Pontos de Fuga

O governo La Féria

Nem Santana Lopes se lembraria de tão inusitada coisa: contratar figurantes para se fazerem passar por agradados alunos na apresentação do Plano Tecnológico para a Educação e chamar jornalistas para registarem o momento em que os alegados alunos tomam contacto com os seus computadores, felizes e contentes.

Mesmo que quisesse, Santana Lopes (ou mesmo Durão Barroso) nunca poderia levar esta ideia avante. Se acaso se descobrisse, como veio a acontecer, logo se levantaria o coro dos indignados do regime, bradando contra a propaganda fascista. Até os sindicatos dos professores viriam a terreiro, que uma sala de aulas fictícia é coisa que não se admite.

Mas José Sócrates pode lembrar-se disto. Disto e muito mais, que a esquerda goza da insuportável presunção de bondade e candura. Uns risinhos aqui e ali, um abanar de ombros, uma palavrinha mais amarga e já está. Tudo se passa como se o governo não tivesse recorrido a técnicas de propaganda de regimes totalitários. Coitado. Foi um deslize, uma ideia infeliz, mas coitado do homem, não fez por mal, que ao PS ninguém dá lições de liberdade e democracia e amor ao povo. Continue a ler “Pontos de Fuga”

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Pontos de Fuga

E da sarjeta se ergueu a Comissária que pôs na ordem o Ministro Censor

Augusto Santos Silva tem ignorado as vozes nacionais que se têm levantado contra o seu estatizante entendimento da liberdade de imprensa. Munido eventualmente das melhores intenções, de que está o inferno da censura cheio, o Ministro que tutela a comunicação social sente-se mesmo no direito de responder com soberba a todos quantos colocam em causa a bondade das suas convicções.

Quem o ouça quase que pensa que somos nós, todos aqueles que consideramos a liberdade de imprensa como algo que não passa pelo reconhecimento estadual, que estamos do lado da mitigação das opiniões. Num país em que se verdadeiramente se respeitassem as liberdades, o Ministro Augusto Santos Silva já tinha sido dispensado, com o convite para, em querendo, abrir a sua própria associação de leitores e telespectadores. Mas não. Por cá, as suas concepções, que levam o Governo de arrasto, são as concepções oficiais. Temos, portanto, que há liberdade de imprensa porque o Governo quer que haja, onde o Governo quer que haja, com os critérios que o Governo encontra. Tudo o mais, já sabemos, é sarjeta.

Mas eis que da sarjeta se ergueu a Comissária Europeia Viviane Reding que, de uma penada, arrumou o nosso Ministro Censor. Continue a ler “Pontos de Fuga”

Pontos de Fuga

O silêncio cobarde do animal feroz 

Os constantes episódios de deriva autoritária deste governo assustam mais pelo que não se vê do que propriamente pela diatribes que os altos funcionários do estado de todos nós vêm coleccionando.

Bem sei que ver Margarida Moreira dizer que a DREN ocupa o seu tempo a recolher o que sobre si é dito ou escrito, é algo de pasmar. E que igualmente não é com facilidade que se engole uma secretária de estado que se arroga o direito de definir os locais em que o comum funcionário público pode emitir opiniões negativas sobre o governo (uma vez que se presume que as positivas podem ser emitidas em qualquer parte). E que custa ver uma Entidade Reguladora para a Comunicação Social perder o seu tempo a criar tempo de antena para o governo.

Mas tudo isso perde valor face ao silêncio absoluto dos altos responsáveis deste governo, que tudo consentem e permitem. Abre-se correspondência de funcionários públicos? Silêncio. Há um clima de bufaria nos serviços públicos? Silêncio. A ERC diz que as televisões privadas não são livres de fazer as suas escolhas editoriais? Silêncio. Uma secretária de estado elenca lugares próprios para se dizer mal do governo? Silêncio. Continue a ler “Pontos de Fuga”

Pontos de Fuga

A Reforma da Administração Pública segundo Miss Marple

Amanhã está nas bancas a mais recente edição da revista Atlântico, onde poderão encontrar um artigo meu que pretende oferecer uma nova forma de encarar a reforma da administração pública e que tem o sugestivo título que enfeita este post. Sem pretender esgotar o que ali digo, gostaria aqui de deixar as primeiras linhas do artigo, que poderão ler na íntegra a partir de amanhã, na revista:

É actualmente impossível passar dois dias sem tropeçar numa actividade subsidiada, beneficiada, promovida, sustentada, regulada ou licenciada pela administração pública. No ensino, na saúde, na cultura, na agricultura, na indústria, nos serviços, no desporto, no ambiente e em tantas outras áreas a administração marca presença. Desde o licenciamento de actividades, passando pela prestação de serviços ou pela atribuição de subsídios ou benefícios, a administração do Estado Social detém o monopólio da titularidade e gestão dos interesses gerais. Continue a ler “Pontos de Fuga”

Pontos de Fuga

Uma ditadura à vista de todos

Quando um governo decide não renovar uma licença de transmissão televisiva por motivos que se prendem única e exclusivamente com o teor oposicionista veiculado pelo canal, de nada mais precisamos para o caracterizar como um governo autoritário e ditatorial.

Claro está que uns quantos, ainda muitos, precisarão de muito mais, muitos anos, muitas mortes, muitas prisões, muitas violações de direitos e liberdades para descobrir, com uma candura comovente, que Chávez escolheu um caminho obscuro e que, a partir desse dia, cada um segue o seu caminho. Até lá, nada como a miragem dos amanhãs que cantam e do eterno recomeço para lhes avivar o espírito e alimentar a sanha anti-capitalista.

Por cá, apenas os tumultos de protestos nos chegam filmados, quase sempre camuflados de adversativas, as oportunas adversativas, não vá o português ficar com a ideia de que a Venezuela é uma ditadura em vez de uma balão de ensaio para uma sociedade mais justa, mais livre e mais solidária.

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Pontos de Fuga

Serviço Estadual de Televisão

A nova lei da televisão aí está, quase pronta, disposta a servir os nobres propósitos de retirar Portugal da sarjeta cultural. Alargando o serviço público de televisão para além dos limites do imaginável, ela aí vem, disposta a interferir e controlar a actividade privada associada ao sector. De uma penada, com um silêncio incompreensível por parte da oposição, a lei da televisão escancara ao que vem Augusto Santos Silva. 

Ninguém sabe, nem procura saber, para que serve ao certo o serviço público de televisão. Mandaria a prudência que, não se sabendo, se travasse o seu crescimento. Já nem se pedia que o mesmo fosse suspenso até definição futura, mas tão só que o mesmo se limitasse a um canal e, nessa limitação, se aprofundasse uma reflexão que tarda em fazer-se, porque impossível de qualquer conclusão.  Continue a ler “Pontos de Fuga”

Pontos de Fuga

Indignações Selectivas

Há um estranho costume nesta nossa comunidade política de não se indignar com actos ou omissões mas tão simplesmente com quem as praticou. Importa, em cada caso, e antes de soltar a verve, identificar quem foi o autor da coisa. Se é gente de bem, daquelas de quem se gosta, há que desvalorizar, que é uma calúnia e uma manipulação. Mas se calha ser daquelas pessoas de quem se convencionou não gostar, ai que o rei vai nu e estamos perante a maior ameaça ao regime democrático desde o 25 de Abril.

Estas chamadas indignações selectivas, normalmente camufladas por entre argumentações jurídicas habilitantes, são já hoje assumidas. Quantas pessoas não disseram já, preto no branco, que se acaso fosse Santana Lopes a ter a licenciatura em causa, tudo seria diferente e estaríamos eventualmente perante uma crise política de proporções inéditas em Portugal. E dizem-no com naturalidade, e sem se rirem da sua própria imbecilidade: é que Santana é Santana e Sócrates é Sócrates.

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