhões de euros contra os 5,3 mil milhões em todo o ano 2015, podemos concluir que parece que estamos mais ricos, quando na realidade estamos muito mais pobres.

O Governo de Costa tem vivido dos resultados do governo anterior, mas também de uma folga na política monetária que o BCE e a FED tornaram possível enquanto a economia mundial não descolava. Mas até isso tem os dias contados. Não só as políticas do período da troika têm efeitos limitados no tempo como, tanto a FED como o BCE se preparam para  subir as taxas de juros e reduzir os estímulos à economia. Quando isso suceder termina a folga que os bancos centrais permitiram para que os Estados se pudessem reformar, mas que Portugal usou para alimentar clientelas.

Há o sério risco de Portugal se tornar um Estado falhado dentro da Europa, apenas sobrevivendo porque a UE nos segura. Pedrógão, Tancos, as cativações orçamentais que põem em causa serviços públicos para que se conservem benesses dos que votam ordeiramente, são apenas um pequeno aviso do que aí vem. Tal só não acontecerá se o país mudar e mudar muito. Nesse sentido é muito importante que o PSD, ou outra formação política que surja em condições de implementar as reformas necessárias, apresente um programa de governo clarificador. Caso contrário, a letargia a que fomos conduzidos reduzirá Portugal a uma completa submissão em troco de um mínimo de paz social. É legítimo que o país o aceite, mas depois não será legítimo que se queixe. Tal como não será legítimo que nos espantemos com a forma como seremos julgados pela história.

Acima de tudo, manter a casta

A minha crónica hoje no i.

Acima de tudo, manter a casta

Afinal, o histórico défice de 2% do PIB foi conseguido à custa de cativações. Ou seja, o governo não permitiu certas despesas, pondo em causa a prestação de certos serviços públicos, para compensar a reversão dos cortes nos salários da função pública e das pensões.

Aquilo de que se suspeitava – porque o dinheiro não é elástico – está hoje à vista: o plano B do socialismo é pagar clientelas, mesmo que à custa do Estado. António Costa e o seu círculo político perceberam que a única forma de o PS não seguir o caminho de outros partidos socialistas europeus é através da compra de votos. E qual cacique dos tempos modernos, Costa prometeu benesses pagas com fundos públicos, mesmo que à custa do bem comum.

Para piorar a narrativa, e como o crescimento económico dos últimos meses foi conseguido à custa de mais dívida, lá chegará o dia, ou porque já não há condições para pagar mais benesses ou porque o Estado falhou outra vez como aconteceu em Pedrógão e em Tancos, em que acordamos outra vez para a realidade.

Esse momento será cómico, para não dizer triste. Aquele em que Bloco e PCP lavarão as mãos e se tentarão salvar a qualquer custo. Quais ratos, saltarão borda fora na esperança de escaparem e acusarem outros da desgraça para a qual contribuíram. Exímios que são nessa prática política, que agora se considera uma arte, não terão dificuldades em prevalecer. Não deixa de ser curioso como o socialismo se modernizou ao ponto de pôr em causa a boa execução das funções próprias do Estado.

Uma vitória da esquerda

Falhas no incêndio em Pedrógão, o assalto em Tancos que afinal foi uma espertice para enganar os gatunos, a forma como Costa pôs as chefias militares a piar fininho, as demissões dos secretários de Estado por viagens feitas há um ano para verem os jogos do Euro2016. Não foram os partidos de esquerda que nos disseram que na política ia mandar a economia? Olha, conseguiram.

O Urso e o “urso”

 Há uns dias, o nosso Ricardo Campelo Magalhães, o autoproclamado “Insurgente que mais atenção presta à política americana”, viu um vídeo de uns apoiantes de Bernie Sanders, um conhecido socialista que achou que o local ideal para passar a lua-de-mel era a União Soviética, a elogiarem o “histórico e importante” dia em Trump e Putin se reuniram e anunciaram um cessar-fogo na Síria (a juntar aos muitos outros que já foram anunciados e que a Rússia e o regime sírio aproveitam para preparar ataques à oposição síria mas que, curiosamente, deixam o ISIS a salvo, quando não o ajudam), e ficou encantado. Compreendo o impulso. Idealmente, uma aproximação entre os EUA e a Rússia seria uma bênção para ambos os países, e também para o resto do mundo. Mas levar a sério essa possibilidade é cometer o mesmo erro que os desastrados Barack Obama e Hillary Clinton cometeram em 2008, ou (em menor grau e mais compreensivelmente, já que Putin estava há pouco tempo no poder e talvez não fosse ainda não tão clara a natureza do seu regime)George W. Bush após o 11 de Setembro: não compreender que uma reaproximação entre a Rússia e os EUA não é possível nem desejável, porque os interesses do regime de Putin não são conciliáveis com os interesses de um país democrático e aberto ao resto do mundo.

O interesse dos EUA (e diga-se de passagem, o nosso) é (ou pelo menos costumava e deveria ser) um mundo o mais pacífico possível, o mais aberto possível ao comércio livre, e também o mais democrático possível, e da combinação de todos estes factores, o mais próspero possível. O interesse de Putin e da rede mafiosa que gira à sua volta reside em enriquecer e manter o seu poder político intacto, até porque sem ele não poderão encher as contas bancárias. Para isso, precisam – por exemplo – de um Médio Oriente instável, para que o preço do petróleo seja o mais alto possível para que os seus rendimentos, muito dependentes do sector energético, não sejam muito afectados, e daí a promoção da perpetuação da guerra civil na Síria. Precisam, também, de promover uma política externa agressiva para com estados seus vizinhos como a Ucrânia, a Estónia, a Lituânia, a Letónia ou a Moldávia, apelando ao “fervor” nacionalista do povo russo, que assim se distrai da decadência económica e militar do país e se une em torno do líder político que enriquece enquanto grande parte da população passa fome ou se embebeda até à morte.

Acima de tudo, a propaganda russa (basta ver a RT) precisa de passar a ideia de que a democracia dos EUA ou dos países europeus é tão disfuncional e corrupta como o disfuncional e corrupto autoritarismo que Putin comanda. Daí a inegável interferência na campanha eleitoral americana: em primeira instância, Putin pretendia descredibilizar a candidata que se esperava que fosse ganhar, Hillary Clinton (que, convenhamos, não requeria um grande esforço para ser descredibilizada, dado o passado pouco abonatório da máquina política da família), e em segundo lugar, promover um candidato com um longo historial de negócios duvidosos com indivíduos ligados à máfia russa, que colocou na estrutura da sua campanha gente com um passado de ligações ao Kremlin (Paul Manafort, Michael Flynn, e Carter Page), e que veio publicamente pedir à Rússia que interceptasse e divulgasse os emails de Clinton. Precisamente por todos estes elementos tornarem no mínimo plausível (mesmo que não seja verdadeira) a ideia de que Trump estava conscientemente em “conluio” com a Rússia (e ninguém, excepto os potenciais intervenientes, sabe se estava ou não), Putin preferia promover a candidatura de Trump e descredibilizar a de Clinton: na pior das hipóteses manchava ainda mais a já frágil reputação da candidata Democrata, e na melhor das hipóteses, via ser eleito Presidente dos EUA um candidato que lhe dava pela confiança de que a sua mera eleição descredibilizaria gravemente o processo eleitoral americano junto de uma parte significativa da população, e de que um eventual impeachment motivado pela forma como se deixou enredar na teia do “Kremlingate” ou pelo seu duvidoso passado financeiro minaria a confiança dos seus apoiantes (que duvidariam sempre da legitimidade desse impeachment) nesse mesmo processo; enquanto isso, todas estas atribulações permitem-lhe, na Rússia, dizer “olhem como eles não se governam”, que é o seu principal objectivo.

Por isso, provavelmente, mandou os seus assalariados Manafort e Flynn insinuarem-se junto da campanha de Trump, que ingenuamente os aceitou e logo se deixou comprometer; por isso terá usado o seu aparelho diplomático nos EUA para encetar conversações com Jared Kushner e ou levá-lo a pedir acesso a um sistema de comunicações na embaixada russa que lhe permitisse comunicar com o Kremlin sem estar sujeito à normal fiscalização de comunicações diplomáticas por parte do aparelho de Estado americano, ou dizer isso mesmo sendo falso numa chamada telefónica do embaixador que saberiam estar a ser escutado, com o simples propósito de o comprometer; por isso terá usado a advogada com ligações ao seu aparelho político Natalia Veselnitskaya para atrair o pouco inteligente Donald Trump, Jr. a uma reunião comprometedora, sabendo que o pobre rapaz não teria o juízo necessário para avisar imediatamente o FBI em vez de se deixar manipular por velhas tácticas da espionagem russa.

Sabendo tudo isto, por muito compreensível que seja o desejo de Trump de melhorar as relações com a Rússia e assim resolver uma série de problemas em que os EUA estão envolvidos, é difícil perceber como o Presidente dos EUA não se apercebe de que os esforços nesse sentido, por muito sinceros que possam ser, são fúteis e contraproducentes. E perante isto, só restam duas hipóteses: ou Trump está conscientemente – seja por que razão for – a colaborar activamente com o Kremlin para “tornar a Rússia grande de novo” e fortalecer o Urso russo, ou – perdoe-se o plebeísmo – está a fazer figura de “urso”. Estando familiarizado com as declarações públicas e a acção do senhor, inclino-me para a segunda, mas nunca se sabe.

Trumpgate

 No passado dia 8, o New York Times noticiou que Donald Trump, Jr. o filho do Presidente dos EUA, se tinha reunido com uma advogada russa – Natalia Veselnitskaya – com ligações ao regime de Vladimir Putin a 9 de Junho de 2016, poucos dias antes do ataque informático ao Partido Democrático ter sido tornado público, e que a reunião tinha contado ainda com a participação de Paul Manafort, o então director de campanha de Trump com um pouco abonatório historial de serviço a políticos próximos do Kremlin na Ucrânia, e Jared Kushner, genro de Trump e alguém que viria meses mais tarde a pedir à embaixada russa que lhe fornecesse um sistema de comunicações que o permitisse comunicar com o Kremlin sem estar sujeito à normal fiscalização de comunicações diplomáticas por parte do aparelho de Estado americano.

Trump, Jr. respondeu à notícia do New York Times dizendo que a reunião lhe fora pedida por um seu conhecido, mas que o nome da pessoa com quem ele se iria reunir não lhe foi fornecido – o homem aparentemente não achou por bem perguntar, ou se perguntou, não achou estranho que não lhe fosse dito – e que se tratara de “uma pequena reunião introdutória” em que se discutiu “principalmente” um “programa de adopções de crianças russas por famílias americanas” que o governo russo “terminou”, e que não houve qualquer contacto posterior.

O que Trump, Jr. não disse foi que a questão das adopções é o pretexto sob o qual Veselnitskaya faz uma campanha contra o chamado Magnitsky Act: depois de Sergei Magnitsky, um advogado que denunciara actos de corrupção do regime russo, ter morrido na prisão, os EUA colocaram mais de quarenta cidadãos russos – aparentemente ligados à morte de Magnitsky – numa de lista de indivíduos sujeitos à apreensão dos seus bens no país e sem vistos para se deslocarem aos EUA; em resposta, Putin decidiu proibir a adopção de crianças russas por parte de cidadãos americanos; desde então, Veseltnitskaya, casada com um ex-governante russo, advogada de um banqueiro russo envolvido num escândalo de lavagem de dinheiro de oligarcas putinistas através de um banco no Chipre, e posteriormente envolvida num filme que procurava descredibilizar William Browder, um empresário americano que se tornara um feroz crítico do regime de Putin, tem usado o problema das adopções como uma forma de argumentar pelo fim do Magnitsky Act, e assim pelo levantamento das restrições impostas aos cidadãos russos. Repare-se, no entanto, que a senhora não intercede junto do homem que efectivamente impede essas adopções – Vladimir Putin -, antes exerce influência sobre quem poderá ajudar uns vigaristas russos a recuperarem o seu dinheiro e envolve-se em esforços para denegrir quem alerta para o seu carácter duvidoso.

Seja como for, no dia seguinte, o mesmo New York Times noticiou que três conselheiros da Casa Branca que haviam sido informados do que se passara na reunião de Trump, Jr., Manafort e Kushner com Veselnitskaya confirmavam que o filho do Presidente se reunira com a advogada russa depois de ela lhe ter prometido “informação prejudicial” para Hillary Clinton – recorde-se que a reunião e o pedido para ela ter lugar ocorreram poucos dias antes do anúncio público do ataque russo ao sistema informático, mas depois de este ter sido realizado.

Em resposta, Trump, Jr. afirmou que “a mulher afirmou que tinha informação de que indivíduos ligados à Rússia estavam a financiar o Democratic National Committee e a apoiar a senhora Clinton”, mas que “não foi dado” qualquer “detalhe” ou “informação” que o confirmasse, e que a conversa logo passou para a questão das adopções do Magnitsky Act. “As pretensões de informação potencialmente útil”, disse Trump, Jr., “não passaram de um pretexto” usado por Veselnitskaya para o atrair para uma reunião (que, acrescento eu, o compromete a ele).

Ou seja, Donald Trump, Jr., julgando estar a defender-se, não só disse ter mentido na resposta inicial à notícia do New York Times, como confirmou que só teve a reunião porque lhe fora prometida, por uma advogada ligada ao Kremlin, informação comprometedora acerca de Hillary Clinton, e que efectivamente procurou colaborar com uma agente de uma potência estrangeira que pretendia fragilizar processo eleitoral americano, no sentido de influenciar o resultado prejudicando a candidata que se opunha ao seu pai, e que só não o fez porque afinal essa mesma agente – malandra – não tinha a informação que lhe prometera dar. Para piorar as coisas, num conjunto de emails que o próprio Trump, Jr. hoje divulgou, fica claro que Trump, Jr. só se reuniu com a advogada russa depois do seu intermediário lhe ter dito que tinha “informação que incriminaria Clinton”, e que a partilha dessa informação “fazia parte do apoio da Rússia e do seu governo ao senhor Trump”. “Se isso é o que diz”, terá respondido Trump, Jr., “eu adoro”.

Embora a gravidade da coisa salte à vista de qualquer um, Trump, os seus aguadeiros e os seus apoiantes (como o Ricardo, cada vez mais apaixonado pelo “macho alpha” que “domina qualquer interação”) não hesitarão em dizer que não há aqui problema nenhum, o que só porá a nu a sua estupidez, a sua hipocrisia, ou a sua sobre-humana combinação destas duas “qualidades”.

Sobre o discurso de Trump na Polónia

Tenho notado por aqui e por ali um certo entusiasmo da “direita” portuguesa com o discurso que Donald Trump fez na sua visita à Polónia. Das duas uma: ou gostaram do dito porque não o perceberam, e na ânsia de contrariar “a esquerda” e “o politicamente correcto”, não conseguem conter o reflexo de elogiar tudo aquilo a que eles se oponham, ou então gostaram precisamente por terem percebido muito bem, o que será ainda pior. A propósito do assunto, vale a pena ler três artigos publicados por três diferentes autores na The Atlantic. No mais recente, escreve David Frum:

“In Poland, President Trump at last delivered the pledge he omitted from his speech at Brussels’s NATO headquarters. “To those who would criticize our tough stance, I would point out that the United States has demonstrated not merely with words but with its actions that we stand firmly behind Article 5, the mutual defense commitment.” But who now will be reassured by these glib words? The whole world has seen how long and how fiercely President Trump squirmed to avoid pronouncing them—and the world, friendly and hostile, will draw conclusions accordingly. As President Trump rightly noted, “Words are easy, but actions are what matters.” Trump’s actions reveal a president disturbingly infatuated with Russia first as a businessman, then as a candidate for president. Trump’s actions reveal a seeming affinity for Putin-style authoritarianism. His actions reveal that his words about NATO cannot be trusted—and they will not be trusted. (…)it’s even stranger to hear Donald Trump speak of “our own fight for the West.” If his foreign policy has had one theme since January 2017, it has precisely been to smash the unity of the Western alliance. The spinal column of the Western alliance is the U.S.-Germany relationship, and Trump has undermined it since Day One. This speech itself amounts to one more such blow against unity: Trump traveled to Warsaw to praise and reward a Polish government that all America’s other leading allies in Europe have been reproving for its suppression of free media and politicization of its legal system. Trump’s speech in praise of the unity of the West predictably and perversely ended up being an attack on the unity of the West. (…) the most troubling thing about the speech was the falsehood at its core; the problem is not with the speech, but with the speaker. The values Trump spoke for in Warsaw are values that he has put at risk every day of his presidency—and that he will continue to put to risk every day thereafter. Trump’s not wrong to perceive a threat to the Euro-Atlantic from the south and east. But the most recent and most dramatic manifestation of that threat was the Russian intervention in the U.S. election to install Donald Trump as president. The threat from outside is magnified by this threat from within—and it is that truth that makes a mockery of every word President Trump spoke in Warsaw.”

Noutro artigo, escreve James Fallows:

“Our current president began his trip to Europe with a speech in Poland that minimized the role of ideals in American identity, and maximized the importance of what he called “civilization” but which boils down to ties of ethnicity and blood.From Donald Trump this cannot be a great surprise, given the support he has courted and the American groups he has derogated during his time on the public stage. But for a president of the United States it still counts as a notable, even shocking departure. A president’s role when traveling has, until now, been to speak for the American idea. (…)
At least when speaking to the world, American presidents have emphasized an expanded “us.” All men are created equal. Every man is a German. Ich bin ein Berliner. Our realities in America have always been flawed, but our idea is in principle limitless. Give me your tired, your poor, your huddled masses yearning to breathe free. Trump gave grace-note nods to goals of liberty and free expression. Mainly, though, he spoke not about an expanded us but instead about us and them. He spoke repeatedly about our “heritage,” our “blood,” our “civilization,” our “ancestors” and “families,” our “will” and “way of life.” Every one of these of course has perfectly noble connotations. But combined and in practice, they amount to the way the Japanese nationalists of the early 20th century onward spoke, about the purity of “we Japanese” and the need to stick together as a tribe. They were the way Mussolini spoke, glorifying the Roman heritage—but again in a tribal sense, to elevate 20th-century Italians as a group, rather than in John F. Kennedy’s allusion to a system of rules that could include outsiders as civis romanus as well. They are the way French nationalists supporting Marine Le Pen speak now, and Nigel Farage’s pro-Brexit forces in the U.K., and “alt-right” activists in the United States, and of course the Breitbart empire under presidential counselor Steve Bannon. They rest on basic distinctions between us and them as peoples—that is, as tribes—rather than as the contending ideas and systems that presidents from our first to our 44th had emphasized.”

Se Fallows comparou o discurso de Trump na Polónia com um do antigo Presidente Carter no mesmo país, Peter Beinart fez um paralelo com vários discursos de George W. Bush:

“In his first presidential visit, in 2001, Bush never referred to “the West.” He did tell Poles that “We share a civilization.” But in the next sentence he insisted that “Its values are universal.” Because they are, he declared, “our trans-Atlantic community must have priorities beyond the consolidation of European peace. We must bring peace and health to Africa. … We must work toward a world that trades in freedom … a world of cooperation to enhance prosperity, protect the environment, and lift the quality of life for all.” In 2003, Bush returned, and in his main speech didn’t use the terms “West” or “civilization” at all. After celebrating Poland’s achievements, he said America and Europe “must help men and women around the world to build lives of purpose and dignity” so they don’t turn to terrorism. He boasted that America was increasing its funding to fight global poverty and AIDS because “we add to our security by helping to spread freedom and alleviate suffering.” And he said “America and Europe must work closely to develop and apply new technologies that will improve our air and water quality, and protect the health of the world’s people.” (…)In his 2003 speech, Bush referred to democracy 13 times. Trump mentioned it once. And for good reason. Ideologically, what links the current American and Polish governments is not their commitment to democracy—both are increasingly authoritarian. It is their hostility to Muslim immigration. The European Union is suing Poland’s government for refusing to accept refugees. Among Trump’s biggest applause lines in Warsaw was, “While we will always welcome new citizens who share our values and love our people, our borders will always be closed to terrorism and extremism of any kind.” Given that Trump had linked “our values” to America and Poland’s “tradition,” “faith,” “culture,” and “identity,” it wasn’t hard to imagine whom that leaves out. (…) When Bush spoke in Poland, America’s leaders still mostly discussed globalization as a process by which America improved the rest of the world. Trump generally discusses globalization—the movement of both goods and people—as a process by which the rest of the world cheats, weakens, and threatens America. In his two speeches in Poland combined, Bush used variations of the word “defend” five times. Trump used them 21 times in a single speech. The most shocking sentence in Trump’s speech—perhaps the most shocking sentence in any presidential speech delivered on foreign soil in my lifetime—was his claim that “The fundamental question of our time is whether the West has the will to survive.” On its face, that’s absurd. Jihadist terrorists can kill people in the West, but unlike Nazi Germany or the Soviet Union, they cannot topple even the weakest European government. Jihadists control no great armies. Their ideologies have limited appeal even among the Muslims they target with their propaganda. ISIS has all but lost Mosul and could lose Raqqa later this year. Trump’s sentence only makes sense as a statement of racial and religious paranoia. The “south” and “east” only threaten the West’s “survival” if you see non-white, non-Christian immigrants as invaders. They only threaten the West’s “survival” if by “West” you mean white, Christian hegemony. A direct line connects Trump’s assault on Barack Obama’s citizenship to his speech in Poland. In Trump and Bannon’s view, America is at its core Western: meaning white and Christian (or at least Judeo-Christian). The implication is that anyone in the United States who is not white and Christian may not truly be American but rather than an imposter and a threat. Poland is largely ethnically homogeneous. So when a Polish president says that being Western is the essence of the nation’s identity, he’s mostly defining Poland in opposition to the nations to its east and south. America is racially, ethnically, and religious diverse. So when Trump says being Western is the essence of America’s identity, he’s in part defining America in opposition to some of its own people. He’s not speaking as the president of the entire United States. He’s speaking as the head of a tribe.”

Um governo amoral

Este governo não existe porque não ganhou as eleições. A minha crónica hoje no i.

Um governo amoral

De repente, corre tudo mal. Foi tão rápido que muitos devem estar a coçar a cabeça, pensando o que fazer às crónicas escritas nos últimos meses. Costa, o génio político, afinal não tem mão nisto. Já agora, acrescento que Marcelo também não. É uma evidência, mas a vista da maioria tem andado entorpecida e foi preciso o fumo dos fogos para a aclarar.

Foi a EDP, os empregos para a família de César, Pedrógão Grande, Tancos e, qual cereja em cima do bolo, o focus group. É demasiada realidade em demasiado pouco tempo. E azar dos azares, no Verão, mesmo em cima das autárquicas. Como é que gente tão batida nisto, neste modo amoral de governar, foi apanhada na curva desta maneira? O facto é que, por muito profissional que seja, o governo está ferido de morte porque não ganhou as eleições.

Eu sei, voltamos ao mesmo, mas é Costa que o confirma. Porque, ao não ter vencido as eleições, Costa depende das boas notícias que fabrica e explora. Foi por ter perdido as eleições que depende dos interesses que capturaram o Estado e que PS, PCP e Bloco não querem questionar. Foi por o PS não ter ganho as eleições que o governo se socorreu da bazófia, foi displicente, distorceu factos, mentiu, provocou, deitou foguetes e se apropriou de sucessos alheios. Divertiu. Fez tudo menos governar e, não governando, não perdeu só o rumo, que nunca teve, mas a moralidade que advém duma existência democrática. Um dia cairá sem que ninguém perceba porquê. O que está podre cai assim: sem que se ouça.

Medina Carreira, descanse em paz

Em memória de Medina Carreira, hoje quero relembrar entrevista da SIC ao ex-ministro das Finanças no ano de 2005. Doze anos atrás! E ele vaticinou o aí viria, ainda Sócrates mal tinha sido eleito primeiro-minstro (meus destaques): 

Sabe que, nós, para além da dificuldade dos problemas, temos uma outra condicionante muito grave. É que não temos dez, quinze anos para resolver estes problemas. Nós temos 5 anos para resolver estes problemas. Se estas questões que agora ocupam muito a nossa sociedade não estiverem resolvidas dentro de uma meia dúzia de anos, o Estado português, dentro de dez anos, entra num colapso financeiro. Isto que se está a passar não é sustentável e toda a gente que estuda isto e que, enfim, com um mínimo de honestidade reflecte sobre estes problemas, sabe perfeitamente que isto é assim. Portanto, não é só a qualidade das medidas – naturalmente que isso é positivo – é também a quantidade dos resultados que são de esperar.

Seis anos depois, em 2011, governo português pediu resgate à troika…

Por mais de uma década Medina Carreira deixou os avisos. Poucos (nenhum político!) o ouviram com atenção. Morreu sem ceder nas suas convicções, que muito certeiras foram e, infelizmente, continuarão a ser. Que descanse em paz.

O descaramento não pede desculpa

A minha crónica hoje no ‘i’.

O descaramento não pede desculpa

Dias depois da tragédia de Pedrógão Grande, Passos Coelho cometeu uma gaffe quando disse conhecer casos de suicídio que, felizmente, não aconteceram. Foi um erro lamentável do qual pediu imediatamente desculpas. Mesmo assim, boa parte da imprensa e comentadores, uns a soldo da esquerda, outros sem vontade própria, não largaram o sucedido, fazendo esquecer a verdadeira vergonha deste mês.

Desde a noite de Sábado, dia 17 de Junho, que Marcelo e Costa desvalorizaram o desastre. O Presidente da República apressou-se a dizer, também sem saber, que se tinha feito o máximo. Mais tarde, quando deu jeito, pôs-se à margem e exigiu explicações. Já Costa, menos impulsivo que Marcelo mas actor de não menor qualidade, surgiu contristado como quem espera que aquela desgraça não ponha termo à festa a que sujeitou o país desde que, todos os dias, precisa de uma boa notícia para legitimar a forma como chegou a primeiro-ministro.

Mas “aquilo” não passou porque, infelizmente, era grave demais. Foram muitos mortos, feridos, desaparecidos, e muita gente que ficou sem nada, para que se passasse um pano por cima. Foi aí que Costa decidiu ser tempo de descer do palanque de chefe de governo e juntar-se ao povo, exigindo explicações. Porque Costa e Marcelo, amigos do povo, não explicam, exigem, deixando de ser quem são quando isso lhes interessa. Deste comportamento lamentável não virá um pedido de desculpas. Eles são demasiado espertos para isso, e o país demasiado manobrável para tal. Até ver.

Quem são os tolos?

A minha crónica hoje no Jornal Económico.

Quem são os tolos?

A dívida pública aumenta a níveis mais elevados que durante o período de intervenção da troika e, por isso mesmo, apesar do crescimento económico, o país está mais pobre. Com mais dívida, há mais contas para pagar no futuro que é o nosso (ainda não sou velho) e dos nossos filhos (e netos, porque a factura é mesmo elevada).

Impressiona como pouco se aprendeu com os sacrifícios dos últimos anos. Continua a confundir-se crescimento com riqueza, riqueza com azáfama, azáfama com alegria, alegria com tolice. Um círculo vicioso que ridiculariza a crítica pensada para que, quem pensa, não seja escutado. Porque quando não se escuta não há registo, ninguém se lembra, e não há responsáveis, não há culpa, não se tiram ilações. Não se aprende. Não se muda. Insiste-se, e volta-se a insistir, no mesmo erro, nas mesmas fórmulas, nas mesmas pessoas que se escapam porque ninguém é responsável do que quer que seja.

Esta crónica não é sobre a farsa política que vivemos, mas sobre o modo como a aceitamos. Vezes  sem conta me questionei se o nosso presidente, na sua azáfama, e o nosso primeiro-ministro, com o seu sorriso, não seriam uns tolos que nos governam. As viagens juntos, os elogios mútuos, um a segurar o guarda-chuva do outro era mau de mais para ser verdade. Porque sou liberal considero que o poder do Estado deve ser exercido com dignidade. Qual o interesse em assim não ser? E foi pensando nisso que concluí que, talvez, tolos não fossem aqueles dois, mas os portugueses, ou a maioria deles que neles acreditam.

“Só dança quem está na roda”, respondeu Marcelo quando lhe indagaram sobre a nega que levou do presidente do Brasil. A nova versão do “quem não está, estivesse” relativo a um presidente doutro país que pode deixar de estar é uma chamada de atenção para os que não alinham na festa. Quem não está, perde. Isto não é tolice, é mais que isso, é perverso, é vicioso. É tomar o povo por tolo que se intruja com palmadinhas nas costas, selfies e deixem lá isso que isso agora não interessa nada. É grave.

Mas será o povo tolo ao ponto de não saber que está a ser enganado? Ou será que entra na roda não para dançar, mas para sobreviver? Aguentar porque com estas elites não vamos lá e de nada vale fazer doutra forma. Se não os podes vencer junta-te a eles. O povo também sabe da vida, não é só Marcelo. Tolo é, pois, quem não alinha. Quem não entra na roda e não dança. Pode ser, mas e a dignidade? E a dívida que não quero que o meu filho tenha de pagar? Os pais e avós que lêem estas linhas não se importam com o que os seus filhos e netos pensarão deles? Ou será que também eles vão aprender a manha do desenrascanço de quem se aguenta no meio disto?

Um Estado falhado

O que ninguém sabia quando Marcelo chegou ao local da tragédia e disse que ‘se fez o máximo que se podia ter feito’ é que muitas das vítimas não eram dali. Muitas delas tinham ido apenas passear na região, passar um dia numa praia fluvial e regressar depois a casa. Ora, este pormenor, além de dizer muito da forma como as autoridades valorizam as diferentes vidas humanas, permite-nos concluir que qualquer português podia ter morrido ali. Qualquer um de nós, fosse do Porto, Aveiro, Bragança, uma aldeia do interior ou cidade do litoral, podia ali ter estado e ali ter ficado. O que aconteceu não foi um azar. Não é seguro viver e andar em boa parte do interior de Portugal. Se o Estado não tem condições para proteger a população, uma das suas funções fundamentais, o Estado serve para quê?

Fogos que ardem sem se ver

O Estado não previu, nem preveniu, a possibilidade de um incêndio forte como o de Sábado passado, apesar de tal ser expectável com as altíssimas temperaturas que se faziam sentir. Todos perguntam, porque nada se fez. Mas há outro incêndio de deflagra e que poucos vêem: o fogo da dívida, seja pública ou privada. Também quanto a esta, e apesar da experiência que o país tem na matéria, pouco ou nada se faz. O Eco noticiou em Maio o aviso do BCE: a subidas das taxas de juros por parte do FED são um forte risco para Portugal. É verdade que o PIB está a crescer parecendo dessa forma que a dívida fica controlada, mas isso não é verdade. É uma ilusão, mais uma, que se soma a todas as demais. É por isso muito importante que se inquira, se investigue e se procurem respostas. O país não pode voltar a ser apanhado de surpresa.

Cuidado com isso

Não peçam responsabilidades a António Costa que ele ainda nos responde que não ganhou as eleições.

Países onde o Estado falha e a chefe de governo pede desculpa.

Não é para todos.

É que nem a brincar

Esta semana Portugal foi um Estado falhado. É muito importante agora, no rescaldo dos incêndios, na contagem dos mortos, na busca dos desaparecidos e tratamento dos feridos, que não se minta. Que nada se omita.

A revolução Macron

“Notre Histoire a fait de nous des enfants de l’État, et non du droit, comme aux États-Unis, ou du commerce maritime, comme en Anglaterre. C’est à la fois un bel héritage et un héritage dangereux.”
Emmanuel Macron, Révolution, p. 48.

Sem que seja surpresa Macron cilindrou o partidos tradicionais franceses. Primeiro, nas presidenciais e agora nas legislativas. 359 dos deputados (em 557) é obra; e significativo.

Mas não tenhamos ilusões que a França não mudou. O seu novo presidente é mais estruturado, mais hábil, mais ousado (e prudente) que os dois anteriores; é mais liberal, no sentido de querer abrir a França à mundialização (como eles dizem), do que qualquer dos anteriores presidentes, mas a França, na sua essência, não mudou.

Macron vai através do Estado forçar a França a entrar no século XXI. Não é a primeira vez que um chefe de Estado francês moderniza a França desta forma. Não será a última. O que assistiremos nos próximos anos será a uma série de reformas do funcionamento do Estado, das leis do Estado, para que dentro da esfera do Estado, franceses e estrangeiros possam negociar o mais livremente possível em prol desse mesmo Estado.

Este o liberalismo francês, republicano e centralista, porque a modernização da França, nomeadamente a descentralização do ensino, será traçada a régua a esquadro a partir de Paris, não é aquele a que associamos quando falamos de Reagan e Thatcher. Aliás, e porque a política vive muito de símbolos, a caminhada de Macron, depois de eleito, o homem só ladeando a pirâmide do Louvre enquanto se prepara para discursar ao povo, é a imagem do homem de Estado que se quer forte, imperioso (o Le Monde qualificou o primeiro mês do mandato de Macron como ‘impérieuse’), em contraponto com a hiper-presidência de Sarkozy e a presidência normal de Hollande. Ser presidente da França não tem nada de normal: há formalismo, há dignidade, há que presidir a um Estado que sustenta um país e um povo. Com Macron, a banalização do cargo não terá lugar.

Um país alheado mas feliz

A minha crónica no ‘i’.

Um país alheado mas feliz

Uma semana que mistura folga com trabalho é o espelho de um país que combina lassidão com regozijo. A vida corre bem, o passado está longe, e mesmo quando reaparece, como no caso da EDP, fecha-se os olhos, respira-se fundo e esquece-se. Os supermercados estão cheios de livros sobre como lidar com a ansiedade e, pelo que vejo, os portugueses leram-nos.

Mas não só. As notícias sobre o crescimento económico têm sido fantásticas. Segundo o Eurostat, a economia portuguesa foi a quinta com maior crescimento da zona euro no primeiro trimestre deste ano. Por todo o lado vemos alegria. Um frenesi geral, qual tique marcelista, apoderou-se de Portugal.

Longe de mim estragar o relaxe nacional mas, ainda no passado dia 1 de Junho, o Banco de Portugal divulgou que a dívida pública se fixou em 247,4 mil milhões de euros – mais 3,9 mil milhões que no final de Março. Só para termos uma ideia, a dívida pública subiu em 2015 “apenas” 5,3 mil milhões de euros. Não quero estragar a alegria de António Costa, mas 3,9 mil milhões de euros em dois meses parece-me muito pior que 5,3 mil milhões num ano inteiro.

Mas há crescimento. É verdade. Só que à custa de mais dívida, ou seja, de empobrecimento. Veja-se bem como a economia cresce, mas estamos mais pobres. E não era a política que vinha mandar na economia? Há algo que me transcende na propaganda. O crescimento não é sustentado, deve-se ao que se passa no Magrebe, ao medo na Europa; ao êxodo dos franceses a que o governo de Macron porá termo. Mas a dívida fica. E paga-se.

Uma artimanha como qualquer outra

John McDonnell, o ministro-sombra das finanças dos Trabalhistas, afirmou na Sky News (sem link) que Theresa May deve resignar. Motivo: como não conseguiu a maioria absoluta, não tem condições para governar. Além de esquecer que Jeremy Corbyn também não resignou quando em 2016 perdeu, e perdeu de forma esmagadora, à pergunta de um jornalista sobre como é que os Trabalhistas, com menos deputados, têm melhores condições que os Conservadores para formar governo, McDonnell responde que as políticas do seu partido são populares, e por isso e apenas por isso, muitos deputados não terão dúvidas em votar a seu favor.

O argumento é antigo, e lamento que o jornalista não lhe tenha perguntado como é que sendo tão popular o programa trabalhista não ganhou o voto do povo, usa a técnica de tornar objectivo o que é subjectivo. Assim, uma medida é boa porque nossa, uma eleição ganha-se não porque se tem mais votos mas porque os resultados foram acima das expectativas, e que as sondagens são mais precisas que o voto (uma técnica dos apoiantes da geringonça em Portugal). Foi assim que Corbyn e companhia tomaram conta do Labour party e é assim que pretendem tomar conta do Reino Unido.

(Correcção: Corbyn perdeu em 2016 e não em 2015, conforme inicialmente referido). Obrigado, Bruno Alves.

May we say goodbye?

A minha crónica hoje no ‘i’.

May we say goodbye?

Fraser Nelson, editor da “Spectator”, escreveu a 20 de maio um texto sobre o manifesto vermelho de Theresa May para as eleições que têm lugar hoje no Reino Unido. Vermelho, porque recupera propostas do ex-líder trabalhista, Ed Miliband, como o aumento do salário mínimo para 9 libras/hora, o imposto sobre imóveis de alto valor e até o taxar os empregadores para financiar a formação dos novos empregados. Theresa May tornou-se a líder dos conservadores mais à esquerda desde há 40 anos.

No entender de Fraser, três teorias explicam esta viragem à esquerda. A primeira é que May quer ganhar o maior número possível de deputados ao Labour. A segunda, que May precisa de se afirmar entre os conservadores. A terceira é a mais inquietante: com o Brexit, os tories estão mais preocupados com a ideia de país e relegaram a liberalização económica para outra oportunidade.

O Brexit monopoliza de tal forma as preocupações dos conservadores que estes esqueceram as reformas que tinham de fazer para tornar o Estado menos gastador e mais justo. Segundo Fraser, muitos conservadores anteviram isso mesmo e, por isso, apoiaram o remain. O certo é que o Brexit venceu e o programa da direita britânica tornou-se uma passadeira vermelha para o socialismo que julgávamos guardado no baú. E quando May, enquanto ministra do Interior, cortou nas receitas da polícia, os conservadores, que não conquistam a esquerda copiando–a, acabam por perder a direita. Uma mulher não é Margaret Thatcher só por ser mulher.

A Europa segundo Macron

Ouço falar em reformar a UE. Mas alguém discute as propostas de Macron para Europa? A minha crónica no Jornal Económico.

A Europa segundo Macron

No dia a seguir a tomar posse, Emmanuel Macron foi à Alemanha conversar com Angela Merkel. Na bagagem levou a sua proposta de refundação da Europa. Mas ao contrário de Hollande, que foi a Berlim de mãos vazias, o novo presidente francês propôs e ofereceu algo em troca. Que Europa quer Macron?

É no seu livro ‘Révolution’, publicado em Novembro último, que Macron explana a sua visão para a Europa. O plano apresentado a Merkel divide-se em três propostas. Em primeiro lugar, que a Alemanha aligeire a política de austeridade orçamental. A segunda consiste na implementação de um orçamento para a zona euro direccionado ao investimento público estratégico, e de apoio aos países cujas contas públicas coloquem em risco a estabilidade da zona euro. Este orçamento exigirá um ministro das Finanças que tutelará e fiscalizará os ministros das Finanças dos países da zona euro.

A terceira proposta de Macron à Alemanha é a moeda de troca. Ou seja, cada país da zona euro terá de implementar reformas estruturais para que possa beneficiar do novo orçamento europeu. Macron defende mesmo que o desacordo de um país não deve impedir que os restantes sigam em frente no projecto de integração europeia. Ou seja, dentro da zona da euro, e no que diz respeito às reformas estruturais e aos dinheiro do novo orçamento comunitário, podemos vir a ter uma Europa a duas, ou três velocidades. Algo que está em consonância com o que François Hollande propôs em Versalhes no dia 6 de Março, quando se encontrou com os líderes da Alemanha, Itália e Espanha.

Para dar o exemplo aos restantes países, como Portugal, Macron vai apresentar, até ao final de Setembro, um pacote de reformas estruturais que pretende levar a cabo durante o seu mandato. A primeira é a alteração do Código do Trabalho, que o governo francês já se encontra a estudar. Além do exemplo que pretende que venha da França, Macron quer com essas reformas mostrar que Paris está realmente comprometida no projecto europeu, prontificando-se a levar a cabo as reformas que a Alemanha implementou no início deste século.

Perante este cenário, a nossa atenção vira-se para o Governo português. Como é que o PS, o PCP e o BE vão lidar com este projecto europeu que vem do Eliseu? Considerarão que um orçamento europeu e um ministro das Finanças da zona euro ferem a soberania nacional, ou aceitam os fundos daí provenientes em troca de reformas, como a liberalização do Código Laboral que sempre recusaram?

Estas questões não são de somenos importância. São fulcrais para que entendamos se o Governo tem um rumo, ou se limita a gerir acontecimentos. Se Portugal vai estar na Europa, ou se viramos costas e ficamos orgulhosamente sós.

Uma Europa dona do seu destino?

A minha crónica de hoje no ‘i’. Não está referido mas, entretanto, o primeiro-ministro da Índia está na Europa, com paragem em Madrid, Berlim, Paris e São Petersburgo.

Uma Europa dona do seu destino?

Dias depois de Trump regressar aos EUA vindo da Europa, Putin chegou a Versalhes. O pretexto foi a inauguração da exposição sobre os 300 anos da viagem de Pedro, o Grande, a Paris. De acordo com Vladimir Fedorovski, escritor de origem ucraniana e um dos maiores especialistas franceses sobre a Rússia, a visita de Putin põe termo à frieza com que Hollande marcou as relações com o Kremlin.

A vinda de Putin a Paris não é o único sinal de mudança na Europa. Na cimeira do G7, a primeira com Trump, que teve há dias lugar na Sicília, o presidente dos EUA afirmou que os alemães “são maus, mesmo muito maus”. Parecia a esquerda radical a alimentar os ódios na Europa, mas não, era mesmo o presidente da América.

Depois desse episódio, Merkel afirmou que “o tempo em que podíamos contar totalmente uns com os outros acabou, em certa medida. Verifiquei isso nos últimos dias”, e concluiu: “A única coisa que posso dizer é que nós, europeus, temos de tomar as rédeas do nosso destino.”

Nós, europeus. Merkel di-lo agora, que sabe ter em Macron um aliado válido. Mas que europeus são estes a que se dirige a chanceler alemã? Europeus de uma Europa sem o Reino Unido? De uma Europa sem o guarda-chuva norte-americano? De uma Europa que investe na defesa? E que se associa a quem? À Rússia, ao mesmo tempo que conta com os EUA? Uma Europa una e, se sim, em que termos? E Portugal, aquele país atlântico, aliado tradicional do Reino Unido e dos EUA, como é que fica? É assim que se percebe que ganhar a Eurovisão não basta.

Uma anedota portuguesa

De acordo com o INE o crescimento económico deve-se às exportações e ao investimento privado. Precisamente os sectores em que o governo de Passos Coelho apostou. Entretanto, as famílias consomem menos e o investimento público caiu para mínimos históricos. Ora, perante estes factos, o que conclui a maioria dos comentadores? Que Costa, que tinha um programa totalmente oposto, está para ficar e que Passos está acabado. O raciocínio até pode estar correcto, mas demonstra bem que esses mesmos comentadores, e com eles boa parte do país, não estão interessados em tirar ilações do que sucedeu em 2011, não estão interessados em corrigir os erros, não estão interessados em antever os problemas que surgirão muito simplesmente porque as causas que as originam não desapareceram.

Finda a folia, com que os comentadores – e boa parte do país – se entretêm, voltaremos ouvir as mesmas ladainhas, seja na rua, na televisão ou nos jornais. Finda a folia, o país continuará a ter com que se entreter. No fundo, a discussão política em Portugal não passa disso: de um entretenimento.

O terramoto político francês, segundo acto

De acordo com as últimas sondagens, o partido de Macron, La République en marche!, conseguirá entre 310 a 330, dos 577 deputados da Assembleia Nacional. A maioria absoluta não é, pois, uma miragem. Se a isso somarmos o resultado que se espera que Os Republicanos consigam (entre 140 a 160 deputados), o próximo parlamento francês ficará dominado por duas forças políticas que apresentaram, nas presidenciais de há um mês, programas políticos reformadores.

Somos forçados a tirar daqui duas conclusões: a primeira é que, apesar da pouca experiência política, Macron não tem cometido erros. Melhor que isso, tem evitado os deslizes que outros, muito mais experimentados que ele, cometeram. A segunda conclusão é que depois das legislativas, a França não tem muitas desculpas para que não leve a cabo as reformas que os alemães encetaram no mandato do socialista Schröder.

Se tal acontecer, se Macron for bem sucedido, Alemanha e França voltarão a ser o motor da Europa. Uma Europa em que o lugar deixado para os que se limitam a receber turistas, e ainda por cima a queixarem-se disso, será o de ir no reboque; bem cá atrás.