Sem nada que fazer

kafka

O INE publicou hoje as estatísticas do comércio internacional de Abril. Ainda não vi o spin dos social-democratas do Governo mas já aí está o dos social-democratas da oposição. Para estes, o que foi publicado é assustador. As importações cresceram mais que as exportações muito em virtude do aumento das compras de automóveis de passageiros (os social-democratas da oposição chamam-lhes popós). Apesar de o cenário encomendado pelo PS prever superavit externo, dizem que é treta, que a realidade não se compadece com unicórnios. Presume-se que a partir de Outubro a realidade mude em instantes.

Esta permanente desvalorização da melhoria da cobertura das importações pelas exportações (que volta a melhorar em Abril) faz todo o sentido. Na cabeça dos social-democratas, quem exporta e importa é o Governo. As pessoas e empresas não têm nada que ver com o assunto. Sendo assim, estas publicações servem para uns se vangloriarem (ou desculparem) e outros menosprezarem ou regozijarem (quando corre “mal”). Uns e outros parecem julgar-se acima de trabalhadores e empresários que, esses sim, são os responsáveis pelo que vai correndo bem. Neste caso, a única coisa que os governos podem fazer é atrapalhar e aí podem ser responsáveis se a coisa dá para o torto.

Por definição, como fica demonstrado, social-democrata é um imbecil presumido sem nada que fazer.

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malditos

scientific farming u washMaldita globalização. Malditas empresas ocidentais que aproveitam o trabalho barato na China para baixar os preços nos seus países. Malditos consumidores que aproveitam os salários baixos chineses sem pesos na consciência. Maldito consumismo.

Malditos todos: entre 1990 e 2014, a China diminui para metade a parte da população que passa fome; desde 1990, 155 milhões de almas chinesas escaparam à fome. Números dessa organização ultra-capitalista que é a FAO.

 

Constança

Hoje, para o jornal i, a propósito do vídeo “viral” da semana passada (esta semana já corre outro vírus por aí), onde aparece uma rapariga chamada Constança a bater num rapaz, avanço com um tema que tem que ver com a identidade pessoal, a possibilidade de nos modificarmos, de sermos diferentes dos outros mas também de nós próprios, ao longo da nossa vida, e os efeitos da “memória digital” nesse processo de desenvolvimento pessoal:

“Passaram cinco anos, Constança entra na universidade. Tem hoje 20 anos e prepara-se para uma entrevista que a ajudará a pagar o curso. Sonha ser professora. Detesta “filmes de acção”, corre durante a alvorada três vezes por semana, organiza com etiquetas os tupperwares e duas vezes por semana troca as flores do beiral da janela. Vota à direita e diz frequentemente que um dia, quando tiver uma filha, quer chamar-lhe Luísa, em homenagem à mãe.   

Chega o momento da entrevista, entra nervosa, mas a sorrir para o mundo. A gerente de recursos humanos do hipermercado olha para aquele rosto fresco e recorda-se do vídeo “viral” que correu Portugal em 2015 e que também ela partilhou no Facebook. “Foi você?” Atira a entrevistadora de unha vermelha e rabo-de-cavalo loiro. Com a testa franzida e a boca entreaberta, Constança responde que sim. Seguem-se umas perguntas de circunstância e Constança é avisada de que voltarão a contactá-la. Com os olhos ardendo e um aperto no peito, vai-se embora.

Noutro tempo, a cena a que assistimos naquele vídeo “viral” ficaria guardada nalguma gaveta da memória de meia dúzia de pessoas e com o tempo desvanecia-se, como feliz ou infelizmente tudo desvanece. Desde o início dos tempos, para nós seres humanos, esquecer tem sido a norma e recordar a excepção.  Tudo mudou com as possibilidades da memória digital que eterniza uma Constança que já não existe, cuja identidade foi construindo e evoluindo ao longo dos tempos. Constança será hoje diferente de si mesma há cinco anos. E isso, caro leitor, deve ser respeitado por todos nós.”

Sampaio da Nóvoa: o “nosso” Zizek?

Hoje, para o jornal i:

O mui intelectual e catedrático Sampaio da Nóvoa foi tocado por um sentido de dever para com os outros. Ouvir um discurso de Sampaio da Nóvoa é arriscar encontrar resposta para a pergunta de Platão, apresentada pela boca de Sócrates, “o que é uma comunidade justa?”. Sampaio da Nóvoa dá-lhe corpo, o seu corpo, literalmente: é aquela onde os melhores governam com sabedoria. Sampaio da Nóvoa é o melhor. O critério é qualitativo: governam os melhores, os que prescindindo dos seus interesses particulares e egoístas (quem?) contribuem para a colectividade social depois de uma catedrática e virtuosa educação que os coloca – a esses pedagogos e intelectuais do interesse público – naquele patamar de superioridade moral que lhes permite olhar a Nação, de cima para baixo, como Colectividade. Tanta correcção, tanta bondade, confesso, dá-me uma irrefreável vontade de me tornar uma marginal e ir pecar sem dó nem piedade.

Mas ouvir um discurso ou entrevista de Sampaio da Nóvoa como a de 2011 a António J. Teixeira nos poucos minutos do seu dia em que não está a ler Lacan ou Derrida recorda-me a primorosa encenação da persona do filósofo Slavoj Zizek, o Élvis da “Cultural Theory”, não só no estilo “discurso logo existo” ou no desígnio heróico. De facto, é muito comum o filósofo competente e letrado sofrer de alguma incontinência verbal, perdendo-se no seu vocabulário abstracto mas triunfal, pejado de proclamações assertivas mas abandonando o compromisso com a dureza dos factos. Ninguém é perfeito, muito menos o intelectual das esquerdas. Mas, se há um apelo a fazer a Sampaio da Nóvoa, ele é simples: deixe as grandes Teorias, em forma de proclamação poética, na sala de aula, porque o mundo fora da universidade não é dos filósofos, é dos realistas, e um pouco de realismo nunca matou ninguém.

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Então um post no dia da mulher

saltos luis xiv

Como prometido ontem no facebook, cá vai a resposta feminista ao post do Mário com o Nelson Évora.

Começo por fazer a declaração de interesses. Também não sou adepta da igualdade de género naquela parte em que anula as diferenças entre homens e mulheres. Acho o mundo muito mais divertido com a existência destas diferenças. Precisamente por haver diferenças é tão importante a participação das mulheres em todas as esferas (se fôssemos indistintos, tanto faria se fôssemos respresentados por homens ou por mulheres). E, de resto, uma das minhas lutas (se isto não soar excessivamente commie) feministas é precisamente recusar tanto a uniformização dos géneros como não aceitar que, mantendo-se a diferença, a maneira masculina de fazer as coisas seja o padrão e a maneira feminina um desvio que as mulheres devem corrigir para serem aceites. E, não nos enganenos, no nosso mundo ocidental livre e women-friendly esta forma de obrigar ar mulheres a aceitarem o padrão masculino (onde não estão tão à-vontade ficando, assim, em desvantagem) é o último (e mais insidioso) reduto do machismo.

Mas já não me convencem que as diferenças entre os sexos sejam motivo – e quantas vezes são usadas para isso – para limitar ocupações e tarefas de cada um dos sexos. As mulheres não são naturalmente adequadas à realização de tarefas domésticas, nem ao cuidado dos filhos e dos doentes da famíla, nem às atividades profissionais de cuidadoras. Eu, que me tenho por muito feminina, não acho qualquer piada a limpezas domésticas ou a tratamento de roupas ou, sequer, a cozinhar. Também não vejo que a minha natureza ditasse que a mudança das fraldas dos meus filhos, ou os banhos ou os períodos sem dormir à noite me fossem destinados em exclusivo (ou em maioria). Eeeeeeeetc.

E – e chegamos ao post do Mário – coisas como saltos altos também não são naturais ao sexo feminino. (Digo eu que uso quase sempre saltos altos; e gosto.) Nem exclusivas. Ao longo dos tempos muitos homens usaram saltos altos. Luís XIV era conhecido por usar saltos altos. Nelson Évora está apenas a fazer algo que muitos outros antes dele fizeram. E quanto ao simbolismo da fotografia, é um ótimo exercício de empatia. Aquela ideia de usar os sapatos do outro para o compreendermos. E sim, é um exercício que faz falta no que toca aos assuntos femininos (que, lá está, são menorizados e apenas para os fóruns femininos – porque os assuntos importantes e que merecem discussão geral, de homens e mulheres, são os que interessam aos homens). Pelo que Nelson Évora não está nada ridículo na capa da Máxima; está admirável. (Tanto que uma coisa que eu vou já ensinando aos meus dois filhos é que as cabeças e os corações femininos têm um soft spot para homens empáticos; para que assim desenvolvam a capacidade e a aproveitem.)

saltos homens

(Já agora quanto a este post do João Cortez, também acho um enorme disparate estas disposições legais. Mas acharia muito bem que fosse obrigatória a publicidade da percentagem de mulheres nos conselhos de administração e nos corpos de gestão das grandes empresas, por exemplo. Porque é uma informação relevante e nós somos meninas para, sabendo isso, boicotar os bens e serviços vendidos por empresas com exiguidade de mulheres no topo.)

P.S. Este post é conversa europeia (também poderia ser norte-americana). Que não nos faça esquecer os tantos sítios onde as mulheres nem veem respeitados os seus direitos humanos, tanto nas leis como nos hábitos culturais. E como tantos aceitam que este desrespeito pelos direitos humanos das mulheres seja importado para a Europa em nome da tolerância para com os imigrantes.

Eco-cepticismo

Escrevi para o Jornal i, hoje, 

Decorreram, mais uma vez, a semana passada, em Lima, no Peru, diversas sessões sobre o dogma das alterações climáticas com a alçada da ONU. Sabemos de antemão que a chefe suprema da ONU para esta matéria, Christiana Figueres, já tem opinião quanto ao melhor sistema de governo para lidar com a problemática. Simplesmente, a senhora declarou que a democracia é um sistema fraco e deu o sistema de governo Chinês, a título de exemplo, como modelo: é que o partido comunista chinês tem uma atuação mais eficaz, proclamou a senhora. A democracia surge assim, ao melhor estilo revolucionário, como um sistema incompatível com bom desenvolvimento da Amazónia ou da horta.

A par disto e não sendo especialista, algumas coisas me incomodam neste tema. Em primeiro lugar, a histeria sensacionalista, que não anda a passo com a “evidência inquestionável” da ciência, e que dá ao ecologismo um pendor de seita religiosa. Sobre este ponto, aconselho, para acalmar as emoções dos radicais, uma vista de olhos a “Cool it”, da autoria de Bjorn Lomborg, ex-activista da Greenpeace, veggie e por isso insuspeito. Depois, o oportunismo político de gente como Al Gore, capaz de transformar meia-verdade conveniente numa verdade inconveniente com pouca adesão à realidade científica. Acresce, ainda, a transformação deste tema em refúgio ideológico que alguns órfãos do muro de Berlim encontraram para atacar o capitalismo partindo do “ambientalismo” e do eco-terrorismo. Como se este fosse um território dos direitos adquiridos da esquerda.

Supervisão e Estabilização de mercados

Uma lição que parece que ninguém quer tirar com a novela BES são as consequências do conflito de interesse entre quem tem a missão de supervisionar um mercado e de quem tem a missão de o estabilizar. A supervisão tem como missão identificar irregularidades. Irregularidades que podem por em questão a estabilidade de curto prazo do mercado em questão.

Quando existem este tipo de conflitos, prioritiza-se. Para o BdP o mais importante é a estabilidade dos mercados financeiros, é esta a prioridade. A supervisão é apenas mais uma ferramenta para alcançarem a estabilidade dos mercados financeiros. 

Não mudando explicitamente a prioridade na actuação do BDP, o que parece impossível, nem autonomizando a missão de supervisão, o que parece improvável, podemos ter a certeza que outros BES acontecerão no futuro. De acordo com o BdP todos os bancos serão absolutamente sólidos até ao momento que o serão tão pouco que têm de ser nacionalizados.