Inteligentinhos

Ainda o debate (interminável!) sobre a (interminável!) criminalidade no Brasil… ou, direitos humanos para os humanos direitos.

“Dirão os inteligentinhos que a causa da criminalidade é social. Hoje em dia, “causa social” serve para tudo, como um dia foram os astros e noutro a vontade dos deuses.”  (Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo)

Adeus, Margaret Thatcher!

Foi-se a Margaret Thatcher. Foram pessoas como ela que construíram o mundo no qual vivemos hoje. Não consigo deixar de observar que, ano após ano, a Guerra Fria fica cada vez mais distante… e não consigo compreender por que há tantas regiões do mundo que vão na direção contrária e ainda aferram-se a ideologias que não têm mais razão de ser.

Obrigado, Margaret Thatcher.

O possível fim do sonho chileno…

Bem dizem por aqui que “alegria de pobre dura pouco”. O Chile enfrenta a forte possibilidade de que a Bachelet volte à presidência.

Se isso se concretizar, o que o Chile tem conquistado em termos de liberalização nos últimos anos poderá dar lugar a uma política mais voltada para o resto do “continente”.

Mas essa é apenas a velha história da América Latina…

 

Lógica + Evidências

Eu peço desculpas por não ter dado continuidade à conversa, pois passei por uns problemas pessoais nos últimos dias (perdi um gatinho muito querido – sim, isso é MUITO importante para mim, mesmo que para muita gente possa parecer ridículo – e depois fui para o interior do estado, onde a internet é péssima). Mas li o texto do Lourenço Vales e gostei muito. Na verdade, considero que temos mais concordâncias do que discordâncias, mesmo que isso não seja aparente à primeira vista.

Na verdade, minha ideia é bastante simples: não se trata de uma área ser mais ou menos científica do que outra. Ou de uma ciência ser melhor ou pior do que outra. Já pensei assim, mas abandonei esse pensamento. O que vejo agora são pessoas com posturas mais ou menos científicas, dentro de uma visão bastante simples e até ingênua do que é ciência. Não estou pensando em grandes considerações epistemológicas ou metodológicas (sim, elas são importantes, e é por isso que a discussão vale a pena). Estou pensando apenas no mínimo do mínimo: lógica e evidências. Quando estou diante de um fenômeno que desejo entender melhor, tento formular uma explicação que seja logicamente consistente. Isso, para mim, é básico: se posso derivar contradições da minha proposta teórica, então é porque ela fica melhor no cesto de lixo. Mas somente isso não basta. Preciso ter a conexão com o mundo real, e aí entra o papel as evidências. Creio que meus dois grandes “inspiradores” nisso tudo são o Bruce Bueno de Mesquita, um cientista político que admiro por sua produção acadêmica, e o Richard Dawkins, acerca de quem costumo brincar dizendo que é meu “guru espiritual”. Concordo com Dawkins sobre o significado de “teoria”: precisa fazer sentido, mas sem evidências não é suficiente. E o Bruce diz mais ou menos a mesma coisa. Deixo aqui um link para um texto dele que esclarece melhor esse posicionamento.

Em grande parte, minha posição também é influenciada pela minha formação original na Matemática. Como matemático, estou ciente de que é possível criar universos maravilhosos e estudar objetos abstratos que têm propriedades incríveis… e tudo isso dentro de uma lógica precisa e rigorosa, claro. Só que sem nenhum compromisso com o mundo real. É por isso que não considero a Matemática como uma ciência; é por isso que não considero que algo seja “pior” ou “menos importante” só por não ser uma ciência. E é também por isso que insisto tanto na necessidade de termos “lógica + evidências”. Fora disso, podemos discutir falsificabilidade, Lakatos, Quine, Laudan, Feyerabend, as sonatas de Beethoven e assim ad infinitum… E milhões de questões aparecerão, e sem dúvida poderemos enriquecer nosso conhecimento acerca do que significa praticar uma área humana/social, como a Economia ou a Política. Posso abrir mão até da predictibilidade (apesar da minha área de concentração ser a teoria dos jogos e jogos evolutivos na política internacional). Mas não abro mão de querer *aprender* mais a respeito de como o mundo funciona. Sempre ciente, é claro, de que alcançarei um conhecimento sempre incompleto e aprimorável, e jamais verdades absolutas e definitivas. Se eu quisesse respostas fechadas e definitivas para os questionamentos que me motivam, não procuraria por elas na ciência. Há outros livros e lugares que oferecem respostas prontas para as questões mais profundas que a mente humana é capaz de produzir, e muitas vezes ao custo de apenas uma “módica” contribuição mensal… e de uma boa dose de uma certa característica espiritual que, (talvez) infelizmente, creio já ter perdido há muito tempo.

É por isso que me aferro tanto à necessidade de trabalhar sempre com lógica e evidências. Caso contrário, não teríamos muito mais o que fazer além de formular opiniões… e opiniões sustentadas no quê? No mero “direito de opinar”? Achar por achar? Desculpem, mas considero-me no direito de simplesmente não levar “achismos” em consideração. Ou talvez em princípios considerados auto-evidentes, que têm a sua origem em uma cosmologia medieval ou renascentista e que, ao contrário da ciência moderna, não acompanharam o que temos aprendido sobre o mundo desde então? Isso, infelizmente, envolveria a tal da característica espiritual que mencionei no parágrafo acima.

Enfim, essas são as minhas preocupações. Mas estou aqui para participar e para aprender com todos vocês. E agradeço muito pela oportunidade de estar aqui, convivendo e trocando ideias. Mesmo que eu possa estar errado em muitas coisas, e possivelmente estou mesmo, isso não é o mais importante. Não tenho medo de errar, tenho medo é de não atentar para os possíveis erros e, assim, não ter a oportunidade de poder reconhecê-los enquanto tais e rever meus conceitos quando necessário.

A Matemática e a Economia Austríaca

Normatividade e positividade encontram-se em oposição? Quando William H. Riker propôs uma ciência política positiva, ele realmente desejava que fosse totalmente objetiva e isenta de normatividade? Creio que o problema está com o termo “normativo”. Uma coisa é ser normativo no sentido de formular propostas de como as coisas “deveriam ser”. Isso é o que normalmente entende-se por normatividade. Outra coisa *bem distinta* é quando a normatividade nos diz o que devemos fazer SE desejamos atingir um certo objetivo E estamos dotados de uma certa quantidade de informações. É nesse segundo caso que se encontra a Teoria da Escolha Racional, uma teoria que é, por sinal, normativa – e que fornece a base para a ciência política positiva de Riker.

A normatividade, portanto, não implica em prescritividade. Além disso, mesmo que a objetividade absoluta seja impossível, mesmo que fatores “culturais”, “sociais” ou “intersubjetivos” (seja lá o que forem esses conceitos vagos e imprecisos, deixo esse debate para os parisienses e simpatizantes) participem da definição de temas e de agendas de investigação, eles não interferem conscientemente (ou, pelo menos, não deveriam interferir) nas atividades de pesquisa científica.

Quando os adeptos de uma corrente teórica afirmam-se contrários à “pretensão científica”, ou declaram orgulhosamente que“pessoas não são números”, ou rejeitam a importância de darem a cara aos tapas da falseabilidade, isso de início já mostra uma incompreensão básica do próprio conceito de modelo científico. Ou talvez seja porque ainda estão aferrados a um entendimento do que foi a ciência no século XIX.

“Ah, mas a Matemática é apriorística”. Sim. Concordo. Mas a Matemática *não é uma ciência* e nem pretende dizer, *por si só*, algo sobre o mundo. O único compromisso da Matemática é para com a coerência e consistência lógica de seus resultados. Matemáticos “puros”, por assim dizer, não se importam com a realidade. Logo, o teste experimental, a observação cuidadosa, a análise de hard cases… tudo isso não faz muito sentido para um matemático puro, pois o que importa é que os resultados digam algo acerca do mundo da matemática – e, ao seu lado, o mundo real não passa de uma grosseira caricatura.

Pode-se APLICAR a Matemática, ou partes dela, para tentar entender como a natureza ou a sociedade funcionam. É nesse caso – e somente nesse caso – que pode-se afirmar que a “Matemática é uma linguagem”. Mas a Matemática, em si, com todos os seus “apriorismos”, tem seu fim em si mesma. Portanto, ela *não é* uma linguagem, mesmo que possa ser instrumentalizada dessa maneira. Aí está a beleza da coisa (G. H. Hardy concordaria com isso, acredito). Tentar transferir de forma exata o apriorismo da matemática para o mundo real é incorrer na mesma ingenuidade dos velhos racionalistas continentais.

Quando a Matemática é *instrumentalizada como linguagem* para tentamos aprender algo sobre o mundo real, torna-se Matemática Aplicada: uma maneira poderosa de descrever processos e deduzir POSSÍVEIS resultados. Sim, essa é a tão famigerada “capacidade preditiva”: a dedução de estados do mundo a partir de como o mundo se nos apresenta hoje. Porém os resultados são sempre *possíveis* e não *certos*. Se alguém quer previsões que sejam absolutamente certas, recomendo que recorra a uma cartomante, e não a um matemático.

Áreas científicas (não a Matemática, que não é uma ciência) querem poder dizer algo a respeito do mundo real. Podem utilizar a Matemática (aí sim como linguagem), porque ela proporciona maior precisão a respeito do que é dito. Confiar nas linguagens naturais, além de inserir a indesejável imprecisão (que prejudica a objetividade científica), também abre as portas tanto para interpretações ideológicas perniciosas (que transformam o normativo em prescritivo), quanto para manipulações convenientes através da utilização hábil das ambiguidades naturais da linguagem corrente. A Matemática, então, *pode* servir à ciência, mesmo que isso não seja a sua principal função.

Uma teoria, para ser científica, não pode ser apenas um “palpite” acerca de como a realidade funciona. Tem que fazer sentido e ser logicamente consistente (é aí que a Matemática ajuda). Mas só isso não basta: ela tem que dizer algo acerca da realidade (e é aí que a Matemática, por si só, não ajuda). Lógica e evidências, portanto, formam os dois pilares sem qualquer um dos quais não conseguimos construir um edifício teórico. Somente a lógica, sem as evidências, leva à produção de pseudo-teorias que costumam ter muito mais valor apelativo do que científico. Somente evidências, sem sua organização em um arcabouço lógico, permite defender praticamente qualquer ideia ou ponto de vista.

A Estatística – que NÃO É, repito, NÃO É a mesma coisa que a Matemática, é uma coadjuvante nesse segundo pilar – o das evidências. Porque evidências têm que ser analisadas, catalogadas, avaliadas quanto a desvios do esperado, cuidadosamente mensuradas e assim por diante. Muitos pensam que, na Economia e na Política, todo o trabalho se resume a isso. Na verdade, essa é apenas uma parte. Incompleta e insatisfatória. É por isso que concordo com todas as críticas dos austríacos aos economistas que não fazem mais do que econometria e aplicação de métodos estatísticos. Contudo, dizer que isso é a mesma coisa que “Matemática”, é um problema conceitual. “Ah, mas a Estatística mexe com números e, por isso, pertence à Matemática”. Bom, a numerologia também mexe com números…

Admiro a Escola Austríaca de Economia. Ao longo das décadas, seus representantes têm nos agraciado com belíssimos insights para entender o funcionamento dos processos econômicos e sociais. No fundo, sua beleza reside na simplicidade… e a sua maior genialidade consiste em enxergar o óbvio que, por estar diante dos narizes de todos, passa despercebido.

Mas a Escola Austríaca *explica* alguma coisa? Precisamos de teorias científicas (lógica + evidências) para explicar fenômenos. E evidências não são apenas aspectos das realidade aos quais apontamos e exclamamos: “Olha, Zezinho, isso é uma evidência”. Evidências precisam ser adequadamente tratadas e lapidadas. São como diamantes brutos. Ao rejeitar não só a Matemática, mas também a sua prima de segundo grau, a Estatística, abre-se mão da capacidade de produzir explicações. Ao invés disso, o que se obtém são opiniões muito bem embasadas, em pressupostos não científicos, mas filosóficos e psicológicos, de como o mundo econômico “deveria” funcionar. Lamento, mas não se pode *confiar* em uma pretensa explicação apenas porque está de acordo com as ideias de um ou dois filósofos que morreram há três ou quatro séculos.

E quanto à capacidade de fazer previsões? Muitos consideram isso algo indesejável, por sua capacidade de orientar alguns governantes a utilizarem as previsões a seu favor e à realização de suas agendas malignas. É o medo do “Minority Report”.

Explicar o que já aconteceu é muito cômodo. Sem a qualidade preditiva, a ciência perde grande parte do seu valor. Mas predizer é adivinhar o futuro? Não. Predizer é orientar para onde se espera que o mundo caminhe *dado o que* sabemos hoje e levando em consideração tanto riscos (estimáveis) quanto incertezas (a respeito das quais quase nada podemos dizer). Se as previsões são utilizadas para fazer policy, o problema não é com as previsões: é com os policymakers e, o que é ainda mais grave, com os que elegem esses policymakers para seus cargos.

Ao rejeitar tanto a Matemática quanto a Estatística, a Escola Austríaca não consegue fazer previsões sobre o mundo real. Consegue, no máximo, produzir análises sobre o que já a aconteceu. Quanto ao futuro, ela consegue proporcionar excelentes intuições. Elas são acertadas, em grande parte das vezes, mas ainda assim não são fundamentadas em lógica E evidências, mas apenas em uma certa lógica e em evidências que não são tratadas como evidências, mas sim como exemplos que podem ou não estar de acordo com um certo conjunto de valores e princípios fundamentais. E isso implica em incorrer em um perigoso viés quando se trata de pesquisa científica.

É possível aprender MUITO a partir dos resultados e reflexões da Escola Austríaca. Ela está mais próxima do que a Matemática (como ideal) do que da Estatística. Digo Matemática como *ideal*, porque o apriorismo me faz lembrar daqueles velhos racionalistas continentais…

Precisamos desenvolver mais a Escola Austríaca e dar mais espaço às suas reflexões. Afinal de contas, seus insights acerca de como a economia funciona são fantásticos, e suas intuições sobre o futuro não devem ser desprezadas. Só devemos ter o cuidado de não abandonar a razão científica, a preocupação a um só tempo com a lógica e com as evidências. Temos diante de nós a escolha: podemos jogar mais tempo fora discutindo contra opositores ideologicamente orientados (e, nesse caso, não seremos muito diferentes deles), ou podemos utilizar nosso tempo para produzir resultados logicamente consistentes e empiricamente verificáveis, e assim *realmente* termos algo a dizer sobre o mundo.

Aviso aos navegantes

Atenção! A morte de Chávez *não é*, repito, *não é* um indício de que a América Latina possa estar se tornando um pouco menos terceiro-mundista. Por aqui, ouvem-se comentários que fazem questionar se realmente estamos no século XXI ou se alguma dobra no espaço-tempo mantém este continente estacionado na década de 1960…

Brincando de prefeito

Por aqui, é sempre a mesma coisa. Quando alguém ocupa o cargo de síndico do condomínio, começa logo a fazer várias obras: pintar a fachada, remodelar os canteiros, refazer o piso e assim por diante. Depois, quando muda o síndico, começa tudo outra vez.

O mesmo acontece com diretores de departamentos e instituições acadêmicas, que veem nas obras um meio de “mostrar serviço”.

Em praticamente todas as esferas, nota-se que a preocupação é muito mais com o visual do que com a qualidade. Assim, podem encher o peito de ar e dizer: “na minha *gestão*, remodelei os banheiros e coloquei sinteco em todas as dependências”.

Enfim, é uma cultura que admira tanto a administração pública que todos querem brincar de prefeito. Empreendedorismo, que é bom, necas. Para que gerar valor quando se pode brincar de “administrar” o dinheiro dos outros?

Aliás, por aqui, até os prefeitos brincam de prefeito…

Apenas uma sugestão

Diante da patética performance que o Brasil vem demonstrando nos últimos tempos, em referência às posições (neo)desenvolvimentistas que proliferam por aqui e relembrando o velho chavão de que o Brasil é o “país do futuro”, sugiro que, doravante, PIB passe a significar “possibilidade interna bruta” ao invés de “produto interno bruto”.

Ainda a blogueira cubana..

… que agora enfrenta dificuldades para entrar na Argentina.

Será que foi somente a América Latina que ficou de fora do século XXI?

Falta razão e sobra paixão (pathos). Afinal, é deveras patológico o comportamento de atribuir a culpa aos outros pelos próprios erros e pelo consequente subdesenvolvimento.

Quando Graham Greene descreveu o típico escritor latino-americano em “O Cônsul Honorário”, acertou na mosca. Por estas latitudes, ainda vive-se no reino da metáfora rebuscada…