Complexos com a caridade e complexos de superioridade

Daniela Silva em ‘Agora a Caridade é Indigna’, no Estado Sentido:

«(…) segunda coisa é perpetuar a ideia de que recorrer à caridade é sempre humilhante e inibe muita gente. Conforme fica evidente no texto, o autor não se importa que esta dependência se torne uma rotina suportada pelo Estado, por meio de “contribuições” forçadas, meios humanos que não interfiram nem conheçam as particularidades de cada caso, não se chame ninguém a prestar contas (terrível paternalismo), cultivando uma contínua infantilização da sociedade que perde as próprias imunidades perante as normas sociais que tem de enfrentar. Ainda bem que a nossa segurança social e o seu esquema em pirâmide são infalíveis e estão aí para as curvas.»

Vale a pena ler o post completo.

Sobre a cegueira ideológica acerca das escolas com contrato de associação

O ataque às escolas com contrato de associação. Por Alexandre Homem Cristo, no i.

Numa excelente reportagem da TVI, a jornalista Ana Leal alertou para uma série de situações nas escolas com contrato de associação do Grupo GPS. Através da sua investigação, levantaram-se suspeitas de tráfico de influências. Denunciaram-se abusos aos direitos dos professores. Reportaram-se riscos para a segurança dos alunos. Fizeram-se acusações de selecção de alunos e de alteração administrativa das suas notas. E foram sugeridos usos indevidos de verbas obtidas através de financiamento público. Ninguém duvida que são acusações graves. E que se deve proceder a uma investigação profunda. De resto, essa está já a ser feita. Confrontado com as denúncias, no Verão passado, o Ministério solicitou a realização de auditorias. A primeira iniciou-se a 29 de Setembro e está agora a ser concluída. Em circunstâncias normais, o assunto ficava por aqui, aguardando-se pelas conclusões e pelas consequências que daí adviriam. Mas este não é um caso normal.

Num país onde domina o pensamento de matriz socialista, o desprezo pelas escolas com contrato de associação é antigo e doutrinário. Por isso, perante a reportagem de Ana Leal, a esquerda radical congratulou-se. Estava ali, à sua mercê, toda a argumentação que não conseguira nos relatórios sobre o custo por aluno, publicados pelo Tribunal de Contas e pelo Ministério. Bastava agarrar no caso do Grupo GPS, que só tem 13 escolas com contrato de associação, e extrapolar para as dezenas de outras escolas com contrato de associação. Assim foi. Na sua narrativa propagandística, o caso do Grupo GPS transformou-se numa “história exemplar” de como funcionam todas estas escolas. A expressão é de Daniel Oliveira (Expresso online, 5.12.2012), digno representante deste pensamento. Ora, a generalização é, por definição, abusiva: ninguém questiona, por exemplo, a legitimidade de eleições num regime democrático porque, numa aldeia, foi violada uma urna de voto. Pouco importa. O manifesto contra os privados na educação estava lançado.

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Soarices

O governo actual, por muito mau e contestado que seja, foi escolhido democraticamente, segundo as regras de um sistema do qual Mário Soares foi um dos protagonistas fundadores. Com estas declarações, Mário Soares refere o resultado do funcionamento normal desse sistema como sendo pior do que o produto do regime que o mesmo se gaba de ter ajudado a derrubar. Confusos? Perdoem o ‘pai da democracia’ porque ele também está.

O dinheiro dos outros é fixe, a liberdade que se lixe

A mudança de Depardieu para a Bélgica – a somar à de outros como Bernard Arnault – devia ter como consequência um enorme corar de vergonha nas faces dos que aplaudiram a medida de Hollande e a consequente assunção da estupidez da ideia. Em vez disso, os mestres do confisco não tardaram a fazer-se ouvir na sua vigorosa luta pela velha ideia de uma harmonização fiscal, que é como quem diz, a legalização do roubo generalizado por todo o espaço europeu. Nada de novo. Continua a existir muita alminha virtuosa cheia de boas ideias para encher a pança do estado social à custa do dinheiro dos outros e os egoístas fascizóides que se acham com liberdade para fugir com o seu dinheiro de quem os faz contribuir para o bem comum rouba descaradamente.

O ‘jornalismo’ vigente

O Público é, cada vez mais, um retrato do país. E não apenas porque a recorrente contestação dos seus trabalhadores aos cortes anunciados para responder aos constantes prejuízos do jornal faça lembrar a indignação que nasce perante cada ameaça de cortar em certas funções do estado por causa da sua crescente falta de dinheiro para as pagar.

A semelhança chega à ignorância (ou será má fé?) com que se usam certos conceitos na discussão política. Ontem, nesta entrevista do presidente da CP, o jornalista do Público refere a determinada altura, com uma certeza heróica digna de um Louçã, um certo ‘paradigma neoliberal vigente’. Como jornalista que é, o entrevistador devia ter mais gosto por se informar convenientemente. Se o fizesse, perceberia que o paradigma vigente é o mesmo que permite que o estado torre mais de metade da riqueza produzida no país, ao mesmo tempo que emagrece os portugueses com uma carga fiscal cuja dimensão apenas se justifica pela necessidade de não obrigar o estado a deixar de engordar. E não é preciso ter uma licenciatura em Ciência Política para saber que isso não é liberalismo, seja com que prefixo for. É socialismo, o mesmo que nos arruinou. Num país em que há quem pense que  se conseguem baixar impostos sem reduzir o peso do estado, não é de todo surpreendente que a adesão à moda de atirar culpas ao ‘neoliberalismo’ pelos erros do socialismo seja tão popular. Mas é preocupante vê-la de forma tão despudorada e ignorante nas páginas de um jornal que já foi uma referência.

É por estas e por outras que, em breve, o Público não servirá sequer para papel de embrulho.

Caixa de Pandora

Começa assim o meu artigo de hoje no Diário Económico:

Qualquer Orçamento que aperte ainda mais o nó em volta do pescoço dos portugueses, aumentando a sua asfixia fiscal, ao mesmo tempo que não se atreve a tocar nas despesas do Estado de modo a reduzi-las de forma significativa, é um mau Orçamento.

Se acho que o Orçamento do Estado para 2013 se encaixa no género? Sem dúvida. Se fico, portanto, contente perante a perspectiva de ele ser chumbado pelo Tribunal Constitucional? Nem por isso.

Ler o artigo completo aqui.

A Lei

O meu artigo publicado hoje no Diário Económico.

Há uma série de argumentos emanados do bom-senso que aconselham uma reconfiguração do papel do Estado. Como a evidência do seu tamanho exagerado não bastou durante anos, a factura que agora chega aos portugueses não pode fazer outra recomendação que não seja mudar de vida. Mas se, por um lado, deixamos de poder viver com o estado a que nos habituamos porque já não temos quem financie a festa, por outro não podemos dar corpo ao estado com que teremos de viver porque a Constituição não deixa. Frédéric Bastiat, na sua obra ‘A Lei’, disse que “se se tenta fazer a lei religiosa, fraternal, igualitária, filantrópica, industrial, literária, artística, logo se atingirá o infinito, o desconhecido, a utopia imposta ou, o que é pior, uma infinidade de utopias, que lutam para apoderar-se da lei com o objetivo de a impor.” Este é o verdadeiro legado que os deputados da Constituinte deixaram às gerações que se lhes seguiram: a lei fundamental do país mete o bedelho em todas as áreas da sociedade, indicando uns caminhos e vedando outros, impondo-nos uma direcção que apenas nos conduzirá ao precipício. Com isso, a mesma Constituição que não preveniu que sucessivos governos empenhassem a credibilidade do país e o futuro dos cidadãos – quando a sua primeira função deveria ser, precisamente, proteger os indivíduos contra os abusos do estado – blindou uma série de ‘direitos’ que se pensava serem eternamente sustentáveis, e bloqueia, ainda hoje, qualquer reforma verdadeiramente estrutural. Numa altura em que os portugueses se afogam em impostos, torna-se urgente questionar a imposição constitucional de não mexer a sério no grosso da despesa do estado (despesas com saúde, educação e segurança social; encargos com salários e prestações sociais) e de não despedir os funcionários públicos que estão a mais (segundo a generalidade dos estudos são pelo menos 100 mil). Entalados entre a impossibilidade de manter o estado que temos e a obrigação de seguir os ditames anacrónicos da Constituição, falar em revisão constitucional soa a eufemismo. Mudar de Constituição é o caminho.

A propósito do vídeo mais foleiro do momento

Nunca se viu tanto iluminado da esquerda radical a defender com tamanho vigor um produto da cabeça iluminada do Marcelo. A crise também é uma oportunidade para os iluminados de diferentes sensibilidades descobrirem as suas semelhanças. Ou para descobrirem que, afinal de contas, nunca foram assim tão diferentes.

Choldra ignóbil

Aquilo que a Isabel Jonet disse não tem nada de errado ou desadequado com os dias que correm. Qualquer pessoa sensata perceberá isso. O mesmo não se passa com os arautos da democracia que veneram quem tem opiniões iguais às suas e condenam à fogueira quem ousa ter opiniões diferentes. Mas descontando o facto de tais acéfalos não entenderem as declarações de Isabel Jonet ou sequer considerarem a sua capacidade para as dizer (há limitações próprias de quem vê o mundo com tamanho dogmatismo e toldado por ideologias totalitárias), o que acho realmente ignóbil é a crítica animal a uma pessoa que tem passado a vida a ajudar quem precisa. Goste-se ou não dela. Goste-se ou não da maneira como ela o faz. Ao contrário de muitos, Isabel Jonet não se limita a vociferar de mão estendida para o estado, reclamando este mundo e o outro: mete mãos à obra e vai ao terreno, que provavelmente conhece melhor do que os activistas politicamente correctos que a criticam.

Triste país este em que quem ousa fazer bem aos outros fora dos espartilhos dos complexos de dependência do estado e do politicamente correcto vigentes está sujeito a uma apreciação tão abjecta desta choldra ignóbil.