Greve, combustíveis, escassez e racionamento

Lição para o futuro. Em apenas quatro dias (entre a segunda-feira e quinta-feira antes da festividade da Páscoa) uma greve dos motoristas de matérias perigosas – especialmente combustíveis – lançou o caos em Portugal.

Pessoalmente, como muitos outros condutores, eu nem sequer sabia da greve. Até à manhã de terça-feira, quando se noticiou que aeroportos estavam a ficar sem combustível e que postos de abastecimento poderiam ir pelo mesmo caminho… Nesse dia, a incerteza dos portugueses quanto a potenciais limitações à continuação da mobilidade automóvel levou-os em massa a encher depósitos dos seus automóveis. Que provocou o efeito pretendido pelos grevistas: escassez da disponibilidade de combustível. Como muitos, ao final do dia já não consegui abastecer.

A solução do governo de António Costa foi declarar “crise energética” e estipular serviços mínimos bem como recorrer à requisição civil (suspeito que seria a solução de qualquer outro partido da Assembleia). E, para fazer face à corrida aos combustíveis, alguns postos limitaram os litros que consumidores podiam abastecer.
Mas havia melhor solução para gerir a escassez de combustíveis: preços!!!

Considerem o seguinte cenário: cientes que haveria greve a partir do dia 15 de Abril (sindicato deu pré-aviso a 1 de Abril), postos notificavam consumidores que, caso greve fosse efectivada, os preços iriam aumentar, por exemplo, 25 cêntimos. Em resposta a esse aviso, muitos condutores iriam abastecer nas semanas anteriores à greve a preço “normal” e empresas fornecedoras poderiam encher tanques para responder ao acréscimo de procura. Ainda, na(s) semana(s) de greve – e com preços mais altos – apenas iria abastecer quem realmente tivesse necessidade de o fazer. É que vi exemplos de condutores na fila dos postos a dizerem que tinham ainda metade do depósito mas estavam ali para encher o restante por precaução. Involuntariamente, “ajudaram” a que escassez fosse maior.

Ainda, ao contrário de limites quantitativos ao abastecimento (ex: litros por carro) preço também é melhor forma racionar o consumo. Quando se impõe uma quantidade máxima por consumidor não há forma de saber se 10 litros para determinado condutor são mais valiosos que para outro condutor no fim da fila que, quando chegar a sua vez, poderá não conseguir comprar combustível. Preço obriga a selecção mais justa.

Também, a acrescida margem financeira resultante de mais altos preços dos combustíveis, iria contribuir para pagar prémio aos motoristas que não fizessem greve, ajudando a mitigar consequências da mesma.

Porque postos não optaram por esta solução? Poderia ser por ignorância económica destes sobre o papel dos preços na gestão de escassez. Mas aposto que se trata mais da ignorância dos consumidores que, certamente, não iriam perceber os benefícios elencados acima e ainda iriam acusar aquelas empresas de exploração/especulação. Prova disso é imagem que circulou nas redes sociais de posto em Sintra a vender gasolina €1,809 o litro e que entretanto foi desmascarada pelo jornal Polígrafo (tratava-se do preço normal da gasolina premium).

No entanto, um facto que pareceu escapar aos jornalistas e aos milhares de internautas que partilharam esta imagem: naquele posto havia este tipo de gasolina. Sim! E isso só foi possível porque preço era mais alto. Muitos outros postos podiam ainda ter gasolina e gasóleo disponível se, durante período de greve, tivessem aumentado preços dos combustíveis, obrigando consumidores a gerir melhor os seus consumos.

Lição para o futuro? Gostava que portugueses aprendessem com erros do passado e cenário descrito neste post fosse realidade aquando da próxima “crise energética”. Mas minhas expectativas são baixas.

Recessão de 2019

Mário Centeno anda preocupado com a “desaceleração do crescimento económico”. Com razão! Porque este evento próximo não se vai tratar de uma desaceleração, abrandamento ou qualquer outro eufemismo para menor crescimento. Avizinha-se, para final de 2019/início de 2020, uma recessão (i.e. decrescimento). Possivelmente uma longa depressão, que poderá durar uma década ou mais.

O ministro das Finanças português, presidente do Eurogrupo, “pediu para não se “retratar” a desaceleração económica como “crise”, e solicitou medidas dos governos europeus contra “os riscos””. Tradução: quer tapar o sol com uma peneira…
Peritos da Comissão Europeia, por outro lado, “alertaram para o risco “significativo” de desvio das metas orçamentais e recomendaram prudência na política orçamental, devido à particular vulnerabilidade a choques justificada pelo “elevado rácio da dívida pública”. Um claro alerta aos governantes portugueses.

Portugal faliu em 2011. Só não tivemos de pagar a factura porque o então Governo em funções (Sócrates, Teixeira dos Santos e – não esquecer – António Costa) negociou um resgate financeiro com FMI, União Europeia e Banco Central Europeu (“troika”). Mas se o custo imediato desse resgate foi menor que o da bancarrota, as consequências foram apenas adiadas… e exponencialmente aumentadas. É que hoje a dívida directa do Estado é cerca 61,8% superior à verificada no início de 2011. Se nesse ano foi impossível pagar a dívida sem ajuda externa, imaginem agora.

Depois de Sócrates ter levado o país à bancarrota, eleitores descartaram-no nas eleições de Junho de 2011. Mas nestes quase 8 anos de ajuda externa da troika, os governos de, primeiro, Passos Coelho, e depois, António Costa muito pouco fizeram para preparar o Estado para o próximo impacto económico negativo. E ele está a chegar.

Se eles foram incapazes (ou incompetentes) de tomar as difíceis decisões, que podemos nós agora fazer? Como nos podemos preparar para a próxima crise económica? Quanto mais tempo temos?

Janela Indiscreta

Lendo os comentários ao aqui recomendado post blasfemo intitulado “Subprime II” percebi que ainda existe grande dificuldade em entender a inflação como um fenómeno monetário.

Um facto que deveria ser, para muitos, evidente: a inflação é consequência da emissão de moeda pelos bancos centrais.

Esta é a razão porque no Zimbabwe aquela taxa já ultrapassou cem mil porcento (100.000%) e porque o Banco Central Europeu [BCE] não pode reduzir as suas taxas de referência para “estimular” o crescimento económico sem que tal medida resulte no aumento da taxa de inflação – que já se encontra acima dos 2%, limite definido pelos países-fundadores daquela instituição.

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Janela Indiscreta

A decisão do Estado sobre a localização do novo aeroporto internacional de Lisboa voltou ontem a ser tema do programa da RTP “Prós e Contras”.

Durante mais de três horas discutiram-se as vantagens e desvantagens de construir o aeroporto na margem direita (Ota) ou na margem esquerda do rio Tejo (Alcochete, Montijo, Poceirão, Faias). Já passava das 2h da noite quando o programa concluiu com o quase-consenso quanto à necessidade de estudos comparativos entre as várias opções.

Na blogosfera circulam, aliás, inúmeras alternativas de resolução do previsto esgotamento da capacidade na Portela que equacionam, por exemplo, a manutenção do actual aeroporto.

Estudos técnicos indicam que a Portela esgotará a sua capacidade nos 17 milhões de passageiros/ano. Este é o argumento usado para justificar a construção de novo aeroporto na região de Lisboa. Mas alguém já considerou se mais 8 milhões de passageiros na capital portuguesa (capacidade prevista da Ota: 25 milhões) vale mesmo os 3 mil milhões de euros necessários investir? A indústria hoteleira lisboeta, ansiosa por aumentar as suas taxas de ocupação, diria que sim. Desde que o financiamento seja distribuído por todos os contribuintes…

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Janela Indiscreta

Na área de Marketing, a escolha do nome de determinada marca é considerada como uma estratégia essencial para o seu sucesso. Face a um vasto universo de marcas que concorrem pela atenção do consumidor, um nome facilmente identificável com o produto pode tornar-se numa relevante vantagem competitiva.

Devo, por isso, felicitar os autores do “Ladrões de Bicicletas”. Este é um excelente nome para descrever um blog socialista!

O filme que lhes serviu de inspiração mostra-nos o desespero de Antonio Ricci que, com o seu filho Bruno, procura pela cidade a bicicleta que lhe foi roubada. Ora, numa Itália do pós-guerra marcada pelo desemprego, quem tem bicicleta é “rico”. A pobreza de Antonio é, contudo, evidente. Este meio de transporte foi um difícil investimento, necessário à melhoria de vida da família Ricci.

Perante tal angústia, a maioria de nós desejaria poder ajudar os Ricci. Os socialistas fariam-no através de políticas de redistribuição de riqueza em que o combate às “desigualdades” é mais importante que o conceito de propriedade privada. Para estes, os custos de oportunidade que afectam os proprietários de bicicletas (e quem deles depende) são minimizados ou mesmo ignorados. Porém, no final do filme, Antonio Ricci compreende a imoralidade de tais acções. Os bloggers do “Ladrões de Bicicletas” não foram além do lado emocional da história.

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Janela Indiscreta

Nos dias a seguir ao Natal verificou-se a cada vez mais usual corrida dos portugueses às lojas, a fim de trocarem presentes indesejados.

Por melhor intencionados que sejam os pais, avós, tios, primos, amigos, etc, apenas o presenteado sabe realmente o que se adequa aos seus gostos. A oportunidade de corrigir tais “erros” de decisão é, por isso, bem-vinda.

Ontem também se ficou a conhecer o valor da Dívida do Estado que, no final do mês de Dezembro, superou os 108 mil milhões de euros. Considerando uma taxa de juro de apenas 3%, o Estado terá, este ano, de confiscar aos portugueses 3,24 mil milhões de euros. Só para pagar os juros. Cerca de 324 euros por cada português criança, adulto ou sénior. Feliz ano novo caro contribuinte.

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Janela Indiscreta

Guerra ao desperdício. Poupar recursos. Salvar o planeta. Este é o mantra que apologistas da reciclagem desejam passar à nova geração. E a julgar pelo espaço aqui em casa reservado a papel, vidro e embalagens, os mais jovens não são os únicos a terem sido “convertidos”.

A mensagem é simples: o processo de reciclagem permite a reutilização de materiais que, de outro modo, seriam enviados para aterro com o restante lixo tornando, por sua vez, necessário efectuar nova extracção desses escassos recursos naturais a fim de serem usados no próximo ciclo de produção. Ora, se os recursos são escassos, a reciclagem possibilita o prolongamento da sua vida útil. É – dizem – uma questão de contribuir para o futuro do nosso planeta e, consequentemente, das próximas gerações.

A mensagem é simples mas será que é autêntica?
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