Se estes dois não forem bem-sucedidos estamos lixados

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Portugal pode ser o maior, mas deprime

Perante a excelência da portugalidade, prescindimos saber o que se passa. Hoje no i.

Portugal pode ser o maior, mas deprime

10 de Junho de 2018. Domingo de manhã, à hora do almoço e, depois, à tarde. Fosse a que horas fosse, assim que o leitor ligasse o televisor nos canais noticiosos portugueses, a transmissão, o relato, a reportagem, as entrevistas e o mais que possa imaginar sobre peças de teor jornalístico relativas às comemorações do Dia de Portugal lá estavam, preenchendo o ecrã, monopolizando a notícia.

Porque nada mais acontece por esse mundo fora, desenxabido e desinteressante. Trump não destruiu 70 anos de confiança atlântica com um tweet, a cimeira entre o presidente dos EUA e o ditador da Coreia do Norte não estava em preparação. Noticiar os temas em cima da mesa em qualquer das duas cimeiras, discutir o que se tinha passado numa e poderia acontecer noutra, informar sobre os interesses de cada uma das partes envolvidas são questões menores perante a grandiosidade que se celebrava em Ponta Delgada.

Não questiono que se celebre o 10 de Junho, mas não posso deixar de o fazer quando esse dia, à semelhança do que sucedia no anterior regime, seja instrumentalizado para, debaixo da capa de um contentamento geral e festivo, propagandear o governo e as instituições públicas. Pior: como outrora, propagandear a originalidade portuguesa perante as confusões e as disputas do mundo de hoje, de que nós, fechados numa redoma, somos a benigna exceção. As praças enchem-se de gente (onde é que já vimos isto?) e se se enchem de gente satisfeita é porque alguém está a fazer um bom trabalho.

Para quê estragá-lo com más notícias? Corrompê-lo com informação que poderá baixar o moral? Um país de acordos, e não de ruturas, não se compadece com as tricas, trapaças e desentendimentos das grandes potências. Estas não conhecem a consensual suavidade portuguesa.

Ter ligado o televisor no dia 10 de Junho de 2018 foi deprimente. Foi rever a cores o passado que tantas vezes nos mostraram a preto-e-branco. O que nos leva a concluir que a essência que permitiu o Estado Novo é a mesma que permite este novo estado das coisas. A frase proferida por Marcelo nesse mesmo dia em Boston – “Os Estados Unidos são um grande país, mas Portugal ainda é maior” – resume bem o que Salazar quis transmitir-nos: a força espiritual de um país representada na bondosa figura do chefe. Tal como no passado, o país adormeceu para não se preocupar com as crises e as guerras que ocorriam no mundo, como mais tarde também adormeceu perante a guerra que acontecia em África e também agora adormece, se deixa anestesiar, com a ilusão da festa e dos afectos. Para quê estar informado se está tudo bem?

Os mercados são o que nos vale

Apesar de tão vilipendiados foram os mercados que salvaram Portugal da bancarrota, forçaram Sócrates a sair impedindo que controlasse a Justiça e a imprensa. Foram os mercados que salvaram o PS e as carreiras políticas dos seus actuais ministros. São os mercados que têm refreado o populismo fácil que está a tomar conta da Itália.

Os mercados são a réstia de razoabilidade e objectividade num mundo cada vez mais governado por políticos irracionais. A minha crónica hoje no Jornal Económico.

Os mercados são o que nos vale

Quando o novo primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, nomeou para ministro das Finanças o eurocéptico Paolo Savona, os mercados reagiram negativamente, forçando o presidente da Itália a recusar a proposta de Conte. Ultrapassado o impasse, os partidos lá chegaram a um acordo e um novo governo acabou por tomar posse. Os mercados acalmaram e por agora vai-se andando. Claro que as forças políticas mais extremistas acusaram os mercados de chantagem. Que a Itália não pode ficar refém dos mercados, como se a Itália não fosse os mercados ou os mercados não fossem a Itália.

Porque os mercados, que as forças políticas extremistas italianas, e também as espanholas, portuguesas e francesas, tanto criticam são a expressão da vontade das pessoas. Os mercados não são mais que as nossas escolhas. Somos nós, cidadãos, que decidimos se vale a pena investir em dívida pública italiana, ou espanhola ou portuguesa, ou se estas, devido à incompetência dos governos na gestão do bem público e à intolerância ideológica dos extremistas, se tornou um investimento demasiado arriscado, fazendo subir as respectivas taxas de juro e acabando por trazer alguma razão a quem governa o Estado.

Foi isso que aconteceu em Itália, tem sucedido em Espanha e salvou Portugal. Foram os mercados, nós, consumidores e investidores, que salvámos Portugal em 2011. Nessa altura, foi a subida das taxas de juros que forçou o pedido de ajuda à troika, sob pena do Estado deixar de pagar salários e pensões, obrigou Sócrates a demitir-se e a serem convocadas novas eleições. Não fossem os mercados e a maioria dos portugueses teria ficado sem salários. Não fossem os mercados e Sócrates permaneceria no poder, controlaria a imprensa e a Justiça. Não fossem os mercados e o PS desapareceria e muitos dos socialistas que hoje estão no governo teriam caído em desgraça.

Todos eles devem estar gratos pelos mercados. Gratos pela clarividência que as pessoas, individualmente e sem pressões das massas, manifestaram naqueles tempos em que tudo parecia desabar. Pela forma como as pessoas, através das livres escolhas que fazem individualmente e a que se dá o nome de mercados, reagiram e trouxeram razoabilidade e objectividade ao que se estava a passar. Quando o país parecia caminhar para o abismo, os cidadãos, portugueses e estrangeiros, em consciência e individualmente, libertos da propaganda política, em segredo, tal qual quando depositam o seu voto na urna, salvaram o país. Como deram uma ajuda à Itália e o já o fizeram à França.

Por ser uma força que os políticos extremistas não controlam que estes acusam os mercados de chantagem. Porque não apreciam a liberdade de decisão. No meio de tanta irracionalidade, os mercados, nós, trazemos razoabilidade e impomos a ordem.

O ódio espanhol

A minha crónica hoje no i.

O ódio espanhol

No melhor livro que li este ano, e um dos melhores que li nos últimos anos, “O teu rosto amanhã”, de Javier Marías (Alfaguara), já mesmo no fim do terceiro e último volume, dois homens, o narrador e protagonista, o espanhol Jacobo Deza, e um nonagenário inglês, Peter Wheeler, conversam sobre cartazes de propaganda da Guerra Civil Espanhola. Comparando-os com os britânicos da ii Guerra Mundial, Wheeler conclui que nos espanhóis há mais ódio.

“– Nos espanhóis? [pergunta o espanhol Deza]

– Sim, repara que os nossos (…) advertiam sobretudo do perigo (…) mas não diabolizavam o inimigo oculto nem faziam finca-pé na sua localização, na sua perseguição e na sua destruição (…).”

Esta obra de Marías é extraordinária. Não só porque descreve o comportamento das pessoas, as fronteiras que cada um de nós pode ultrapassar tornando muito difícil adivinhar o nosso rosto amanhã, mas também porque, sendo espanhol, Marías nos descreve cruamente a Espanha. Uma Espanha ferida pela guerra civil que marcou irremediavelmente o seu séc. xx.

É difícil para nós, portugueses, imaginarmos o que seja vizinhos matarem vizinhos, amigos a suspeitarem uns dos outros. As pessoas desconfiam até dos membros da própria família porque o inimigo se esconde em nós, não se diferenciando sequer pela língua, nem pela região, nem pela cidade. Está em todo o lado, em qualquer lugar. É difícil para nós, portugueses, imaginarmos o que isto seja porque a nossa guerra civil foi há 184 anos e desde então não houve qualquer guerra neste retângulo.

“Quando eu passei por lá [continua Wheeler], pela vossa Guerra, notei-o logo no terreno. Havia um ódio abrangente que saltava à menor faísca. (…) Um inimigo podia ser boa pessoa e ter sido generoso com os seus adversários políticos, ou mostrar piedade (…). Nada disso importava. Um inimigo nominal era sobretudo isso, um inimigo.” No livro, o britânico, que assistiu àquela guerra de perto e viveu intensamente a de 1939-45, conclui depois: “Foi uma coisa estranha a vossa Guerra, não me parece que tenha havido outra igual.”

Uma coisa estranha, aquela guerra. Uma guerra que se passou mesmo aqui ao nosso lado, mas que não se estuda e pouco ou nada se referencia. Talvez porque a violência nela demonstrada pelos espanhóis, que são nossos vizinhos e parte de nós, como nós somos parte deles, fosse demasiado horrenda, um abismo assustador, o pior em que um país se pode transformar.

Mas é importante que olhemos para a Espanha. A encaremos de frente, saibamos o que se passou, para que percebamos, de uma vez por todas, a gravidade do que se passa na Catalunha, o risco que significa o esboroar do poder em Madrid, com um governo não eleito, sem maioria e sem força. As guerras são sempre coisas estranhas quando vivemos em paz, como a paz é uma coisa estranha quando vivemos em guerra.

O plano de Costa para dominar o país

Hoje no Jornal Económico.

O plano de Costa para dominar o país

Em entrevista ao Diário de Notícias, António Costa declarou que prefere utilizar eventuais folgas orçamentais para contratar mais funcionários públicos a aumentar os seus salários. Lemos isto e perguntamos: então e a urgência de há poucos anos para reduzir os funcionários públicos? Se era para contratar mais agora porque foi necessário reduzi-los  antes?

A redução do número de funcionários públicos estava relacionada com três necessidades: tornar a administração pública mais eficiente, reduzir a despesa pública e libertar o país da dependência do Estado e da perspectiva de uma carreira no Estado como a mais apetecível. Trabalhar no funcionalismo público pode ser honroso se útil, mas não se encarado como um encosto para a vida.

Agora, depois de pretensamente atingidos os objectivos na redução de pessoal, o Estado volta a contratar conduzindo a novo excesso de funcionários públicos. A pergunta é porquê? Podemos dizer porque há folga orçamental. Mas isso é agora que a economia mundial está em expansão. E quando não estiver? E quando o número de funcionários públicos for novamente excessivo e pesar excessivamente na despesa pública? O que se faz? Despede-se? Como?

Ninguém responde a estas perguntas porque não têm resposta. Porque a razão para a contratação de mais funcionários públicos não é económica, não tem que ver com a qualidade do serviço público, mas é política. Contrata-se não só para satisfazer os sindicatos (que precisam de mais pessoas nas suas fileiras), mas também porque vai ao encontro do que o PS precisa.

António Costa chegou à liderança do PS em 2014, quando os partidos socialistas tradicionais estavam em descalabro na Europa. Era o PSOE, o PASOK, o PSF, o SPD e até o Partido Trabalhista britânico andava perdido (ainda anda) sem saber o que fazer com o que restava da Terceira Via. O grande objectivo de Costa era evitar que ao PS sucedesse o mesmo. Um desafio difícil, pois o Partido Socialista era o principal responsável pela quase bancarrota do Estado português e José Sócrates iniciava a sua prestação de contas com a Justiça.

Como conseguiu evitar o fim do PS, tornando-o numa excepção europeia, já o sabemos. O que desconhecíamos até agora era o seu plano para tornar o Partido Socialista numa força política hegemónica. É nesta perspectiva que percebemos a sua ideia quanto ao funcionalismo público: usar a folga orçamental, não para reduzir impostos, não para aumentar salários, mas para contratar mais funcionários. Contratar mais gente que dependa do poder político. E não há gente mais dependente que aqueles que ganham pouco. A natureza de país não mudou assim tanto desde Salazar, e Costa, sabendo disso, age em conformidade.

Uma Europa francesa: balanço de um ano de Macron

Ensaio no Jornal Económico sobre o plano de Macron para a Europa.

Uma Europa francesa: balanço de um ano de Macron

Macron é presidente da França há um ano. E, como é normal, os franceses fizeram o balanço destes 12 meses de mandato com sondagens e alguns textos sobre o que já se fez e o que ainda se pretende levar a cabo. A maioria considera-o agora mais de direita que de esquerda e já não tanto ao centro como alegava quando se candidatou. A luta contra os sindicatos dos ferroviários é considerada a sua grande oportunidade para mostrar ser capaz de pôr em prática a mudança que a França votou em 2017.

Por cá, o presidente francês é visto, como em tudo o que foge da normalidade – Macron trucidou os partidos tradicionais –, com um misto de assombro e desconfiança. E, como também é frequente em Portugal, não se lhe dá a relevância que o assunto merece de forma a que, dessa maneira, seja como se não existisse. Lê-se um ou outro texto, não mais que um ou outro pequeno artigo num jornal, e o mais resume-se a frases de circunstância e às imagens na televisão, que o homem é telegénico.

Mas Macron tem algo que em Portugal devíamos dar muita atenção. E essa particularidade não tem que ver com a sua personalidade, não se trata de nenhuma qualidade sua especial, mas com o programa, a visão que o Eliseu tem para a Europa e que, se concretizado, vai alterar, e muito, a União Europeia. Uma mudança que já se fez sentir no novo orçamento plurianual da União Europeia, que tanto desagradou aos partidos portugueses e deixou Marcelo apreensivo. Porque Macron visa dar um novo impulso à UE e, por arrasto, devolver à França a glória e influência do passado.

O discurso na Sorbonne

Foi a 26 de Setembro último que Emmanuel Macron apresentou, no Grande Anfiteatro da Sorbonne, o seu projecto para a Europa. Lá fora os protestos do costume, enquanto lá dentro o espaço era pequeno para os que o queriam ouvir. E o que disse Macron foi repetir o que já escrevera no livro “Révolution”, um verdadeiro programa para o seu mandato enquanto presidente. E no que consiste o seu projecto? Antes de mais, uma defesa comum para a Europa. Macron não pretende apenas dotar a UE de mais meios financeiros para a defesa (como é o caso com o novo orçamento comunitário), mas também que se preparem forças armadas comuns. Nesse sentido, naquele dia na Sorbonne propôs abrir as forças armadas francesas a militares de outros países da União para que participem na obtenção de informações, planificação e apoio às operações militares francesas. Macron, e este ponto é fulcral, quer uma União Europeia dotada de uma força militar comum e que a França seja o seu principal sustentáculo.

Outro ponto foi a defesa de uma taxa comum sobre as transacções financeiras de forma a financiar uma política única de asilo político, o policiamento das fronteiras europeias, um programa de apoio à formação dos refugiados, bem como uma política europeia de desenvolvimento direccionada à África, onde a França lidera com as suas forças militares o combate ao terrorismo islâmico. No seu entender, a UE deve passar a ser um instrumento por via do qual os países europeus terão acesso a África e que Portugal, em virtude dos laços que tem com alguns países africanos, não deve deixar escapar.

O presidente francês defendeu ainda a taxação das receitas dos conhecidos GAFA (Google, Apple, Facebook e Amazon) em vez dos lucros. O objectivo é que a UE adopte leis que obriguem estas empresas a pagarem mais impostos e não que se refugiem em países como a Irlanda e o Luxemburgo.

Uma Europa a várias velocidades

Mas a grande proposta de Macron para a Europa é na área financeira. Um orçamento comum para a zona euro, direccionado ao investimento público estratégico, que também de apoio aos países cujas contas públicas coloquem em risco a estabilidade da zona euro. A par deste orçamento pretende-se também que a zona euro tenha um verdadeiro ministro das Finanças com mais poder sobre os seus colegas dos respectivos países, que o agora líder do Eurogrupo. A acontecer, estaremos perante uma verdadeira união fiscal que se acentuará com a libertação dos fundos desse orçamento a depender da implementação de reformas estruturais, no Estado e na economia, ditadas por Bruxelas.

A partir daqui é inevitável falar-se de uma Europa, não a duas, mas a várias velocidades. Tão-só porque, a partir do momento em que os fundos desse novo orçamento forem libertados sob condição da implementação de certas reformas, o conceito de igualdade como o conhecemos hoje deixará de ser a pedra de toque da União. Os países não implementarão as referidas reformas ao mesmo ritmo, com a mesma amplitude e, naturalmente, o acesso a certas ajudas comunitárias não será igual nem atribuído ao mesmo tempo.

Mas a UE será ainda a várias velocidades porque Macron tenciona que França e Alemanha assinem um novo Tratado do Eliseu, renovando o de 28 de Janeiro de 1963. Nesse dia, Charles De Gaulle e Konrad Adenauer assinaram um tratado que fixava os termos da cooperação entre os dois países nas relações internacionais, na defesa e na educação, e que muitos consideram como um dos motores da integração europeia. Com esse acordo conseguido há 55 anos, De Gaulle conseguiu retirar a República Federal da Alemanha (RFA) da esfera dos EUA permitindo, desse modo, pensar-se uma Europa não submissa aos interesses norte-americanos. O objectivo de Macron com a renovação deste tratado é precisamente o mesmo.

Será à volta deste novo tratado franco-alemão que Macron tenciona reconstruir, dentro da UE, uma união mais coesa e próxima. Uma nova parceria porque, como disse o próprio, “L’Europe est déjà à plusieurs vitesses, alors, n’ayons pas peur de le dire et de le vouloir!”. Portugal foi mencionado no referido discurso como fazendo parte do pelotão da frente, pelo que caberá ao nosso Governo decidir o que fazer com esta proposta.

Uma soberania reinventada

Terça-feira, 17 de Abril de 2018. O novo presidente francês estreia-se no Parlamento Europeu, onde apela ao que chama de “soberania europeia”, uma soberania reinventada para fazer face ao autoritarismo que ameaça o projecto europeu. No seu entender, os desafios de hoje são globais, não podem ser tratados a um nível meramente nacional, e a UE só em conjunto conseguirá fazer-lhes frente. O terrorismo, os fluxos migratórios, a defesa dos interesses comerciais, a luta contra a fraude fiscal e as próprias relações internacionais (como temos visto no que diz respeito ao Irão) devem ser tratados pela UE como um todo, de forma a que os países europeus sejam bem-sucedidos. Bem-sucedidos no que diz respeito a esses desafios, mas também no combate aos extremismos políticos (quer à esquerda quer à direita) que nos últimos acto eleitorais têm alcançado bons resultados.

Mas o mais interessante não foi o discurso de Macron (que só durou vinte minutos, ao contrário do da Sorbonne com uma duração de mais de hora e meia) mas o debate que se seguiu. Um debate que juntou Florian Philippot, o até há pouco tempo estratega da Frente Nacional, a Manuel Bompard, do La France Insoumise, em oposição a Emmanuel Macron. Os dois primeiros foram veementes na afirmação de que não há soberania europeia e na acusação de que o presidente francês visa apenas substituir a soberania da França por uma de burocratas. Talvez seja por se sentarem em lados opostos no hemiciclo que os extremismos se acabem por tocar.

Há quem considere que o plano de Macron foi derrotado ainda antes de ter sido colocado em prática, devido ao fraco resultado de Angela Merkel nas eleições alemãs de Setembro passado. Na verdade, foi no referido discurso na Sorbonne que Macron desafiou a chanceler alemã a renegociar o dito Tratado do Eliseu e, a partir daí, refundarem juntos a Europa. No entanto, não só Angela Merkel se mantém como líder do governo alemão, como o enfraquecimento político da chanceler é encarado por Macron mais como uma oportunidade que uma perturbação.

Com a saída do Reino Unido da União Europeia e o enfraquecimento político (mas não económico) da Alemanha, Macron considera que a França tem o caminho livre para refundar a Europa à sua maneira. Por isso a proposta do novo Tratado do Eliseu, inicialmente assinado quando a Alemanha não liderava; por essa razão a proposta de uma Europa a várias velocidades, em que os países por ele mencionados são mais próximos da França que da Alemanha; por esse motivo o seu discurso no Congresso norte-americano, no passado dia 25 de Abril, precisamente 58 anos depois do proferido por Charles De Gaulle naquele mesmo dia, naquele mesmo lugar. Um novo tratado como o De Gaulle para renovar a Europa; um novo discurso como o de De Gaulle para cimentar as relações franco-americanas. Macron já não vê a França como o pilar de um exército europeu (como tencionava Manuel Valls), mas o suporte à volta do qual gira a Europa e em torno do qual esta se relaciona com o outro lado do Atlântico.

A França e os Estados Unidos

Como Macron é um homem da globalização, o seu discurso em Washington foi em inglês. Recordou o papel da França na luta da independência dos EUA contra o Império Britânico; a visita de Benjamin Franklin a Paris, em 1776, para obter os apoios internacionais (o que conseguiu devido à extrema simpatia que os EUA tinham não só entre elite francesa mas também entre as suas classes mais desfavorecidas); a chegada aos EUA do jovem Lafayette para combater contra os Britânicos, ou a de Alan Seeger a França: o poeta norte-americano que, com 28 anos e um amor por aquele país europeu, morreu no dia 4 de Julho de 1916 a combater pelos franceses. Um verdadeiro rendez-vous com a morte, mas também com o destino. Porque é o destino, como salientou Macron, que une estes dois países e se nada o pode pôr em causa, a saída do Reino Unido da UE é um excelente motivo para o reafirmar.

A mensagem a passar é que a França se tornou no parceiro privilegiado dos EUA na Europa. Aquele com quem os norte-americanos podem falar (a posição um tanto dúbia de Macron quanto à saída dos EUA do acordo nuclear com o Irão é prova disso mesmo). Um país aberto à globalização, mas disposto a combater as distorções criadas do livre comércio por regimes totalitários e que prejudicam as economias liberais.

Concordando-se ou não com o pensamento de Emmanuel Macron, não deixamos de estar perante um estadista com um pensamento muito completo, uma visão muito ampla do que pretende para a França, de como encara o papel da França no mundo e dos passos a dar para que Paris se torne novamente num peão indispensável, e não negligenciável, das relações entre as grandes potências mundiais. É neste sentido que se compreendem as reformas que pretende levar cabo em França, a urgência que tem para vencer o embate com os sindicatos ferroviários, a necessidade de refundar a UE e a relação de cumplicidade que quer estabelecer com os EUA.

Há muitos anos que não víamos a França ser governada com tamanha ambição. Podemos mesmo arriscar que ainda mais que a de De Gaulle, quanto mais não seja porque este viu os seus sonhos de grandeza comprimidos pelo choque entre os EUA e a URSS, que caracterizou a Guerra Fria. Nessa altura, o espaço deixado à França era muito pequeno e o alcance de qualquer das suas acções, curto.

Agora, com a China a criar problemas comerciais aos EUA, a que se juntam as suspeitas quanto às suas ambições militares, com uma Rússia sem a força da URSS, sem, no fundo, a existência de um mundo bipolar, mas com vários actores internacionais, com uma UE fragilizada com o alargamento que favoreceu a Alemanha, a França de Macron talvez possa finalmente chegar a bom porto na concretização dos seus sonhos de grandeza. Talvez os olhares de Robert de Sorbon e de Richelieu, debaixo dos quais proferiu o dito discurso na Sorbonne, no meio de Paris, no novo centro da Europa, o tenham inspirado.

Um mundo espiritual sem Deus

Hoje no i.

Um mundo espiritual sem Deus

Em “Silêncio na Era do Ruído” (Quetzal), o norueguês Erling Kagge conta como, no dia seguinte ao da sua chegada e do explorador Borge Ousland ao Polo Norte, apareceu no céu um avião-espião norte-americano. Talvez por terem ficado surpreendidos com a presença de dois exploradores, o avião atirou-lhes uma caixa de alimentos antes de seguir viagem. Quando a abriram, viram que continha um almoço de sanduíches, sumo e arenque. Como estavam há 58 dias com temperaturas de -58 oC, Kagge diz que se preparava para devorar a sua parte quando Borge lhe sugeriu que, antes de comer, fizesse uma pausa. Contaram até dez e depois comeram. Mataram a fome e usufruíram da refeição.

Numa entrevista há dias ao “Público”, um engenheiro de nome Mo Gawdat, que trabalhava para a Google e de onde saiu para escrever sobre a felicidade, afirmava que a tecnologia e o dinheiro não fazem as pessoas felizes. No seu entender, são muitos os que procuram o bem-estar nas suas grandes casas, belíssimos carros e telemóveis que os ligam a toda a gente, a toda a hora. Para este engenheiro, a felicidade não está nesses objetos mas dentro de cada um de nós, sendo “preciso parar de acreditar nas promessas vazias do mundo moderno. Parar de acreditar que o sucesso, o ego, a imagem, os gadgets ou o dinheiro são mais importantes do que a felicidade”.

Há muita gente com um ego enorme e que depende de o alimentar. Uma alimentação constante que os torna permanentemente insatisfeitos, numa contínua comparação com terceiros que até podem ter outras prioridades ou desvalorizar tudo o que eles consideram como sucesso. Uma insatisfação permanente que acentua invejas, incompreensões, rancores, e um mal-estar indefinível e incompreendido por quem acha que tem tudo para ser feliz, mas não se sente bem.

Mas um dos aspetos mais interessantes de Kagge e Mo Gawdat é o que dizem, ou não dizem, sobre Deus. O segundo (e na mesma entrevista), à pergunta se podemos ser felizes sem religião, responde: “O nosso verdadeiro eu não é físico. As pessoas confundem espiritualidade com religião. A religião tem muitas regras.” Já Kagge não menciona Deus no seu livro, mas conta como, quando “a caminho do Polo Norte, imaginava o homem da Lua a olhar lá para baixo, para a Terra”. Lá de cima, esse homem conseguiria ver todo o nosso planeta e, no extremo norte, um rapaz, Kagge, de “anoraque azul, que seguia sempre na mesma direção”. Kagge usou esta imagem para se questionar quem seria mais maluco, se ele a caminho do Polo Norte ou se todos os restantes milhões de pessoas que, mais abaixo na Terra, o homem da Lua via levantarem–se de manhã e seguirem a suas vidas rotineiras até morrerem. Pensar nisso ajudou Kagge a continuar.

O que estes dois homens dizem é interessante porque, depois de um período materialista, vivemos uma época espiritual, mas sem Deus. A contagem até dez antes de comer era (é) a oração antes da refeição. O homem na Lua é Deus, que nos recorda que o mundo é um todo uno e que não estamos sós. O que Kagge e Gawdat dizem é o que a religião, qualquer delas, refere há milénios: que a vida somos nós, não as nossas coisas.

A grande mentira

Hoje no i. O brasileiro Rubem Fonseca escreveu, e muito bem, sobre a grande arte. Eu, sem a mesma mestria, sobre a grande mentira.

A grande mentira

O governo aprovou o Plano de Estabilidade 2018-2022. Nele prevê a redução do défice já este ano para 0.7% do PIB e um excedente em 2020. Isto, claro, relativamente ao PIB, que cresce devido ao turismo, que beneficia de uma lei das rendas que a esquerda critica, mas não altera.

A grande pergunta que se devia colocar à esquerda é a seguinte: onde está a espiral recessiva que a austeridade ia provocar? Nunca ouviremos a resposta porque não interessa. Há assuntos demasiado delicados para que se possa falar deles. A dívida pública é outro; não a dívida face ao défice, mas em números. Já o referi neste jornal, mas volto a repeti-lo: o que se passa com a dívida pública que em 2015 era de 231 mil milhões de euros e em fevereiro de 2018 atingiu os 246 mil milhões, mais 2,4 mil milhões que em janeiro deste ano?

Mas isto não interessa. O que temos de ouvir, a narrativa aprovada pela extrema-esquerda, é que a dívida pública vai descer (face ao PIB, que cresce sem o governo perceber como) e que como nós, verdadeiros campeões europeus, povo único à semelhança do tempo da outra senhora, só a Bélgica.

A Bélgica. O PS já nos quis transformar na Suécia, depois na Finlândia, agora na Bélgica. Ora, o que se passou na Bélgica? Em 1993, o país do Tintim tinha uma dívida pública de 303.816 mil milhões de euros, 138,14% do PIB. Em 2005, uma dívida de 366.891 mil milhões de euros, 94,7% do PIB. A dívida desceu? Não. O problema estrutural da dívida foi resolvido? Não. E tal não foi que , em 2015, a dívida totalizou os 482.519 mil milhões de euros, 106% do PIB. A Bélgica reduziu a dívida face ao PIB quando os ventos corriam de feição, mas tudo ficou na mesma quando estes mudaram de sentido.

Já vimos este filme tantas vezes que até enjoa. Compara o que os belgas fizeram com o que nós queremos fazer; o feito com a intenção, a realidade com o sonho e, nesse devaneio, discutem-se aumentos dos salários na função pública, mais dinheiro para a cultura (porquê apenas 1% e não 1,1% do PIB – o que interessa é parecer culto, não honesto) e descida nos impostos, como se os erros do passado não aguardem que o crescimento abrande para que os seus custos se sintam outra vez.

O país vive tão anestesiado com a política monetária do BCE e com o turismo que parece que está tudo bem. A grande mentira é esta. É a mentira que explica por que motivo o Bloco e o PCP criticam o Plano de Estabilidade, mas não o submetem a votação no parlamento sob pena de terem de votar a favor. O silêncio da esquerda perante o que se passa nos hospitais está aqui.

Há um livro de Rubem Fonseca chamado “A Grande Arte”. Neste, a arte era o manejamento da faca, a forma de melhor a utilizar para matar. Vivemos em Portugal, a grande mentira, a forma como melhor se saca do Estado sem se assacarem responsabilidades. A primeira é uma obra de ficção; a segunda, a nossa realidade.

Síria: a verdade luminosa e a verdade embriagada

Fonte fidedigna (como nenhuma outra, sublinhe-se) assegura-me e aos povos que ontem, na Síria “as luzes da noite foram os 93% de mísseis derrubados”. Os crentes dariam graças, com a ajuda da força das orações. O pragmático detentor da verdade, ao som de um hino pimba nacionalista em louvor a Assad, Putin e aos teólogos iranianos, revela que quem ” espalhou o caos entre os enxames de mísseis violadores do Direito Internacional e do sono dos povos” foi um tal de “anjo da guarda das nações pobres” o  Pantsir-S1, a arma de defesa anti-aérea russa.
Graças a Eles, o “ataque americano (foi) reduzido ao ridículo pela defesa anti-aérea russa e síria. Acabou o tempo dos bombardeamentos impunes. O povo sírio de parabéns.”
Falta mesmo pouco para o regresso eminente da paz que teima em fazer-nos esperar por dias gloriosos e ordeiros, já lá vão sete anos.

A Legacy of Spies

Para a minha crónica de hoje no i pedi ajuda a George Smiley.

A Legacy of Spies*

Diplomatas dos dois lados da nova cortina fazem as malas e regressam a casa. Cansado, George Smiley respira fundo e afunda-se na cadeira. É em Freiburg, no sul da Alemanha, que nos diz adeus, precisamente agora que os espiões do seu tempo regressam.

Há precisamente dez anos leu “The New Cold War”, do jornalista Edward Lucas, e percebeu tudo. Primeiro, a negação; depois, a indiferença; a seguir, a raiva e a desorientação habitual dos governos que não se prepararam para a visão que Putin tem da Rússia. Presentemente, com o envenenamento de um ex-espião russo que trabalhou para os britânicos, ouve os noticiários, comentadores incluídos, a falarem do medo.

Olha pela janela e recorda-se do medo que serve para definir tudo. Sentiu-o em plena Guerra Fria, mas cedo o transformaram em certeza perante a incerteza do novo mundo. Sem URSS, e com os EUA como única potência mundial, a ameaça terrorista fazia isso mesmo: aterrorizava. De acordo com o que se dizia, o medo do tempo de Smiley era seguro, certo, concreto. Houve quem, no mercado livre que conquistava o mundo, no crescimento da China e na redução da pobreza em África, nas novas democracias no leste da Europa, visse uma ameaça mais grave que a que pairava na Guerra Fria; na sua guerra.

Tudo passa menos o medo, que é uma constante, nem damos valor ao que temos excepto quando o perdemos. Verdades eternas que se ignoram. Os que clamaram contra a abertura dos mercados chorarão os efeitos do fecho das fronteiras e do aumento das tarifas aduaneiras. A falta de diálogo conduzirá ao armamento, com dinheiro que podia, devia ser usado noutros domínios. Espiões serão mortos em Londres e em Paris (em Moscovo também), vidas secretas caminharão ao nosso lado, com a pequena grande diferença que são as novas tecnologias.

E enganem-se os que acalentam que o novo equilíbrio mundial porá termo ao terrorismo islâmico. Numa guerra fria, de nervos, tudo vale. Na primeira, EUA e URSS combateram no chamado Terceiro Mundo guerras indiretas com soldados que não eram seus. Nada nos garante que os extremismos islâmicos não sejam utilizados como novas armas para novos ataques numa nova guerra fria sem envolvimento direto dos seus principais intervenientes. Uma certeza podemos ter: George Smiley não terá saudades. Acena-nos da janela, deixando o legado para outro.

*Título do último romance de John le Carré

Menos 1 hora de sono

Porque ainda há quem acredite que somos mais produtivos quando nos obrigam a mudar hora do relógio duas vezes por ano.

Got2Globe: botem o voto

Carrinho-de-mão ao longo da Avenue des Baobás, Madagáscar. Todas as fotografias da Got2Globe.com são da autoria de Marco C. Pereira e Sara Wong.

A campanha está ao rubro e este é um apelo descarado ao voto electrónico no Melhor Blog de Fotografia de Viagens do Universo e arredores, o Got2Globe. A competição decorre no BTL Blogger Travel Awards 2018 . Todos os votos são preciosos e a Sara Wong merece manter o título.

Para exercem o vosso dever cívico de bom gosto, cliquem neste link:

http://btl.fil.pt/blogger-travel-awards/

E, claro, votem no Got2Globe e insiram o nome e email para validar o voto.  É fácil, só demora uns segundos e tem a vantagem de poderem votar acompanhados por todos os vossos amigos e família.

Um juiz devia ser um eremita

Tenho uns quantos amigos que são juízes, contados assim de cor quatro, colegas de faculdade, que se não sabem deviam saber o quanto os admiro pela profissão que escolheram. A minha crónica hoje no i.

Um juiz devia ser um eremita

A semana foi marcada pela notícia de que Rui Rangel está a ser investigado pela alegada prática de quatro crimes de tráfico de influências. Não vou aqui tirar conclusões até porque, como jurista, conheço bem a delicadeza de qualquer processo judicial. Mas há um ponto que gostaria de referir e que é da máxima importância.

Sempre entendi, e muitos consideram que exagero nesta matéria, que um juiz deve quase ser como que um eremita. Não significa isto que se isole do mundo e perca o contacto com a realidade. Apenas que, por ter escolhido julgar os comportamentos dos outros, deve ter o cuidado de se envolver o menos possível em negócios, na política e, naturalmente, no mundo do futebol.

Ser juiz é das profissões mais importantes que se pode escolher. A responsabilidade é extrema porque sempre que um juiz decide, e por muito trivial que seja a questão, é o próprio Estado de direito que está em causa. Errar, que é humano, é um risco com repercussões extremas quanto mais não seja para a pessoa que é vítima desse erro. É por este motivo que sempre admirei quem decide seguir uma vida como aquela a que a magistratura obriga.

Sendo profissão tão exigente, a começar desde logo pela imparcialidade, um juiz não deve distrair-se com questões externas que moldem, tolham essa mesma imparcialidade. Pode ser uma perspetiva que alguns considerem antiquada, mas que é preferível à incerteza, à desconfiança que surge quando notícias como a da investigação de um juiz podem causar nos cidadãos.

 

#MeToo e os limites para o cinismo

Hoje no i.

#MeToo e os limites para o cinismo

Samantha Geimer tinha 13 anos quando foi violada por Roman Polanski. Foi em 1977. Quarenta anos antes do movimento #MeToo, que nas redes sociais tem revelado casos de abusos sexuais em que as vítimas são mulheres. Ora, Samantha Geimer surpreendeu tudo e todos quando, na quinta-feira passada, explicou ao “Le Monde” porque defendeu a carta aberta de Catherine Deneuve, publicada naquele mesmo jornal, às mulheres (e homens) vítimas de abusos por parte de homens.

Nessa carta, Deneuve criticava a caça às bruxas em que se tornou o movimento #MeToo, com acusações muitas vezes sem provas, e no qual se equiparam casos de violação a meros flirts ou outros comportamentos que não tornam necessariamente uma mulher (ou um homem) uma vítima pois, nas situações referidas pelas pretensas vítimas, houve a possibilidade de dizer não.

Samantha Geimer alerta ainda que o #MeToo está a tornar as mulheres vítimas e não pessoas fortes, capazes de se defenderem, que é a única forma de conseguirem viver em igualdade com os homens. O que Geimer também diz é que, ao equiparar a gravidade de diferentes tipos de abusos sexuais, muitas das acusações do #MeToo são ofensivas para as mulheres que sofreram verdadeiros abusos sexuais. Na verdade, uma mulher que foi violada não se encontra na mesma situação da que ouviu um piropo ou da que, por livre vontade, se sujeitou a algo para conseguir um papel num filme ou subir na carreira.

Até porque se houve (e há) mulheres que se sujeitaram a tal por falta de alternativa, também houve (e há) quem utilizasse tal estratagema para vingar na profissão. Não cabe aqui fazer juízos de valor – as situações são todas diferentes -, mas é legítimo que se pergunte quantas pessoas (mulheres, mas também homens) para quem uma noite com alguém não foi inoportuna e hoje estão na primeira fila das vítimas? Como não se sentirão as mulheres que sofreram verdadeiros abusos sexuais vendo o seu sofrimento ser equiparado com comportamentos que as ferem na sua dignidade não só de mulheres, mas de pessoas?

Porque o que está em causa no #MeToo é, além da meritória oportunidade de se pôr um ponto final na forma abusiva como alguns homens tratam as mulheres, não só uma caça às bruxas, um apelo ao conservadorismo mais sombrio, mas também uma falta de respeito pelas mulheres que sofreram nas mãos de homens. Umas sofreram; outras, em seu nome, ficam com os louros fazendo-se de vítimas. O que Deneuve e Geimer nos vêm dizer é que há limites para o cinismo.

O risco de Rui Rio

A minha crónica no i.

O risco de Rui Rio

Ao que parece Rui Rio está disponível para entendimentos com o PS. Se tal suceder o PSD passará a concorrer com o BE, o PCP e, possivelmente, também o CDS, na aprovação das políticas no parlamento. A confirmar-se, a decisão de Rui Rio apresenta uma razão de ser e representa um risco.

A razão de ser prende-se com a revolução partidária que tem lugar em alguns países, nomeadamente, Espanha e França. Ainda esta semana uma sondagem colocou pela primeira vez os Ciudadanos à frente do PP e do PSOE. Há menos de um ano Emmanuel Macron foi eleito presidente da França sem o apoio dos partidos tradicionais e, um mês depois, o seu partido, La République en marche!, venceu as legislativas.

Há quem, como eu, considere que o PSD deve ser mais liberal, tornar-se numa verdadeira alternativa ao socialismo, em vez de uma peça na mera rotação do poder em prol dos favores estatais. Ao contrário, Rui Rio prefere um partido de menor carga ideológica porque vê que essa é também a marca que distingue os Ciudadanos e o fenómeno Macron que pertencem ao centro político.

O raciocínio de Rio parece também ter em conta o Portugal ser um país avesso à mudança. Na verdade, as possibilidades de o PSD perder o lugar para o CDS são mínimas. O CDS não tem condições para substituir o PSD, não só porque tem tantos anos e vícios como o PSD, como a sua veia ideológica nunca existiu, ou quando existiu foi confusa.

Mas representa também um risco. E o maior é que, caso Rio confirme a sua estratégia de viabilizar uma governação socialista não dependente da extrema-esquerda, o PSD perde contacto com o país a longo prazo. Preso às negociações das medidas de efeito imediato, o PSD perde discurso, legitimidade, para se afirmar mais tarde quando a falta de reformas, os efeitos perversos de uma governação que se cinge a aproveitar a conjuntura internacional, se fizerem sentir porque essa mesma conjuntura se alterou.

Nessa altura, algo como Macron ou os Cuidadanos terá todas as condições para surgir e se impôr na política portuguesa, mas dificilmente o PSD. Porque nessa altura o país precisará de gente sem mácula, liberta dos arranjos partidários para que um partido que não venceu governe. Uma força política deste género, atenta aos reais problemas das pessoas, aos verdadeiros desafios do país, sem passado, mesmo que sem grande carga ideológica pode pôr em causa a predominância do PSD. Por muito que se perceba a razão de ser da sua estratégia esta comporta um grande risco para Rui Rio.

Caro Pedro Santana Lopes

A crónica de hoje no i é um risco que corro. Não faz mal, apeteceu-me. Infelizmente, o mais certo é que não valha a pena. Não valha a pena que Pedro Santana Lopes a leia, não valha a pena que se candidate a líder do PSD, nem que tente ser primeiro-ministro. O mais certo é que nem tenha valido a pena escrever esta crónica.

Caro Pedro Santana Lopes,

Ao que tudo indica o senhor será o futuro líder do PSD, o partido com mais deputados no Parlamento. Além de sobejamente conhecido o senhor tem dado mostras de conhecer bem a natureza do país que quer governar, natureza essa na qual também se revê. A razão desta minha crónica em forma de carta aberta si dirigida é, pois, outra. Prende-se em saber se está preparado para ser diferente de Guterres, Durão Barroso, Sócrates e Costa.

Portugal encontra-se numa encruzilhada porque tem uma dívida colossal, cuja resolução obriga a um enorme esforço e sacrifício, a que se soma uma maioria de esquerda social-comunista que capturou o Estado e impede qualquer alternativa que não seja o caos que, historicamente, boa parte dessa esquerda deseja. Veja-se, a título de exemplo, o que sucede no Hospital de Faro, conforme denúncia dos enfermeiros que lá trabalham: situações indignas para qualquer doente num país europeu, num país como Portugal em que os cuidados de saúde são a pedra basilar do Estado social que construímos.

Situações como esta, a par de escolas sem aquecimento ou papel higiénico, acontecem porque o governo social-comunista de António Costa usa os dinheiros públicos para pagar a sua base eleitoral de apoio em detrimento, quando necessário, dos cuidados sociais, esses sim, uma função a que, constitucionalmente, o Estado se encontra obrigado. O fim último do Estado não é pagar salários, mas prestar serviços sociais. Goste-se ou não é o que está na Constituição.

A situação das finanças públicas é tão calamitosa que, para se manter no poder, a esquerda social-comunista pretere os que precisam em benefício dos que a apoiam. Nesta matéria o PS aprendeu com os melhores ou não fosse o comunismo pródigo neste tipo de estratégia para segurar o poder.

Caro Pedro Santana Lopes, se quiser ser primeiro-ministro não lhes restam muitas alternativas: ou reduz a dívida ou empobrecemos; ou temos um governo PSD/CDS ou a dita maioria de esquerda refém do PCP e do BE. O clima de urgência é semelhante ao do tempo de Sá Carneiro. Do tempo daquele homem que o senhor diz tanto admirar.

Pergunto-lhe directamente, caro Pedro Santana Lopes: está em condições para derrotar o PCP e o BE? Está em condições para governar sem endividar o país? Consegue convencer os eleitores a não se conformarem a trabalhar no Estado ou nas grandes empresas que beneficiam das ligações políticas? Tem condições para separar o Estado dos negócios? Tem condições para quebrar com a oligarquia? Consegue romper com os aristocratas? Quer respeitar uma Justiça soberana e independente? Está preparado para ser um novo Sá Carneiro ou quer só ser mais um na lista de cima?

Não basta responder que sim. Precisa de se convencer do seguinte: que se estiver, não vai ter vida fácil; se o fizer vai ter todos contra si, principalmente essa esquerda que vive do sistema que critica. Mas se não estiver disposto a isso, disposto a marcar a diferença, não vale a pena. Não vale a pena ler esta crónica nem candidatar-se, menos ainda governar o país.

Vazio

MPMaduro

O recente artigo de Miguel Poiares Maduro, no Publico, será o melhor que o PSD tem
para oferecer. A mim sabe-me a pouco. Demasiado pouco.

O texto está formalmente bem escrito, como seria de esperar. É um texto escrito por alguém que sabe pensar e que, neste preciso momento, quer marcar a sua posição no xadrez interno do partido. Mais a mais, o texto não só percorre todas as capelinhas sagradas do laranjal como apresenta os melhores pergaminhos: não será por acaso que, no mesmo parágrafo, junta Bernstein, Sá Carneiro e o seu Pai, que identifica como um dos primeiros presidentes de câmara eleitos em democracia.

O enquadramento referencial está perfeito, o que só aumenta ainda mais a expectativa para o verdadeiro enquadramento que procuramos e que titula o artigo: “a matriz ideológica do PSD”.

Foi esse, aliás, o desafio que eu comprei:

 

 

“Chamem-nos o que quiserem, mas compreendam aquilo que defendemos.”

Pois bem, eu bem tentei e continuo a tentar, mas não consigo. Terei certamente as minhas limitações, mas o que fui encontrando foram referências demasiado vagas, que dificilmente poderão não ser partilhadas por qualquer partido político no âmbito da vigente Constituição da República Portuguesa.

Fica, portanto, a afirmação de fé no PSD: “é a sua matriz ideológica aberta e moderada que está em condições de oferecer o melhor e mais claro projeto político ao país.”

Tudo muito bonito, sem dúvida, mas se fosse António Costa a dizê-lo num comício do PS, por certo que receberia a aclamação o seu partido com uma salva de palmas monumental.

Todos diferentes, todos iguais. E, por isso, desisto. Resignado. Não há nada a fazer. Resignado, sim, mas indignado também. Esta pequena passagem resume o ponto:

“O interesse público pode facilmente ser capturado pelo interesse do governo. (…) o modelo de intervenção do Estado deve separar o interesse público da sua gestão pelo governo (como fizemos com o serviço público de televisão).”

Se bem me recordo, Miguel Poiares Maduro teve responsabilidades directas sobre a RTP há não muito tempo. Na altura eu acreditei que ele seria capaz, se não de derrotar, pelo menos de enfraquecer o monstro. Enganei-me: o monstro continuou a crescer. Como continua a crescer o vazio do PSD.

A política tramou-nos

2017 foi o ano da crise dos partidos e da popularidade esmagadora de Marcelo. A minha crónica no i desta semana é sobre os riscos da personalização do poder.

A política tramou-nos

Um dos factos mais interessantes de 2017 foi a importância que a esquerda social-comunista que governa o país passou a dar à economia. Durante o período da troika, PS, PCP e BE só queriam saber da política. Da política que tinha de mandar na economia, lembram-se? Agora, quando politicamente o Estado falhou aos cidadãos (incêndios e degradação dos serviços públicos), a esquerda agarra-se aos ainda positivos resultados económicos.

O consolo com a eleição de Centeno para presidente do Eurogrupo é um sinal disso mesmo. Apesar de a presidência do Eurogrupo perder relevância com a criação da figura ministro das Finanças para a zona euro, o mais irónico é que a política continua. O discurso de Ano Novo de Marcelo é mais um sinal disso mesmo.

Devidamente traduzida, a frase “se o ano tivesse terminado a 16 de junho, podíamos falar de um ano singular constituído de vitórias” recorda-nos que a vida não é só economia. Também há política. E que nesse campo, o governo, a maioria de esquerda que o sustenta, falharam.

E, pior que isso, a frase chama a atenção para um facto que um Presidente de afectos por vezes faz esquecer: Marcelo é um político. E como político que é sabe muito bem que o regime está nas suas mãos. Marcelo, que se colou aos sucessos económicos de curto prazo do governo, não esquece que o Estado depende dos credores. Com o episódio do financiamento a desacreditar os partidos, com o PSD a colar-se a Marcelo, o processo de personalização do regime está em marcha, o que é negativo numa democracia liberal. Politicamente falando, estamos tramados.

Os alemães ficaram espertos

Se o verdadeiro esperto é aquele que conta com a esperteza dos outros, então podemos concluir que os alemães foram espertos em escolher Mário Centeno para presidente do Eurogrupo. A minha crónica no i.

Os alemães ficaram espertos

Até há uns dias, o presidente do Eurogrupo era uma pessoa horrível. Esse socialista, ministro das Finanças de um pequeno país europeu (outrora potência comercial), não passava de um pau-mandado de Wolfgang Schäuble, o ainda ministro das Finanças alemão. O nome de Jeroen Dijsselbloem, o dito, pronunciava-se de uma maneira ainda mais horrível que a pessoa: ye-rohn dai-sell-bloom.

Já Mário Centeno, não. Este socialista, ministro das Finanças de um pequeno país europeu (outrora potência comercial), eleito presidente do Eurogrupo, é um génio que mudou o próprio Eurogrupo. E, o que é mais impressionante, convenceu o próprio Schäuble, o tal ainda ministro das Finanças alemão, outra pessoa horrível, mais culpado ainda que José Sócrates pela bancarrota de Portugal, a mudar de rumo. É que, bem vistas as coisas, não só Schäuble comparou Centeno a Ronaldo e o escolheu para presidente do Eurogrupo como ainda vai deixar de ser ministro das Finanças. Com Centeno, ou Ronaldo, e um Mourinho no Eurogrupo, compreende-se que Tsipras tenha ficado satisfeito. Tudo mudou.

Para que tudo fique na mesma. Aquela frase, daquele Don Fabrizio, daquele livro “O Leopardo”, daquele italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa, assenta aqui que nem uma luva. A mestria do aristocrata italiano que conduz a família pelos tortuosos caminhos da decadência é, essa sim, igual à dos mestres da política portuguesa. Porque, se Portugal tem grandes políticos, entendendo por grande político aquele que domina a arte de algo mudar para que tudo fique igual, esses são Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Atrevo-me até a escrever algo que jamais julguei ser possível: Portas, ao pé deles, é um aprendiz.

É que o Eurogrupo não mudou, a política monetária do euro não mudou e, pior que isso, com Macron e a ajuda daquele outro socialista de nome Martin Schulz, ainda vai ficar pior. Na verdade, estou bastante curioso para ver o que é que Costa, Catarina e Jerónimo vão mudar no discurso que Centeno vai adoptar, e que trata da criação do ministro das Finanças europeu e do orçamento europeu, cujos fundos apenas beneficiam os bons alunos, para que tudo fique igual.

Estou curioso porque é interessante ver como é que profissionais da mudança enganam um povo. É certo que é um povo fácil de levar. É um povo que não gosta que lhe digam o que deve fazer; disso, não gostamos. Agora, com um elogio gratuito acompanhado de umas migalhas, e a boa e velha palmadinha nas costas, com isso, a gente já lá vai. Os alemães aprenderam e ficaram espertos à portuguesa. Somos tão felizes.

O PSD que não se iluda com o PS

O PSD acha que, com Santana Lopes ou com Rui Rio, pode trazer o PS para centro, mas está enganado. A minha crónica no Jornal Económico.

O PSD que não se iluda com o PS

É provável que a nova liderança do PSD tente alterar os equilíbrios até aqui existentes. Rio quer um PSD mais ao centro, e Santana Lopes, apesar de se dizer de direita, quer colaborar com os socialistas. A intenção é pressionar o PS, forçando-o a quebrar com o PCP e o BE. Com um PS desgastado, o PSD teria espaço para se apresentar como uma alternativa de governo.

Sucede que todas as estratégias têm um senão e nesta, o pormenor que pode estragar as contas é a realidade. Do país, da Europa e do mundo. Quando ouço, por exemplo, Santana Lopes sinto-me nos anos 80. Não é apenas a constante referência ao PPD/PSD, mas o achar que o PS regressa ao centro político como se este PS fosse o mesmo que em 1983-85 governou com o PSD. Ora, o PS de Costa não é o PS de Soares. E não é porque nem Portugal, nem a Europa, nem o mundo de hoje são os mesmos.

Portugal não é mesmo porque o montante da dívida, pública e privada, não o permite. A Europa não é a mesma porque a URSS já não existe, a UE alargou-se para leste, e encontra-se hoje num nível em que a sua falta de flexibilidade pressupõe que Portugal estivesse melhor preparado para a moeda única, que criou imensas oportunidades que os nossos governos destruíram. O mundo está diferente, com os EUA afastados da UE e mais preocupados com a China.

O que os candidatos à liderança do PSD parece ainda não terem percebido é que o PS também mudou. E muito. Este PS não se aproximou do PCP e do BE por questões meramente estratégicas; a aliança entre os três partidos de esquerda é mais ideológica que oportunista. Resulta da defesa dos mesmos interesses perante um Portugal, uma UE e um mundo muito diferentes. Perante as mudanças ocorridas, o PS, que viu o que sucedeu aos partidos socialistas europeus, percebeu que para sobreviver tem de se radicalizar na defesa de um sistema democrático eleitoralmente estatizado.

O país desenvolveu-se com um Estado que dá emprego, apoia empresas de empresários amigos e politicamente próximos. Como nem todos se chamam Belmiro de Azevedo, muitos se vendem por um baixo preço. Ou alto, como aconteceu com Ricardo Salgado. Este PS sabe que não pode trair o seu eleitorado que vive por conta deste sistema. Se o fizer, desaparece. Assim, percebem-se melhor os últimos orçamentos, com impostos altos, cativações, mas ordenados e pensões por inteiro. E agora, até com algum investimento público devidamente escolhido, devidamente direccionado.

Se o PS vier para o centro, acaba. Foi ao percebê-lo que Costa engendrou a coligação social-comunista que sustenta o seu governo. O PSD deve perceber que o estado da economia portuguesa destruiu a esquerda moderada e pouco mais há a fazer.

A ética republicana da geringonça e as casas ardidas que pagam IMI

Costa a abraçar uma contribuinte passiva cuja casa ardeu num incêndio florestal e que acaba de chegar da repartição das finanças, onde pagou o IMI.  A contribuínte não tem casa mas cumpiu o dever patriótico e cívico. Não tem nada a ver com os figurantes, a Aximage e o focus group. 

 

Ontem choquei de frente com este tweet da Margarida B. Lopes.  E pensei: mesmo para a evidente falta de nível político, ético e moral da geringonça, é mau demais para ser verdade. Erro meu.
Pelo menos 110 pessoas morreram, vítimas de incêndios florestais. Milhares ficarem sem sustento, sem nada. E o que fazem o PS, o BE e o PCP a propósito de uma iniciativa do PSD de isentar de IMI (referente a este ano e ao próximo) as pessoas que perderam as casas (prédios urbanos, rústicos e industriais)? Chumbam a proposta dos sociais-democratas, obrigando estas vítimas a pagarem IMI sobre imóveis que foram destruídos pelos fogos.
Por uma questão de higiene, vale a pena seguir a discussão na página da Margarida B. Lopes.
E para os mais distraídos em geral e em particular, aos deputados nacional-socialistas de rosto humano, a autora do tweet relembra que existem várias propostas da geringonça para isenções de IMI no OE 2018 e aprovadas na Assembleia da República.
Em resumo: a geringonça não aprovou a medida proposta pelo PSD porque entendeu não o fazer. Em jeito de conclusão: a decisão da geringonça mesmo levando em linha de conta os baixos padrões da geringonça, é monstruosa.
Às criaturas do PS, Bloco de Esquerda e do Partido Comunista que de livre vontade o fizeram, desejo que seja insuportavelmente pesada a terra que levarão em cima.

Marcelo, o presidente dos sofredores

Terá Marcelo pena de nós por não passarmos da cepa torta? A minha crónica hoje no i.

Marcelo, o presidente dos sofredores

Na semana passada escrevi sobre como Marcelo mudou desde o princípio do seu mandato presidencial. Hoje faço-o sobre como essa mudança prova o quanto Portugal se mantém igual. É cada vez mais certo que o crescimento económico que temos presenciado está a ser distribuído através de favores que visam a manutenção do PS no governo, a satisfação dos interesses dos sindicatos do PCP e a agenda do BE.

Tal como no passado, a conjuntura internacionalmente favorável que vivemos não está a ser aproveitada para reformar o Estado e libertar a economia. O país vai pagar muito caro cada dia que passa com o atual governo. Marcelo já o percebeu e age em conformidade. Nas últimas semanas tem consolado as vítimas dos incêndio, da mesma forma que, dentro de algum tempo, consolará as vítimas das atuais políticas.

Marcelo é hoje mais um consolador da nossa tragédia que um político. Cada abraço de conforto que dá, cada palavra de força que profere vai nesse sentido: consolar um país cujo fado é sofrer. É muito interessante ver como, enquanto Cavaco, apesar de todas as suas idiossincrasias, apelava ao esforço e à vontade para se superarem as dificuldades, Marcelo se contenta em consolar os pobres porque serão sempre pobres.

Ao vê-lo no seu afã por estar com os que sofrem, este novo Marcelo que nos surge triste, contristado, com pena dos portugueses, faz-me crer o quanto ele finalmente compreendeu o sacrifício imenso que é viver aqui, de forma pequena. Sem horizontes, sem esperança, sem saída.

Afinal

Afinal as hipóteses do Porto eram limitadas; afinal, as melhorias na economia europeia vão trazer taxas de juros mais elevadas, o que não nos ajuda nada. Afinal, o governo cede nos professores porque está preso pelas clientelas do PCP e do BE; afinal, o PCP não derrubou o muro; afinal, a dívida pública é ainda mais colossal do que era em 2011. São muitos os afinais. Porque, afinal os tempos felizes que vivemos foram ao género dos tempos felizes de outrora em que o país, apesar de pobre, se dizia único, com um povo simpático e acolhedor. Afinal isto está tudo igual e somos governados pela mesma mentalidade que governou o país naqueles 40 anos que alguns de nós desejávamos longínquos. Mas não são. Perseguem-nos, porque afinal tudo se resume a muito pouco.

Pessoa, Simenon, Gomes Ferreira, Cardoso Pires e Agostinho da Silva

O Pedro Correia teve a gentileza de me convidar para escrever um texto para o Delito de Opinião, e eu escrevi sobre o meu encontro com certos escritores. E Agostinho da Silva, claro. A inesquecível conversa, era eu um miúdo, que tive com Agostinho da Silva.

A esquerda está a dar cabo do Estado social

Hoje no Jornal Económico.

A esquerda está a dar cabo do Estado social

Primeiro soubemos das cativações orçamentais. Depois que essas cativações tinham sido a causa para o dito sucesso do défice de 2% do PIB, em 2016. Como não há milagres, apesar de na crença de alguns as vacas voarem, percebemos que as cativações compensaram os aumentos salariais na função pública, que é a plataforma eleitoral do Governo.

Mais tarde fomos sabendo outras coisas. Soubemos da má resposta das autoridades ao incêndio em Pedrógão, das deficiências do Estado no combate aos incêndios de 15 de Outubro, da anedota pública que foi o roubo de Tancos, das listas de espera nos hospitais que têm vindo a aumentar, das escolas, algumas sem professores outras sem comida decente para crianças. Uma lista interminável de falhas do funcionamento do Estado, das quais o surto legionella no São Francisco Xavier é apenas mais uma gota de água num oceano que, caso o Governo fosse outro que não este seguro pela extrema-esquerda e um ciclone de categoria 5 pairaria sobre nós.

Conforme noticiado pelo Público, o Conselho Nacional de Saúde, um órgão independente consultivo do Governo terá concluído que faltam cerca de mil milhões de euros para a saúde. Não é por nada, mas quando ouço rumores de que falta dinheiro na saúde, que há atrasos no pagamento a fornecedores e os partidos de extrema-esquerda se calam é porque o assunto, além de grave, os compromete. O que me assusta: sempre que os extremistas, e os comunistas são extremistas se nos recordarmos do que disseram aquando do centenário da revolução bolchevique, estão comprometidos é porque algo muito grave e perigoso se passa.

É chocante a forma como o Governo, e quem o sustenta, mentiu antes da troika, durante a intervenção da troika e agora, depois do programa de resgate financeiro a que o Estado se teve de submeter para salvar a sua dimensão social. Até 2011, com a economia estagnada, o PS comprometeu o país, apesar de alguns avisos em contrário, a um programa de dispendiosas obras públicas para fazer a economia mexer. O resultado foi a falência do Estado. Durante o programa de resgate que visou salvar o Estado social, a esquerda, da pretensamente moderada à extremista, acusou o governo de o destruir porque se cortavam salários apesar de se manterem as despesas sociais. Como se pagar salários na função pública fosse uma obrigação social e não laboral. Já em 2017, enquanto se cativa dinheiro que falta faz a quem precisa, aumentam-se salários, repõem-se regalias.

Agora que o Estado vai perdendo a sua dimensão social a esquerda já não sai à rua porque os seus não são os que mais beneficiam dos cuidados de saúde nem das políticas sociais. Os seus são apenas os que votam e esses são os que lhe interessam.

Marcelo mudou, mas de pouco nos vale

A minha crónica hoje no i.

Marcelo mudou, mas de pouco nos vale

Para mim, como Presidente da República, o mudar de vida neste domínio é um dos testes decisivos ao cumprimento do mandato que assumi e nele me empenharei totalmente até ao fim desse mandato.” Marcelo Rebelo de Sousa, em 17 de outubro de 2017, ao finalizar o seu discurso em Oliveira do Hospital.

É importante relembrar estas palavras do Presidente da República porque marcam um ponto de viragem no seu mandato.

Até então, Marcelo andava sempre junto a Costa, apoiava o governo, alinhava, embora com as reservas normais numa pessoa minimamente inteligente e sensata, no optimismo dos socialistas. Marcelo ria, sorria, falava, gesticulava, tornara-se um homem fútil, um Presidente supérfluo que não fazia contraponto ao governo, mas à oposição. Alegre, jovial, folgava os bons tempos com que os bons ventos vindos do exterior bafejavam o seu mandato. Marcelo desfrutava ao mesmo tempo que rebaixava Passos, troçando do seu azar.

Mas depois Passos saiu, a tragédia instalou-se e Marcelo, qual verdadeiro animal político, mudou. Ele sabe que a felicidade da primeira parte do seu mandato não tem bases para se manter e que tudo se esboroará sem que se perceba bem como. É para esse tempo que Marcelo se prepara. Assim, enquanto Costa e Medina se abraçavam na abertura da Web Summit, quais crianças felizes e contentes, Marcelo visitava os sem-abrigo. Porque Marcelo já não tagarela; ainda sorri, mas de um jeito triste, e já não se ri por tudo e por nada. Marcelo deixou de querer estar na roda e já não dança. Mudou porque as circunstâncias mudaram. Tornou-se sério e passou a ser levado a sério.

O problema, no entanto, é que a ação de Marcelo não vai resolver problema nenhum. O país continua a endividar-se, e o Estado sequestrado por interesses vários; não há reformas que reduzam a despesa pública, nem Marcelo, mesmo que a isso estivesse disposto, podia fazer o que quer que fosse. Desta forma, caminhamos para o pior dos cenários numa democracia: um Estado endividado, preso por variadíssimos interesses que vão das empresas dependentes dos decisores políticos aos sindicatos que precisam de mostrar serviço, passando pelas fundações e demais entidades públicas. Com uma classe política desacreditada e um Presidente generoso, popular, mas totalmente incapaz de propor as mudanças que são indispensáveis, temo que muitos dos que hoje culpam a liberdade económica por todos os males do mundo acabem por apontar o dedo também ao liberalismo político. Marcelo mudou, mas a mudança serve-nos de alguma coisa?

Salvem o socialismo africano

Parece que Robert Mugabe não terá muitas condições para para continuar a realizar obra.
O ditador africano há mais tempo no poder instaurou um regime violento, autoritário e sobre o qual pendem múltiplas violações grosseiras da liberdade.
As reformas socialistas implantadas à força e acompanhadas pela banda sonora do racismo foram a via verde para o precipício, com os ataques à propriedade privada, a nacionalização de propriedades e o abandono forçado das terras, sob a ameaça de armas.
Para o regime de Robert Mugabe, a democracia pouco mais é do que um mecanismo processual onde são eleitos os seus representantes. E o até agora eterno Presidente sempre venceu as eleições e com resultados estratosféricos, com as consequências devastadoras que estão à vista de todos.

António Costa, o novo Odorico Paraguaçu

Festa rija no Panteão Nacional. Descubra as diferenças entre a personagem de ficção e um ser desprovido de vergonha o Primeiro-Ministro de Portugal.

Candidato a prefeito da cidade fictícia de Sucupira, elegeu-se com a promessa de construir o cemitério da cidade.[2] Apesar de corrupto e demagogo, era adorado pelos eleitores e exercia fascínio sobre as mulheres.[2][1] Era pai de Telma (Sandra Bréa) e Cecéu (João Paulo Adour).[2]

Dono de uma retórica vazia, gostava de citar filósofos e políticos, como Platão e Rui Barbosa, ou inventava frases que atribuía a personalidades.[2]

O problema de Odorico é que, após a inauguração do cemitério, ninguém mais morreu. Desesperado com a situação, tomou iniciativas macabras para concretizar sua promessa, provocando situações cômicas.

Para o futuro fica a ideia para mais eventos: só em Lisboa existem outros sete locais -Cemitério Alto de São João, Cemitério da Ajuda, Cemitério de Benfica, Cemitério de Carnide, Cemitério do Lumiar, Cemitério dos Olivais e o promissor Cemitério dos Prazeres-, que podem ser usados de uma forma moderna, festiva e progressista.  O poder local recentemente eleito promete e a Geringonça que é incapaz de cuidar dos vivos e de respeitar os mortos governa o país a cantar e a rir, de uma forma nunca antes vista. Não estranhem.

Antes o paraíso que o inferno fiscal

A minha cróninca no i. Sobre os paraísos, porque o bom agora são os infernos fiscais.

Antes o paraíso que o inferno fiscal

Veio a lume mais uma investigação sobre os paraísos fiscais, revelando uma lista de pessoas muito ricas e famosas que têm dinheiro, ou fizeram investimentos, em empresas offshore. Claro está que a notícia foi dada como sendo um mal a que se tem de pôr termo. Seguindo-se a conclusão mortífera: se não fugissem, pagávamos menos impostos, como se o problema fosse a pouca receita e não a excessiva despesa.

Entretanto, leio estas notícias e pergunto-me: quando é que nos tornámos tão amigos dos cobradores de impostos? Atenção, caro leitor, não vá por aí, não caia na esparrela de me confundir com os que defendem a fuga aos impostos, as fraudes fiscais e os crimes económicos. Nem todas as ligações a offshores são crime ou sequer eticamente reprováveis. Claro que há paraísos fiscais ligados a atividades criminosas, mas ligados a atividades criminosas também estão vários Estados e não é por isso que o conceito de Estado deve ser posto em causa.

Ademais, há Estados falidos porque mal governados. E, porque mal governados, Estados que se tornaram verdadeiros infernos fiscais. Nesses locais, o cidadão tornou-se um suspeito permanente que é preciso fiscalizar por tudo e por nada, a torto e a direito, não vá ele não entregar a dízima, perdão, não pagar o imposto. Até porque o imposto é muito mais alto que a maldita dízima contra a qual essa ideia peregrina que foi a liberdade dos cidadãos se insurgiu e através da qual se estabeleceram os valores que (ainda) regem a nossa sociedade.

E veja-se ainda isto: existem infernos fiscais, como é o caso de Portugal, para os nacionais, que são paraísos fiscais para estrangeiros. Não deixa de ter graça, mas é bastante demonstrativo da forma como se condiciona a informação, que o governo português seja contra as offshores, para onde foge dinheiro que podia ir para o seu bolso, mas já incentive regimes jurídicos para outros cidadãos não pagarem cá impostos.

Porquê, então, tanto barulho? Porque, e esta é fácil, os Estados estão endividados. Portugal é dos piores, mas poucos escapam. Assim, as offshores, que antigamente até eram aceitáveis, tornaram-se um inimigo. Primeiro, porque há nelas muito dinheiro a que é preciso deitar a mão; segundo, porque é preciso um culpado. Falta dinheiro? Claro que a resposta não é a má gestão de maus governos, mas a fuga de capitais. Uma hipocrisia múltipla. Os Estados faliram porque somos mal governados; os ricos vão sempre fugir porque podem; e os remediados, a nova classe média, é que cá ficam presos para pagar a dízima, perdão, para suportar a carga fiscal.

Quando a ausência é o maior sinal

Há um sinal político, em Portugal tudo é política, a reter no Web Summit: contrariamente ao conjunto Costa/Medina, Marcelo Rebelo de Sousa não esteve na abertura, nem parece que vá aparecer na festa. O facto é relevante porque Marcelo, depois de surfar na onda durante os primeiros meses, percebeu finalmente que a euforia deste governo, a época das vacas voadoras, tem o seu fim à vista. E é com esse fim à vista que Marcelo preside agora ao país.