Um governo desumano

Porque além da incompetência, além das culpas no cartório, o que nos chocou foi a desumanidade de quem governa. A minha crónica no i.

Um governo desumano

Em resposta aos incêndios de 15 de outubro, o outro dia fatídico do ano de 2017, António Costa afirmou que o governo não tem “solução mágica” para evitar que mais pessoas morram nos incêndios. Ao mesmo tempo, o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, afirmou que as pessoas têm de ser “pró-activas e resilientes”, não podendo ficar à espera dos bombeiros, como se fossem mágicos que tocam no fogo e não se queimam.

Depois foram chegando as notícias. Primeiro dois mortos, depois três, de repente 12, 20, 27, 31, até serem 41, esperemos que não mais, pelo amor de Deus. A seguir os relatos dos que sobreviveram, dos que salvaram vidas, dos que souberam como morreram alguns para salvarem vidas de outros, bens seus, casas, negócios, as suas próprias vidas. A coragem de Eduardo Donas Botto, o motorista do IP3 que salvou 51 pessoas.

O choque entre as histórias dos que sofreram, morreram, sobreviveram, e as afirmações dos responsáveis do governo é atroz. São desumanas e cruéis as exigências ao povo para serem o que os governantes não tiveram a dignidade de ter: coragem, resiliência, brio, compaixão. Amor. Humanidade.

Já não estão em causa os cortes orçamentais que a protecção civil sofreu em 2016, depois da austeridade. Já não estão em causa os boys colocados na Autoridade Nacional de Protecção Civil e que percebem tanto daquilo como eu de medicina. Já não interessa que Costa até tenha sido ministro da Administração Interna. Já nem sequer falo de o Estado não proteger os cidadãos – a principal das suas funções – e se reduzir a pagar salários à custa de cativações, esquecendo a generalidade dos portugueses. O que mais chocou nisto tudo foi a frieza das palavras, a desumanidade dos governantes, a amoralidade dos seus atos; a falta de respeito de quem quis ser governo, mas não quer ser responsável.

Nunca o país teve um governo tão sectário, tão displicente em relação ao que não lhe convém, tão centrado em manter-se intocável. Tudo vale desde que saia ileso, impune, o que à partida consegue através de provisões orçamentais eleitoralmente direcionadas. Com metade do país saciado, mais a boca cheia de frases feitas e as palavras solidariedade e justiça social lá pelo meio, Costa acha que o país se cala.

O país arde, pessoas morrem, as que sobrevivem perdem tudo, mas os governantes ficam. Ficam porque para se sobreviver se perdeu a vergonha. Fica o governo, mas também a desconfiança, o medo, a suspeição. Um sentimento de revolta. Este é um governo doente, que nasceu doente e cairá dessa forma.

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Como safar o BE e o PCP na moção de censura

Depois das declarações de Marcelo, ou Costa demite já a ministra, ou fá-la cair em troca do apoio do BE e do PCP na moção de censura.

Um Estado falhado

Alguém diga a António Costa que não é a reforma da floresta, mas a Protecção Civil que falhou.

Agora não é popular aparecer

Ser de esquerda é fácil

Pedro Adão e Silva, o ‘eu parece-me’ está agora na RTP 3 a dizer que a dívida pública está a diminuir. Relativamente ao PIB claro, que já em termos absolutos a dívida continua a aumentar. Mas isso, Pedro Adão Silva, o ‘eu parece-me’, não diz. É tão fácil ser do PS.

O Silêncio dos Inocentes

atlas_miniTemos sabido pela comunicação social que estão a desenhar-se importantes alterações ao Código Contributivo da Segurança Social dos Trabalhadores Independentes. A esse propósito convém recordar que a entrada em vigor das anteriores versões desse mesmo código já trouxera consigo factores de elevada discriminação que na maioria dos casos reduziram as vidas dos trabalhadores a Recibos Verdes à mais abjecta precariedade e a uma situação que bastas vezes se aproxima da indigência.

A definitiva reversão dessa grosseira injustiça deveria ser sempre o factor mais importante a acautelar em quaisquer alterações que viessem a ser introduzidas. Mas ficam algumas dúvidas que isso possa suceder.

Primeiro por preconceito para com o Trabalho Independente. Não sendo patrões nem empregados, não fazendo greves e não constando na tradicional cartilha das lutas laborais, os “Independentes” são olhados com desinteresse ou mesmo com desconfiança pela maioria dos partidos.

Apenas terão alguma importância por serem os alvos mais fáceis para ir buscar o dinheiro que falta para a “solidariedade social”. Sem poder de organização, sem sindicatos, sem representação directa na Concertação Social, sem greves e sem voz, os “Independentes” não conseguem fazer valer os seus direitos e muito menos as suas ideias. E o poder tem perfeita noção dessa triste realidade, aproveitando para abusar em ver de apoiar.

Para melhor conhecer o que está em jogo, será pertinente destacar os seguintes sete pontos que deverão ser tidos em conta em quaisquer alterações de regras como as que agora se cozinham entre os parceiros da coligação de esquerda:

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A dívida está a matar-nos

No Jornal Económico de hoje.

A dívida está a matar-nos

Andamos eufóricos porque a maioria os dados económicos do país são excelentes. Todos? Não. Há um que resiste e resistirá, parece que sempre, à confiança que invade o país. A dívida pública que desce relativamente ao PIB, porque este está a crescer, continua, de acordo com os dados de 2016 e os já conhecidos para 2017, a aumentar a uma velocidade cada vez maior. Continue reading “A dívida está a matar-nos”

O regresso ao tempo de Sá Carneiro

A minha crónica hoje no i.

O regresso ao tempo de Sá Carneiro

Lemos as biografias de Sá Carneiro, de Maria João Avillez e de Miguel Pinheiro, e ficamos com uma ideia de como foi, mas não sabemos nada. É preciso viver para perceber. É preciso viver para saber o que é a solidão política de quem trilha um caminho que considera o correto.

Há quem compare o fim da assistência financeira de 2014 com a de 1985. E, com base nessa comparação, conclua que Costa governará dez anos como Cavaco, pois os dois beneficiaram do esforço feitos por outros. Sucede que a realidade não é comparável porque, além de a dívida pública em 1985 estar nos 52% do PIB, e em 2017 nos 130%, a UE também não é igual à dos anos 80. A vida política de Costa não vai ser fácil.

Assim, e à medida que se forem apercebendo disso, muitos irão pressionar o PSD e o CDS para ajudarem o PS e contraporem a influência do PCP e do BE no governo – a ideia da direita como muleta do PS, tal como já foi desejado nos anos 70, quando Sá Carneiro, sozinho, quis um PSD autónomo que não abdicasse da sua visão para o país.

O cenário para o PSD neste outono de 2017 é semelhante. Ou o PSD ignora os problemas que se avolumam em troca de lugares, ou convence o eleitorado com um projeto alternativo. Um PSD só para ficar em segundo e, condescendentemente ser aceite em Belém e nas redações dos jornais, porque pactua com os erros que mais tarde teremos de pagar, não serve para absolutamente nada. Um partido tem de ganhar eleições, não para ocupar cargos, mas para servir o país. Esta forma de fazer política pode estar de regresso. Ainda bem, porque é a que vale a pena.

Esquerda Vs Direita – a Biologia explica!

Na natureza há 2 estratégias para uma espécie se adaptar a um ambiente: r & K.

r é a estratégia dos coelhos: não há luta entre coelhos, o foco é na quantidade sobre a qualidade, a sexualidade é muito presente e imposta desde uma idade precoce, há pouco investimento dos pais nas crianças e a lealdade entre animais do mesmo grupo é baixa.

K é a estratégia dos lobos: altamente competitivos, baixa taxa de reprodução pois o ambiente não o permite, sexualidade tardia e baixa, elevado investimento parental em cada cria e elevada lealdade dentro do grupo.

Computing Forever

Este vídeo explica muito bem como esta realidade biológica explica as diferenças políticas em diferentes circunstâncias em 17 minutos.

Eu gostaria ainda de relacionar esta informação com este outro vídeo sobre os sinais de decadência de uma sociedade. Essencialmente há 6 fases que uma sociedade passa ciclicamente: Pioneiros, Conquista, Comércio, Afluência, Intelectualidade e Decadência. Como creio ser evidente, estamos neste momento no ocidente na fase de Decadência e os sinais estão todos lá: um exército esticado para além do razoável, o consumismo e exibicionismo, uma disparidade brutal de meios (não adquiridos por mérito), um desejo de viver às custas de um estado obeso, e uma obsessão com prazeres como culinária e, sobretudo, Sexo – sobretudo “não-baunilha”.

Combinando as duas informações, parece natural a subida da esquerda, não parece?

Para que serve o PSD?

A vitória do PS não garante a resolução do endividamento do Estado (eu sei que o assunto é chato, mas chateia-me mais falir e ter de pagar por isso). E não se resolve se o PSD mudar de direcção para ser tornar numa muleta do PS com vista a contrabalançar a influência do PCP e do BE na geringonça. Um PSD calado e conivente, e por isso aceite em Belém e pelas redacções dos jornais, como tantos nos anos 70 queriam que fosse, até pode ter melhores resultados eleitorais durante uns anos, mas não serve para nada.

Declaração de voto

A minha declaração de voto em Lisboa, com uma pequena confissão de que me arrependo amargamente. A minha crónica no i.

Declaração de voto

Por motivos de transparência, é importante que quem faz comentário político declare o sentido do seu voto. Ora, em Lisboa não é fácil escolher em quem votar nestas autárquicas. Não voto Medina porque, além de um voto no PS ser entendido como uma legitimação política de António Costa, Fernando Medina exerceu um mandato para o qual não foi eleito, com um projeto pensado para ganhar as eleições seguintes.

Por razões éticas e morais não posso votar no PCP nem no Bloco. Votei uma vez no PCP para a junta de freguesia, decisão de que ainda hoje me envergonho: milhões de pessoas sofreram com o comunismo e eu, para ter passeios limpos, traí-as. Nunca me perdoarei, mas uma coisa é certa: jamais repetirei o erro.

Resta o CDS e o PSD. Desde o princípio que desejei que os dois concorressem juntos a Lisboa, num quadro de antecipação das legislativas. A situação financeira do país, as reformas do Estado, que antes eram inadiáveis e hoje estão esquecidas, assim o exigiam. Infelizmente, não foi isso que aconteceu.

Além de me parecer que Lisboa nada ganha com a eleição de mais um líder partidário com outras ambições que não as de vereador ou presidente de câmara, estas eleições terão, inevitavelmente, uma leitura nacional. Ora, e por muitas falhas que Passos Coelho tenha, um erro não cometeu, que foi o de ter embarcado na euforia que o país vive. Gosto de pessoas sóbrias, resilientes, qualidades ainda mais indispensáveis na política. A sua saída de cena daria luz verde ao desnorte emocional que anda por aí. Assim sendo, votarei no que sobra.

A patranha de António Costa

A minha crónica hoje no i.

A patranha de António Costa

A crónica de hoje tem demasiados números. É chato, mas seria importante que o leitor perdesse algum tempo com ela porque, no fim de contas, é quem vai pagar a conta. Algo de que pode não gostar, mas que não pode mudar. E o que tem sido difícil mudar em Portugal é a trajectória da dívida pública. Vejamos bem: em 2011, o ano de intervenção da troika, a dívida pública era de 183,3 mil milhões de euros, 107,2% do PIB, mais 22 mil milhões que em 2010. Em 2012 atingiu o valor de 203,4 mil milhões de euros, uma subida de 20 mil milhões, representando 122,5% do PIB. Foi com enorme esforço que subiu “apenas” para 213 mil milhões em 2013, ou seja, uns meros 10 mil milhões de euros. Em 2014 chegou aos 224 mil milhões, 128,7% do PIB, subindo em 2015 “apenas” 7 mil milhões, para os 231 mil milhões de euros.

Depois veio a geringonça: 241 mil milhões em 2016 (subida de 10 mil milhões) e 249 mil milhões em Julho de 2017 (mais 8 mil milhões em seis meses). Dizem-nos: mas o défice desceu. Certo. Mas desceu o défice face ao PIB, que subiu. O aumento da dívida pública é tão grave que, mesmo com o crescimento económico de 2017 – o maior do século, e o pior da Europa quando comparado o segundo com o primeiro trimestre deste ano –, a dívida pública em percentagem do PIB traduziu-se, em 2016, num rácio de mais de 130%.

António Costa veio agora, durante a campanha eleitoral, dizer que a partir de outubro, depois das eleições, o governo vai reduzir a dívida pública. Como, não diz. E não diz porque a redução a que se refere é a da percentagem da dívida face ao PIB e não do seu montante absoluto, que continuará a subir. Ou seja, não será a dívida que diminui, mas o PIB que cresce. O que significa que, apesar de tudo, vamos dever mais, que cada vez mais viveremos o hoje com o que vamos ganhar amanhã.

A ideia de Costa é que o PIB cresça a qualquer custo, fazendo de conta que está tudo bem. Mas quando a economia tropeçar devido a uma calamidade natural, a uma guerra, a uma recessão num país próximo de Portugal, ou até porque quem compra a nossa dívida ache que é demais, o crescimento abranda, a recessão instala-se, mas a dívida pública lá continua. Já não serão 250 mil milhões de euros, mas 260, 270, e com a queda, nessa altura inevitável, do PIB, não 130%, mas 140% ou 150%. António Costa anda contente, mas as causas da sua alegria são o esforço que todos fizemos e que não deveríamos permitir que alguém pudesse desbaratar para mero prestígio pessoal. O nosso amor-próprio devia reclamar que exigíssemos mais. Porque quem vai pagar isto é o leitor, não eles.

 

Pela desmercadorização de Boaventura Sousa Santos e do Islamismo

O Professor Doutor Boaventura Sousa Santos, académico de renome internacional, anunciado nas tv’s e na grande maioria da acéfala imprensa portuguesa, gere como poucos o seu quintal, também conhecido como Centro de Estudos Sociais. Autor e patrono de  muitos  disparates, o Homem que sonha desmercadorizar o Universo, sabe-se agora que lucra com os inesgotáveis fundos provenientes da Comissão Europeia especialmente dedicados a projectos ímpares como o Islamic Human Rights Commission.

Se é conhecido o apelo do distinto académico a correntes de pensamento e acção que visam, a título meramente exemplificativo, a destruição física de Israel e do Ocidente tal como foi construído e joga todo o seu prestígio na defesa de uma coisa islâmica intitulada  Islamic Human Rights Commission (com sede no Reino Unido, local propício a infelizes incidentes), ainda consigo ser apanhado de surpresa quando é o Centro de Estudos Sociais a não desmercadorizar-se do vil metal, proveniente da ultra-liberal Comissão Europeia.
Perdoem-me a blasfémia mas por Alá, nem o Professor Doutor Boaventura Sousa Santos nem o Centro de Estudos Sociais parecem conseguir erradicar as necessidades e a ânsia de uma acumulação infinita de riqueza, obtida a qualquer preço, parecendo que se esqueceram de aplicar a si mesmos o que defendem para os outros. Em síntese, a Pacha Mama, não fica bem tratada mas o Islamismo fica bem servido. No final das contas e como bem sabe o Boaventura Sousa Santos, tudo se compra e vende.

A Alemanha vive a paz perpétua

O radicalismo alemão estava a destruir a Europa. Lembram-se? A minha crónica no i.

A Alemanha vive a paz perpétua

A Alemanha vai a votos no dia 24 e a importância que em Portugal se atribui ao facto está ao nível da relevância que o PSD dá às autárquicas. Durante a crise do euro, muitos esperavam que o radicalismo invadisse a política alemã pondo fim ao reinado de Merkel e, dessa forma, à moeda única.

A expectativa assentava na AfD (Alternative für Deutschland), um partido de extrema-direita que se opõe ao apoio que a Alemanha tem, dentro do quadro da União, concedido aos países em dificuldades, entre os quais Portugal. Como por cá alguns partidos, como o PCP e boa parte do BE, defendem a saída de Portugal do euro, um bom resultado da AfD seria, depois do Brexit e do crescimento do extremismo na Holanda, Áustria e França, o derrube do último pilar seguro da moeda única.

Mas nada disto aconteceu. A Alemanha vai a votos num ambiente tão pacífico que lembra Portugal nos anos 90. O debate entre Merkel e Schulz mostrou à evidência o que os junta, e não o que os separa. Os dois estavam tão de acordo que o sonho europeu lá parece não ter sido esquecido.

A Alemanha hoje é a Europa onde podíamos viver, caso a maioria dos países tivesse encetado as reformas que os alemães levaram a cabo com o socialista Gerhard Schröder. Não deixa de ser interessante que, enquanto o radicalismo cresce em boa parte dos países europeus, seja na Alemanha, depois de tudo o que se disse do extremismo alemão, com tantos a acusá-los de nazismo, que a tão desejada paz perpétua de Kant se tenha propagado.

Aos verdadeiros empresários (2)

As revelações sobre as viagens pagas pela Microsoft a autarcas portugueses (bem como as de outras empresas a diversos políticos com excelentes, e sempre produtivas, relações com ‘empresários’) obrigam-me a trazer de volta o meu artigo no Jornal Económico de 4 de Agosto último.

Aos verdadeiros empresários.

PSD e CDS devem fundir-se num novo partido

A minha crónica no i.

PSD e CDS devem fundir-se num novo partido

Ana Sá Lopes noticiou há dias no i que António Costa gostaria de manter a Geringonça, mesmo que o PS conquiste a maioria absoluta. A informação confunde, os pactos de regime de Costa com o PSD seriam afinal para inglês ver, mas percebe-se: Costa prefere acordos com os deputados do PCP e do BE, com quem se entende, a depender apenas dos do PS, muitos dos quais, devido às devisões internas no partido, não controla.

Mas a ilação mais importante a tirar desta novidade é para a direita. PSD e CDS. Com a Geringonça estes dois partidos apenas regressam ao poder se a dívida pública rebentar com o Estado. E até isso é discutível porque o discurso da vitimização à esquerda pode ser empolado para que, eleitoralmente, 2011 não se repita. Vencer a histeria não será fácil.

E só se repete se PSD e CDS se juntarem. Já desde Outubro de 2015 tenho tido a oportunidade de o defender, primeiro no Diário, depois no Jornal Económico que lhe sucedeu, que estes dois partidos se deveriam juntar num só. A vantagem não seria apenas a mera soma de votos que, como se viu em 2015 pode não chegar para vencer a Geringonça, mas porque a junção dos dois num possibilita a capacidade destes apresentarem um programa verdadeiramente reformador, que apresente soluções para a reforma o Estado, que reduza a dívida pública (e privada) que se tem acumulado, e crie condições para que a economia se desenvolva sem os condicionalismos impostos pelo Estado e a sua dívida. O equilíbrio de forças mudou e é pena que PSD e CDS ainda não tenham agido em conformidade.

Um presidente, e Marcelo

Mais uma crítica ao professor Marcelo. Desta vez, vinda de Emmanuel Macron, na entrevista que concedeu à Le Point, e que saiu ontem, já depois da referência de Cavaco à “verborreia frenética”. Em terras francesas, o sentido de Estado tem outro sentido.

O neofascismo

A minha crónica no i.

O neofascismo

Pela primeira vez em democracia, a extrema-esquerda não se opõe a um governo. E porque não faz oposição, não dirige a sua raiva e ódio a quem governa, tem procurado alternativas de indignação. Outros hábitos das nossas vidas, outras vivências são criticadas para que se compense a falta de oposição a um governo que se esperava que partidos que não ganharam as eleições, fizessem.

Precisamos não esquecer que PCP e BE impuseram-se politicamente acusando os outros de não serem puros. A pureza, aquela pureza fascista que os regimes comunistas mais duros tanto prezam, é o santo graal que apenas os puros, eles, conhecem e dão a conhecer a conta-gotas para que não saibamos tudo de uma vez.

Não sendo mais possível acusar os governantes de prejudicarem os trabalhadores, qualquer pretexto serve para mostrar indignação, alimentar as massas com ódios irracionais e distrair o país de uma realidade que assusta a esquerda extremista: é que sustentando o governo, são responsáveis por ele.

É assim que os brinquedos têm de ser iguais para meninos e para as meninas, que todos os políticos devem afirmar publicamente a sua homossexualidade sob o risco de serem cobardes, que não se devem plantar eucaliptos e o mais que nos quisermos lembrar. Como não somos perfeitos há sempre um erro que esta esquerda pura, mas que, e fazendo uso das palavras de Franz-Olivier Giesbert na Le Point, cheira a formol e naftalina, nos aponta de dedo esticado enquanto nos grita aos ouvidos. Neste ponto, o fascismo ganhou.

O sonho que a democracia não permite

David Dinis, agora mesmo na RTP3, volta à carga com aquele argumento de Passos Coelho aproveitar a disponibilidade de Costa querer discutir com o PSD as futuras obras públicas. A ideia, aparentemente apenas possível em mentes iluminadas e não ressabiadas, seria minar a geringonça, ou seja, afastar o PCP e o BE do PS, passando a direita a influenciar o governo.

Sucede que esta ‘ideia’ tem um pequeno problema: não é normal, numa democracia, que o partido mais votado apoie um governo constituído pelo partido que ficou em segundo lugar nas eleições. Ou seja, e dizendo da forma mais simples que sou capaz, um governo do PS, com a votação conseguida nas últimas eleições, só é possível sem o PSD. Qualquer outra alternativa traduz-se numa corrupção das regras, e expectativas, democráticas.

As críticas de Cavaco à loucura dos novos tempos

Cavaco Silva foi à Universidade de Verão do PSD e criticou duramente o governo, a maioria que o sustenta e a ‘verborreia frenética’ de Marcelo. O PS acusou Cavaco de falta de sentido de Estado, um dos muitos truques para calar um político. Agora mesmo, o director do Público, David Dinis, está na RTP3 a dizer que Cavaco foi longe demais ao ter saído do registo que lhe é próprio. Por não ter sido razoável. O que David Dinis se esquece é que o nível de alienação da maioria parlamentar que sustenta o governo, bem como do Presidente da República que o apoia, assim o exigem.

As palavras até podem ser duras, até podemos não estar habituados a um ex-presidente falar assim mas, por vezes, é melhor falar que estar calado. O futuro julgará as acções dos políticos, mas também os seus silêncios.

Vamos ao que interessa?

A Secretária de Estado da Modernização Administrativa assumiu publicamente ser homossexual numa entrevista ao Diário de Notícias.
De imediato surgiram os de sempre acusando a direita de não aceitar tal coisa. Ora, eu sou de direita e sobre este assunto tenho algo muito simples a dizer: a orientação sexual da senhora não me interessa como não me interessa a orientação sexual de quem quer que seja. O que é privado não tem de ser tornado público.
Que exista uma Secretaria de Estado da Modernização Administrativa, isso sim, incomoda-me e muito.

O alerta de Stefan Zweig

A minha crónica no i.

O alerta de Stefan Zweig

Durante anos fiz orelhas moucas sempre que o meu pai me dizia para ler os livros de Stefan Zweig que estavam lá em casa. Em plena década de 90, numa época de paz, à porta do fim da história, sem que se vislumbrasse o que pusesse termo à prosperidade mundial que se vivia, os livros de Zweig eram de outro tempo.

Como o próprio refere no seu “O Mundo de Ontem – Recordações De Um Europeu”, a sua vida, desde 1881 até 1942, passou por altos e baixos, perdas e conquistas que consideramos inimagináveis. Nascido em Viena quando o Império Austro-Húngaro ainda dominava o centro-sul da Europa e a sua capital era um dos seus centros culturais, Zweig conheceu o Velho Continente do séc. XIX, por onde se viajava sem passaporte e sem que se justificasse para onde se ia, porque se ia e por quanto tempo.

Tudo isso Zweig viu desaparecer com a I Guerra Mundial, a inflação, que veio logo a seguir, e a guerra que irrompeu em 1939 e que ele não viu terminar, em 1945. O mundo pacífico de Zweig, que o próprio pretendia aproveitar para criar arte, tornou–se um tumulto, uma balbúrdia que o obrigou a fugir do seu país e a terminar os seus dias num local onde ele, um cidadão do mundo, não se sentia em casa.

Li nesta primavera “O Mundo de Ontem”, de Zweig. Pareceu-me propícia a altura para que não me esqueça de que nada é garantido. Nascido num mundo seguro semelhante ao nosso, Zweig tornou-se um apátrida sem lugar e sem referências. Escreveu para nos dizer como era e, fazendo-o, avisou-nos dos riscos de como pode voltar a ser.

 

Genocídios politicamente correctos

72 anos atrás, 6 de Agosto de 1945. Hiroshima, Japão. Governo dos EUA decidiu exterminar milhares de cidadãos japoneses. Três dias depois, a 9 de Agosto, fez o mesmo na cidade de Nagasaki. No total mais de 129.000 mortos.

Cerca de 6 meses antes, entre 13 e 15 de Fevereiro, bombardeiros britânicos e norte-americanos dizimaram a cidade alemã de Dresden matando uns 25.000 habitantes.

As atrocidades dos regimes nazi e japonês não podem ser esquecidas. No entanto, relembrar as acções imorais de quem escreveu a história, os governos vencedores, é também nosso dever.

Aos verdadeiros empresários

A minha crónica no Jornal Económico.

Aos verdadeiros empresários

Há uns anos fui jantar numa nova pizzaria no bairro onde vivo em Lisboa. Era uma pizzaria peculiar porque gerida por Nepaleses. Mas as pizzas eram boas, o ambiente simpático, com luzes ténues e agradáveis no interior, e uma esplanada que dava para a avenida, onde se jantava excelentemente no Verão. Os preços eram acessíveis e os donos prestáveis. Falavam mal o português e reparei que nos serviam com uma certa timidez e embaraço. Deram-me a sensação de que não queriam dar nas vistas, como se receassem que alguém reparasse no que estavam a fazer e perdessem o que tinham: aquele estabelecimento. Escrevo na forma verbal do passado, mas o restaurante continua a existir e recomenda-se.

Tornei-me cliente e vou lá de vez em quando. Outro dia, vi um dos donos à porta de outro restaurante que ia abrir no bairro. Ainda estava em obras e ele olhava para aquilo tudo com o mesmo ar inquieto de sempre. Parei e cumprimentei-o; foi a custo que me confirmou que aquele também era dele. E puxando a conversa lá arranquei a informação de que já tinham, em Lisboa, ele e os outros sócios, dez restaurantes. Disse-o a medo, olhando-me de lado devido talvez à minha cara de espanto, mas devo ter-me mostrado orgulhoso pelo seu feito, pois sorriu logo de seguida.

Como advogado tenho dado assistência jurídica a vários empresários assim: que trabalham com gosto, arriscam, têm medo. A maior parte das pessoas não percebe, mas o medo, aquele frio na barriga, é inevitável quando criamos um negócio nosso. A maioria não o percebe porque julga que ter uma empresa, criar um negócio, ser chefe, é mandar e andar por aí a dar-se ares de importante. Esta crónica reúne experiências de vários dias diferentes e foi num outro que tive uma conversa com um amigo que trabalha numa grande multinacional e que se quer despedir para montar um negócio. Rapidamente me apercebi que ele não tinha a mínima noção do risco inerente, não tinha a mínima ideia do que era dar a própria casa como garantia aos bancos para que conseguisse o empréstimo que precisava. Ele trabalha horas infindas, mas não sabe o que é arriscar.

Esta falta de noção da realidade, até entre quem trabalha no sector privado, deve-se a uma ideia preconcebida de que ser empresário é ganhar dinheiro fácil e ter pessoas a trabalhar por nós. Esta percepção advém de um preconceito socialista, cuja simplificação justifica o intervencionismo estatal e a redução das liberdades individuais, e de um sistema partidário que prefere empresários com fortes ligações ao poder político, como foi o caso de Ricardo Salgado, da PT e da EDP, a empresas fortes e independentes, mesmo que pequenas. Mas quem sabe, sabe que um bom empresário, acima de tudo, quer ser livre.

Libertação interior

A minha crónica no i.

Libertação interior

Este verão regresso a Paul Bowles. No ano passado foi na forma dos contos, agora é com as viagens. Este norte-americano, que viveu grande parte da sua vida entre Tânger e a sua casa numa ilha junto a uma praia no Ceilão, andou pelo mundo de uma forma que hoje não se associa como sendo viagem.

Nos seus textos, Bowles não nos dá referências para que o copiemos, nada nos sugere que façamos. Conta-nos como é: como é dormir num hotel na Índia; como era a vida de um artista em Paris quando Gertrude Stein ainda por lá andava; como é o silêncio do deserto e o céu que nos protege, “sólido e luminoso”, mesmo por cima de nós, cheio de estrelas “que parecem clarões”. Lendo-o, vemos e cheiramos os sítios por onde andou.

Mas as viagens de Bowles são ainda mais que os locais que visitou. São ele próprio, a sua forma de estar, de viver a vida. E nós libertamo-nos por momentos da lufa-lufa diária de casa-escola-trabalho-escola-casa para nos abrirmos para algo que nos transcende. Bowles não era um bom escritor apenas porque escrevia boas histórias: os seus livros transmitem o que não vimos, o que não sentimos, aquilo que nem sabíamos que existia ou, se sabíamos, desconhecíamos como seria.

As suas viagens não se desatualizam por terem sido escritas há mais de 50, 60 anos. São tremendamente actuais, dignas de serem revividas através das suas palavras. E nós ficamos inimaginavelmente gratos pela oportunidade de as lermos e, nessa experiência, sermos diferentes por momentos que abrem os nossos olhos a outras realidades que não a nossa.

Todos têm direito ao disparate

Se calarem Gentil Martins por ser médico, terão de calar Francisco Louçã por ser economista. A minha crónica no i.

Todos têm direito ao disparate

Uma das críticas feitas a Gentil Martins, quando declarou que a homossexualidade é uma anomalia, reside no facto de este não ser um médico qualquer. Na verdade, Gentil Martins é um médico pediatra conceituado. A sua opinião é tida em conta, muitas vezes como verdadeira apenas porque proferida por ele.

Compreendo este ponto de vista, apesar de Gentil Martins ser quem é por ter mantido as suas posições ao longo da vida. Mas o argumento falha também porque, se o seguirmos, muitos outros intervenientes do espaço público, pessoas cujas opiniões são tidas em conta, teriam de pensar duas vezes antes de falar; seriam talvez proibidos de o fazer, o que seria inadmissível num Estado de direito como é Portugal.

A título de exemplo, o economista Francisco Louçã teria de ter muito cuidado com os seus comentários em matéria económica, na medida em que estes estão inquinados pelo seu projeto político. Louçã utiliza as suas credenciais de economista quando, na verdade, está a fazer política. As suas afirmações têm pouca base científica, servindo apenas para sustentar o seu projeto político.

Partindo daqui poderíamos dar outro salto em frente, desta vez em direção a Jerónimo de Sousa. O líder do PCP sabe melhor que ninguém no que deu o comunismo. Apesar disso, defende-o com unhas e dentes. Pior: fá-lo em nome dos pobres, que foram os que mais sofreram com os regimes totalitários que o seu partido apoiou. Ora, da mesma forma que não passa pela cabeça de ninguém calar Louçã e Jerónimo, não me parece que se deva calar Gentil Martins.

Trumpices

Trumpismo no seu melhor. As autoridades podem apreender a propriedade de pessoas que nem sequer estão acusadas de crime, incluíndo em estados onde esta forma de roubo se encontra banida. Só pode ser fake news pois a fonte é jornalista da CBS.

Aceitar ‘os nossos’ é fácil

Podemos não concordar com ela, mas todos têm direito à sua opinião. É quando não concordarmos que o respeito se torna, não importante, mas indispensável. Aceitar quem pensa como nós é fácil. Tentar compreender, debater, contradizer as ideias daqueles de quem discordamos, isso sim é o que nos torna em verdadeiros amantes da liberdade.

Como é que a história nos vai julgar?

Hoje no Jornal Económico.

Como é que a história nos vai julgar?

Em Maio, o BCE alertou Portugal que a economia nacional não vai crescer o suficiente para baixar a dívida. Há uns anos, o país precisava ter taxas de crescimento económico de 3% para compensar os défices de 3% do PIB, o máximo que a UE permitia aos nossos governantes, de forma a que estes não pusessem em causa o emprego e a estabilidade que o euro garantia. Agora, já nem isso chega. Na verdade, as taxas de juro da dívida são de tal forma elevadas que só com níveis de crescimento económico muito superiores aos alcançados nas últimas décadas é possível baixar essa mesma dívida. A situação é, pois, calamitosa.

A grande maioria olha para o parágrafo em cima e questiona-se: mas o país não está melhor? Não vemos todos os dias novos negócios a surgir e o Estado até não saiu do Procedimento por Défice Excessivo? Infelizmente, isso é tudo verdade ao mesmo tempo que é tudo mentira. Fruto da realidade incerta que o Governo fomenta, o país revive a conhecida experiência de crescer à custa de dívida. Quando a dívida pública subiu, entre Março e Abril de 2017, 3,9 mil milhões de euros contra os 5,3 mil milhões em todo o ano 2015, podemos concluir que parece que estamos mais ricos, quando na realidade estamos muito mais pobres.

O Governo de Costa tem vivido dos resultados do governo anterior, mas também de uma folga na política monetária que o BCE e a FED tornaram possível enquanto a economia mundial não descolava. Mas até isso tem os dias contados. Não só as políticas do período da troika têm efeitos limitados no tempo como, tanto a FED como o BCE se preparam para  subir as taxas de juros e reduzir os estímulos à economia. Quando isso suceder termina a folga que os bancos centrais permitiram para que os Estados se pudessem reformar, mas que Portugal usou para alimentar clientelas.

Há o sério risco de Portugal se tornar um Estado falhado dentro da Europa, apenas sobrevivendo porque a UE nos segura. Pedrógão, Tancos, as cativações orçamentais que põem em causa serviços públicos para que se conservem benesses dos que votam ordeiramente, são apenas um pequeno aviso do que aí vem. Tal só não acontecerá se o país mudar e mudar muito. Nesse sentido é muito importante que o PSD, ou outra formação política que surja em condições de implementar as reformas necessárias, apresente um programa de governo clarificador. Caso contrário, a letargia a que fomos conduzidos reduzirá Portugal a uma completa submissão em troco de um mínimo de paz social. É legítimo que o país o aceite, mas depois não será legítimo que se queixe. Tal como não será legítimo que nos espantemos com a forma como seremos julgados pela história.

Acima de tudo, manter a casta

A minha crónica hoje no i.

Acima de tudo, manter a casta

Afinal, o histórico défice de 2% do PIB foi conseguido à custa de cativações. Ou seja, o governo não permitiu certas despesas, pondo em causa a prestação de certos serviços públicos, para compensar a reversão dos cortes nos salários da função pública e das pensões.

Aquilo de que se suspeitava – porque o dinheiro não é elástico – está hoje à vista: o plano B do socialismo é pagar clientelas, mesmo que à custa do Estado. António Costa e o seu círculo político perceberam que a única forma de o PS não seguir o caminho de outros partidos socialistas europeus é através da compra de votos. E qual cacique dos tempos modernos, Costa prometeu benesses pagas com fundos públicos, mesmo que à custa do bem comum.

Para piorar a narrativa, e como o crescimento económico dos últimos meses foi conseguido à custa de mais dívida, lá chegará o dia, ou porque já não há condições para pagar mais benesses ou porque o Estado falhou outra vez como aconteceu em Pedrógão e em Tancos, em que acordamos outra vez para a realidade.

Esse momento será cómico, para não dizer triste. Aquele em que Bloco e PCP lavarão as mãos e se tentarão salvar a qualquer custo. Quais ratos, saltarão borda fora na esperança de escaparem e acusarem outros da desgraça para a qual contribuíram. Exímios que são nessa prática política, que agora se considera uma arte, não terão dificuldades em prevalecer. Não deixa de ser curioso como o socialismo se modernizou ao ponto de pôr em causa a boa execução das funções próprias do Estado.