malditos

scientific farming u washMaldita globalização. Malditas empresas ocidentais que aproveitam o trabalho barato na China para baixar os preços nos seus países. Malditos consumidores que aproveitam os salários baixos chineses sem pesos na consciência. Maldito consumismo.

Malditos todos: entre 1990 e 2014, a China diminui para metade a parte da população que passa fome; desde 1990, 155 milhões de almas chinesas escaparam à fome. Números dessa organização ultra-capitalista que é a FAO.

 

Constança

Hoje, para o jornal i, a propósito do vídeo “viral” da semana passada (esta semana já corre outro vírus por aí), onde aparece uma rapariga chamada Constança a bater num rapaz, avanço com um tema que tem que ver com a identidade pessoal, a possibilidade de nos modificarmos, de sermos diferentes dos outros mas também de nós próprios, ao longo da nossa vida, e os efeitos da “memória digital” nesse processo de desenvolvimento pessoal:

“Passaram cinco anos, Constança entra na universidade. Tem hoje 20 anos e prepara-se para uma entrevista que a ajudará a pagar o curso. Sonha ser professora. Detesta “filmes de acção”, corre durante a alvorada três vezes por semana, organiza com etiquetas os tupperwares e duas vezes por semana troca as flores do beiral da janela. Vota à direita e diz frequentemente que um dia, quando tiver uma filha, quer chamar-lhe Luísa, em homenagem à mãe.   

Chega o momento da entrevista, entra nervosa, mas a sorrir para o mundo. A gerente de recursos humanos do hipermercado olha para aquele rosto fresco e recorda-se do vídeo “viral” que correu Portugal em 2015 e que também ela partilhou no Facebook. “Foi você?” Atira a entrevistadora de unha vermelha e rabo-de-cavalo loiro. Com a testa franzida e a boca entreaberta, Constança responde que sim. Seguem-se umas perguntas de circunstância e Constança é avisada de que voltarão a contactá-la. Com os olhos ardendo e um aperto no peito, vai-se embora.

Noutro tempo, a cena a que assistimos naquele vídeo “viral” ficaria guardada nalguma gaveta da memória de meia dúzia de pessoas e com o tempo desvanecia-se, como feliz ou infelizmente tudo desvanece. Desde o início dos tempos, para nós seres humanos, esquecer tem sido a norma e recordar a excepção.  Tudo mudou com as possibilidades da memória digital que eterniza uma Constança que já não existe, cuja identidade foi construindo e evoluindo ao longo dos tempos. Constança será hoje diferente de si mesma há cinco anos. E isso, caro leitor, deve ser respeitado por todos nós.”

Sampaio da Nóvoa: o “nosso” Zizek?

Hoje, para o jornal i:

O mui intelectual e catedrático Sampaio da Nóvoa foi tocado por um sentido de dever para com os outros. Ouvir um discurso de Sampaio da Nóvoa é arriscar encontrar resposta para a pergunta de Platão, apresentada pela boca de Sócrates, “o que é uma comunidade justa?”. Sampaio da Nóvoa dá-lhe corpo, o seu corpo, literalmente: é aquela onde os melhores governam com sabedoria. Sampaio da Nóvoa é o melhor. O critério é qualitativo: governam os melhores, os que prescindindo dos seus interesses particulares e egoístas (quem?) contribuem para a colectividade social depois de uma catedrática e virtuosa educação que os coloca – a esses pedagogos e intelectuais do interesse público – naquele patamar de superioridade moral que lhes permite olhar a Nação, de cima para baixo, como Colectividade. Tanta correcção, tanta bondade, confesso, dá-me uma irrefreável vontade de me tornar uma marginal e ir pecar sem dó nem piedade.

Mas ouvir um discurso ou entrevista de Sampaio da Nóvoa como a de 2011 a António J. Teixeira nos poucos minutos do seu dia em que não está a ler Lacan ou Derrida recorda-me a primorosa encenação da persona do filósofo Slavoj Zizek, o Élvis da “Cultural Theory”, não só no estilo “discurso logo existo” ou no desígnio heróico. De facto, é muito comum o filósofo competente e letrado sofrer de alguma incontinência verbal, perdendo-se no seu vocabulário abstracto mas triunfal, pejado de proclamações assertivas mas abandonando o compromisso com a dureza dos factos. Ninguém é perfeito, muito menos o intelectual das esquerdas. Mas, se há um apelo a fazer a Sampaio da Nóvoa, ele é simples: deixe as grandes Teorias, em forma de proclamação poética, na sala de aula, porque o mundo fora da universidade não é dos filósofos, é dos realistas, e um pouco de realismo nunca matou ninguém.

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Então um post no dia da mulher

saltos luis xiv

Como prometido ontem no facebook, cá vai a resposta feminista ao post do Mário com o Nelson Évora.

Começo por fazer a declaração de interesses. Também não sou adepta da igualdade de género naquela parte em que anula as diferenças entre homens e mulheres. Acho o mundo muito mais divertido com a existência destas diferenças. Precisamente por haver diferenças é tão importante a participação das mulheres em todas as esferas (se fôssemos indistintos, tanto faria se fôssemos respresentados por homens ou por mulheres). E, de resto, uma das minhas lutas (se isto não soar excessivamente commie) feministas é precisamente recusar tanto a uniformização dos géneros como não aceitar que, mantendo-se a diferença, a maneira masculina de fazer as coisas seja o padrão e a maneira feminina um desvio que as mulheres devem corrigir para serem aceites. E, não nos enganenos, no nosso mundo ocidental livre e women-friendly esta forma de obrigar ar mulheres a aceitarem o padrão masculino (onde não estão tão à-vontade ficando, assim, em desvantagem) é o último (e mais insidioso) reduto do machismo.

Mas já não me convencem que as diferenças entre os sexos sejam motivo – e quantas vezes são usadas para isso – para limitar ocupações e tarefas de cada um dos sexos. As mulheres não são naturalmente adequadas à realização de tarefas domésticas, nem ao cuidado dos filhos e dos doentes da famíla, nem às atividades profissionais de cuidadoras. Eu, que me tenho por muito feminina, não acho qualquer piada a limpezas domésticas ou a tratamento de roupas ou, sequer, a cozinhar. Também não vejo que a minha natureza ditasse que a mudança das fraldas dos meus filhos, ou os banhos ou os períodos sem dormir à noite me fossem destinados em exclusivo (ou em maioria). Eeeeeeeetc.

E – e chegamos ao post do Mário – coisas como saltos altos também não são naturais ao sexo feminino. (Digo eu que uso quase sempre saltos altos; e gosto.) Nem exclusivas. Ao longo dos tempos muitos homens usaram saltos altos. Luís XIV era conhecido por usar saltos altos. Nelson Évora está apenas a fazer algo que muitos outros antes dele fizeram. E quanto ao simbolismo da fotografia, é um ótimo exercício de empatia. Aquela ideia de usar os sapatos do outro para o compreendermos. E sim, é um exercício que faz falta no que toca aos assuntos femininos (que, lá está, são menorizados e apenas para os fóruns femininos – porque os assuntos importantes e que merecem discussão geral, de homens e mulheres, são os que interessam aos homens). Pelo que Nelson Évora não está nada ridículo na capa da Máxima; está admirável. (Tanto que uma coisa que eu vou já ensinando aos meus dois filhos é que as cabeças e os corações femininos têm um soft spot para homens empáticos; para que assim desenvolvam a capacidade e a aproveitem.)

saltos homens

(Já agora quanto a este post do João Cortez, também acho um enorme disparate estas disposições legais. Mas acharia muito bem que fosse obrigatória a publicidade da percentagem de mulheres nos conselhos de administração e nos corpos de gestão das grandes empresas, por exemplo. Porque é uma informação relevante e nós somos meninas para, sabendo isso, boicotar os bens e serviços vendidos por empresas com exiguidade de mulheres no topo.)

P.S. Este post é conversa europeia (também poderia ser norte-americana). Que não nos faça esquecer os tantos sítios onde as mulheres nem veem respeitados os seus direitos humanos, tanto nas leis como nos hábitos culturais. E como tantos aceitam que este desrespeito pelos direitos humanos das mulheres seja importado para a Europa em nome da tolerância para com os imigrantes.

Eco-cepticismo

Escrevi para o Jornal i, hoje, 

Decorreram, mais uma vez, a semana passada, em Lima, no Peru, diversas sessões sobre o dogma das alterações climáticas com a alçada da ONU. Sabemos de antemão que a chefe suprema da ONU para esta matéria, Christiana Figueres, já tem opinião quanto ao melhor sistema de governo para lidar com a problemática. Simplesmente, a senhora declarou que a democracia é um sistema fraco e deu o sistema de governo Chinês, a título de exemplo, como modelo: é que o partido comunista chinês tem uma atuação mais eficaz, proclamou a senhora. A democracia surge assim, ao melhor estilo revolucionário, como um sistema incompatível com bom desenvolvimento da Amazónia ou da horta.

A par disto e não sendo especialista, algumas coisas me incomodam neste tema. Em primeiro lugar, a histeria sensacionalista, que não anda a passo com a “evidência inquestionável” da ciência, e que dá ao ecologismo um pendor de seita religiosa. Sobre este ponto, aconselho, para acalmar as emoções dos radicais, uma vista de olhos a “Cool it”, da autoria de Bjorn Lomborg, ex-activista da Greenpeace, veggie e por isso insuspeito. Depois, o oportunismo político de gente como Al Gore, capaz de transformar meia-verdade conveniente numa verdade inconveniente com pouca adesão à realidade científica. Acresce, ainda, a transformação deste tema em refúgio ideológico que alguns órfãos do muro de Berlim encontraram para atacar o capitalismo partindo do “ambientalismo” e do eco-terrorismo. Como se este fosse um território dos direitos adquiridos da esquerda.

Supervisão e Estabilização de mercados

Uma lição que parece que ninguém quer tirar com a novela BES são as consequências do conflito de interesse entre quem tem a missão de supervisionar um mercado e de quem tem a missão de o estabilizar. A supervisão tem como missão identificar irregularidades. Irregularidades que podem por em questão a estabilidade de curto prazo do mercado em questão.

Quando existem este tipo de conflitos, prioritiza-se. Para o BdP o mais importante é a estabilidade dos mercados financeiros, é esta a prioridade. A supervisão é apenas mais uma ferramenta para alcançarem a estabilidade dos mercados financeiros. 

Não mudando explicitamente a prioridade na actuação do BDP, o que parece impossível, nem autonomizando a missão de supervisão, o que parece improvável, podemos ter a certeza que outros BES acontecerão no futuro. De acordo com o BdP todos os bancos serão absolutamente sólidos até ao momento que o serão tão pouco que têm de ser nacionalizados. 

O Bárbaro Vitoria e os Intelectuais Civilizados

Em uma palestra proferida no dia 16 de maio de 1944, Leo Strauss discorreu acerca de como estudar filosofia medieval. Na ocasião, Strauss deixou claro que o papel do historiador do pensamento é tentar entender os autores do passado exatamente como eles entendiam a si mesmos. Ora, entender um autor tal como ele entendia a si mesmo não é uma tarefa fácil. Afinal de contas, já é extremamente difícil colocar-se no lugar do outro quando estamos frente a frente e tentamos compreender as ideias de nosso interlocutor para o bom andamento de um debate. É mais difícil ainda quando a separação, além de espacial, também é temporal. No entanto, não há outra saída: ou tentamos entender os autores do passado tal como eles se entendiam, ou, ainda de acordo com Leo Strauss, abandonamos o único critério praticável de objetividade.

Considerar que recorremos ao passado para validar, sustentar ou legitimar nossas ideias do presente já é uma postura preconceituosa: é a afirmação, implícita ou explícita, de que o presente é melhor do que o passado. É o que ocorre quando alguém considera-se capaz de interpretar um autor do passado melhor do que ele entendia a si próprio, já que, no espaço de tempo que nos separa daquele autor, nosso pensamento teria necessariamente avançado, conceitual e culturalmente. Mais ainda: quando um teórico ou acadêmico do presente está plenamente convicto da Verdade presente nas ideias que defende (ou em favor das quais milita), então ele passa a ver tudo o que nossos antecessores produziram como meras etapas inferiores em um processo evolutivo-progressivo que chega ao ápice na sua própria ideologia e conjunto de concepções. Dessa maneira, por exemplo, quem interpreta o mundo à luz de uma inevitável dialética de luta de classes, termina interpretando os filósofos gregos do período clássico a partir desse marco conceitual; ou quem considera “óbvio” que identidades são necessariamente constituídas por diferenças, conseguirá enxergar esse movimento teórico presente até em historiadores da antiguidade, como Heródoto.

A postura arrogante de que nós somos mais “esclarecidos” do que nossos antecessores leva, ainda, à preguiça intelectual. Se alguém já considera que seu arcabouço teórico-conceitual é mais avançado do que o de autores do passado, então por que dar-se ao trabalho de tentar colocar-se no espaço e no tempo de tais autores? Em situações como essa, a motivação para estudar a história do pensamento não decorre de um compromisso com o conhecimento, mas sim do comprometimento com uma ideologia. Tal posicionamento leva a inevitáveis abusos interpretativos, a distorções conceituais e à perpetuação de mitos.

Não é exagero dizer que o século XVI é um marco para o início da modernidade. É um longo século que compreende a descoberta e colonização de vastos territórios até então desconhecidos pelos europeus. Além disso, é o século que compreende também a Reforma protestante e os primórdios da Revolução Científica. Podemos ainda acrescentar a conclusão da Reconquista e o desenvolvimento do Humanismo. À luz de tantos acontecimentos históricos, sociais e culturais, o contato com seres de aparência humana, porém de hábitos muito distintos dos povos europeus, colocou a “questão indígena” em posição de destaque nos debates intelectuais do Renascimento ibérico. A partir das disputas em torno do tema da humanidade dos ameríndios, lançaram-se as bases para o ulterior desenvolvimento do direito internacional e surgiram as primeiras teorias modernas da guerra justa.

O estudo objetivo do pensamento do século XVI é, ademais, um excelente começo para desmistificar crenças contemporâneas a respeito dos acontecimentos na época colonial. O processo de conquista e colonização das Américas envolveu, obviamente, a participação direta de representantes do Clero. Mas como foi essa participação? Não há sombra de dúvida de que a Igreja Católica enviava missionários para destruir as culturas indígenas e forçar os nativos à conversão, não é mesmo? Somente alguém muito ingênuo defenderia a ideia de que não havia uma exploração sistemática do trabalho dos índios, com apoio da Igreja, não é? Vejamos…

O processo de conquista não foi incruento. O autor Lewis Hanke conta que, em 1511, os ameríndios eram escravizados, roubados e assassinados em Hispaniola. Antonio de Montesinos, frei dominicano, indignou-se com a situação e defendeu os indígenas, afirmando que eles possuíam almas racionais e que seria um dever dos espanhóis amá-los como a si mesmos. Mais ainda, posicionando-se explicitamente contra a escravização dos indígenas, em 1537 o papa Paulo III proclamou a Bula Sublimus Dei, na qual estabeleceu que os índios não podiam ser tratados como “brutos a nosso serviço” e deixou claro que, tanto os índios americanos quanto quaisquer outros povos que pudessem ainda vir a ser descobertos não poderiam ser privados da liberdade e das suas propriedades, e jamais poderiam ser escravizados, mesmo que permanecessem fora da fé de Jesus Cristo.

O pensador mais representativo do Renascimento espanhol que se posicionou a respeito da questão indígena foi o teólogo dominicano Francisco de Vitoria (1483–1546). Vitoria estudou na França, onde voltou-se para o pensamento tomista. Ao levar o tomismo para a Espanha, fundou a Escola de Salamanca, ou Escola Espanhola da Lei Natural. Vitoria e os demais pensadores católicos da Escola de Salamanca utilizaram o pensamento tradicional e os ensinamentos de Sto. Tomás de Aquino para lidar com as transformações políticas, econômicas e sociais do início da modernidade. Já que eles aplicaram o pensamento tomista aos problemas de seu tempo, ao invés de adaptarem o tomismo para as suas necessidades contingenciais, é mais correto referir-se a eles como “tomistas tardios” e não como “neotomistas”.

Um erro grosseiro que ainda se propaga a respeito de Vitoria é a ideia de que ele teria defendido que, caso os indígenas não aceitassem a conversão ao Cristianismo, isso já seria, por si só, motivo suficiente para uma guerra justa contra eles. Afinal de contas, os espanhóis levavam o Evangelho àqueles povos bárbaros e, quando eles rejeitavam a Palavra, tornavam-se inimigos da Cristandade. Como não exterminá-los ou escravizá-los diante de tal afronta aos esforços de evangelização?

O problema com o “argumento” do parágrafo anterior é que Francisco de Vitoria, como qualquer bom teólogo católico, jamais atropelaria o livre-arbítrio dos nativos. Os espanhóis tinham, sim, o direito de pregar o Evangelho aos índios. Mas os índios também tinham o direito de rejeitá-lo. Enquanto seres humanos dotados de razão natural, os indígenas não eram moralmente inferiores aos europeus. A razão natural permitia-lhes distinguir entre o certo e o errado, e a lei natural conferia-lhes o pleno direito de escolha. Logo, já é uma aberração – sem nenhuma base teológica! – afirmar que a não-conversão teria sido razão suficiente para massacrar ou escravizar os nativos americanos… e mais grotesco ainda é afirmar que um teólogo tomista do século XVI teria defendido tal posição.

Há, ainda, uma outra interpretação contemporânea do pensamento de Vitoria, bem mais sutil e menos grosseira do que a que acabei de expor (mas não menos distorcida). Ela consiste na ideia de que Vitoria substituiu a escravidão natural aristotélica pelos rudimentos do que viria a ser, no período moderno, uma teoria do desenvolvimento, de acordo com a qual os indígenas, por estarem situados em um estágio anterior da humanidade, deveriam ser tutelados pelos espanhóis. Dessa maneira, os espanhóis, justamente por estarem mais próximos da Verdade, e por já viverem na civilização (em contraste com a barbárie), teriam a obrigação moral de guiar os indígenas para o caminho correto. Isso evitaria a interpretação ingênua de que as guerras contra os indígenas eram justificadas pela rejeição do Evangelho, colocando em seu lugar a ideia de que o desenvolvimento e a modernização seriam a solução, na época, para o problema da diferença.

Sob essa ótica interpretativa, Francisco de Vitoria caracteriza sistematicamente os indígenas em um patamar inferior de uma hierarquia graduada na Criação, vivendo em um estado de desordem social e religiosa, decorrente de uma falta de sintonia com a Lei Natural. O objetivo de Vitoria, para esses autores, seria encontrar uma justificativa moral e teológica para a conquista da América. Para isso, a separação horizontal/ôntica entre os europeus e os ameríndios seria substituída por uma separação vertical/temporal: em vez de escravos naturais, os nativos americanos seriam como crianças, a serem ensinadas e preparadas para a vida “civilizada” pelos colonizadores cristãos. No centro dessa análise, temos a transposição, da contemporaneidade ao século XVI, da ideia “inquestionável” de que identidades são constituídas por diferenças. Como o próprio Ius Gentium de Vitoria torna difícil sustentar uma separação “Self-Other” em termos espaciais, já que ele entendia o mundo como uma reunião de povos distintos a serem respeitados em suas particularidades, então essa separação “Self-Other” deveria existir necessariamente no tempo. É a única dedução possível a partir do axioma da relação constitutiva entre identidades e diferenças.

Mais ainda, interpretar a questão indígena do século XVI como uma “teoria do desenvolvimento” cai no problema do recurso ao passado para legitimar posturas teóricas do presente, consideradas mais avançadas e mais esclarecidas do que o pensamento do fim do período medieval e do início da modernidade. É no mínimo divertido constatar que grande parte dos autores contemporâneos, em áreas tais como Filosofia, Teoria Política ou Relações Internacionais, condenam com convicção, em nome do politicamente correto, toda e qualquer postura evolucionista, devido ao espectro do “darwinismo social” (que de darwinismo não tem nada!); mas, ao mesmo tempo, consideram um sentido evolutivo progressivo no pensamento: os problemas e as soluções dos nossos antepassados intelectuais eram pueris e ingênuas, enquanto o que se pensa atualmente representa o esclarecimento e o progresso. Em termos de ideias, os autores medievais e do início da modernidade são tratados como verdadeiros bárbaros intolerantes, pois a tocha do progresso e da civilização intelectual está nas mãos dos autores representativos do movimento pós-virada linguística, esclarecidos arautos do relativismo moral como princípio inquestionável e inabalável de tolerância e fraternidade. Isso é, no mínimo, irônico, pois já em Vitoria existe a ideia de tolerância como base para as relações entre os povos, e isso mais de cem anos antes de Westphalia.

Mais do que nunca, estamos diante da necessidade de acatar o conselho de Leo Strauss e devemos fazer um esforço para tentar entender os autores do passado tal como eles se entendiam. Vitoria não pensava em termos de identidades e diferenças. Vitoria tampouco enfrentava o problema de tentar legitimar a conquista espanhola dos territórios americanos. Ao abordar a questão indígena, o fundador da Escola de Salamanca tinha por objetivo analisar, à luz da doutrina de Sto. Tomás de Aquino, os abusos que eram denunciados pelos missionários a respeito do tratamento dos ameríndios, bem como suas implicações morais.

Ao contrário de considerá-los moralmente inferiores ou atrasados, Vitoria afirmava que os indígenas americanos faziam uso da razão e eram perfeitamente capazes de distinguir entre o certo e o errado. Mais ainda, Vitoria comparou os indígenas com os europeus, e fez questão de esclarecer que, mesmo na Europa “civilizada” não havia poucos indivíduos que se comportavam de maneira deplorável: “Por lo que creo que el que nos parezcan tan idiotas y romos, proviene en su mayor parte de la mala y bárbara educación, pues tampoco entre nosotros escasean rústicos poco desemejantes de los animales” (“pelo que acredito que o fato deles parecerem tão idiotas e estúpidos deriva, em grande parte, da sua educação precária e bárbara, pois tampouco entre nós faltam os rústicos que são pouco dessemelhantes dos animais”).

Quando os indígenas estivessem em pecado, e fora do estado de salvação, aí sim os europeus cristãos teriam a obrigação apostólica de orientá-los, porém “si solamente de ese modo se propone la fe a los bárbaros y no la abrazan, no es razón suficiente para que los españoles puedan hacerles la guerra, ni obrar contra ellos, por derecho de guerra” (“se somente desse modo propõe-se a fé aos bárbaros e eles não a abraçam, isso não é razão suficiente para que os espanhóis possam ir à guerra contra eles, nem agir contra eles por direito de guerra”). Ora, essa orientação não deve ser interpretada como o exercício de um direito de tutela sobre seres incapazes, dado que Vitoria deixa bem claro que os indígenas são seres humanos plenamente dotados de razão natural, capazes de distinguir entre o certo e o errado e, mais ainda, totalmente livres para fazer suas escolhas, pelo inviolável direito ao livre-arbítrio. Vitoria não afirma a superioridade moral dos espanhóis. Ele defende, sim, a vocação apostólica e a necessidade de anunciar o Evangelho aos ameríndios, mas isso não deve ser confundido como a afirmação de um “direito de tutela” e menos ainda como a defesa de uma superioridade civilizacional dos espanhóis sobre os ameríndios.

A interpretação do pensamento de Vitoria como uma tentativa de justificar a conquista da América por outros meios, através do estabelecimento de uma separação temporal que situa os indígenas na infância da humanidade, ao mesmo tempo em que afirma aos espanhóis a obrigação moral de tutelá-los e conduzi-los à civilização cristã, é, portanto, uma descaracterização do seu pensamento, que somente faz sentido para quem aplica dogmaticamente, ao século XVI, as teses historicistas, economicistas, perspectivistas e desenvolvimentistas do presente. Além disso, tal interpretação caracteriza o pensamento contemporâneo como o apogeu de uma pretensa civilização intelectual, estabelecendo assim um sentido evolutivo e progressivo que situa os autores do passado na infância do pensamento e os autores contemporâneos na maioridade civilizada e esclarecida.

O tomismo tardio da Escola de Salamanca foi um movimento intelectual que, no século XVI, lançou as bases para o desenvolvimento intelectual da modernidade. Não é exagero afirmar que a Economia Liberal, o Direito Internacional e as Relações Internacionais modernas nasceram naquele momento, a partir das reflexões de autores como Francisco de Vitoria, Domingo de Soto, Luis de Molina, Martín de Azpilcueta Navarro, Diego de Covarrubias y Leyva e muitos outros. Interpretá-los através das lentes contemporâneas, tingidas pelo marxismo desenvolvimentista e desfocadas pelo pós-estruturalismo perspectivista consiste em um verdadeiro ato de violência intelectual. Aos que defendem que o avançadíssimo pensamento contemporâneo, tolerante em seu relativismo, relativo em sua tolerância, é o supra-sumo do progresso do pensamento, ao passo em que a Escolástica tardia representa a intolerância e a barbárie da reação católica à modernidade nascente, recomendo uma meditação mais atenta sobre a obra original de Francisco de Vitoria, em especial o seguinte trecho: “… tampoco entre nosotros escasean rústicos poco desemejantes de los animales”.

(Publicado também em http://www.claudiotellez.org)

Bibliografia:

HANKE, Lewis. (1965). The Spanish Struggle for Justice in the Conquest of America. Boston: Little, Brown and Company.

INAYATULLAH, Naeem; BLANEY, David L. (2004). International Relations and the Problem of Difference. London: Routledge.

LIGGIO, Leonard P. (2000). “The Heritage of Spanish Scholastics”. Religion & Liberty, v. 10, n. 1, p. 8-10.

STRAUSS, Leo. (1996). “How to Study Medieval Philosophy” [1944]. Interpretation, v. 23, n. 3, p. 319–338.

VITORIA, Francisco de. (1934) Relecciones Teológicas del Maestro Fray Francisco de Vitoria. Tomo II. Madrid: Imprenta La Rafa.

Adeus, Margaret Thatcher!

Foi-se a Margaret Thatcher. Foram pessoas como ela que construíram o mundo no qual vivemos hoje. Não consigo deixar de observar que, ano após ano, a Guerra Fria fica cada vez mais distante… e não consigo compreender por que há tantas regiões do mundo que vão na direção contrária e ainda aferram-se a ideologias que não têm mais razão de ser.

Obrigado, Margaret Thatcher.

O possível fim do sonho chileno…

Bem dizem por aqui que “alegria de pobre dura pouco”. O Chile enfrenta a forte possibilidade de que a Bachelet volte à presidência.

Se isso se concretizar, o que o Chile tem conquistado em termos de liberalização nos últimos anos poderá dar lugar a uma política mais voltada para o resto do “continente”.

Mas essa é apenas a velha história da América Latina…