O sacrifício do cordeiro

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Não é cordeiro nem se sacrificou, mas Ricardo Araújo Pereira foi estendido e simbolicamente enterrado pela turba inquisitorial que policia o pensamento e que faz birra porque o mundo teima em não ser como tweetam. O crime do Ricardo? Ter opinião — e não ser um cordeiro.

Percebe-se. Afinal, há coisas invioláveis à luz da mais nobre ética republicana. A primeira é duvidar da sacrosantidade de José Sócrates e da incapacidade das amásias em questionar de onde vinha o dinheiro — o que acontece em Formentera fica em Formentera. A segunda é achar que até não estamos mal, e que aqueles rituais obscurantistas de supressão da liberdade de expressão e de ideias, tão em voga no séc XVI, não devem ser mais do que um pequeno compêndio nos livros de história.

Daqui se conclui que se não estás com eles, estás contra eles, Ricardo. Ou contra elas. Ou contra el@s. Ainda que tenhas defendido a legalização do aborto, pairado pelo PCP, votado no Bloco, apoiado o Livre, não é aceitável que não alinhes em toda e qualquer causa progressista do dia.

Se dúvidas houvesse da importância do progresso, ainda ontem se dava conta de mais um flagelo acometido no Reino Unido, que só não tomou outras proporções porque uma mãe atenta decidiu interceder. Não é que foram passar o filme da Bela Adormecida na escola da filha de 6 anos? Esse mesmo, o filme em que a Princesa, que não havia previamente autorizado o beijo do Príncipe pois encontrava-se a dormir, foi beijada de supetão. Ilustrado, sim, mas assédio sexual.

Perguntam-te enfim, como derradeiro momento de redenção, antes mesmo de desembrenharem a faca: de que lado vais estar, Ricardo? Eu não sei, mas o jardim visto do lado de lá do manicómio parece um lugar bem mais agradável.

Armando Pereira é bom demais para o país que o viu nascer

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Escreve o Público que Armando Pereira, «produtor de cabos de fibra óptica», não sossega o Governo, pois «parece não ter o perfil para dirigir uma empresa como a Altice». Armando Pereira é de facto insólito. Ao contrário de outras sumidades, Armando Pereira foi para um qualquer bairro de lata em França aos 14 anos, e aos 11 já era feirante — e não consta que o fosse por carolice. Não foi para um luxuoso apartamento em Paris pago por um amigo, frequentar um mestrado na Sorbonne, com uma dissertação escrita por um obscuro professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Não, foi mesmo trabalhar, imagine-se o despautério. Entretanto percebeu que havia ali uma oportunidade, numa época em que a rede por cabo estava em expansão. Sem o élan de um verdadeiro gestor, daqueles que ganham prémios internacionais e depois levam à falência a respectiva empresa, pede uns 80 mil Euros a um banco para constituir a sua empresa. Registe-se a saloiice do mendicante, que ao invés de pedir 100 mil Euros à Caixa Geral de Depósitos para comprar um Mercedes Classe S, pede-os para fazer efectivamente algo. Fá-lo, e, inusitadamente, chega mesmo a pagar o empréstimo de volta. Constrói um império — sem subsídios, sem o préstimo do Estado, sem favores de políticos.

Conclui-se, portanto, que Armando Pereira é um péssimo gestor, pelo menos quando medido pela bitola dos cânones portugueses que regem a boa gestão e a negociata dos indígenas. Compreende-se, assim, que o pobretanas feito milionário, que não janta no Tavares (quando o quiser fazer, Armando Pereira compra o Tavares), não frequenta a Rua do Grémio Lusitano, não vai caçar ao Alentejo ou recebe prémios de gestão, seja alvo da ira dos pelintras depenados que pululam por Lisboa e brunem os Oxford dos grandes empresários portugueses, dos que sabem negociar com políticos de igual estirpe. Estes, cujo maior feito de gestão terá sido ir à Staples comprar arquivos para o seu gabinete, arrogam-se do direito de criticar as competências de gestão de terceiros. Os mesmos que compactuaram com Zeinal Bava, Ricardo Salgado, entre outros portentos da gestão, glorificados vezes a fio pelo jornalismo indígena, são quem apontam as alabardas a Armando Pereira. Bem vistas as coisas, Armando Pereira não merece mesmo este país. Azar o dele que nele nasceu.

 

A Voz do MAL

Três coisas que não se recusam: um jantar com a Adriana Lima, um Aston Martin DB9 e a inauguração do buraco túnel do Marão acompanhado de grandes camafeus como o dr Paulo Campos, o ex-, futuro ex-ex-, presidiário José Sócrates e o dr António Costa. Se só uma for possível, a Adriana Lima que espere. Sentada no DB9.

A inauguração do túnel do Marão é uma experiência sociológica irrepetível. A baixa intensidade luminosa, o espaço confinado e a companhia do dr José Sócrates são um simulacro de um presídio, uma dádiva a apenas 6€ de portagem por 3km de túnel. Recordemos que uma visita a Alcatraz, o Marão dos yankees para tipos como o Al Capone, que se teria poupado a trabalhos se optasse por uma carreira política, nunca fica por menos de $30 o bilhete. Uma pechincha, portanto, se excluirmos o que sobra em PPPs.

Não se percebe, portanto, a «insensibilidade» do dr Pedro Passos Coelho em recusar excelso convite. Tivesse Passos Coelho recebido empréstimos insuspeitos de um amigo da sua lista de top 10 de amigos, vivido como um aristocrata no centro de Paris, pagado a ex-namoradas, amigas e quejandas, e teria direito a salvas, a petições para que se candidate a Presidente da República e a sessões privadas de piano pelas mãos da dra Gabriela Canavilhas. Assim, merece apenas o escárnio dos socráticos, mas safa-se da dra Canavilhas.

Dirão as más-línguas que Passos não pôde comparecer porque estava a dar umas voltas de DB9. Ou terá sido de S500, comprado com um empréstimo da CGD?


Esta crónica inaugura uma coluna que quero manter com regularidade semanal, “A Voz do MAL”. Puro sarcasmo, puro mal-dizer. Na verdade, bastaria citar verbatim a actualidade, em particular os partidos que compõem a geringonça, e a piada estava feita.

Realidade Real do BE vs a Realidade Virtual

Na sequência do meu post de ontem “VR (Virtual Reality) vs RR (Real Reality)” não resisto a sublinhar um dos pontos nele abordado e que se perdia no meio do texto.

Realidade Real = O BE aprovou na generalidade um orçamento do Estado que tal como Europa exigia diminui o déficit primário estrutural, ou seja na sua própria terminologia de 2015 aprovou um orçamento de austeridade.
E para compensar os seus eleitores que metem gasolina todos os dias usou da
Realidade virtual = colocando nas redes sociais um cartaz acerca de Jesus saciando assim a sede de escandalizar e distrair os média.

Dois erros numa só semana mostram um Bloco indeciso entre o poder e o contra poder . E já dizem que querem começar a falar do Orçamento de 2017. Será um OGE real ou um virtual?

Pato Donald Costa

http://www.nytimes.com/politics/first-draft/2016/02/03/donald-trump-tells-crowd-in-arkansas-i-think-i-came-in-first-in-iowa/

Usando uma tradição muito querida entre alguns políticos portugueses e descoberta nas eleições de 2015, o candidato Republicano à nomeação para as eleições presidenciais nos EUA, decidiu declarar que era vencedor de umas eleições primárias no Iowa em que tinha ficado em segundo e atrás do candidato Ted Cruz por mais de 3 p.p.

Tenho dúvidas que Donald Trump se alie com alguém para conquistar a Presidência, para além da sua própria imagem no espelho, seja ou não engraçadinho. Por outro lado as semelhanças com o tom de pele e de cabelo do actual PM português são escassas. No entanto a capacidade de re-interpretar os resultados de um dia eleitoral a seu favor permitem acalentar que um dia os EUA terão um Presidente a mandar embora todos os mexicanos e muçulmanos para os seus países de origem.

Já o nosso PM terá que esperar que não haja mexicanos, nem muçulmanos a querer vir para Portugal para evitar a aritmética e a contabilidade difícil dos seus aliados com as integrações e os direitos sociais das minorias.

Mas ainda que sem mexicanos o nosso Costa não se vai livrar de uma segunda vaga de brasileiros empurrados pelos êxitos económicos da petista Dilma, em especial se eles tiverem conversado antes com os amigos que por cá andaram numa primeira vaga e saibam quão magnânimo é o contribuinte português .

Há patos para todos os gostos , seja entre o eleitorado brasileiro, português ou americano. No final exclamarão todos eles “quack, quack” tal como o Pato Donald, o que traduzido quer dizer : fui depenado !!!

Sem nada que fazer

kafka

O INE publicou hoje as estatísticas do comércio internacional de Abril. Ainda não vi o spin dos social-democratas do Governo mas já aí está o dos social-democratas da oposição. Para estes, o que foi publicado é assustador. As importações cresceram mais que as exportações muito em virtude do aumento das compras de automóveis de passageiros (os social-democratas da oposição chamam-lhes popós). Apesar de o cenário encomendado pelo PS prever superavit externo, dizem que é treta, que a realidade não se compadece com unicórnios. Presume-se que a partir de Outubro a realidade mude em instantes.

Esta permanente desvalorização da melhoria da cobertura das importações pelas exportações (que volta a melhorar em Abril) faz todo o sentido. Na cabeça dos social-democratas, quem exporta e importa é o Governo. As pessoas e empresas não têm nada que ver com o assunto. Sendo assim, estas publicações servem para uns se vangloriarem (ou desculparem) e outros menosprezarem ou regozijarem (quando corre “mal”). Uns e outros parecem julgar-se acima de trabalhadores e empresários que, esses sim, são os responsáveis pelo que vai correndo bem. Neste caso, a única coisa que os governos podem fazer é atrapalhar e aí podem ser responsáveis se a coisa dá para o torto.

Por definição, como fica demonstrado, social-democrata é um imbecil presumido sem nada que fazer.

malditos

scientific farming u washMaldita globalização. Malditas empresas ocidentais que aproveitam o trabalho barato na China para baixar os preços nos seus países. Malditos consumidores que aproveitam os salários baixos chineses sem pesos na consciência. Maldito consumismo.

Malditos todos: entre 1990 e 2014, a China diminui para metade a parte da população que passa fome; desde 1990, 155 milhões de almas chinesas escaparam à fome. Números dessa organização ultra-capitalista que é a FAO.

 

Constança

Hoje, para o jornal i, a propósito do vídeo “viral” da semana passada (esta semana já corre outro vírus por aí), onde aparece uma rapariga chamada Constança a bater num rapaz, avanço com um tema que tem que ver com a identidade pessoal, a possibilidade de nos modificarmos, de sermos diferentes dos outros mas também de nós próprios, ao longo da nossa vida, e os efeitos da “memória digital” nesse processo de desenvolvimento pessoal:

“Passaram cinco anos, Constança entra na universidade. Tem hoje 20 anos e prepara-se para uma entrevista que a ajudará a pagar o curso. Sonha ser professora. Detesta “filmes de acção”, corre durante a alvorada três vezes por semana, organiza com etiquetas os tupperwares e duas vezes por semana troca as flores do beiral da janela. Vota à direita e diz frequentemente que um dia, quando tiver uma filha, quer chamar-lhe Luísa, em homenagem à mãe.   

Chega o momento da entrevista, entra nervosa, mas a sorrir para o mundo. A gerente de recursos humanos do hipermercado olha para aquele rosto fresco e recorda-se do vídeo “viral” que correu Portugal em 2015 e que também ela partilhou no Facebook. “Foi você?” Atira a entrevistadora de unha vermelha e rabo-de-cavalo loiro. Com a testa franzida e a boca entreaberta, Constança responde que sim. Seguem-se umas perguntas de circunstância e Constança é avisada de que voltarão a contactá-la. Com os olhos ardendo e um aperto no peito, vai-se embora.

Noutro tempo, a cena a que assistimos naquele vídeo “viral” ficaria guardada nalguma gaveta da memória de meia dúzia de pessoas e com o tempo desvanecia-se, como feliz ou infelizmente tudo desvanece. Desde o início dos tempos, para nós seres humanos, esquecer tem sido a norma e recordar a excepção.  Tudo mudou com as possibilidades da memória digital que eterniza uma Constança que já não existe, cuja identidade foi construindo e evoluindo ao longo dos tempos. Constança será hoje diferente de si mesma há cinco anos. E isso, caro leitor, deve ser respeitado por todos nós.”

Sampaio da Nóvoa: o “nosso” Zizek?

Hoje, para o jornal i:

O mui intelectual e catedrático Sampaio da Nóvoa foi tocado por um sentido de dever para com os outros. Ouvir um discurso de Sampaio da Nóvoa é arriscar encontrar resposta para a pergunta de Platão, apresentada pela boca de Sócrates, “o que é uma comunidade justa?”. Sampaio da Nóvoa dá-lhe corpo, o seu corpo, literalmente: é aquela onde os melhores governam com sabedoria. Sampaio da Nóvoa é o melhor. O critério é qualitativo: governam os melhores, os que prescindindo dos seus interesses particulares e egoístas (quem?) contribuem para a colectividade social depois de uma catedrática e virtuosa educação que os coloca – a esses pedagogos e intelectuais do interesse público – naquele patamar de superioridade moral que lhes permite olhar a Nação, de cima para baixo, como Colectividade. Tanta correcção, tanta bondade, confesso, dá-me uma irrefreável vontade de me tornar uma marginal e ir pecar sem dó nem piedade.

Mas ouvir um discurso ou entrevista de Sampaio da Nóvoa como a de 2011 a António J. Teixeira nos poucos minutos do seu dia em que não está a ler Lacan ou Derrida recorda-me a primorosa encenação da persona do filósofo Slavoj Zizek, o Élvis da “Cultural Theory”, não só no estilo “discurso logo existo” ou no desígnio heróico. De facto, é muito comum o filósofo competente e letrado sofrer de alguma incontinência verbal, perdendo-se no seu vocabulário abstracto mas triunfal, pejado de proclamações assertivas mas abandonando o compromisso com a dureza dos factos. Ninguém é perfeito, muito menos o intelectual das esquerdas. Mas, se há um apelo a fazer a Sampaio da Nóvoa, ele é simples: deixe as grandes Teorias, em forma de proclamação poética, na sala de aula, porque o mundo fora da universidade não é dos filósofos, é dos realistas, e um pouco de realismo nunca matou ninguém.

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Então um post no dia da mulher

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Como prometido ontem no facebook, cá vai a resposta feminista ao post do Mário com o Nelson Évora.

Começo por fazer a declaração de interesses. Também não sou adepta da igualdade de género naquela parte em que anula as diferenças entre homens e mulheres. Acho o mundo muito mais divertido com a existência destas diferenças. Precisamente por haver diferenças é tão importante a participação das mulheres em todas as esferas (se fôssemos indistintos, tanto faria se fôssemos respresentados por homens ou por mulheres). E, de resto, uma das minhas lutas (se isto não soar excessivamente commie) feministas é precisamente recusar tanto a uniformização dos géneros como não aceitar que, mantendo-se a diferença, a maneira masculina de fazer as coisas seja o padrão e a maneira feminina um desvio que as mulheres devem corrigir para serem aceites. E, não nos enganenos, no nosso mundo ocidental livre e women-friendly esta forma de obrigar ar mulheres a aceitarem o padrão masculino (onde não estão tão à-vontade ficando, assim, em desvantagem) é o último (e mais insidioso) reduto do machismo.

Mas já não me convencem que as diferenças entre os sexos sejam motivo – e quantas vezes são usadas para isso – para limitar ocupações e tarefas de cada um dos sexos. As mulheres não são naturalmente adequadas à realização de tarefas domésticas, nem ao cuidado dos filhos e dos doentes da famíla, nem às atividades profissionais de cuidadoras. Eu, que me tenho por muito feminina, não acho qualquer piada a limpezas domésticas ou a tratamento de roupas ou, sequer, a cozinhar. Também não vejo que a minha natureza ditasse que a mudança das fraldas dos meus filhos, ou os banhos ou os períodos sem dormir à noite me fossem destinados em exclusivo (ou em maioria). Eeeeeeeetc.

E – e chegamos ao post do Mário – coisas como saltos altos também não são naturais ao sexo feminino. (Digo eu que uso quase sempre saltos altos; e gosto.) Nem exclusivas. Ao longo dos tempos muitos homens usaram saltos altos. Luís XIV era conhecido por usar saltos altos. Nelson Évora está apenas a fazer algo que muitos outros antes dele fizeram. E quanto ao simbolismo da fotografia, é um ótimo exercício de empatia. Aquela ideia de usar os sapatos do outro para o compreendermos. E sim, é um exercício que faz falta no que toca aos assuntos femininos (que, lá está, são menorizados e apenas para os fóruns femininos – porque os assuntos importantes e que merecem discussão geral, de homens e mulheres, são os que interessam aos homens). Pelo que Nelson Évora não está nada ridículo na capa da Máxima; está admirável. (Tanto que uma coisa que eu vou já ensinando aos meus dois filhos é que as cabeças e os corações femininos têm um soft spot para homens empáticos; para que assim desenvolvam a capacidade e a aproveitem.)

saltos homens

(Já agora quanto a este post do João Cortez, também acho um enorme disparate estas disposições legais. Mas acharia muito bem que fosse obrigatória a publicidade da percentagem de mulheres nos conselhos de administração e nos corpos de gestão das grandes empresas, por exemplo. Porque é uma informação relevante e nós somos meninas para, sabendo isso, boicotar os bens e serviços vendidos por empresas com exiguidade de mulheres no topo.)

P.S. Este post é conversa europeia (também poderia ser norte-americana). Que não nos faça esquecer os tantos sítios onde as mulheres nem veem respeitados os seus direitos humanos, tanto nas leis como nos hábitos culturais. E como tantos aceitam que este desrespeito pelos direitos humanos das mulheres seja importado para a Europa em nome da tolerância para com os imigrantes.