Do que é que precisamos: mais ou menos “Europa”?

Ontem, “celebrou-se” (por assim dizer) o “Dia da Europa”. Ao contrário do que os euroentusiastas mais excitadas gostariam, os tempos não estão para grandes festas, e as “celebrações” passaram ainda mais despercebidas dos “europeus” do que é usual. Preocupados em evitar que a Grécia rebente (ainda mais) e outros países apanhem com os estilhaços, nem mesmo os propagandistas do costume gastaram muito tempo a falar das maravilhas da “união”. No entanto, de forma mais ou menos envergonhada, lá aproveitaram as reuniões de emergência para o “salvamento” da Grécia para nos explicarem como todo o tumulto é a prova de que precisamos de “mais Europa”.

O raciocínio desta gente é simples: a crise actual mostra como “os problemas de hoje” são “problemas globais”. E, dizem-nos, “problemas globais” requerem “soluções globais”. As “complicações” (para ser generoso) enfrentadas pela Grécia (e, não esqueçamos, Portugal) mostram, continua o argumento, como nenhum país tem capacidade para enfrentar crises como a actual sozinho, e portanto, como “construções” como a União Europeia são indispensáveis no “mundo globalizado de hoje”.

Mas e se a actual crise, o que mostra, realmente, é que “soluções globais” são a pior opção possível? E se o que a crise mostra é como precisamos de menos “Europa”, em vez de uma “maior e mais profunda intergração”? Há algum tempo, no New York Times, David Brooks pegava na “gripe A” (ainda se lembra, caro leitor?) e colocava a mesma pergunta aos que, tal como os europeístas de hoje, procuram “soluções globais para problemas globais”: “a couple of years ago”, escreve Brooks, “G. John Ikenberry of Princeton wrote a superb paper making the case for the centralized response. He argued that America should help build a series of multinational institutions to address global problems. The great powers should construct an “infrastructure of international cooperation … creating shared capacities to respond to a wide variety of contingencies.” If you apply that logic to the swine flu, you could say that the world should beef up the World Health Organization to give it the power to analyze the spread of the disease, decide when and where quarantines are necessary and organize a single global response. If we had a body like that, we wouldn’t be seeing the sort of frictions that are emerging from today’s decentralized approach. Europe has offended the U.S. by warning its citizens not to travel across the Atlantic. Ukraine is restricting pork imports. Europe could hoard flu vaccines, leaving the U.S., which has only one manufacturing plant, high and dry. Fear of a pandemic could lead to a restrictionist race, as nations compete to curtail movement and build walls. Those dangers are all real. Yet, so far, that’s not the lesson of this crisis. The response to swine flu suggests that a decentralized approach is best. This crisis is only days old, yet we’ve already seen a bottom-up, highly aggressive response. In the first place, the decentralized approach is much faster. Mexico responded unilaterally and aggressively to close schools and cancel events. The U.S. has responded with astonishing speed, considering there are still few illnesses and just one hospitalization (…) A single global response would produce a uniform approach. A decentralized response fosters experimentation. The bottom line is that the swine flu crisis is two emergent problems piled on top of one another. At bottom, there is the dynamic network of the outbreak. It is fueled by complex feedback loops consisting of the virus itself, human mobility to spread it and environmental factors to make it potent. On top, there is the psychology of fear caused by the disease. It emerges from rumors, news reports, Tweets and expert warnings. The correct response to these dynamic, decentralized, emergent problems is to create dynamic, decentralized, emergent authorities: chains of local officials, state agencies, national governments and international bodies that are as flexible as the problem itself.”

Tal como a “gripe A”, a crise económica mostra como vivemos num mundo de imprevisibilidade e risco. E tal como Brooks, tenho sérias dúvidas que “respostas globais”, ou “europeias”, sejam a melhor forma de viver num mundo como o nosso. Não seria melhor termos uma diversidade de respostas aos problemas, em vez de caminharmos todos para o abismo? não deveríamos nós aceitar a natureza imprevisível, caótica, arriscada, do mundo globalizado de hoje, ee correr o menor número de riscos possível na configuração dos próprios arranjos políticos. Precisamente por os riscos de qualquer decisão serem enormes, não só para quem a toma como para todos os outros, deveremos limitar, não o número de pessoas que tomam decisões, mas o número de pessoas sujeitos a um só decisor: se eu e o meu vizinho fizermos duas apostas diferentes, pode acontecer que eu perca, mas que ele ganhe. E mesmo que o facto de eu perder possa ter impacto sobre o ganho dele, o que é verdade é que ele ganhou alguma coisa, minorando o impacto que a minha perda possa ter nele; se o “Grande Regulador” fizer uma aposta em nome dos dois, ambos vamos perder o mesmo, sem nada que sirva de almofada a qualquer um de nós. E sim, é verdade que a nossa tendência para copiarmos as respostas que os outros dão significa que, muitas vezes, estamos a copiar respostas erradas. Mas também significa que, outras vezes, estamos a copiar respostas certas. Se um “Grande Regulador” der as respostas por todos nós, ou decidir qual o leque de respostas admissíveis, todos beneficiaremos quando ele tiver razão, mas o impacto de uma resposta errada será também muito maior, porque todos estarão errados.

A “Europa”, como seria de esperar, não está a seguir por este caminho. De certa maneira, a opção europeia é inevitável: como explicava o Miguel Morgado há dias, a única forma de salvar o euro será através de maior “integração” (o termo em EUROSOC para “subordinação nacional a Bruxelas”). Mas como o próprio Miguel notava, o facto de uma política “salvar” o euro não significa que ela não crie outros problemas, eventualmente mais graves e mais dificeís de resolver. A “saída” europeia da crise corre o risco de ignorar a principal lição que se deveria tirar da dita crise: a imprevisibilidade do nosso mundo, e a irracionalidade de algumas das nossas decisões, são factores que não podemos dispensar ao pensarmos acerca de como deverão ser os nossos arranjos políticos. Mas devemos considerar ambos igualmente, e levá-los a sério: deveremos perceber que todos podemos fazer escolhas erradas, e perceber que qualquer escolha pode ter consequências imprevisíveis. E que por isso, será melhor que o processo de escolha seja o mais disseminado possível, para que ninguém possa escolher por todos, para que o impacto de uma escolha errada seja o menor possível. “Mais Europa” é precisamento um exemplo do que não precisamos.

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O Governo finge que existe

Há uns dias, e depois de vários meses que os “passistas” passaram a avisar para o perigo do “regresso” do “Bloco Central” com Manuela Ferreira Leite, o seu “chefe” (o “jovem” que tudo ia “mudar” e fazer “verdadeira oposição”) foi a um beija-mão ao Sr. Primeiro-Ministro, garantir-lhe que o PSD iria ficar caladinho nos próximos tempos, enquanto o PS finge que resolve os problemas e, na realidade, os deixa tornarem-se cada vez mais graves. O Primeiro-Ministro, claro, agradeceu, e o país, como de costume, pagará caro.

As novas medidas “restritivas” da atribuição do subsídio de desemprego são um bom (salvo seja) exemplo desse preço. Essas medidas até parecem um bom exemplo de saudável pensamento económico: se o Estado pagar menos subsídio de desemprego aos desempregados, estes terão menos incentivos para continuarem desempregados. Mas, mais do que uma demonstração de inteligência e bom senso dos responsáveis socialistas, esta medida mostra apenas o quão intelectualmente cromagnon é o Governo.

Ao contrário do que Sócrates e os seus meninos (com o silencioso beneplácito de Passos Coelho e o seu malcriado guru Nogueira Leite), não consta que o problema do desemprego em Portugal se deva a uma chusma de preguiçosos que ficam sentados a sugarem os contribuintes enquanto os empregos florescem no mercado de trabalho. Pelo contrário. Os dois grandes problemas do desemprego devem-se, por um lado, à morte de certas actividades que, pura e simplesmente deixaram de ser rentáveis, e que lançam no desemprego uma série de pessoas que nunca de lá sairão, e por outro, à falta de flexibilidade do mercado de trabalho: é difícil despedir, o que faz com que seja difícil contratar, o que faz com que o problema do desemprego não seja um problema de falta de procura por parte dos desempregados, mas essencialmente de oferta de empregos.

Ser menos “generoso” na atribuição dos subsídios de desemprego, nestas circunstâncias, pouco ou nada fará para resolver o problema, pela simples razão de que o problema não está aí. Com tais medidas, o Governo (e Passos Coelho) apenas deixarão desempregados de longo prazo, que, devido à rigidez do mercado de trabalho, terão dificuldade em arranjar emprego por muito que o procurem, em maiores dificuldades. Como de costume, na sua ânsia de se mostrar “activo” e “actuante” (“in the parlance of our times”) perante a crise, Sócrates deixa imaculados os verdadeiros problemas, e cria outros como se o país já não tivesse os suficientes. Como se estas pérolas de “sensibilidade social” (algo que o PS sempre disse apreciar bastante, mas de que se esquece regularmente) não fossem suficientes, o Governo insiste (com protestos envergonhados do PSD) na necessidade de esbanjar dinheiro no TGV e restantes obras de “investimento público” (que, quando convém, são “de capital privado”. O “melhor” de dois mundos, portanto). O que mostra bem como não é só o TGV que precisa de ser suspenso, mas o próprio Governo (e a oposição) que deveria ser convenientemente dinamitado, antes que seja todo o país a rebentar.

Quanto mais apodrecido estiver o Governo, mais difícil será pô-lo no lixo

(publicado também aqui)

No exercício vagamente deprimente que foi o último Congresso do PSD, foi muito mencionada a ideia de que o partido laranja se prepara para escolher “o próximo Primeiro-Ministro de Portugal”. Apesar de, em parte, esta ser uma declaração mais ou menos de circunstância, típica de gente apostada em “animar as tropas”, mais indicadora da pobreza das cabecinhas que a emitem do que da realidade da cena política portuguesa (tal como a expressão “cena política portuguesa” indica a pobreza da minha), ela é também reflexo de um “estado de espírito” acerca do Governo e do seu futuro imediato: ela reflecte a ideia de que o Governo está como que “ferido de morte”, e que “cairá de podre” mais tarde ou mais cedo, entregando no doce regaço da pobre alma que estiver na presidência do PSD a tarefa de tirar Portugal do rosadinho buraco em que Sócrates e os seus aguadeiros nos afundaram.

Foi essa ideia (e claro, a possibilidade de castigar “aqueles que falam contra o partido”) que animou o Congresso de Mafra, tal como foi essa ideia que penalizou a avaliação do mandato de Ferreira Leite: por várias vezes, nos últimos meses, muito bom e mau analista achou por bem dizer que, perante um Governo tão fragilizado por “casos” e desgastado pela “crise”, só mesmo a suposta inabilidade de Ferreira Leite pode explicar a sobrevivência do regime socrático. A crer nestas “análises”, a solução para os problemas do PSD (e do país) seria fácil: bastaria encontrar um político “hábil”, ou seja, um mentiroso sem escrúpulos como Sócrates, e como políticos mentirosos e sem escrúpulos é o que não falta no PSD, a tempestade estaria próxima do fim.

Não querendo estragar a festa laranja (até porque o próprio partido se encarrega de o fazer), devo dizer que esta ideia de que a total descredibilização do PSD facilita a tarefa do PS é uma ideia profundamente errónea. Aliás, a derrota de Ferreira Leite parece-me ser precisamente uma prova disso. Ao contrário do que o PSD parece pensar, e do consenso generalizado da “inteligência” pátria, quanto mais apodrecido o Governo estiver, mais difícil será pô-lo no lixo.

Em primeiro lugar, porque nem a total describilização é suficiente para o Primeiro-Ministro deixar de se agarrar ao poder como eu gostaria de me agarrar a uma adolescente de qualidade estética superlativa (ou alguém capaz de disparar um bom insulto. Cheguei ao ponto em que já me contento com pouco). Como toda a sua história de vida demonstra, o cheiro de matéria fecal manifestamente não incomoda José Sócrates, que, como o outro senhor de The Wire prefere “to live in shit than to be seen to work a shovel”. Por muito que o seu regime apodreça, Sócrates nunca abdicará livremente do trono que ocupa, e de lá só poderá ser arrancado “à bomba”. “Bomba” essa que o Presidente da República, um senhor reconhecidamente pacífico, não quer largar, e longe vai o tempo (esperemos nós) em que os militares se entregavam a essas actividades. A única “bomba” que poderá ser usada será a dos eleitores nas urnas, mas temo que, quanto mais necessária ela se torne, menor seja a probabilidade deles estarem dispostos ao trabalho de a lançar.

antes das eleições de Setembro passado o escrevi: é precisamente o facto de vivermos num clima de “fim de regime” do PS que tornará as coisas mais difíceis para o PSD. Em primeiro lugar, a violência e degradação do debate “excita” os “fiéis”, que por muito desagradados que possam estar com Sócrates, não gostam de ver “um dos seus” ser atacado por “eles”. A podridão do regime fidelizará o PS, que tenderá, até à última hora, a proteger Sócrates como se de uma criança indefesa se tratasse (depois da última hora, a canção será outra).

Em segundo lugar, a demagogia reinante favorece os partidos de protesto, mas pequenos, o que estranhamente, acaba por favorecer o PS. O ódio a Sócrates não se traduz forçosamente no voto no PSD, podendo mais facilmente deslocar-se para o CDS ou até para o BE, partidos dados à berraria que faz o gosto do povo. É difícil a um partido que quer ser governo fazer oposição num ambiente político degradado, porque aquilo que pode motivar a conquista de votos (essa mesma degradação do regime do momento) é também aquilo que faz com que as pessoas tenham uma maior predisposição para votar em quem faz barulho, só por fazerem barulho. A degradação do Governo do PS acaba por retirar votos, não apenas ao PS, mas também ao PSD.

Até porque a podridão do Governo, arrastando consigo a desconfiança dos eleitores, traz também uma desconfiança não apenas em relação ao Governo, mas em relação à alternativa. Um Governo que mente, que manipula, que esconde e que parece corromper e estar corrompido, faz com que os eleitores, muito sabiamente, desconfiem de todo e qualquer político que lhes peça a sua confiança. Porquê confiar “nestes”, só porque nos dizem que vão ser diferentes? Os “outros” disseram “o mesmo”, e “foi o que se viu”. A desconfiança dos eleitores em relação a este Governo transforma-se, muito rapidamente, numa descrença na palavra de toda a classe política. Quanto pior o PS for, quanto mais degradado o Governo estiver, mais agreste será o clima político para aqueles que queiram promover uma alteração do estado das coisas (deixemos de lado a “mudança” obâmica, ela própria um produto e causa da podridão). Quanto menos as pessoas acreditarem no PS, menos acreditarão na possibilidade de “os outros” serem diferentes. Por muito que me custe, temo que o “próximo Primeiro-Ministro de Portugal” seja precisamente o que lá está hoje.

O futuro do PSD

(publicado também aqui)

Não tenho escrito sobre as eleições no PSD, em parte por desvio da minha atenção para outras ocupações, em parte por pura preguiça. Além disso, o que penso acerca do PSD, o que penso acerca do que o PSD deve ser, não mudou nada nos últimos anos. A relativa pobreza do país, que convida os nativos a guardarem o pouco que têm e não a correrem os riscos necessários para poderem passar a ter mais, parece ser suficiente para deitar por terra as pretensões de “liberalizar” o país. Mas com um pouco de coragem e habilidade políticas, talvez seja possível encontrar um eleitorado disposto a apoiar um PSD liberal.

Há um conjunto de pessoas que estaria sempre disposto a votar em qualquer partido que pretenda emagrecer o Estado. Para pessoas que, como este vosso escriba, desconfiam da espécie humana ao ponto de quererem ser o menos possível governadas pelo seu semelhante, ou para “liberais clássicos”, que entendem ser o modelo liberal o mais adequado à natureza humana, tais propostas seriam sempre positivas. São poucas, é certo, mas outras poderiam juntar-se-lhes: “sociais-democratas”, no sentido tradicional do termo, pessoas que, acreditando na “justiça social” (e que é função do poder político obtê-la), se dispõem a apoiar as propostas que melhor lhes pareçam satisfazer tal pretensão. Para ser uma verdadeira alternativa ao PS, e assim regressar ao poder e exercê-lo em vez de ser seu refém, o PSD precisa de, adoptando um programa “liberalizante”, criar uma “coligação de vontades” que, indo da “direita” ao “centro-esquerda” (como o fizeram Sá Carneiro e Cavaco), concentre a sua campanha nesse “centro-esquerda”. E que o faça, não cedendo ao estatismo que esses eleitores tradicionalmente preferem, mas procurando mostrar-lhes como o liberalismo, mais do que o Estado Social a que se afeiçoaram, promove melhor a tal “justiça social” que desejam, melhor promove uma sociedade na qual não apenas eles, mas também o seu vizinho, poderão ter uma vida melhor.

No fundo, o PSD deverá adoptar um programa liberal, e perguntar aos que não o são se será “justo”, por exemplo, que a classe média seja sufocada por impostos que a impedem de suportar encargos com os seus pais já reformados, obrigando assim o Estado a ocupar o seu lugar, e dessa forma, retirar a uma população activa cada vez mais diminuta uma parte cada vez maior do seu rendimento, para dar a um crescente número de seus dependentes um rendimento cada vez mais escasso? Será “justo” que uma parte cada vez maior da sociedade faça descontos para um sistema de pensões do qual sabe nunca poder vir a beneficiar? Será “justo” que, sob a ilusão de um SNS “tendencialmente gratuito”, se aumentem os custos individuais com o recurso a esse mesmo SNS? Será “justo” que, devido ao espartilho legislativo que sufoca o mercado de arrendamento, os jovens sejam praticamente obrigados a comprar uma casa e a contrair o endividamento eterno que a acompanha?

Deverá depois convencê-los de que é mais “justo” deixar o mercado funcionar, e “amparar” a queda dos que não tiverem a sorte ou a capacidade de serem bem sucedidos, do que, como no mercado da habitação, o Estado acabar por criar problemas mais graves do que aqueles que, com a sua intervenção, pretende resolver. De que é mais “justo” que sejam os doentes (e idealmente apenas os que não tiverem recursos suficientes para o fazer por si próprios) a serem financiados, em vez dos hospitais, de forma a que o estes últimos deixem de depender do Ministério da Saúde e respondam às necessidades dos que a eles recorrem. De que é mais “justo” que os indivíduos tenham a liberdade de escolher a quem entregam as suas pensões, do que ficarem presos a um sistema condenado à falência. No fundo, de que uma sociedade mais livre será uma sociedade mais “justa”.

O PSD era tradicionalmente visto como um partido de pessoas que queriam subir na vida. Anos e anos de poder transformaram-no num partido de pessoas que querem manter o emprego público. Ao mesmo tempo, os portugueses foram sendo amarrados a um Estado Social que apenas garante o empobrecimento generalizado da população. Nenhum partido, excepto o PSD, os poderá libertar. E se é verdade que não o tem querido fazer, também parece ser cada vez mais verdadeira a ideia de que não lhe resta outra alternativa que não passar a querer. O líder do PSD, seja qual for o seu nome, terá de perceber isto, se quiser libertar o partido da letargia que o tem caracterizado, e os portugueses do Estado que os sufoca. E terá de perceber que, ao contrário dos seus antecessores, terá de conduzir a opinião pública, em vez de ser conduzido por ela. O melhor candidato á liderança será aquele que melhor perceber isto. Passos Coelho não o será certamente, embora provavelmente venha a ser o vencedor. Resta saber quem merecerá mais o cargo, se Rangel se Aguiar Branco. Talvez este Congresso sirva para o perceber.

A falência do socratismo

Ontem, no sítio onde compro os jornais aqui em Caxias, havia mais actividade do que num relvado em que estão os jogadores do Sporting. Gente que eu nunca vi na vida entrava na loja, perguntando se havia o Sol. Todos faziam piadas, todos mostravam uma indisfarçável satisfação em ver, bem à vista de todos, a natureza dúbia das personagens que nos governam. O cenário, aparentemente, repetiu-se um pouco por todo o país. Quiosques com gente a pedir o jornal antes da hora de abertura, e-mails circulando com versões em pdf do jornal, e até versões fotocopiadas do Sol começaram a ser vendidas. Nada exemplifica melhor a total falência do socratismo: ontem, só mesmo os “abrantes” e “magalhães” não sentiram um enorme alívio ao ver o esgoto moral do governo ficar a céu aberto, restando apenas esperar que alguém venha finalmente resolver um problema que há muito era evidente que existia. Ontem, a procura do Sol foi um reflexo do nojo que os portugueses sentem por este governo, e em particular, pelo fato Armani que vive em S. Bento. Foi um sinal do desprezo que nutrem pelo “engenheiro” Sócrates, da sua vontade de o ver pelas costas, e da sensação que têm de que não falta muito para isso acontecer. Apenas temo que, como o cheiro da matéria fecal manifestamente não incomoda o Primeiro-Ministro, essa saída não esteja para tão breve assim.

À falta de coisas importantes para discutir, o país político dedica-se às presidenciais

Manuel Alegre deu, este fim-de-semana, uma entrevista ao Expresso, mais uma oportunidade para falar longamente sobre o assunto que mais gosta, ele próprio (entre a entrevista e as fotos de Clara Pinto Correira em “êxtase sexual”, que fizeram as delícias de metade do país, e encheram de pesadelos o sono da outra metade, na qual me incluo, não houve grande diferença). A dada altura, o ex-deputado dizia que Cavaco Silva “sabe gerir os silêncios, mas não sabe gerir a palavra”, o que mostra que, se é verdade que o júri ainda está à procura de um veredicto acerca de se Alegre sabe gerir a palavra ou não, pelo menos fica claro que não sabe dar grande sentido às ditas.

Mas deixemos as graças de lado, até porque Alegre não merece ser gozado, pois cumpre um papel importantíssimo na manutenção da paz e tranquilidade na sociedade portuguesa. Se não fosse ele, e o seu gosto em mostrar que nada tem para dizer, o que teria sido dos jornalistas esta semana? Findo (por agora) o festival do casamento gay, centenas de jornalistas e comentadores entraram em pânico, sofrendo profundos e severos ataques de ansiedade por terem ficado sem assunto sobre o qual terem milhares de opiniões, nenhuma dela fundamentada. Teriam que se preocupar com o défice? Fazer reportagens sobre a sustentabilidade (ou falta dela) da Segurança Social? Limitar-se-iam a entrevistas a Pedro Passos Coelho, outro homem visivelmente apaixonado por si próprio? Esta última hipótese não preocupava especialmente a redacção do Diário de Notícias, que não tem feito outra coisa nos últimos tempos, mas certamente não fazia as delícias dos restantes. Felizmente, Alegre resolveu falar, e daquele conjunto de sons mal articulados, logo os jornalistas fizeram brotar um assunto de “debate”: as presidenciais de 2011.

Diga-se de passagem (e muito, muito, a contragosto) que o tema não é totalmente descabido. Dada a situação política actual, as eleições presidenciais de 2011 poderão ter um impacto significativo na realidade política (embora, dado o adormecimento que parece agradar a todos nós, o mais provável é que fique tudo exactamente na mesma). Mas o que excita os jornalistas (que, no entanto, não exibem fotos disso em galerias de Cascais) é mesmo a eterna dúvida “será que Alegre se candidata?”, e as intrigas palacianas que ela acarreta, especialmente tratando-se do PS, onde estas coisas têm sempre um certo fascínio, só superado pelas do PSD (quem tem Santana Lopes consegue sempre oferecer outra magia).

Gente mais sensata, como o Luciano Amaral, também se preocupou com as presidenciais de 2011. Diz o Luciano que a “última coisa de que o primeiro-ministro gostaria” seria “ter de lidar com um Presidente Alegre. Ora, é esse mesmo o outro real candidato a perfilar-se no horizonte. Um Presidente Alegre tornaria Sócrates refém da maioria parlamentar de esquerda (ou pelo menos da quase-maioria com o BE), o caminho certo para a sua irrelevância ou para o fim da sua credibilidade governativa. Onde chegamos a uma situação interessante. Entre a penúltima” (ter de lidar com Cavaco silva novamente) “e a última coisa de que menos gostaria, talvez o primeiro-ministro devesse preferir a primeira, o que reeditaria as circunstâncias das últimas presidenciais: apoio oficial a um candidato de esquerda e multiplicação de sinais mostrando que se preferiria o de direita. Sócrates bem esperneia, mas, na ausência de uma invenção catastrófica, ainda vai ter de acalmar o seu tom com o Presidente.”

Não discordando da análise do Luciano, falta-lhe uma outra hipótese, sobre a qual em tempos já escrevi: Sócrates avançar ele próprio contra Cavaco Silva. O resultado das últimas eleições, e a atmosfera de cortar à faca da política portuguesa nos últimos tempos, fazem-me ver tal cenário como cada vez mais provável: sem maioria absoluta, Sócrates ou governava em minoria ou com uma coligação com um qualquer partido que lhe será pouco menos que hostil (CDS ou BE). Descanso, era coisa que nunca teria (nem terá) fizesse o que fizesse. Eleições antes do tempo serão praticamente inevitáveis. O potencial de conflito com o presidente é enorme, e a melhor desculpa que o PS poderá usar para se vitimizar, estratégia indispensável em eventuais eleições antecipadas. E nada melhor para radicalizar esse conflito com o Presidente, e assim recorrer à única estratégia que poderá salvar o PS na difícil conjunutra que o espera, será Sócrates candidatar-se ele próprio à Presidência, para remover a “força de bloqueio” (aposto mesmo que este será o termo usado) que “impedirá o PS” de “dar futuro a Portugal”. Se a política portuguesa chafurdou na lama nos últimos anos, agora será muito pior. O que certamente deixará os jornalistas um bocadinho mais descansados.

“Investir” na família

A primeira página do I de hoje exclama, em tom meio indignado, que “Portugal é dos países que menos investem na família” (o que, conhecendo algumas famílias portugueses, se compreende. Seria dinheiro deitado à rua). Aparentemente, o Estado português “só gasta 1,2% do PIB em apoios à família”. É sabido como em Portugal toda a gente gosta de “apoios” (eu, por exemplo, sonho que o Estado um dia me apoie, atribuíndo-me um subsídio a quem gosta de ver muitos filmes, muita televisão, ou para que eu pudesse ficar em casa até ao fim dos meus dias sem ter de contactar com outros seres humanos), e como todo e qualquer Governo gosta de se dizer “amigo da família”, em especial da “natalidade”. Ninguém de bom senso (o que, por acaso, até não é o meu caso) negaria a importância das famílias (ou, pelo menos, de algumas) numa sociedade decente, ou os problemas associados à baixa natalidade, como a insustentabilidade da Segurança Social (não que esse problema exista em Portugal. Como todos sabemos, Portugal enfrentou com sucesso esse “desafio”: Guterres resolveu o problema para os 100 anos seguintes, e Sócrates garante ter resolvido o problema segunda vez, meia década depois). Mais duvidoso é que os tais “apoios” que o I considera serem escassos servissem para apoiar outra coisa que não os empregos no funcionalismo público dedicados a distribuí-los.

Como a grande maioria das “reclamações” dos portugueses, e das políticas que apelas aos nossos governantes, os “apoios” à família e à natalidade sobrecarregam mais do que “apoiam”. Ninguém, por exemplo, decide ter um filho porque o Estado lhes dá os trocos por isso. Mesmo que, porventura, o subsídio fosse elevado ao ponto de alterar a opção das pessoas, o resultado não seria muito bom: estar-se-ia a criar uma espécie de “parideiras públicas”, transformando a maternidade em profissão paga pelo contribuinte, como, segundo relatos, é o caso em certas camadas mais desfavorecidas da população inglesa.

Mas o que nunca ocorre aos Governos que se deixam enamorar pela retórica natalista e “amiga da família” é que se ninguém escolhe constituir família porque o Estado lhes dá um subsídio, há quem escolha não o fazer porque tal implica a compra de uma casa (e o endividamento eterno que a acompanha), porque tem de abdicar de metade do seu rendimento para permitir que o Estado distribua “apoios” pelos vários objectos da sua predilecção, porque no começo da vida activa a sua situação laboral é precária sem que o mercado seja flexível o suficiente para que lhe seja fácil arranjar outro emprego. Se o Estado quer “apoiar” as famílias, não precisa de “investir” nelas. Precisa de sair da frente, e deixar que se crie um verdadeiro mercado de arrendamento. Precisa de sair da frente, e deixar de sugar uma parte tão grande do rendimento dos contribuintes. Precisa de sair da frente, e deixar que as relações contratuais no mundo do trabalho sejam mais livres. As famílias, mais do que de mais “apoio”, precisam de menos carga.