Quem são os tolos?

A minha crónica hoje no Jornal Económico.

Quem são os tolos?

A dívida pública aumenta a níveis mais elevados que durante o período de intervenção da troika e, por isso mesmo, apesar do crescimento económico, o país está mais pobre. Com mais dívida, há mais contas para pagar no futuro que é o nosso (ainda não sou velho) e dos nossos filhos (e netos, porque a factura é mesmo elevada).

Impressiona como pouco se aprendeu com os sacrifícios dos últimos anos. Continua a confundir-se crescimento com riqueza, riqueza com azáfama, azáfama com alegria, alegria com tolice. Um círculo vicioso que ridiculariza a crítica pensada para que, quem pensa, não seja escutado. Porque quando não se escuta não há registo, ninguém se lembra, e não há responsáveis, não há culpa, não se tiram ilações. Não se aprende. Não se muda. Insiste-se, e volta-se a insistir, no mesmo erro, nas mesmas fórmulas, nas mesmas pessoas que se escapam porque ninguém é responsável do que quer que seja.

Esta crónica não é sobre a farsa política que vivemos, mas sobre o modo como a aceitamos. Vezes  sem conta me questionei se o nosso presidente, na sua azáfama, e o nosso primeiro-ministro, com o seu sorriso, não seriam uns tolos que nos governam. As viagens juntos, os elogios mútuos, um a segurar o guarda-chuva do outro era mau de mais para ser verdade. Porque sou liberal considero que o poder do Estado deve ser exercido com dignidade. Qual o interesse em assim não ser? E foi pensando nisso que concluí que, talvez, tolos não fossem aqueles dois, mas os portugueses, ou a maioria deles que neles acreditam.

“Só dança quem está na roda”, respondeu Marcelo quando lhe indagaram sobre a nega que levou do presidente do Brasil. A nova versão do “quem não está, estivesse” relativo a um presidente doutro país que pode deixar de estar é uma chamada de atenção para os que não alinham na festa. Quem não está, perde. Isto não é tolice, é mais que isso, é perverso, é vicioso. É tomar o povo por tolo que se intruja com palmadinhas nas costas, selfies e deixem lá isso que isso agora não interessa nada. É grave.

Mas será o povo tolo ao ponto de não saber que está a ser enganado? Ou será que entra na roda não para dançar, mas para sobreviver? Aguentar porque com estas elites não vamos lá e de nada vale fazer doutra forma. Se não os podes vencer junta-te a eles. O povo também sabe da vida, não é só Marcelo. Tolo é, pois, quem não alinha. Quem não entra na roda e não dança. Pode ser, mas e a dignidade? E a dívida que não quero que o meu filho tenha de pagar? Os pais e avós que lêem estas linhas não se importam com o que os seus filhos e netos pensarão deles? Ou será que também eles vão aprender a manha do desenrascanço de quem se aguenta no meio disto?

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Um Estado falhado

O que ninguém sabia quando Marcelo chegou ao local da tragédia e disse que ‘se fez o máximo que se podia ter feito’ é que muitas das vítimas não eram dali. Muitas delas tinham ido apenas passear na região, passar um dia numa praia fluvial e regressar depois a casa. Ora, este pormenor, além de dizer muito da forma como as autoridades valorizam as diferentes vidas humanas, permite-nos concluir que qualquer português podia ter morrido ali. Qualquer um de nós, fosse do Porto, Aveiro, Bragança, uma aldeia do interior ou cidade do litoral, podia ali ter estado e ali ter ficado. O que aconteceu não foi um azar. Não é seguro viver e andar em boa parte do interior de Portugal. Se o Estado não tem condições para proteger a população, uma das suas funções fundamentais, o Estado serve para quê?

Fogos que ardem sem se ver

O Estado não previu, nem preveniu, a possibilidade de um incêndio forte como o de Sábado passado, apesar de tal ser expectável com as altíssimas temperaturas que se faziam sentir. Todos perguntam, porque nada se fez. Mas há outro incêndio de deflagra e que poucos vêem: o fogo da dívida, seja pública ou privada. Também quanto a esta, e apesar da experiência que o país tem na matéria, pouco ou nada se faz. O Eco noticiou em Maio o aviso do BCE: a subidas das taxas de juros por parte do FED são um forte risco para Portugal. É verdade que o PIB está a crescer parecendo dessa forma que a dívida fica controlada, mas isso não é verdade. É uma ilusão, mais uma, que se soma a todas as demais. É por isso muito importante que se inquira, se investigue e se procurem respostas. O país não pode voltar a ser apanhado de surpresa.

Cuidado com isso

Não peçam responsabilidades a António Costa que ele ainda nos responde que não ganhou as eleições.

É que nem a brincar

Esta semana Portugal foi um Estado falhado. É muito importante agora, no rescaldo dos incêndios, na contagem dos mortos, na busca dos desaparecidos e tratamento dos feridos, que não se minta. Que nada se omita.

A revolução Macron

“Notre Histoire a fait de nous des enfants de l’État, et non du droit, comme aux États-Unis, ou du commerce maritime, comme en Anglaterre. C’est à la fois un bel héritage et un héritage dangereux.”
Emmanuel Macron, Révolution, p. 48.

Sem que seja surpresa Macron cilindrou o partidos tradicionais franceses. Primeiro, nas presidenciais e agora nas legislativas. 359 dos deputados (em 557) é obra; e significativo.

Mas não tenhamos ilusões que a França não mudou. O seu novo presidente é mais estruturado, mais hábil, mais ousado (e prudente) que os dois anteriores; é mais liberal, no sentido de querer abrir a França à mundialização (como eles dizem), do que qualquer dos anteriores presidentes, mas a França, na sua essência, não mudou.

Macron vai através do Estado forçar a França a entrar no século XXI. Não é a primeira vez que um chefe de Estado francês moderniza a França desta forma. Não será a última. O que assistiremos nos próximos anos será a uma série de reformas do funcionamento do Estado, das leis do Estado, para que dentro da esfera do Estado, franceses e estrangeiros possam negociar o mais livremente possível em prol desse mesmo Estado.

Este o liberalismo francês, republicano e centralista, porque a modernização da França, nomeadamente a descentralização do ensino, será traçada a régua a esquadro a partir de Paris, não é aquele a que associamos quando falamos de Reagan e Thatcher. Aliás, e porque a política vive muito de símbolos, a caminhada de Macron, depois de eleito, o homem só ladeando a pirâmide do Louvre enquanto se prepara para discursar ao povo, é a imagem do homem de Estado que se quer forte, imperioso (o Le Monde qualificou o primeiro mês do mandato de Macron como ‘impérieuse’), em contraponto com a hiper-presidência de Sarkozy e a presidência normal de Hollande. Ser presidente da França não tem nada de normal: há formalismo, há dignidade, há que presidir a um Estado que sustenta um país e um povo. Com Macron, a banalização do cargo não terá lugar.

Um país alheado mas feliz

A minha crónica no ‘i’.

Um país alheado mas feliz

Uma semana que mistura folga com trabalho é o espelho de um país que combina lassidão com regozijo. A vida corre bem, o passado está longe, e mesmo quando reaparece, como no caso da EDP, fecha-se os olhos, respira-se fundo e esquece-se. Os supermercados estão cheios de livros sobre como lidar com a ansiedade e, pelo que vejo, os portugueses leram-nos.

Mas não só. As notícias sobre o crescimento económico têm sido fantásticas. Segundo o Eurostat, a economia portuguesa foi a quinta com maior crescimento da zona euro no primeiro trimestre deste ano. Por todo o lado vemos alegria. Um frenesi geral, qual tique marcelista, apoderou-se de Portugal.

Longe de mim estragar o relaxe nacional mas, ainda no passado dia 1 de Junho, o Banco de Portugal divulgou que a dívida pública se fixou em 247,4 mil milhões de euros – mais 3,9 mil milhões que no final de Março. Só para termos uma ideia, a dívida pública subiu em 2015 “apenas” 5,3 mil milhões de euros. Não quero estragar a alegria de António Costa, mas 3,9 mil milhões de euros em dois meses parece-me muito pior que 5,3 mil milhões num ano inteiro.

Mas há crescimento. É verdade. Só que à custa de mais dívida, ou seja, de empobrecimento. Veja-se bem como a economia cresce, mas estamos mais pobres. E não era a política que vinha mandar na economia? Há algo que me transcende na propaganda. O crescimento não é sustentado, deve-se ao que se passa no Magrebe, ao medo na Europa; ao êxodo dos franceses a que o governo de Macron porá termo. Mas a dívida fica. E paga-se.

Uma artimanha como qualquer outra

John McDonnell, o ministro-sombra das finanças dos Trabalhistas, afirmou na Sky News (sem link) que Theresa May deve resignar. Motivo: como não conseguiu a maioria absoluta, não tem condições para governar. Além de esquecer que Jeremy Corbyn também não resignou quando em 2016 perdeu, e perdeu de forma esmagadora, à pergunta de um jornalista sobre como é que os Trabalhistas, com menos deputados, têm melhores condições que os Conservadores para formar governo, McDonnell responde que as políticas do seu partido são populares, e por isso e apenas por isso, muitos deputados não terão dúvidas em votar a seu favor.

O argumento é antigo, e lamento que o jornalista não lhe tenha perguntado como é que sendo tão popular o programa trabalhista não ganhou o voto do povo, usa a técnica de tornar objectivo o que é subjectivo. Assim, uma medida é boa porque nossa, uma eleição ganha-se não porque se tem mais votos mas porque os resultados foram acima das expectativas, e que as sondagens são mais precisas que o voto (uma técnica dos apoiantes da geringonça em Portugal). Foi assim que Corbyn e companhia tomaram conta do Labour party e é assim que pretendem tomar conta do Reino Unido.

(Correcção: Corbyn perdeu em 2016 e não em 2015, conforme inicialmente referido). Obrigado, Bruno Alves.

May we say goodbye?

A minha crónica hoje no ‘i’.

May we say goodbye?

Fraser Nelson, editor da “Spectator”, escreveu a 20 de maio um texto sobre o manifesto vermelho de Theresa May para as eleições que têm lugar hoje no Reino Unido. Vermelho, porque recupera propostas do ex-líder trabalhista, Ed Miliband, como o aumento do salário mínimo para 9 libras/hora, o imposto sobre imóveis de alto valor e até o taxar os empregadores para financiar a formação dos novos empregados. Theresa May tornou-se a líder dos conservadores mais à esquerda desde há 40 anos.

No entender de Fraser, três teorias explicam esta viragem à esquerda. A primeira é que May quer ganhar o maior número possível de deputados ao Labour. A segunda, que May precisa de se afirmar entre os conservadores. A terceira é a mais inquietante: com o Brexit, os tories estão mais preocupados com a ideia de país e relegaram a liberalização económica para outra oportunidade.

O Brexit monopoliza de tal forma as preocupações dos conservadores que estes esqueceram as reformas que tinham de fazer para tornar o Estado menos gastador e mais justo. Segundo Fraser, muitos conservadores anteviram isso mesmo e, por isso, apoiaram o remain. O certo é que o Brexit venceu e o programa da direita britânica tornou-se uma passadeira vermelha para o socialismo que julgávamos guardado no baú. E quando May, enquanto ministra do Interior, cortou nas receitas da polícia, os conservadores, que não conquistam a esquerda copiando–a, acabam por perder a direita. Uma mulher não é Margaret Thatcher só por ser mulher.

A Europa segundo Macron

Ouço falar em reformar a UE. Mas alguém discute as propostas de Macron para Europa? A minha crónica no Jornal Económico.

A Europa segundo Macron

No dia a seguir a tomar posse, Emmanuel Macron foi à Alemanha conversar com Angela Merkel. Na bagagem levou a sua proposta de refundação da Europa. Mas ao contrário de Hollande, que foi a Berlim de mãos vazias, o novo presidente francês propôs e ofereceu algo em troca. Que Europa quer Macron?

É no seu livro ‘Révolution’, publicado em Novembro último, que Macron explana a sua visão para a Europa. O plano apresentado a Merkel divide-se em três propostas. Em primeiro lugar, que a Alemanha aligeire a política de austeridade orçamental. A segunda consiste na implementação de um orçamento para a zona euro direccionado ao investimento público estratégico, e de apoio aos países cujas contas públicas coloquem em risco a estabilidade da zona euro. Este orçamento exigirá um ministro das Finanças que tutelará e fiscalizará os ministros das Finanças dos países da zona euro.

A terceira proposta de Macron à Alemanha é a moeda de troca. Ou seja, cada país da zona euro terá de implementar reformas estruturais para que possa beneficiar do novo orçamento europeu. Macron defende mesmo que o desacordo de um país não deve impedir que os restantes sigam em frente no projecto de integração europeia. Ou seja, dentro da zona da euro, e no que diz respeito às reformas estruturais e aos dinheiro do novo orçamento comunitário, podemos vir a ter uma Europa a duas, ou três velocidades. Algo que está em consonância com o que François Hollande propôs em Versalhes no dia 6 de Março, quando se encontrou com os líderes da Alemanha, Itália e Espanha.

Para dar o exemplo aos restantes países, como Portugal, Macron vai apresentar, até ao final de Setembro, um pacote de reformas estruturais que pretende levar a cabo durante o seu mandato. A primeira é a alteração do Código do Trabalho, que o governo francês já se encontra a estudar. Além do exemplo que pretende que venha da França, Macron quer com essas reformas mostrar que Paris está realmente comprometida no projecto europeu, prontificando-se a levar a cabo as reformas que a Alemanha implementou no início deste século.

Perante este cenário, a nossa atenção vira-se para o Governo português. Como é que o PS, o PCP e o BE vão lidar com este projecto europeu que vem do Eliseu? Considerarão que um orçamento europeu e um ministro das Finanças da zona euro ferem a soberania nacional, ou aceitam os fundos daí provenientes em troca de reformas, como a liberalização do Código Laboral que sempre recusaram?

Estas questões não são de somenos importância. São fulcrais para que entendamos se o Governo tem um rumo, ou se limita a gerir acontecimentos. Se Portugal vai estar na Europa, ou se viramos costas e ficamos orgulhosamente sós.

Uma Europa dona do seu destino?

A minha crónica de hoje no ‘i’. Não está referido mas, entretanto, o primeiro-ministro da Índia está na Europa, com paragem em Madrid, Berlim, Paris e São Petersburgo.

Uma Europa dona do seu destino?

Dias depois de Trump regressar aos EUA vindo da Europa, Putin chegou a Versalhes. O pretexto foi a inauguração da exposição sobre os 300 anos da viagem de Pedro, o Grande, a Paris. De acordo com Vladimir Fedorovski, escritor de origem ucraniana e um dos maiores especialistas franceses sobre a Rússia, a visita de Putin põe termo à frieza com que Hollande marcou as relações com o Kremlin.

A vinda de Putin a Paris não é o único sinal de mudança na Europa. Na cimeira do G7, a primeira com Trump, que teve há dias lugar na Sicília, o presidente dos EUA afirmou que os alemães “são maus, mesmo muito maus”. Parecia a esquerda radical a alimentar os ódios na Europa, mas não, era mesmo o presidente da América.

Depois desse episódio, Merkel afirmou que “o tempo em que podíamos contar totalmente uns com os outros acabou, em certa medida. Verifiquei isso nos últimos dias”, e concluiu: “A única coisa que posso dizer é que nós, europeus, temos de tomar as rédeas do nosso destino.”

Nós, europeus. Merkel di-lo agora, que sabe ter em Macron um aliado válido. Mas que europeus são estes a que se dirige a chanceler alemã? Europeus de uma Europa sem o Reino Unido? De uma Europa sem o guarda-chuva norte-americano? De uma Europa que investe na defesa? E que se associa a quem? À Rússia, ao mesmo tempo que conta com os EUA? Uma Europa una e, se sim, em que termos? E Portugal, aquele país atlântico, aliado tradicional do Reino Unido e dos EUA, como é que fica? É assim que se percebe que ganhar a Eurovisão não basta.

Uma anedota portuguesa

De acordo com o INE o crescimento económico deve-se às exportações e ao investimento privado. Precisamente os sectores em que o governo de Passos Coelho apostou. Entretanto, as famílias consomem menos e o investimento público caiu para mínimos históricos. Ora, perante estes factos, o que conclui a maioria dos comentadores? Que Costa, que tinha um programa totalmente oposto, está para ficar e que Passos está acabado. O raciocínio até pode estar correcto, mas demonstra bem que esses mesmos comentadores, e com eles boa parte do país, não estão interessados em tirar ilações do que sucedeu em 2011, não estão interessados em corrigir os erros, não estão interessados em antever os problemas que surgirão muito simplesmente porque as causas que as originam não desapareceram.

Finda a folia, com que os comentadores – e boa parte do país – se entretêm, voltaremos ouvir as mesmas ladainhas, seja na rua, na televisão ou nos jornais. Finda a folia, o país continuará a ter com que se entreter. No fundo, a discussão política em Portugal não passa disso: de um entretenimento.

O terramoto político francês, segundo acto

De acordo com as últimas sondagens, o partido de Macron, La République en marche!, conseguirá entre 310 a 330, dos 577 deputados da Assembleia Nacional. A maioria absoluta não é, pois, uma miragem. Se a isso somarmos o resultado que se espera que Os Republicanos consigam (entre 140 a 160 deputados), o próximo parlamento francês ficará dominado por duas forças políticas que apresentaram, nas presidenciais de há um mês, programas políticos reformadores.

Somos forçados a tirar daqui duas conclusões: a primeira é que, apesar da pouca experiência política, Macron não tem cometido erros. Melhor que isso, tem evitado os deslizes que outros, muito mais experimentados que ele, cometeram. A segunda conclusão é que depois das legislativas, a França não tem muitas desculpas para que não leve a cabo as reformas que os alemães encetaram no mandato do socialista Schröder.

Se tal acontecer, se Macron for bem sucedido, Alemanha e França voltarão a ser o motor da Europa. Uma Europa em que o lugar deixado para os que se limitam a receber turistas, e ainda por cima a queixarem-se disso, será o de ir no reboque; bem cá atrás.

O homem que estava lá

(O meu artigo de hoje no Jornal Económico)

Na passada segunda-feira, para comentar a boa-nova de que a Comissão Europeia libertara Portugal do “procedimento por défice excessivo”, a RTP achou por bem emparelhar o conhecido economista Vitor Bento com o habitual comentador da estação Fernando Teixeira dos Santos, que passou os 28 minutos do segmento a aplaudir o “reconhecimento” do “esforço” que a sociedade portuguesa fez e a dizer que “há que manter esta linha de rumo” de “rigor” orçamental para “manter a confiança que já se faz sentir” e “não se perder esta oportunidade para consolidar estes ganhos”, depois de se “aprender com os erros cometidos no passado”: “os telhados”, concluiu, “consertam-se quando faz sol, não quando está a chover”.

Teixeira dos Santos falou como se nunca tivesse tido responsabilidades governativas, nem no caminho que obrigou os portugueses ao tal “esforço” de que falou. Mas teve, e grandes, por muito que a RTP (que imagino não lhe pague pouco) e quem o ouve como uma voz credível, esqueça ou finja esquecer que ele foi durante anos e até para além do dia em que foi preciso chamar “a troika” o Ministro das Finanças do ex-primeiro Ministro sob suspeita de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais José Sócrates.
Teixeira dos Santos chegou ao Ministério das Finanças bem no início do consulado “socrático”, depois – sublinhe-se – do pobre Luís Campos e Cunha se ter inicialmente deixado enganar pela propaganda do “engenheiro” e posteriormente apercebido daquilo em que se tinha metido, tendo vindo então a público afirmar que o caminho que se estava a iniciar acabaria por ter resultados desastrosos. Teixeira dos Santos, que obviamente não desconhecia o aviso, não entendeu que este merecesse cuidado, e aceitou substituir Campos e Cunha no Ministério das Finanças. A partir desse momento e até ao fim, tornou-se e permaneceu um cúmplice e co-responsável pela fraudulenta política financeira de Sócrates.

Teixeira dos Santos era o Ministro das Finanças quando o governo de Sócrates fingia, através dos mais variados truques, cumprir um défice que estava longe de estar efectivamente controlado. Era o Ministro das Finanças quando o governo de Sócrates se entreteve a aumentar a despesa pública para dar “confiança” à economia. Era o Ministro das Finanças quando o governo de Sócrates, à beira de eleições, decidiu comprar votos com um aumento de salários dos funcionários públicos e uma descida de impostos que abriram um buraco no Orçamento do qual Portugal nunca mais conseguiu sair. E era o Ministro das Finanças quando o governo de Sócrates andou alegremente de PEC em PEC até à bancarrota final. Depois da derrocada, relatos mais ou menos detalhados do caos no “bunker” socrático naqueles atribulados dias do seu crepúsculo começaram a sair na imprensa, e fizeram Teixeira dos Santos parecer, por comparação com o Primeiro-Ministro e alguns dos seus acólitos, um tipo sensato que, à beira do descalabro, não ignorava a realidade como o alucinado líder governativo que achava que tudo estava bem. Mas o facto de ter sido a pessoa que confrontou o lunático que o chefiava com a fatal constatação de que a loucura pela qual partilhavam responsabilidade tinha chegado ao fim não o iliba de ter sido co-autor dessa loucura.

É claro que Teixeira dos Santos, como qualquer outra pessoa, até maus governantes como foi o seu caso, tem o direito de se vir aliviar publicamente dos seus estados de alma sobre a actualidade. Mas num país normal, com uma comunicação social que merecesse ser respeitada pela população e que se desse ao respeito, ninguém lhe daria o palanque que televisões e jornais lhe continuam a dar. Que a RTP, paga com o dinheiro dos portugueses, seja um agente cimeiro da imerecida reabilitação de Teixeira dos Santos só piora as coisas. E que fora do PS e das redacções que lhe são simpáticas haja quem esteja mesmo convencido de que Teixeira dos Santos é mesmo uma voz credível que merece ser ouvida sobre a situação e o futuro de Portugal ajuda bastante a explicar como o país é o que é.

Venezuela

A minha crónica no ‘i’.

Venezuela

Há quase dois meses que a Venezuela protesta na rua contra o governo de Nicolás Maduro. E como normalmente acontece com os regimes que o Partido Comunista Português diz serem uma democracia, mais de 2500 pessoas foram já detidas e perto de 50 perderam a vida.

Este é o regime que Chávez impôs aos venezuelanos; aquele de que Sócrates se orgulhava e que Mário Soares elogiava. Lembram-se? Pois. O mundo da política é algo muito relativo. Tão relativo que o PCP, que por cá esconde a sua agenda de controlo das empresas e dos trabalhadores com um discurso de apoio aos pobres, fecha os olhos aos que sofrem naquele país sul-americano.

Enquanto o petróleo se vendia caro, Chávez utilizou as receitas daí provenientes para subir ao poder. E para se manter nele, além de continuar a gastar o que não era seu, mandou calar a imprensa que o criticava e prender os que se lhe opunham. Até que morreu, veio Maduro, o petróleo deixou de ser caro e a miséria instalou-se. Algo óbvio e cujas consequências aqueles que foram silenciados avisaram.

O que se passa na Venezuela não é apenas o fim de linha de um regime; é o preço da ilusão que se vende como se fosse de borla. Sem reformas e sem uma política séria, demagogos destruíram um país e a vida daqueles que nele vivem. Reconstruí-lo depois de Maduro não vai ser fácil. Esperemos apenas que, no meio do sofrimento, a maioria não se esqueça onde e quando começou o erro.

O milagre

A minha crónica no ‘i’.

O milagre

De acordo com o INE, a economia portuguesa cresceu 2,8% no 1.o trimestre deste ano. Foi o melhor trimestre desde 2010. Enquanto a esquerda rejubila, a direita vacila. Afinal, António Costa conseguiu. Mas conseguiu o quê? Reduzir a dívida pública? Não: esta continua a aumentar, o que significa que o país está mais pobre. Aplicar o programa de governo que apresentou às eleições de 2015? Não: tirando a distribuição de benesses pelo seu eleitorado tradicional, o PS limita-se a seguir a receita do anterior governo: impostos altos enquanto espera pelas exportações.

Conseguiu António Costa reformar o Estado, o mantra que todos, da esquerda à direita, nos disseram ser indispensável e que de repente esqueceram? Não: este governo não apresentou nenhuma reforma, limitando-se a um exercício de gestão pública. Imaginemos um barco cheio de buracos que, num período de acalmia em pleno mar alto, não faz reparações, convencendo-se de que está tudo bem porque o vento corre de feição.

Bem sei que é aborrecido ser desmancha-prazeres, mas eu gosto de viver de cabeça levantada. Podemos convencer-nos de que, num passe de magia, tudo se resolveu. E sem que se tenha feito nada. É verdade que o Papa foi a Fátima no dia em que o Benfica venceu o tetra e Portugal ganhou a Eurovisão, mas a nossa inteligência, o nosso discernimento ainda consegue impor limites.

A liberdade de consciência, que está em não nos deixarmos levar pela propaganda, é o que nos dá força para servir o país quando os optimistas o abandonarem.

Inconsciente ou irresponsável?

A notícia chegou pela manhã como pão quente: o Estado português conseguiu “colocar” 1500 milhões de euros em títulos de dívida pública a 6 e 12 meses a “juros ainda mais negativos” do que os dos empréstimos semelhantes que contraíra recentemente. Incapaz de se controlar, como de costume, o “Prof. Marcelo” correu à procura das equipas de reportagens das televisões, rádios e jornais, e manifestou a sua enorme alegria com a boa-nova. Segundo o Presidente, sempre convencido de que todo e qualquer acontecimento gira em torno da sua magnífica pessoa, este resultado “confirma a viragem de que eu falei (…) na economia portuguesa”, e mostra que “os mercados” estarão “a sentir” a “solidez financeira” e “o crescimento” que actualmente beneficia o país. “Era impensável”, diz Marcelo, que “há um ano, há dois, há três, há quatro, que nós pudéssemos ir recolher dinheiro a seis meses, a um ano, a juros tão negativos”. Ter sido possível fazê-lo, explica o Presidente, “quer dizer que as pessoas ainda pagam para ter dívida pública portuguesa”. E conclui: “isso é bom”.

Ao contrário do que Marcelo diz, não é. Seria, claro, se fosse um sinal de que o país e a sua dívida surgem, aos olhos de quem a compra – ou seja, de quem nos empresta dinheiro – como um bem duradouramente estável e apetecível. Ora, apesar do que as aparências ilusoriamente levarão a crer, nada disso acontece. Pois ao mesmo tempo que os juros dos títulos de dívida pública portuguesa com juros a curto prazo atingem esses valores negativos, os empréstimos que Portugal contrai a longo prazo (a 10 anos, por exemplo) continuam a ter juros acima dos 3%, mais elevados que a maioria dos outros países da zona euro

Como já há muito tempo se percebe, esta disparidade e este aparente paradoxo só têm uma explicação, que não augura nada de bom acerca do que o futuro reserva a todos aqueles que tiveram o azar de nascer – e a imprudência de continuar a viver – em Portugal: num país como o nosso, em que a dívida pública cresce sem cessar e que só através de truques de contabilidade e incumprimento das suas obrigações para com os mais variados credores (escolas, hospitais, prestadores de serviços, etc.) consegue que o valor do défice orçamental seja inferior àquele que “Bruxelas” exige, seria de esperar tudo menos que se conseguisse pedir dinheiro emprestado a taxas de juro negativas. Olhando para o papel do Banco Central Europeu e a sua “política de compra de activos”, vê-se melhor o que se passa: para salvar da bancarrota países com problemas orçamentais como Portugal (ou a Itália, ou a França, ou a Grécia), o BCE adquire títulos de dívida pública (e injecta dinheiro para economia), aumentando de forma artificial a procura desses produtos, tornando-os de forma igualmente artificial menos onerosos para quem tem de pagar os juros pelos empréstimos que eles representam.

Ou seja: o BCE está deliberadamente a criar uma bolha no mercado dos títulos de dívida pública. É essa bolha que explica os juros inacreditavelmente baixos que Portugal paga pelos empréstimos com maturidades mais curtas, e os juros bem mais elevados dos empréstimos com maturidades mais longas: ao mesmo tempo que a existência da bolha faz com que países que de outra forma ficariam sem acesso a esses mercados (como Portugal) neles permaneçam, e a custos irrisórios ou inexistentes, a consciência de que a bolha existe e a expectativa de que mais tarde ou mais cedo ela terá de rebentar fazem com que só com juros relativamente elevados alguém esteja disposto a correr o risco de nos emprestar dinheiro que só teríamos de pagar daqui a 7 ou a 10 anos, altura em que, talvez sem a ajuda do BCE, poderemos não estar em condições de o fazer.

Marcelo, claro, não diz nada disto, como nunca diz o que quer que seja que tenha um mínimo de complexidade, substância, importância ou gravidade. A única questão, à qual não sei responder, é se não o diz por ser um irresponsável que, para agradar a todos os que não gostam de “divisões partidárias” e afagar os inquietos corações de quem está farto de “más notícias”, apaga do seu discurso e da realidade todo e qualquer facto preocupante para os quais deveria alertar o país e os seus cidadãos, ou se não o diz por ser um completo inconsciente, alguém sem a mínima noção da realidade do país, dos problemas que o afectam, e dos perigos que o espreitam, enquanto os seus pobres habitantes sorriem e dão graças aos deuses da sua predilecção pelo Governo que os faz sentir que as dificuldades passaram e pelo Presidente que lhes assegura que “somos os melhores”.

Édouard Philippe – o novo PM francês

Macron já escolheu o primeiro-ministro francês. Édouard Philippe não é apenas um moderado. É o exemplo maior da nova classe política francesa com que Macron conta para substituir a antiga. Philippe foi apoiante de Michel Rocard (que concedeu uma excelente entrevista ao Le Point pouco antes de morrer, em Julho passado), e aproximou-se da direita através de Alain Juppé (a tal direita que não tem problemas em apoiar Macron, e cuja disponibilidade o novo presidente francês aproveita para dividir Os Republicanos).

Com o PS liquidado falta vergar Os Republicanos para, depois de vencidas as legislativas, Emmanuel Macron aplicar o seu programa de governo sem os obstáculos que um PS armadilhado colocou a François Hollande.

Macron aprendeu com os erros de Hollande e, por muitas interrogações o seu mandato coloque, até agora está a fazer tudo bem.

O Governo placebo

(artigo publicado hoje no Jornal Económico)

Jorge Bergoglio, o responsável máximo da Igreja Católica mais conhecido pelo seu nome artístico de “Francisco” e expoente máximo da moderna falsa “autenticidade” dos afectados “afectos” e dos afortunados que vêem virtudes na pobreza que não têm de suportar (da qual o nosso Presidente é o maior representante local) veio a Portugal participar num mega-evento televisivo na Cova da Iria, e um pouco por todo o país, os funcionários públicos aproveitaram a ocasião para gozarem um dia de férias extra o mais longe possível das festividades. Tudo porque o Primeiro-Ministro António Costa resolveu aproveitar o pretexto da “excepcionalidade” da visita papal para contentar a referida (e vasta) clientela com um dia de “tolerância de ponto”, revelando o carácter e natureza do seu Governo.

Num artigo recente, intitulado America’s Placebo President? – “O Presidente Placebo da América?” – Tyler Cowen argumentava que o apelo de Donald Trump junto dos seus eleitores se deve não tanto à substância das suas políticas ou aos resultados que delas esperam, mas da forma como o primeiro Presidente laranja dos EUA, com a sua “retórica” e postura mediática, lhes “sinaliza” que está do seu lado nas “guerras culturais” americanas. Por outras palavras, Cowen acha que Trump apela aos seus fãs não porque eles esperem que ele melhore as suas vidas, mas porque os faz sentir melhor, oferecendo-lhes com a sua pessoa “uma voz pública” e “a ilusão de maior controlo sem o controlo propriamente dito”.

O governo de Costa, no fundo, serve um propósito semelhante, ajustado à medida do nosso provincianismo e pobreza relativa. Ninguém, no seu perfeito juízo (o que já limita de forma mais ou menos significativa o universo de portugueses a que isto se aplica), acredita mesmo que as políticas que Costa e os seus subalternos têm aplicado vão trazer uma grande prosperidade ao país, conseguir um “crescimento” que se veja ou “modernizar” o que quer que seja. No entanto, a crer nas sondagens, há uma satisfação geral com a governação socialista, ou, no mínimo, uma indiferença generalizada em relação à sua inconsequência. Não seria de espantar que tal se devesse ao facto do Governo, com as suas “devoluções”, “reversões” e proclamações de “virar da página da austeridade”, estar, embora sem nada fazer para realmente resolver qualquer um dos problemas estruturais que nos atormentam e mantendo o “livro” da dita “austeridade” bem aberto (com algumas clientelas poupadas ao esforço), a sinalizar que “os tempos difíceis” já passaram: Costa, os seus validos, e “idiotas úteis” (para usar o termo técnico) como os faladores do BE (o PCP presta-se menos a tais figuras) oferecem aos portugueses uma “voz pública” para o seu cansaço com os vários “apertos de cinto” que têm sofrido nas últimas décadas e com as exigências da “Europa”, e uma “ilusão de maior controlo” sobre o seu futuro económico e financeiro, mesmo que “sem o controlo propriamente dito”. A “tolerância de ponto” não serve apenas para dar um rebuçado aos funcionários públicos: serve para que os portugueses sintam que as coisas já não estão tão complicadas como estavam há uns anos atrás, mesmo que nada tenha realmente mudado.

Diga-se que o Governo anterior não era muito diferente: a sua retórica reformista escondia uma política profundamente imobilista, com a qual aos “cortes” (de salários ou pensões) ou “aumentos” (de impostos) não correspondiam medidas estruturais com efeitos duradouros. Se o governo actual oferece “tolerâncias de ponto”, o anterior “acabava com feriados”, uma medida irrelevante mas que sinalizava, sem afectar qualquer interesse realmente poderoso, que as coisas não podiam continuar como nos tempos da fraude “socrática”, dando uma “voz pública” à necessidade de maior rigor e uma “ilusão de controlo” perante a bancarrota sem que nada fosse feito que prevenisse a sua repetição no futuro.

É esse, aliás, o grande problema dos governos que sucessivamente nos têm pastoreado: todos eles se comportam como um médico que acha que a melhor forma de lidar com uma doença de um paciente é mascarar-lhe os sintomas, em vez de efectivamente a tratar. Durante uns tempos, há mesmo quem acredite que está tudo bem. Mas mais tarde ou mais cedo, acabamos sempre por descobrir que esse está longe de ser o caso, e que pagaremos cara a falta de juízo e honestidade de quem os deveria ter.

Confrontar os impunes

O meu artigo no Jornal Económico.

Confrontar os impunes

É sabido que, tanto Marine Le Pen como Catarina Martins, pretendem que França e Portugal saiam do euro. A líder do Bloco de Esquerda chegou a dizer, em Março, no final da reunião da Mesa Nacional do BE, que “é urgente preparar o país para o cenário de saída do euro ou mesmo do fim do euro”.

Nesse dia foi mais longe. Chegou a declarar que Portugal “tem de ter capacidade de defender a capacidade produtiva da sua economia, o seu emprego e o seu Estado Social”, apontando como prioritária a “reestruturação da dívida soberana, o investimento público, e o controlo público da banca e dos sectores estratégicos da economia”. Não, não era Marine Le Pen; era mesmo Catarina Martins. A líder do BE é da extrema-esquerda portuguesa que, na economia e nas políticas sociais, defende o mesmo que a extrema-direita francesa.

Ao mesmo tempo que diz o que diz sobre o euro e a reestruturação da dívida, o BE fecha com o PS um relatório sobre a dívida pública que propõe mais ou menos o mesmo que PSD e CDS advogaram no decorrer da anterior legislatura. O que era uma submissão à Alemanha, é agora perfeitamente aceitável. Alguns jornais registam a diferença, mas ninguém, jornalista ou político, confronta Catarina Martins com a verdade que é a mentira do BE.

Há anos que o BE mente aos portugueses, tal como a Frente Nacional faz aos franceses. Mas se em França, Marine Le Pen é confrontada com as suas incoerências, em Portugal nada se passa. Por cá, a impunidade ideológica grassa. É essa impunidade que permite à extrema-esquerda dizer as maiores atrocidades e de seguida fazer o oposto como se nada fosse.

Desde Novembro de 2015 que vivemos num pântano silencioso. É o regresso do pântano de que Guterres fugiu, exilando-se numa instituição humanitária. O silêncio que pactua com o que está errado, porque é conveniente; por ser inconveniente desafiar as prioridades estabelecidas pelas elites que subsistem num país manso, silencioso, pacato e ordeiro.

O silêncio tem ainda outra consequência nefasta: apaga a verdade. Tal como no Estado Novo sobre o futuro do império, também agora a maioria crê no que lhe mostram e não se questiona. Quando não se pergunta, não se pensa. A Alemanha ganha com o euro porque sim e não porque fez reformas que nós recusámos. Não foi a austeridade, ou melhor, um mais sério controlo dos gastos do Estado que reduziu o desemprego, mas este Governo apoiado pelo PCP e pelo BE.

A maioria acredita porque quer, embora saiba que não é verdade. Quando a verdade não existe, o país vive uma realidade alternativa criada pelos que governam em prol das consciências dos que se deixam ir. Este silêncio só termina quando cada um de nós, em consciência, o recusar e exigir melhor.

Não querer saber é lixado

Constança Cunha e Sá disse ontem na TVI 24 que os indicadores económicos mostram que as coisas correm bem ao governo: há crescimento, há criação de emprego (a maior criação de emprego da Europa, em Março), o défice é o mais baixo da democracia e etc. Há apenas um pormenor que Constança Cunha e Sá esqueceu: é que a dívida pública continua a crescer.

Apesar do que se passou nos últimos anos muitos comentadores ainda não compreenderam que, se com crescimento económico e criação de emprego, a dívida sobe é porque o país não está mais rico, mas mais pobre.

A demagogia não tem ideologia

Em 2010 o governo de então apresentou um plano de expansão do metro de Lisboa. Passava para o dobro das estações. Viu-se. Agora, no CDS, que estiveram no governo anterior e deveriam saber melhor que ninguém a situação real do país, querem contruir 20 estações de metro. Eu também queria. Seria óptimo. O problema é pagar. Ou melhor: o problema é que o benefício das ditas estações não compensam os sacrifícios que teremos de fazer para as pagar. Mas se calhar sou eu que estou enganado e até compensam. Se calhar há quem consiga uns votos, uns cargos ou, se nem isso, fique bem na fotografia. Depois? Depois, logo se vê que ninguém se lembra.

Macron em 2016, no jornal i

A minha crónica no ‘i’ de 5 de Maio de 2016.

O jogo político francês

Tenho um gosto muito especial em acompanhar a política francesa apesar desta suscitar pouco interesse em Portugal. O que é pena. Não só porque o nosso sistema político é relativamente próximo do francês mas também porque a própria cultura política é semelhante. Principalmente à esquerda.

Na semana passada tiveram lugar violentos confrontos contra a lei El Khomri que flexibiliza a lei do trabalho com vista a facilitar a contratação de trabalhadores. A ministra do Trabalho, Myriam El Khomri, tem tentado, a par com o ministro da Economia, Emmanuel Macron, fazer a ponte entre a ideologia de esquerda e criação de emprego.

A esquerda francesa encontra-se numa verdadeira encruzilhada. Um verdadeiro labirinto  cuja principal vítima tem sido o próprio François Hollande. Este tem tentado juntar as pontas cada vez mais distantes que fracturam o PSF e garantir condições que lhe permitam a reeleição em 2017. Além disso, tem tentado utilizar as novas estrelas do PSF, esperando que estas também se extingam perante a realidade económica. Foi assim com Montebourg, Hamon, Peillon, que se afastaram, e também com Valls e o fenómeno que é Emmanuel Macron.

Mas até para um presidente francês a habilidade política tem limites. É que Macron, criou em Abril o movimento “En marche”, que muitos vêem como uma plataforma para a sua candidatura presidencial. As últimas sondagens são prometedoras e o futuro nos dirá se o verdadeiro legado de Hollande não será alguém capaz de virar o jogo contra ele.

A França é a frente de batalha

Já me perguntaram por que razão ligo tanto à França se sou mais anglófilo que francófilo, o que se deve, e muito, à minha instrução primária. A explicação é simples: além da geração dos nossos pais e avós ser (e ter sido) mais próxima da França que nós, o que sempre nos influencia, há outro aspecto que não se pode descurar e que muitos esquecem.

Aquilo a que estamos a assistir é uma guerra ideológica cuja frente de batalha é a França. As ideias até podem ser (e nem sempre são) de origem anglo-saxónica, mas é nas cidades e nos campos franceses que as batalhas se travam. De uma forma forçada podemos comparar o que se passa com o que aconteceu na segunda guerra mundial quando os soldados eram maioritariamente ingleses e norte-americanos (e nem sempre foram), mas recuperar a França era crucial. O que sucedeu ontem foi precisamente isso: uma pequena batalha que foi ganha. Outras virão. Todos os dias durante os próximos cinco anos serão cruciais porque se Macron não for bem-sucedido os extremos (sejam de direita ou de esquerda) regressam e não se contentarão com segundo lugar.

Analisar a França com base em preconceitos, porque é atrasada, porque são convencidos, e porque isto e aquilo, como se nós Portugueses estivéssemos na vanguarda da discussão política, é um erro que esquece que a França, quer se queira quer não, é o centro da Europa.

O novo senhor da França

Algumas notas sobre as eleições francesas (as presidenciais e as legislativas de Junho):

Estas eleições presidenciais francesas ditaram o fim dos partidos criados por Charles de Gaulle e François Mitterrand.

Tal qual aqueles dois ex-presidentes, Emmanuel Macron pretende governar a França com uma nova maioria política. Vencidas as presidenciais, Macron precisa agora de ganhar as legislativas. Para tal, o novo partido do novo presidente, que há meses que está no terreno a escolher candidatos a deputados, começou a aceitar o apoio dos últimos ilustres que restam das forças partidárias que compunham a antiga maioria. Manuel Valls já se mostrou disponível e Macron já respondeu que será bem vindo, caso abandone o PS.

Macron quer dominar. Assim, quem se quiser juntar a ele tem de deixar o passado.

A estratégia é mais fácil com o PS porque o partido socialista acabou. Dividido entre os centristas, como Valls, e os mais radicais, como Hamon e Montebourg, o PS francês auto-liquidou-se. Restam apenas os despojos que, ou vão para o campo de Macron, ou restarão num pequeno partido, sem rumo e sem sentido.

Quanto aos Republicanos, à dita direita gaullista, a questão é mais complicada. É que há duas direitas dentro desta família política: uma, que podemos apelidar de social-liberal – é liberal nos costumes e não tão liberal na economia – e outra conservadora-liberal – é conservadora nos costumes, mais que a FN, e liberal na economia, mais que Macron. A primeira votou maioriatariamente Juppé e a segunda Fillon. Houve uma facção que votou Sarkozy, mas essa fê-lo, não pelo seu projecto político, que não existia, mas pela pessoa, Sarkozy, que entretanto deixou a política activa.

Emmnauel Macron vai querer dividir esta direita até às legislativas. Para isso, está a tentar convencer os juppeístas para que se juntem a ele, transferindo-se para o seu movimento, ou simplesmente aceitando o seu projecto. Esta facção social-liberal dos Republicanos é mais próxima de Macron e, por isso, sente menos dificuldade em aderir ao novo projecto político que esta noite ganhou o Eliseu. Para esta direita é muito importante que ser parte integrante no sucesso de Macron sob pena de a FN conquistar o poder em 2022.

Já a facção conservadora-liberal, que se revê menos em Macron, é mais resistente. Socorrendo-se dela, e tentando colar os cacos, François Baroin aposta tudo nas legislativas. Este ex-ministro da economia de Sarkozy pretende ser primeiro-ministro, não porque Macron o deseja, mas porque, os eleitores o impuseram ao novo presidente. Até Junho vamos assistir à luta pela sobrevivência da maioria que de Gaulle criou com a V República.

Irá conseguir? Quem olhe para o que se passou no último ano não arrisca previsões, embora possa ter um pressentimento. Vamos ver.

O fim do PS

A minha crónica, ontem no ‘i’.

O fim do PS

Esta terça-feira, Manuel Valls, o ex-primeiro-ministro de François Hollande que tentou ser candidato do PS às presidenciais francesas, declarou que o Partido Socialista deve mudar. À pergunta se é o fim do PS, Valls respondeu: “Oui, je l’ai dit.”

O fim do PS. O fim do partido que Mitterrand criou à sua imagem e semelhança para o levar ao Eliseu. O fim do partido que serviu de inspiração ao PS português, fundado por Mário Soares. O fim de uma época em que uma ideologia política viveu do dinheiro fácil que, quando terminou, foi apontando como o fruto pecaminoso do neoliberalismo.

Emmanuel Macron pode vir a ser o novo senhor da França, como De Gaulle e Mitterrand o foram na sua época. Há meses que o seu movimento En Marche! está no terreno a preparar as legislativas de Junho. Macron já abriu as portas a Valls, com a condição de este sair do PS. Já Os Republicanos encaram as legislativas como uma forma de sobreviverem, formando governo. Ainda não tomou posse, mas já tudo gira à volta do homem que renega o socialismo.

Que terá um mandato duríssimo sob pena de, daqui a cinco anos, seguir o mesmo rumo de Hollande. O que não acontecerá caso o homem que mudou os partidos franceses imponha as suas políticas, como fez com a sua presença. E não tenhamos dúvidas: o que sucedeu ao PS francês, vitorioso há cinco anos, pode acontecer ao português, agora tão optimista. Quando a realidade muda não há volta a dar, por muitas benesses que dêem. Quem paga, farta-se.
E quem recebe, não havendo mais, muda-se.

Debate Macron – Le Pen

Foi o debate mais duro que assisti; que me lembro de ter assistido. Mas também nunca tivemos oportunidade de acompanhar em directo ao confronto entre ideologias tão distintas. É verdade que em Portugal existem os partidos de extrema-esquerda, como o Bloco e os comunistas com um projecto político muito semelhante ao da Frente Nacional. No entanto, infelizmente, jamais comunistas e bloquistas foram confrontados com a dureza, e com a verdade, com que Emmanuel Macron enfrentou Marine Le Pen. Como o próprio disse, são produto do sistema que desprezam. A política pura e dura está aí. Um debate tornou-se num verdadeiro combate de boxe. Não há lugar a qualquer complacência; a qualquer piedade. A vitória total é a única saída para qualquer dos lados.

Debate Macron – Le Pen

É hoje o debate entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen. Ao contrário do que fez Jacques Chirac que, em 2002 se recusou a debater com Jean-Marie Le Pen, Macron diz que a Frente Nacional existe, é uma ameaça à França e deve ser politicamente combatida. A FN representa mais de 20% do eleitorado e este não pode ser ignorado, nem meramente ridicularizado.

Em Março escrevi para o Jornal Económico precisamente isso:

É percebendo o que Macron quer para a França que compreendemos como é que ele vai enfrentar Marine Le Pen na segunda volta. Ao contrário dos outros candidatos, Macron não diaboliza quem vota na Frente Nacional (FN). Para ele, o eleitorado da FN são os franceses esquecidos pela elite política. Agricultores, empregados de fábricas e de escritórios, de pequenas e médias empresas, pessoas que costumam votar à esquerda ou à direita, mas que desistiram de esperar por quem não tem soluções para os seus problemas e se vêem empurradas, mais pela emoção que pela razão, para o colo da extrema-direita.

Para bem da França, da UE e de todos nós esperemos que consiga e vença o debate com Marine.